
Sopaporiki e Girafa da Cerquinha, um projeto de Richard Serraria, estará na capital e região metropolitana

As belezas e as cores da arquitetura e da natureza da cidade são celebradas pela exposição “Paisagens de Porto Alegre”. Erico Santos revela seus traços e cores característicos em 16 obras que estarão em exposição na Galeria Bublitz a partir do próximo sábado, 28 de junho. O vernissage será das 11h às 13h e a mostra fica no espaço até o dia 26 de julho, com entrada franca.
Erico Santos revela-se um apaixonado pelas paisagens porto-alegrenses. Nascido em Cacequi, ele se radicou em Santa Maria. Depois, foi para São Paulo trabalhar como restaurador no atelier do italiano Renzo Gori e, em 1981, passou a residir na capital gaúcha. “Desde 2013, eu venho me dedicando a pintar Porto Alegre. É uma cidade muito bonita, arborizada, com prédios históricos lindos. Preciso de mais 20 anos para pintar tantas belezas”, reconhece.
A exposição, que já esteve no Paço Municipal, com curadoria de José Francisco Alves, destaca algumas dessas preciosidades da capital gaúcha sob o olhar de Erico Santos. Estão lá o a Praça da Alfândega, a Praça dos Açorianos, o Parque Marinha do Brasil, o Museu Iberê Camargo, a Fonte Talavera, o Mercado Público, o Viaduto Otávio Rocha e tantas outras paisagens que marcam a identidade de Porto Alegre.
“Erico Santos faz parte da história da Galeria Bublitz. Aqui ele já realizou nove exposições individuais e participou de oito coletivas. Recebê-lo nesta exposição icônica é como abrir nossa casa para também homenagear Porto Alegre e esse artista que tão bem nos representa. Também é uma forma de proporcionar que sua arte esteja na casa de mais pessoas”, destaca o marchand Nicholas Bublitz.
Além das 16 obras que compõem a mostra, a Bublitz Galeria de Arte, com a Arte Prints de São Paulo, produziu serigrafias em papel 100% algodão assinadas pelo artista e numeradas que estarão em exposição e disponíveis para comercialização, assim como as próprias obras.
Exposição “Paisagens de Porto Alegre”
Artista: Erico Santos
Local: Bublitz Galeria de Arte
Endereço: Av. Neusa Goulart Brizola, 143
Vernissage: sábado, 28 de junho, das 11h às 13h.
Visitação da exposição: segundas às sextas, das 10h às 18h, e sábados, das 10h às 13h
Período da exposição: até 26 de julho.
Entrada Franca
Profissional fotografou alguns dos mais importantes nomes das artes do RS ao longo de mais de 20 anos
Fotógrafo especializado na reprodução de obras de arte para catálogos e livros, Fernando Zago já trabalhou, ao longo de anos, para um grande número de artistas gaúchos, dos quais tornou-se próximo. O sentimento de amizade estimulou-o a fotografá-los em seus ateliês ou no StudioZ, de sua propriedade. O resultado poderá ser visto na exposição “Amigos Artistas”, que será inaugurada dia 25 no Museu de Arte do Paço, em Porto Alegre.
“Não se pode fazer retrato sem tomar em consideração o caráter e o aspecto do motivo. O retrato bem-sucedido exige uma combinação de conhecimentos técnicos, interesse pelas pessoas e compreensão das inibições criadas pela câmera”, diz Zago.
As 34 fotos da mostra são em preto e branco, no estilo clássico, com fundos neutros, luz dura e alto contraste para ganhar mais expressividade.
O curador da exposição, professor José Francisco Alves, lembra que esse tipo de retrato, produzido por artistas, tem longa tradição na História da Arte. “Podemos referir os exemplos icônicos de Man Ray, Andy Warhol e Robert Mapplethorpe, que também imortalizaram colegas artistas. Por serem capturas feitas por um fotógrafo-artista, os registros transcendem a mera semelhança superficial, buscando momentos que vão além da instantaneidade”, declara Alves.
Os homenageados
A galeria de mulheres artistas homenageadas é composta por Adriane Hernandez, Ana Norogrando, Clara Pechansky, Helena Kanaan, Lenir de Miranda, Maria Tomaselli, Marília Fayh, Marilice Corona, Maristela Salvatori e Zoravia Bettiol.
Foram retratados em vida e já faleceram Ena Lautert, Danúbio Gonçalves, Gelson Radaelli, Henrique Fuhro, João Luiz Roth, Lou Borghetti, Mário Röhnelt, Nelson Jungblut, Paulo Peres e Plinio Bernhartd.
Zago conta que anos atrás Bernhart procurou-o para saber se o projeto estava ativo, porque gostaria de ser fotografado – e o foi, em seu ateliê, já com a saúde debilitada. Meses depois o artista morreu. “Ele sabia da importância de participar do projeto, de ser retratado. Daí ficou mais forte o pensamento de que se existe uma imagem que transmita um sentimento essa imagem é o retrato”, afirma Zago.
Patrimônio cultural
Depois de encerrada a exposição, as fotografias produzidas por Zago passarão a integrar o acervo da FUNDACRED, que patrocina o o projeto do fotógrafo.
A FUNDACRED detém um grande acervo de obras de autores gaúchos, “um patrimônio cultural de valor inestimável para o Rio Grande do Sul”, avalia o presidente da Fundação, Nivio Lewis Delgado.
O acervo é composto por mais de 700 obras de artistas consagrados, como Aldo Locatelli, Eugênio Latour, João Fahrion, Leopoldo Gotuzzo, Oscar Boeira, Pedro Weingartner e Augusto Luiz de Freitas, entre outros.
O conjunto é representativo da arte gaúcha, abrange produções dos séculos XIX e XX e contempla os principais movimentos da arte acadêmica do estado, informa Delgado.
A FUNDACRED, fundação sem fins lucrativos, promove o acesso à educação, trabalhando há mais de 51 anos com créditos educacionais.
