GERALDO HASSE
Se estivesse em Porto Alegre nesta data, eu não teria perdido velório tão honroso no palco anexo do Teatro São Pedro.
Imaginei uma festa com muitas vozes cantando ao som do piano de Geraldo Flach e o sopapo de Giba Giba. Justa homenagem a um cara diferenciado.
Sem purpurina, para conhecer esse artista basta ouvir Abolerado Blues, Cobra Luz ou Astro Haragano.
Falecido no dia 3/8 após resistir por 15 anos às dores de uma artrite reumatoide, o cantor, compositor musical e advogado Jerônimo Jardim fundiu em si a rudeza do gaúcho do pampa com o refinamento cultural da
elite metropolitana.
Aos 78 anos, chegou ao fim consagrado como grande
ganhador de troféus e de vaias pela ousadia de seus versos e acordes.
Outra mescla típica de JJ era a forma como temperava a timidez e a vaidade, características de uma personalidade que foi se fortalecendo na
superação de dificuldades da vida.
Admirado por homens e mulheres, tinha uma invejável melena mas a escondia sob um chapeuzinho de aba
estreita… Ao contrário do que sugeria seu sorriso franco, ele enfrentou muitos perrengues. O pior foi a enfermidade que o acometeu logo após aposentar-se como funcionário público.
Não posso lhe oferecer melhor homenagem do que copiar e colar (abaixo) o perfil publicado em janeiro de 2012 pelo site do Sul21.
Eu já o conhecia pela TV graças ao bochincho de 1981 no Festival Shell de MPB no Rio, mas me descobri vizinho dele no quarteirão da Dr. Timóteo, em Porto Alegre.
Apesar de caminhar com dificuldade, a ponto de recorrer a uma bengala, ele saía à avenida Cristóvão Colombo para pegar um assado no Espetão (na Bordini) ou bebericar uma losna na Felix da Cunha.
Na sua simplicidade, ele sempre me saudava com alegria. Era assim com os amigos. Da última vez que o vi, há quatro ou cinco anos, ele vinha pela calçada, se apoiou numa árvore e sentou na mureta do canteiro para
descansar: “Essa artrite reumatoide é uma merda!”, disse, logo transformando a careta de dor num sorriso.
Sua força de vontade era extraordinária.
Antes de despachar esse texto para a redação do JÁ, consultei o Dicionário Brasileiro Contemporâneo de Francisco Fernandes (1967, Globo/Melhoramentos, 1144 páginas) para tirar uma dúvida sobre se a
palavra haragano seria com h ou a. Vale qualquer um dos dois modos, mas os verbetes são diferentes.
Veja: ARAGANO, adj. (bras). Diz-se do cavalo espantadiço ou difícil de ser domado (do cast. haragán)
HARAGANO, adj. (bras. do sul). Diz-se do animal que foge e dificilmente se deixa pegar; (fig.) vadio; mandrião; velhaco (do esp. haragán)
(Segue o perfil publicado pelo Sul 21)
O brilho haragano do astro Jerônimo Jardim
Nos últimos quatro anos, depois de se aposentar como alto funcionário da Justiça do Trabalho, o bacharel em leis Jerônimo Jardim vem peleando com uma tropilha de males, remédios e internações hospitalares. Ainda na
última quinta (5/1), foi ao hospital marcar mais uma cirurgia, mas continua levando a vida com o ímpeto juvenil do centroavante que pintou como profissional na várzea de Bagé no início dos anos 1960, quando os
bambas da posição eram o “cerebral” Larri no Internacional e o “tanque” Juarez no Grêmio.
Além de deixar sequelas dolorosas, a artrite reumatoide, que se instalou de repente numa manhã dos seus 63 anos, exige doses cavalares de analgésicos, inclusive morfina, de tal forma que o veterano autor de
sucessos da música popular como Purpurina e Astro Haragano precisou usar bengala por mais de um ano. Numa manhã dessas, ao sair para caminhar cedinho, já sem bengala, cambaleou ao atravessar a rua no bairro
Floresta e teve de ouvir um “Te cuida, gambá!” lançado por um motorista.
Contra seus hábitos ancestrais engoliu o desaforo, consciente de que o jogo está numa espécie de prorrogação. “Me salvei por muito pouco”, diz ele, lembrando que esteve sob os cuidados de 12 médicos da Unimed e do anjo-da-guarda que mora com ele, Clair Jardim, sua mulher nos últimos dez anos. Quando foi levado ao hospital, sua pressão arterial estava em
6/3. Ficou 15 dias na UTI e depois passou um ano na cama.
