Autor: Análise & Opinião

  • CLAUBER COBI CRUZ / Mini, super ou hiper: o que são os orgânicos?

    Você deve conhecer ao menos um radical de carteirinha. Daqueles que, por exemplo, consideram que os Beatles só eram bons mesmo na época em que tocavam seis horas por noite na região do cais do porto de Hamburgo, em casas de strip-tease decadentes e boates barra pesada, frequentadas por marujos bêbados e gangues de motoqueiros, sempre dispostos a resolver suas diferenças empunhando as cadeiras, mesas e garrafas do local.

    Esse mesmo “beatlemaníaco raiz” também costuma dar uma aura romântica ao fato de que os músicos dormiam em camarins sem janela, não tinham local para tomar banho e tinham seus passaportes “confiscados” pelo dono das espeluncas.

    Mas, queiram ou não os radicais, o mercado musical movimentou suas engrenagens e anos depois o talento dos quatro rapazes de Liverpool já não cabia mais no cais do porto, em Hamburgo, na Alemanha, na Inglaterra ou mesmo na Europa. Suas canções tomaram o mundo, como bem sabemos.

    Essa metáfora da indústria do entretenimento serve bem para outras áreas, inclusive a dos orgânicos. No início heroico, produzia-se praticamente para consumo próprio e das famílias. Depois, veio o contato direto do produtor com os ainda raros consumidores de orgânicos em feirinhas especializadas, nas quais, praticamente, todos os frequentadores e vendedores se conheciam pelos nomes.

    A qualidade dos produtos e a divulgação de seus benefícios fez com que esse público aumentasse rapidamente. E os orgânicos foram acolhidos pelas lojas de produtos naturais e quitandas voltadas a clientes de maior poder aquisitivo e que os desejavam mais à mão, no dia a dia, e não apenas em eventos semanais ou quinzenais.

    De lá para cá, esse mercado se desenvolveu não em passos, mas em verdadeiros saltos e os orgânicos já não cabem nas velhas roupas. E se a grande dúvida, antes, era onde encontrar o cliente, agora é o cliente que exige que os orgânicos estejam onde ele está.

    Sim, a distribuição continua sendo um nó que requer soluções. E a boa notícia é que uma delas está pronta, funcionando e espalhada com sucesso por todo o Brasil: a rede de micro, super e hipermercados locais, regionais e nacionais.

    Sua majestade, o consumidor, escolheu esses pontos de venda como prioritários em sua rotina. Pela facilidade de estacionamento, pela comodidade de comprar quase tudo em um só local e, é claro, pela segurança, que será sempre um quesito importantíssimo enquanto as ruas do país forem consideradas perigosas.

    No contexto atual, a ampliação da presença e visibilidade dos orgânicos nos ambientes dos mercados é a grande oportunidade para o crescimento. E que, para funcionar, deverá ser efetivada na base das boas práticas, nas quais os interesses dos três pilares do negócio, ou seja, produtores, comerciantes e consumidores, sejam levadas em conta na estratégia.

    Mostrando saúde na quarentena

    Aí chegamos a uma pergunta chave: os orgânicos têm poder de fogo para atender às super e hiper demandas de seus gigantes parceiros?

    E a resposta, felizmente, foi dada de forma muito prática, em 2020 quando, em meio a uma inédita crise, como a da pandemia, o setor orgânico brasileiro, na contramão da maior parte da economia, avançou vigorosamente, destacando-se como ponto positivo em época tão incerta.

    O fato é que a procura pelos produtos cresceu e foi devidamente atendida, gerando trabalho e renda em época de desemprego, especialmente (e não por acaso) na distribuição dos produtos. Em todo o Brasil, muitos brasileiros aproveitaram suas bicicletas, motos e automóveis para empreender, principalmente na entrega domiciliar, que cresceu de forma exponencial com a realidade das quarentenas e distanciamento social.

    Dando um passo além, vimos muitos grupos de vizinhos, condomínios e famílias consumidoras unindo-se a produtores orgânicos para, juntos, planejarem um ano de produção, inclusive com parte do pagamento adiantado e compartilhamento de possíveis riscos.

    Isso tudo, mais o aumento da procura no grande varejo, foi possível porque os orgânicos brasileiros há muito já passaram da fase dos testes e experiências, mostraram competência nos mais diversos solos e condições climáticas, e já estão no campo de ciência consolidada, com técnicas, tecnologias e didáticas bem desenvolvidas. E que podem, em caso de aumento de demanda, ser rapidamente difundidas e colocadas em ação na cadeia produtiva, desde que, é claro, sejam construídas relações comerciais vantajosas e sustentáveis para todos.

    Estar presente e em locais bem visíveis dos grandes centros de consumo vai significar um verdadeiro salto na consolidação deste mercado, com aspectos positivos como, por exemplo, gerar estrutura que viabilize uma inclusão mais profissional e efetiva dos produtos em uma área privilegiada: o comércio internacional.

    Sem que seja necessário, certamente, abandonar a nenhum dos os meios de distribuição tradicionais do setor.

    Estamos crescendo, e agora?

    Crescer é bom. E crescer mantendo suas raízes, origens, conceitos e valores, melhor ainda. Mas isso implica em ir um pouco além das ações rotineiras. É necessário pensar grande e deixar o radicalismo passadista de lado, com mente aberta às mini, super e hiper mudanças que, certamente, estão por vir.

    Pois o mundo dos orgânicos, felizmente, é sustentável e, portanto, não tem limites.

    Clauber Cobi Cruz – Diretor da Organis – Associação de Promoção dos Orgânicos – www.organis.org.br

  • FRANCISCO ARID / O medo do nome

    Durante anos, veículos da imprensa relutaram em empregar o termo “ditadura” para se referir à ditadura militar brasileira. Relutaram, também, em classificar Jair Bolsonaro como alguém de “extrema direita”. Percebe-se na sociedade certo receio no uso de conceitos considerados muito pesados, ainda que eles sejam pertinentes. Dois termos que, apesar de descreverem corretamente a realidade brasileira atual, ainda são vistos por muitos como exagerados são “fascismo” e “genocídio”.

    Originalmente, a palavra “fascismo” era o nome do movimento político liderado por Benito Mussolini, e “genocídio” surgiu para descrever os horrores do holocausto nazista. É inevitável que, ao empregarmos tais conceitos, observemos e analisemos o presente a partir desses fenômenos históricos. No entanto, a definição desses termos segue critérios claros e não se pauta pela “régua” da Segunda Guerra Mundial. É possível, sim, dizer que o bolsonarismo é um movimento fascista, mesmo que ainda não estejamos vivendo em uma ditadura totalitária. O genocídio das populações negra e indígena no Brasil é um fato, mesmo que o número de mortos seja menor que os milhões de pessoas assassinadas pelo nazismo.

