GERALDO HASSE: Um tiro na água

A privatização da Corsan, pretendida pelo governador e autorizada pela Assembléia, está se configurando como um tiro na água. Primeiro porque não atenta para as necessidades da maioria da população; segundo, porque visa agradar à minoria empresarial que se compraz na busca de boas oportunidades de lucro.

Já que não dá prejuízo, a Corsan poderia captar sócios para acelerar sua ação em prol da maioria. Por que ninguém quer ser parceiro de uma estatal lucrativa?

O ‘case’ Corsan tende a deixar claro que não pode ser considerado bom gestor público quem considera correto e/ou viável entregar à iniciativa privada o abastecimento de um bem de primeira necessidade para a população. O currículo do atual governador diz que ele estudou para isso (gestão pública). Temos aí uma contradição entre teoria e prática. Isso sem falar que na campanha eleitoral o próprio candidato teria prometido não privatizar a Corsan.  Mudou de idéia? Ou simplesmente enrolou os eleitores?

Não vale dizer que a venda da empresa foi autorizada pela maioria da Assembléia. Agora, tocar o processo às pressas gera a desconfiança de que haveria uma ânsia de arrecadar recursos para financiar candidaturas em 2022. São detalhes que vão sendo jogados nas valas abertas pelas patrolas da privatização.

Antes que seja tarde, é preciso deixar claro que privatizar um serviço essencial à vida humana é uma leviandade que se apresenta com a roupagem moderna do (neo)liberalismo, cujos devotos vazam na hora H.

Verifique-se como estão as coisas em Uruguaiana, onde o serviço de água e esgoto foi entregue em 2011 à Odebrecht Ambiental, que alguns anos depois — respingada pela Lava Jato — passou o negócio à canadense BRK, que tergiversa diante das cobranças de que está falhando.

Ora, não faz sentido transferir para mãos privadas — como negócio — um serviço tocado há décadas por gestores públicos que já costumam contratar terceiros para obras de saneamento. Tudo indica que é mais fácil corrigir lacunas e senões do que simplesmente jogar fora o vovô com a água da bacia.

Se a privatização é uma porta aberta para a valorização (isto é, o encarecimento) do serviço de abastecimento, quem vai fornecer água gratuita para as bicas das vilas desassistidas pelo estado? Quem vai cuidar efetivamente da canalização dos esgotos e do saneamento básico?

Estamos cansados de saber que tudo isso é direito dos cidadãos e tarefa dos governos, mas sempre aparece alguém disposto a burlar o compromisso e fugir à responsabilidade. Isso é gestão pública — no sentido democrático da expressão?

 

ELMAR BONES: Paulo Guedes, do ajuste ao paraíso

Ninguém duvidou da revelação que o superministro da Economia, Paulo Guedes, tem R$ 51 milhões numa offshore (extra-território, fora do alcance das leis que regulam os ganhos de capital).

Todos consideraram um fato menor. Toda a dita grande imprensa (Globo e afiliarados, Folha de São Paulo, Estadão, Bandeirantes, etc), que não foi atrás dos fatos, mal tocou no assunto.

Não informou sequer qual o ramo de atividade da empresa, a “Dreadnoughts” ( tipo predominante de navio de guerra encouraçado no início do século XX, segundo a Wikipedia)

As declarações do ministro de que tudo está dentro da lei, bastaram. A questão politica e moral foi desconsiderada.

Uma política econômica, que sacrifica o trabalhador ao atrelar os preços internos ao dólar, beneficia o ministro que tem seu capital aplicado no exterior e, ainda por cima,  livre de impostos.

Não é estranho que, pela lógica financeira, se justifique esse contra-senso. Está dentro das leis, o capital é como a água, escorre por onde há menos resistência.

Mas como explicar ao trabalhador que tem seu salário congelado (quando não reduzido) e enfrenta uma escalada dos preços que lhe ameaça a sobrevivência?.

Como levar a sério um ministro que prega o ajuste fiscal e, em nome dele, defende o corte de gastos sociais,   ao mesmo tempo em que protege seus cabedais  abrigando-os num “paraíso fiscal”, onde não paga impostos.

Um defensor do ministro disse que R$ 51 milhões são “uma merreca” comparados à fortuna de Paulo Guedes. Aí está uma boa pauta para os deputados que vão inquirí-lo: qual o tamanho da fortuna de Paulo Guedes e onde ela está?

A mínima obrigação de um ministro, que impõe sacrifícios ao povo, deveria ser explicar de onde vem o seu dinheiro.

 

LOURENÇO CAZARRÉ: Mestre da Palavraria

Conheci José Antônio Severo em Brasília, no começo de 2017, quando nós – jornalistas da Princesa do Sul exilados no Planalto, uma alegre e colorida comunidadede velhinhos – lançamos um livro intitulado “50 tons de rosa – Pelotas na ditadura”. O título era tão infeliz e infame que fez com que perdêssemos um prêmio literário importante. Mas, em compensação, aquilo que obramos recebeu um tremendo elogio do Severo:

– O de vocês é o único livro sobre a ditadura que se lê dando gargalhadas.

É verdade. Uma das partes mais divertidas do livro é aquela em que o Lúcio Vaz – que devassou os arquivos nefandos – reproduz os textos canhestros dos espiões da nossa “redentora” sobre os “perigosos” subversivos locais.

Na própria sessão de lançamento, em um restaurante de pratos caros e pequenas porções, Severo embrenhou-se na leitura do opúsculo e o devorou. Alguém de nós tem a foto de um senhor elegante enfronhado na leitura em meio à badalação estéril.

Caraoquê

Um segundo contato ocorreu quando umantigo jornalista gaúcho e agora artista plástico paulistano, chamado Ênio Squeff – um turco nascido no meio da italianada da Serra -, me ligou informando que levaria um amigo para o jantar que teríamos naquela noite em minha casa. A reboque arrastou consigo o multi-instrumentista José Antônio Severo.

Ao final da noite, vários escoceses derrotados -esvaídos, caídos sobre a mesa, sem fôlego para soprar suas obscenas gaitas de fole –, os dois setentenáriossenhores saíram incertos para a noite solitária.

Baleado na asa, como diz o povo das nossas incultas cidades fronteiriças, o bem-comportado Ênio, que é mais bonito que o Omar Sharif, quis recolher-se logo à casa de seu filho que mora em Brasília, o economista Gabriel.

Severo discordou. Tinha em mente um programa bem mais movimentado. Queria arrastar o otomano até um caraoquê, onde elespoderiam seguir palavreando e apojando.

Não conseguiu. Squeff recolheu-se.

Dono da cena

Quem conheceu o Imperador de Caçapava do Sul sabe que, onde querque chegasse, o jornalista e escritor José Antônio Severo – que também andou dando uns tapas na arte cinematográfica- assumia a cena. Especialmente se a tomada estivesse sendo filmada em torno de uma mesa engarrafada.

