Categoria: Cultura-MATÉRIA

  • “Glossário da Terra” mergulha no complexo universo da posse e da propriedade da terra

    “Glossário da Terra” mergulha no complexo universo da posse e da propriedade da terra

    Será em São Paulo, nesta quarta-feira, o lançamento nacional do Glossário da Terra – Dicionário da Regularização Fundiária, de Sales Carvalho, a mais recente publicação de Jornal JÁ Editora.

    O lançamento será durante o VII Congresso Internacional de Engenharia de Agrimensura, Cartografia, Cadastro e Topografia, que pela primeira vez ocorre no Brasil.

    O autor mergulha no complexo universo que envolve a posse da terra, para explicitar o significado de cada palavra ou expressão sem as quais é impossível transitar com segurança pelas questões que envolvem a terra, posse, o direito e o uso dela, no meio urbano ou rural.

    O professor Francisco de Sales Vieira de Carvalho é engenheiro agrimensor e mestre em engenharia civil, com experiência em Ciências Geodésicas, especializado em Cadastro Técnico Multifinalitário. Trabalha no cadastro de imóveis rurais e urbanos, ordenamento territorial, georreferenciamento, agrimensura e cartografia legal.

    Coordena o Curso de Engenharia de Agrimensura e Cartográfica da Faculdade de Engenharia de Agrimensura de São Paulo (FEASP). Há mais de 25 anos é analista de desenvolvimento agrário da Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo “José Gomes da Silva” (ITESP). Preside o Instituto de Governança Fundiária do Brasil (IGFB) e a Associação Profissional dos Engenheiros Agrimensores no Estado de São Paulo (APEAESP).

    O livro pode ser adquirido no site da Jornal JÁ Editora, na Amazon.com.br ou com seu livreiro favorito.

    Glossário da Terra – Dicionário da Regularização Fundiária

    De Sales Carvalho

    180 páginas, 625 verbetes

    14 c, x 21 cm, 362 gr

    Jornal JÁ Editora, Porto Alegre, 2022

    ISBN 978 65 86412-08-6

     

     

     

     

  • “O povo nunca aceitou atos violentos em silêncio”

    “O povo nunca aceitou atos violentos em silêncio”

    O Ministro do Supremo Tribunal(STF), Edson Fachin, mesmo com seus afazeres diários na suprema corte, encontrou tempo para ler  “A Independência Além do Grito – A Grande aventura épica do surgimento da Nação brasileira”, livro do jornalista José Antonio Severo , publicado em setembro deste ano pela editora JÁ, de Porto Alegre.

    “O momento é propício para lembrar e relembrar que o povo brasileiro nunca assistiu passivo à exploração que sofreu. Tampouco aceitou em silêncio atos violentos.”, diz Fachin. Para ele,  o autor demonstra de modo exemplar ter sido consequência de conflitos políticos no interior do país e a origem de muitas outras disputas que o Brasil precisou enfrentar para se consolidar como Nação.

    “Vejo na obra uma percuciente e importante pesquisa histórica feita por José Antônio Severo, a merecer todas as nossas homenagens, porquanto relata que a Independência do Brasil não se resume ao ato de Dom Pedro I às margens do Ipiranga, ainda que se dê, ao então Príncipe Regente, as honras e o mérito de conduzir a Independência, mesmo no status de herdeiro do trono da colonização.”. E diz mais:

    “Não há texto sem contexto, e Severo bem hauriu essa vocação quando registra que a insatisfação popular com a arrogância e intransigência da elite portuguesa nas negociações com representantes do Brasil foram fatores a provocar insurreições em diversos territórios da nova nação (Grão-Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Pernambuco, Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro, Cisplatina) contra o domínio da metrópole. Demonstra-se aí a intensa participação do povo nessa luta, inclusive das mulheres.”.

    Fachin ressalta a informação do livro que  após grande derramamento de sangue, e não exatamente no dia 7 de setembro de 1822 – como fazem crer os livros didáticos de História – nos dois a três anos seguintes, nações importantes reconheceram a independência do Brasil e, em 1824, após a dissolução da Constituinte por Dom Pedro I, o Brasil tem outorgada a sua primeira Constituição. Um caminho aberto para se chegar a atual conjuntura da República, suas sístoles e diástoles.