    Isso não significa sair por aí chamando todo assassino de genocida, ou todo governo autoritário de fascista: é necessário rigor científico e histórico. Precisamos ter muito cuidado para não cairmos em argumentações simplistas ou na banalização dos horrores da Segunda Guerra. Mas não é só esse medo do exagero que nos impede de chamar as coisas pelo nome que elas têm. Há também uma questão de interesse político dos grupos dominantes, já que o uso de termos tão fortes implicaria uma responsabilização que se prefere evitar: um político que se define como fascista está cometendo suicídio eleitoral; um Estado que se assume genocida corre o risco de sofrer consequências jurídicas.

    Entretanto, fechar os olhos não muda a realidade. Se queremos enfrentar nossos problemas, precisamos chamar as coisas pelo nome – só assim, conhecendo o “inimigo”, poderemos traçar estratégias eficientes para combatê-lo.

    Francisco Arid é estudante de Ciência Política na Universidade de Marburg, na Alemanha, e articulista da Saíra Editorial.

  • PATRUS ANANIAS/ Educação, o grande desafio

     A Educação de qualidade em todos os níveis, das creches às universidades, é uma política pública transcendente.

    Ao mesmo tempo que é um direito fundamental das pessoas e das famílias é um bem essencial das comunidades. A Educação é pressuposto para construirmos no Brasil uma sociedade que assegure a todas as pessoas desde a infância, sem exclusões, preconceitos ou discriminações, um patamar comum de direitos e oportunidades.

    Por tudo isso, a Educação deve ser um tema presente nas mesas familiares e afetivas, nos movimentos sociais, nos partidos políticos, nas igrejas, nos espaços convivenciais e comunitários.

    Não podemos esquecer por outro lado que Educação é sempre um tema propagandístico, presente nas campanhas eleitorais e até mesmo nos textos legais. A nossa primeira constituição, a Constituição de 1824 dispunha no inciso 32 do artigo 179: “A instrução primária é gratuita a todos os cidadãos”.

    Por sua vez o inciso 33 fazia referência expressa aos “colégios e universidades aonde serão ensinados os elementos da Ciências, Belas Artes e Artes”. Os dispositivos da Constituição Imperial jamais foram cumpridos. Encerramos o período imperial em 1889 com 82,3% de analfabetos no Brasil. A primeira universidade brasileira surge décadas depois, em 1920.

    Não interessa aos detentores do poder econômico, aos donos do dinheiro e das terras que a Educação de boa qualidade em todos os níveis seja franqueada a todas as nossas crianças e jovens e mesmo aos adultos que queiram alargar os seus conhecimentos e reflexões.

    A democratização efetiva da escola pública possibilita às crianças e jovens pobres o acesso à universidade, o acesso ao saber e à compreensão da realidade. Ocorrerá então inevitavelmente uma mudança social, que não interessa aos donos do poder, lembrando sempre que o primeiro degrau do poder é o poder econômico.

    A Educação é um ponto de convergência das políticas públicas sobretudo quando ela se articula e integra com a cultura, as artes, a pesquisa, as novas fronteiras que se abrem no campo do conhecimento tecnológico e científico.

    A Educação pública de boa qualidade e as obras e políticas públicas que lhe dão suporte exigem a presença do Estado. Assegurar o pleno direito à Educação e às políticas públicas que garantam o direito à vida custa dinheiro.

    Aqueles que mais receberam da sociedade, os grandes proprietários de terras, bens e recursos financeiros devem dar uma contrapartida maior por meio de tributos para que os princípios e normas constitucionais sejam efetivamente cumpridos.

    A Educação se vincula assim à discussão da Reforma Tributária presente no Congresso Nacional.

    Patrus Ananias –  deputado federal pelo PT/MG , é secretário-geral da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional, foi ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, no governo Lula, e do Desenvolvimento Agrário, no governo Dilma Rousseff, prefeito e vereador de Belo Horizonte.

     

  • MIRIAM GUSMÃO / Porto Alegre mutilada

    Os cartazes das imobiliárias junto às portas fechadas vão indicando mais e mais pontos comerciais para alugar, em diferentes bairros de Porto Alegre. Na maioria desses locais, funcionavam pequenos negócios e em muitas dessas portas, pouco antes dos anúncios de “aluga-se”, ainda havia recados esperançosos dos empreendedores para seus clientes. “Em breve nos veremos de novo; cuidem-se”, eram as despedidas provisórias e cuidadosas. Ninguém poderia imaginar o tamanho da incompetência e da irresponsabilidade dos governantes brasileiros – na União, nos estados e municípios – que não souberam implementar uma política integrada de Saúde Pública, conjugada com medidas econômicas eficientes para enfrentar a pandemia do coronavírus. A má gestão e as mazelas dos políticos de carreira, incluindo as posturas omissas de boa parte das oposições, sedentas apenas de futuras vitórias eleitorais, resultaram num cenário desolador que se prolongou demais e parece não ter fim. Já são cinco meses de desgastante isolamento social, para os que levam a sério essa essencial providência. No entanto, como há os que não levam a sério e como os governos atendem a todo momento pressões de setores empresariais mais poderosos, abrindo e fechando de forma descontrolada as atividades econômicas, o isolamento revela-se sempre insuficiente para conter a expansão do vírus. E um país que pouco se importa com a absurda perda de mais de cem mil cidadãos não se importa nem um pouco com a perda de pequenos negócios. Podemos observar em Porto Alegre uma situação de muitas cidades brasileiras. As cidades vão sendo desfiguradas, mutiladas, pois não são apenas pequenos negócios que se perdem, mas espaços de cultura, convívios, projetos, sabores cotidianos, fisionomia de bairros.

    Entre o Centro Histórico e a Cidade Baixa encontramos exemplos de portas que se fecharam, encerrando resquícios de vizinhança e raras convivências, assim como de trocas de conhecimentos, dentro dos espaços urbanos desumanizados. O Tempero do Sul, na rua Sarmento Leite 929, era um restaurante simples, com ares familiares e preços convidativos. Era um “ambiente descomplicado”, como diziam os proprietários. Oferecia comida caseira e buffet de café. De início, havia buffet de café pela manhã e à noite, mas, ainda antes da pandemia, as dificuldades financeiras da clientela reduziram a demanda, e o restaurante manteve o almoço caseiro e o café da noite, que começava à tardinha. Esse café da noite era o típico “café e janta”, pois além da variedade de pães, cucas, bolos, frutas, frios, omeletes, iogurtes, sucos e café à vontade, incluía a possibilidade de uma sopa ou de uma carne. Idosos da vizinhança conheceram-se ali, tomando sopa ao entardecer, e ali se encontravam e conversavam todos os dias. Tinha virado hábito. Também encontravam-se ali motoristas de aplicativos e jovens estudantes moradores do bairro. Havia conversas entre as mesas e entre gerações. Os proprietários e funcionários conheciam os gostos dos clientes e havia uma atenção personalizada: Fulano, hoje tem aquele teu bolo preferido; dona Fulana, hoje tem a sua sopa de legumes.

