P.C. de LESTER/ Manchetes que não foram escritas

 

Esta é a manchete do 247, site  de esquerda, na  noite desta segunda-feira, 19/07.  Uma manchete que seria saudada por Daniel Scola na Rádio Gaúcha.

Essa tática do espelho – trabalhar com as pautas da direita trocando o sinal – funciona como tática. Quando passa a ser estratégia, acaba fazendo o jogo do inimigo.

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Artigo do Jilmar Tatto, coordenador nacional de comunicação do PT sobre a estratégia para enfrentar 2022  revela uma visão limitada da questão da informação/comunicação.

Enaltece o alto indice de engajamento nas redes petistas e descreve medidas para ampliar as conexões do partido nas redes sociais e não vai além.

Resumir o universo da comunicação social às redes entre grupos nos meios digitais é uma redução perigosa.

Norbert Wiener, pai da Cibernética, abriu as portas do mundo digital quando colocou a informação no centro , o elemento que garante a estabilidade, tanto de uma pedra, ou organismo vivo, quanto de uma sociedade.

Não há uma unanimidade sobre o que seja a informação, seria algo que  falta numa pedra quando ela vira pó.

Enfrentar o fogo cerrado que virá pelas redes, sem dúvida, é fundamental.

Mas desconsiderar o jornalismo, tanto o dos meios de massa, quanto o dos alternativos, onde há experiências importantes e promissoras, pode ser um erro grave.

 

 

MÁRCIA TURCATO/ Eleição 2022, cheque a informação!

Márcia Turcato, de Brasília

O Facebook já removeu cerca de 850 mil vídeos com informações falsas no Brasil, onde 39% das pessoas que têm celular utilizam a plataforma como mídia de compartilhamento de conteúdo*.

A desinformação, popularmente chamada de fake news, cresce no período eleitoral e se vale das redes sociais pela facilidade de manuseio, o que as tornou populares.

Checar informação é um trabalho árduo frente a montanha de conteúdos falsos publicados nas redes sociais diariamente e mais ainda no período eleitoral.

Não será diferente no pleito de 2022. Na verdade, a guerra informacional já começou e as estratégias de desinformação, com apoio da tecnologia, estão mais sofisticadas. Não basta mentir.

Agora são construídas novas verdades. A partir de conteúdos autênticos, disponíveis na web, é possível construir cenários, incluir ou retirar pessoas de um contexto, gravar áudios com a voz de alguém valendo-se de vestígios de arquivos de voz originais.

Essa desinformação sofisticada é chamada de Deepfakes, também utilizada no seu modo pornográfico para atacar reputações e fazer chantagem.

Se em 2020 já foi difícil, imagine a batalha comunicacional que acontecerá em 2022, na eleição presidencial. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está finalizando seu plano de ação para esse confronto e, no mínimo, manterá as parcerias firmadas na eleição passada.

Em 2020, o Tribunal trabalhou com nove agências de checagem e formou a “Coalizão para Checagem – Eleições 2020”. Participaram do projeto: Agência France Press (AFP), Agência Lupa, Aos Fatos, Boatos.org, Comprova, E-Farsas, Estadão Verifica, Fato ou Fake e UOL Confere.

No mesmo ano, o TSE ampliou a estratégia para combater a disseminação de informação falsa, ampliando a parceria para mais 60 entidades da área de comunicação.

As informações checadas estão disponíveis na página Fato ou Boato, no portal do TSE. Graças a uma outra parceria, feita com as operadoras de telefonia e o Conexis Brasil Digital, todos os sites do domínio da Justiça Eleitoral têm o chamado zero rating, ou seja, podem ser acessados sem cobrança ao pacote de dados do celular.

Isso é muito importante porque, quando está sem acesso à internet, o usuário não consegue checar a origem da informação  publicada nas redes sociais.

A iniciativa de checagem de fatos e de fornecimento de informações sobre o processo eleitoral do TSE integra o Programa de Enfrentamento à Desinformação, coordenado pela secretária-geral do Tribunal, Aline Osório.

O Programa é permanente e é formado apenas pelo pessoal da Corte, não conta com participação de instituições convidadas, que poderiam oferecer um novo olhar à missão de proteger o processo eleitoral.