    “ Severo nos presenteia com uma lição sobre a democracia racial piauiense. Para a época, um escândalo, conforme narra à Coroa um funcionário Público português recém-chegado da Europa, vez que neste terreno (Piauí) todos têm a mesma estima uns pelos outros, sejam brancos, mulatos, pretos. Todos se tratam com recíproca igualdade e termina concluindo: “No Piauí tudo era diferente”

    Fachin diz: “Comunga da visão de que revisitar a história do Brasil é sempre necessário. Reitera  a importância da pesquisa com a finalidade de elucidar os fatos históricos, em especial as que possuem tamanha riqueza de detalhes”.

    “Severo deixou para a vida um legado que o faz eterno”, diz ao se referir ao escritor que morreu em 2020, depois de concluir a obra que serviria de argumento para um séria sobre a independência do Brasil da TV Cultura de São Paulo. (Ivanir José Bortot)

  • Sarau da Editora Libretos leva cultura e arte a cinco bairros de Porto Alegre

    Sarau da Editora Libretos leva cultura e arte a cinco bairros de Porto Alegre

     

    A Libretos Editora lança no próximo sábado, 26 de novembro, o Sarau Libretos, projeto que vai realizar cinco encontros com poesia, música, leitura, feira de livros e debate em diferentes bairros de Porto Alegre. A entrada é franca.

    A 1ª edição acontece no Galpão Cultural do Morro da Cruz, com Negra Jaque, Fátima Farias, Marcia do Canto e Nina Nicolaiewsky, além de Batalha de Rimas e visita ao Mirante.

    Ao longo do ano de 2023, estão previstos, ainda, eventos culturais na Restinga, Vila Bom Jesus, Centro Histórico e Morro Sant’Ana. A produção conta com recursos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul por meio do Pró-cultura RS FAC (Fundo de Apoio à Cultura) Publicações.

    Fátima Farias. Acervo pessoal/Divulgação

    Fátima Farias, autora do livro Mel e Dendê (publicado pela Libretos), poeta que trata em seus livros sobre a vivência da população negra, seus desejos, sua luta, as injustiças sofridas, o direito ao estudo, ao trabalho e a uma vida digna.

    Negra Jaque. Divulgação

    Negra Jaque, com um pocket show de hip-hop que liga a literatura e a música em um encontro potente; e uma Batalha de Rimas, de hip-hop, quando haverá premiação, com torcidas presentes. O rap, expressão que encontra suas raízes em territórios do continente africano através de sua oralidade, e a poesia falarão de sentimento e narrativa pura.

    Marcia do Canto e Nina Nico. Divulgação

    E Marcia do Canto, atriz e autora do livro Acho Chato e Ponto (publicado pela Libretos), sobre a fase de letramento, quando se começa a aprender a ler e tudo é muito difícil. Com participação especial da cantora e compositora Nina Nicolaiewsky.

    Sarau Libretos no Galpão Cultural do Morro da Cruz
    Sábado, dia 26 de novembro, das 10h às 18h
    Com Negra Jaque, Fátima Farias, Marcia do Canto e Nina Nicolaiewsky. E ainda: Batalha de Rimas, Feira do Livro e Visita ao Mirante
    Entrada Franca
  • Livro-reportagem resgata a invasão da Fazenda Sarandi, na pré-história do MST

    Livro-reportagem resgata a invasão da Fazenda Sarandi, na pré-história do MST

    O jornalista Ayrton Centeno foi ao Instituto de Educação Josué de Castro (IEJC), centro de formação instalado no Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, apresentar seu livro “Primeira Terra”.

    O livro conta com detalhes de romance a ocupação da Fazenda Sarandi, em 1979 — antes portanto da fundação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

    Foi um momento diferente na carreira de Centeno.

    Jornalista desde os 17 anos, ele sempre foi um repórter discreto que cedo se revelou um editor prolífico, autor de livros sobre ecologia (biografia de “Roessler, o primeiro ecopolítico”), resistência à ditadura (“Os Vencedores”), poesia (biografia de Alceu Wamosy) e futebol (“O Segundo Sangue”).

    De tanto fazer reportagem junto aos camponeses sem terra, virou fonte de informação do próprio MST.