    Quase ao lado do Tempero do Sul, no número 921, havia uma pequena e graciosa loja de bolos. Chamava-se Amor com Fermento. Era um espaço minúsculo, mas muito elegante, com bom gosto na decoração e o irresistível cheiro de bolo caseiro recém-feito. Também tinha virado hábito para muitos moradores do bairro e arredores abastecer suas festas, suas visitas e suas famílias com itens das delícias vendidas ali, numa variedade sempre renovada. Havia inclusive uma linha da chamada “alimentação saudável” e opções de bolos para diferentes dietas restritivas, além dos bolos tradicionais e de criativas invenções. No final do mês de março, as proprietárias anunciaram, em rede social, que entrariam em quarentena: “Vamos todos fazer a nossa parte! Fique em casa! Estaremos com nossa loja fechada! #quarentena, #amor com fermento”. Tudo parecia provisório e era possível aguardar que a loja continuasse com encomendas e entregas a domicílio. No entanto, quem tem possibilidade de partir em busca de outras oportunidades, de escapar de ser refém dos dias adversos, acaba partindo. Foi assim que, no dia nove de maio, as proprietárias anunciaram a mudança para outro estado e a venda  do ponto. Tudo foi posto à venda: equipamentos, móveis e utensílios. E não foi o fim de uma das muitas lojas de bolos da cidade; foi o fim de um espaço de amor com fermento, que se engajava em campanhas como a da conscientização do autismo, e que compartilhava com os clientes alguns conceitos, algumas frases de bom humor e alguns aforismos. Até parecia verdade que “a felicidade mora em um pedaço de bolo”, ou que “o bolo feito com amor sacia a vida e conforta a alma”. Em tempos obscuros, uma das frases que essa lojinha fechada havia repassado fala de humanidade e celebração com todos: “Eu como bolo porque é aniversário de alguém em algum lugar do mundo”.

    No Caminho dos Antiquários, que é a quadra da rua Marechal Floriano entre a Fernando Machado e a Demétrio Ribeiro, a Cachaçaria Brix 21 fechou no final de junho. Era um sofisticado espaço de cultura, com degustação e venda de cachaças de excelente qualidade, local de exposição de arte e, mais recentemente, boteco que procurava combinar com “o melhor destilado do mundo” alguns petiscos bem elaborados. Segundo o proprietário, Rafael Martins Lutgmeyer, a quarentena prolongada “desligou os aparelhos” da loja que já vinha lutando para sobreviver. Havia um inimigo anterior: o persistente preconceito dos brasileiros, e em especial dos gaúchos, para com a bebida que deveria ser um respeitável produto nacional. Durante os seis anos em que a cachaçaria esteve aberta, o proprietário repassava ensinamentos sobre o produto, conversando com os clientes durante as degustações. A Brix 21, numa verdadeira ação cultural, propagou o significado positivo da palavra “cachaceiro”, associado a quem produz, aprecia, degusta, estuda ou pesquisa assuntos relacionados com a cachaça. No senso comum, cachaceiro é uma palavra pejorativa, para desqualificar especialmente os pobres que bebem esse destilado, num evidente preconceito de classe. Rafael, que fez curso de Mestre Alambiqueiro e que, antes de abrir a cachaçaria, percorreu 39 municípios de sete estados brasileiros, pesquisando sobre a produção da cachaça e escolhendo os rótulos que iria vender, lamenta a pouca valorização de uma bebida peculiar do país. Lembra que a cachaça é fruto da diversidade e da qualidade da flora brasileira, desde os canaviais até as diversas madeiras nobres em que pode ser envelhecida. Quanto às dificuldades criadas aos pequenos e médios empreendedores pela má gestão da pandemia no Brasil, menciona os entraves para acesso a créditos bancários e o próprio empobrecimento da população, que reduz as demandas.

    Outros incontáveis empreendedores também se prepararam para vender produtos e personalizar espaços de negócios. Fizeram cursos técnicos e gastaram na decoração de locais que agora fecham as portas. Foram cursos para servir coquetéis, para abrir pequenos cafés, docerias, pizzarias, bistrôs e lojinhas. Alguns desses estabelecimentos vemos fechados nas ruas José do Patrocínio, Duque de Caxias e travessas próximas. Foram alegrias fugazes de inaugurações festivas e malogradas apostas no futuro. Fosse a quarentena mais curta, talvez muitos tivessem aguentado, mas o isolamento infinito, as dívidas acumuladas e a falta de perspectivas não deixaram possibilidades. É uma realidade nacional, num país desgovernado, que não cuida de seus cidadãos. Uma pesquisa realizada, ainda em abril e maio, pelo Sebrae, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, detectou que 86% dos empreendedores que buscaram empréstimos não conseguiram. Dados do IBGE, divulgados em julho, atestam que 716, 4 mil empresas tinham fechado as portas em definitivo durante a pandemia, até a primeira quinzena de junho, sendo a maioria delas de pequeno porte. O empreendedorismo é o canto da sereia, sem oferecer condições para os que mais precisam. E empregos não são gerados. O IBGE constatou que o desemprego atingiu 12,8 milhões de brasileiros, sem contar os mais de cinco milhões de desalentados, aqueles que já desistiram de procurar trabalho. Os governantes não sabem pensar medidas econômicas e administrativas sem retomar a ladainha da suposta necessidade de flexibilizar cada vez mais os direitos trabalhistas, penalizar servidores públicos, cortar salários. A Constituição prevê, mas ninguém mexe nas grandes fortunas, assim como é postergada a devida taxação das heranças. É um país cruel, que perpetua imensas desigualdades e desampara a maior parte da população. Um país inconcebivelmente cruel, quase impassível diante de tantas mortes na pandemia e diante das chances negadas a quem precisa viver do seu trabalho. Inexoravelmente, pessoas se vão e portas são fechadas.

    Miriam Gusmão é professora aposentada e jornalista.

  • LIDIANE KLEIN / Solidão atrelada ao desamparo pode gerar depressão nos idosos

    Em meio a pandemia do Coronavírus muitos sentimentos estão emergindo neste momento, mas existe um que ao meu ver, precisa de uma atenção especial, que é o sentimento de solidão. Em tempos normais, a solidão é o medo mais preponderante na faixa etária dos idosos, de acordo com uma pesquisa realizada pela sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia em parceria com a Bayer, seguido pela preocupação com a incapacidade de enxergar ou se locomover e o desenvolvimento de doenças graves em terceiro lugar.