Exposição: “Amigos Artistas”, do fotógrafo Fernando Zago
Abertura: 25/06 (quarta-feira), às 18h
Visitação: de 26/06 a 19/09, de segunda a sexta, das 9h às 17h
Local: Museu de Arte do Paço, Praça Montevidéu, 10, Centro Histórico de Porto Alegre
Entrada gratuita
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Show em formato voz e violão percorre diferentes fases da carreira do artista, com composições autorais e releituras afetivas
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O cantor e compositor Ian Ramil apresenta, no dia 26 de junho, às 19h, um show em formato voz e violão no Teatro Oficina Olga Reverbel – Multipalco Eva Sopher. A apresentação integra a programação da 5ª edição do Mistura Fina e propõe uma escuta sensível e potente, com arranjos minimalistas que realçam a expressividade da voz de Ian e a força poética de suas composições. A entrada é franca. No repertório, o artista interpreta faixas autorais marcantes como “Tetein”, inspirada na paternidade; “Lego Efeito Manada”, em parceria com Poty; “Macho-Rey”, com Juliana Cortes; e “O Mundo é Meu País”, com Luiz Gabriel Lopes. Traz ainda canções como “Mil Pares”, “O Bichinho”, “Teletransporte”, “Nescafé”, “Artigo 5”, além da releitura de clássicos como “Felicidade” (Lupicínio Rodrigues), “Pra Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina” (Nei Lisboa) e “Chapeuzinho Vermelho“ (Braguinha). Ian Ramil é cantor, compositor, ator e diretor porto-alegrense. Estudou Artes Cênicas na UFRGS e no TEPA, atuando em espetáculos, filmes e séries entre 2005 e 2011. Em 2014, lançou o primeiro álbum, Ian, reconhecido com o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de Artista Revelação. No ano seguinte, lançou Derivacivilização, premiado com o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock em Língua Portuguesa. Em 2023, lançou Tetein, terceiro álbum de estúdio, com parcerias e releituras que dialogam com sua experiência como pai e artista. Participou também do projeto familiar Casa Ramil, ao lado de Kleiton, Kledir, Vitor e outros integrantes da família. Com produção da Primeira Fila Produções, em correalização com o Multipalco Eva Sopher, o projeto conta com audiodescrição garantida em todas as datas pela OVNI Acessibilidade Universal. A iniciativa conta com patrocínio da Bistek e da CEEE Equatorial e financiamento do Pró-Cultura RS. FICHA TÉCNICA Letícia Vieira – direção geral Nina Picoli – produção Arthur de Faria – curadoria Mimi Aragon – audiodescritora Silvia Abreu – assessoria de imprensa Dani Hil – redes sociais Letícia Vieira – direção geral Nina Picoli – produção Arthur de Faria – curadoria Mimi Aragon – audiodescritora Silvia Abreu – assessoria de imprensa Dani Hil – redes sociais |
A instalação “Florestas em Chamas”, concebida e liderada pela artista visual Zoravia Bettiol para o projeto Portas para a Arte da 14ª Bienal do Mercosul, que se encerrou no último dia 1º, ainda continua montada. O motivo é que no próximo sábado (14/07), ao redor da obra, haverá o encontro “Outras possibilidades para as florestas”, reunindo especialistas nessa questão emergencial, que diz respeito ao clima global.
Os professores Rualdo Menegat e Francisco Milanez somarão seus conhecimentos na defesa das florestas, alvo de queimadas e desmatamento no Brasil e no mundo, gerando consequências negativas à vida. O evento, das 16h às 17h30, no Instituto Zoravia Bettiol (Rua Paradiso Biacchi, 109, bairro Ipanema, em Porto Alegre), será mediado pela bióloga Sandra Ribeiro, do Conselho Superior da Agapan (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural). A entrada é franca.
Geólogo, doutor em Ecologia da Paisagem e vice-presidente científico do Foro Latino-Americano de Ciências Ambientais – Cátedra Unesco para o Desenvolvimento Sustentável, o professor da UFRGS Rualdo Menegat escreveu o texto de apresentação da instalação, que foi inaugurada em 22 de março.
“Os incêndios florestais, cada vez mais frequentes, estão ocorrendo em todos os continentes. A pressão sobre o pulmão do mundo, como a Amazônia é conhecida, com 5,5 milhões de km², tem aumentado enormemente. A corrida para criação de gado e produção de soja, bem como o extrativismo desenfreado da mineração, vem colocando abaixo milhares de hectares de floresta. Com a dizimação da massa florestal, também são eliminados a fauna e os povos originários que nela vivem. A floresta cobrará alto preço pela sua derrubada”, alerta ele.
O biólogo e pesquisador Francisco Milanez, especialista em Análise de Impactos Ambientais pela Universidade Federal do Amazonas, foi presidente da Agapan. Para ele, a natureza está avisando a humanidade de que “passamos da medida” e que “é preciso uma guinada profunda e radical” no modo de produzir e viver.
Obra coletiva
Na execução da instalação “Florestas em Chamas” Zoravia contou com a participação das artistas Clara Koury, Elaine Veit, Inez Pagnoncelli, Marcia Balreira Souza, Rosane Morais, Tereza Albano, Vera Matos e Verônica Daudt; o fotógrafo Gilberto Perin fez o making of do trabalho; o músico da OSPA Cosmas Grineisen esteve à frente da trilha sonora criada para a instalação; e a iluminação esteve a cargo da iluminadora Carol Zimmer.
A instalação é tridimensional, sua estrutura metálica alcança 3,40m de altura e o diâmetro, no solo, mede 3,50m. Pendurada no teto da galeria, conta com organza nas cores vermelho, laranja, amarelo e cinza, papelão e acetato pintados de preto e cordão de algodão trançado.
Paralelamente à instalação, a galeria montou a mostra “Múltipla e Poética, Zoravia Bettiol – Gravuras”, com 30 obras da reconhecida artista, de nove diferentes séries em xilogravura, linóleogravura, serigrafia, gravura digital e litografia. Ambas se encerram no sábado.
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A Galeria Escadaria está com inscrições abertas para o projeto “Memorial das Águas”, que irá promover cinco exposições fotográficas a céu aberto de 12 de julho a 9 de outubro em Porto Alegre e de 25 de outubro a 20 de dezembro em Pelotas, com foco nas memórias, histórias e impactos da enchente de 2024 no Rio Grande do Sul.