    Com 224 páginas, “Primeira Terra” é fruto do esforço pessoal do repórter. Por sua amplitude e contundência, é um épico do jornalismo que merece ser lido e discutido, tanto pelas histórias que conta como pela linguagem extremamente enxuta com que fala dos párias da sociedade brasileira.

    É uma história sulina que a partir de certo momento passa a fazer parte do movimento migratório para o Brasil Central, no embalo da sojicultora e sob a tutela dos governos militares, envolvendo loteadores agrários e cooperativas de colonização.

    Em sua narrativa, Centeno junta no mesmo contexto, mas em lados opostos, índios expulsos de suas reservas e colonos sem terras que agem como posseiros e/ou invasores de terras alheias.

    Segundo antropólogos que se debruçaram sobre esses
    movimentos, seus protagonistas – colonos sem terras e índios banidos de suas áreas originais – constituem as categorias sociais mais sacrificadas da população brasileira.

    Nesse aspecto, “Primeira Terra” é uma lição de jornalismo.

    Os nomes desses episódios dramáticos fazem parte da história: Sarandi, Nonoai, Encruzilhada Natalino; e tiveram eco ou repeteco em Chapecó, Laranjeiras do Sul e no Mato Grosso.

    Não é difícil concluir que esse drama prossegue hoje em dia na Amazônia, onde agricultores, criadores de gado,
    garimpeiros e madeireiros invadem terras de índios.

    Com foco nos episódios de 1979, Centeno recupera documentos gerados por colegas da imprensa e estudiosos da universidade.

    Um dos repórteres que estiveram nas origens da briga foi Najar Tubino, que trabalhava para o Coojornal, de Porto Alegre. Na sequência, buscaram material nessa mesma área outros repórteres: André Pereira, Renan Antunes de Oliveira, Imara Stallbaum, Carlos Wagner e Ana Amélia Lemos, hoje senadora.

    Entre eles, correndo por fora, o próprio Centeno. Ele conta:
    “Logo após a ocupação, em 1980, eu e o Guaracy Cunha, que trabalhávamos na sucursal da editora Bloch (em Porto Alegre), fizemos o filme da ocupação chamado Fazenda Sarandi. Era um super 8. Em seguida, como decorrência da ocupação, começaram a surgir barracas e mais barracas de lona preta, palha, zinco em Encruzilhada Natalino. Passamos a acompanhar o caso de Natalino, o maior acampamento de sem terra do país na época e fizemos outro super-8”.
    Mais de vinte anos depois, Centeno escreveu o roteiro do documentário chamado “Sarandi”, dirigido por Carlos Carmo, português que fora diretor de produção da TVE/RS.

    Com apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário, então chefiado por Miguel Rossetto, o vídeo recontou a ocupação das granjas Macali (Madeireira Carazinhense Ltda) e Brilhante, esta pertencente a Ari Dalmolin, então presidente da poderosa Fecotrigo.

    As duas granjas eram parte da fazenda Sarandi, latifúndio que abarcava as terras onde estão hoje vários municípios, como Sarandi e Ronda Alta.
    Além de contar a história dos primeiros tempos da ocupação, o filme documenta a situação do assentamento ali estabelecido quase três décadas após a desapropriação da área pelo governo do Estado.

    Para fazer o livro, Centeno aproveitou depoimentos gravados e não utilizados ou parcialmente utilizados no filme. E foi mais três vezes à região para colher mais depoimentos e fazer fotos. Além disso, o livro foi enriquecido com leituras e pesquisas históricas.

    Em alguns trechos, a narrativa toma ares de romance, pois recupera declarações dos envolvidos, na linguagem crua usada no cotidiano dos agricultores sem instrução.

    O resultado final é um livro raro que por enquanto só está disponível em dois locais: na Editora Autografia, do Rio (R$ 65,21, segundo consta em sua livraria digital) e (por R$ 45) na Livraria Vanguarda, de Pelotas, a terra natal do autor. (Geraldo Hasse)

  • Exposição “Orgânicos” exibe obras dentro  e fora do Centro de Cultura de Gramado

    Exposição “Orgânicos” exibe obras dentro e fora do Centro de Cultura de Gramado

    A exposição Orgânicos – Apropriações e Derivações, com curadoria de Anaurelino Côrrea de Barros Neto  está desde sábado (19), no Centro Municipal de Cultura Arno Michaelsen, em Gramado.