Como sempre fui apaixonado por História, identifique-me de imediato com aquele sujeito alto e desempenado nos seus setenta e tantos outonos. Era proprietário de uma invejável cabeleira integral e ligeiramente grisalha, ao contrário da minha, dez anos mais nova, porém totalmente branca e rarefeita na cumeeira.

Os amigos que o conheceram jovem dizem que Severo era um pão, um galã do tipo portenho, sempre trajando ternos bem cortados e de cabeleira riscada na lateral elambida com muito Glostora. Por esses distantes anos – asseguram seus invejosos parceiros -, sem muito esforço,José Antônio extraia fundos e enternecidos suspiros das criaturas do remotamente considerado sexo frágil.

Pois bem, ao redor de uma távola, todo assunto que era levantado – político, histórico, econômico, comportamental ou artístico – Severo cortava.

 Sujeito de vastíssima cultura, para cada tema que pipocasse, ele tinha sempre uma informação desconhecida, inesperada, surpreendente.

Curtido em décadas fumacentas ao redor de mesas de bar, ele cortava até mesmo quando estava, como dizia, batendo em retiradasem munição. Ou seja, dava umas talhadas na melancia mesmo quando seu conhecimento sobre a bobagem tratada era insuficiente.

Como sabem os que estudam essa maravilhosa ciência que é conversa vadia de boteco, sempre desencontrada e perfeitamente inútil, o grande contador de história é aquele que descobriu, ainda jovem, que os fatos verdadeiros pouca ou nenhuma importância têm em uma noitada fluída.

O que vale – dizem os poetas e os dementes – é o estilo, a técnica, a sintaxe, a prosopopeia. E, claro, a performance cênica: a tragada funda no mata-rato, a inclinação estudada do copo e a potência da voz. O vozeirão do Severo era daqueles de acuar guaipeca contra o alambrado.

Historiador

Depois de ler osdois volumes da obra de Severo sobre guerras no Sul da América, pensando elogiá-lo, eu disse a ele que, no meu imodesto entender, ele era, no fundo, um verdadeiro historiador, um redator de epopeias,lamentavelmente perdido para o ramerrame rasteiro do jornalismo.

Eis que José Antônio, que era um lorde britânico, quase perdeu as cadernetas. Desencontrou-se de sua fleugma. Desatinou-se. Que não! Que era um repórter puro sangue!Um mastim farejador!Que havia dado um furo mundial sobre o preço ou produção de petróleo nos anos 1970, quando viajava frequentemente às Arábias. Que dirigira redações pesadas. Que criara um grande jornal televisivo. E por aí se foi.

Não retruquei. Mas ainda mantenho o meu veredicto.

Cavalheiro gentil e generoso

Quando digo queJosé Antônio Severo era um gentleman londrino, eu me refiro também à maneira como ele era visto pelas donzelas. Era um cavalheiro às antigas. Sem a falsa cordialidade dos, hoje, politicamente corretos. Era um galanteador nato, porque herdara esse dom de seus ancestrais.

Gentil e atencioso com as damas, ele era o exato contrário da maioria dos bárbaros barbadosque, quando mamados, não prestam atenção às moças da mesa, quase sempre mais interessadas em discutir assuntos transcendentes e elevados. Como A Relação.

A extrema generosidade é um outro traço que certas literaturas costumam conceder aos personagens cavalheirescos. Severo deu inúmeros exemplos de sua magnanimidade.

Como exerceu muitos cargos de comandância, pode ajudar muitos colegas competentes que – pelas catástrofes quase diárias do jornalismo – se viram de repente de mãos abanando e privados do ganha-pão.

Amigos contam, porexemplo, que Severo foi o elemento que conseguiu – em um tempo em que eram raros os agentes literários – a edição de um livro do jornalista gaúcho Walter Galvani sobre Pedro Álvares Cabral. Essa obra valorosa, fruto de vasta pesquisa, poderia ter naufragado numa editora pequena, mas o nosso herói obteve que fosse lançada por uma casa editorial de peso. O livro ganhou depois, inclusive, um destacado prêmio internacional.

Craque das noitadas

Deixo para os que conviveram com Severo nas muitas redações que ele chefiou brilhantemente a escritura das suas muitas histórias e vitórias no jornalismo.

Com esse texto quero registrar apenas o carinho que eu sinto por um craque das noitadas, um mestre da palavraria eum terno e sequioso amante daquilo que a Escócia produz de melhor. Nas madrugadas que atravessamos juntos, jamais deixamos em pé um desses sujeitos que vestem saias xadrez.

Numa época em que passava frequentemente pela loja livre de impostos do aeroporto, eu comprava a minha cota já pensando no Severo.E guardava os JoãozinhosCaminhadores verdinhos e dourados para o grande connoisseur e apreciador, sir Joseph Anthony.

Lembro,ainda, o prestígio que Severo conquistou – com sua conversa cintilante – junto aos poucos jovens que frequentam aquela mesa que costuma receber, prioritariamente, pessoas da melhor idade.

Melhor? Sei.

Meu filho Érico, cineasta e jornalista, e meu genro Rafael, diplomata, ambos chegando aos quarenta, ficaram imediatamente cativos do charme desse imenso contador de boas histórias quando o conheceram.

Escritor

Passemos agora aos dois grandes livros – Rios desangue e Cinzas do Sul– sobre os quais escrevi uma resenha em que ressalto importância e as peculiaridades desse trabalho historiográfico que mescla muito jornalismo com uma pitada de ficção.

Reproduzo a seguir trechos do meu tratadoseveriano:

“Leitor entusiasmado dos historiadores que narraram as incontáveis guerras, revoluções, revoltas, insurreições, quarteladas e rebeliões que sacudiram o Cone Sul entre os séculos 18 e 19, o jornalista gaúcho José Antônio Severo devorou também as negligenciadas obras publicadas em pequenas editoras por autores de final de semana. Para conferir, visitou os locais que foram palco das maiores batalhas travadas naquele período. E juntou a tudo isso conversas que, quando menino, escutava de seus ancestrais, participantes desses entreveros. Para amarrar o pacote, inventou um fio literário – a vida de um dos maiores militares brasileiros, o general Manuel Luís Osório, o marquês do Herval”.

“Com uma carreira jornalística de mais de meio século, vivida em algumas das principais redações do país, José Antônio Severo escreveu em cerca de 10 meses 100 anos de guerra no continente americano, obra de dimensões pampianas, com um total de 1.089 páginas…”

“Talvez se possa dizer que o grande mérito deste livro, além, claro, de sistematizar toda uma vasta e dispersa bibliografia, é a presença de um jornalista em uma seara quase sempre restrita a excessivamente contidos, ou por vezes derramados, historiadores”.