    Seguindo este raciocínio, podemos pensar que neste momento muitos idosos estão justamente vivenciando o seu maior medo. E, será que estão tendo recursos internos para enfrentar essa situação? Será que os familiares têm os feito sentirem-se amparados?

    A solidão é um estado de quem se sente só, provocado por um sentimento de vazio interior, que na maioria das vezes, é proveniente da falta de interação, de diálogo e de convívio com outras pessoas, ou seja, sentimento propício para emergir neste momento que estamos vivenciando.

    Independente da causa, se pelo coronavírus ou não, é fato que a solidão afeta, e muito, o bem-estar, a autoestima e a rotina de quem sofre com ela. Os sentimentos de vazio e tristeza são comuns a pessoas que se sentem solitárias e, com eles, dificilmente há motivação para reverter o caso. A solidão apesar de ser universal, é complexa e única a cada indivíduo.

    A solidão se torna mais grave quando está atrelada ao sentimento de desamparo. O desamparo desperta a sensação de não proteção e abandono, a pessoa passa a ficar desorientada porque sente que não tem um ponto de referência e um apoio em sua vida.

    A solidão é uma  condição que se conecta fortemente com a depressão podendo ser uma de suas consequências, sendo que o contrário também é verdadeiro, a depressão também é uma das possíveis causas do sentimento de solidão, já que ela pode levar a pessoa a um estado de isolamento, ainda maior que este momento exige, sensação de desesperança e a ideia de que a vida não vale a pena.

    Para muitos idosos estar só não é problema, pois veem o tempo que se está sozinho como um momento de dedicação pessoal, ou seja, um período no qual se pode fazer coisas de que gosta, que lhe trazem bem-estar. Mas isto normalmente acontece quando o idoso tem certeza da força dos seus vínculos sociais. Apoio e presença de familiares e amigos, mesmo que virtualmente, são um forte fator de proteção contra o sentimento de solidão. Uma vez que o idoso se percebe amparado e bem atendido, ele sente mais confiança em estar sozinho.

    Neste cenário que estamos vivendo, o ideal seria que desenvolvêssemos a solitude. Solitude é o estado de privacidade de uma pessoa, não significando, propriamente, estado de solidão. Pode representar o isolamento e a reclusão, voluntários ou impostos, porém não diretamente associados a sofrimento. Quem encontra a solitude, não sente receio de estar sozinho, no prazer de sua própria companhia.

    É nesse momento que podemos desenvolver o autoconhecimento, de nos encontrar ao invés de tentar fugir e de nos aceitarmos como realmente somos, independentemente da aprovação do outro. Todos os dias, procure marcar um encontro com você mesmo. Ter um tempo sozinho é essencial para seu desenvolvimento. É um momento onde conseguimos ouvir pensamentos que se escondem quando estamos com muitas pessoas ao nosso redor.

    Dicas para vencer a solidão e manter a saúde mental em tempos de Coronavírus:

    -Manter uma rotina diária, pois ela é estruturante para o nosso psiquismo;

    -Ler um livro (muitas editoras estão disponibilizando versões em ebook);

    -Assistir um bom filme;

    -Escutar música e porque não dançar junto;

    -Escrever sobre os sentimentos da quarentena;

    -Realizar atividade física dentro de casa (tem muitos vídeos disponibilizados de exercícios);

    -Acessar informação de forma ponderada;

    -Se familiarizar e utilizar a tecnologia para se aproximar das pessoas através de ligações ou vídeo chamadas;

    -Se dedicar a alguma atividade que goste (artesanato, culinária, jardinagem, etc);

    -Praticar meditação, sua prática melhora os sintomas de ansiedade, diminui o estresse, melhorando inclusive o seu sistema imunológico (tem vídeos na internet de meditação guiada, pra quem ainda não é praticante);

    – Manter-se intelectualmente ativo pois estudos evidenciam que a solidão está ligada a piora das funções cognitivas;

    -E por fim cultivar pensamentos positivos, pois os pensamentos pessimistas são os maiores responsáveis pelo nosso adoecimento psíquico.

    Este período complicado vai passar, seguiremos nossas vidas, porém cada um precisa fazer a sua parte, que é se cuidar. A prevenção segue sendo o melhor remédio.

    “A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho” (Tillich)

    Lidiane Klein é psicóloga, especialista em Neuropsicologia, mestre em Psicologia e Saúde, doutoranda em Ciências da Reabilitação.

  • ALDO REBELO / O desenvolvimento segundo Celso Furtado

    Em 1997, já afastado da vida acadêmica e política, o economista Celso Furtado gravou uma saudação ao Encontro Nacional dos Estudantes de Economia, que acontecia em Campinas, São Paulo.

    Na oração aos futuros economistas Celso Furtado fez um breve balanço dos desafios do Brasil, dos sonhos de sua juventude, da difícil conjuntura internacional e da necessidade da confiança no País.

    Ele disse que, quando jovem, pensar o futuro era pensar o desenvolvimento e pensar o desenvolvimento era pensar a industrialização. A ideia parece plenamente atual uma vez que o Brasil vive o duplo processo de perda de dinamismo de sua economia acompanhada da rápida desindustrialização.

    Ao abordar os obstáculos ao desenvolvimento, Celso Furtado apontou a baixa capacidade de investimento do Estado, resultado de sua reduzida poupança, e o elevado endividamento público carreando recursos crescentes para pagamento de uma dívida agregada a juros determinados fora do País.

    O tema é contemporâneo e questiona a orientação do grupo que dirige hoje a economia do Brasil, atrelado aos paradigmas fiscalistas e a uma ortodoxia deletéria já aposentados em todo o mundo.

    Celso Furtado faria 100 anos em 2020 e o seu nome deve ser reverenciado pelo Brasil e pelos brasileiros. Historiador, intérprete do Brasil, acadêmico, pensador original, sofisticado e cosmopolita, foi um homem do mundo, mas sua alma permaneceu na Pombal onde nasceu na Paraíba, e forjou seu ethos de sertanejo, nordestino e brasileiro que o orientou e sustentou por toda a vida.

    Avesso a arroubos nacionalistas, seu patriotismo genuíno está na trajetória intelectual dedicada aos problemas brasileiros, no sotaque que nunca abandonou apesar de décadas em Paris, no afeto quase filial com que se referia ao Brasil, à sua história e cultura.

    Homem de ciências e homem de Estado, sua vida foi uma constante preocupação com o Brasil, sempre apontando soluções carregadas de audácia e coragem para os obstáculos ao desenvolvimento nacional.

