Carlos Bastos: um depoimento

Depoimento do jornalista Carlos Bastos (1934/2026) a Jefferson Barros para o livro “Golpe Mata Jornal”, que relata a trajetória do jornal Ultima Hora em Porto Alegre, publicado em 1999 pela Já Editores.

Lançado em 1960, o jornal Última Hora, um tablóide popular atrevido, sacudiu o meio conservador da imprensa gaúcha, onde imperava o   Correio do Povo do alto dos seus 70 anos. Sua primeira página não comportava notícias locais.

Carlos Bastos já tinha passado pelo Clarim, diário brizolista que durou um ano e pelo vespertino A Hora,também de vida efêmera, quando foi contratado,  como repórter político do novo jornal da cidade, a Última Hora, da rede de jornais de Samuel Wainer. Tinha 26 anos.          

“Fui trabalhar na Ultima Hora quando ela abriu aqui em Porto Alegre, em fevereiro de 1960. Trabalhei desde o primeiro número do jomal. A redação ficava em cima do antigo cinema Rex,  na rua Sete de Setembro. Quando deu o golpe o jornal foi empastelado, a redação foi invadida, mas a Ultima Hora continuou circulando depois,  apesar dos contratempos, como as invasões da redação pela polícia. Em maio parou, todos foram demitidos…Voltou pouco depois, como Zero Hora”.  

“Foi o periodo mais rico de toda a minha caneira, No Clarim e na Ultima Hora, foram os períodos mais ricos da minha carreira. Eu fui chefe da televisão na Gaúcha por muitos anos. Chefiei a rádio Guaíba. a rádio Gaúcha.  Dirigi o jomalismo da TV Difusora (hoje TV Bandeirantes). Essas também foram passagens interessantes na minha carreira”.

“Entrei direto para a reportagenl política. Tinha mais dois repórteres, o Carlos Felberg, e o Flávio Tavares. O editor era o Ib Kern. Fiquei todo o tempo na política. Nós tínhamos uma coluna. não assinada, que era o Drops. Era uma coluna com notícias curtas, de três ou quatro linhas.Todos nós contribuíamos para a colona, além do noticiário político, as articulações políticas, a cobertura dos partidos”.

“A redação era grande. Tinha quatro na política, quatro na economia, a geral e a polícia tinham muita gente, colunista sociail, como o Luiz Augusto, do esporte como o Ivo Corrêa Pires. Tinha uma equipe de copy-desk, que editava os textos: o Ibsen Pinheiro, o Paulo Totti, o Tarso de  Castro, que foi repórter e depois copy”.

“O Sérgio Jockymann, que se tornou o carro-chefe do jornal, ainda não havia se consagrado como jornalista. Ele se consagrou na Ultima Hora. O Sampaulo, o primeiro chargista, tinha começado no Clarín, do Brizola, da qual fiz parte também. Ele fez aquela famosa charge no Clarín, uma charge antológica, sobre a eleição para prefeitura de Porto Alegre. O Euclides Triques era de Caxias, mal conhecia Porto Alegre. Sampaulo desenhou ele na esquina da Borges de Medeiros com a Rua da Praia e um assessor mostrando: “Aqui é a Rua da Praia, ali é a prefeitura, lá é o Viaduto Otávio Rocha”. Uma charge maravilhosa. aquela charge derrotou o Triquês, porque mostrou que ele não conhecia a cidade. O Flávio Tavares também começou a ser reconhecido na Ultima Hora”.

Copy-desk, a novidade

“O copy-desk vinha do jornalismo americano, um redator que dava acabamento ao texto dos repórteres, às vezes refazendo o texto inteiramente. Tinha sido introduzido nas redações do Rio e São Paulo, mas não no Rio Grande do Sul. Essa foi uma novidade que a Ùltima Hora introduziu aqui”.

” De fora, na primeira fase, vieram os editores. Tinha o João Ribeiro, que era o baixador, um cara muito bom em títulos. Eu tive uma discussão com ele porque eu fiz uma matéria e o título que ele fez não mostrava a mesma  coisa que eu queria dizer. E ele tentou me provar que era eu que estava errado. Ele adaptou a notícia à manchete”.