    A mostra acontece paralelamente ao grande evento do Natal Luz e fica aberta à visitação até 17 de janeiro de 2023.

    Paulo Abenzrragh e suas obra. Foto Carlos Souza / Divulgação

    A coletiva reúne obras de 67 artistas, produzidas nas técnicas de pintura e desenho, escultura, arte têxtil, objeto-escultura e fotografia-vídeo.

    Algumas esculturas estão expostas na parte externa do Centro Cultural, compondo o cenário com o Lago Joaquina Bier, que até o ano passado recebia o espetáculo Nativitaten, do Natal Luz.

    Obras da artista Nara Fogaça. Foto Carlos Souza/ Divulgação

    No vernissage, o curador e o secretário municipal da Cultura, Ricardo Bertolucci Reginato, enalteceram a importância da arte para a tradução e elevação da coletividade. O secretário destacou o trabalho de Anaurelino na curadoria, ao reunir tantas obras diversas, e o curador elogiou a produção dos artistas.

    Andrea Steiner Barros, com suas fotomobgrafias impressas em voal de 1.70 x 0,90 Foto Divulgação/ Andrea Barros

    Entre outros, integram a exposição Cho Dorneles, Cristina Rosa Bita, Heitor Bergamini, Kira Luá, Rita Gil, Nara Fogaça, Deja Rosa, Ubirajara Fernandes, Paulo Abenzrragh, Liana D’Abreu, Paulo de Araújo, Leonardo Loureiro e Graça Craidy.

    Tapeçarias de Deja Rosa Foto Carlos Souza / Divulgação

    SERVIÇO

    Visitação: de segunda a sexta das 8h às 11h45 e das 13h30 às 17h45

    Local: Centro Municipal de Cultura Arno Michaelsen

    Rua Leopoldo Rosenfeld, 818, Gramado

  • Lançamento em Brasília de A Independência Além do Grito, de José Antônio Severo

    Lançamento em Brasília de A Independência Além do Grito, de José Antônio Severo

    Será na Sebinho da 406 Norte o lançamento em Brasília do último livro do jornalista e escritor José Antônio Severo,  A Independência Além do Grito,  ilustrado por Enio Squeff  (Jornal JÁ Editora, 2022).

    Sebinho Livraria e Café é um dos locais que Severo gostava de frequentar quando estava em Brasília. O encontro de amigos e leitores do autor, falecido em 24 de setembro de 2021, está marcado para a tarde deste sábado, 19/11.

    “Severo recorreu às suas três paixões – História, Jornalismo e Cinema – para escrever seu último livro”, resumiu o colega Lourenço Cazarré. “Severo registra ângulos inusitados, que dão um condimento mais  humano à aparentemente insossa maré dos acontecimentos.”

    Foi com este texto em andamento, após extensa pesquisa, que Severo levou à TV Cultura de São Paulo a ideia de criar uma série. “Independências” vem sendo exibida em episódios semanais desde 7 de setembro.

    A diplomata Maria Auxiliadora Figueiredo percebeu no livro um objetivo: “…corrigir uma historiografia falha e omissa, que não reflete a realidade da nação brasileira no momento de seu nascimento”. Para ela, “o livro de José Antônio Severo revela ser imprescindível a vulgarização, o quanto antes, dos fatos, ideias e lutas que efetivamente levaram o Brasil a separar-se de Portugal.” Leia aqui.

    “O livro é fruto da pesquisa feita por Severo para o roteiro da série sobre 200 anos da Independência, exibida este ano pela TV Cultura”, registrou Raquel Carneiro na seção Veja Recomenda, da revista Veja.

     

  • Resenha: “A Independência não foi uma ação de homens brancos”

    Resenha: “A Independência não foi uma ação de homens brancos”

    Por Maria Auxiliadora Figueiredo*

    Viena, 1815; Rio de Janeiro, 1820; Cidade do Porto, agosto de 1820; Cidade de Santos; Cidade do Porto; Rio de Janeiro; São Vicente. Baixada santista; Lisboa….

    Diferentes cenários, com cronologias próximas ou iguais, vão introduzindo, ao longo do livro, os acontecimentos, atores, suas conversas, suas dúvidas, seus interesses e as contendas, conluios e batalhas que culminaram, em Lisboa, em 1825, com o reconhecimento da Independência do Brasil por Portugal e Inglaterra.