Sob o tema “Solidariedade e Reconstrução”, a iniciativa selecionará 440 imagens de 200 fotógrafos amadores e profissionais de todo o Brasil, sob a curadoria do designer gráfico, fotógrafo e produtor cultural Marcos Monteiro e produção de Arte para Todos.
A enchente de maio de 2024 foi a pior da história no Estado, ao revelar a fragilidade da existência humana diante da força da natureza. Comoveu pessoas ao redor do mundo, gerando uma enorme onda de solidariedade. Voluntários próximos ou distantes, vindos de todo o Brasil abandonaram suas rotinas para estender suas mãos aos atingidos. A ajuda mútua e a determinação de reconstruir a vida das vítimas são exemplos de esperança que podem nos inspirar a enfrentar os desafios do futuro. Das 471 cidades gaúchas atingidas, Porto Alegre teve ficou devastada principalmente na zona Norte, Cidade Baixa, Menino Deus e Centro, onde as três exposições deverão ocupar a Praça da Alfândega, que ficou embaixo d´água. Em Pelotas, cerca de um terço da cidade ficou submersa devido ao aumento do nível da Lagoa dos Patos. As duas exposições previstas ocuparão o Largo do Mercado, local emblemático da cidade.
Serão selecionadas fotos que abordem o lado humanitário, a solidariedade e as histórias das pessoas afetadas pela tragédia ambiental, bem como o momento do retorno e o da reconstrução de suas vidas. As imagens autorais devem focar essas questões que representam a memória de forma poética, documental ou simbólica, remetendo a questionamentos, emoções e inspirações. O objetivo é romper a barreira do esquecimento, um acontecimento que não pode ficar para trás, considerando o sentimento das pessoas que perderam tudo e/ou alguém.
As exposições em espaços públicos terão abertura sempre aos sábados e encerramento nas quintas – com exceção da última, que acabará em uma sexta-feira – ficando quase um mês em cartaz. Viabilizada através da Lei Rouanet, a iniciativa tem apoio das Prefeituras Municipais de Porto Alegre e Pelotas, através de suas respectivas Secretarias da Cultura; Valorize Projetos, Gestão de Recursos e Patrocínios Ltda e CDF Locações de Materiais Cenográficos e Culturais Ltda. E patrocínio do Grupo RBS, Paraflu do Brasil Indústria e Produtos Químicos Ltda, Nutrire Indústria de Alimentos Ltda e Soma Sul Equipamentos Ltda.
As inscrições tem prazo específico para cada coletiva, estendendo-se até 30 de setembro, através do preenchimento do formulário (https://forms.gle./gaBDqGSmWpoRbo5s9). Informações completas: https://memorialdasaguas.my.canva.site/memorial-das-aguas. Confira abaixo o cronograma das exposições, inscrições e resultados:
Porto Alegre:
1ª coletiva – 12 de julho a 7 de agosto – inscrições até 20 de junho (divulgação dos selecionados no dia 25 de junho)
2ª coletiva – 9 de agosto a 11 de setembro – inscrições de 21 de junho a 15 de julho (divulgação dos selecionados no dia 22 de julho)
3ª coletiva – 13 de setembro a 9 de outubro – inscrições de 16 a 31 de julho (divulgação dos selecionados em 20 de agosto)
Pelotas:
4ª exposição: 25 outubro a 20 novembro – inscrições de 1º a 31 de agosto (divulgação dos selecionados dia 25 de outubro).
5ª exposição: 22 novembro a 20 dezembro – inscrições de 1º a 30 de setembro (divulgação dos selecionados dia 22 de novembro).
* Fotos de Marcos Monteiro
Ele não fotografava mais, mas seguia trabalhando em seus projetos. O útimo foi a seleção das fotos para exposição sobre a Amazônia, que será montada em Belém para a Conferência do Clima (COP30), em novembro deste ano.
Sebastião Salgado morreu na sexta-feira, 23, aos 81 anos, devido a complicações da malária que contraiu na Indonésia em 2010.
Nascido em Aymorés, no interior Minas Gerais, formou-se em economia em São Paulo e nos anos de 1970, com a repressão da ditadura brasileira, mudou-se para Paris, onde começou sua carreira.
Sua fama iniciou com as fotos do garimpo de Serra Pelada nos anos 80. Fotos em preto e branco, com um tratamento diferenciado que dava um clima dramático aos seus registros.
A partir dali ele ampliou seus projetos com financiamentos internacionais, contando com a sagacidade comercial de sua mulher, Lélia Wanick Salgado, considerada a responsável pela transformação do nome de Salgado numa grife global não vinculada diretamente a um veículo de imprensa em particular ou ao jornalismo em geral. Viajou por mais de 130 países.
Trinta anos depois, voltou à terra natal na divisa de Minas Gerais com o Espirito Santo, e encontrou a fazenda onde morou na infância totalmente devastada. Os belos morros estavam pelados, a floresta havia sido derrubada para extração de madeira para a construção civil do Rio, de Belo Horizonte e Brasília; e também para a exportação.
Criou o Instituto Terra e iniciou um projeto de reflorestamento sob a direção do engenheiro florestal Renato Moraes de Jesus. Sete milhões de mudas foram plantadas para recuperar uma área de dois mil hectares.
Seguiu vivendo em Paris, sua base operacional para os últimos trabalhos fotográficos principalmente na Africa, onde documentou o estágio de pobreza de populações nativas.
A Academia Francesa, da qual era membro, definiu-o como “grande testemunha da condição humana e do estado do planeta”.
De vez em quando ele voltava para ver a incrível recuperação florestal da fazenda da família. Ao lado de seu excepcional acervo fotográfico, o que ele deixa em Aymores é um exemplo de que é possível recuperar os estragos no meio ambiente.
Via a floresta como um organismo vivo, no que ecoava o saber de Carl Sagan, o astrônomo da série Cosmos: “As árvores são nossas tias biológicas”.
Num longo e detalhado necrológico, o jornal britânico The Guardian disse que “suas dramáticas fotografias em preto e branco destacaram a injustiça e apresentaram a floresta amazônica ao mundo”.