    Cassados os seus direitos políticos em 1964, recebeu convite como pesquisador nas melhores universidades dos Estados Unidos e da Inglaterra. O presidente Charles de Gaulle assinou pessoalmente o decreto que o tornou o primeiro estrangeiro admitido como professor titular da cátedra de Desenvolvimento Econômico da Faculdade de Direito e Economia da Sorbonne em Paris.

    Ao Nordeste dedicou a Sudene, sua criação intelectual e de administrador. Ao Brasil destinou toda uma obra que permanece atual e o patriotismo capaz de educar gerações e oferecer referências seguras contra os que buscam orientações nas extravagâncias importadas pelo identitarismo pretensamente progressista e pelo neocolonialismo conservador.

    Aldo Rebelo é jornalista, foi presidente da Câmara dos Deputados; ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais; do Esporte; da Ciência e Tecnologia e Inovação e da Defesa nos governos Lula e Dilma.

  • VERA GARCIA / Os adversos Brasis da pandemia

    O consenso científico mundial sobre a prevenção do novo coronavírus, até que chegue a vacina, inclui três medidas básicas: uso constante de álcool gel para higienizar as mãos, uso de máscaras e o isolamento social. Parte da sociedade, temerosa com a possibilidade de contaminação, tenta seguir à risca essas orientações. Outra parte, negacionista, faz de conta que nada está acontecendo e opta por não aderir aos meios de proteção.

    Entretanto, também existe uma grande parte da população brasileira que, por circunstâncias, permanece à margem de qualquer orientação e invisível aos olhos do governo, dos noticiários e da maioria dos seus compatriotas. São as pessoas que vivem nas 13 mil comunidades carentes espalhadas pelo Brasil.

    Segundo dados atualizados da Agência Brasil, 89% dos moradores de favelas estão em capitais e regiões metropolitanas. As regiões Norte e Nordeste registraram maior percentual de pessoas vivendo em comunidades, de 5% a 10%. Os Estados do Amazonas, Pará, Maranhão e Pernambuco têm mais de 10% da população em favelas.

    A pesquisa revela que há 13,6 milhões de brasileiros vivendo em aglomerados subnormais, privados de saneamento básico, com acesso restrito à água e a condições básicas de higiene. Sem condições financeiras, o álcool gel é artigo de luxo para estas pessoas que convivem de forma muito próxima com familiares e vizinhos, sem qualquer possibilidade crível de fazer isolamento social.

    Relatos de alguns moradores de comunidades indicam que não houve isolamento social em nenhuma fase da pandemia, pelo simples fato de que não há planejamento urbano, a partir das normas exigidas de construção e convívio. Onde o governo não entra com sua parte, não há como impor regras.

    Os moradores nascem e crescem sabendo que não podem contar com promessas de políticos. Sendo assim, a linguagem, os valores e a noção de normalidade são totalmente diferentes do asfalto. Essas pessoas sobrevivem corajosamente a todos os infortúnios, desenvolvem soluções criativas e são extremamente solidárias. Por outro lado, são mais expostas a doenças físicas e mentais.

    Quando as mídias mostram de forma vigilante os muros lotados da Urca ou os transeuntes andando inadvertidamente aglomerados e sem máscara, de certa forma, esquecem ou preferem não mostrar que existem muitos Brasis com regras próprias, submetidos a leis locais (adaptadas às suas condições peculiares) e regidos por modelos mentais forçosamente enquadrados a esses ambientes. E, mais importante, na vigência de uma pandemia, não adianta aplicar regras e limites a uma parte da sociedade, e ignorar que milhões de brasileiros não vão seguir as mesmas regras por total falta de planejamento urbanístico, de políticas públicas de moradia e de profundas desigualdades sociais.

    Vale lembrar que essas pessoas prestam serviços importantes à sociedade, em todos os segmentos. Portanto, se o país pretende avançar em índices de desenvolvimento social e humanitário, e conter a pandemia, é fundamental assumir a responsabilidade pelas necessidades dos mais vulneráveis, projetar a mesma indignação ferrenha que sente pelos aglomerados nas praias ou nos bares e à falta de políticas públicas efetivas de moradias populares e dignas para esses 13 milhões de brasileiros.

    Por Dra. Vera Garcia, psiquiatra pela UFRJ, com MBA de gestão em saúde pela FGV e observership no Jackson Mental Health Hospital, da Universidade de Miami.

  • BEN SMITH / Garanta jornalistas. Deixe as cadeias de jornais morrerem

    Por Ben Smith 

    Você poderia, neste domingo, comprar a Gannett, a maior cadeia de  jornais do país, por meros US $ 261 milhões – cerca de um quarto do que Michael R. Bloomberg gastou em sua campanha presidencial.

    Elizabeth Green, fundadora da organização de notícias educacionais sem fins lucrativos Chalkbeat , é uma das poucas pessoas que podem arrecadar dinheiro para fazer um acordo como esse.

    Mas ela rapidamente percebeu que Gannett não valia a pena: comprá-lo significaria se inscrever para pagar um empréstimo com juros altos de uma gigante empresa de private equity de Nova York e confiar em um modelo de negócios de publicidade que pode estar em sua morte por causa do coronavírus.

    É um momento de profunda crise para o setor de notícias local, que poderia ter sido derrubado por uma brisa leve e agora está enfrentando um furacão.

    Mas também é um momento de grande promessa para uma nova geração de publicações locais sem fins lucrativos.

    Agora é a hora de fazer uma mudança dolorosa, mas necessária: abandone os jornais locais com fins lucrativos, cujo modelo de negócios não funciona mais, e vá o mais rápido possível para uma rede nacional de novas e ágeis redações online.

    Dessa forma, podemos resgatar a única coisa que vale a pena nas empresas de jornais locais estripadas e amplamente mal administradas da América – os jornalistas.

    “Precisamos aceitar que as notícias locais de hoje já estão morrendo”, disse Green, 35 anos.

    Ela percebeu isso há 12 anos quando era repórter de educação local. Seu jornal, The New York Sun, faliu e ela criou uma nova organização sem fins lucrativos para se manter no ritmo que amava.

    Agora, sua visão se expandiu. Ela co-fundou o American Journalism Project , que visa criar uma enorme rede de agências sem fins lucrativos, algumas organizadas em torno de assuntos como educação ou justiça criminal, outras focadas em cobrir um bairro, uma cidade ou um estado.

    Ela quer substituir as centenas de jornais locais agora pertencentes a fundos de hedge que estão sendo lentamente secados.

     “Precisamos manter os valores, manter as pessoas, manter as lições aprendidas – e nos livrar dos acionistas e obter um melhor modelo de negócios”, disse ela.

