Mesa apresenta projetos que concretizam um "outro mundo possível"

Não é só “se a gente quiser”, é preciso criatividade e muito trabalho, mas dá para concretizar, em pequenas ações, o lema que há 15 aos embala o Fórum Social Mundial – “um outro mundo é possível”.
Algumas iniciativas que modificam o status quo e a forma como pessoas se relacionam entre si foram apresentadas nesta quinta-feira (21), na mesa “Alternativas Emergentes”, promovida pela Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) – uma delas era o Jornal JÁ, que é o primeiro jornal do Rio Grande do Sul a financiar um projeto exclusivamente através de doações de leitores.
A ideia era reunir sob uma mesma pauta ações de diferentes naturezas, mas que tenham nascido, sobretudo, da organização coletiva e independente.
Além da jornalista Naira Hofmeister, que representou o JÁ, compuseram a mesa Roberto Abreu, representando a Agência Livre para Informação Cidadania e Educação (Alice) e Juliano Forster, criador do coletivo Paralelo Vivo.
O desafio de integrar diferentes movimentos e interesses da sociedade civil foi o grande mote da discussão. A fragmentação é uma das principais dificuldades enfrentadas por quem propõe iniciativas alternativas como estas.
“O leitor tem que se sentir dono daquele espaço de comunicação”
A jornalista Naira Hofmeister fez um apanhado dos 30 anos de história do Jornal JÁ, desde sua criação por um grupo de intelectuais no período da abertura política pós-ditadura, a transição para um jornal de jornalistas e outras etapas da história do veículo, que desenvolveu diversas iniciativas consideradas alternativas – jornal de bairro, editora de livros reportagem, publicações especializadas, resgate da memória.
A mais recente delas, dirigida pela jornalista, foi a campanha de financiamento coletivo de uma série de reportagens que aprofundam o tema da revitalização do Cais Mauá, que tem motivado discussões sobre o que a cidade pretende para o local que é seu maior símbolo. O projeto inédito na imprensa gaúcha, arrecadou R$ 10 mil somente de pessoas físicas.
“Tem um componente de parceria entre jornalistas e leitores que tem se ampliar cada vez mais. O leitor tem que se sentir dono daquele espaço de comunicação”, defendeu.
O Dossiê Cais Mauá, financiado pelos leitores e com participação destes inclusive na construção da pauta, é um exemplo de financiamento alternativo para o trabalho jornalístico. Naira defendeu que a iniciativa é importante pois “empodera o leitor e consequentemente empodera o jornalista, porque ele se sente autorizado.”
E acrescentou: “Se os jornais forem financiados exclusivamente pelas grandes empresas, pautas como meio ambiente e questões urbanísticas não terão um acompanhamento permanente, porque isto não é do interesses dos anunciantes.”
“Queremos estimular a criação de outras 100 zonas como esta até 2020”

Juliano Forster representa o Paralelo Vivo, que integra 20 empresas de criação e sustentabilidade
Juliano Forster representa o Paralelo Vivo, que integra 20 empresas de criação e sustentabilidade

Juliano Forster buscou dar uma ideia do que é e de como funciona o Paralelo Vivo, tarefa não muito fácil, devido à complexidade dos processos e das relações internas do espaço. Conceitualmente, o Paralelo é um hub, ou então, “uma junção de iniciativas” empresariais, todas vinculadas com a sustentabilidade e o meio ambiente, como explica Forster.
A origem do coletivo foi casual: sua empresa, a Hidrocicle, que projeta sistemas de uso e tratamento da água, precisava reduzir custos e decidiu dividir o galpão que ocupava, no bairro Floresta, com outros empreendimentos.
O resultado, entretanto, foi além e criou uma rede de projetos colaborativos e uma catapulta para bons negócios com foco ambiental. Hoje, o espaço se constitui em uma zona de criação e sustentabilidade, abrigando 20 empresas, onde trabalham cerca de 50 pessoas ao todo.
Além de repartirem o aluguel e as despesas, eles dividem experiências, informações, contatos e até mesmo clientes.
Uma destas empresas é a Horteria, que desenvolve soluções para a criação de hortas urbanas. São ideias como o cultivo vertical de hortaliças, ideal para quem mora em apartamento e tem pouco espaço.
Outra iniciativa que integra a zona é a Cesta Feira, que funciona como um sistema de compra de produtos orgânicos com entrega a domicílio. Os produtos são comprados diretamente de agricultores familiares e entregues semanalmente na casa dos clientes.
Entre as metas de médio prazo, estimular a criação de outras cem zonas semelhantes ao redor do mundo até 2020. O projeto mais ambicioso é tornar o Rio Grande do Sul o local mais inovador e sustentável da América Latina até 2030.
“No Boca, são os moradores de rua que fazem a pauta e criam as regras”
Assim como o Fórum Social Mundial, o jornal Boca de Rua também está completando 15 anos. A edição pioneira foi feita em 2001 e circulou no primeiro FSM. O Boca é o projeto mais antigo da Alice (Agência Livre para Informação Cidadania e Educação). Além de dar visibilidade à população de rua, o jornal possibilita geração de renda, através da venda de exemplares.
Abreu disse que o projeto nasceu de uma conversa com um grupo de moradores de rua que ficavam na praça Dom Sebastião, em frente ao Colégio Rosário. Nesse diálogo, os moradores disseram que sentiam a necessidade de contar sua histórias: se sentiam invisíveis.
No Boca de Rua, os moradores de rua fazem a pauta e criam as regras. Uma das definições do veículo é não ter anúncios. “Comprometeria completamente a linha editorial e a própria ideia do projeto.”
Abreu citou um caso, de uma matéria que tratava de um incêndio na Vila Liberdade, em 2013. O jornal foi procurado por uma grande empresa do ramo da construção civil: queriam bancar a edição. A equipe se reuniu e decidiu não aceitar a oferta da construtora.
A luta do jornal agora é por uma sede que possa comportar as reuniões de pauta, que já tiveram como local a sede do Gapa (Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS), a Casa de Cultura Mário Quintana e recentemente se abrigaram no Museu da Comunicação Hipólito José da Costa – depois de passarem um bom período ocorrendo sob a sombra das árvores na Redenção.

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