Mariano Senna
“A qualidade moral da política alemã está em seu nível mais baixo desde os nazistas. Netanyahu está cometendo genocídio, matando crianças de fome, bombardeando hospitais e tornando Gaza inabitável com uma ampla ajuda alemã.”
A frase seria uma obviedade irrelevante, não tivesse sido publicada por um cidadão alemão de alto gabarito.
Aos 84 anos, Jürgen Todenhöfer é um empresário e político de longa experiência. Doutor em direito e ex-juiz, ele consagrou-se internacionalmente como parlamentar pela União Democrata Crista (CDU), onde atuou até a década de 1990, defendendo posições conservadoras.
Decepcionado pela hipocrisia da política, foi aos poucos se afastando. Dedicou-se então por mais de duas décadas a empreender no ramo da mídia, aprimorando seu conhecimento sobre as causas e consequências dos conflitos bélicos nos confins do mundo.
Em 2020 desfiliou-se formalmente do CDU e criou seu próprio partido, o “Team-Todenhöfer”, com o qual tem concorrido como candidato independente às eleições do parlamento federal em Berlim.
Suas propostas são ousadas, fazendo dele uma espécie de franco-atirador da política. Na questão de Israel, por exemplo, Todenhöfer é um dos únicos alemães de destaque que ousam criticar diretamente o Estado-Sionista, arriscando inclusive ser punido por antisemitismo.
“O Holocausto moldou toda a minha vida. Nosso lema comum era “Nunca mais!”. Agora Netanyahu está fazendo algo semelhante. E os políticos alemães são seus cúmplices mais próximos”, ataca ele, justificando que “a liberdade é o direito de dizer o que os outros não querem ouvir. No caso de genocídio, esse direito se torna um dever”.
Dilema humano
Para ele, a questão envolve um dilema. Entre a acusação de antisemitismo, ou da cumplicidade com um genocídio, Jürgen defende a observância aos valores fundamentais da constituição alemã, evitando o relativismo hipócrita do poderoso lobby sionista.
Sozinho e por vezes até isolado no contexto europeu, Dr. Todenhöfer é uma das poucas vozes que tenta manter a sanidade mental na política do continente.
Segundo ele, a raíz do problema está justamente no papel da chamada mídia mainstream. Para tratar o assunto, publicou o livro “A Grande Hipocrisia” (Die Grosse Heuchelei) em 2019, curiosamente um ano antes da Pandemia da Covid-19.
Na obra, Jürgen denuncia o descompromisso da classe política europeia com os mais básicos princípios morais e éticos do nosso tempo.
Além de acusar a dupla-moral que caracteríza a União Europeia na atualidade, o texto traz um capítulo inteiro sobre a responsabilidade dos jornalistas no corrente processo da derrocada do velho continente.
Intitulado “O fracasso das mídias” (Das Versagen der Medien), o trecho de 11 páginas esmiuça alguns dos casos recentes que explicitam a falta de compromisso do chamado “quarto poder” com qualquer tipo de noção daquilo comumente denominado de humanidade.
Todenhöfer vai além, e desmascara o caráter imoral do establishment jornalistico do ocidente. Com fatos e fontes irrefutáveis, mostra o compromisso das grandes redes de informação com a narrativa do poder vigente, onde nacionalidade, etnia ou mesmo opção político-ideológica importam mais do que a própria condição humana.
Jornalistas de ventríloco
Mesmo tratando-se de exemplos no palco internacional, é possível traçar inúmeros paralelos com o comportamento do jornalismo brasileiro. Como se as cordinhas que animam os apresentadores dos telejornais fossem, em muitos casos, as mesmas.
O texto vale sobretudo como um exercício de reflexão. Por isso a decisão de traduzir o capítulo em sua íntegra. Ainda que alguns fatos não sejam mais atuais (ex.: Assad já foi derrubado na Siria), a comparação entre discursos ao longo das últimas décadas demonstra a profunda hipocrisia dos destacados jornalistas que produzem o notíciário nos grandes veículos.
Como demonstra Todenhöfer, do alto de seus cargos prestigiados, tais profissionais se prestam ao lamentável papel de reforçar a narrativa em defesa da guerra como meio político para combater problemas complexos e difusos, sem apontar as causas de tais mazelas.
Confiram o texto do capítulo 19 do livro “A grande hipocrisia” a seguir:
Jornalismo torcedor
Muitos dos principais meios de comunicação não estão sentados como observadores objetivos na arquibancada da política mundial. Eles se sentam nas arquibancadas dos poderosos. Eles praticam o jornalismo de torcedor. Apitam apenas as faltas cometidas pelo “adversário”. Ignoram as faltas cometidas por sua própria equipe, ou as relativizam como “dureza necessária”. Exatamente como os torcedores. Quando a região oeste de Mossul foi destruída sob a liderança americana e pelo menos 20.000 civis foram mortos, a mídia principal falou de uma vitória sobre o terror, de uma “libertação”. Quando o leste de Aleppo foi destruído sob a liderança russa e, de acordo com estimativas locais, 10.000 pessoas morreram, eles falaram de uma derrota, ou até mesmo do “fim da humanidade”. O Estado Islâmico estava sediado em Mossul e a Jabhat Al-Nusra em Aleppo. Ambos são plantas de pântano da Al-Qaeda.
A palma de ouro da dupla moral
Grande parte dos outrora tão diferentes centros culturais mundiais de Mosul e Aleppo tem a mesma aparência hoje: como Hiroshima teve no passado. No entanto, o jornalismo ocidental fez uma grande diferença em sua avaliação dos bombardeios americanos e russos: as bombas americanas eram “bombas do bem”. As bombas russas eram “bombas do mau”. O lema do “jornalismo-de-torcida” ocidental dominante é: o que os Estados Unidos e nós podemos fazer, a Rússia e outros “oponentes” nem de longe podem.
Visitei as duas cidades várias vezes. Fiquei chocado com o sofrimento das pessoas, com o fracasso de nossa política e com o fracasso de nossa mídia. Somente por causa de Mosul e Aleppo, alguns dos principais meios de comunicação ocidentais merecem a “Palma de Ouro da Dupla Moral”.