Esse não é um ambiente da missão institucional do TSE, cujo quadro de pessoal é constituído por gente especializada em legislação eleitoral e pouco conhece do submundo das redes sociais como ferramenta de desinformação política, partidária e eleitoral.

É imprescindível a parceria com as agências de checagem e a colaboração com instituições de defesa da democracia, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), por exemplo, que poderiam ser observadores convidados do Programa de Enfrentamento à Desinformação do Tribunal.

Memória

No pleito de 2020, o Facebook e o Instagram removeram 140 mil posts com informações erradas intencionalmente sobre data e horário de votação e rejeitou 250 mil conteúdos que não informavam ser anúncio eleitoral ou quem estava pagando por eles. No mesmo período, o WhatsApp cancelou contas que dispararam mensagens em massa.

Mais de 4.700 contas de WhatsApp haviam sido denunciadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas  a checagem da plataforma reconheceu apenas 1.004 como contas automáticas e elas foram bloqueadas.

O TSE coloca à disposição do público para checagem da informação o número de WhatsApp 61.96371078.

O enfrentamento à desinformação não é apenas um trabalho de checagem. É necessário também regular esse espaço, criar regras que disciplinem um ambiente que hoje é uma terra sem lei. A regulamentação do tema é da competência do Congresso Nacional.

PL da Fake News

Em 2020, o Senado aprovou o PL 2.630/2020  de combate às fake news, que cria a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet, com normas para as redes sociais e serviços de mensagem.

A intenção é evitar notícias falsas que possam causar danos individuais ou coletivos e à democracia. O texto está agora para na Câmara dos Deputados, aguardando  análise, mas não agradou.

Mais de 40 entidades, como a Fenaj, a Abraji, e a OAB, e empresas como o Facebook e o Google, protestaram pela forma célere em que o texto tramitou no Senado em 2020, em plena pandemia, com sessões remotas.

Em nota enviada aos senadores, os signatários alegam que “em um contexto em que o Senado realiza deliberações por meio do sistema remoto, sem a existência de comissões, o debate aprofundado sobre o tema se mostrou comprometido desde o início.

Em função disso, pedimos que o Projeto de Lei 2630/2020, seja retirado da pauta do Senado, a fim de que seja aperfeiçoado e amplamente debatido com a sociedade brasileira, da forma que uma lei desta envergadura requer”.

Estamos a pouco mais de um ano da eleição majoritária no Brasil e o cenário de disputa está aberto. Não sei vocês, mas eu recebo posts todos os dias sobre os possíveis presidenciáveis, quase tudo é desinformação.

Alguns posts são grosseiros, outros são construídos com muito recurso. É preciso checar. Se você tem dúvida sobre algum conteúdo, não compartilhe e envie para alguma agência de checagem. Exerça sua cidadania.

*Dados do Pew Research Center e do Digital News Report da Universidade de Oxford

 

 

 

 

ENIO SQUEFF/ O dilema dos militares

“Será aceitável que todos os militares acordem que o Brasil tem de entregar o que temos de mais de precioso? Será que querem mesmo criar um fosso intransponível entre eles e nós?”  (Desenho de Enio Squeff)

Enio Squeff

Na época em que trabalhei no Estadão, isto é, em plena ditadura militar, comentava-se que o brigadeiro Eduardo Gomes, ainda em vida “Patrono da Força Aérea Brasileira” e golpista de 64,  teria interrompido uma reunião do  alto comando da FAB, presidida por João Paulo Burnier, também brigadeiro, alertando-o que se levasse a cabo seu plano de eliminar algo em torno de 50 mil brasileiros, iria denunciá-lo à imprensa internacional.

Ao que se comentava, Burnier pretendia imitar os militares argentinos nos famosos  “voos da morte”:  poria milhares de opositores da ditadura civil militar em aviões,  e os jogaria no mar. Eduardo Gomes o teria advertido, que se ele quisesse criar uma ruptura definitiva entre o povo brasileiro e suas Forças Armadas, ele que prosseguisse com seu plano criminoso. Burnier recuou.

Nunca li essa história em jornal ou livro. Mas é possível que tivesse acontecido. O desvario de alguns chefes militares da época – justamente os que mantiveram muitos de seus discípulos nas academias militares e que hoje comandam as tropas brasileiras – nunca foram punidos pelo que cometeram. Burnier teria feito escola.

