O inverno aquecido pelo fogão a lenha, pelo conforto e pelo afeto contrasta com a dureza do frio para quem não tem sequer abrigo
Por Cristiano Goldschmidt
Assim que a primeira onda de frio chegou ao Rio Grande do Sul neste início de maio de 2026 (o inverno só começa oficialmente em 21 de junho), eu tive a sensação de que o tempo havia aberto uma velha gaveta da memória. Bastou o vento gelado começar a riscar os dias e o cheiro da lenha queimando reaparecer no ar para que eu voltasse, sem pedir licença, à infância dividida entre o Oeste do Paraná e a região das Missões.
Sou filho de pais gaúchos, nascido na comunidade de Santa Cecília, município de Missal, no interior do Paraná, onde vivi até os dezesseis anos. Em dezembro de 1992, como fazíamos todos os anos, viemos passar as férias de verão em Sete de Setembro, então pertencente ao município de Guarani das Missões. Ali acabei ficando, acolhido pelo tio Wilson, irmão de minha mãe, e por sua esposa, tia Lourdes. Em 1994, meus pais retornaram
definitivamente ao Rio Grande do Sul, trazendo a mudança na carroceria do caminhão e uma vida inteira de afetos apertados entre caixas de papelão.
Antes disso, eu já conhecia o frio gaúcho pelas férias escolares de julho na casa dos tios e tias – em Sete de Setembro, Santo Ângelo, Giruá, Guarani das Missões, São Paulo das Missões –, pelos galpões cheirando a fumaça e pelos cobertores de pena de ganso da casa dos avós maternos.

A infância, para mim, sempre teve temperatura baixa. Mesmo no Paraná, onde os invernos eram menos rigorosos do que no Rio Grande do Sul, havia geadas suficientes para transformar o amanhecer em espetáculo. Eu lembro da grama branca no quintal, das mãos aquecendo no fogão a lenha, da água chiando na chaleira e do leite fervendo devagar enquanto o rádio anunciava mais uma frente fria vinda do Sul. A casa em Portão do Ocoy – minha infância e parte da adolescência foram vividas entre Santa Cecília, Dom Armando e Portão do Ocoy –, Missal, era confortável. Não havia luxo, mas havia alegria e aconchego — e isso, descobri mais tarde, vale muito. O inverno não significava sofrimento; significava proximidade. Era a estação em que a família parecia se recolher para dentro dela mesma.
Minha mãe, professora, assava pão caseiro nas tardes frias dos finais de semana. Meu pai cuidava do fogo como quem vigia um patrimônio sagrado. O cheiro da madeira queimando se misturava ao do café recém passado e da roupa secando perto do fogão. Até hoje, nenhum aquecedor conseguiu reproduzir a sensação daquele calor amigo. Havia um ritual silencioso nos invernos da minha infância: fechar as janelas cedo, preparar a água quente para o chimarrão, ouvir o vento assobiar e perceber que, lá fora, o frio era quase um personagem rondando a casa.
Nas férias passadas nas Missões, no Rio Grande do Sul, o inverno tinha outra densidade. Parecia mais sério, mais encorpado, mas não menos poético. Os adultos falavam da geada como quem comenta um acontecimento importante. As madrugadas eram tão frias que a fumaça da respiração parecia querer ficar suspensa no ar. Eu me lembro dos galos cantando antes do amanhecer e da cerração cobrindo as estradas de chão. Lembro dos pés congelando no assoalho de madeira e da corrida até a cozinha para encontrar o fogão já aceso pela vó.
Talvez tenha sido ali que nasceu minha paixão definitiva pelas estações bem – ou mais ou menos – definidas. Crescer entre o Paraná e o Rio Grande do Sul me ensinou que o clima também constrói identidade. O verão tinha sua alegria espalhafatosa, mas era no inverno que a vida parecia ganhar profundidade. As conversas duravam mais. As refeições reuniam mais gente em volta da mesa. O silêncio da noite fria trazia uma espécie de
introspecção boa, dessas que ajudam a gente a se enxergar melhor.
Quando voltamos definitivamente ao Rio Grande do Sul, naquele início dos anos 1990, alguns parentes e amigos dos meus pais estavam fazendo o caminho contrário. Muita gente vendia o que aqui tinha e saía do Estado em busca de ampliar suas oportunidades no centro-oeste. Nós retornávamos carregando saudade e pertencimento. Eu era adolescente e poderia ter
encarado aquilo como perda, mas não foi assim. O frio das manhãs gaúchas me dava a sensação estranha de estar em casa antes mesmo de eu compreender totalmente o que era pertencimento.
