ONG Pé de Pano é exemplo de trabalho e conquistas na região das Missões

Enarê, antes e depois de ser resgatado pela Pé de Pano com apoio da Brigada Militar. Estava caído vítima de maus tratos e espancamentos. Ficou com sequelas neurológicas que permanecem após 8 anos de cuidados pela ONG.

Por Cristiano Goldschmidt

Um cavalo exausto parado à beira de uma estrada, as costelas aparentes, o olhar apagado por dias de fome e esforço excessivo, não revela apenas o sofrimento de um animal. Revela também as escolhas de uma sociedade e a ineficiência do poder público. A forma como tratamos os seres mais vulneráveis sempre acaba expondo algo sobre nossa própria humanidade – ou a falta dela. Talvez por isso o cuidado com os animais seja uma questão que ultrapassa a sensibilidade individual e alcance o campo da ética, da responsabilidade e da consciência coletiva.

É justamente nesse espaço, onde a indiferença poderia prevalecer, que surgem pessoas dispostas a agir. Em Santo Ângelo, no interior Rio Grande do Sul, a ONG Pé de Pano SOS Cavalos (@ong_pedepano) transformou essa disposição em missão permanente. Desde 2015, a entidade dedica-se ao resgate, tratamento e reabilitação de equinos vítimas de maus-tratos. Ao longo dos anos, dezenas de cavalos encontraram ali uma segunda oportunidade de vida. Muitos chegaram debilitados, desnutridos ou feridos; outros carregavam marcas menos visíveis, mas igualmente profundas, deixadas pelo abandono, pela negligência e pela exploração. Cada resgate representa mais do que o salvamento de um animal. Representa a recusa em aceitar que o sofrimento seja tratado como algo normal.

Resgatados, tratados e reabilitados, os equinos passam a viver soltos na sede da Pé de Pano | Divulgação ONG Pé de Pano

Cada equino acolhido pela ONG traz consigo uma história. Alguns foram submetidos a jornadas exaustivas puxando carroças muito além de suas capacidades físicas. Outros sofreram abandono após anos de trabalho. Muitos chegam acometidos por doenças que poderiam ter sido evitadas com cuidados mínimos. Em diversos casos, não é apenas o corpo que precisa ser tratado. O medo, a desconfiança e os traumas também exigem um longo processo de recuperação.

O trabalho da ONG nos convida a refletir sobre uma questão fundamental: qual é o valor de uma vida?

Vivemos em uma época marcada pela lógica da utilidade. Com frequência, atribuímos valor às coisas de acordo com aquilo que podem produzir. Um cavalo muitas vezes é reduzido à condição de ferramenta de trabalho. Quando deixa de servir a determinada finalidade econômica, torna-se descartável aos olhos de quem o explorava. Essa lógica, infelizmente, ainda persiste em muitos lugares.

Mas a atuação da Pé de Pano desafia justamente essa visão. Ao acolher um animal ferido, envelhecido ou incapaz de gerar qualquer retorno financeiro, a ONG afirma algo profundamente humano: a dignidade de um ser vivo não depende de sua utilidade. O valor da vida não pode ser medido por sua capacidade de produzir lucro.

Essa compreensão aproxima o trabalho da entidade de uma dimensão muito maior do que o simples resgate animal. Trata-se de reconhecer que a compaixão é um princípio civilizatório. Uma sociedade que aprende a respeitar os mais vulneráveis torna-se também mais preparada para proteger crianças, idosos, pessoas em situação de exclusão e todos aqueles que necessitam de amparo.

À frente dessa missão estão pessoas que decidiram transformar indignação em compromisso. Entre elas, destacam-se as advogadas Cristine Peixoto e Tatiane Sarmento, que dedicam parte significativa de suas vidas à defesa dos equinos e à manutenção da ONG.

Cristine Peixoto tornou-se uma das vozes mais conhecidas da causa animal na região das Missões. Sua atuação demonstra que a defesa dos cavalos não se limita ao resgate emergencial. É necessário também enfrentar questões estruturais, promover conscientização e buscar mudanças capazes de prevenir novos casos de violência e abandono. Ao lado dela, Tatiane Sarmento integra essa rede de pessoas que compreendem que a proteção animal exige dedicação constante, muitas vezes silenciosa e distante dos holofotes.