Este talvez seja o problema de alguns generais, brigadeiros e almirantes seguidores dos algozes daquele período. Não foi ao léu que Jair Messias Bolsonaro prometeu que o Brasil só se salvaria se fossem mortos 30 mil brasileiros. Na época (isso não é novidade), acrescentou: “Vão morrer inocentes, lamento, mas e daí?”.

O resto da história todos o vivenciamos. O atual presidente eleito do Brasil, contudo, deve-se admitir, foi  modesto em seus propósitos. Quinhentos mil brasileiros mortos depois, ele pode ostentar o título de o maior “Pagador de Promessas” da direita brasileira.

Ao não comprar vacinas deliberadamente, ele coalhou os cemitérios do Brasil de centenas de milhares de cadáveres.

Numa certa medida, portanto, o que Burnier não fez, por respeitar o velho Eduardo Gomes com a sua bengala, o ex-capitão expulso do Exército, talvez faça: o divórcio definitivo dos militares com a população que os sustenta com os seus impostos.

Não se duvide, em suma, que o presidente e seus seguidores, principalmente  no Exército, estão pouco se lixando para a mortandade que, a essas alturas, está apavorando o mundo.

Daí às manifestações do dia 04 do corrente, quando centenas de milhares de brasileiros foram às ruas protestar contra tudo isso; e que, no fundo, define este governo, como o pior que o Brasil já teve.

O que os professores das escolas militares devem ter repetido aos hoje generais, brigadeiros e almirantes,  discípulos do velho Burnier, foi sustado pelo imponderável, já que a Covid lhes fez o especial favor, de nos matar antes.

Delírio?

Gostaria que o fosse, embora os membros do alto oficialato sugiram a toda hora e sempre, que eu, por desgraça, possa estar certo.

Ora, Eduardo Gomes, reacionário, golpista, direitista inveterado, sabia o que dizia quando alertou Burnier e seus asseclas, de que as Forças Armadas nunca poderiam criar um fosso abissal entre elas e o povo. Não se trata da dívida que eles têm conosco por lhes pagarmos o soldo e, mesmo assim, termos  de aturá-los no papel que nunca lhes demos, de serem os tutores do Brasil.

Isso, porém, vem desde há muito. A rigor, desde o golpe em que os militares derrubaram o Império.

Claro que a monarquia é uma excrescência, mas daí às Forças Armadas se comportarem ainda hoje como tropas de ocupação de seu próprio país, vai uma distância que o brigadeiro Eduardo Gomes teria antevisto, e que, mesmo assim, anima muitos fardados brasileiros.

Será que é preciso ter mais que bom senso ou o velho patriotismo para  que as Forças Armadas se comprometam com um governo genocida, responsável pelo maior morticínio já perpetrado contra o povo brasileiro?

Será aceitável que todos os militares acordem que o Brasil tem de entregar o que temos de mais de precioso, o seu petróleo, as suas hidrelétricas, suas florestas, e tudo mais que Bolsonaro, Guedes, Salles e os demais se esforçam por doar? Será que querem mesmo criar um fosso intransponível entre eles e nós?

O dilema é deles.

ELMAR BONES / Eleições 2022: o fator Eduardo Leite (2)

A atitude do governador Eduardo Leite ao declarar-se gay em rede nacional de televisão tem muitas implicações, mas o que interessa a todos são os efeitos políticos, de uma decisão motivada por interesses políticos, uma vez que o governador como ele mesmo diz nunca teve problemas em assumir a sua orientação sexual. Não a proclamava porque “não era o caso”. Agora é.

Pré-candidato a candidato tucano à Presidência da República, o governador  sabe que não tem como entrar numa campanha eleitoral cruenta como a que se avizinha, tendo uma questão como essa nas sombras.

Ao tomar a iniciativa de declarar (ele não esperou nem o Pedro  Bial perguntar), certamente está considerando os dividendos eleitorais de uma atitude que se alinha com uma das causas  emblemáticas do Século 21,  a diversidade de orientação sexual.

Eduardo  Leite é um dos quatro pré-candidatos a candidato do PSDB para a eleição de 2022, disputando com  João Dória, Tasso Jereissati, Arthur Virgílio.

Foi sua assessoria que procurou Pedro Bial acenando com a  manchete que podia render?

Ou foi iniciativa da Globo, ao perceber Eduardo Leite como a tão sonhada terceira via, capaz de alijar Bolsonaro, barrar Lula e, sobretudo, manter o projeto neoliberal em andamento?