    Green tem trabalhado para expandir uma área de cobertura obviamente necessária, a saúde pública, para todos os 50 estados dos EUA, trabalhando com o serviço de notícias sem fins lucrativos Kaiser Health News.

    E no nível local, ela e John Thornton, outro fundador do American Journalism Project, estão trabalhando em um novo projeto: apoiar uma agência sem fins lucrativos na Virgínia Ocidental.

    Será liderado por Greg Moore, ex-editor executivo do Charleston Gazette-Mail, e Ken Ward, repórter do jornal, que ganhou uma bolsa MacArthur “Genius” por sua cobertura dos danos causados ​​pelas indústrias de carvão e gás à vida das pessoas.

    A nova agência ainda não nomeada (os candidatos incluem “Mountain State Muckraker”) começará com uma equipe de cerca de 10, sete deles jornalistas, uma equipe de notícias na mesma escala do jornal local diminuído.

    “Existe toda essa ‘desgraça e tristeza para as histórias de jornalismo local’ que aconteceram na última semana, e espero que outras pessoas vejam o que estamos fazendo e entendam que o importante é o jornalismo – são as histórias, são as investigações – é isso que importa ”, disse Ward.

    Ele também estará na equipe da potência investigativa sem fins lucrativos ProPublica, e terá o apoio do Report for America, outra organização sem fins lucrativos em crescimento que envia jovens repórteres para redações em todo o país.

    O setor de notícias, como todo negócio, está procurando toda a ajuda que pode obter nessa crise.

    Os analistas acreditam que o novo pacote de auxílio federal ajudará por um tempo e que o setor tem um forte argumento. Os governos estaduais consideram o jornalismo um serviço essencial para divulgar informações de saúde pública.

    Os repórteres empregados por todos, desde o grupo sem fins lucrativos mais valioso até a cadeia cínica de fundos de hedge, estão arriscando suas vidas para obter para os leitores fatos sólidos sobre a pandemia e estão responsabilizando o governo por suas falhas.

    Praticamente todos os meios de comunicação informam que o número de leitores está no máximo de todos os tempos. Todos precisamos saber urgentemente sobre onde e como o coronavírus está afetando nossas cidades, bairros e vizinhança.

    Mas o negócio de publicidade que sustentou os jornais locais – revendedores de automóveis, varejistas e cinemas que, por gerações, encheram suas páginas de anúncios – passou do lento declínio para a queda livre .

    Portanto, os líderes que tentam levar a indústria de notícias local através desse choque econômico precisam enfrentar a realidade. A receita da publicidade impressa e do envelhecimento dos assinantes já estava desaparecendo. Quando a crise acabar, é improvável que volte. Alguns semanários locais fecharam recentemente para sempre .

    Muitas das respeitáveis sugestões para salvar o setor de notícias evitam esse problema central. Margaret Sullivan, do Washington Post, sugeriu um amplo “plano de estímulo coronavírus”, e uma coluna no The Atlantic pedia um enorme gasto do governo em anúncios de saúde pública.

    Sem restrições cautelosas, grande parte desse dinheiro do governo será destinada a cadeias de jornais condenadas, para as quais um objetivo importante, como disse o executivo-chefe da Gannett em sua última demonstração de resultados no final de fevereiro, é pagar dividendos aos acionistas imprudentes o suficiente para investir em seu negócio condenado. (Os executivos da Gannett se recusaram a falar comigo para esta coluna.)

    Então, o que vem a seguir? Essa decisão será tomada nos próximos meses – por funcionários públicos, filantropos, Facebook (que deverá anunciar outra onda de financiamento de notícias locais em breve)* e outras empresas de tecnologia e pessoas como você.

    A decisão certa é olhar consistentemente para o futuro, que vem de várias formas. O mais promissor agora é o sonho de Green de uma grande e nova rede de organizações de notícias sem fins lucrativos em todo o país, segundo o modelo do The Texas Tribune , que Thornton co-fundou.

    Existem também algumas agências de notícias locais com fins lucrativos, como The Seattle Times, Los Angeles Times e Boston Globe, com proprietários ricos e de espírito cívico, e The Philadelphia Inquirer, que é de propriedade do Instituto sem fins lucrativos Lenfest Institute para jornalismo. E há uma geração de sites pequenos e independentes de associação ou assinatura e boletins como o Berkeleyside .

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    Centenas de jornalistas locais dedicados estarão procurando emprego assim que puderem pensar em algo que não seja o que o coronavírus está fazendo nos lares e hospitais locais.

    Deveríamos ajudá-los e pagar por eles para construir essas novas instituições, grandes e pequenas.

    O apoio do governo, como sugere Steven Waldman, co-fundador do Report for America, poderia dar uma gorjeta para as novas organizações sem fins lucrativos e pequenas empresas. O Facebook e o Google poderiam focar em apoiá-los, em vez de pagá-los para criar vídeos do YouTube.

    Um grupo de jornalistas da Califórnia está agora trabalhando em um “Plano Marshall” para levar as agonizantes publicações do estado a fazer “transições imediatas de força bruta” para um modelo digital sustentável, disse Neil Chase, ex-editor executivo do San Jose Mercury News que agora lidera o CalMatters sem fins lucrativos.

    As pessoas que dirigem as grandes redes de jornais – Gannett, Tribune, McClatchy, falida, mas ambiciosa , e o implacável Media News Group – discordam, é claro.

    Eles argumentam que o sonho da publicidade digital em uma escala que pode competir com o Google, um argumento original para fusões, ainda está ao alcance; e que eles podem cortar e centralizar seu caminho para a estabilidade.

    Eles também apontam que esses novos modelos carregam riscos reais, e estão certos quanto a isso. Eu aprendi em primeira mão. Eu era presidente do conselho da redação sem fins lucrativos de Nova York, The City – uma das mais promissoras da nova guarda – enquanto tentava ler suas histórias. Eu assisti minha esposa construir um pequeno canal de notícias do zero no solo difícil de publicidade e assinaturas locais na Bklyner. Os recém-chegados terão que se esforçar para manter as equipes do tamanho das redações locais mais estripadas. E o jornalismo sem fins lucrativos pode ser chato, mais atento aos doadores do que ao público.

    “É uma má ideia deixar o governo e as pessoas ricas assumirem o negócio de notícias e deixar os distribuidores completamente fora do gancho”, disse David Chavern, presidente e diretor executivo da News Media Alliance, o principal grupo de lobby da indústria jornalística, que representa redes e pequenos editores locais e está buscando ajuda do governo. (Um ativo legado do setor de jornais é ter um bom lobista em Washington.)

    Ele argumenta que a melhor política pública e a salvação para seus membros é forçar o Google e o Facebook a pagar pelas notícias em suas plataformas.