Quando a mídia cria guerras
Alguns jornalistas importantes são mais belicosos do que seus governos. Até mesmo na Alemanha. O espirituoso Berthold Kohler, editor do Frankfurter Allgemeine Zeitung, não apenas saudou as últimas guerras do Ocidente. Ele queria mais guerra, e lamentou muito o fato de Obama ter cancelado sua intervenção militar contra a Síria no último momento. O Ocidente tinha que “proteger seus valores com unidade, (…) se necessário, com suas próprias tropas na Síria”. Essa batalha histórica não seria possível sem sacrifícios. Kohler atestou generosamente a “legitimidade” da guerra dos EUA contra o Iraque, que violou a lei internacional. Afinal de contas, houve “consentimento visível para a invasão da coalizão”.
Josef Joffe, editor belicoso do Die Zeit, defendeu a guerra no Afeganistão como uma “guerra de defesa”, que “duraria até que a rede terrorista fosse destruída”. Nesse meio tempo, o número de terroristas no Oriente Médio explodiu como resultado das “guerras antiterroristas”. Mas isso não impede Josef Joffe. Ele chamou a guerra da OTAN na Líbia de “golpe de sorte”. Também queria ter visto uma intervenção militar ocidental contra a Síria: Os sírios “teriam merecido a ajuda militar do Ocidente ainda mais do que os líbios”. Infelizmente, isso não acontecerá porque o real é mais forte do que o ideal. E assim, “a Europa não precisa temer um influxo em massa de refugiados sírios”, escreveu ele em 2011. Bem, desde então…
Em 2013, Joffe escreveu: “Se você quiser derrubar ou paralisar a ditadura de Assad, destrua o fornecimento de energia, os sistemas de comunicação, as fábricas e as pontes como na Sérvia; melhor ainda: refinarias, depósitos de petróleo, campos de aviação e portos. E, com armas de precisão ou não, aceite milhares e milhares de mortes de civis… Na guerra, aplica-se a “falácia do último movimento”: se um lado ataca na expectativa de que o outro abaixe as armas. Nesse caso, o golpe deve ser quase fatal. Caso contrário, a guerra ‘curta’ se tornará uma guerra interminável, o que o Ocidente quer evitar a todo custo.”
Imprensa belicosa
Mas Assad ainda está lá, apesar dos mais de 100.000 rebeldes e terroristas armados pelo Ocidente e seus aliados. A estratégia criminosa de caos do Ocidente não “destruiu” o regime, mas o povo, o país.
Steffan Kornelius, diretor de política externa do Süddeutsche Zeitung, apresentou um argumento igualmente belicoso. Ele chamou a rejeição do governo alemão à guerra do Iraque em 2002 de “tola” e “errada”. A Alemanha estava “sacrificando a OTAN … no altar da nova política externa alemã … Bem-vindo ao Isolarion! … O preço por essa decisão será enorme”. Ele chamou as bombas contra Gaddafi de “corajosas” e a abstenção alemã no Conselho de Segurança das Nações Unidas de “o maior erro de política externa” do governo alemão. A Alemanha vai pagar um preço alto por isso”, previu ele aos seus leitores.
Hoje, os três jornalistas estão chateados com a explosão do terrorismo no Oriente Médio. A ideia de que eles próprios poderiam estar contribuindo intelectualmente para o caos que está nos atingindo como um bumerangue, não lhes ocorre. Muito pelo contrário! Kohler e Joffe ridicularizam os oponentes da guerra como “abutres da propaganda islâmica” e “pacifistas vulgares”.
Kohler, Joffe e Kornelius não fazem comentários muito diferentes de seus famosos colegas do New York Times ou do Washington Post. Os principais meios de comunicação do mundo ocidental ajudaram a provocar muitas guerras. E não apenas nos últimos anos. Há livros inteiros sobre a belicosidade da mídia americana.
Sentados no quentinho e cantando para a guerra
Tais jornalistas também parecem desejar que exércitos inteiros se movimentem em resposta a seus comentários. Afinal de contas, as bombas não estão voando em torno de seus ouvidos, mas dos ouvidos dos outros. Eles raramente são encontrados onde as coisas acontecem de verdade, mas ainda assim veem a guerra como um sinal de masculinidade. Por segurança, não se submetem a esse teste de masculinidade. Goethe desprezava as pessoas que se sentavam em suas salas quentes e cantavam canções de guerra.
Convido cada um desses três grandes jornalistas – Kohler, Joffe e Kornelius – a passar uma semana comigo em uma zona de guerra. E para visitar um hospital de guerra depois disso. Nas zonas de combate do Afeganistão, Líbia, Iêmen ou Somália. Não como um “jornalista infiltrado”. Mas sem guarda-costas e sem colete à prova de balas. As pessoas que o Ocidente está bombardeando também não têm coletes à prova de balas. Quer apostar que ninguém vai aparecer? Cantar canções de guerra é mais fácil se você ficar no calor de sua sala de estar.
O “triângulo de ferro” de Kohler, Joffe e Kornelius não pode falar pela maioria dos jornalistas alemães. Em minha experiência, a maioria dos jornalistas alemães está do lado da paz. Mas Kohler, Joffe e Kornelius representam uma mídia poderosa e líder de opinião na Alemanha. Eles são aliados jornalísticos do projeto de dominação mundial dos EUA. Eles nunca serão aliados na luta contra a hipocrisia.
Dupla atração
A proximidade dos principais jornalistas ocidentais com os líderes da política ocidental já foi analisada muitas vezes. O principal problema não é a participação deles em determinadas conferências transatlânticas. Em vez disso, é o fato de alguns jornalistas se sentirem confortáveis demais perto dos poderosos. Eles se deixam intoxicar pelo ambiente de poder. Esquecem-se de seu papel de cão de guarda e abandonam seu distanciamento seguro. Eles se tornam cortesãos.
Durante anos, testemunhei em primeira mão o respeito com que os principais representantes da mídia se aproximavam dos chanceleres Brandt, Kohl, Schröder e Merkel. O quanto eles gostavam da proximidade pessoal que os caracterizava na frente de seus colegas. Depois de uma longa conversa individual com um dos poderosos, seus artigos geralmente não continham uma palavra crítica por um longo tempo. E, se alguma delas escapasse, eles se retiravam por meses.