Os desdobramentos dentro do sistema Globo indicam que há uma clara aposta no governador gaúcho. Farta cobertura no jornal O Globo, o  farol ideológico do grupo, inclusive o furo na coluna da Patrícia Kogut, que antecipou a revelação da entrevista.

E, no dia seguinte à entrevista, uma análise no Globo,  dizendo que  Eduardo Leite “tornou sua vida privada uma não-arma para ser explorada por adversários no jogo sujo das disputas políticas”.

“Não há mais como dizer que Leite esconde algo de seus eleitores”, diz o texto, taxativo.

Depois discorre sobre a gestão de Eduardo Leite que ” assumiu o governo de um estado marcado por divisões políticas prolongadas e finanças arruinadas”.

Não chega a dizer que ele equilibrou as finanças do Estado, mas insinua: “Conseguiu construir um apoio na Assembleia estável o suficiente para tentar pôr ordem no Caixa do estado”.

Numa matéria do início de maio O Globo já tinha destacado a fé de Eduardo Leite no ideário liberal.

Seja como for, o gesto deu outra envergadura à pré-candidatura do governador gaúcho, no momento em que ele precisa se viabilizar  dentro de seu próprio partido.

As prévias do PSDB estão marcadas para 17 de outubro e os pré-candidatos devem inscrever-se entre 01º e 10 de agosto, para iniciar a propaganda intrapartidária a partir de 01º de setembro.

Leite está pelo menos dois meses à frente.

 

ELMAR BONES/ Galvani, um jornalista

Perder Walter Galvani nesta altura do campeonato é como perder um grande epidemiologista no meio da pandemia.

Basta mencionar a revolução que ele produziu, em plena ditadura, ao abrir as portas da vetusta Companhia Jornalística Caldas Júnior para os jovens jornalistas que estavam saindo da universidade e eram discriminados pelos “chapa branca” que dominavam as redações.

Foi bom em tudo o que fez: coluna social, reportagem, editor, chefe de redação e, depois, escritor.

Sempre com aquele faro de repórter que o levou a descobrir, às vésperas dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, que não havia, nem aqui nem em Portugal, uma biografia de Pedro Álvares Cabral.

Informação que ele guardou até ter toda a pesquisa feita para o livro que editou pela Record.

No meio da pandemia de desinformação que nos assola,  uma mente lúcida como a de Walter Galvani é uma perda irreparável.

ANDRES VINCE/ Chile: e se meio século de neoliberalismo desembocar no comunismo?

Outubro de 2019. Tudo parecia correr bem no Chile, o “paraíso neoliberal” do continente.

No Brasil, o ministro da economia, Paulo Guedes, vendia o “modelo chileno”, a começar pelo sistema de capitalização na Previdência, como saída para a crise das finanças públicas.

Na verdade, desde o golpe militar de setembro de 1973, o país andino viveu, sem anestesia, as agruras da transição, de uma economia estatizada para uma economia privatizada.

Resultado: anos de recessão e desemprego. Alguns economistas afirmam que só houve alguma recuperação na economia por volta de 1978. Meia década sangrando, literalmente.

A partir daí, mesmo em ritmo lento, a economia cresceu por décadas. Até que os  chilenos começaram a se perguntar: “Se o país cresce ano a ano e nós continuamos na mesma situação ou pior, pra onde está indo esse crescimento?”

Um sentimento de vazio e abandono começou a pipocar aqui e ali, em movimentos isolados. E foi se avolumando, até que o terceiro aumento seguido da tarifa do metrô de Santiago levou gigantescas manifestações às ruas.

Insensível. o ministro da Economia Juan Andrés Fontaine lembrou que a tarifa do metro era flutuante, variando conforme a demanda, e aconselhou: “El que madruga será ayudado con una tarifa más baja”. Traduzindo: “acordem mais cedo pra economizar”.

Claro que não foi só o metrô, foi a água,  a educação,  a saúde,  a previdência, foi a diferença no tratamento de gêneros, o abuso contra os povos originários, foi uma lista de abandonos sociais. Em resumo, foi o Estado mínimo.

Mas, o que se viu em Santiago, foi a materialização do que poderíamos chamar de a profecia de Allende: “Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.”