“Com um texto ágil, claro e direto, despido dos conhecidos rococós retóricos característicos da América Latina, Severo esboça diante de seus leitores um quadro amplo e detalhado das lutas que acabaram por moldar os quatro dos países do extremo sul da América Latina”.

“Repórter acima de tudo, o autor comparece com grande número de informações pouco ventiladas que surpreendem até mesmo ratos de biblioteca razoavelmente versados nesse tipo de literatura…”

“…fala da introdução da alfafa em uma terra onde os pangarés só comiam grama rala; das carretas de bois que necessitavam de doze juntas para arrastar 80 arrobas; que o custo de um escravo era cinco vezes maior do que o de um imigrante europeu; conta que os caudilhos argentinos Rosas e Urquiza eram os dois homens mais ricos daquele país; que cada soldado de cavalaria arrastava consigo três rocins mal nutridos; que os fortíssimos cavalos de batalha, ferrados e alimentados a milho, só eram usados nas cargas; que os cavaleiros minuanos e charruas levavam um homem na garupa para lançá-lo dentro da linha de defesa dos brancos; descreve a tomada de Porto Alegre pelos guerreiros farroupilhas e de como eles a perderam depois de um porre geral e homérico; informa que dom Pedro II já era a favor da abolição em 1845 e que lamentava que ela não fosse aprovada no Parlamento por oposição das bancadas de Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo; esmiúça a profunda ligação de Caxias com o Rio Grande do Sul por 20 anos (foi governador e senador pelo Estado); informa que para viajar a Mato Grosso a rota mais cômoda era a marítimo-fluvial, passando por Montevidéu e seguindo por rios interiores; que o Paraguai antes da guerra não tinha moeda, mas havia implantado a primeira linha de trem da América do Sul; que Solano Lopez em sua fuga final conduzia sua mãe e sua irmã, prisioneiras, em uma jaula; que o espião do Paraguai em Montevidéu era o embaixador português; e lamenta os imensos prejuízos trazidos por esses conflitos sempre acompanhados de saques e violações”.

Dedicatória

Cerca de dez dias antes da morte de José Antônio Severo, minha editora, Sônia Junqueira, das editoras Autêntica e Yellowfante, sugeriu-me que colocasse uma dedicatória no livro Amor e guerra em Canudos – novela juvenil que tem a cidade de Antônio Conselheiro como cenário.

Lasquei:

Para José Antônio Severo, meu historiador favorito, dedico este livro que ele leu quando ainda era um esboço.

Eu queria fazer uma surpresa a ele. Creio que se alegraria muito, embora sempre ficasse meio sestroso e desconfiado quando eu dizia que ele era “O Heródoto da pampa”.

Infelizmente, José Antônio não receberá o primeiro exemplar autografado, como eu planejava. Eu o enviarei para Célia, sua esposa.

Célia e sua irmã Celma, que formam uma consagrada dupla musical, brindaram nossa confraria com um breve e delicioso recital quando vieram com Severo a Brasília.

PS1.Detalhe sob o qual eu jamais falarei, mesmo sob ameaça de ser guilhotinado: o grande Severo, ao ler esse meu livro no original,descobriu um erro histórico que havia escapado à minha – e de outros desatentos – revisão. Sem Severo, o livro sairia com uma barrigada.

PS2. Depois dessa “barrigada”, só nos resta, a nós, velhos jornalistas, dos tempos de Remington e Olivetti (não eram jogadores de futebol, viu, garotada?), encapar nossas máquinas de escrever e sair em busca de um boteco pé-sujo para beber uns licores em memória dessa figuraça inesquecível.

GERALDO HASSE: Esse tal de Severo

A morte de José Antônio Severo foi um choque porque, embora beirasse os oitenta anos, ele sempre exibiu confiança e dinamismo, e não dava mostras de esmorecer em seu ânimo de viver.

Ninguém esperava que ele partisse tão cedo. Entre muitos amigos e colegas, seu próprio nome soava como uma fortaleza inexpugnável.

Basta lembrar o que talvez tenha sido seu último bilhete, duas ou três linhas escritas no início de sua última tarde (23 de setembro), quando ele pediu desculpas por não poder participar da live semanal da Coonline, coordenada por seu tocaio José Antonio Vieira da Cunha – todas as quintas na hora do Angelus: “Tenho uma consulta médica”, justificou, escamoteando o verdadeiro motivo de sua ausência: estava indo para uma cirurgia pulmonar programada para contornar sequelas da covid-19 contraída no primeiro semestre de 2021. Morreu sedado, mas na plenitude de suas faculdades mentais.

É o caso de indagar onde foi parar sua inquietação de repórter; sua disposição de viver; seu gosto pela conversação.  Ele foi jornalista a vida toda — um jornalista autodidata que fez da leitura, da pesquisa e da reportagem suas ferramentas de trabalho num ofício para o qual, alguns anos depois, se exigiria formação em curso superior de comunicação social. A partir dos 18 anos, começando como repórter agrícola, saltou de uma redação a outra, aceitando convites que lhe pareceram bons desafios profissionais.

Assim chegou a cargos de chefia em grandes veículos da mídia. Se alguma vez quebrou a cara em suas mudanças de trabalho, não dava a mão à palmatória, tampouco dava tempo para mágoas ou rancores. Sempre em movimento, cultivou amigos na imprensa nanica, mas nunca chegou a vestir a camisa de um daqueles jornais que desafiaram a ditadura militar.

Ele já tinha dez anos de janela quando o conheci na redação da Veja, de onde ele estava saindo (após trabalhar na revista Realidade) para ajudar na construção da revista Exame, que nasceu como mensal de economia e negócios da Editora Abril, a mais poderosa empresa editorial brasileira, ao lado do Estadão e de O Globo. Isso foi em 1972, quando Severo já buscava o viés histórico das coisas. Na nova revista, coube a ele editor um encarte sobre a gênese de grandes empresas que brilhavam na Bolsa de Valores: Antarctica, Brahma, Gerdau, Metal Leve etc. Todo mês, a revista publicava na capa um retrato a óleo (do personagem central da matéria histórica) pintado por Jaime Figuerola, artista plástico. A tela original, emoldurada, era dada de presente ao empresário focalizado. Quem levava o quadro à fonte? Ora quem. Isso, até mudar de emprego.

Com ele não tinha conversa fiada. Não é que levasse tudo a sério. Possuía um invejável senso de humor. Contava causos dando risada. Mas não era de falar abobrinhas. Lia muito, costurava as informações colhidas em diversas fontes e chegava a conclusões esclarecedoras, que gostava de passar aos amigos e compartilhar com os leitores. Seus textos ricos em informações não vinham com floreios e metáforas. Seu estilo era direto. Por isso ele era fonte de consulta para os colegas. Se não tinha a informação, sabia quem tinha. Era muito bem relacionado nos meios oficiais. Não tenho na memória todos os lances de sua carreira, mas algumas vezes me surpreendi com sua capacidade de se manter em boas posições.