Na aparência, tudo bem. Ele continua com sua bela estampa de Mastroianni caboclo, bem aprumado, vasta cabeleira de poucos fios brancos. Na realidade, sofre de dores e alguma insensibilidade, mas o astro não se entrega. A música emana naturalmente, é uma forma de
expressão incorporada ao seu modo de vida. Após encostar o violão durante os anos de tratamento médico, voltou a compor e na virada do ano aprontou uma canção que premedita inscrever num dos festivais remanescentes da música nativa gaúcha.
Há exatamente um ano, fiel à compulsão musical, gravou ao vivo com casa cheia na Sala Álvaro Moreyra em Porto Alegre o CD De Viva Voz, com músicas suas e letras próprias e de parceiros diversos como Luiz Coronel, Greice Morelli e Clair Jardim. Três dias antes do show havia morrido o pianista Geraldo Flach (1945-2011), seu amigo de mais de 30 anos e parceiro em Abolerado Blues, inspirado pela cantora Cida Moreira.
Ainda no ano passado, perdeu outro parceiro, Rui Biriva (1958-2011), cujo último CD trouxera cinco parcerias deles.
Vida marvada que ele atravessa sem queixas, apenas com algumas broncas, a maior delas contra a mídia gaúcha, mais aberta para os forasteiros do que para a qualidade artística existente em Porto Alegre. “Nunca o Rio
Grande do Sul teve uma geração musical tão boa quanto essa que está atuando aqui”, diz Jardim, “mas a mídia é tão provinciana que só fala do que vem de fora”. Saudoso de outros tempos, ele acha que ao ignorar ou esconder os artistas gaúchos o diário Zero Hora trai a memória do seu
fundador, Maurício Sirotsky. “Ele circulava na noite e mandava abrir espaço para os artistas.”
Nesse seu oitavo disco, em que se destacam belos arranjos e execuções de sax de Pedrinho Figueiredo, o compositor sobrevivente percorre 14 canções singelas em ritmo de choro e samba. O veterano crítico musical
Juarez Fonseca, que acompanhou toda sua carreira, qualificou-o como seu melhor show em palco. Com esse CD, ele completou 98 músicas gravadas, que se dividem entre temas campeiros e urbanos. Em todas, aparecem suas marcas registradas: letras fortes com boas rimas, melodias singelas e arranjos rebuscados, muitos deles buscando harmonias do jazz.
Filho mais velho de pai militar, Jerônimo tem cinco irmãos nascidos em diferentes cidades do Rio Grande do Sul. Viu a luz em Jaguarão, mas se achou adolescente em Bagé, onde começou a tocar violão e participar de
conjuntos musicais que animavam bailinhos juvenis. Amador na música,
cantou muita serenata diante dos sobrados da Rainha da Fronteira. Quase
profissional no futebol em Rio Grande, concluiu ali o curso de direito e
voltou para Bagé casado com a riograndina Mara Ferreira, com quem abriu
um escritório de advocacia. Tinha tanta gana profissional que em apenas
um ano participou de cinco júris. Nas viagens de serviço a Porto Alegre,
entretanto, caiu nas rodas da boemia, tanto que acabou trocando a
carreira jurídica pela vida artística.
Para sobreviver na capital começou fazendo jingles para a agência do
amigo Luiz Coronel. Em pleno “milagre econômico brasileiro” (1967/1973),
conheceu o compositor Lupicínio Rodrigues (1914-1974), apresentado pelo
radioator Walter Ferreira. Já em fim de carreira, o velho Lupi vivia na
noite mas sobrevivia graças aos proventos do emprego público como bedel
da Faculdade de Direito da UFRGS. Era um exemplo de sobrevivência que JJ
seguiria muitos anos mais tarde, mas enquanto sentiu pulsar a juventude
em suas artérias o garotão de Bagé foi tocando a vida como se não
houvesse diferença entre o dia e a noite.
Ganhou muito, muito dinheiro como diretor da house agency da Rainha das
Noivas ao longo da maior parte da década de 1970. Quando as três lojas
do começo chegaram a 12, JJ ganhava mais do que os diretores graças a
uma participação de 0,25% nas vendas da rede. Teria ficado rico nessa
rendosa atividade se não tivesse cedido ao desafio lançado por uma
cantora gaúcha que fazia sucesso no Rio de Janeiro no final dos anos
1970. Quem tivesse sangue nas veias e música na alma não resistiria ao
sotaque acariocado de Elis Regina. No auge, ela tinha acabado de gravar
os melhores discos de sua carreira. Aos 36 anos, após instalar a família
(mulher e um casal de filhos) num apartamento recém-comprado em Porto
Alegre, o artista sonhador foi morar numa pensão do Leblon, onde se
hospedou num quarto com meia dúzia de marmanjos.