O povo nas ruas jogou o sistema político chileno nas cordas.  Os manifestantes mantiveram as forças de segurança de joelhos por mais de seis meses e toda repressão policial era repelida com mais violência.

A tentativa de controlar as manifestações via forças armadas talvez tenha sido o maior erro do governo. O toque de recolher despertava velhas lembranças. A repulsa foi generalizada. Os soldados não conseguiam nem descer do caminhão de transporte devido à chuva de pedras.

A popularidade do presidente Piñera caiu a 15%. Recolheu as tropas. Azar dos carabineiros, que foram levados ao limite da exaustão.

As manifestações só foram freadas pela pandemia e pela promessa do plebiscito sobre uma nova constituição, que acabou sendo aprovada em 25 de outubro de 2020 por 78,3% da população que compareceu às urnas. Algo em torno de 7,5 milhões de chilenos, aproximadamente 51% da população apta ao votar no referendo.

A assembleia constituinte foi eleita entre 15 e 16 de maio de 2021 e sua composição dos 155 membros ficou definida da seguinte forma: 17 cadeiras para os povos originários, cerca de 50 cadeiras para os independentes e as cerca de 90 cadeiras restantes mais ou menos divididos entre a esquerda, o centro e a direita, com uma ligeira vantagem para a esquerda.

Essa composição sinaliza claramente que o Chile terá a Constituição mais moderna do mundo, não apenas pela contemporaneidade, mas pela sua representatividade.

Será a primeira assembleia constituinte do mundo com paridade de gênero garantida por lei. E, ao contrário do que se possa imaginar, foram as mulheres que tiveram que ceder 11 cadeiras aos homens, porque elas, simplesmente, arrasaram nas urnas.

Mas, conseguirá o Chile construir um novo modelo de sociedade sobre os pilares do neoliberalismo, que por sua vez, foi construído sobre os escombros do socialismo?

Algo indica que não e talvez a marca mais significativa nesse sentido tenha sido a eleição de uma sub-prefeita comunista para Santiago, uma das 32 subprefeituras (chamadas de comunas) que formam a capital chilena.

A economista santiaguense Irací Hassler tem apenas 30 anos e tomará posse no próximo dia 28 de junho e será a primeira comunista a administrar a comuna de Santiago, que tem cerca de 200 mil habitantes.

Seu colega de partido, Daniel Jadue, reeleito subprefeito de Recoleta, uma comuna vizinha a Santiago, está tentando se gabaritar às eleições presidenciais.

As pesquisas indicam que ele tem chance e a história permite o sonho comunista de chegar ao poder pelo voto: o Chile já elegeu um presidente socialista e foi o primeiro país da américa latina a eleger uma mulher para a presidência, Michelle Bachelet.

E se, agora, meio século de neoliberalismo desembocar no comunismo? Corram para as montanhas, dos Andes, é claro!

ELMAR BONES/ Embarcadero

Em artigo publicado hoje no GZH, Daniel Scola, diretor da Rádio Gaúcha, saúda a inauguração do Cais Embarcadero, empreendimento comercial que vai ocupar 19 mil metros na extremidade do Cais Mauá, junto à Usina do Gasômetro.

Sem desmerecer a saudação, pelo alcance do veículo, pelas credenciais do autor e a relevância do tema, algumas considerações são indispensáveis.

“O ponto principal da novidade é o aproveitamento comercial de um dos armazéns do antigo porto, com seis pavilhões para lazer e gastronomia”, diz Scola.

Aqui uma omissão importante: uma emenda ao contrato original incluiu a possibilidade de lojas de varejo – já foram anunciadas uma filial da rede Pompéia e outra da Gang.

Esse “detalhe” motivou uma iniciativa do Ministério Público de Contas, cuja função é exatamente zelar pela legalidade dos contratos que envolvem o interesse público. O procurador geral do MPC, Geraldo Da Camino, quer uma investigação para esclarecer essa mudança que extrapola os objetivos do contrato, como foi divulgado.

Em função disso, os empreendedores decidiram antecipar a abertura do espaço, cuja inauguração vinha sendo adiada por conta da pandemia.

Intempestivamente, a abertura do espaço foi anunciada para a quinta-feira, dia 20, e, de repente, numa decisão anunciada de véspera, precipitou-se para o meio-dia desta terça, 18, com obras ainda em andamento.

