A restauração do Viaduto Otávio Rocha representa uma tentativa de reconectar Porto Alegre com parte de sua própria dignidade arquitetônica e cultural.
Por Cristiano Goldschmidt
Há cidades que parecem carregar sua própria consciência nos edifícios e nos monumentos que atravessam gerações. Em Porto Alegre, poucos espaços simbolizam tão profundamente essa dimensão histórica quanto o Viaduto Otávio Rocha, conhecido popularmente como Viaduto da Borges. Inaugurado em 1932, ele não é apenas uma estrutura urbana destinada à circulação de automóveis e pedestres. É um testemunho material da modernização da capital gaúcha, um marco arquitetônico que atravessou transformações políticas, sociais e culturais do Rio Grande do Sul e do Brasil ao longo de quase um século. Por isso, o fato de o viaduto já ter sido alvo de pichações pouco tempo após um extenso processo de restauração provoca uma reflexão que vai muito além da superfície do concreto manchado por tinta.
Depois de cerca de três anos e cinco meses de obras — iniciadas em novembro de 2022 e concluídas no final de março de 2026, quando os tapumes foram retirados — a cidade finalmente reencontrou um de seus patrimônios históricos totalmente revitalizado. A recuperação do viaduto exigiu investimentos públicos significativos, mobilização técnica especializada e um esforço coletivo que envolveu arquitetos, restauradores, engenheiros e trabalhadores da construção civil. Restaurar um patrimônio histórico nunca significa apenas “consertar” uma construção antiga. Significa recuperar a memória simbólica de uma cidade, preservar a identidade cultural de um povo e reafirmar que determinados espaços pertencem à coletividade e merecem ser transmitidos às futuras gerações.

É justamente nesse ponto que a pichação deixa de poder ser interpretada como um simples gesto juvenil, de rebeldia ou como uma forma legítima de expressão artística. Há uma diferença profunda — estética, ética e civilizatória — entre arte urbana e vandalismo. O grafite, quando realizado de maneira autorizada e integrada ao espaço urbano, pode dialogar com a cidade, produzir beleza, provocar reflexão e até revitalizar ambientes degradados. Já a pichação feita sobre patrimônio público restaurado opera em outra lógica: a da destruição simbólica do bem comum.
A insistência contemporânea em relativizar toda ação sob o argumento de que “toda expressão é arte” revela uma espécie de crise de critérios culturais. Nem tudo aquilo que transgride é artisticamente relevante. Nem toda intervenção visual constitui manifestação estética. A história da arte demonstra exatamente o contrário: as grandes obras humanas, mesmo quando revolucionárias, dialogam com técnica, intenção, elaboração e significado coletivo. A pichação predatória de monumentos históricos não amplia o patrimônio cultural; ela o degrada.
Existe ainda uma dimensão filosófica importante nesse debate. A preservação de espaços públicos exige uma ética da convivência. O filósofo alemão Jürgen Habermas escreveu longamente sobre a necessidade de construção de uma esfera pública baseada em racionalidade, participação e respeito mútuo. Quando um patrimônio histórico é vandalizado logo após sua restauração, o que se rompe não é apenas uma camada de tinta ou revestimento. Rompe-se simbolicamente a ideia de pacto social. A mensagem implícita torna-se perturbadora: aquilo que pertence a todos pode ser apropriado destrutivamente por alguns.
Em sociedades marcadas por desigualdades profundas, é comum que determinados grupos tentem justificar a pichação como forma de protesto contra exclusões urbanas e sociais. Sem dúvida, o Brasil convive com graves problemas estruturais, marginalização econômica e abandono de periferias. Contudo, transformar patrimônio público e histórico em alvo de vandalismo não corrige injustiças sociais. Pelo contrário: frequentemente amplia processos de deterioração urbana que atingem justamente a população mais vulnerável.