Animado, ligou para Elis. A amiga estava na fossa. Bad trip. Tinha sido
dispensada pela gravadora por vender muito pouco, apenas 30 mil discos
enquanto outras recém-chegadas do Nordeste passavam de 200 mil. “Não
posso te arranjar nada”, disse a estrela, “mas vou te apresentar a umas
pessoas”. Foi assim que conheceu o casal Lucinha-Ivan Lins. Eles
gravavam jingles e participavam de shows no Rio e arredores. Havia
outros gaúchos lutando por um lugar na ribalta carioca. Kleiton e
Kledir. Bebeto Alves. Sem contar estrelas cadentes como Nelson
Gonçalves. Pouco tempo depois de chegar, JJ já jogava bola com a turma
de Chico Buarque.
No batidão das rodas de samba morou por cerca de quatro anos no Rio de
Janeiro, entre 1980 e 1984, voltando a Porto Alegre após concluir que
havia embarcado tarde demais no trem da MPB. “Quando eu procurava meu
lugar, o público virou para o rock”, explica ele. Enquanto os artistas
consagrados como Chico Buarque e Tom Jobim refugiavam-se no exterior,
onde tinham demanda, o espaço em discos, palcos e emissoras de rádio e
TV era ocupado pelo Barão Vermelho, Blitz, Legião Urbana e diversas
personalidades do rock, de Erasmo Carlos a Rita Lee passando por Cazuza
e Renato Russo.
Aos temporões como JJ sobravam migalhas do banquete do showbiz da
Cidade Maravilhosa. Um dos saldos positivos de sua vida no Rio foram
gravações de músicas suas por Elis Regina (1945-1982), uma delas (Roda
de Sangue) usada como trilha de duas novelas da TV Globo. O maior brilho
carioca foi a vitória no Festival MPB Shell da TV Globo de 1981 com a
canção Purpurina. Cantada por Lucinha Lins, a composição classificou-se
naturalmente entre as finalistas mas foi recebida por uma vaia
interminável após o anúncio dos vencedores (a canção preferida do
público era Planeta Água de Guilherme Arantes).
Jerônimo Jardim ganhou US$ 300 mil, remeteu a maior parte para a
família e ficou na Cidade Maravilhosa, agora num apartamento, tentando
virar estrela. Gravou um disco produzido por Ivan Lins e concorreu
novamente ao Festival Shell de 1982, mas desta vez, neca. Quando as
reservas acabaram, ele não teve outra saída senão voltar para o antigo
ninho. Bem nessa época os irmãos K&K emplacaram “Deu Pra Ti/Baixo
Astral/Vou pra Porto Alegre/Tchau”. Era o fim de uma época.
Insistindo em viajar na contramão do convencional, montou com Ivaldo
Roque e outros parceiros a Pentagrama, um produtora de música com que se
lançou a novos desafios. Foi marcante mas durou apenas três anos.
Com a garra de sempre, JJ compôs solito a canção Astro Haragano, cuja
letra recordava a passagem do cometa de Halley — uma decepção para a
maioria das pessoas. Na noite de 7 de dezembro de 1985, o cometa
aparecia no céu como um pequenino chumaço de algodão no céu; no palco ao
ar livre da XV Califórnia da Canção Nativa em Uruguaiana, Jerônimo
Jardim soltou o vozeirão ao cantar uma de suas melhores obras musicais.
Astro Haragano
(Jerônimo Jardim)
É fogo, é gelo, verdade, ilusão
Vento de prata/escarcéu
Varando a noite campeira
repontando estrelas
na estância do céu
Chispa de sonho,
galope de luz,
mistério na imensidão
pingo tordilho cigano
qual boitatá na escuridão
Astro haragano
esperança fugaz
passando em meu coração
de encontrar meu menino
tropa de osso
roda pião
roda pião
Com acordes dissonantes e um arranjo sofisticado, Astro Haragano foi
recebido em silêncio pelas 15 mil pessoas presentes na Cidade de Lona, a
seis quilômetros do centro de Uruguaiana. Quando se proclamou o
resultado final e JJ ficou com o primeiro lugar, o público vaiou e
começou um bochincho que se estendeu até de madrugada. A maioria foi
embora, mas um grupo de pessoas cercou o palco, exigindo que o
compositor devolvesse o troféu, representado pela calhandra, ave
galhofeira quiçá lembrada por Atahualpa Yupanqui nos versos “yo soy
pajaro corsario que no conoce el alpiste”.
