Nasce o Instituto Clovis Ilgenfritz da Silva

Parte do público presente no lançamento do Instituto | Foto de Bruna Suptitz/Divulgação

Por Cristiano Goldschmidt

Lamentavelmente, não conheci o Clovis Ilgenfritz da Silva nem acompanhei em vida sua atuação. Há três anos, porém, tenho o privilégio de conviver e trabalhar em um grande projeto com seu filho, o também arquiteto Tiago Holzmann da Silva, diretor-presidente do Instituto que no final da tarde desta quinta-feira, 24 de setembro, foi lançado em Porto Alegre. O que sei de Clovis chegou a mim, portanto, por caminhos diferentes: pelos relatos de quem esteve ao seu lado, pelos vestígios públicos de uma trajetória extensa e, de modo particular, pelo convívio com Tiago, em quem reconheço valores humanos e profissionais que parecem prolongar os do pai. Há também, certamente, algo daquele talento para a profissão que não se transmite por certidão, mas encontra no trabalho cotidiano uma forma de continuidade.

O lançamento de um instituto dedicado a alguém que já não está entre nós contém uma pergunta pertinente: o que significa manter viva uma memória? Há lembranças que se guardam como fotografias, protegidas da passagem do tempo; outras, mais exigentes, pedem para ser postas em movimento. A primeira preserva a imagem. A segunda convoca a responsabilidade. O Instituto Clovis Ilgenfritz da Silva nasce diante dessa escolha e parece inclinar-se, desde o início, para a tarefa mais difícil: fazer com que a memória de seu patrono não se encerre na reverência, mas permaneça em circulação, capaz de interpelar o presente e de participar da construção do que ainda não existe.

Na cerimônia, entre as personalidades do campo democrático de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, estiveram o ex-governador Olívio Dutra e Raul Pont, ex-prefeito da capital. A presença de nomes ligados à vida política da cidade também dizia algo sobre a natureza dessa homenagem. Clovis não pertence apenas ao universo da arquitetura, embora tenha sido arquiteto e urbanista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sua história atravessa profissões, instituições, movimentos e governos; cruza a prancheta e a tribuna, o sindicato e a administração pública. Em sua trajetória, a cidade não era pano de fundo. Era assunto, disputa, obra coletiva.

O ex-governador Olívio Dutra recebe o título de Associado Honorário das mãos de Tiago Holzmann da Silva, diretor presidente, e de Eliana Bizzi, diretora técnica | Foto de Bruna Suptitz / Divulgação.

Talvez seja essa a primeira lição que o Instituto herda: a arquitetura não começa nem termina no desenho de uma edificação. Ela se estende às condições que tornam possível habitar, ao modo como os serviços e os espaços são distribuídos, às decisões que definem quem pode permanecer em determinado lugar e quem é empurrado para longe. Falar de urbanismo, nesse sentido, não é tratar de uma ciência distante das vidas comuns. É falar de distâncias concretas, de deslocamentos, de vizinhanças, de acesso à água, à escola, ao transporte, à praça e à moradia. É falar da política que se materializa no território, muitas vezes sem precisar anunciar o próprio nome.

Clovis trabalhou com habitação popular, planejamento urbano e transporte, ensinou, participou de entidades profissionais e atuou na vida pública. Foi vereador em Porto Alegre, presidiu a Câmara Municipal e ocupou funções executivas na cidade e no Estado. Essa enumeração, por si só, não o explica. Importa menos como uma lista de cargos do que como indício de um compromisso que atravessou diferentes arenas: trazer para o centro das decisões a vida de quem, em geral, aparece tarde demais nelas. Há uma diferença entre falar da cidade como conjunto de problemas técnicos e reconhecê-la como experiência cotidiana de seus habitantes. A trajetória de Clovis aponta para essa segunda compreensão.

Entre as marcas de sua atuação está a defesa da assistência técnica em habitação de interesse social, causa que se consolidaria na Lei Federal nº 11.888, de 2008. A relevância dessa conquista se deixa perceber quando lembramos que o direito à moradia não se esgota na existência de um teto. Uma casa pode abrigar uma família e, ainda assim, estar exposta a riscos, ser inadequada às necessidades de quem vive nela ou permanecer isolada das estruturas que tornam a vida urbana possível. A assistência técnica aproxima conhecimento profissional e direito social: afirma que arquitetura e engenharia não devem ser privilégios reservados a quem pode pagar, e que a qualidade do espaço habitado também diz respeito à dignidade.

Essa ideia tem uma simplicidade que não a torna pequena. Pelo contrário: é justamente sua clareza que revela o tamanho do problema. Se há profissionais capazes de projetar, orientar e construir soluções, por que esse saber deveria alcançar somente os que já dispõem de recursos? A pergunta desloca a arquitetura de sua imagem mais celebrada, a do objeto singular, e a conduz a um terreno menos espetacular, embora mais decisivo: o da vida que acontece dentro de casa e ao redor dela. Clovis ajudou a dar forma pública a essa questão. O Instituto agora recebe o desafio de mantê-la presente, sem transformá-la em patrimônio imóvel.