Os juízes precisam se declarar “tendenciosos” se estiverem tão próximos. Retirar-se da disputa legal. O mesmo fazem os árbitros de futebol e os juízes de patinação artística. Isso é, de fato, uma questão natural. E, no entanto, quase ninguém adere a essa regra básica do jornalismo objetivo e consciente. Quanto mais tendenciosas algumas pessoas são, mais abertamente elas escrevem.
Falta liberdade interna na imprensa
Passei vinte anos da minha vida trabalhando na política e 22 anos na mídia. Conheci inúmeros jornalistas. Muitas vezes, pessoas impressionantes com quem me senti muito à vontade. Pessoas que estão do lado da paz. Até mesmo nos três principais jornais alemães que mencionei.
Por que é tão raro ouvirmos suas vozes em momentos cruciais? Por que é tão difícil para eles enfrentar o belicismo irresponsável de seus superiores? Por que eles não usam seus erros catastróficos de julgamento contra eles?
Um dos motivos provavelmente é que a liberdade de imprensa garantida pela Carta Magna protege mais as organizações de mídia do que os jornalistas. É verdade que os jornalistas individuais também são protegidos de intervenções externas. Entretanto, eles não estão protegidos contra intervenções internas. De instruções de seu superior, seu editor-chefe. Os jornalistas não têm “liberdade de imprensa” em relação ao editor-chefe ou ao editor. Nossa constituição garante apenas a “liberdade externa”, não a “liberdade interna de imprensa”.
País livre?
Quando os editores-chefes de alguns dos principais meios de comunicação alemães decidem na conferência matinal: “É assim que vamos comentar sobre o conflito no Irã hoje”, o conflito geralmente também é comentado “dessa forma” pelo editor responsável. Mesmo que eles discordem completamente. É claro que ele pode discutir e discordar. Se o editor-chefe mantiver sua opinião, ele terá de ceder. Depois de uma certa idade, não é fácil simplesmente pedir demissão.
Com Friedrich Schiller, eu gostaria de gritar para todos os editores e chefes de redação: “Dê liberdade de pensamento, senhor!” Mas o que eu gostaria de ver nos jornalistas, também com Schiller, é “mais coragem de homem diante dos tronos principescos!” Às vezes, é preciso lutar por sua opinião. E, se necessário, pagar um preço por ela.
Direito à “linha editorial”
Ninguém deve negar aos editores e editores-chefes o direito de determinar a direção básica de sua mídia. Mas em questões fundamentais de guerra e paz, em questões centrais de certo e errado, em questões importantes de consciência, o jornalista individual deve ter mais liberdade. Até mesmo o Tribunal Constitucional Federal publica os “votos da minoria”. Será que algo semelhante não pode ser feito na mídia? Na questão da guerra e da paz, muitas vezes esses seriam até mesmo “votos da maioria”.
Por mais de vinte anos, fui assistente de Hubert Burda, um editor alemão com ideias políticas claras. Durante esse período, escrevi vários livros sobre as guerras no Afeganistão e no Iraque. Eles fazem uma análise crítica da política externa americana. Neles, também formulei minhas preocupações sobre a política externa de Israel.
Na época, meu editor era um grande amigo dos EUA. E um amigo ainda maior de Israel. Ele me deixou fazer isso mesmo assim. Embora certamente não tenha sido fácil para ele. É claro que tivemos discussões sobre minhas declarações. Mas elas eram justas e soberanas. É isso que quero dizer quando falo sobre tolerância editorial. É possível.
A mentira destrói a credibilidade
Essa tolerância e atitude liberal em relação a opiniões divergentes também é do interesse dos proprietários e editores-chefes da grande mídia. Um dos motivos da perda de credibilidade da grande mídia é que ela frequentemente suprime opiniões contrárias. E marginalizam os fatos que não se encaixam em sua visão de mundo.
Tenho mais de 700.000 assinantes em minha página do Facebook. Alguns de meus artigos alcançaram milhões de leitores. Não porque meu texto seja particularmente original. Mas porque o corajoso Süddeutsche Zeitung (SZ), o diversificado Frankenfurter Allgemein Zeitung (FAZ) ou a atrevida revista Spiegel do passado não existem mais. E os jovens geralmente não acreditam mais na mídia tradicional. Porque eles foram enganados com muita frequência. Infelizmente, as notícias falsas não são apenas um problema da mídia social, mas também da mídia tradicional.
Quando viajei pelo Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Palestina, Irã ou Iêmen nas últimas décadas e estudei as reportagens da mídia ocidental à noite, muitas vezes pensei que estava assistindo ao filme errado. Porque eu estava lendo coisas que tinham pouco a ver com a realidade no local. Também tive que corrigir minha opinião várias vezes durante minhas viagens. Mas a corrente principal nunca muda sua opinião pró-Ocidente. Ela sempre segue o mesmo roteiro.
Especialmente em questões de guerra e paz, a grande mídia ocidental tem sido, muitas vezes, o farol dos poderosos. Muitas vezes, eles espalham suas mentiras sem controle. Eles pensavam: Por que um ministro da defesa ou outro membro do alto escalão do governo deveria nos contar uma mentira? Sim, por que eles diriam? Porque a política sempre precisa de propagandistas.
Pelo renascimento da diversidade de opiniões
Eu costumava encontrar uma grande variedade de opiniões sobre questões importantes no FAZ. Por exemplo, sobre a guerra no Afeganistão, no “Politisches Buch”, partidários e opositores tinham sua opinião. No “Feuilleton” ou na editoria de “Economia”, eu encontrava outra visão das coisas.
Isso foi um ótimo jornalismo, onde se testemunhava a liberdade intelectual. Mas isso é coisa do passado. As reportagens sobre questões de política externa agora tendem a ir em uma única direção. O que aconteceu com a antiga diversidade de opiniões do FAZ?
Há meios de comunicação que ainda tentam permitir um certo grau de “liberdade de imprensa interna” e diversidade de opinião. O Die Zeit, por exemplo, ou as emissoras públicas. E alguns jornais regionais. Mas mesmo eles raramente resistiram ao zeitgeist em questões importantes. Sua voz contra a guerra e a hipocrisia raramente foi ouvida. Ou apenas de forma discreta e sutil. Em geral, eles não eram um contrapeso real.