    O grito de 7 de setembro de 1822 tem apenas uma menção fugaz, um único parágrafo, qual seja:

    “O Grito do Ipiranga é um ato político e de planejado marketing (a palavra não existia, mas a encenação é antiga). No dia 2 de setembro, no Rio, a princesa Maria Leopoldina, com os poderes de regente interina, reuniu o conselho de ministros e, perante eles, com o consentimento prévio do marido, assinou o decreto de separação de Portugal. O objetivo do evento à margem do riacho é tornar pública a separação e comprometer São Paulo com a Regência e os atos do príncipe.”

    Para José Antônio Severo, a pequena relevância do Grito, em que pesem seu alto valor simbólico e o vigor de sua memória, está explícita no desenrolar da obra e já se evidencia no título: “A Independência Além do Grito”. Porque é disso que se trata ou o que o autor busca provar: que a Independência do Brasil não emanou de ação volitiva de Dom Pedro I às margens do Ipiranga, mas, sim, de inúmeros fatores geopolíticos e estratégicos sendo considerados à época no Brasil e na Europa, bem como de insurreições contra o domínio português que pipocavam em diferentes regiões do país e ameaçavam a integridade do território nacional. Como bem nota o autor na contracapa do livro, a vitória dos patriotas tampouco ocorreu integralmente em 7 de setembro de 1822, mas se estendeu até o ano seguinte no Nordeste e mais outro, na Província Cisplatina.

    São tantas as implicações dos acontecimentos que precederam o Grito, que Severo quase não se ocupa da experiência dos países da América hispânica que se iam tornando independentes nos moldes dos Estados Unidos e/ou conforme os ideais da Revolução Francesa. As múltiplas independências dos nossos vizinhos são, porém, lembradas na obra por protagonistas portugueses e brasileiros, como José Bonifácio de Andrada e Silva, que as têm por maus exemplos por significarem a fragmentação do antigo império espanhol nas Américas.

    Severo inicia o livro no que considera o “parto de nosso personagem, o Brasil”, o Congresso de Viena, ao qual Lisboa comparece como Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e suas colônias de ultramar. A promoção de colônia a “reino unido” reflete a crescente autonomia de que o Rio de Janeiro passou a dispor desde a vinda da Família Real. Consiste, sobretudo, no motivo pelo qual o retorno do Brasil à situação colonial, estabelecido pelas Cortes Extraordinárias Constituintes da Nação Portuguesa após a Revolução do Porto, não poderia ser aceito pelo Príncipe Regente. A entrada em vigor da jurisdição do congresso constitucionalista português implicou, para Dom Pedro, o esvaziamento de todo o seu poder, reduzido à província do Rio de Janeiro, pois as demais Juntas Provisórias passaram a responder diretamente à Junta de Lisboa.

    José Antônio Severo considera que foi nesse quadro que se iniciou a luta pelo poder que acarretou a independência. Esse comecinho da disputa, contudo, o leitor só o encontra no quinto capítulo do livro, quando já lhe foi dado conhecer os diferentes modos de pensar dos irmãos Andradas, de Dona Leopoldina e Dom Pedro, de Dom João VI, de seus interlocutores, dos inspiradores da revolução espanhola de 1812 (que gerou a Constituição de Cadiz), dos membros de uma sociedade secreta do Porto intitulada Sinédrio, do governador militar inglês de Portugal, William Carr Beresford, dos militares portugueses insatisfeitos com o domínio militar britânico, dos chefes militares, comerciantes, jornalistas influentes e membros da maçonaria portuguesa (insatisfeitos, por sua vez, com o governo provisório e em desacordo quanto ao formato a ser adotado pelo governo que o sucederá), dos principais integrantes da Santa Aliança e até dos integrantes das tropas portuguesas enviadas ao Brasil para pacificar grupos independentistas exaltados e manifestantes nas principais cidades brasileiras.

