
“Os juízes da nação não são, como dissemos, mais do que a boca que pronuncia as palavras da lei.” Montesquieu, em O Espírito das Leis
Por Cristiano Goldschmidt
Na política, sabemos que o problema começa quando o olhar superficial sobre a biografia do candidato substitui o exame rigoroso do caráter, das ideias, da coerência e da capacidade administrativa. Olhemos com atenção para o paradoxo no centro da campanha paranaense: um homem que jamais administrou nada, que nunca governou uma cidade, um estado, uma empresa ou sequer uma secretaria, pode tornar-se governador de uma das unidades mais complexas e produtivas da federação. O feito, ao se concretizar, acontecerá menos pelo que o candidato propõe do que pela biografia que construiu, mesmo que eivada de polêmicas e contradições. O Paraná que se orgulha do mito do trabalho, da imigração que plantou e industrializou o interior, do planejamento que transformou Curitiba em vitrine urbana do país, parece disposto a entregar o Palácio Iguaçu a um homem cuja única passagem pelo Executivo durou dezesseis meses e terminou em rompimento ruidoso, com acusações graves contra o próprio chefe. E antes de perguntar o que isso diz dele, convém perguntar o que diz sobre os eleitores.
O juiz que era o espetáculo
A carreira que lhe deu fama foi a de juiz, e é precisamente aí que começa o problema moral. Montesquieu definiu o magistrado como a boca que pronuncia as palavras da lei, imagem da humildade institucional: o julgador não é o dono da sentença, é o seu servo, e a toga existe para apagar o homem que está atrás dela. O juiz Sergio Moro foi o inverso exato dessa imagem. Tornou-se protagonista de uma operação que a imprensa consagrou com nome próprio, concedeu entrevistas, colheu o aplauso das ruas, pautou o noticiário nacional por anos a fio e tratou como inimigos pessoais aqueles que conduzia ao banco dos réus.
A imparcialidade, cumpre lembrar, é o fundamento moral e jurídico da magistratura. Sem ela, o juiz deixa de ser um terceiro equidistante e passa a ocupar um lugar indevido no conflito que deveria julgar. A toga não autoriza convicções políticas disfarçadas de decisões técnicas. O juiz não pode desejar o resultado do processo, celebrar seus efeitos públicos e, ao mesmo tempo, exigir que a sociedade o reconheça como árbitro neutro.
Quando o The Intercept Brasil divulgou, em junho de 2019, as mensagens trocadas entre ele e a força-tarefa, o país pôde ver o que antes apenas se suspeitava: um juiz a orientar o acusador sobre provas, prazos e estratégias, a sugerir movimentações processuais, a atuar, na prática, como membro da acusação. Moro contestou a autenticidade do material, mas a revista Veja, em parceria com o próprio site, examinou os diálogos e sustentou, em reportagem de capa publicada no dia 05 de julho, que eles eram verdadeiros.
A Justiça, por fim, falou. Em março de 2021, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal reconheceu, por três votos a dois, a parcialidade do ex-juiz na condução do processo do tríplex, e o Plenário confirmou o veredito em junho, por sete votos a quatro. Em outro julgamento, o Supremo declarou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para processar os casos envolvendo o ex-presidente. Não se tratava de um detalhe técnico: a Corte enumerou a condução coercitiva televisionada, as declarações públicas do julgador, o protagonismo midiático, e concluiu que Moro não julgara como juiz, mas como parte interessada no resultado. A condenação de julho de 2017, que tantos saudaram, acabou fulminada pelo vício de origem. O mais alto tribunal do país disse, sem rodeios, que o método era o problema. Quem ainda sustenta que tudo não passou de perseguição política deveria explicar por que sete ministros, entre conservadores e progressistas, convergiram no mesmo diagnóstico.
O político sem eixo
A passagem para a política não corrigiu o desvio, agravou-o. Em novembro de 2018, Moro aceitou o Ministério da Justiça de Jair Bolsonaro, desmentindo tudo o que dissera durante anos, que não tinha ambições políticas e que a toga não se trocava por cargos. Trocou. E trocou por um governo cuja família, poucos meses depois, ele próprio veria sob investigação. A sequência é vertiginosa e está toda documentada: em janeiro de 2019, em Davos, garantiu que o governo não interferiria nas apurações sobre o caso Queiroz, que atingia o filho do presidente; em abril de 2020, demitiu-se em praça pública, acusando Bolsonaro de querer aparelhar a Polícia Federal para “ligar, colher informações e relatório de inteligência” de inquéritos e proteger a família; no livro Contra o Sistema da Corrupção, escrito depois da saída, acusou o ex-presidente de ter usado o governo para blindar o filho no caso da rachadinha e chamou de “temerária” a decisão que beneficiou Flávio Bolsonaro. “Um estadista tem o compromisso de dirigir o país pensando no bem-estar geral e não em proteger o filho ou a família da ação da lei”, escreveu. Frase justa, aliás, das mais justas que já saíram de sua pena.