Um claro esforço para criar um fato consumado ante um questionamento de ordem jurídica, legal. O pedido do procurador, que inclui a paralisação de obras, está em análise pelo Tribunal de Contas do Estado. Coube ao conselheiro Iradir Petrosky analisar o pedido e seu parecer certamente passará pelo Pleno do tribunal.

Scola lamenta que “ainda não é o Cais todo, mas é um bom começo para o processo de desfecho da maior novela de Porto Alegre”.

Primeiro, o Cais Embarcadero resulta de um contrato da Superintendência do Porto de Rio Grande, à qual foi afeta a área do Cais, área pública, tombada,  com um grupo privado, sem licitação. É um bom negócio, é uma maneira de dar uma partida num processo emperrado, sim, é.

Mas pode servir de modelo para a revitalização de todo o cais?

Para Scola  “as imagens do empreendimento e os relatos de quem está envolvido no projeto indicam que a Capital terá a partir desta semana uma área que nunca foi explorada desta forma, num ponto central da cidade, de frente para o Guaíba”.

Como diria o saudoso Southier: OPN.

“É verdade, diz o articulista, que a área do Cais é envolta em burocracia estatal, mas a resistência à entrada da iniciativa privada impediu que o local se transformasse antes”.

Acompanho esse processo há 30 anos e sou obrigado a registrar que em nenhum momento a “resistência à entrada da iniciativa privada” foi o que impediu que “o local se transformasse”.

A resistência forte, que mobilizou 62 organizações comunitárias e ambientalistas, foi sempre à falta de transparência, às decisões de gabinetes, sob a influência de grandes interesses.

Foram importantes e didáticas as mobilizações e os protestos da AMACAIS, mas seria um exagero dizer que elas impediram que “o local se transformasse”.

O último projeto ficou quase dez anos travado pelo açodamento do governo do Estado ao assinar o contrato de concessão com a Cais Mauá do Brasil,  sem consultar a Antaq, a autarquia federal responsável pelos portos.

O Cais Mauá, onde Porto Alegre nasceu e ganhou seu nome,  era um dos maiores portos do Brasil, sujeito evidentemente a toda a legislação que envolve os portos, pontos estratégicos em qualquer parte do mundo. Sobrepunham-se prerrogativas federais, estaduais e municipais.

Candidata à reeleição, a governadora Yeda Crusius assinou o contrato e criou um imbróglio que durou anos.

Também não dá pra dizer que foi “uma resistência baseada na crença de que o poder público é quem deveria explorar a área”.

Dois dos seis projetos tentados para a revitalização do Cais Mauá colocavam o poder público como agente da revitalização. Não se viabilizaram. Todos os demais partiam da concessão à iniciativa privada e a resistência não se concentrava nisso.

O que mobilizava a resistência eram as soluções megalômanas, de grandes torres, shopping, que exigiam investimentos de 1 bilhão de reais, para criar “paraísos privados”, sem consulta à população.

Lamento discordar do nobre articulista, mas Porto Alegre não “perdeu tempo com uma discussão que poderia ter sido resolvida antes”. Não foi a discussão que atrasou, talvez tenha sido a falta de discussão, a falta de informação.

Entregou-se o espaço mais simbólico da cidade a grupos aventureiros, partindo do princípio de que a iniciativa privada é sempre mais eficiente.

Uma história que não se esclareceu, sobre a qual se jogou um “manto de silêncio”.

Quero dizer o seguinte: o Cais Embarcadero está aí, se impõe como realidade, tem o apoio explícito do maior grupo de comunicação do Estado, será um sucesso certamente.

Mas não se pode “construir” um histórico para justificá-lo.

ELMAR BONES/ O silêncio que diz tudo

A crise do modelo de negócio que sustentou o jornalismo nos últimos dois séculos é tão grave que se revela nos mínimos detalhes.

Um caso municipal:  o projeto do Cais Embarcadero.

É uma boa ideia, poderia se tornar um bom negócio, como diria o professor Ruy Carlos Ostermann.

Mas trata-se de um espaço público que recentemente  passou por um processo degradante de privatização, que depois de dez anos voltou à estaca zero. O governo foi obrigado a romper o contrato.

Uma gambiarra, arranjada no ocaso do projeto da Cais Mauá Brasil, sobreviveu: um polo de lazer e gastronomia numa porção da área, onde não há prédios tombados.