“A relação com o Samuel Wainer era quase nula. Ele vinha poucas vezes aqui. Nós tínhamos mais contato com a cúpula da redação, com o Ribeiro, que era redator-chefe, com o Neu, que era o diretor. Então, a cúpula seguia a linha editorial que Samuel aplicava nos outros jornais Ultima Hora, dos Estados. O Samuel era muito hábil politicamente. Nacionalmente, o jornal tinha um compromisso com o Jango, Presidente da República durante grande parte da existência do jornal. Mas, regionalmente, o entendimento do Jango com o Brizola não era tão afinado. O jornal apoiava o Brizola, mas também o criticava. O relacionamento do Samuel com o Brizola era mais livre. A mesma coisa eu acho que havia em São Paulo, com relação ao PTB, no Recife e em Minas, onde existia a Ultima Hora”.

Grandes fatos

“O fato maior foi a Legalidade, em 1961. Como eu cobria política, passei a cobrir a resistência do Brizola. Eu praticamente morei no Palácio Piratini durante uma semana. Ia também na Assembléia mas eu, o Flávio Tavares e o Tarso de Castro passemos permanentemente no Palácio que era o centro da resistência”.

“Eu tive medo, principalmente em dois fatos: numa noite correrem boatos dee que os tanques da serraria estavam se dirigindo para cercar o Palácio. Tinha umas 300 pessoas ali e quando eu vi restaram umas 70. Me lembro que ficou o Josué Guimarães, o Flávio Tavares, o Tarso. A maior parte deu uma desculpa e foi saindo de fininho, saindo de costas para fingir que está entrando. Outro momento tenso foi quando o Brizola avisou da ameaça de bombardeio do Palácio. Nos estávamos na sala da imprensa e o Brizola nos mostrou  cópia do rádio mandado pelo Ministro da Guerra, para bombardear o palácio. Aí, através de um apelo da dona Neuza Brizola, o cardeal D. Vicente Scherer saiu da Cúria e veio para junto do Brizola”.

Governo Brizola

“Foi muito rico. O Brizola com todo seu carisma e personalidade forte. Foi um governo que fez aí, vou sintetizar: a Refinaria Alberto Pasqualini, a Estrada da Produção,  foram estatizadas as CRT e CEEE, implantou a Aços Finos inaugurou 6 mil escolas em todo interior do Estado”.

Ultima Hora

“O jornal privilegiava o esporte, a polícia, dava uma boa cobertura para a política, registrava os fatos econômicos. Mas ela também enfatizava muito uma coisa que a imprensa passava por cima: a cobertura sindical. O João Aveline respondia pela área sindical”.

Clima durante o Golpe

“Como a Ultima Hora tinha um comprometimento com o Jango, a gente tinha consciência que ia sobrar pra nós. Nesses momentos o clima estava muito tenso. Algumas vezes eu deixei de entrar na redação por causa das visitas dos policiais. Eu ia pro Largo dos Medeiros pra avisar o pessoal que não fosse para a Redação. Uma vez, prenderam o José Antônio Ribeiro, o Gaguinho, e o fotógrafo Baiano também”.