Há algo de particularmente expressivo em uma instituição dedicada a um arquiteto nascer com a ambição de reunir memória, conhecimento e ação. É como se o legado não pudesse ser considerado completo enquanto permanecesse apenas nos documentos, nos relatos e nas homenagens. A lembrança pede arquivo, pesquisa, publicação, encontro; pede que projetos, ideias e experiências sejam recuperados e compartilhados. Mas pede também interlocução com os dilemas atuais da moradia, do planejamento e do direito à cidade. Preservar, nesse caso, não é fechar as portas ao passado. É abrir condições para que ele seja interrogado por quem ainda está aprendendo a nomear os problemas do presente.

A cidade é uma obra sem autor único. Mesmo quando um projeto traz a assinatura de alguém, o espaço urbano resulta de escolhas acumuladas, conflitos, necessidades e formas de cooperação. Talvez por isso a arquitetura social resista tão bem à lógica do monumento: sua grandeza não se mede apenas pelo que se vê, mas pelo que torna possível. A habitação digna não precisa ser extraordinária para mudar uma vida. Uma política urbana justa não se anuncia necessariamente em fachadas, mas altera as distâncias entre as pessoas e os meios de exercer seus direitos. O trabalho de Clovis encontra parte de sua medida nessa passagem entre a ideia e a consequência cotidiana.

Ao ver Tiago assumir a presidência do Instituto, penso nessa continuidade sem confundi-la com repetição. Nenhum filho recebe do pai uma biografia pronta, e nenhum projeto novo pode ser mera réplica de um caminho anterior. O que pode ser herdado, e reconheço em Tiago, é uma disposição ética: levar a sério as pessoas a quem o trabalho se destina, tratar a profissão como responsabilidade pública e não separar competência de compromisso. A transmissão mais verdadeira não é a que conserva cada resposta, mas a que ensina a formular de novo as perguntas. Nesse sentido, o Instituto não inaugura uma extensão doméstica da memória familiar. Coloca-a diante de uma comunidade mais ampla, feita de profissionais, movimentos, instituições e gerações que, como eu, talvez nunca tenham conhecido Clovis, mas que poderão trabalhar com problemas que ele ajudou a tornar visíveis.

No final da tarde de ontem, Porto Alegre recebeu o nascimento de uma instituição que carrega um nome próprio, mas não se limita à intimidade desse nome. Clovis viveu e trabalhou em uma cidade que conheceu mudanças, disputas e experiências de participação política; sua trajetória também se inscreve na história mais ampla da arquitetura brasileira e da luta pela moradia. O Instituto, sediado na capital gaúcha e voltado a uma atuação de alcance nacional, guarda esse vínculo entre escalas. A cidade em que se acende a memória é a mesma que oferece o chão concreto para testar o que ela significa. Não há homenagem mais consequente do que essa: devolver à cidade, como tarefa presente, as perguntas que nasceram de sua história.

As instituições, como as cidades, não ficam prontas no dia da inauguração. Começam ali, diante de um conjunto de compromissos que só ganham consistência quando encontram continuidade, trabalho e interlocutores. O nome inscrito na porta indica uma origem; o que se fará dentro dela, e para além dela, é que determinará o alcance da promessa. Pesquisar, formar, promover debates, articular pessoas e contribuir para políticas públicas são verbos que exigem tempo. Não se realizam por força da solenidade, mas graças à persistência de quem volta ao trabalho depois que os convidados partem e as luzes se apagam.

É também por isso que a memória de um profissional com atuação tão diversa não deveria ser domesticada em uma narrativa sem conflito. Clovis interveio na política, participou de entidades e defendeu ideias sobre o papel do Estado, dos profissionais e da sociedade na produção da cidade. Lembrá-lo com seriedade significa preservar essa dimensão pública, inclusive a possibilidade de que suas ideias sejam examinadas, discutidas e levadas adiante por caminhos novos. Um legado vivo não exige concordância ritual; oferece matéria para o pensamento e para a ação. A homenagem mais útil não é transformar uma pessoa em estátua, mas permitir que sua obra continue a provocar perguntas reais.

Penso, por fim, que a palavra “nasce”, no título desta crônica, contém um sentido maior do que o da abertura de uma sede ou da apresentação formal de uma entidade. Nasce um lugar de encontro entre pessoas que partilham uma inquietação: como fazer do conhecimento técnico um bem social, e da cidade um espaço em que mais gente possa viver com dignidade? Nasce uma possibilidade de aproximar a experiência acumulada por Clovis das urgências que ainda não encontraram resposta. Nasce, sobretudo, a responsabilidade de não deixar que a lembrança se torne uma forma elegante de esquecimento.

Não conheci o Clovis. Essa ausência, que no início me parecia uma distância incontornável, tornou-se também um convite a escutar. Escutar quem trabalhou com ele, quem aprendeu com suas ideias, quem esteve ao seu lado e quem, como Tiago, carrega adiante algumas de suas convicções sem renunciar à própria trajetória. Hoje, ao ver o Instituto receber seu nome, compreendo que um legado não pertence apenas ao passado nem apenas à família de quem o iniciou. Ele passa a pertencer também a todos os que decidem torná-lo consequente. Em Porto Alegre, nesta quinta-feira, a memória de Clovis encontrou uma nova morada. A partir de agora, caberá a muitos mantê-la aberta.