    Nada disso é resolvido ou fácil. O debate mais acalorado em locais onde os executivos de notícias sem fins lucrativos se reúnem – atualmente, principalmente uma discussão inesperada sobre o Slack – é se é sempre seguro ou ético receber financiamento do governo. O nome do canal do Slack? #apocalypsenow.

    Ben Smith é o colunista da mídia. Ele ingressou no The Times em 2020, depois de oito anos como editor-chefe do BuzzFeed News. Antes disso, ele cobriu política para Politico, The New York Daily News, The New York Observer e The New York Sun. E-mail: ben.smith@nytimes.com @benyt

    • Extraído do New York Times. Uma versão deste artigo aparece impressa em 30 de março de 2020, Seção B , página 1 da edição de Nova York, com a manchete “Bailing Out Publishers Is Pure Folly” (Afiançar os editores é pura loucura). 

     

  • IVANIR JOSÉ BORTOT / BC tem sido negligente no combate à volatilidade cambial

    O Banco Central (BC) tem sido no mínimo negligente em sua política cambial. A volatilidade cambial com variações diárias de 1% a 2% para cima ou para baixo tem provocando muita dor de cabeça aos exportadores e importadores. Se as pessoas errarem de mão nestas operações poderão arcar com um prejuízo equivalente à inflação de um ano, trazendo consequências para rentabilidade do seu negócio.

    Sem falar que o câmbio tem papel fundamental na formação de todos os preços da economia e na relação de trocas entre o Brasil e o exterior. De fevereiro a junho de 2020 o dólar passou de R$ 4,20 para R$ 5,30. Um remédio, um insumo agrícola, matérias-primas e industriais estão cada vez mais impactados pela valorização do dólar. É verdade que quem está ganhando neste momento é o exportador, mas esta valorização do dólar terá reflexo sobe o comportamento da inflação.

    O presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse há poucos dias que ainda não há uma causa clara para as oscilações e desvalorização do real. Sem um diagnóstico preciso fica difícil a autoridade atuar no mercado para acabar com essa volatilidade.

    Mesmo sem saber os fundamentos, a autoridade monetária deveria seguir o mercado que atua na lógica da oferta e da procura. É simples: se está faltando dólar no mercado e o preço está subindo, a área de câmbio do BC deveria entrar vendendo papel moeda ou fazendo operações com seus papéis cambiais. Se tiver caindo muito, entra comprado.

    O nível de reservas internacionais atual do Brasil, de US$ 350 bilhões, divisas a custos elevados para fazer frente a crises econômicas como esta da covid-19, deveria ser usado para conter as especulações do mercado. São recursos que deveriam ser usados para honrar compromissos externos e evitar que este tipo de especulação cambial que vem ocorrendo seja mais um fator de insegurança aos agentes econômicos, empresários e consumidores.

    O ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a dizer que a venda de US$ 70 bilhões poderia ser realizada para abater parte da dívida pública federal, sem que isso deixasse o Brasil vulnerável em suas reservas. O preço de hoje, a venda destes dólares, que foram comprados a um preço muito mais baixo pelo bancos centrais, sem falar no lucro da operação, daria para o Tesouro Nacional abater pelo menos RS$ 35 bilhões.

    Estudos internos feitos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2019 indicavam que o Brasil poderia vender até U$ 150 bilhões sem comprometer a capacidade do País honrar seus compromissos externos. A regra é de que um País precisa ter reservas internacionais equivalente a 12 meses de suas importações.

    Tudo indica que a autoridade monetária tem evitado fazer operações mais fortes no mercado de câmbio, não por desconhecer os fatores que têm provocado depreciação do real, mas sim pelo temor dos reflexos na sua política monetária. É que houve um encurtamento nos prazos  da dívida pública com a crise do Covid-19 e hoje os volume de rolagem dos papéis do Tesouro nacional equivalem a 1,7 vezes apenas ao saldo das reservas internacionais do País.

    Ivanir José Bortot é jornalista.

  • MIRIAM GUSMÃO / O Jornalismo entre o cultivo da desinformação e o interesse público

    Um alento: ficamos sabendo, nos últimos dias, que estudantes de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco realizam um trabalho social, na periferia de Recife, colaborando com as comunidades que inventam meios próprios para combater o novo coronavírus. O projeto que desenvolvem chama-se “Manda no zap” e consiste na produção de breves mensagens para celular, em que traduzem, em linguagem clara e simples, as orientações científicas para evitar a propagação do vírus e enfrentar as infecções. Algumas pessoas atuam como contatos, nas comunidades, recebendo as mensagens e se encarregando do compartilhamento em grupos de whatsapp. É uma iniciativa aparentemente pontual, que dá resposta a uma circunstância específica. No entanto, além de atender a uma necessidade coletiva momentânea e localizada – o que, por si só, é importante – a produção da informação, com as devidas fontes e a serviço de todos, reveste-se de um simbolismo maior, no momento em que tantos jornalistas dedicam-se à desinformação. A atitude desses futuros profissionais da comunicação nos traz esperança de dignidade, em meio à canalhice vigente. Podemos colocar em contraste atitudes como essa e a ação experiente de jornalistas sem qualquer compromisso social, que adquirem prestígio servindo a interesses inconfessáveis em jornais, portais e emissoras de TV e rádio. O auge da manipulação tem ocorrido nos espaços jornalísticos supostamente dedicados à análise das notícias, com pretensas interpretações especializadas. É nesse palavreado enganoso que fatos são omitidos ou distorcidos, declarações são descontextualizadas e ocorrem juízos de valor com ausência do necessário posicionamento equidistante em relação aos envolvidos. Sem desconsiderar que há exceções respeitáveis, podemos dizer que a desinformação vem sendo cultivada por dentro dos veículos que teriam a função social de informar. Um exemplo gritante desse fenômeno é o programa  Os pingos nos is, da Rádio Jovem Pan de São Paulo. Um desalento.

    Desde o nome, o programa engana o ouvinte desavisado. A conhecida expressão “colocar os pingos nos Is” (que, em linguagem mais rigorosa, seria colocar os pontos nos ii) dá ideia de clarear informações; resolver questões duvidosas, obscuras ou incompletas; esclarecer. E o formato, com um âncora (apresentador) e três comentaristas, presumidamente de alta competência, tenta indicar que o ouvinte terá, sem qualquer esforço, as informações dissecadas, analisadas, com objetividade e credibilidade, doa a quem doer. Não é o que ocorre ao longo dos seis anos de existência desse arremedo de jornalismo que, na verdade, mesmo com as trocas de elenco, sempre esteve a serviço de ideologias, fazendo verdadeiras campanhas, dissimuladas ou não. No momento, esses agentes da manipulação da informação (cujos nomes não merecem referência)  estão empenhados na defesa do governo Bolsonaro e da presença de militares em áreas técnicas do governo, bem como na execração pública de quem levantar algum questionamento sobre a dramática situação do país na pandemia. O alvo dos ataques, tradicionalmente no âmbito dos políticos de esquerda e dos movimentos sociais, agora abrange também o Supremo Tribunal Federal, bem ao gosto do presidente da República e de sua família.