“Nesse clima aconteceu um fato com um dos nossos colunistas, o Mário de Almeida, que era teatrólogo, e tinha uma coluna onde batia na polícia do governador Menegueti. Aí, veio o Golpe, e o Mário era o cara mais visado. o chefe de Polícia, os delegados odiavam o Mário. Aí, o Nestor Fedrizzi, redator- chefe do jornal, escondeu o Mário. Eu sabia disso e fui conversar com o Nestor. Falei que eles estavam pegando muita gente e me ofereci para esconder o Mário. Toparam. Isso foi numa terça-feira. Eu estabeleci um esquema com o João Ferreira e com o Taio Pinheiro Machado, filho do Pinheirinho, e fomos com o carro do Taio, porque o meu estava sendo seguido, pegar o Mário perto do viaduto da Mariante e levamos para o apartamento do meu irmão na Cidade-Baixa. Isso foi de noite. Na madrugada, a polícia foi lá no  Nestor Fedrizi. Só encontraram a empregada. O Baiano que estava sendo torturado entregou o Mário. Sob tortura você entregava até sua mãe. O Mário ficou no meu irmão durante um mês. Já tava com claustrofobia. Começou a enlouquecer trancado no apartamento. Bebeu toda a adega e comeu_todas as namoradas do meu irmão. Ele queria ir embora. Deu a idéia para ir para uns parentes da Ivete Brandalise, em Videira, em Santa Catarina. mas, ela ponderou dizendo que o Mário era muito conhecido por lá. E ela tinha razão. Aí, ela deu a idéia de ir procurar o pai do Paulo José, ator da Globo, que era um cara de esquerda. Eu conhecia o Orlando, irmão do Paulo José, que tinha uma fazenda em Lavras. Fomos lá no apartamento do Orlando e só encontramos o pai dele. Quando entramos na cozinha, tinha uns 30 ou 40 estudantes tomando sopão. Estavam escondidos lá. Explicamos a situação e o pai do Orlando nos disse que estávamos com sorte, pois no dia seguinte ele estava partindo para a fazenda. Só que ele não quis sair da cidade com o Mário, segundo ele “uma dinamite pura”. Combinamos de levá-lo até a estrada. Assim o Mário saiu da cidade. Depois, o pai do Orlando foi de caminhonete mesmo para São Paulo e levou o Mário. Em 1979, eu tô na Caldas Junior, dirigindo o jornalismo e fomos com o doutor Breno Caldas, numa entrega de uns prêmios, e encontro o Mário de Almeida, representado, sabe quem, o Roberto Marinho. Mário tinha feito uma carreira em agência de propaganda, trabalhou na Shell como publicitário e depois assumiu a presidência da Fundação Roberto Marinho. Foi a primeira vez que ele veio para Porto Alegre depois daquilo tudo”.

Saída do Brizola

“Isso eu sei direitinho. Depois do golpe, o Brizola ficou em vários lugares em Porto Alegre. Nos últimos tempos, antes de fugir, ele estava num edificio da Borges de Medeiros, bem no centro. O Jango, já no exílio, foi quemmontou o esquema para o Brizola sair do Brasil. O esquema era ele sair de madrugada rumo ao litoral norte, onde um avião estaria esperando. O avião era um teco-teco do Jango. Ele voaria rasinho para escapar do radar. Maneca Leães, o piloto do Jango   o levaria para Montevidéu. Na dição da Zero Hora esse dia eu dei o “furo”. Eu só não sabia como ele ia sair vestido da cidade. O grupo de apoio ao Jango montou uns 18 esquemas para a fuga do Brizola e distribuiram à imprensa. Num deles dizia que sairia num navio, no outro que seria num trem…Aí, com as informações que tinha, escrevi umas cinco linhas no alto da capa, dizendo que o ex-governador Brizola nesse dia pela manhã estaria chegando em Montevideo. Ele acabou saindo vestido com uma farda de coronel da Brigada Militar, por volta da cinco horas da manhã, num carro oficial”.

Fim da Ultima Hora

Depois do Golpe, a Ultima Hora circulou por cerca de um-mês. parece que foi 4 ou 5 de maio que saiu a primeira Zero Hora, porque o Ari de Carvalho, que era diretor aqui, mudou o nome. O Samuel já havia partido para Paris. Ele procurou assegurar a Ultima Hora do Rio e de São Paulo. Aqui, ele não tinha quase nada do que se desfazer. Não tinha máquina nenhuma aqui. Então, o Ari montou um esquema com uns empresários, através do Dante de Laytano, seu amigo, e compraram o espólio do jornal. Eles não pagaram nada, só assumiram as dívidas do jornal. Esse grupo de empresários ficou com a metade e o Ari a outra metade, sem entrar com nenhum tostão. Ari pegou esse nome Zero Hora, de uma coluna da Ultima Hora, que trazia as últimas notícias da edição”.

“Três anos depois, o grupo que havia assumido a metade vendeu as ações para o Maurício Sobrinho. Quando começou a Zero Hora, quatro ou cinco dias depois eu fui demitido, porque eu era vinculado ao pessoal de esquerda. Houve uma limpeza da redação em relação ao pessoal de esquerda. Só mais tarde, eu trabalhei cerca de um ano na Zero Hora”.