Pela proibição das Bets no Brasil

Foto: Joedson Alves/Agência Brasil

Por Cristiano Goldschmidt

Não queria escrever sobre isso. Pelo menos não com um exemplo tão próximo. Tenho uma amiga que usufrui de boa situação financeira — salário de dezenove mil reais mensais. Há pouco tempo o marido me confidenciou: ela está gastando três mil reais por mês em Bets. Antes, eram gastos exagerados comprando sapatos. São dezenas de pares que formam uma coleção. Agora, além dos sapatos, são as Bets. O hábito, embora ainda não comprometa o orçamento familiar, já se transformou num problema, afetando a relação de ambos. Têm duas filhas, plano de saúde, uma diarista que vem três vezes por semana. Ou seja, aparentemente nada faltava. E, no entanto, faltava.

Ele já tentou conversar, mas ela diz que não está comprometendo nada. Quando fiquei a sós com ela, toquei no assunto. Franziu a testa, revirou os olhos, disse que o marido exagerava. “São trezentos, quatrocentos reais por semana. Não comprometo as contas, não comprometo as crianças, não deixo de pagar nada. É o meu dinheiro, eu trabalho para isso. É minha diversão, meu lazer. Uma hora eu paro.”

“Uma hora eu paro.” Essa frase deveria ser bordada nos átrios de todo cassino, seja ele físico ou digital, pois carrega o núcleo do autoengano que alimenta a indústria do jogo: a ilusão de que o vício é uma decisão que se toma a cada aposta, e não uma corrente que se forja a cada nova derrota seguida de uma quase vitória.

É aí que reside a genialidade perversa das Bets e dos tigrinhos — esses caça-níqueis digitais travestidos de diversão que prometem fortuna com um apertar de botão. Diferentemente de um cassino físico, onde o dinheiro vira ficha e a ficha vira abstração, aqui a abstração é dupla: o dinheiro some na tela com a elegância de um passe de mágica, e a derrota é imediatamente reenquadrada como “sorte que não veio”, “quase que foi”, “da próxima vez”. O jogo nunca termina. Cada rodada é um recomeço. Cada recomeço, uma promessa.

O que me aflige não é apenas o montante — os tais três mil reais — mas a naturalidade com que uma mulher inteligente, formada, bem-remunerada, descreve essa sangria como inofensiva. Ela não está, afinal, comprometendo a renda da família. As contas estão pagas. As crianças têm escola, plano de saúde, roupas novas. O que há de errado em gastar o próprio dinheiro com entretenimento?

Há uma resposta, e ela não é moral num sentido rasteiro. A questão é mais sutil e mais grave: o que acontece com uma pessoa quando o risco vira rotina? Quando a experiência da perda é sistematicamente anestesiada pela expectativa do ganho seguinte?

Os estudos neurocientíficos sobre o chamado near-miss — a jogada em que os símbolos se alinham quase por completo, mas não inteiramente — mostram que o cérebro processa a derrota por pouco como se fosse uma vitória. As mesmas regiões ativadas pelo ganho se acendem diante de uma quase conquista. O sistema de recompensa é sequestrado. O sujeito não aposta apesar de perder; aposta porque perdeu. A derrota alimenta o ciclo, não o interrompe.

Não se trata, portanto, de falta de caráter ou de educação financeira. Trata-se de uma arquitetura comportamental deliberada. Os tigrinhos foram desenhados por engenheiros, psicólogos e analistas de dados que entendem de condicionamento operante muito melhor do que a maioria de nós entende de si mesma. A cada rodada de três segundos, o jogador é exposto a um microciclo completo de expectativa, tensão e desfecho — e o desfecho, quando negativo, é rapidamente apagado pela possibilidade de tentar de novo. O intervalo entre uma jogada e outra é curto demais para que a razão se instale. É o triunfo do design sobre a deliberação.

O filósofo Byung-Chul Han, ao escrever sobre a sociedade do cansaço, aponta para um fenômeno que se aplica perfeitamente a este contexto: a substituição da experiência pela estimulação. O sujeito contemporâneo já não suporta o tédio, o vazio, a pausa reflexiva. Ele precisa de estímulo contínuo, de dopamina em fluxo constante. As Bets oferecem exatamente isso: uma torneira de pequenos eventos emocionantes que nunca precisa ser fechada. O problema é que, ao abrir essa torneira, não se está apenas pagando por entretenimento; compra-se um padrão neurológico que reconfigura a relação com o tempo, com o dinheiro e com o futuro.