    Ainda no dia 22 último, o programa voltava a fomentar, sempre partindo de informação distorcida, a pretendida crise entre o ministro Gilmar Mendes e as Forças Armadas. Com arrogância e falso moralismo, os comentaristas voltaram a adjetivar – chamando de leviana – a suposta afirmação do ministro, que teria ofendido a instituição militar, associando-a à prática de um genocídio. Nem mesmo a transcrição, na íntegra, por outros veículos de comunicação, das afirmações de Gilmar Mendes serviu para colocar os verdadeiros pontos nos is. As referidas afirmações ocorreram no dia 11 de julho, quando da participação do ministro e de especialistas em Saúde Pública numa live da revista Istoé, mas seu conhecimento integral em nada mudou a campanha manipuladora. Igualmente não motivou ponderação a nota que o ministro publicou no dia 14 de julho, contextualizando suas afirmações e afastando a hipótese de pretender ofender as Forças Armadas. Os comentaristas preferiram continuar sua pregação, usando como dado novo, sem alterar a linha de abordagem, um vídeo em que o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, falava do empenho da instituição no combate à pandemia. Não chamou a atenção desses “dedicados” analistas uma frase importante desse vídeo: o laboratório químico e farmacêutico do Exército aumentou significativamente a produção de cloroquina e de álcool em gel e distribuímos para as nossas organizações militares de saúde, colocando-os à disposição dos médicos e pacientes. Não era o intuito, mas eis que o vídeo traz mais uma comprovação da ação dos militares em sintonia com Bolsonaro e em dessintonia com a Ciência e com as orientações da Organização Mundial da Saúde. Como se sabe, a cloroquina não se mostrou adequada ao combate da covid19 e seu uso atestou incidência de efeitos colaterais graves, com risco e até ocorrência de morte.

    O ponto central do debate promovido pela revista Istoé havia sido a preocupação de todos os participantes com os números alarmantes de infectados e mortos pela covid19 no Brasil, sem que exista uma política nacional integrada para o enfrentamento da pandemia. Os debatedores, na ocasião, apontaram como um dos grandes problemas a não nomeação, desde maio, de um ministro da área médico-sanitária para a Saúde, assim como o fato de o general que assumiu interinamente o ministério ter nomeado nove outros militares para cargos-chave da pasta, que deveriam ser ocupados por técnicos. Os debatedores refutaram, como tática politica inaceitável, a alegação de Bolsonaro de que o STF retirou o poder de ação da União e o entregou aos estados e municípios. Nesse contexto, o ministro Gilmar Mendes lembrou que o STF, na linha do modelo tripartite previsto na Constituição, reiterou a corresponsabilidade da União, estados e municípios, admitindo ações dos poderes estaduais e municipais, desde que pautadas por critérios científicos. A constatada negligência de Bolsonaro, sua falta de atenção à vida dos brasileiros, e a mencionada entrega de cargos a militares levaram o ministro do Supremo, nesse debate, a alertar que as Forças Armadas são instituição de Estado e não podem ser requisitadas para políticas de governo, e que o Exército não pode ser associado a um genocídio. Ainda na ocasião, defendendo a postura do STF diante da crise sanitária, Gilmar Mendes lembrou que foram suspensas normas relativas à Lei de Responsabilidade Fiscal, a fim de viabilizar a ação do governo na emergência. O ministro, além disso, levantou questões interessantes a serem pensadas, como o direito à boa governança, muito reconhecido na União Europeia. À luz desse direito, não seria aceitável o vazio no Ministério da Saúde. Também mencionou a desatenção às condições sanitárias da periferia, no Brasil, e, citando o economista José Roberto Afonso, com quem conversou a respeito, defendeu uma necessária Lei de Responsabilidade Social, talvez a ser pensada no pós-pandemia.

    Como se pode constatar, é enorme a distância entre os acontecimentos e os comentários dos supostos analistas. Boa parte do público, que não acompanhou o referido debate, adotará como verdade a manipulação da informação feita por quem, supostamente, coloca os “pingos” nos is. Um dos três comentaristas, no dia 22, chegou a sustentar que o STF teria, de fato, impedido que o governo federal concretizasse seu plano de ação contra o coronavírus. Faltou dizer em que consistiria o plano de ação interrompido, algo além da inútil carga de hidroxicloroquina vinda dos Estados Unidos, da demissão intempestiva de dois ministros da Saúde, do foco único nos interesses empresariais, da incitação à desobediência às normas sanitárias, da destinação, por longo tempo, de apenas 29% do dinheiro disponível para as ações de combate à pandemia (conforme relatório do Tribunal de Contas da União), das afirmações desrespeitosas e insensíveis do presidente da República diante do luto de milhares de famílias. No entanto, os comentaristas manipuladores  prescindem dos fatos, não têm qualquer compromisso com a verdade. Não fazem jornalismo, apenas servem a jogos de interesses. Desse modo, negam à população o direito à informação, previsto na Constituição Federal de 1988. É o exercício desse direito que possibilita a democracia e a cidadania, com a inserção de cada indivíduo, como sujeito de suas ações, em questões coletivas. É com a informação que se torna possível o conhecimento de protocolos e a civilidade da população. A informação é também ferramenta de controle social, capacitando o monitoramento das atuações de governantes, permitindo a escolha consciente de representantes, a compreensão mínima dos contextos, a expansão dos projetos de vida.

    Por isso é alentador saber que estudantes de Jornalismo, em Pernambuco e, possivelmente, em outros lugares do Brasil, não seguem o mau exemplo da canalhice vigente e mantêm vivo o compromisso com a informação. Aliados a voluntários, nas comunidades da periferia de Recife, realizam um trabalho social de extrema importância neste momento grave de pandemia. É a dignidade do jornalismo preservada, dentro da luta maior pela dignidade dos seres humanos, particularmente dos abandonados pelo Estado, em localidades pobres deste país tão desigual. No momento em que a rádio Jovem Pan e outros veículos manipuladores põem no ar os seus farsantes, é alentador saber que há ciclistas circulando por bairros, vilas e favelas, com aparelhos de som adaptados nas bicicletas, levando as necessárias informações aos moradores. E, driblando as Fake News do whatsapp, uma rede de informação valiosa consolida-se, ao mesmo tempo em que alicerça a formação de jornalistas que poderão recuperar a ética e fazer a diferença.

    Miriam Gusmão é professora aposentada e jornalista.