    A densidade desses primeiros capítulos não diminui nos seguintes. Ao contrário, aumenta. O leitor continua a ser inteirado dos pensamentos dos principais atores, como de José Bonifácio, reiteradas vezes, de Dona Leopoldina e Dom Pedro, do chefe de operações na Província Cisplatina, do rei Fernando VII (que pretendia promover novamente a anexação de Portugal à Espanha), de Dona Carlota Joaquina e o príncipe Dom Miguel, de Talleyrand e Metternich no âmbito da Santa Aliança, do Duque de Wellington (Foreign Office), de diversas personalidades locais e portuguesas envolvidas nas negociações para o retorno de Dom João VI a Portugal e assim por diante.

    O parágrafo do Grito acima citado e o breve relato da paixão de Dom Pedro pela paulista Domitila de Castro Canto e Melo só vão constar do décimo segundo capítulo, quando o Príncipe Regente já terá demonstrado suas habilidades políticas em Vila Rica (Minas Gerais) e em São Paulo. Mas a situação nacional “é complicada, com guerra civil na Bahia, rebeliões em Belém e São Luís, indefinição no Recife e uma dúvida em Montevidéu, onde o governador Frederico Lecor aderiu à Independência, mas o exército português, que ocupa a cidade, ficou com as Cortes”.

    É na descrição das batalhas que José Antônio Severo nomeia muitos dos heróis e heroínas desconhecidos da Independência do Brasil. O ritmo denso e de múltiplos cenários dos capítulos sobre os modos de pensar dá lugar, a partir do Grito, a uma cenografia igualmente multifacetada, porém com vivacidade e velocidade redobradas na narração dos confrontos visando à pacificação do país e ao estabelecimento do Império, bem como na apresentação dos inúmeros comandantes e integrantes importantes de ambos os lados das refregas.

    Sem conseguir largar o livro, ao chegar às batalhas e às exposições das táticas adotadas pelos combatentes, o leitor vai tomando ciência, quase que sem perceber, da participação, no cerco de Montevidéu, do futuro Marechal Osório, comandante do exército brasileiro na Guerra do Paraguai, então com 14 anos de idade. Nos enfrentamentos na Bahia, fica sabendo do contingente de mulheres combatentes, entre as quais se encontrava Maria Quitéria, promovida a 1º cadete por ato de bravura em seu primeiro enfrentamento. Conhece, ainda, outra figura importante da Bahia, Maria Filipa de Oliveira, denominada a Marisqueira, que liderou grupo de 80 mulheres nadadoras e mergulhadoras que lograram, em alto mar, envenenar marinheiros e incendiar barcos portugueses. Já no Piauí, entre as desavenças e combates, o leitor é apresentado à diversidade étnica de sua população, em que “brancos, mulatos e pretos, todos uns e outros, se tratam com recíproca igualdade”.

    Como pretendia, José Antônio Severo demonstra, dessa forma, que a Independência não foi uma ação de homens brancos e adultos, com um único negro, espantado, assistindo, como no famoso quadro de Pedro Américo. Ao contrário, Severo alcança, na obra, seu objetivo de provar que “houve povo nessa empreitada” – e mulheres.

    Por fim, cabe assinalar que o “Independência Além do Grito” se presta admiravelmente à elaboração de sua versão cinematográfica, mas não como um único filme. Seu denso conteúdo, enorme quantidade de personagens, variedade de cenários e façanhas próprias de superproduções demandariam um seriado, com múltiplos – e deliciosos – capítulos. A necessidade maior, porém, de sua divulgação decorre do objetivo mesmo da obra: corrigir uma historiografia falha e omissa, que não reflete a realidade da nação brasileira no momento de seu nascimento. O livro de José Antônio Severo revela ser imprescindível a vulgarização, o quanto antes, dos fatos, ideias e lutas que efetivamente levaram o Brasil a separar-se de Portugal.

    • *Maria Auxiliadora Figueiredo é embaixadora aposentada. Texto publicado originalmente no Bonifácio.
  • Rafael Guimaraens vai aos anos 50 e resgata o incrível Major Aragon

    Rafael Guimaraens vai aos anos 50 e resgata o incrível Major Aragon

    Os teóricos se encarregarão de enquadrar Rafael Guimaraens neste ou naquele gênero literário.  Por cacoete profissional, talvez,  vejo-o como um repórter, de olho certeiro para encontrar seus temas e personagens e sutil na habilidade para narrá-los. 

    Jornalismo, literatura e história se misturam nos seus relatos precisos. 

    Seu último livro, o décimo nono, tem como epicentro dois incêndios suspeitos no centro de Porto Alegre – do Tribunal de Justiça do Estado  e da Repartição Central de Polícia.