Mas observem o que veio depois. Em outubro de 2022, já eleito senador pelo Paraná com quase dois milhões de votos, Moro declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno, “contra o projeto de poder do PT”, como se o projeto de poder da família que ele próprio acusara de blindar o filho fosse aceitável. Em março de 2026 o círculo se fecha com uma ironia que dispensa comentários: Moro filiou-se ao PL, o partido que, ao lado do PT, pedira a cassação do seu mandato por abuso de poder político e econômico, processo do qual a Justiça Eleitoral o absolveu, e hoje distribui no Paraná palanque para Flávio Bolsonaro, o mesmo Flávio que ele acusou, por escrito, de ter sido protegido pelo pai. O partido que tentou destruí-lo politicamente tornou-se o seu abrigo; o homem cuja família ele denunciou tornou-se o seu padrinho eleitoral. O seu parceiro de Lava Jato, Deltan Dallagnol, eleito o deputado mais votado do Paraná e depois cassado por unanimidade pelo TSE, completa o quadro de uma geração que trocou o tribunal pela conveniência e perdeu as duas coisas.
A política pode abrigar mudanças de posição, e ninguém é obrigado a conservar para sempre uma aliança ou uma inimizade. O que não pode desaparecer é a explicação coerente para a mudança. A contradição não reside apenas no apoio posterior. Ela está na dificuldade de conciliar a denúncia moral de ontem com a aliança política de hoje sem oferecer uma interpretação consistente sobre o que mudou: Bolsonaro, Moro ou apenas a conveniência eleitoral de ambos? A ética pública não exige que o político seja incapaz de rever posições; exige que ele explique as revisões com honestidade intelectual. Um homem que acusa determinado grupo de representar uma ameaça institucional não pode voltar a esse grupo sem demonstrar, de maneira convincente, que os motivos da acusação desapareceram. Caso contrário, o discurso anticorrupção se revela menos um princípio do que uma ferramenta de combate seletivo.
Quem procura coerência no percurso de Moro encontra um homem que acusa a família Bolsonaro de tudo o que a Justiça pode acusar e depois se elege sob a proteção da mesma família; que denuncia a interferência política na Polícia Federal e aceita a bênção do partido que queria cassá-lo; que dizia combater o sistema e termina no balcão de conveniências do sistema. Não é cinismo, é coisa pior: é a convicção de que os fins justificam os meios, inclusive os próprios fins, redefinidos a cada ciclo eleitoral. Um homem que acusa hoje e abraça amanhã não tem princípios, tem preços. E o pior é que o preço, no seu caso, é sempre o mesmo: o cargo.
A palavra e o ofício
Há ainda a questão, delicada e reveladora, da palavra. O português de Moro virou anedota nacional: o “conje” no lugar de cônjuge, proferido durante sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, em 03 de abril de 2019, quando ministro da Justiça; o “com mim” no lugar de comigo, em audiência no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PR) em 07 de dezembro de 2023; os tropeços já no Roda Viva, em 26 de março de 2018, quando ainda juiz federal, oportunidade em que chamou a atenção pelas dificuldades no raciocínio, na concatenação de ideias e na fala. Sem contar o vexame no programa “Conversa com Bial”, em abril de 2019, quando afirmou que gostava de ler biografias, mas não soube responder o título da última obra do gênero que havia lido.
Importante sublinhar que um erro ocasional de linguagem não desqualifica ninguém para o exercício de uma função pública; a norma culta não é um certificado de inteligência, e a política brasileira está repleta de pessoas escolarizadas que falam mal e de pessoas sem formação acadêmica que expressam ideias vigorosas. O problema aparece quando um personagem foi elevado à condição de autoridade intelectual e moral justamente por sua suposta superioridade técnica – posteriormente questionada em diversas ocasiões. Nesse caso, as falhas de expressão deixam de ser apenas um tropeço: entram em conflito com o perfil desejado para a magistratura e com a imagem que o próprio personagem cultivou.
O juiz vive da palavra: é com ela que, após ouvir as partes e analisar as provas, decide se condena ou absolve. Quem a manuseia com descuido revela desprezo pela precisão que exige dos outros, e um juiz que despreza a precisão da linguagem despreza, em alguma medida, a precisão do próprio direito. Moro já demonstrou tratar a sua palavra como um balcão de conveniências, onde qualquer palavra serve, desde que sirva ao momento. Rui Barbosa, um dos maiores oradores que o foro brasileiro já conheceu, na Oração aos Moços, discurso dirigido aos formandos de Direito, definiu a pátria como “a comunhão da lei, da língua e da liberdade”. Moro também parece desconhecer essa lição: para Rui, a língua não era ornamento, mas um dos pilares sobre os quais se ergue a própria nação. Quem trata a palavra como moeda de troca, válida apenas enquanto serve ao momento, não despreza apenas a gramática; despreza o alicerce comum que sustenta a justiça e a pátria.