De repente, estava trabalhando na Copesul com o ex-ministro Cirne Lima, que lhe propiciou recursos para uma profícua gestão na área cultural. Basta lembrar as obras literárias e históricas publicadas na década de 1990 e na primeira década do século XXI. Poderia ter sido um trabalho de prestígio e boa remuneração para o resto da vida, mas o instinto de sobrevivência o levou para longe de Triunfo no momento em que a Braskem comprou a central petroquímica rio-grandense.

Por conhecer diplomatas, militares, fazendeiros, deputados, advogados, cronistas, poetas e músicos, ele sempre transitou com facilidade pelas fronteiras que supostamente devem separar o jornalismo, a vida empresarial e as atividades no âmbito do governo. Tudo isso sem renunciar ao estilo que se tornou sua marca. Na Gazeta Mercantil foi um diretor itinerante que levava recados da direção às bases e vice-versa. Nesse aspecto, ele era um jornalista que fazia política de bastidores, conversando, sondando, captando o clima das sucursais e dando munição para mudanças e saídas.

Quando eu pesquisava a história da mecanização agrícola do Brasil, na década de 90, consultei-o sobre o que havia acontecido na sua região natal, entre Caçapava e Bagé, nos anos 1950. Ele sabia por ser filho de fazendeiro (Alberto Severo, diretor da Farsul nos anos 60) e por ter estudado na Escola Técnica Agrícola de Viamão. Poderia ter dito que não se lembrava de nada, era muito guri… Na realidade, tinha vivenciado o desenrolar, no próprio quintal, da política de incentivo à autossuficiência da produção de trigo, com financiamento do Banco do Brasil. O trigo cultivado no inverno e colhido no final da primavera abriu caminho para a implantação da lavoura de soja. Resumo da história: a mãe dele, Dona Corina, fez parte de um grupo de mulheres que havia se esforçado para difundir o leite de soja entre a juventude rural de Caçapava do Sul (quem comandou a campanha da soja no Estado de São Paulo, nos anos 50, com apoio do governador Janio Quadros, foi o agrônomo José Gomes da Silva, que ganhou por isso o apelido de Zé Sojinha; seu filho José Graziano da Silva, também agrônomo, criou o programa Fome Zero e foi por oito anos diretor da FAO, de onde voltou há um ano; por aí se vê que a soja tem boas raízes no RS e no Brasil).

Daquela conversa com a “fonte Severo”, veio à luz um outro lado até então desconhecido da história do nosso amigo jornalista: a mãe dele, quando solteira, veio estudar em Porto Alegre e morou por quatro anos a partir de 1928 na casa de Antonio Augusto Borges de Medeiros (1863-1961), o próprio ex-presidente da província, tudo isso graças às velhas amizades familiares caçapavanas. Eis outra conclusão que pode parecer ousada mas é plausível: filho de um casamento de maragato com chimanga, Severo aprendeu em casa os ritos da conciliação que forjaram seu modus operandi equilibrado como cidadão e jornalista.

Embora trabalhasse em prol da harmonia, ele admirava os usuários das forças militares. Era admirador da Brigada Militar, cultivava a leitura dos microhistoriadores municipais, especializados na narrativa de batalhas localizadas em pequenos redutos do território gaúcho. De tanto ler acabou se tornando apto a escrever Os Senhores da Guerra, Rios de Sangue, Cinzas do Sul e as 1 mil páginas biografia do General Osório, livros que lhe deram a chance de repassar a história das guerras e revoluções do Sul. Dando ênfase às batalhas e a detalhes como os armamentos e as táticas militares, ele se pôs num patamar raro – um tanto ensaísta, bastante historiador, meio romancista.

Com essa capacidade de trabalho, fazendo pontes onde quer que se encontrasse, criava oportunidades onde aparentemente não havia chance de plantio nem de colheita. A mim ele sempre surpreendeu por sua mobilidade. Num momento estava morando em Santiago a serviço da agência Prensa Latina. De repente me aparecia na TV Globo como editor-chefe e comentarista do Jornal da Globo, às tantas horas da noite. Depois se mudou para a TV Bandeirantes. No ano passado me disse que estava procurando um copywriter para um livro de Aldo Rebelo (editado pelo JÁ).

A última surpresa foi saber que mesmo baleado pela covid-19 vinha trabalhando num futuro seriado da TV Cultura de São Paulo sobre os 200 anos da independência do Brasil, a se comemorar em 2022. Foi seu derradeiro trabalho, justamente na TV, onde ele juntou tudo o que sabia e tinha vivido como repórter, pesquisador, historiador e produtor de cinema – aqui, uma de suas experiências mais gratificantes, ao lado do multimídia Tabajara Ruas.

Um repórter-historiador gaúcho trabalhando na TV estatal paulista, eis uma proeza de Jantonio Severo. Como ele chegou lá? Costurando histórias, claro. Há alguns anos, ele escreveu artigos de jornal em que se mostrou admirador dos bandeirantes, que seriam os verdadeiros inspiradores do moderno espírito empreendedor do empresariado paulista. Ao destacar o lado liberal-empreendedor dos bandeirantes, Severo desdenhou o fato de que os bandeirantes mataram e aprisionaram índios, e destruíram as missões jesuísticas entre os guaranis. Ele se justificou dizendo que esse era o espírito da época e que não era nada razoável julgar fatos do passado remoto com argumentos e pontos de vista modernos. No século XVIII os bandeirantes representavam os interesses lusitanos enquanto os jesuítas eram súditos da Espanha.

CARNE ASSADA

Uma vez, durante uma conversa sobre os malefícios da carne vermelha, ele argumentou que o Dr. Carandiru é quem estava certo ao elogiar a dieta dos homens das cavernas. Ele fechou a discussão com uma declaração de princípios válida não apenas para o âmbito da gastronomia: “Eu sou troglodita”, ele disse. Sim, era mesmo, mas sem grossura. No fundo, era um gentleman, um diplomata, um conciliador. Esse perfil harmônico sempre me intrigou. Ele não metia a boca em ninguém. Nem tragueado passava dos limites da gentileza.

Uma vez, na casa em que morava no Santinho, ele espetou uma picanha e antes de coloca-la sobre o braseiro aplicou-lhe uma grossa camada de sal, de tal forma que a carne ficou esbranquiçada. Estranhei o procedimento, mas ele explicou: “É assim que os gaúchos da campanha salgavam a carne”. Desperdício de sal, pensei, lembrando que o sal era um insumo raro no Sul. Quando o assado ficou pronto, Severo usou a faca para varrer o sal ainda existente em cima da carne. Argumentei que ele não precisaria colocar tanto sal se o jogaria fora ao final. Na realidade, o excesso de sal impedira que a carne fosse queimada.

