MÁRCIA TURCATO: Mulheres, 8 de março

“Dói, dói muito muito. Dói na alma. Dói saber que mais de 240 mil pessoas morreram no Brasil. Dói saber que sou uma privilegiada por receber a vacina”.

Palavras de Elza Soares ao ser vacinada contra covid-19 por fazer parte do grupo de risco com mais de 80 anos de idade. Elza é uma guerreira, uma ativista, uma diva. Com esta declaração ela resgata na minha memória o que disse ao estreiar como cantora em um programa de rádio. “Eu vim do planeta fome”.

Foi o que respondeu ao apresentador que debochou de sua figura esquálida e mal vestida aos 13 anos de idade e já com um filho pra cuidar. “De que planeta você veio?”, indagou ele. Ninguém tem filho de livre e espontânea vontade aos 13 anos. Foi estupro. Elza sobreviveu.

Nem todas têm a mesma sorte. Vejo os ônibus lotados de mulheres, durante toda a pandemia, indo para o trabalho. São auxiliares de enfermagem e técnicas de enfermagem -profissões onde a maioria é mulher- indo para os hospitais e clínicas da região onde moro. Elas não pararam, estão na linha de frente. Vejo a moça da padaria, a moça do restaurante, da lanchonete, do supermercado e a da farmácia. Todas estão no ônibus lotado e no metrô. Elas vêm e vão todos os dias para manter os serviços funcionando, os serviços que nós usamos. Nós estamos em casa. Não estamos fazendo nada ou estamos no trabalho remoto. Elas estão nas ruas. E quando chegam em casa têm maridos, namorados, companheiras, filhos, maẽs e avós que cobram sua atenção. É a segunda ou terceira jornada de trabalho dessas guerreiras.

Há pouco tempo, em 2016 e 2017, elas enfrentaram outra crise sanitária. O surto do vírus Zika, que comprometeu a gravidez, o parto e a vida de seus bebês que nasceram com microcefalia e outras sequelas graves. Guerreiras. A maioria foi abandonada pelos companheiros que não suportaram o drama. Elas ficaram. Ficaram com seus bebês que choram muito mais do que qualquer outro bebê do mundo. Mulheres valentes. Mulheres anônimas.

Entre tantas guerreiras, lembro da minha bisavó Celina, e da minha avó, Teresa. Mulheres fortes, cada uma a seu modo, que souberam manter uma casa e a família em meio a vários desafios.

Para minha avó deve ter sido pior. Nascida em Alagoas, só foi buscada pela família – que havia migrado para o interior gaúcho, aos sete anos de idade. Acostumada com a linguagem e a comida nordestina, deve ter tido um choque cultural, ele foi viver numa colônia alemã. Acabou casando com um descendente de alemães. Ela sabia fazer tudo. Não tinha profissão formal. Mas costurava, cozinhava, bordava, crochetava e tricotava. Com ela aprendi alguns desses ofícios quando criança. Ela não ensinou nada disso pra minha mãe. Dizia que ela deveria estudar e ter uma profissão para não depender de ninguém. Deu certo. Minha mãe sabia tudo, mas não sabia nada que fosse doméstico. Eu segui o exemplo da minha avó, não ensinei nada doméstico pra minha filha. Felizmente ela acabou aprendendo essas coisas por conta própria, porque é muito útil saber fazer a própria comida e consertar a própria roupa além de ter uma profissão e um trabalho.

Nesse dia 08, minha homenagem a todas essas mulheres valentes, as mulheres da minha vida e as mulheres anônimas que mantém o mundo girando.

 

 

 

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