Analisar o mau uso da palavra por Sergio Moro no exercício de suas funções públicas não é pedantismo. É importante para mostrar que a linguagem é mais do que ornamentação: ela organiza o pensamento, estabelece relações de causa e consequência, distingue hipótese de certeza, fato de opinião e acusação de prova. Quando um político recorre a formulações imprecisas, slogans repetitivos e frases prontas, o eleitor deveria perguntar se está diante de uma ideia ou de uma performance. A mesma displicência com as palavras aparece na dificuldade de sustentar um raciocínio por mais de um mandato, de manter uma posição por mais de uma estação política. A língua trai o pensamento: quem não domina o instrumento com que pensa, pensa mal; e quem pensa mal, decide mal. Um governador decide todos os dias, sobre saúde, educação, estradas, segurança, e cada decisão se escreve em palavras que precisam ser exatas, porque erros de vírgula em um edital custam milhões, e erros de conceito em uma política pública custam vidas.
O desconhecimento do Paraná
O mesmo desconhecimento aparece em entrevistas quando o assunto é o próprio estado. Nascer em Maringá não basta para conhecer o Paraná; é preciso tê-lo estudado, percorrido e, sobretudo, respeitado na sua complexidade. A pergunta essencial é: onde está o projeto de Estado?
A candidatura de Moro continua excessivamente apoiada na sua identidade de ex-juiz e na exploração eleitoral da Lava Jato. Essa identidade pode produzir votos, mas não substitui uma visão sobre o Paraná. O estado possui desigualdades profundas entre regiões, diferentes vocações econômicas, problemas logísticos, desafios ambientais, tensões fundiárias, demandas específicas de pequenos municípios e uma rede de serviços públicos que não se administra com frases de efeito – mesmo que para formulá-las lhe demandem grande esforço. É uma das economias mais diversificadas do país, com agricultura forte no Oeste e no Norte, indústria automotiva na região metropolitana, um porto que movimenta a riqueza do continente, fronteiras secas que exigem inteligência fiscal e uma população que combina as tradições de imigração mais variadas. Ou seja, governar exige repertório, e o repertório de Moro, construído nos tribunais de Curitiba e nos palanques de Brasília, é um repertório que não inclui qualquer experiência em gestão pública.
Outro ponto importante: O Paraná não é um cenário abstrato para a reencenação de conflitos nacionais. Não é apenas um reduto conservador, uma plataforma de oposição a Lula ou uma extensão eleitoral do bolsonarismo. É um território marcado pela pluralidade de suas regiões, por sua história de imigração e migração, por contrastes entre o campo e as cidades, por comunidades tradicionais, por centros universitários, por uma indústria sofisticada e por extensas áreas ainda carentes de serviços essenciais.
O desconhecimento de assuntos ligados ao próprio estado, quando aparece em seus discursos, entrevistas ou declarações públicas, não é mero detalhe folclórico: revela a distância entre a pseudocelebridade nacional e o candidato a administrador local.
A filosofia política do salvador
Max Weber, o maior cientista político do século XX, distinguiu a ética da convicção da ética da responsabilidade. O homem de convicção pergunta o que é certo, age e lava as mãos; o homem de responsabilidade pergunta o que o mundo exige, age e responde pelos resultados. O governador é, por definição, um homem de responsabilidade: administra folha, saúde, estradas, educação e presta contas de cada promessa. Moro é o protótipo do homem de convicção, que enxerga o mundo como um tribunal e os adversários como réus. Transportar o tribunal para o Palácio Iguaçu seria confundir a natureza das coisas: o governador não condena, governa; não julga, decide; não dispõe de um pelotão de inspetores, dispõe de um orçamento, que é sempre escasso diante de necessidades infinitas.

O político que se apresenta como homem de princípios, mas muda de lado sem explicar a mudança, não pratica propriamente a ética da convicção. O político que promete combater o mal absoluto, sem admitir a complexidade das instituições, também não demonstra ética da responsabilidade. Ele apenas transforma a política em uma disputa entre puros e impuros, na qual sua própria posição aparece sempre como moralmente superior.