JOSÉ ANTONIO PINHEIRO MACHADO: O incrível Severo

Outubro de 1972. Madrugada gelada em Roma, onde eu estudava e trabalhava como correspondente da Folha da Manhã, um dos jornais da então poderosa Caldas Júnior.

De repente o telefone. Atendo. Era o José Antônio Severo, nosso Diretor de Redação, aflito, na ligação interurbana:

“Alô, Pinheiro! Tens que ir para Paris, urgente! Pega um avião e te manda. O Kissinger está lá para assinar a paz do Vietnam.”

Ponderei que era impossível. O aeroporto estava fechado. As empresas aéreas em greve.

“Então, vai de trem! Precisamos estar lá de qualquer maneira!”

E lá fui eu para uma viagem Roma-Paris, que na época durava 24 horas. Consegui chegar em tempo. Fiz contato com um amigo do Partido Comunista ligado ao pessoal do Vietcong e consegui uma entrevista exclusiva com “Madame Binh”, a elegante Nguyen Thin Binh, “Madame Ministre” do Vietcong, oficialmente  chamado “Governo Revolucionário Provisório”. Ela me garantiu que, ao contrário do que anunciavam os porta-vozes dos Estados Unidos, a paz só seria assinada nos termos e nos prazos que a delegação do Vietnam havia estipulado. O que realmente aconteceu. E o desmentido foi a manchete do Correio do Povo e da Folha da Manhã, com uma longa entrevista de Madame Thi Binh, absolutamente exclusiva. Tudo graças ao empenho do nosso diretor José Antonio Severo, um jornalista absolutamente fora de série, capaz de “farejar” as grandes notícias ainda que estivessem do outro lado do oceano.

Numa longa entrevista que fiz com Breno Caldas, proprietário e filho de Caldas Júnior, fundador do Correio do Povo, o “Doutor Breno” (todos nós o chamávamos assim) publicado em 1987 pela L&PM (“Meio Século De Correio do Povo – Glória e Agonia de um grande Jornal”), ele, que foi o proprietário e o poderoso diretor do Correio do Povo durante meio século, e também da Folha da Tarde e da Folha da Manhã, declarou:

“O Severo foi um grande elemento, um ótimo jornalista que tivemos lá, e que, de certa forma, foi desperdiçado, não se aproveitou devidamente…”

Além da valiosa contribuição que deu como jornalista brilhante ao Correio do Povo dos bons tempos e dos outros jornais da Caldas Júnior de Breno Caldas (Folha da Tarde, Folha Esportiva e Folha da Manhã), Severo teve intensa participação na imprensa, rádio e TV do centro do País, entre eles TV Globo, TV Bandeirantes, ….

Além de jornalista exemplar, Severo foi um brilhante escritor com vasta bibliografia onde se destacam:

“General Osório e seu tempo” (biografia, 850 páginas);

“Os senhores da guerra” (romance, 502 páginas);

“100 anos de guerra no continente americano” — (História — volume 1: Rios de Sangue, 461 páginas); volume 2, Cinzas do Sul, 618 páginas);

“A guerra dos cachorros” (romance, L&PM, 187 páginas);

“A Invasão” (ficção política, L&PM, 225 páginas)

 

SÉRGIO TAKEMOTO/ Habitação popular: política social extinta

* Sergio Takemoto

O Brasil enfrenta uma realidade inominável, de tão triste. Além de uma pandemia que se arrasta por mais de um ano e meio — com a perda de quase 600 mil vidas e mais de 21 milhões de pessoas infectadas — o país amarga uma inflação que chegou ao maior nível em 21 anos para o mês de agosto.

Convive, ainda, com taxas de juros em alta, cerca de 15 milhões de desempregados, risco crescente de escassez de energia elétrica e uma crise político-institucional que provoca incertezas e tira a paz da nação.

Além de tudo isso, o Brasil ainda registra outra marca lamentável: um déficit habitacional de 5,8 milhões de moradias, de acordo com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Neste contexto dramático e um ano após ter acabado com os subsídios para os beneficiários mais carentes do extinto Minha Casa Minha Vida — criando um programa [Casa Verde e Amarela] que não decolou e cuja entrega de novas casas está abaixo da média dos últimos anos — o governo editou medida provisória que garante acesso à moradia para uma corporação específica: os policiais.

O chamado “Habite Seguro” será operado pela Caixa Econômica Federal, com subsídios e condições de crédito especiais para cerca de 600 mil agentes da segurança pública, incluindo aqueles que já se aposentaram.

A categoria é uma das principais bases de apoio a Bolsonaro.

E por que o governo deixou de fora milhões de brasileiros que engrossam os números do MTST e também arriscam suas vidas para se dedicar ao país, como é o caso de enfermeiros, garis, pedreiros e tantos outros trabalhadores formais e informais?

Além deste fato, especialistas e até ex-ministro da Justiça questionam a legalidade do Habite Seguro.

Para bancar o programa neste ano pré-eleitoral, o Executivo vai usar R$ 100 milhões do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP), ligado ao Ministério da Justiça (MJ).

O FNSP, de acordo com o site do próprio MJ, foi criado “para apoiar projetos na área de segurança pública e prevenção à violência, enquadrados nas diretrizes do plano de segurança pública do governo federal”.

Desse modo, a ilegalidade do Habite Seguro está em tirar dinheiro de um fundo que não tem essa destinação: financiar moradia.

Parece claro, portanto, que mais uma vez o governo está usando a Caixa e recursos da União para fins políticos.

Neste caso, para beneficiar uma das principais bases de apoio ao bolsonarismo em detrimento a outras parcelas da população. Todos devem ter acesso à moradia, a um teto para viver. Mas, o governo novamente dá as costas para quem mais precisa.

Prova disso é que o montante de recursos reservados para o Habite Seguro corresponde a 25% do total de R$ 400 milhões que existem no Orçamento deste ano para o grupo do Casa Verde e Amarela com renda mensal de até R$ 2 mil.

O Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) admite publicamente o risco de paralisia nas obras do programa e pede mais R$ 800 milhões para assegurar os contratos em andamento.

Devemos lembrar que o governo Bolsonaro acabou com a Faixa 1 do Minha Casa Minha Vida (MCMV), que beneficiava, com subsídio médio de 90% do valor da moradia, famílias com renda até R$ 1,8 mil. De 2009 a setembro de 2020, foram entregues, para este grupo de beneficiários, 1,5 milhão de casas pelo MCMV, segundo relatório da Controladoria-Geral da União (CGU). ​Este ano, foram concluídas apenas cerca de 20 mil unidades habitacionais para famílias mais carentes. ​Passado um ano desde a criação do Casa Verde e Amarela, nenhuma moradia foi regularizada ou recebeu melhorias, como prometia Bolsonaro.