A amiga que menciono não vê isso. Ou vê, mas ainda não sentiu. E talvez o pior aspecto desse vício silencioso seja justamente a forma como ele demora a mostrar sua face mais destrutiva. No primeiro mês, são três mil reais que não fariam diferença. No sexto mês, já são dezoito mil que poderiam ter sido investidos, poupados, gastos em uma viagem com a família. No segundo ano, o montante já ultrapassa o valor de um carro popular. E a pessoa, olhando para trás, perceberá que não tem nada a mostrar — apenas uma coleção de telas piscando, de quase ganhos que nunca se concretizaram, de promessas que o algoritmo jamais pretendeu cumprir.

Há, ainda, um aspecto trágico na relação entre os tigrinhos e a população de baixa renda no Brasil. Enquanto minha amiga pode perder três mil reais sem comprometer as contas de luz, o trabalhador assalariado ou entregador de aplicativo que aposta duzentos reais por semana está comprometendo um percentual muito maior de sua renda — e, com ela, sua capacidade de reagir a emergências, de planejar o mês seguinte, de sustentar as mínimas margens de segurança que separam a precariedade do colapso. As plataformas sabem disso. E, mesmo quando dizem promover “jogo responsável”, o fazem com a mesma convicção com que a indústria do tabaco financiava campanhas de prevenção ao câncer.

Defendo, portanto, a proibição. Não por puritanismo nem por uma visão ingênua de que a lei pode eliminar o desejo, mas porque estamos diante de um produto desenhado deliberadamente para sequestrar o sistema de recompensa do cérebro humano com o propósito explícito de extrair o máximo de recursos possível de seus usuários. A indústria das Bets opera no mesmo registro das substâncias psicoativas mais nocivas: vicia, empobrece, degrada. A diferença é que, enquanto o crack é vendido em becos por traficantes, as Bets são anunciadas em horário nobre, patrocinam times de futebol e têm CNPJ.

Não se trata de cercear a liberdade individual. Liberdade pressupõe consciência, e consciência pressupõe informação simétrica. Ora, o jogador comum não tem a menor ideia das probabilidades reais que enfrenta; não compreende o conceito de valor esperado, não enxerga a assimetria informacional que o coloca em desvantagem insuperável diante de um sistema calibrado por centenas de engenheiros. A “escolha” de apostar ocorre em um ambiente de opacidade deliberada. O livre mercado, aqui, não é livre — é predatório.

O Estado brasileiro já proíbe substâncias e atividades que causam danos sociais comparáveis, e o faz com base no princípio da precaução e na proteção dos mais vulneráveis. As Bets deveriam seguir o mesmo caminho. Não é uma cruzada moral contra o jogo, mas o reconhecimento de que certos produtos, por sua própria natureza, são incompatíveis com o bem-estar coletivo. Assim como não se legaliza o crack argumentando que “cada um sabe de si”, não se deveria normalizar uma indústria cujo modelo de negócio depende da ruína financeira de seus consumidores.

O economista comportamental Richard Thaler demonstrou que os seres humanos não tomam decisões financeiras como agentes racionais, mas como criaturas emocionais que avaliam ganhos e perdas de forma assimétrica. Perder duzentos reais dói mais do que ganhar duzentos reais alegra. As Bets exploram essa assimetria ao criar um ambiente onde as pequenas perdas são continuamente mascaradas pela esperança do grande ganho — que, estatisticamente, nunca virá. O cassino não precisa trapacear. A matemática já está a seu favor. O problema é que, para o jogador, a matemática é invisível, e a esperança é concreta.

O que está em jogo é algo mais profundo do que a regulação de um setor econômico. É a definição do tipo de sociedade que queremos — uma que trata o vício como mercado a ser explorado ou uma que entende a dependência como falência existencial a ser combatida. O lobby das Bets é forte, os patrocínios são vultosos. Mas o custo humano — as famílias endividadas, as pessoas que vendem o carro, que penhoram a casa, que roubam dos parentes — esse custo não aparece nos balanços trimestrais.

Quanto à minha amiga, não sei se deixará de apostar. Sei que o dinheiro continua saindo, mês após mês, e que o lugar que ele ocupa em sua vida é o mesmo espaço onde poderiam florescer outras coisas — um livro, uma conversa, o tédio fértil onde nascem as ideias que realmente importam. O estrago não é apenas financeiro. É existencial. E isso é muito mais difícil de recuperar do que três mil reais por mês.