Crise sanitária e a força bruta da digitalização

A terceira e última etapa do seminário Caminhos para seguir em frente, promovido pelo Diretório Estadual do MDB no YouTube. Os convidados foram o ex-governador do Espírito Santo, economista, Paulo Hartung e o filósofo Luiz Felipe Pondé. Eles compartilharam as principais transformações e desafios para os pré-candidatos às eleições municipais.

A abertura foi do ex-senador Pedro Simon, líder histórico do MDB gaúcho. “O MDB sempre esteve presente em momentos difíceis. Agora, em meio a pandemia, com nossa complexa política nacional, o partido não poderia faltar. Caminhos para seguir em frente, olhar adiante e identificar o futuro do Brasil.” A mediação foi do ex-senador, José Fogaça.

Hartung foi o primeiro a falar. Para ele, o papel de líder não é terceirizar desafios. “Como governador tive que administrar a tragédia de Mariana, o pior acidente ambiental do País (rompimento da barragem em Mariana, em novembro de 2015, Minas Gerais. Rompeu-se uma barragem de rejeitos de mineração denominada “Fundão”, controlada, pela Samarco Mineração, um empreendimento conjunto das maiores empresas de mineração do mundo, a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton). “Muitos pensam só em Minas Gerais, mas a Samarco é uma estrutura de minas até o Espírito Santo.”

Segundo ele, o que estamos vivendo é algo muito maior. “Uma crise sanitária gravíssima e não temos vacina. A estratégia possível foi o distanciamento social, ir na tomada e desligar a economia. O Brasil teve tempo para se preparar porque o novo coronavírus apareceu primeiro no Ásia. Não aproveitamos o tempo.”

Ele entende que a crise pegou o Brasil com muitas fragilidades. Mais de 12 milhões de desempregados antes da crise. Investimento muito baixo, com uma taxa de investimentos média de 15,5% no primeiro trimestre de 2019. Além de um investimento público inexistente, tanto nos municípios, estados, como na União. “Crescimento medíocre e endividamento pesado, com cerca de 76% de tudo que produzimos.”

E introduzimos outra fragilidade na pandemia, conforme ele: descoordenação entre o Legislativo, Executivo e Judiciário. “Vamos sair muito mais endividados, chegando a 95% a 100% de tudo que produzimos. Um PIB negativo de aproximadamente 5% e ainda não temos uma conta certa do número de desempregados no final da crise, mas deve ficar entre 17 ou 18 milhões de trabalhadores.”

Hartung acredita que o Brasil está atravessando mal a crise, com um vazio de liderança brutal e daqui a pouco estaremos nos pós-crise. “O que fazer? O desafio é dar tração para economia brasileira. Em 2008, 2009, o consumo é que deu tração. Agora, o consumo vai ajudar, mas o desemprego está muito alto e a renda familiar muito baixa em relação ao que era em 2013, 2014. A saída será pelo lado do investimento. O público é impossível, pois o estado brasileiro está quebrado, resta o investimento privado.”

Dados brutos, sem controle

Para completar o seminário, o filósofo Luiz Felipe Pondé falou sobre digitalização: “é uma força bruta, com capilarização e transparização”. Ele explicou que não estava falando de transparência, porque a palavra sempre carrega o sentido de tornar o estado e as ações mais transparentes, o que é bom e uma tendência. “Uso transparização no sentido de um dado bruto. Ninguém sabe como controlar esse fator.”

Entrou em cena em 2016 e 2018 e serve para pôr em dúvida a representação política. “Há pouco tempo, o presidente Bolsonaro reagiu a pergunta do jornalista sobre os 89 mil reais. Ele deu uma resposta atravessada. As agências que monitoram as redes sociais perceberam que os acessos às críticas de figuras políticas importantes da oposição, como a deputada federal pelo PDT, Tabata Amaral e Guilherme Boulos (PSOL/SP), uma geração nova de políticos, não chegou nem aos pés de determinados youtubers, porque eles têm milhões de seguidores.”

Para Pondé, a sociedade vive uma polarização devastadora e não há indícios de melhora. “Essa polarização é fruto da política digitalizada. Portanto, quando falo sobre o dado bruto não é simplesmente um animal que vai trabalhar para você e vai te respeitar. Não, ela pode apoiar hoje e ser contra amanhã. O mundo está se tornando mais transparente para o bem e para mal.”

O fato das redes sociais tornarem a sociedade mais transparente é bom, conforme ele, na medida que rastreie transações financeiras, por exemplo. Ao mesmo tempo, torna a sociedade refém de todo o tipo de tráfego de informações, onde a mais comum é a fake news.

E concluiu: “A sociedade está se tornando menos normativa e mais cognitiva, uma ferramenta incontrolável. A pandemia mostrou isso. De um dia para outro o número de vídeos conferências explodiu numa velocidade extrema no mundo inteiro. O estado está sofrendo muito nas mãos de uma sociedade cognitiva no sentido da informação ser avassaladora o tempo inteiro de qualidade ruim, boa, péssima. Vai paulatinamente pressionando os mecanismos de representação e vai transformando a política. O setor digital está se descolando, se movendo, com uma velocidade que o resto da sociedade não está.”

A produção do seminário híbrido foi da Storia Eventos e Projetos. No estúdio atuou a jornalista Carla Garcia, assessora do MDB. A comunicação foi da Agência Moove.

Deixe uma resposta