Poucas pessoas imaginam as dificuldades enfrentadas por organizações dessa natureza. Os custos são elevados. Os recursos quase sempre são escassos. Alimentação, medicamentos, atendimento veterinário, transporte e manutenção dos espaços de acolhimento dependem de uma combinação permanente de voluntariado, doações e solidariedade. Frequentemente, o número de animais necessitando de ajuda é maior do que a capacidade de atendimento disponível.

Há, porém, uma dificuldade menos visível do que a falta de recursos e mais difícil de mensurar do que qualquer despesa financeira. Ela nasce do contato cotidiano com histórias de sofrimento que jamais deveriam existir. Cada cavalo resgatado traz consigo os vestígios de uma trajetória marcada pela negligência, pela exploração ou pelo abandono. Para quem está à frente desse trabalho, o desafio não consiste apenas em recuperar corpos debilitados, mas também em continuar acreditando na capacidade humana de cuidar, mesmo depois de testemunhar tantas situações que parecem negar essa possibilidade. É justamente dessa tensão entre a crueldade e a compaixão que nasce a força necessária para seguir adiante.

Entretanto, apesar dos desafios, as conquistas existem.

Entre elas, poucas possuem significado tão profundo quanto a luta pelo fim da tração animal em Santo Ângelo, consolidada através da Lei Municipal nº 4.393/2021. Durante anos, essa causa exigiu perseverança, coragem e a disposição de enfrentar práticas que muitos consideravam naturais apenas porque haviam sido repetidas por gerações. Cristine Peixoto, Tatiane Sarmento e os demais integrantes da entidade compreenderam que a verdadeira transformação social começa quando hábitos arraigados passam a ser questionados à luz da ética e da compaixão. A defesa dos cavalos não era apenas uma reivindicação em favor dos animais; era também um convite para que a sociedade refletisse sobre os limites morais da exploração daqueles que dependem inteiramente dos seres humanos. A entrada em vigor da proibição da tração animal, em 2026, representou mais do que o cumprimento de uma norma jurídica. Simbolizou a vitória da consciência sobre a indiferença, do respeito sobre a conveniência e da responsabilidade coletiva sobre a acomodação diante do sofrimento. Foi a demonstração de que mudanças profundas podem nascer da persistência de pessoas que se recusam a aceitar a injustiça como algo inevitável.

As vitórias também aparecem em dimensões mais silenciosas. Estão no cavalo que volta a caminhar depois de meses de tratamento. No animal que recupera peso, saúde e confiança. Na adoção responsável que oferece um novo destino a quem conheceu apenas sofrimento. Estão ainda na mudança de olhar de uma comunidade que passa a compreender que os animais não são objetos à disposição da vontade humana, mas seres capazes de sentir dor, medo, afeto e bem-estar.

Talvez a maior contribuição da ONG Pé de Pano não possa ser medida por números ou leis aprovadas. Seu legado mais importante talvez esteja na transformação de consciências. Em uma época marcada pela pressa, pelo individualismo e pela banalização do sofrimento, a entidade nos recorda que a compaixão continua sendo uma força capaz de modificar realidades.

Os cavalos resgatados pela ONG jamais poderão agradecer com palavras. Mas existe gratidão no animal que volta a confiar após ter conhecido apenas a violência. Existe gratidão naquele que recupera a saúde e encontra um lugar seguro para viver. E existe, sobretudo, uma lição para todos nós: o grau de humanidade de uma sociedade não se revela apenas pela forma como trata seus semelhantes, mas também pela maneira como cuida daqueles que dependem inteiramente de sua proteção. Afinal, a civilização não se constrói apenas com leis, edifícios ou avanços tecnológicos. Ela se constrói, diariamente, através da capacidade de reconhecer valor e dignidade mesmo na vida que não pode pedir socorro com palavras.

Se você quer conhecer mais sobre o trabalho da ONG acesse o perfil no Instagram @ong_pedepano