Desde março de 2003, quando os Estados Unidos (EUA) lideraram uma coalizão militar que contou com Reino Unido, Austrália e Polônia para invadir o Iraque, o país não voltou a ter o controle sobre a renda de seu petróleo. A justificativa para a invasão baseada em supostos laços do então presidente iraquiano Saddam Hussein com terroristas e informações sobre a presença de armas de destruição em massa no Iraque eram falsas.
As razões estratégicas da invasão do Iraque em 2003 foram provavelmente mais amplas do que o controle das reservas de petróleo iraquianas. Mesmo reconhecendo o objetivo dos EUA de ter uma influência decisiva sobre uma das maiores reservas de petróleo do planeta.
O petróleo do Iraque era parte de uma questão maior: a manutenção da influência estadunidense sobre o sistema energético do Oriente Médio, a estrutura geopolítica do Golfo, garantir maior controle sobre o fluxo e os preços globais na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e, indiretamente, a centralidade internacional do dólar. A decisão de Saddam Hussein, em 2000, de vender petróleo em euros fornece um elemento concreto para essa interpretação.
Desde a assinatura da Ordem Executiva 13303 (EO13303) pelo então presidente George W. Bush em 22 de maio de 2003, todas as receitas das vendas de petróleo do Iraque foram canalizadas diretamente para uma conta no Federal Reserve Bank de Nova York. A Autoridade Provisória da Coalizão (APC), liderada pelos EUA, estabeleceu o Fundo de Desenvolvimento para o Iraque (FDI), para arrecadar as receitas petrolíferas com a justificativa de utilizá-las na reconstrução e no desenvolvimento do país.
Os presidentes dos EUA subsequentes, incluindo Obama e Trump, renovaram esta ordem executiva anualmente, alegando “segurança nacional”. Em maio de 2026, o governo Trump notificou novamente o Congresso, confirmando que a ordem executiva permaneceria em vigor após 22 de maio de 2026. O FDI acabou se tornando uma conta do Banco Central do Iraque no Banco da Reserva Federal de Nova York, situação que se mantém até hoje.
O poder real dos EUA sobre o petróleo iraquiano hoje é exercido por meio do controle financeiro, e não por presença militar direta nos campos de petróleo. Esse controle confere aos EUA enorme influência econômica, permitindo-lhes exercer pressão sobre o Iraque a qualquer momento.
Tropas em retirada
Em janeiro de 2026, os Estados Unidos retiraram completamente suas tropas da Base Aérea de Al-Asad, uma das maiores instalações utilizadas pelos EUA no Iraque por mais de duas décadas. Após a retirada de Al-Asad, a presença militar estadunidense no Iraque ficou concentrada principalmente na Região Autônoma do Curdistão (Erbil/Harir). Porém, essa presença também está em processo de encerramento. Em agosto, os EUA começaram a retirar equipamentos e tropas da base aérea de Harir. O sistema de defesa Patriot também foi deslocado.
Os EUA estão retirando suas tropas justamente quando as instalações que ainda mantêm no Curdistão enfrentam intensa pressão por parte do Irã. Um levantamento da ONG CPT Iraqi Kurdistan contabilizou 751 ataques no Curdistão entre 28 de fevereiro e 28 de maio. Cerca de 277 (42,8%) atingiram instalações militares ou diplomáticas estadunidenses.
Uma relação muito mais estreita dos EUA foi construída com o Governo Regional do Curdistão (KRG) do que com Bagdá. Erbil, capital da Região do Curdistão do Iraque, abriga forças estadunidenses, um aeroporto internacional, exército (Peshmerga) treinado e apoiado pelos EUA, instalações de inteligência, empresas e infraestrutura energética. A região tornou-se, portanto, uma espécie de plataforma norte-americana avançada junto às fronteiras iraniana, turca e síria.
Hoje, o Iraque não está fragmentado como entre 2014-2017 e os curdos não estão em guerra com Bagdá. Também não houve uma solução definitiva porque continua uma disputa política, econômica e institucional. Existe uma coexistência pragmática: os curdos preservam sua autonomia regional, enquanto Bagdá recuperou Kirkuk, cidade de extrema importância geopolítica e econômica no norte do Iraque, principalmente devido à sua enorme riqueza petroleira, e reafirmou sua soberania sobre os principais campos petrolíferos da região.