Guardiãs da democracia
Até mesmo a outrora grande Spiegel não é mais um farol da imprensa livre. Não apenas desde o “caso Relotius”*, embora grandes jornalistas ainda escrevam em algumas editorias da publicação. A Der Spiegel costumava ser tão controversa, que você podia odiar e amar numa mesma edição, mas agora está atrasada em relação ao zeitgeist em muitos tópicos de uma forma quase embaraçosa. Em algumas questões que posso julgar razoavelmente bem, como a questão da Síria, ela estava e está tão longe do alvo que quase dá para sentir pena dela.
A revista foi obrigada pela justiça a se retratar por conta de uma reportagem de várias páginas sobre a nossa viagem ao “Estado Islâmico”. No final da audiência, a Der Spiegel anuiu todos os quatorze trechos que eu havia classificado como falsos e emitiu “declarações de cessação e desistência com penalidades anexas”. A publicação nunca mais deve repetir essas 14 declarações.
Seguindo o conselho do Tribunal Regional de Hamburgo, a Der Spiegel até mesmo se comprometeu a excluir completamente seu artigo da Internet. “Não dá para ser pior do que isso!”, disse-me um observador no julgamento, balançando a cabeça. A Der Spiegel nunca se desculpou com seus leitores por essa falha. Pelo menos não para mim. Basicamente, isso é triste. A Der Spiegel foi uma das mais importantes guardiãs de nossa democracia. Ela só voltará a sê-lo com um jornalismo muito mais corajoso.
A coragem de historiadores
Enquanto alguns meios de comunicação seguem as opiniões dos poderosos, banalizam-nas ou defendem-nas, os historiadores geralmente têm uma visão mais intrépida e livre das linhas gerais da política mundial. Os historiadores apontam abertamente as hipocrisias e os erros de nosso tempo. Na preparação para este livro, li inúmeras obras de historiadores alemães, americanos e franceses. Eles raramente contam o conto de fadas da luta “heróica” do Ocidente pelos direitos humanos e pela democracia. É absurdo demais. Quase ridículo. Será que alguns jornalistas não poderiam, pelo menos, dar uma olhadinha nesses trabalhos?
Hipocrisias dos poderosos
Será que não vou mais ler o SZ, o FAZ ou o ZEIT? Eu estaria me punindo. Leio pelo menos duas horas de jornais todos os dias. Com grande proveito. Passo pelo menos uma hora por dia em minha bicicleta ergométrica lendo o FAZ. Incluindo artigos de Berthold Kohler, é claro. Não para “observar o inimigo”, mas porque também encontro análises fortes nesse jornal. Também de Kohler. O mesmo se aplica ao SZ e, cada vez mais, também ao Die Zeit. Ou o jornal semanal Der Freitag.
Os jornais fazem parte de nossa cultura. É exatamente por isso que o fracasso de muitos dos principais meios de comunicação sobre a questão da guerra e da paz me deixa tão irritado. O fato de eles permitirem que as hipocrisias dos poderosos passem tão facilmente, e até mesmo concordarem com elas, coloca em risco a paz no mundo todo. E enfraquece sua própria importância.
A mentira vitalícia de nossa civilização
Não acredito que haja jornalistas na mídia que mencionei que escrevam deliberadamente inverdades. As exceções comprovam a regra. Acredito que a maioria dos defensores jornalísticos da guerra são, eles próprios, vítimas de uma grande mentira. A mentira vitalícia do Ocidente, de que sua política de poder é uma ação humanitária. Nunca será uma política de poder. Os EUA gastam inimagináveis 700 bilhões de dólares em armamentos porque querem fazer valer seus interesses em todo o mundo. Não para dar acesso à escola às meninas afegãs.
A grande mídia deve parar de divulgar esses contos de fadas tolos. Não deveriam ser elas a aplaudir o guarda-roupa inexistente do imperador, como no conto de fadas de Andersen, As roupas novas do imperador. Você deveria ser o garotinho que afirma abertamente que o imperador não está vestindo nada.
* O “Caso Relotius” se refere a uma serie de reportagens fraudulentas produzidas pelo jornalista Claas Relotius, membro do staff principal da revista Der Spiegel entre 2017 e 2018.
A artista visual Liana Timm produziu mais de 400 desenhos em lápis de cor da pandemia para cá, resgatando a gestualidade que havia ficado adormecida durante o tempo em que a exploração digital esteve em primeiro plano na sua atividade artística.
Agora, na mostra “Extravagante”, em cartaz na Macun Livraria e Café, até 6 de julho, ela exibe 30 obras que reúnem técnicas analógicas (desenho, pintura) e digitais (via computador). “As imagens, após retrabalhadas digitalmente e transferidas para telas, resultaram numa técnica pessoal que mixa o analógico e o digital, criando um equilíbrio entre manualidade e tecnologia”, explica a artista, que tem 55 anos de uma carreira profícua e reconhecida.
Analisando a série produzida, Liana nota que o conjunto de obras “parece querer dar conta, através da ilusão de ótica e efeitos de linguagem, da mutabilidade do mundo e suas ilimitadas possibilidades”. Em meio a cores fortes ou esfumaçadas, aparecem personagens em estado de perplexidade e indagação. O olhar, quase sempre vago, quer simbolizar a solidão humana, o pensamento ativo e a emoção à flor da pele, descreve a artista multimídia.
Arquiteta por formação – graduou-se na UFRGS, onde também lecionou no curso por 20 anos -, Liana reforça que “Extravagante” é uma exposição na qual se afirma como linha condutora “o dentro para fora”, abrindo tanto para o artista quanto para o observador novas possibilidades e descobertas.
“Liana nos diz que o tema da hora não é só o da hora, e sim questões irresolvidas da humanidade que ainda nos perseguem. Laço do singular com o coletivo. Questões em ebulição, que atravessam e nos alcançam. E que possam encontrar expressão. Com nova combinatória, com a possibilidade de novo movimento. Não é remanejamento do antigo, mas sim ato criativo”, diz a psicanalista Lúcia Serrano Pereira sobre a exposição.