Há uma diferença importante entre rebeldia crítica e destruição inconsequente. A rebeldia legítima historicamente produziu movimentos políticos, culturais e intelectuais capazes de transformar sociedades. A destruição vazia, ao contrário, frequentemente apenas reproduz ressentimento sem produzir qualquer elaboração coletiva positiva. A pichação predatória costuma estar muito mais vinculada à lógica da imposição territorial, da transgressão pela transgressão e da busca de visibilidade individual do que propriamente a um projeto social consistente.
O sociólogo Zygmunt Bauman observa que vivemos em uma modernidade líquida, marcada pela fragilidade dos vínculos coletivos e pela erosão do sentido de pertencimento. Talvez a depredação de patrimônios públicos e históricos revele exatamente isso: uma dificuldade crescente de perceber a cidade como extensão de si mesmo. Quando o espaço público deixa de ser entendido como patrimônio compartilhado, ele passa a ser tratado como território sem valor simbólico. A consequência é uma cultura de deterioração contínua, em que o cidadão deixa de agir como guardião da cidade para agir como mero usuário passageiro dela.
No caso específico do Viaduto da Borges, a situação adquire contornos ainda mais simbólicos porque se trata de uma estrutura profundamente integrada à memória afetiva de Porto Alegre. Centenas de milhares de pessoas atravessaram esse espaço ao longo de décadas. Ali circulam trabalhadores, estudantes, artistas, ambulantes, moradores do centro histórico e turistas. O viaduto é parte da biografia emocional da cidade. Sua restauração representa também uma tentativa de recuperação do orgulho urbano de uma capital que, nos últimos anos, enfrentou enchentes devastadoras, crises econômicas e um processo visível de degradação de áreas centrais.

Quando pichações surgem quase imediatamente após a revitalização, instala-se inevitavelmente uma sensação coletiva de frustração. Muitos cidadãos percebem que recursos públicos preciosos — que poderiam ser investidos em saúde, educação, segurança ou assistência social — precisarão novamente ser direcionados para limpeza e reparação. Trata-se de uma dimensão concreta frequentemente ignorada por quem romantiza o vandalismo urbano. A depredação do patrimônio público produz custos financeiros reais, pagos pela própria sociedade.
É importante também refletir sobre a dimensão psicológica da pichação contemporânea. Em muitos casos, ela parece menos vinculada à comunicação de uma mensagem e mais associada à necessidade de afirmação identitária através da marca territorial. O ato de deixar uma assinatura em locais de difícil acesso frequentemente opera como demonstração de desafio, risco e conquista de notoriedade dentro de determinados grupos. Nesse contexto, a cidade transforma-se em palco de competição simbólica, e não em espaço de construção comunitária.
Defender a preservação do patrimônio público não significa assumir uma postura elitista ou hostil às manifestações populares. Ao contrário: significa compreender que a memória urbana pertence sobretudo ao povo. Monumentos históricos não são propriedade abstrata do Estado; são parte da herança cultural coletiva. Destruí-los ou degradá-los não é um ato de emancipação social, mas um empobrecimento da experiência comum.
As grandes cidades do mundo que conseguiram preservar sua identidade histórica compreenderam algo fundamental: civilização também é continuidade. Uma sociedade madura consegue conciliar inovação com preservação, transformação com memória, liberdade individual com responsabilidade coletiva. Quando essa síntese fracassa, instala-se a cultura do descarte — não apenas de objetos, mas também de símbolos, referências e histórias.
O Viaduto da Borges sobreviveu a mudanças políticas, crises econômicas, transformações urbanas e quase um século de história brasileira. Sua restauração representa uma tentativa de reconectar Porto Alegre com parte de sua própria dignidade arquitetônica e cultural. Que ele tenha sido alvo de pichações tão rapidamente talvez revele não apenas um problema de segurança ou fiscalização – que precisam ser reforçadas –, mas uma crise mais profunda de pertencimento e consciência cívica. No fim, a verdadeira questão talvez seja esta: que tipo de relação desejamos construir com a cidade em que vivemos? Uma relação baseada no cuidado compartilhado ou na deterioração contínua? Porque uma cidade não é feita apenas de concreto, ruas e viadutos. Ela é feita também do grau de responsabilidade que seus habitantes desenvolvem diante daquilo que pertence a todos.