Há ainda o risco mais profundo. A política brasileira pagou caro pela crença de que resultados excepcionais justificariam procedimentos excepcionais. Parte da sociedade aceitou que a condenação de determinados adversários era suficiente para validar qualquer irregularidade processual. Esse raciocínio é perigoso porque transforma a Justiça em instrumento de confirmação moral de uma maioria. Hoje ele pode atingir um adversário político. Amanhã pode atingir o grupo que comemorou a punição. A democracia não pode ser defendida pela suspensão das garantias que a distinguem do arbítrio; o combate à corrupção não autoriza a flexibilização da imparcialidade, da presunção de inocência ou da separação entre acusação e julgamento.
Em O Príncipe, Maquiavel escreveu que não há empreendimento mais difícil de manejar, mais duvidoso de lograr e mais perigoso de conduzir do que introduzir uma nova ordem de coisas. Moro se apresenta exatamente como o homem da nova ordem, o purificador, o que viria para varrer o estado. Mas a história das repúblicas está cheia de salvadores que prometeram purificação e entregaram mediocridade; a tentação do homem providencial é o mais antigo vício da nossa tradição política. Basta olhar para a Itália. No início dos anos 1990, a operação Mãos Limpas (Mani Pulite) desmontou, a partir de Milão, um sistema de corrupção que envolvia partidos e empresários, e transformou os juízes que a conduziam em heróis nacionais. O país inteiro aplaudia aqueles magistrados como salvadores da República. Mas quando eles desceram do altar para disputar eleições, a aura que os tornara invencíveis se dissipou: perderam o prestígio que os sustentava e a Itália ganhou, no lugar de heróis, políticos comuns envoltos em contradições. O precedente é incômodo e se aplica diretamente a Moro. Havia quem temesse, já em novembro de 2018, exatamente esse destino para ele; o tempo encarregou-se de confirmar o temor. O Paraná, no entanto, não precisa de herói; precisa de administrador. A virtù que Maquiavel exigia do príncipe novo não era a retórica do tribunal, era a capacidade de dominar a fortuna com as próprias mãos; e a política, como ensinava Max Weber em A Política como Vocação, deve equilibrar duas éticas fundamentais: a ética da convicção e a ética da responsabilidade.

A democracia madura não elege santos. Elege administradores submetidos à lei, ao controle público e à possibilidade de crítica. O Paraná não precisa de um governador que se apresente como juiz da sociedade. Precisa de alguém capaz de reconhecer problemas antes que eles se convertam em escândalos, dialogar com forças divergentes e administrar sem confundir firmeza com inflexibilidade.
O erro seria eleger a ilusão
O possível maior erro dos paranaenses seria eleger a ilusão de que a biografia de um juiz que buscou tornar-se celebridade substitui o ofício de governar, e de que a firmeza contra a corrupção, demonstrada a golpes de espetáculo e desmentida a golpes de aliança, é prova de capacidade administrativa. Seria permitir que a memória da Lava Jato substituísse a discussão sobre saúde, educação, segurança, infraestrutura, inovação, agricultura, meio ambiente e equilíbrio regional. Seria aceitar que o passado judicial de um candidato – questionado em diversas instâncias – funcionasse como salvo-conduto para seu despreparo político.
Sergio Moro pode conquistar uma eleição. As pesquisas indicam que sua candidatura é competitiva. Mas vencer uma eleição não transforma incoerência em virtude, parcialidade em imparcialidade ou celebridade em estadista. O voto popular confere legitimidade ao mandato, mas não apaga a obrigação de examinar o passado.
O Paraná deveria escolher seu próximo governador pela qualidade das respostas que oferece, pela consistência de suas alianças, pela compreensão do estado que pretende dirigir e pela disposição de respeitar instituições mesmo quando elas contrariem seus interesses. Eleger a ilusão tem preço, e o preço se paga em mandato inteiro, em anos perdidos, em políticas públicas concebidas para a câmera e não para a população. Se ele vencer, o Paraná descobrirá, ao custo de quatro anos, que o homem que acusa hoje e abraça amanhã não era o que parecia quando a câmera ligava; e descobrirá também que não há carta branca que resista à realidade da administração, nem toga que proteja o governador da prestação de contas.
Resta saber se os paranaenses querem pagar esse preço para aprender o que já sabiam: que tribunal não é governo e que justiça sem imparcialidade é apenas o nome que damos à vingança organizada. Se elegerem Moro sem exigir respostas, talvez não estejam apenas escolhendo um governante controverso. Consagrarão uma ideia de política na qual a pose de integridade vale mais do que a integridade demonstrada, a acusação vale mais do que a prova e a conveniência vale mais do que a coerência. Esse seria, possivelmente, o maior erro político de um Estado que merece muito mais do que a repetição de seus próprios mitos. A escolha, como sempre, é deles. O erro, se vier, será deles também, e não haverá juiz, por mais célebre que seja, para absolvê-los da história.
