
A cartilha defende a impossibilidade da plantação florestal sem uma análise dos impactos ambientais
(Foto: Tatiana Feldens/JÁ)
Tatiana Feldens
Direcionando duras críticas à mídia e as três grandes empresas do ramo papeleiro instaladas no Rio Grande do Sul – Aracruz Celulose, Votorantin e Stora Enso –, o deputado estadual Frei Sérgio Antonio Görgen (PT) lançou nesta segunda-feira, 12 de junho, a cartilha explicativa “O latifúndio dos Eucaliptos”, de autoria da Via Campesina.
O objetivo, como informou o parlamentar, é “apresentar à sociedade informações normalmente sonegadas ao público sobre os impactos social, ambiental e econômico das monoculturas de árvores e das indústrias de papel no país e no Estado”.
O evento, realizado na Comissão de Economia da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, reuniu integrantes de movimentos sociais e sindicatos contrários ao chamado “deserto verde” nos pampas gaúchos.
Claudia Prates, representante da Marcha Mundial das Mulheres, disse que a cartilha vem completar uma série de ações que a Via Campesina vem desenvolvendo desde março contra os desertos verdes no Estado.
Ela manifesta repúdio ao tratamento dado pela grande imprensa que “criminalizou a ação orquestrada pelas mulheres campesinas em defesa da vida e do meio ambiente em março passado”. Na avaliação de Claudia, a cobertura feita pelos meios de comunicação desfez a luta de pelo menos 2 mil mulheres que participaram do ato ao Horto Florestal da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro.
Integrante do Movimento Sem Terra, Cristiane Campos endossa o fato de a mídia não ter evidenciado os reais motivos da ação. “Do jeito que foi publicado, parecia que as mulheres não tinham mais o que fazer além de depredar o Horto Florestal”. Segundo ela, a ação foi uma medida que contribui para despertar o debate sobre essas plantações. “Não é só a população do campo que perde, que fica sem terra e sem recursos naturais. O meio urbano perde muito também”, acredita.
O movimento dos desempregados também manifesta solidariedade à ação e afirma que irá participar “da luta contra todas essas transnacionais instaladas no Rio Grande do Sul”. Dados do Movimento dos Trabalhadores sem Trabalho (MTT), apontam que a cada 185 hectares de árvores plantadas, apenas um emprego é gerado para os trabalhadores. Quando comparado à agricultura familiar, essa quantidade aumenta significativamente, pois “a relação é de um para um, ou seja, a cada um hectare plantado, um novo emprego é gerado”.
O Movimento Negro e a Pastoral da Juventude Rural também estiveram presente no lançamento. De acordo com eles, a cartilha será uma ferramenta de formação e conhecimento aos povos camponeses, que muitas vezes se acomodam e deixam de buscar outras informações além do que é veiculado pela mídia.
Estudos técnicos
Segundo o deputado petista Frei Sérgio Görgen, a cartilha foi elaborada com base em relatórios técnicos variados. “Foram consultadas inúmeras teses universitárias de mestrado e doutorado”. Não foi possível encontrar, entretanto, livro publicado em português sobre o assunto, “porque não se quer uma informação de qualidade”, avalia.
Nestes estudos analisados, fica claro a impossibilidade de se fazer maciça plantação florestal sem uma análise profunda dos impactos ambientais, principalmente sem estudos hidrológicos que possibilitem saber qual a disponibilidade de água que realmente existe nas regiões plantadas.
“Nós tivemos o cuidado de não demonizar o eucalipto e nem o plantio de florestas comerciais. Queremos apenas deixar claro que sem o zoneamento agro-florestal e ecológico, essas árvores não podiam ser plantadas”.
Görgen afirma que as informações sobre o passivo das monoculturas não chegam ao grande público, mas diz confiar na sociedade gaúcha, que “ainda irá reconhecer o manifesto e agradecer as mulheres campesinas por terem alertado do grave dano ambiental que o Estado está prestes a perpetrar contra si mesmo”.
No momento, segundo ele, “a principal alternativa contra essas plantações é fazer um zoneamento agro-ecológico e florestal para podermos ver o que de fato o nosso sistema suporta no plantio comercial de árvores”. Outra alternativa é pensar em sistemas agro-florestais que preservem o ambiente.
“Podemos plantar eucaliptos, acácias, mas devemos pensar em outras árvores do nosso sistema, da nossa biodiversidade, que com um pouco de pesquisa agro-florestal, nós poderíamos também utilizá-las para o plantio comercial”. De acordo com ele, não pode ser permitido que essas empresas se transformem em grande latifundiárias.
“Não podemos aceitar essa enorme concentração de terras nas mãos de apenas três empresas. Hoje são 350 mil hectares, mas até 2017 a previsão é 1 milhão de hectares. Diante disso, precisamos romper esse bloqueio do grande capital que não permite julgar os problemas ambientais decorrentes dessas plantações”, pondera.
Distribuição
Em breve, o livro poderá ser acessado na internet. “Por enquanto estará sendo distribuído aos movimentos sociais, escolas, promotores de justiça, comunicadores do interior e todos aqueles que quiserem ter uma informação real, fidedigna e alternativa àquela que é a propaganda oficial das empresas”, informa Frei Görgen.
A cartilha poderá ser comprada pela quantia de R$ 1 em bancas do Movimento na cidade: uma delas localizada dentro do Mercado Público, outra na avenida Farrapos 88. Nas sedes da Via Campesina também poderá ser encontrado o material.
Perguntado sobre o porquê de a cartilha não ter sido lançada antes da ação contra a Aracruz Celulose, foi enfático. “Por que não imaginávamos que a desinformação fosse tão brutal. Imaginávamos que minimamente as escolas e a imprensa falassem disso”.
Ele cita um livro de sua autoria sobre os novos desafios da agricultura camponesa no Brasil, em que fez um alerta sobre as monoculturas de árvores. “Nós também divulgamos aqui no RS um vídeo chamado ‘Deserto Verde’. Fizemos vários debates no interior do Estado, só que o tema não estava na ordem do dia. A diferença é que agora está, por isso o lançamento da cartilha”.
Horto Florestal
Frei Sérgio Görgen ainda falou sobre a invasão ao Horto Florestal Barba Negra, em março passado. De acordo com ele, era preciso chamar a atenção da sociedade gaúcha ao grave dano ambiental que está prestes a ser perpetrado por estas empresas, assim como a constituição de um novo latifúndio no Estado, já com 350 mil hectares de terras sob o poder da Aracruz, da Votorantin e da Stora Enso. “Por isso o ato das mulheres é perfeitamente defensável”.
Görgen reiterou, por diversas vezes, que não existe laboratório de genética em Barra do Ribeiro. “Trata-se de uma grande mentira que surgiu ao redor da ocupação das mulheres e que serviu para criminalizá-las injustamente. Esse trabalho de 20 anos que a mídia propagou não estava em Barra do Ribeiro. Está no laboratório de genética da empresa em Aracruz, no Espírito Santo. Aqui era apenas o centro de reprodução de mudas”, justifica ele.
Ele finaliza afirmando que as ações contra o “deserto verde” no Brasil irão se multiplicar. “A Aracruz foi apenas um símbolo, representado pela Stora Enso e a Votorantin”. Essas três empresas, segundo Görgen, são muito diferentes daquelas que trabalham com a plantação de Acácia, por exemplo, “com as quais nós temos um bom diálogo”.

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