Por Cristiano Goldschmidt
Moro no sétimo andar; Carlos, no nono. O oitavo, entre nós, guarda um apartamento vazio há 24 anos, o tempo exato em que estou no prédio. Pertence a um fazendeiro do interior que raramente vem a Porto Alegre. Há uma ironia nessa disposição: um andar inteiro de silêncio separa duas portas que, em outras circunstâncias, talvez estivessem mais próximas. Ainda assim, há noites em que a distância parece diminuir. Basta que Carlos se sente ao piano.

Numa dessas noites, já no começo da madrugada, eu escrevia diante do computador quando a música começou a se anunciar, distante. Chegava abafada, quase secreta, como se também ela soubesse que era tarde. Carlos fecha todo o apartamento para não perturbar os vizinhos; o som do piano, contido pelas janelas e pelas paredes, perde o brilho mais ostensivo e ganha uma intimidade particular. Não chega a ser concerto, nem ruído: é uma presença sussurrada, uma sucessão de notas que parece escolher o caminho mais discreto até meus ouvidos.
Naquela noite, antes de ouvi-lo, havia pensado nele. Fazia semanas que não o encontrava, nem o escutava tocar. Cheguei a pensar que talvez tivesse se mudado. Não havia motivo concreto para essa hipótese, apenas a ausência, que às vezes se encarrega de inventar explicações para si mesma. Então a música surgiu, vinda do nono andar, e desfez a suposição com a delicadeza de quem não pretende ser notado. Carlos continuava ali. E, por alguns minutos, voltei a ser plateia daquele artista particular. Ele tocava lá em cima, sem saber que eu o ouvia daqui.
Conheço-o dos encontros breves no hall de entrada e no elevador, das conversas que cabem entre a abertura e o fechamento das portas, das mensagens curtas que trocamos pelo WhatsApp. Há sempre alguma coisa que poderia ser dita com mais vagar, mas o elevador chega, o telefone interrompe, a vida chama cada um para o seu lado. Às vezes, quando nos encontramos, uma frase se prolonga um pouco além do tempo que dispomos; em outras ocasiões, o silêncio que vem depois parece guardar uma continuação que nenhum dos dois se apressa em oferecer. Talvez seja apenas impressão minha. Há impressões, contudo, que não pedem confirmação: preferem permanecer suspensas no ar.
Carlos estuda medicina e pretende fazer residência em pediatria. Diante de uma rotina tão exigente, compreendo que as conversas sejam breves e que os encontros prometidos se deixem adiar. Já falamos sobre um possível jantar, um vinho no fim de semana, a possibilidade de nos sentarmos sem a urgência habitual. A ideia ficou entre nós, não como compromisso vencido, mas como possibilidade: dessas que podem esperar sem perder o encanto. Imagino que, quando acontecer, haverá tempo para uma conversa inteira, sem o elevador anunciando a interrupção, sem a tela do celular reclamando atenção. Até lá, a promessa permanece em suspenso, como uma nota que o piano ainda não resolveu concluir.
Além da medicina e da música, Carlos encontra tempo para correr ou pedalar, inclusive em dias frios e chuvosos, quando a rua parece aconselhar a todos que fiquem em casa. A imagem me ficou: ele atravessando o tempo fechado, entregue ao próprio ritmo. Existe nele uma disciplina que não se exibe, embora acabe por se revelar. Talvez venha dos estudos, talvez do piano; talvez seja apenas um modo de estar no mundo, avançando sem alarde, mesmo quando o céu não colabora.
Hoje, não é tão comum encontrar jovens dispostos a um convívio demorado com a música erudita. Não afirmo que tenham desaparecido, nem que a curiosidade e o interesse pertençam a outra época. Mas a atenção, tão disputada, costuma ser atraída pelo que atordoa, pelo que se oferece depressa, em batidas e volume alto. Por isso, a figura de um jovem pianista dedicado à música clássica me parece um consolo. É profundamente alentador saber que, enquanto tanta coisa se precipita, alguém ainda se senta diante de um piano e aceita o tempo próprio de cada nota. Essa simples existência conforta o espírito, sobretudo o de quem escuta do andar de baixo.
Às vezes me surpreendo desejando que Carlos morasse ao lado, que entre a porta dele e a minha não houvesse um apartamento vazio, nem um andar inteiro a amortecer a música. Gostaria de ouvi-lo melhor, de deixar que o piano chegasse sem precisar atravessar tantas paredes. Mas talvez parte do encanto esteja justamente nessa distância: o som vem incompleto e a imaginação, convidada a preencher o que falta, acaba por compor a sua própria música. Ainda assim, se pudesse escolher, preferiria tê-lo mais perto. Não apenas pelo piano. Há presenças cuja proximidade se deseja antes mesmo de saber o que fazer com ela.
Carlos, porém, toca com cautela. Fecha o apartamento para que ninguém se incomode, como se oferecesse aos moradores uma consideração que talvez nem lhe tenha sido solicitada. Eu gostaria de lhe dizer que não há motivo para preocupação. A boa música não precisa pedir licença, sobretudo quando chega assim, com delicadeza, trazendo tranquilidade e abrindo espaço para a fruição estética.
Naquela madrugada, continuei escrevendo enquanto o piano tocava acima de mim. Não reconheci a peça, pois pouco entendo de música clássica. O que importa é o prazer que ela me oferece. Havia apenas as notas, o intervalo entre uma e outra e a certeza de que, por trás das paredes fechadas, Carlos estava acordado como eu. O oitavo andar permanecia vazio; ainda assim, naquele instante, não parecia separar coisa alguma. A música atravessava o espaço entre nós sem aboli-lo, e talvez essa seja a forma mais elegante de aproximação: não invadir, não explicar, apenas deixar que algo chegue devagar.
Quando o piano cessou, o silêncio voltou a ocupar seu lugar. Retomei o texto, embora, por alguns minutos, tenha escrito menos do que escutado. Pensei que, na próxima vez em que nos encontrássemos no elevador, talvez dissesse que o ouvi. Talvez ele sorrisse, talvez respondesse qualquer coisa breve e desviasse o olhar, intimidado, como já fizera outras vezes. Então as portas se abririam, e cada um seguiria seu caminho, rua afora ou para o próprio andar, levando consigo o que não coube na conversa.
Por enquanto, não espero que o piano resolva o que a vida, com o seu vagar, deixou entre nós por dizer. O jantar pertence agora a um futuro sem data, talvez a um tempo que já nem nos cabe; a música, ao contrário, ainda teima em acontecer, mesmo quando chega abafada pelas paredes e interrompida por semanas de absoluto silêncio. Escuto-a como quem reconhece um aceno distante, sem a pretensão de o reter. Do nono andar, Carlos me brinda com o rigor da sua música; eu permaneço no sétimo, e o oitavo, vazio há tantos anos, continua entre nós.