Trata-se de um inquestionável desmonte das políticas públicas, deixando os brasileiros mais vulneráveis fora dos programas habitacionais. Casa própria para os mais pobres é política social extinta no atual governo.

Enquanto isso, recursos obtidos com a privatização de subsidiárias estratégicas da Caixa Econômica — como também com os quase R$ 30 bilhões que serão devolvidos pelo banco público ao Tesouro por meio dos chamados Instrumentos Híbridos de Capital e Dívida (IHCDs) — serão consumidos no pagamento de juros de uma dívida pública que supera R$ 5 trilhões.

Se R$ 3 bilhões obtidos com a venda de ações da Caixa Seguridade fossem mantidos com a estatal [Caixa], por exemplo, os programas habitacionais ganhariam fôlego e poderiam financiar a construção de aproximadamente 45 mil casas a famílias mais carentes, de acordo com cálculos do próprio MDR.

Na tentativa de diminuir as críticas por beneficiar apenas uma categoria específica com o Habite Seguro, o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, anunciou a redução de juros do crédito imobiliário.

Guimarães, aliás, é o gestor que acusa, sem provar, o “desvio de R$ 46 bilhões do banco público em anos anteriores”, colocando em suspeição a honestidade dos empregados do banco que mantém a instituição na liderança do financiamento habitacional, com 70% de participação no segmento.

Desvirtuar políticas públicas e atacar trabalhadores não é, nem de longe, o caminho para trazer o Brasil de volta aos trilhos.

* Sergio Takemoto é presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae)

CARLOS CASTILHOS/ Jornal dá tiro no pé

O jornal O Estado de S. Paulo comprometeu a própria credibilidade perante seus 232,8 mil leitores diários (*) ao dedicar, numa edição de domingo (**), uma página dupla para publicar um conjunto de textos, aparentemente jornalísticos, sobre o conflito entre ruralistas e indígenas.

Aparentemente jornalísticos porque, segundo o site Intercept, os textos foram produzidos por uma agência publicitária com o suporte financeiro de uma instituição mantida por associações de grandes ruralistas e por empresas produtoras de adubos e agrotóxicos. O objetivo é fazer lobby contra o STF que deve julgar nos próximos dias um processo regulando a demarcação de terras indígenas em todo país.
A página dupla foi produzida pela empresa Estadão Blue Studio, que segundo consta em sua página web, cria “soluções publicitárias inovadoras e orientadas à performance”, ou seja, promoção dos interesses (políticos e comerciais) de seus clientes. Logo é uma produção publicitária disfarçada de material jornalístico com o objetivo de promover a ideia de que o STF deve derrubar o chamado “marco temporal”, que segundo os ruralistas “pode acabar com o agronegócio no país”.

O conjunto de três textos publicados pelo Estadão foi patrocinado pela organização AgroSaber, que se apresenta como uma “agência de notícias do agronegócio” e que segundo o Intercept é uma entidade vinculada à Frente Parlamentar da Agropecuária, a associações de produtores rurais como a ABRAPA (produtores de algodão), APROSOJA (soja) e ABRASS (produtores de sementes).

Não há nada de ilegal no fato de um jornal criar uma agência publicitária para produzir anúncios. E nem há nada condenável no fato dos anúncios serem pagos por empresas, governos ou organizações civis. Mas quando o material publicitário usa o formato conhecido no jornalismo como “publi-reportagem”, ele disfarça interesses políticos ou corporativos como se fossem informações sérias, garantidas pela credibilidade do jornal.

Enganar o leitor usando este expediente pode ser uma solução financeira de curto prazo, mas aumenta a chance de acabar se transformando num problema de longo prazo, quando o vírus da dúvida na credibilidade do jornal contagiar seus leitores. O descrédito é praticamente a sentença de morte de um jornal, especialmente na conjuntura atual com a crise no modelo de negócios da imprensa.

Engodo lucrativo

As dificuldades financeiras da maioria dos grandes conglomerados jornalísticos nacionais e internacionais tornam mais atraente a alternativa das “publi-reportagens”, que são hoje mais comuns do que se pensa na imprensa mundial. Só que a maioria absoluta deste tipo de desinformação paga passa desapercebida pelos leitores, porque as manchetes e o espaço dado no papel ou em tempo de transmissão via rádio ou TV impacta muito mais do que pequenas inserções identificando os verdadeiros interessados e objetivos do material publicado.

É nestas circunstâncias que aumenta a importância de organizações jornalísticas, como o Intercept e a Agência Pública, dos grupos de checagem de fatos e de instituições como o Observatório da Imprensa. Os conglomerados industriais na imprensa brasileira não dissimulam sua hostilidade aos críticos de publicidade disfarçada de notícia, deixando de levar em conta que a verificação e cobrança da credibilidade das notícias, artigos e entrevistas são na verdade uma preocupação com o futuro dos jornais, revistas e programas audiovisuais de informação.

A premeditada confusão entre jornalismo e publicidade começou a ser discutida em larga escala já na primeira década do século atual, com a polêmica em torno da chamada publicidade nativa (ver texto publicado aqui no OI). David Ogilvy, criador da expressão, afirmou que a publicidade disfarçada de notícia poderia aumentar em até 50% a tiragem de jornais impressos. Segundo o respeitado Nieman Lab, da Universidade Harvard, a publicidade nativa gerou receitas de 17 bilhões de dólares para jornais no mundo inteiro em 2017. Aqui no Brasil, não há dados sobre esta modalidade de anúncio pago.

É compreensível a preocupação dos grandes jornais brasileiros diante da queda acumulada de 12,2% na circulação das versões impressas desde 2016. Mas o preço da sobrevivência de empresas, que no passado acumularam lucros consideráveis, não justifica vender ao leitor versões distorcidas da realidade como se fossem notícias verdadeiras.

(*) Soma dos leitores da edição impressa (de maio), e da versão online (em junho), segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC) .

(**) 22/08/2021

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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.

(Publicado originalmente no Observatório de Imprensa)

 

ALEXANDRINO ALENCAR/ Hora de se reinventar

Alexandrino Alencar

Tal qual a publicidade “O primeiro sutiã a gente não esquece”, o meu primeiro trabalho foi na indústria petroquímica, no início dos anos 1970.

Primeira paixão, sempre um referencial ao longo de minha vida profissional.

Uma indústria nascente, na qual as equipes eram, principalmente, de empreendedores, ex-petroleiros, engenheiros recém-formados e técnicos  com cursos preparatórios específicos.

A empresa fica no ABC paulista, berço de vários segmentos industriais, que aos poucos foram se deslocando para esse Brasil, democratizando a início da industrialização nos anos 1980.