    No meio de milhares de processos e inquéritos incinerados sumiram escândalos financeiros e um rumoroso processo em que 53 policiais eram acusados de extorquir famílias  alemãs durante a 2ª Guerra. Incêndios criminosos, é a dedução imediata.

    O crime não é esclarecido, mas o que se desenrola no entorno dele é um vivo painel de uma época, os anos 50, em Porto Alegre. Corrupção e o corporativismo policial, imprensa manipulada, autoridades lenientes e os personagens do submundo, usados no jogo. Dentre eles emerge o incrível Major Aragon, um espanhol trapaceiro e sedutor, forçado a assumir a autoria dos crimes e cujas peripécias atravessam toda a história.

    O Incendiário é o título, da Libretos.Recomendo. É um livro  que se lê num fôlego.

    PS: É da Libretos.

     

  • Os mistérios de Clarice, segundo Jane Tutikian, Catia Simon e Cintia Moscovich

    Os mistérios de Clarice, segundo Jane Tutikian, Catia Simon e Cintia Moscovich

     

    Importância da célebre escritora será abordada em encontro na mostra de retratos que a homenageia

     As escritoras Jane Tutikian, Catia Simon e Cíntia Moscovich têm em comum a admiração pela obra de Clarice Lispector e, nesta quinta-feira (17), às 18h30, falarão sobre essa devoção em um local mais que adequado: a mostra Clarices, da artista visual Graça Craidy, no Espaço Cultural Correios. O evento tem entrada gratuita.

    Entre as paredes que abrigam a exposição com 33 retratos de Clarice, as três escritoras revelarão as razões pelas quais são “loucas” pela autora de A Hora da Estrela.

    Para Jane Tutikian, a escritora nascida na Ucrânia, naturalizada brasileira e que morreu aos 57 anos, em 1977, no Rio de Janeiro, “mergulhou na vida, na arte e no mistério de tudo o que existe como ninguém! É única. Por isso, sou louca por Clarice”, declara.

    Gra‡a Craidy e uma de suas Clarices Foto Kin Viana/ Divulgação

    Catia Simon, doutora em Letras pela UFRGS e premiada pela tese “Nos labirintos da realidade, um diálogo de Clarice Lispector com Machado de Assis”, afirma que “a escrita distraída de Clarice afrouxa nossas resistências e nos aproxima da aventura de existir do outro”.

    Já Cíntia Moscovich resume assim seu culto a Clarice: “Sou louca por Clarice porque ela me ensinou a mágica da literatura”.

    Por sua vez, a artista visual que assina os retratos das diversas facetas de Clarice explica o que a moveu ao fazer a coleção e o evento com as três escritoras. “Como eu quis desvendar na pintura um pouco das muitas Clarices que vivem na Clarice Lispector, quero compartilhar com os visitantes da exposição, também, o olhar dessas três grandes escritoras e professoras que são apaixonadas por Clarice e têm suas próprias razões para essa paixão”, diz Graça Craidy.

    Pintora Graça Craidy na sua exposição Clarices. Foto Kin Viana/ Divulgação

    O Espaço Cultural Correios tem entrada pela Av. Sepúlveda e se situa no térreo do Memorial do Rio Grande do Sul (Rua 7 de Setembro, 1020, Centro Histórico). A mostra fica aberta à visitação até 17 de dezembro, de terça a domingo, das 9h às 18h.

    Fotos: Kin Viana

  • Cantata dos Sete Povos: a saga das missões jesuíticas na música de Raul Ellwanger

    Cantata dos Sete Povos: a saga das missões jesuíticas na música de Raul Ellwanger

    Documentário apresenta obra musical de Raul Ellwanger dedicada à saga guarani e às missões jesuíticas no Rio Grande do Sul

    A estreia do primeiro episódio da série documental “Cantata Sete Povos – Episódio 1” acontecerá em uma sessão especial da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mário Quintana, na quarta-feira (16/11), às 19h00, em Porto  Alegre.

    O filme aborda, de forma poética, a construção da utópica sociedade proposta por jesuítas europeus aos guaranis, que povoaram, originariamente, o território gaúcho por mais de um milênio.