Já adulto, a vida também me ofereceu oportunidades de sair do Sul. Algumas eram tentadoras. Havia promessas de crescimento profissional em regiões onde o inverno praticamente não existia, onde julho parecia uma continuação cansada de março. Pensei muitas vezes. Pesei salário, estabilidade, futuro. Mas nunca consegui ignorar o peso afetivo das estações na minha vida. Pode parecer exagero para quem não sente isso, mas há pessoas que precisam do inverno como outras precisam do mar. Eu precisava da neblina nas manhãs, dos ventos cortantes em dias de céu azul, do cheiro de chuva fria chegando, das árvores perdendo folhas, da sensação de recolhimento que o frio traz. Permanecer no Rio Grande do Sul foi também uma escolha emocional.
O inverno também nos obriga a desacelerar num tempo em que tudo parece funcionar em velocidade excessiva. Talvez seja por isso que eu goste tanto dele. Há uma honestidade no frio que o verão não possui. Nos dias gelados, ninguém consegue fingir invulnerabilidade por muito tempo. O corpo pede pausa, recolhimento, abrigo. A gente aprende a respeitar limites simples: o horário em que a noite chega mais cedo, o banho quente que vira recompensa, a necessidade de estar perto de alguém ou de alguma lembrança que aqueça. O inverno reduz os excessos e valoriza o essencial. Uma caneca quente entre as mãos pode significar mais conforto do que muitos luxos acumulados ao longo do ano.
Com o passar dos anos, percebi também que o inverno tem uma relação profunda com a memória. Existem cheiros que só aparecem nessa época e que funcionam como portas invisíveis para o passado. O aroma da lenha queimando, da roupa guardada por meses no armário, do café passado e do chimarrão cevado ainda no escuro da manhã, tudo isso desperta lembranças que estavam quietas dentro da gente. Talvez porque o frio nos torne mais introspectivos, mais atentos ao que sentimos. No verão, a vida parece acontecer para fora; no inverno, ela acontece por dentro. E nesse movimento interior, reencontramos pessoas que já partiram, casas que já não existem e versões antigas de nós mesmos que permanecem vivas em algum canto da memória.
Há ainda uma beleza silenciosa na paisagem do inverno gaúcho que sempre me emociona. A cerração cobrindo os campos, as árvores despidas ou as que só dão frutos nesta estação, o brilho branco da geada antes do sol nascer, tudo parece lembrar que a natureza também possui seus períodos de recolhimento e pausa.
Vivemos numa época em que se cobra produtividade permanente, entusiasmo constante, felicidade exibida o tempo inteiro. O inverno ensina justamente o contrário: ensina que existem ciclos de silêncio, de espera e de interiorização que também são necessários para florescer depois. Talvez seja essa a grande lição da estação mais fria do ano — a de que até a vida precisa, às vezes, diminuir o ritmo para continuar pulsando com verdade.
Claro que existe certa romantização no olhar de quem viveu o inverno cercado de proteção. Hoje, quando a primeira massa polar de 2026 derruba as temperaturas e as redes sociais e os grupos de mensagens se enchem de fotos de cafés especiais e cobertores felpudos, eu penso muito em quem enfrenta essa mesma estação de maneira brutal. O frio é poético quando existe estrutura. Fora disso, ele pode ser cruel.
Há uma diferença imensa entre apreciar o inverno e sobreviver a ele. Quem tem casa aquecida transforma a estação em experiência sensorial: sopa fumegante, vinho, pinhão, pantufas, filmes, silêncio confortável. Já quem vive em moradias precárias sente o frio entrando pelas frestas como uma agressão contínua. Enquanto alguns comemoram a chegada das temperaturas baixas, outros contam cobertores, improvisam abrigo ou aquecimento e atravessam madrugadas inteiras sem dormir direito.
Talvez por isso o inverno seja a estação mais humana de todas, porque ele escancara desigualdades. O calor excessivo incomoda a todos, mas o frio seleciona seus alvos com mais violência. Ele pune quem não tem teto adequado, agasalho, comida quente. E isso muda completamente a maneira como olhamos para ele.
Ainda assim, continuo esperando o inverno todos os anos. Não apenas pelo conforto das lembranças, mas porque ele me devolve partes de mim mesmo. Há algo de profundamente emocional em ouvir o vento minuano soprando à noite e lembrar do menino que corria sobre a grama branca no interior do Paraná, que passava férias nas Missões, que dormia ouvindo a madeira estalar no fogão a lenha dos avós. O frio tem esse poder estranho de conservar memórias como quem preserva brasas sob a cinza.
Nesta primeira onda de frio de 2026, enquanto o Rio Grande do Sul amanhece outra vez sob os impactos das baixas temperaturas, eu percebo que algumas escolhas da vida foram feitas menos pela razão do que pelos afetos. Permaneci aqui porque aprendi cedo que certas paisagens climáticas também viram morada emocional. E porque, apesar dos dissabores que o inverno inevitavelmente carrega, ainda encontro nele uma forma antiga de aconchego — aquela mesma que começou muitos anos atrás, entre o interior de Missal e as Missões, diante de um fogão a lenha aceso antes do amanhecer.