O setor petroquímico em particular, teve a capacidade de se adaptar e se reinventar várias vezes ao longo do tempo. As crises econômicas dos anos 1980 e 1990, Plano Collor, politica empresariais de redução de custos capitaneadas pelo então diretor de compras da GM, José Ignácio Lopez de Arriotúa, o just in time, as atuais concentrações de compras de fornecedores chineses, com preços imbatíveis, os reflexos da pandemia e outros.

Há décadas, o nosso PIB dos bens e serviços vem patinando, com uma redução expressiva do setor industrial face ao crescimento do agronegócio e dos serviços, situação preocupante pela sua importância para a sociedade.

Alguns sinais são preocupantes, como a extinção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), rebaixado a secretaria do Ministério da Economia, este com perfil rentista, também um downgrade na representação setorial.

No passado feita pelos “capitães (sic) das indústrias”, hoje tem como lideranças, executivos capacitados, sem dúvida. Porém, também sem a legitimidade e, por isso, com pouca influência. Assim, estamos vendo a saída de diversas empresas multinacionais de um mercado que foi sempre promissor e disputado.

É chegada a hora de se reinventar.

Uma das iniciativas de curto prazo é o ESG, mantra a ser praticado pelas empresas como forma de uma transformação empresarial/cultural.

De uma forma mais estruturada – e como uma sugestão para se ter um novo ambiente de estímulo e reconhecimento da importância do setor industrial buscando excelência, competitividade e produtividade – é preciso pensar sobre a volta do MDIC como órgão representante legítimo do poder executivo.

Além disso, incorporar o Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI) como forma de otimizar esforços, estratégias e recursos em inovação, pesquisa e infraestrutura para todo o segmento produtivo.

Alexandrino Alencar é advogado e engenheiro químico

 

 

 

GAUDÊNCIO TORQUATO/ A banalização das crises

Gaudêncio Torquato

A pele já não sente os beliscões. Ganhou camadas impermeáveis de insensibilidade. Não reage aos impactos externos, sejam beliscões ou amputações.

A crise sanitária era uma gripezinha. Hoje, uma pandemia que mata cerca de 600 mil pessoas.

Crise política? Ah, essa vem de lá dos corredores do início da República.

Crise econômica? Todos sabem como é, mas ninguém quer se responsabilizar por ela.

Crise energética? O ministro Bento Albuquerque garante; não haverá apagão. O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, refuta: é possível que tenhamos um apagão energético.

E assim, de enrolação a enrolação, o Brasil vai engrossando seu novelo de crises. De tão banais, viram coisas comuns.

A verve de Roberto Campos apontava dois traços característicos da psique de países em desenvolvimento: a ambivalência e o escapismo. É ambivalência querer equacionar o descontrole dos gestores da coisa pública sem controlar os controladores. E é escapismo argumentar que os confrontos de guerras urbanas, frequentes nas grandes cidades, ocorrem porque o poder do crime é maior que o poder de um Estado, cuja leniência torna-se cada vez mais patente ante a escalada de violência que se abate sobre a sociedade. O espaçoso terreno público se apresenta todo esburacado.

Cada qual organiza, ao bel prazer, a concepção e a ordem das ações a serem desenvolvidas, solicitando às áreas jurídicas e contábeis que ajustem as contas nos termos da legislação. Dessa forma, orçamentos são engolidos em projetos feitos sob pressão de grupos e em programas superficiais. Se a gestão tem sabor político, é natural que os dirigentes concentrem as decisões, evitando perder força.

O nosso presidencialismo de coalizão ampara-se na costura de amplas alianças. Entenda-se, ainda, que a política deixou de ser missão (para servir a polis, como pregava Aristóteles) e se tornou profissão. Logo, pôr a mão na res pública passou a ser grande negócio. Abre-se, a partir dessa lógica, uma crise de governança e não de governabilidade, como alguns entendem, porquanto o sistema político, a forma de governo e as relações entre os Poderes, mesmo operando em um complexo desenho institucional como o nosso – federalismo, presidencialismo, bicameralismo, representação proporcional, voto majoritário, pluripartidarismo – não chegam a ameaçar a democracia. Qual é a alternativa? Arrumar a gestão. Haverá sempre um jeitinho de contornar as situações.

Querem apostar? Onde irá bater a CPI da Covid? Em quem recairá a culpa pela má previsão da crise energética? Haverá penalidade ao presidente Bolsonaro ou alguns de seus ministros por ausência de boa gestão? Veremos uma fila de autoridades no caminho das prisões? Ou será que ficará evidente a máxima de Anacaris, um dos sete sábios da Grécia? “As leis são como as teias de aranha, os pequenos insetos prendem-se nelas e os grandes rasgam-nas sem custo”. Tem havido algum ganho no campo da moral com tanta denúncia? É possível.

A ladroagem é embalada por um celofane tecnológico de alta sofisticação, diferente dos costumes da Primeira República, quando a eleição do Executivo municipal assumiu relevo prático. Naquele tempo, o lema da prefeitada era: “Aos amigos, pão; aos inimigos, pau”.

A tarefa de impedir que a teia de aranha seja rasgada pelos grandes exige mais transparência de todas as estruturas públicas. Seria útil que as comunidades acompanhassem de perto o fluxo das obras municipais, a partir de sua descrição em painéis afixados em praças públicas. Mas o propagandismo pode acabar se tornando outra praga.

Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor político [email protected]

ROBERTO AMARAL/ O dia depois da farsa

Roberto Amaral

O 7 de setembro de Jair Bolsonaro vai para a história como o 18 Brumário que não deu certo.  A farsa grotesca, pré-anunciada pelo desfile das relíquias da marinha no último 30 de agosto, afastou o temido trago da tragédia  prometida, mas não deve ser vista como ameaça de todo debelada: continuará conosco por um ainda largo tempo, pois durará enquanto não for alterada a presente correlação de forças e removido o atual polo hegemônico, em cujo diretório têm assento os fardados, os herdeiros da casa grande, os  procuradores do  grande capital e os delegados do império do norte: o 1% de brancos ricos e milionários que nos governa, sem alternância desde a remota origem colonial.

Os generais, na realidade, são o braço armado de uma coalizão de interesses econômicos e políticos, nacionais e internacionais, em conflito com os interesses do país. A tutela que procuram exercer sobre a vida nacional, principalmente a partir do golpe de 1889, atende a essa missão a que se dedicaram. E, diga-se de passagem, trata-se de papel que vêm exercendo com lamentável êxito numa das sociedades mais injustas do planeta: somos, caminhando para o terceiro decênio do século XXI, a segunda província do mundo provedora de alimentos, em país no qual 124,6 milhões de habitantes, algo como a metade de sua população, vivem sob a angústia da insegurança alimentar. É a esse projeto que serve o bloco do poder, mesmo ao risco da fascistização do país, que pode ser o preço cobrado pela sustentação de Bolsonaro.