    Finda a experiência missioneira nos séculos 17 e 18, sobreveio a era do apagamento da memória missioneira, a ocultação dos fatos e o genocídio indígena.

    O documentário em tela está alicerçado sobre a obra musical do consagrado compositor Raul Ellwanger, criador da “Cantata Sete Povos” – uma suíte popular de 12 canções em diferentes estilos – que narra, segundo o autor, a saga guarani em busca da Terra-Sem-Males” e sua relação com os religiosos europeus.

    O episódio inicial da série, concluído no início de outubro, mostra o músico em diferentes situações em seu trabalho artístico e criativo.

    Assim, Ellwanger interpreta “Invocação” diante do altar da Igreja Santa Cecília, padroeira dos músicos. Visita, ainda, uma aldeia guarani em Viamão, onde canta “Bate o Enxadão” na Opy (casa de reza).

    O compositor conversa, em Porto Alegre, com pesquisadores da história e do legado guarani e jesuíta. E viaja ao sítio arqueológico da missão de S. Miguel, onde revela as razões que o levaram a compor a “Cantata Sete Povos”, gênero originado durante o período barroco na Europa, depois referenciado em ações emancipacionistas na América Hispânica.

    Omar L. de Barros Filho, roteirista e diretor do documentário, explica que a proposta cinematográfica de “Cantata Sete Povos – Episódio 1” está apoiada “em uma narrativa ágil, que oferece ao espectador uma viagem musical ao passado, em busca de respostas a questões que ainda permanecem vivas e inquietantes. No filme, o personagem central e mediador do processo é o compositor e músico Raul Ellwanger”.

    “Cantata Sete Povos – Episódio 1” é uma realização do Instituto Latinoamerica, com 21 anos de atuação cultural e educativa, com produção da Kino Kaos Filmes e Poética Produções.

    Parceria firmada com a Secretaria Especial da Cultura/Ministério do Turismo através do termo de fomento 921134/2021

     

     

     

    Ficha Técnica

    “Cantata Sete Povos”
    Episódio 1
    Duração: 20 minutos

    Roteiro e Direção: Omar L. de Barros Filho
    Argumento: Paulo de Tarso Riccordi
    Direção Musical e Composições: Raul Ellwanger

    Realização: Instituto Latinoamerica

    Produção: Kino Kaos Filmes; Poética Produções

    Fomento: Ministério do Turismo – Secretaria Especial da Cultura

    Coordenação de Projeto: Atanagildo Brandolt Controller: Paula Melo;

    Produção Executiva: Márcia Schmidt; Direção de Produção: Rosane Furtado

     

    Participações Especiais:

    Raul Ellwanger; Famílias da comunidade Mbyá-Guarani da Tekoá Pindó Mirim; José Otávio Catafesto de Souza; Tau Golin; Fábio Silveira Lázzari; Agostinho Moreira e Fábio Junior Fernandes Acosta

     

    Assistente de Direção: Saturnino Rocha; Direção de Fotografia: Vini Barcellos
    Colorização e Finalização: Gustavo Schmitt e CenaUm Produções; Edição: Guga Freitas Drone: Eduardo Schmitt; Fotografia Auxiliar: Alexandro Auler

    Captação de som: Juan Quintáns; Still: Luiz Ávila; Identidade Visual: Ananias Lemes e Guga Freitas

    Mixagem, Masterização e Desenho de som: Bruno Klein e Artur Waismann; Pós-Produção e Acessibilidade: Rosane Furtado; Transcrições: Elisa Furtado; Locução de acessibilidade e LIBRAS:  Flávia Frassa

     

    Músicas
    “Invocação”: Raul Ellwanger – voz; Leandro Har Cardoso – órgão de tubos
    “Bate o Enxadão”: Raul Ellwanger – voz e violão
    “Indiozinho Sepé”: Raul Ellwanger – voz e violão; Omar Aguirre (violino); Gabriela Vilanova (viola); Marcelo Piraíno (clarinete e clarone) – Trecho de fonograma do álbum  “Cantata Sete Povos”
    “Em Busca da Terra Sem Males” – Raul Ellwanger  (voz e violão); Maira  Machado (soprano); Zelito (violino); e Luiz Jakka (percussão)

    Mais informações:
    Omar L. de Barros Filho
    51.99253.0887

    E-mail: viapolitica@gmail.com