JJ não entregou a Calhandra de Ouro. Houve um momento em que,
estimulado por um fotógrafo ávido de sangue, esboçou sair no braço com
os revoltosos, mas foi contido por outros músicos. “Fica quieto, esses
caras te matam”, disse-lhe o escritor Dilan Camargo. De madrugada, os
ânimos mais serenos, ele saiu da Cidade de Lona abraçado por duas
prendas e escoltado por dois brigadianos. No caminho para a cidade, teve
de ouvir do representante da sua gravadora: “Estou aqui porque me
mandaram, mas tua música é uma merda”. Acabou indo dormir na casa de
amigos, pois também mo hotel os revoltosos haviam armado um piquete
contra o autor do Astro Haragano.
Contado assim, 26 anos depois, parece tranquilo, mas foi um baita
trauma. Dias depois, em Porto Alegre, o herói da XV Califórnia teve uma
tremedeira antes de subir a um palco, seu habitat predileto ao longo da
vida. Por pouco não fugiu da raia. Cumpriu o compromisso, mas resolveu
dar um tempo. Depois daquele show do final de 1985 na capital, ficou
oito anos sem tocar violão, sem compor e sem se apresentar publicamente.
Voltou a dedicar-se ao lado B — de bacharel em direito, atividade que
combinaria com bicos em vendas e publicidade. Só reassumiu o lado A – de
artista — em 1993, quando a milonga Portal, composta em 1984 durante
uma viagem a Bagé e apresentada pela cantora Muni, ganhou um festival
regional patrocinado pelo Carrefour.
Na década de 1990, o lado B se impôs. Em busca de estabilidade, ele
passou num concurso para servidor da Justiça do Trabalho, onde trabalhou
dez anos nos bastidores das disputas trabalhistas, assessorando juizes,
procuradores e desembargadores. Foi nesse ofício espinhoso que ele legou
à Justiça do Trabalho um manual de procedimentos que zerou a pilha de
recursos não julgados em tribunais regionais. Com esse trabalho
desenvolvido em Porto Alegre nos primeiros anos do século XXI, Jerônimo
Jardim ganhou o respeito dos pares e a gratidão da desembargadora Rosa
Maria Weber, recentemente elevada ao cargo de ministra do TST.
Nesses anos hard na JT, faltou tempo para as atividades light, até que
venceu o tempo da aposentadoria. A partir de 2005, JJ acabou organizando
suas memórias, abertas ao público no site www.jeronimojardim.com. Já sua
vida cotidiana está exposta no blog http://jeronimojardim.zip.net. Aqui
e ali ele vem brigando pelo pagamento de direitos autorais sobre obras
veiculadas na Internet. Não pensa só na sua centena de canções, mas nos
seus cinco livros infantis e dois livros de ficção para adultos, o
último deles – Serafim de Serafim (Editora Alcance) – lançado na Feira
do Livro de Porto Alegre em novembro de 2011.
No final do ano passado, participou de um seminário em Porto Alegre
sobre o assunto, mas acabou se retirando antes do final, revoltado com
os que defendem a liberdade de apropriação das obras artísticas. “Eu
também quero chegar na farmácia e no supermercado e levar as coisas sem
pagar”, diz ele, ironizando os “comunistas ávidos pelo alheio”. Nessa
briga pessoal/coletiva, um dos seus parceiros é o músico Raul Ellwanger.
Na primeira semana de 2012, ele vibrou ao saber que a Espanha preparou
o caminho para que se respeitem os direitos dos criadores de músicas e
obras literárias. Se é viável lá, por que não fazê-lo aqui? Há pouco ele
encaminhou ao Escritório de Cobrança de Direitos Autorais (ECAD) um
anteprojeto de lei impondo o pagamento de direitos autorais veiculados
na internet. Duvida que algum parlamentar tenha coragem de colocar o
guizo na cauda dos leões da mídia digital, mas não desiste. “Acho que o
projeto vai ter de ser apresentado pelo Executivo ou pelo Judiciário”,
diz ele.
Nessa sua última luta, Jerônimo Jardim une finalmente os lados A e B: o
bacharel em ciências jurídicas assume a defesa do(s) artista(s). Uma
bela síntese existencial para alguém que levou a vida acolherando duas
atividades fundamentais: a arte que gratifica e a lei que garante os
direitos humanos.

