O presidente dos Estados Unidos (EUA) Donald Trump deixou a China nesta sexta-feira, 15, após uma cúpula entre as duas maiores potências mundiais acompanhada com muita atenção pelo mundo todo, afirmando que “acordos comerciais fantásticos” foram fechados. No entanto, nenhum acordo comercial oficial foi anunciado durante a cúpula.
O discurso do presidente chinês Xi Jinping seguiu outro caminho, destacando “que estabilidade estratégica construtiva” significa estabilidade positiva com a cooperação como pilar, estabilidade saudável com competição dentro de limites adequados, estabilidade constante com diferenças administráveis e estabilidade duradoura com paz previsível.
No Grande Salão do Povo, Xi Jinping levantou três questões fundamentais sobre as relações China-EUA: “Podem a China e os EUA superar a Armadilha de Tucídides — que se refere ao alto risco de conflito quando uma potência emergente ameaça uma potência estabelecida — e criar um paradigma para as relações entre grandes potências? Podemos enfrentar juntos os desafios globais e proporcionar maior estabilidade ao mundo? Podemos construir juntos um futuro brilhante para as nossas relações bilaterais, no interesse do bem-estar dos dois povos e do futuro da humanidade? Estas são as questões vitais para a história, para o mundo e para os povos”, disse Xi.
O professor da Escola de Relações Internacionais da Universidade Renmin, da China, especialista em assuntos americanos, Jin Canrong, fez uma análise lúcida ao site de notícias chinês Guancha: “Desde o ano passado, as relações sino-estadunidense sofreram mudanças — o pensamento da China mudou e ela começou a ‘tomar medidas’. Especificamente, estamos ‘confrontando’ os Estados Unidos em quatro áreas: tarifas, indústria, tecnologia e militar.”
Segundo ele, a visita de Trump ocorreu em um contexto de intensa competição estratégica entre a China e os EUA, que passou de uma disputa defensiva estratégica para um impasse estratégico. “Portanto, uma característica marcante dessa visita foi a relativa igualdade entre os dois países. Anteriormente, os EUA sempre adotavam uma postura condescendente; desta vez, a situação é diferente, pois a China ganhou poder e está disposta a usá-lo. É justamente por causa dessa base de igualdade que já vimos resultados neste ano.”
O presidente Xi Jinping, conforme Canrong, propôs um conceito muito bom, com o objetivo de definir o novo posicionamento das relações China-EUA como uma relação estratégica construtiva e estável. “O presidente Trump também concordou com essa formulação. Podemos afirmar isso agora porque a realidade é essa: temos a força e ousamos usá-la. As relações China-EUA entraram, portanto, em um período de relativo equilíbrio.”
Essa nova realidade ficou muito clara quando ao se reunir com Trump na quinta-feira, 14, em Pequim, Xi disse que salvaguardar a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan é o maior denominador comum entre a China e os EUA. Observando que a questão de Taiwan é o assunto mais importante nas relações China-EUA, Xi disse a Trump que, se for tratada adequadamente, a relação bilateral alcançará estabilidade geral.
Caso contrário, os dois países terão confrontos e até conflitos, colocando toda a relação em grande risco, disse Xi, enfatizando que a “independência de Taiwan” e a paz no Estreito são tão irreconciliáveis quanto fogo e água, segundo a agência de notícias Xinhua.
Silêncio dos chineses
Durante toda a visita à China, o presidente dos EUA tentou mostrar que grandes negócios estavam sendo fechados, o que não era real. Trump afirmou, por exemplo, que a China concordou em encomendar 200 jatos da Boeing, o que poderia impulsionar os negócios da fabricante estadunidense em um dos maiores mercados de aviação do mundo. No entanto, o lado chinês não fez nenhum anúncio sobre um possível acordo para a compra de aeronaves da Boeing.
Quando questionado especificamente, após a saída de Trump de Pequim, sobre a existência de algum acordo para a compra de aeronaves, Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, desconversou: “Ambos os lados devem implementar conjuntamente o importante consenso alcançado pelos dois chefes de Estado e injetar mais estabilidade na cooperação econômica e comercial entre a China e os EUA, bem como na economia mundial”, disse ele.
Antes da visita, circulavam expectativas muito maiores, com a possível compra de cerca de 500 Boeing 737 MAX. Por isso o anúncio de “apenas” 200 aviões decepcionaram investidores, e as ações da Boeing caíram após a entrevista de Trump.
Os clientes chineses têm encomendas pendentes de quase 500 jatos, mas da europeia Airbus, afirmou a Cirium, especializada em dados, análises e pesquisa para o setor de aviação. Detalhe importante: ao contrário da Boeing, a Airbus cedeu à pressão chinesa e monta seu jato de corredor único A320 em Tianjin desde 2008.
A demanda chinesa é gigantesca. Segundo uma estimativa da Cirium, um em cada sete aviões em uso atualmente voa na China. A Boeing prevê que a frota de jatos da China dobrará nos próximos 20 anos, chegando a quase 10 mil aeronaves.
Semicondutores
O futuro da Nvidia na China permanece incerto e altamente complexo após a cúpula Trump-Xi esta semana. A Nvidia projeta os chips mais avançados para processamento gráfico e aprendizado de máquina, sendo a principal fornecedora para Inteligência Artificial (IA) generativa e data centers.
A situação da Nvidia no mercado chinês é marcada por um impasse crítico, caracterizado por restrições dos EUA, alta demanda reprimida e esforços diplomáticos de alto nível para destravar as vendas. Apesar do CEO da Nvidia, Jensen Huang, que nasceu em Taiwan, e emigrou para os Estados Unidos aos 9 anos de idade, ter participado da cúpula com o presidente Trump e de relatos indicarem a aprovação dos EUA para a venda de chips H200 para cerca de 10 grandes empresas chinesas, a realidade operacional é de travamento.
O CEO admitiu uma queda drástica na participação da Nvidia no mercado chinês de hardware de IA devido às sanções de exportação impostas desde 2022. O mercado chinês de IA é considerado estratégico para a Nvidia e representa uma oportunidade de cerca de US$ 50 bilhões para a empresa, segundo Huang. Antes das restrições estadunidenses, a China representava cerca de 13% da receita da Nvidia.
A China quer reduzir a dependência da Nvidia, criar um ecossistema próprio de chips e substituir GPUs (Unidade de Processamento Gráfico), estadunidenses por chips nacionais. A dificuldade é que os chips da Nvidia continuam sendo considerados superiores em treinamento de IA, ecossistema de software CUDA – plataforma de computação paralela e modelo de programação da Nvidia – e eficiência para grandes modelos.
Um cenário possível que parece emergir após a visita de Trump é que a Nvidia venderá chips selecionados para a China, sob forte supervisão dos EUA, sem transferir o núcleo da tecnologia, enquanto a China acelera sua substituição tecnológica doméstica.
O mundo caminha para uma economia mais fragmentada, mas EUA e China ainda são interdependentes e ambos tentam evitar um choque econômico sistêmico. A principal consequência global dessas negociações é justamente uma tentativa de estabilizar parcialmente a economia mundial sem encerrar a disputa estratégica entre as duas potências.