SERVIÇO
Extravagante, exposição de Liana Timm
Local: Macun Livraria e Café
Endereço: Rua Octávio Corrêa, 67, Cidade Baixa.
Visitação: até 6 de julho; de terça-feira a sábado, das 13h às 20h; domingo, das 14h às 20h
Entrada gratuita
Fotos das obras: divulgação da artista
Foto de Liana Timm: Luis Ventura
Versão adaptada do primeiro clássico do escritor e poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe, a montagem teatral Os sofrimentos do jovem Werther, do coletivo Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta FavelA…. volta a cartaz às 20h deste sábado (17) e segue em temporada até o dia 28 de junho (sempre aos sábados, às 20h) na Sala 1 da KZA Terezinha (Rua Santa Terezinha, 711). No elenco, estão Sandro Marques, Pâmela Bratz, Danielle Rosa, Ketelin Abbady, Thomaz Rosa, Ricardo Padilha, Alexandre Malta, Antônia Alonso e Marco Olgini.
Concebido com direção coletiva e produzido com recursos do Edital Bolsa Funarte de Apoio a Ações Artísticas Continuadas 2024 e do Edital SEDAC/LPG nº 10/2023, o espetáculo inspirado no romance epistolar (narrado através de cartas) de Goethe aborda o tema da impossibilidade do amor. Na trama, o jovem pintor Werther nutre uma paixão devastadora por sua amiga Charlotte, sem poder fazer nada além de sonhar.
Na montagem realizada pelo grupo gaúcho, a dramaturgia segue a linha principal do roteiro original, mas desmonta a lógica do texto e traz à tona questões como o feminismo, a solidão, a busca do indivíduo pela liberdade de usufruir de sua vida em meio ao sistema em que está inserido, e a própria função do artista na sociedade.
Colocada pelo coletivo teatral como ponto central da narrativa, Charlotte é noiva do advogado Albert e pivô de uma comovente história de sofrimentos na burguesia da Civilização Ocidental. No decorrer do enredo, Werther termina por se desesperar e passa a se apresentar como irracional e suicida: para ele, a vida só tem sentido com sua amada. Ela, por sua vez, fica dividida entre os dois homens, mantendo o compromisso com aquele a quem foi prometida em casamento, mas sentindo uma grande afinidade pelo amigo. Ao mesmo tempo em que segue o papel imposto pelo patriarcado, a protagonista do espetáculo se revela – no íntimo – dona de si e de seus desejos. “Nos demos conta de que não tinha como falar do homem no papel central, mas sim da mulher, que sempre está à mercê, subalterna, numa posição que não é justa para ela”, pontua Danielle.
Na peça, surgem outras personagens femininas que também arcam com opressão em outras posições. “É importante e necessário falar desta relação de como foi antes de nós, com nossas avós, nossas bisavós; é nossa bandeira de amor livre, da não-monogamia, da liberdade sexual, de culto, de trabalho, da mulher não se submeter”, sinaliza Danielle. “Por outro lado, o personagem Werther é, de forma metafórica, a representação das pessoas que se apaixonam e sonham, vivendo em um mundo que clama por transformação – que é o nosso caso, como ativistas que buscam isso através do teatro”, emenda a atriz.
Trabalhando há 17 anos com temas que sirvam de terreno fértil para a discussão de seus anseios, o grupo Levanta FavelA… bebe nas fontes do Teatro do Absurdo, do Teatro da Crueldade (de Antonin Artaud), do Teatro Épico (de Bertolt Brecht) e do Teatro do Oprimido (de Augusto Boal). No caso da atual montagem, o coletivo investe nas duas primeiras linguagens para, no decorrer de dez cenas, apresentar uma dramaturgia densa, lírica e essencialmente psicológica, ao mesmo tempo em que celebra e insere na cena referências de matriz afro, como exemplo de Cosme e Damião, duas divindades da Umbanda protetoras das crianças.
“Ainda que sempre com uma pitada de contemporaneidade e nonsense, gostamos de buscar nos clássicos a inspiração para falar de nossas inquietações”, revela Marques. “Vínhamos, há algum tempo, abordando a temática da saúde mental em nossas discussões em grupo, a partir do evento da pandemia de Covid-19, que impactou muitas pessoas nesse sentido”, ressalta o ator, ao se referir sobre o tema do suicídio, visto até hoje, pela maioria das pessoas, como controverso.
Serviço:
Os sofrimentos do jovem Werther
Datas: dias 17, 24 e 31 de maio e dias 07, 14, 21 e 28 de junho
Horário: 20h
Local: KZA Terezinha (Santa Terezinha, 711, Santana)
Ingressos: R$ 60,00
FICHA TÉCNICA
Direção: coletiva
Interpretação: Sandro Marques, Danielle Rosa, Pâmela Bratz, Ketelin Abbady, Thomaz Rosa e Marco Olgini
Iluminação: Alexandre Malta
Sonoplastia: Ricardo Padilha
Contrarregragem: Antônia Alonso
Cenário: o grupo
Produção: o grupo
Sobre a Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta FavelA…:
Coletivo criado em 2008, em Porto Alegre, com Teatro de Rua, Teatro de Vivência e Intervenções Cênicas. Com forte engajamento com movimentos sociais, o grupo coloca na sua estética e linguagem a discussão política sobre questões atuais e pertinentes ao contexto social contemporâneo, fazendo da cultura uma ferramenta de discussão social. Ao longo de sua trajetória, realizou 17 espetáculos: Margem Abandonada Medeamaterial Paisagem com Argonautas, Tebas, O Beijo no Asfalto, Lua de Mel em Buenos Aires A Mulher Crucificada O Beijo da Besta, Malone Morre, A Babá e o Iceberg, Em Busca de Christa T, O Canto da Terra, A Árvore em Fogo, Futebol, nossa Paixão, A Belíssima Fábula de Xuá-Xuá A Fêmea Pré-Humana Que Descobriu o Teatro, Sepé: Guarani Kuery Mbaraeté!, Populares Temem Invasão das Salsichas Gigantes, Manual do Guerrilheiro Urbano, Maria Suas Filhas e Seus Filhos, Don Juan e Os Sofrimentos do Jovem Werther.