As forças armadas, que já respondem perante a História pelos crimes cometidos durante o mandarinato de 1964-85, e pelos crimes presentes do bolsonarismo, poderão amanhã ser responsabilizadas por grave cisão nacional, destruindo o projeto de unidade construído a tão duras penas em quase cinco séculos de uma civilização ainda por afirmar-se.

Se não  foi desta feita que se efetivou a promessa do Duce tupiniquim de “virada de mesa”, o projeto do golpe dentro do golpe, visando à opção autoritária, permanece de pé, pois seus articuladores seguem nos mesmos postos de mando, animados, até, pelas manifestações do dia 7 passado que revelaram a existência de apoio popular ao projeto protofascista do qual o capitão é o mais ostensivo pregador.

O jogo está à vista e as cartas  na mesa: o  mandatário em conflito com a democracia avança passo a passo e, sempre que insinua recuar, termina subindo mais um degrau na escalada golpista.

Assim tem sido desde a campanha de 2018, e assim será até alcançar seu objetivo, ou ser defenestrado.

Nessa sua arte de “morder e assoprar” para em seguida morder de novo, qualifica de canalha o ministro Alexandre Moraes para, na sequência, mediante a intermediação do inefável Michel Temer, oferecer ao ofendido o “cachimbo da paz”,  que ele aceita pitar. E la nave va.

Há sinais de fissuras no bloco de poder, temeroso de que o desastre político leve de roldão o projeto neoliberal, a verdadeira “joia da Coroa”. Assim são tidos os manifestos e o comportamento da grande imprensa. Setores do grande empresariado (ouvidos pelos fardados), estariam admitindo trocar de posto o capitão, contanto que tudo continue como está, isto é, mantida a natureza do mando.

Em síntese, trocar Joaquim por Manuel, preferentemente sem qualquer infração constitucional, embora os militares, por diversas vezes, com o apoio do empresariado e do império, tenha fraturado a Constituição, sob o pretexto de defendê-la – como ocorreu em 1955, quando o general Lott, com o apoio do Congresso, deu um golpe para impedir que um  golpe fosse dado pela dupla Café Filho-Carlos Luz, sob as lideranças do brigadeiro Eduardo Gomes e do almirante Pena Boto.

Posta de lado, portanto, a possibilidade de um “chega pra lá” no capitão, ou de sua renúncia, a alternativa constitucional possível é o processo de impeachment, em cima do qual, porém, se senta o presidente da Câmara dos Deputados, auferindo gordos dividendos. Ademais desse óbice, concreto, há, assustando liberais de última plumagem, os  temores da crise política e econômica  que qualquer processo de impeachment implica.

Cabe, ainda, considerar que o capitão, no momento, ainda conta com os apoios que faltaram a Fernando Collor e a Dilma Rousseff.

A questão é quase hamletiana: se será muito caro ao país o trauma de mais um processo de impeachment contra um presidente da república (embora se trate o caso presente de cassar o mandato de um perigoso delinquente), que não cobrará menos de seis meses, é mais certo ainda que o país, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista econômico, não suportará mais um ano e quase quatro meses de Bolsonaro no terceiro andar do palácio do planalto.

Como já foi observado, temerosos de banalizarmos o impeachment, estamos banalizando o crime de responsabilidade.

Superada essa questão, que podemos considerar  instrumental, restará  outra, talvez mais grave, porque de fundo. É que Joaquim deve ser trocado por Manuel, ou seja, trata-se de uma troca sem mudança e só nesses termos é que será levada a termo.

Fora um diktat da japona, não há como a direita governante, mais uma vez, e na sucessão de um governo desastroso sob todos os prismas (inflação, queda do PIB, alta do dólar, desemprego, expectativa de apagão), assegurar-se da eleição de seu delfim, que presentemente ela chama de “terceira via”, uma bandeira à procura de um candidato.

Se o encontrar e se o fizer competitivo, a direita terá que correr o risco democrático de apostar no processo eleitoral, que o capitão de há muito tenta desmoralizar.

É pagar para ver.

Trabalhemos, portanto, com essa hipótese: com ou sem Bolsonaro, haverá eleições e elas serão respeitadas, como não foram em 2014, quando o PSDB se negou a reconhecer o resultado do pleito.

Se as eleições fossem hoje, porém, tudo indica que o candidato eleito seria, com indicação de vitória no primeiro turno, o ex-presidente Lula. Mas a possibilidade de retorno do ex-presidente é vetada por generais insubmissos e pelos barões da Faria Lima, os mesmos que financiam os grandes jornais e a grande televisão em sua atual e bem-vinda defesa dos princípios democráticos jogados ao lixo nos idos preparatórios do golpe de 2016 e na campanha de 2018.

Respeitadas as circunstâncias históricas, Lula ocupa hoje o papel que foi dado a Getúlio Vargas na campanha de 1950: não deve ser candidato (diz o Sr. Ciro Gomes); candidato, não pode ser eleito (para derrotá-lo a Faria Lima fará valer seus cofres); se eleito, não deve tomar posse (dizem as japonas insubordinadas) e, se tomar posse, deve ser deposto.

Essa postura, felizmente, não conta com a unanimidade do empresariado, pois há os que, na categoria e nos partidos (é o caso do senador Tarso Jereissati), trabalham com a hipótese de um acordo que preserve a ordem democrática (que não comunga com vetos) e a soberania popular.

Até aqui, terá observado o leitor, não aparecem as esquerdas como sujeito histórico. Todo o protagonismo está entregue à direita, seja a  empresarial, seja a  militar.

E assim permanecerá o cenário, com as consequências que não precisam ser explicitadas, se faltar às nossas lideranças (partidos, movimento sindical, movimentos sociais) a capacidade de concertação em torno de um projeto comum que, tendo como eixo a preservação do processo democrático (que inclui a realização de eleições e o reconhecimento de seu resultado), fale ao conjunto da sociedade brasileira.

Essa concertação  não anula, e talvez até a exija mais, a frente da esquerda socialista que, a partir do projeto democrático, pode avançar na busca de objetivos concretos, como as transformações radicais de nossa estrutura econômica, política e social.

E, finalmente, a esquerda precisa encarar como estratégica a batalha ideológica, que abandonou desde pelo menos a campanha de 2002.

Até lá, com a frente ampla, se possível, sem ela se esta for a contingência, caberá aos partidos e aos movimentos populares e sindicais a retomada da mobilização social, liderando movimento popular pró-impeachment. Diante dele nossos partidos, a começar pelo PT, não podem ter dúvidas. Dependendo de seu nível de organização, o movimento social poderá  retomar a direção do processo político. Para tal é fundamental compreender o óbvio: não haverá eleições se o projeto democrático não derrotar o projeto fascista, ou seja, não é esta a hora de privilegiar candidaturas, por mais legítimas que sejam.