Artista visual gaúcha celebra os 70 anos de “Grande Sertão: Veredas” na ABL

Mostra de Graça Craidy será aberta na terça-feira (31/03), no Rio de Janeiro. Foto Carlos Souza/Divulgação

A artista visual gaúcha Graça Craidy não poderia desejar outro local para expor sua coleção de retratos de personagens do livro “Grande Sertão: Veredas”, no momento em que a obra-prima do imortal João Guimarães Rosa completa 70 anos de seu lançamento, a Academia Brasileira de Letras.

É justamente na ABL que a mostra “Grande Sertão”, de Graça, será inaugurada terça-feira (31/03), às 17h. E lá permanecerá até 29 de maio, aberta à visitação das 10h às 18h, no 1º andar do Palácio Austregésilo de Athayde, à Av. Presidente Wilson, 203, Centro do Rio de Janeiro.

Guimarães Rosa no cerrado. Reprodução

O atual ocupante da Cadeira nº 2 da academia, Eduardo Giannetti, escreveu um texto inédito, especialmente para a mostra, pelo fato de Guimarães Rosa ter ocupado, no passado, a mesma cadeira.

 “Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande Sertão completa 70 anos mais vivo – e necessário – que nunca. Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo de Guimarães Rosa, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se”, sustenta, no primeiro parágrafo de seu texto, o titular da cadeira fundada por Coelho Neto e que tem como patrono o poeta Álvares de Azevedo(leia a íntegra do texto de Giannetti ao final).

Riobaldo e Diadorim

Natural de Ijuí e radicada em Porto Alegre, Graça, de 74 anos, apresenta 17 quadros e um tríptico, em acrílica sobre tela e sobre papel. Nas obras, os principais personagens do livro ganham feições físicas inspiradas pela narrativa, inclusive levando em conta a personalidade e o comportamento traçados pelo autor. Entre os personagens retratados estão, por exemplo, Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo, Manuelzão, Maria Mutema, Otacília, Nhorinhá, Sô Candelário, Os Ramiros, Medeiros Vaz.

Jagunço Hermógenes

O próprio Guimarães Rosa aparece, em um dos trabalhos, embrenhando-se no Cerrado, a cavalo, junto com vaqueiros – a excursão de fato aconteceu, na fase em que o escritor coletava informações para escrever a obra.

Graça não só é uma leitora constante do romance como fez um curso – “Travessia” – sobre o livro, debatido durante meses com a professora da USP Maria Cecília Marks, especialista na obra literária.

A artista gaúcha também pesquisou em teses, monografias e ensaios sobre a ficção e assistiu algumas vezes ao monólogo “Riobaldo”, protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad.

A prostituta Nhorinhá

“Me sinto muito honrada por expor na ABL. Agradeço à academia, em especial ao acadêmico Antonio Carlos Secchin, Secretário-Geral e coordenador do Ciclo de Conferências Vida de Artistas, por acolher outra linguagem artística na homenagem a uma obra literária tão importante, e a Guimarães Rosa”, diz a artista.

Manuelzão

“Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu ‘Grande Sertão’ particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse grande romance”, acrescenta Graça.

 

“Experiência transpsíquica”

Os originais do livro foram entregues à editora José Olympio em fevereiro de 1956. Em carta a seu colega de Itamaraty, Azeredo da Silveira, o escritor, que também era diplomata, relatou: “Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairando, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”.

Riobaldo na velhice

 O romance chegou às livrarias em meados de julho daquele ano. Aclamado pela crítica, foi escolhido como o melhor livro de 1956, venceu o Prêmio Machado de Assis do Instituto Nacional do Livro, o prêmio Carmen Dolores Barbosa, o prêmio Paula Brito e, em junho de 1961, o Prêmio Machado de Assis da ABL pelo conjunto da obra. “Grande Sertão: Veredas” constou da lista dos “100 melhores livros de todos os tempos” organizada, em 2002, pelo Clube do Livro da Noruega (Norwegian Book Club). O destaque do texto deu-se principalmente pelas inovações linguísticas.

 A exposição “Grande Sertão” foi montada, pela primeira vez, em Porto Alegre, em novembro de 2024, paralelamente à Feira do Livro, e permaneceu em cartaz até 20 de dezembro, no Clube do Comércio. 

*Íntegra do texto do acadêmico Eduardo Giannetti, atual ocupante da Cadeira nº 2 da ABL, que foi de João Guimarães Rosa.

 “Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande sertão completa 70 anos mais vivo – e necessário – que nunca. Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo de Guimarães Rosa, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se.

 A prosa poética rosiana instaura um universo linguístico todo seu. Ela não se reduz a instrumento a serviço de uma narrativa, mas pertence à realidade sertaneja por ela recriada com a mesma potência, vivacidade e força dos seus personagens. O dito e o modo de dizer em uníssono: acorde perfeito. O sertão feito verbo.

Diadorim morta

Grande Sertão mira o esquivo: o que não se deixa falar – e cala. O ponto exato em que o singular absurdo de cada consciência individual, no que ela tem de mais intratável, caprichosa e incomunicável, rompe o dique, vence o estreito e roça a outra margem. A visão-lampejo do incomum nas veias da vida comum. Em Rosa, o impulso criador está a serviço de um propósito definido: o reencantamento do mundo pela presença do mistério. O trêmulo júbilo na alma”.

 Riobaldo em crise

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