Demagogia e masoquismo

GERALDO HASSE
Pensando bem, é inacreditável que um governo eleito pelo voto popular tenha coragem de propor medidas como uma reforma previdenciária que ferra a maioria pobre e favorece o setor financeiro, o mais bem aquinhoado e protegido segmento da economia brasileira. 

Isso é um escândalo sem precedentes, mas faz parte da lógica do Poder, que passou recentemente das mãos da velha raposa Temer para os dáctilos de um profissional do twiterismo, cujo primeiro ato de governo foi reduzir o valor do salário mínimo projetado pelo Congresso.
E assim vai o Brasil ladeira abaixo: mesmo sabendo que a Previdência não está quebrada, como ficou provado pela CPI realizada no ano passado pelo Senado, somos obrigados a escutar que essa reforma é indispensável para evitar a falência do sistema previdenciário.
Parece que o novo presidente, reformado no Exército, aprecia reformar a vida dos outros. Se fosse para melhor, tudo bem. Sabemos que não: o assunto foi entregue ao sinistro Paulo Guedes, que vem se destacando como o ministro da Fazenda mais impiedoso desde Pedro  Malan, que atuou no governo FHC.
Se os poderosos se sentem no direito de exercer tais formas de exploração, não devemos esquecer que:
1) num processo estranhamente masoquista, as pessoas elegem demagogos destituídos de espírito público;
2) a estrutura de poder está montada de forma que as coisas favoreçam os ricos;
3) os mecanismos da administração pública e da gestão privada dos negócios operam para perpetuar as distorções de poder;
4) os servidores públicos acham normal agir de acordo com “os interésses das zelites”;
5) os agentes da iniciativa privada, de alto a baixo, acostumaram-se a maximizar a exploração dos recursos naturais, entre os quais se destacam as pessoas, encaradas normalmente como mão-de-obra barateável, como se viu na reforma trabalhista em andamento.
Para escapar desse círculo vicioso que se mantém para perpetuar a miséria, não há outra saída senão  difundir informações verdadeiras, denunciando injustiças e trabalhando pela elevação dos níveis de educação, ensino e instrução em todas as instâncias sociais.
Por exemplo, não se pode aceitar que o Brasil tenha 12 milhões de analfabetos, 2 milhões de jovens fora da escola, 12 milhões de desempregados e 26 milhões de desalentados (pessoas que desistiram de procurar trabalho) que vivem à sombra de algum aposentado ou estão nas ruas catando lixo ou à mercê da boa vontade alheia.
Isso não é normal nem justo.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Todos sabemos que o ódio não cria emprego, não aumenta a renda, não resolve os graves problemas sociais do Brasil, da saúde, da educação e muito menos da segurança pública”.
Joaquim Ernesto Palhares, diretor do site Carta Maior, referindo-se à campanha de disseminação de ódio e violência do ex-capitão Jair Messias Bolsonaro, presidente da República.

3 comentários em “Demagogia e masoquismo”

  1. Geraldo, então os R$ 195,2 bilhões de déficit não existem? Se a arrecadação foi de R$ 391 bilhões e a despesa com benefícios R$ 586 bilhões, me parece que há sim um aumento anual da despesa com a previdência e que a receita tem diminuído ao longo dos anos e com os avanços tecnológicos tende a diminuir cada vez mais. Difícil chegar à alguma conclusão. Direita fala uma coisa, esquerda outra. Um abraço grande à você e ao Elmar. Carinho. Mauro Horst

  2. Outra coisa Geraldo, ninguém no Chile fala em mudar o atual sistema de capitalização para o de repartição. “Mesmo os mais céticos em relação à capitalização sabem que o modelo antigo, em que os contribuintes arcam com as aposentadorias correntes, não se sustenta com o envelhecimento da população”, diz o economista Alexandre Chaia, professor de finanças do Insper, em São Paulo. “Cedo ou tarde, os países precisarão migrar para a capitalização.”

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