Salete van der Poel: a educadora fragmentada e a utopia que não envelhece

Por Cristiano Goldschmidt

Há sete anos — precisamente em 26 de junho de 2019 — publiquei no Jornal Extra Classe uma entrevista com Maria Salete van der Poel. Ela tinha 83 anos na ocasião e acabara de vir a Porto Alegre para ministrar uma aula na Faculdade de Educação da UFRGS e lançar o livro Vidas Aprisionadas. O título que escolhi para a publicação daquela conversa era também uma declaração pessoal dela, um achado que a sintetizava por inteiro: “Se eu perder a utopia, eu perco a vida”.

Não era retórica. Era biografia.

Aos 90 anos — completados em maio deste ano e que confirmam a sabedoria que só os velhos sábios sabem medir —, Maria Salete van der Poel segue firme, lúcida, combativa, agregadora, escrevendo, publicando, lançando. Acaba de nos dar Eu, fragmentada, um livro de memórias publicado pela Editora Diálogo Freiriano, e que será lançado no próximo dia 28 de julho, às 19 horas, no canal da Rede Café com Paulo Freire no YouTube. O título já anuncia o gesto estético e político da obra: uma mulher que se sabe múltipla, que não se pretende una nem acabada, que se oferece em cacos generosos ao leitor para que ele mesmo monte o mosaico.

Alguns livros se escrevem com tinta. Este, com chão.

Natural de Campina Grande, Paraíba, Maria Salete nasceu em 18 de maio de 1936 numa família de posses, mas cedo descobriu que a verdadeira riqueza está no encontro com o outro. Aos 15 anos já militava no Centro Estudantil Campinense. Aos 16, ensinava. Aos 20, estava nas fileiras da Juventude Universitária Católica e, depois, na Ação Popular — movimentos que, às vésperas do golpe de 1964, mais revolucionaram o movimento estudantil e universitário brasileiro.

Em 1963, foi uma das trinta pessoas de todo o Brasil selecionadas para um curso com Paulo Freire no Recife. Ali aconteceu o que ela mesma descreve como um divisor de águas: “Na minha vida teve o antes e o depois de Paulo Freire. Eu já era uma excelente alfabetizadora, mas o que me faltava era a ideologia, a consciência política, a militância”. Quando o mestre partiu para o exílio, as cartas que ele lhe enviava atravessavam oceanos. Quando voltou, a amizade já era familiar — Paulo ia à casa dela na Paraíba, e a casa se tornava extensão da utopia.

Foram 17 prisões durante a ditadura militar. A primeira, em 1º de abril de 1964, enquanto dava aula a uma turma de crianças, num colégio que fundara com a irmã aos 19 anos — o Instituto Moderno Nossa Senhora da Salete, que começara com 13 alunos e chegaria a 400, conhecido em Campina Grande como “a universidade infantil”. O exército cercou o prédio com fuzis e metralhadoras. Levaram-na num camburão. Ela, que nunca pegara nem numa borracha para bater num aluno, era agora “comunista ativa”, “subversiva”, alvo de fichas que a acusavam de receber dinheiro e armas de Moscou.

Os arquivos da ditadura mentiam. Mas a vida de Salete dizia a verdade.

Foi dela o primeiro trabalho de educação carcerária do Brasil. Em 1978, entrou no Presídio do Roger, em João Pessoa, sem máquina fotográfica, sem gravador — só com um diário e a convicção freiriana de que a palavra é ferramenta de libertação. Ali, aplicou o sistema Paulo Freire com os presos, escutou suas vozes, organizou o material didático a partir do que eles sabiam e do que eles eram. Quando tentou defender a dissertação de mestrado sobre essa experiência, foi boicotada, perseguida, impedida. A universidade ainda estava de joelhos diante dos militares. Salete, não. Depois de meses de silêncio administrativo, ela entrou na sala da coordenação e disse: “Já cumpri minha parte, estou sentada há meses esperando para defender minha dissertação”. No dia da defesa, aconteceu algo que os historiadores da educação registram como um marco: foi a retomada do pensamento de Paulo Freire no Brasil, até então proibido. Na banca, a orientadora Astrogilda Carvalho Paes de Andrade, da equipe de Freire. Na plateia, a história sendo reescrita.

Em 1981, publicou Alfabetização de Adultos. Sistema Paulo Freire: Estudo de Caso num Presídio. Mandou um exemplar a Paulo, que a telefonou, emocionado. Era a confirmação de que a obra era fiel ao pensamento dele — não como cópia, mas como reinvenção.

Só entrou como professora na Universidade Federal da Paraíba depois de vencer cinco concursos públicos. Nos cinco, tirou primeiro lugar. Escolheu lecionar História da Educação Brasileira e Prática de Ensino de Sociologia da Educação. Durante 18 anos, levou seus estagiários para trabalhar com meninos de rua, com meninas de 9 a 12 anos forçadas a se prostituir pela situação em que viviam, com bibliotecas populares, com os esquecidos do sistema. Era a disciplina mais disputada do centro — alunos de outras áreas migravam para fazer sociologia com ela.

