MIRIAM GUSMÃO / Weintraub e a ignorância como arma política

O recém exonerado ministro da Educação, Abraham Weintraub, protagonizou, no momento em que anunciou sua saída do cargo e horas antes de fugir para os Estados Unidos, mais uma cena dentro do script que cumpriu no governo. Difícil delimitar até que ponto ele  foi intencionalmente ator e até que ponto sua trajetória no primeiro escalão da República contou apenas com a adequada precariedade de sua formação e de sua cognição. Tudo indica que a mescla desses atributos conferiu-lhe as condições necessárias para brandir, em um ano e dois meses no cargo, a arma política do culto à ignorância.
    Foi assim que vimos um desempenho oposto ao de um ministro da pasta que deveria fomentar o  conhecimento. As dificuldades no manejo da língua materna evidenciaram lacunas de base e falta de leitura. Seu registro linguístico, seus erros ortográficos até em palavras de uso corrente, suas confusões semânticas e seu equívoco ao tentar citar conhecido autor de obra literária denotaram distância de salas de estudos e do ambiente acadêmico, ao qual não poupou insultos. Em lugar de dizer asseclas (correligionários), o ministro disse acepipes (petiscos de entrada); em lugar  de Kafka (o escritor Franz Kafka), disse kafta (comida árabe). O preocupante é que provocou muitos risos e, assim, deu alguns passos no caminho da normalização da ignorância.
       Outra característica de Weintraub foi reincidir em rompantes de ódio e desrespeito, atacando poderes, pessoas, povos e instituições. Com essa conduta, ampliou a função de colocar por terra a liturgia do cargo, rebaixando a vida pública, retirando dela exigências mínimas de  probidade e validando comportamentos autoritários.
      No gran finale, ao aparecer ao lado do presidente, a quem reiterou admiração, anunciou que iria ler um discurso. No entanto, o que leu foi um texto gritantemente informal, que não demandaria leitura. Foi um texto com acentuadas marcas de oralidade e com conteúdo prosaico, incluindo menção à cachorrinha da família. Esta, ironicamente, teria o mesmo nome – Capitu – de uma das conhecidas personagens mulheres criadas pelo canônico autor Machado de Assis.  Tudo foi, premeditado ou não, um grande deboche. A única informação desse texto de despedida foi o aviso de que sairia do país o mais rápido possível, e ele realmente saiu, com a ajuda do chefe, fugindo dos inquéritos em que é investigado.
        Talvez continue, pelas vias de comunicação remota, a brandir, impune, a arma do culto à ignorância. A mesma arma é empunhada pelo astrólogo aspirante a filósofo (que me poupo de citar) e por outros atores, como a patética ministra Damares. Todos eles são agentes dessa mesma causa, pois somente uma grande dose de ignorância generalizada criaria condições para o revisionismo histórico que  a extrema-direita pretende promover no Brasil atual.
     Enquanto desmonta o país, acaba com políticas públicas, entrega patrimônio, acentua desigualdades sociais, precariza o trabalho, deprecia os conhecimentos científicos e humanistas, desatende a saúde e atenta contra a vida do povo, o atual governo quer impor a sua versão do presente e do passado. Quer negar as evidências e vestígios da História. Quer espalhar a ignorância para tentar fazer crer que não houve extermínio de indígenas, escravidão negra, dominação colonial, opressões e violência, ditadura militar e escandaloso lucro de poucos em detrimento da sobrevivência de muitos. Não, a versão que tenta impor é de uma heróica trajetória de empreendedores, colonizadores, bandeirantes, pessoas vencedoras.
          Semeando muita ignorância, essa extrema-direita quer destruir séculos de conhecimento acumulado e de construção coletiva da História e da cultura, que incluiu mais vozes e tornou mais denso o legado. Cabe aos progressistas cuidar desse legado, por todos os meios, incluindo o cultivo de vida inteligente nas vulneráveis redes sociais.

4 comentários em “MIRIAM GUSMÃO / Weintraub e a ignorância como arma política”

  1. Maravilhoso. PAReCE-ME que ESSE MINISTRO so reiterou as ideias do senso comum sem reflexao de um governo que sente perseguido por ” ideias comunistas”. Sem nenhum projeto para a melhoria da educaçao, esse ministro , com.um.sobrenome complexo kkll; não so reproduziu a ignorância na sua fala, como em.suas ações.

  2. Texto preciso, fez a síntese da passagem deste Ministro, que envergonhou o cargo que exerceu e que sequer saiu da campanha, preferindo a militância ao seu trabalho.

  3. Muito bom! É exatamente isso. Weintraub é apenas mais um personagem inacreditável desse “governo” surreal. Assim como o são a Demaris, o Ernesto Araújo, o Salles e o lamentável deputado gaúcho Bibo Nunes, dentre outros. Pergunto: essa gente (e 28% dos brasileiros!) crê realmente na “liderança bem intencionada” do Bozo? Não é possível…

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