Ceitec se posiciona como instrumento de soberania tecnológica

Apesar do menosprezo por questões ideológicas, o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), localizada em Porto Alegre, parece estar deixando de ser apenas uma fábrica de chips RFID, amplamente utilizado para rastreamento logístico, controle de acesso (crachás e portarias), pedágios e identificação de animais, desdenhosamente chamado de chip do boi. A empresa passou a ser tratada pelo governo Lula como peça importante da estratégia nacional de semicondutores e transição energética.

O governo federal lançou em março passado o Programa Brasil Semicon para apoiar a cadeia nacional de semicondutores, instituído pela Lei nº 14.968, de 11 de setembro de 2024. O programa altera e moderniza o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (PADIS) ao ampliar incentivos, simplificar regras e fortalecer instrumentos de apoio à produção, pesquisa e inovação de chips e componentes eletrônicos.  Além disso, a legislação associada ao programa prevê incentivos da ordem de R$ 7 bilhões por ano para a cadeia de semicondutores, valor muito superior ao orçamento individual do Ceitec.

O investimento inicial do Ceitec, de R$ 220 milhões, foi distribuído entre 2024 e 2026. A própria empresa informa que 2025 e 2026 são anos de transição tecnológica, com foco na implantação da linha de carbeto de silício (SiC), usados em veículos elétricos, inversores solares, redes elétricas inteligentes e aplicações industriais.

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, afirmou em fevereiro passado que os R$ 220 milhões já estão sendo usados para a nova planta industrial e aquisição de equipamentos, mas também destacou a intenção de ampliar a capacidade produtiva da empresa e fortalecer a autonomia tecnológica do país.

O ambiente financeiro é favorável. A Nova Indústria Brasil teve seus recursos ampliados para R$ 370 bilhões. O Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) anunciou mais R$ 70 bilhões para projetos industriais estratégicos.  Tanto o BNDES como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) vêm aprovando dezenas de bilhões de reais para inovação tecnológica. Portanto, não faltam instrumentos financeiros para uma segunda rodada de expansão do Ceitec.

Complexo de vira-lata

 Uma reportagem do jornal Folha de São Paulo revelou que especialistas do próprio Ceitec estimam que uma expansão mais ambiciosa da produção de semicondutores exigiria investimentos muito superiores aos R$ 220 milhões. É verdade, mas pior é a inércia e o “complexo de vira-lata”, termo popularizado pelo jornalista Nelson Rodrigues para descrever um complexo de inferioridade cultural de parte de nossa elite.

Esse ponto de vista reflete um debate econômico e geopolítico complicado no Brasil. A visão de que o país deve apenas importar a tecnologia baseia-se na ideia de vantagem comparativa e nos altos custos de capital. No entanto, esquecem que a parceria com a China pode ser mais importante que o dinheiro.

Em maio passado foi divulgado o avanço das negociações entre o Ceitec e a empresa chinesa Global Power Technology para transferência de tecnologia e produção de semicondutores de potência. Essa parceria pode ter impacto maior do que um simples aporte financeiro porque envolve transferência de know-how, treinamento de pessoal, acesso a equipamentos e integração a cadeias globais de fornecimento. A estratégia parece inspirada no modelo chinês: adquirir tecnologia rapidamente e formar capacidade produtiva local.

O Ceitec está deixando de ser apenas uma empresa estatal gaúcha. Ela está sendo posicionada como um instrumento de soberania tecnológica em um momento em que Estados Unidos, China e União Europeia investem dezenas de bilhões de dólares para reduzir dependências externas em semicondutores.

Não podemos esquecer outros empreendimentos que credenciam a Região Metropolitana de Porto Alegre como um como polo regional de produção de chips, como o Instituto Tecnológico de Semicondutores, da Unisinos, especializado em encapsulamento e teste de chips e no desenvolvimento de sistemas multicomponentes em um único chip; o Tecnopuc que já abriga mais de 320 organizações, desde startups em estágio inicial até corporações multinacionais; o centro de pesquisa Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que foca em design de chips e também a HT Micron, nascida da cooperação tecnológica entre o Brasil e a Coréia do Sul, que fornece soluções avançadas em semicondutores.

Portanto, o Ceitec se insere no caminho natural para a aquisição, pelo Brasil, do conhecimento científico, tecnológico e produtivo detido por poucos países do mundo. Um setor no qual tem ocorrido nos últimos anos uma expressiva transformação tecnológica, impulsionada principalmente pelo amplo uso de chips semicondutores em componentes eletrônicos, presentes em praticamente todas as atividades da sociedade moderna.

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