Seria o Marco Zero de um projeto que não conseguiu decolar.

São quase 20 hectares com localização privilegiada, junto à Orla e à Usina do Gasômetro.

Os investidores são empresários de sucesso no ramo do marketing e do entretenimento, o empreendimento tem tudo para dar certo, com ganhos para a cidade, inclusive.

Só que há regras, há contratos e há a letra da lei.

E há um Ministério Público de Contas e há um procurador cuja função é zelar para que as leis, as regras e os contratos que envolvem o interesse público sejam cumpridos.

Ele pode ser acusado de  improbidade se não tomar providências diante de irregularidades num contrato que envolve um bem público

O procurador Geraldo Da Camino encontrou evidências no contrato com o Embarcadero, está pedindo uma investigação, é seu dever.

E nesse ponto se revela a crise do jornalismo sustentado por anunciantes: silêncio absoluto sobre as providências do Procurador, mesmo por pressurosos colunistas sempre atentos ao andamento do projeto.

É um silêncio que diz tudo

 

 

 

 

ELMAR BONES / Milicos na política

O que  Bolsonaro está comprovando é aquilo que já ficou patente no regime de 1964.

Um país como o Brasil não pode ser comandado por um militar.

Não significa que não haja militar que possa ser político.

Castelo Branco era, foi defenestrado por seus pares, pelos generais que apostavam num poder militar livre dos compromissos da política, assentado na hierarquia.

Um país não é um quartel, ou um exército.  Impossível governá-lo dando ordem unida.

Os militares, com as honrosas exceções, acreditam na analogia da política como uma guerra.  É uma analogia pobre, mas eles acreditam e muita gente acredita.

Esquecem que quanto mais estiverem preparados para a guerra, para o uso da força, menos preparados estarão para a política, que é a busca da solução dos problemas sem as armas.

O militar é preparado para o confronto, tem que ter um inimigo, real ou imaginário.

O político se prepara para evitar o confronto, tenta ver, mesmo no adversário, um possível aliado.

O Brasil teve uma ditadura imposta pelas armas de 1930 a  1945, mas o líder era um civil, Getulio Vargas, que promoveu a grande conciliação nacional e atualizou o Brasil “no concerto das nações”, como se dizia na época.

Quando voltou, em 1950, sem a tutela militar, Vargas não chegou ao fim do mandato.

Seu suicídio conseguiu retardar o golpe militar por dez anos.

Em 1964, os generais que tomaram o poder tinham tudo a seu favor: a burguesia, a imprensa e, por indução, a classe média e mesmo setores populares.

Mas o líder,  o general Castelo Branco, acreditava na ideia da “revolução redentora”, que iria banir os comunistas e corruptos e devolver o poder aos civis,  que devem conduzir os governos democráticos.

Defenestraram Castelo  e quatro generais, governando com atos de exceção, ficaram  duas décadas no poder.

Saíram sob o clamor das ruas.

Bolsonaro tem cabeça de milico. Cabeça de milico serve pra mandar, não pra governar, que é outra coisa bem mais complexa.

Milico com cabeça de político deve haver, claro. Mas não está à vista.

 

 

ELMAR BONES/ Hipóteses

Todos nós estamos envolvidos num jogo pesado.
E só contamos com a nossa capacidade de construir hipóteses, para poder agir de alguma maneira.
Se não temos um horizonte, para onde vamos caminhar?
A gente só chega a alguma clareza quando expõe a hipótese ao outro e o outro reage e concorda ou discorda. Somos socráticos.
Minha hipótese: caminhar para a eleição de 22.
Claro que o inesperado poderá fazer surpresas. Mais do que nunca ele é plausível. Mas não podemos ficar parados esperando que ele aconteça, até por que ele certamente vai nos frustrar.
Por que 2022?
Porque só uma eleição democrática, limpa, poderá resgatar o ambiente que venceu a ditadura e vinha construindo um caminho de nação que foi truncado.
O golpe de 2016 tirou a sociedade brasileira de uma rota construída em 30 anos de luta e ela só será retomada pelo voto na urna.
Tudo o que Bolsonaro quer é que não haja a eleição de 2022.
Garantir a eleição é a hipótese coerente para quem acredita numa saída democrática para o impasse brasileiro.  Sem desconsiderar as surpresas que o inesperado sempre pode fazer.