Após reunião com o Comando Central dos EUA, o novo primeiro-ministro iraquano, Ali al-Zaidi, reafirmou que dia 30 de setembro de 2026 é o prazo final para a retirada completa de todas as tropas da Coalizão Internacional. O governo iraquiano vinculou a saída estadunidense a uma exigência doméstica ousada: todas as milícias e grupos armados não estatais, incluindo as influentes Facções de Mobilização Popular vinculadas ao Irã, devem entregar suas armas às autoridades do Estado até a mesma data limite.
Analistas políticos alertam que desarmar grupos tão enraizados nas instituições públicas locais poderá empurrar o Iraque para uma grave crise institucional ou um conflito civil armado, caso Teerã decida intervir para proteger seus aliados.
Equilíbrio entre Washington e Teerã
Há uma ironia histórica em relação a guerra que pretendia ampliar a hegemonia estadunidense no Oriente Médio, mas acabou criando condições para uma enorme expansão da influência iraniana no Iraque. Teerã acabou obtendo parte importante do espaço político que os EUA criaram ao destruir o regime de Saddam.
A política externa do Iraque procura manter um equilíbrio entre Washington e Teerã, mas esse equilíbrio é assimétrico: os EUA possuem influência militar, financeira e diplomática, enquanto o Irã dispõe de uma influência muito mais capilarizada dentro do próprio Estado iraquiano — por meio de partidos, milícias, comércio, redes religiosas e principalmente energia. O Iraque importa até cerca de 1 bilhão de pés cúbicos/dia de gás iraniano, usado principalmente para alimentar suas usinas elétricas, conforme o Banco Mundial.
O momento atual mostra essa realidade com a posse de Ali al-Zaidi, que assumiu como primeiro-ministro do Iraque em maio de 2026. Ele foi alçado ao poder pelo Coordination Framework (Estrutura de Coordenação), uma coalizão política de partidos xiitas iraquianos, que possui fortes laços políticos e históricos com Teerã. Tornou-se o principal agrupamento político xiita do Parlamento iraquiano e, portanto, possui capacidade de determinar quem pode formar governo.
Há uma aparente contradição do governo Trump apoiar Al-Zaidi por ele ter sido escolhido pelo principal bloco xiita do Parlamento. Na verdade, Trump queria impedir o retorno de Nouri al-Maliki, que o Coordination Framework havia inicialmente escolhido, ex-primeiro-ministro e uma das figuras políticas iraquianas historicamente mais próximas de Teerã.
Em janeiro passado, Trump declarou publicamente oposição à volta de Maliki e chegou a ameaçar cortar o “apoio” estadunidense ao Iraque caso ele fosse escolhido. O impasse dentro do bloco xiita se prolongou por meses e Al-Zaidi acabou aparecendo como candidato de consenso. Antes de entrar na política, al-Zaidi era executivo do setor bancário e presidiu o Al-Janoob Islamic Bank. Washington o considera alguém com quem pode negociar reformas econômicas e de segurança.
As negociações já começaram em julho passado, com a visita de Ali al-Zaidi ao presidente dos EUA, Donald Trump. Segundo a agência Reuters, o principal tema foi atrair investimentos norte-americanos próximos de US$ 200 bilhões para reconstruir a infraestrutura iraquiana.
O jornal Washington Post informou que um dos projetos discutidos foi um grande oleoduto ligando os campos petrolíferos do sul do Iraque ao porto turco de Ceyhan e à costa síria, envolvendo empresas estadunidenses e parceiros do Golfo. O Iraque depende excessivamente do Estreito de Ormuz para escoar sua produção e os acordos com empresas dos EUA visam criar rotas terrestres alternativas, como está acontecendo na Síria.
A produção, que era de cerca de 4 milhões de barris por dia, caiu drasticamente. O governo estima que as perdas de receita do Iraque até junho de 2026 foram entre US$ 40 e 45 bilhões, podendo chegar a US$ 50 bilhões. O bloqueio no Estreito de Ormuz pelo Irã causou uma redução de cerca de 90% nas exportações de petróleo do Iraque.