Fundou a Rede de Letramento de Jovens e Adultos da Paraíba (Releja), em março de 1989, ao lado do marido, Cornelis Joannes van der Poel, sociólogo e filósofo holandês com quem construiu uma parceria de vida e de militância que atravessou décadas. A Releja completou 30 anos em 2019 e segue ativa, mesmo depois de ter sido “enterrada” — como ela mesma diz, com a amargura de quem viu o trabalho de uma vida ser desmontado por governos que tratam a Educação de Jovens e Adultos como peso, não como prioridade.

Mas este artigo não é apenas sobre a trajetória pública de Maria Salete. É sobre o que acontece depois que a entrevista termina e o gravador é desligado.

Porque a verdade é que, quando encontrei Salete pela primeira vez, em maio de 2019, na Faculdade de Educação da UFRGS, eu não fazia ideia de que estava conhecendo alguém que se tornaria uma referência afetiva na minha vida. A entrevista correu longa — mais de duas horas de conversa que renderam 24 minutos de leitura no Extra Classe. Ela falou de tudo: das prisões, de Paulo Freire, da educação carcerária, do desmonte da EJA no governo Bolsonaro, da utopia como condição para viver. Ao final, despedimo-nos com aquele calor genuíno que só quem já viveu alguma forma de militância sabe reconhecer.

O que veio depois foi uma amizade que não estava no roteiro.

Salete é daquelas pessoas que enviam áudios longos, que escrevem mensagens longas, generosas, que perguntam como estamos e o que estamos fazendo, que lembram de datas, que mandam fotos, que compartilham alegrias e indignações com a mesma intensidade. Suas mensagens gravadas ou escritas chegam como pequenas cartas — e aí está o paradoxo que me acompanha desde então: quanto mais ela me aciona, mais eu me sinto em dívida. A correria do trabalho, das atividades que se acumulam, os prazos que não esperam, a dedicação à família, o cansaço que se instala como um véu entre a intenção e o gesto — tudo conspira contra a resposta à altura que eu gostaria de dar.

Ela merecia respostas mais longas, mais demoradas, mais à altura da generosidade que sempre teve comigo. Merecia que eu encontrasse tempo para lhe dizer, com todas as letras, o quanto a admiro. Merecia minha dedicação. Mas a vida, essa máquina de urgências, vai empurrando a gratidão para depois de amanhã — e o depois de amanhã nunca chega.

Este artigo talvez seja uma tentativa de reparação. Uma resposta pública, ainda que insuficiente, a tudo o que ela me deu e que eu não soube retribuir no devido tempo.

Agora, aos 90 anos, Salete nos entrega Eu, fragmentada (Memórias). A metáfora do título é precisa e comovente: uma mulher que se reconhece em pedaços, que não esconde as fraturas, que não alisa a própria biografia para parecer coerente ou heroica. Pelo contrário — o que ela nos mostra, página após página, é que a vida de uma educadora popular é feita de retalhos, de encontros e desencontros, de perdas e recomeços, de um amor que se multiplica em muitos amores. O livro é, nas palavras da própria editora, “um manifesto de esperança”. Cada capítulo, um espelho de uma educadora que sempre se multiplicou em muitas.

O lançamento será no dia 28 de julho, às 19 horas, numa live no canal da Rede Café com Paulo Freire no YouTube. Ela estará lá — lúcida, combativa, agregadora — para conversar sobre o livro, sobre a vida, sobre a utopia que nunca a abandonou. E eu estarei lá também, não apenas como jornalista e pedagogo, mas como amigo. Talvez não consiga dizer tudo o que deveria. Talvez as palavras faltem outra vez. Mas estarei lá.

Porque, no fundo, a verdade é esta: há pessoas que nos marcam de um jeito que a narrativa jornalística, com todo o seu rigor, não consegue conter. Maria Salete van der Poel é uma delas. Ela não é apenas a pioneira da educação carcerária no Brasil, não é apenas a freiriana que manteve a chama acesa nos anos de chumbo, não é apenas a professora que dedicou mais de sete décadas ao chão da escola. Ela é, acima de tudo, uma mulher que transforma o encontro em vínculo, e o vínculo em compromisso.

Que venham os 100 anos. Que venham mais livros. Que venham mais mensagens longas que eu não saberei responder a tempo — mas que, ainda assim, continuem chegando.

Porque se eu perder a utopia, eu perco a vida.

Serviço:

Livro: Eu, fragmentada (Memórias), de Maria Salete van der Poel

Editora: Diálogo Freiriano | 164 páginas Lançamento: 28 de julho de 2026, às 19h

Onde: Canal da Rede Café com Paulo Freire no YouTube