Guerras pelo petróleo: Síria torna-se alternativa terrestre (Parte III)

Em 8 de dezembro de 2024, grupos rebeldes e milícias armadas opositoras ao governo de Bashar al-Assad, na Síria, capturaram rapidamente as cidades de Aleppo, Hama, Homs e Damasco. As forças do governo se desintegraram com pouca resistência. Assad – que dependia principalmente do apoio militar e financeiro da Rússia, do Irã e de milícias aliadas na região – fugiu para a Rússia. Por trás desses grupos, estão os Estados Unidos (EUA) e Israel como atores centrais.

A configuração geopolítica do Oriente Médio evidencia que a mudança de governo na Síria interrompe a capacidade do Irã de influenciar o fluxo de petróleo rumo ao mar Mediterrâneo e à Europa. Não esquecendo que do outro lado o Irã já controla o Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Oceano Índico.  Por isso, representou um golpe para os interesses iranianos e Washington está empenhada em consolidar essa perda de influência. No entanto, no Oriente Médio tudo anda muito instável.

O Estreito de Ormuz foi fechado após o acirramento da guerra dos EUA e Israel contra o Irã em fevereiro de 2026. Com essa rota marítima vital bloqueada, a Síria emergiu como uma alternativa terrestre emergencial para escoar principalmente o petróleo do Iraque (que tem o Irã a leste e a Síria a oeste) para o Mediterrâneo, utilizando seu porto em Baniyas.

Isso complica e tensiona sua relação com o Irã, embora não a rompa completamente. A dinâmica reflete o equilíbrio complexo do Iraque entre Teerã e o Ocidente. Após o fechamento do Estreito de Ormuz, o Iraque, que depende do Golfo para a maior parte de suas exportações de petróleo – cerca de 3,4 milhões de barris/dia antes da crise -, viu suas vendas despencarem drasticamente.

A solução emergencial foi o transporte de óleo combustível iraquiano por caminhões-tanque para o porto de Baniyas, na Síria. Lá, o produto é bombeado para navios petroleiros e exportado para mercados como os EUA e a Europa. Desde abril, essa rota movimentou 2,1 milhões de toneladas de óleo combustível iraquiano para a Europa e três navios petroleiros já realizaram a entrega nos Estados Unidos entre junho e julho de 2026.

O fluxo atual é uma tábua de salvação logística, importante para aliviar a crise, mas seu volume é residual se comparado à enormidade das exportações normais do Iraque. O valor estratégico está no precedente que abre para futuros investimentos em infraestrutura energética na região.

Paralelamente à solução rodoviária, Iraque e Síria assinaram memorandos de entendimento, apoiados pelos EUA, para reconstruir e reabilitar o antigo oleoduto Kirkuk–Baniyas, construído originalmente em 1952 e inoperante desde 2003. A petroleira estadunidense Chevron lidera o consórcio internacional responsável pela obra.  O projeto prevê uma capacidade inicial de 2 milhões de barris por dia, mas a reconstrução deve levar de 2 a 3 anos devido ao estado danificado da infraestrutura e a desafios de segurança.

Terrorista reabilitado

O novo governo sírio é liderado principalmente pelo Hayat Tahrir al-Sham (HTS) – grupo islamista que se originou de facções ligadas anteriormente à Al-Qaeda/Jabhat al-Nusra -, juntamente com o Exército Nacional Sírio, apoiado pela Turquia, e outras forças. Abu Mohammad al-Jolani, cujo nome verdadeiro é Ahmed Hussein al-Sharaa, líder da HTS, é o presidente interino da Síria desde janeiro de 2025. O governo de Donald Trump o abraçou de forma radicalmente pragmática. Antes, al-Sharaa era designado como terrorista procurado pelo Departamento de Estado norte-americano, com uma recompensa de 10 milhões de dólares por sua captura.

A recompensa foi removida, assim como a designação de terrorista, além do alívio às sanções. Ele foi recebido na Casa Branca em novembro de 2025 — a primeira visita de um líder sírio. Al-Sharaa também tem se mostrado pragmático, com viagens ao Golfo, ONU, reunião com Putin, presidente da Rússia, priorizando consolidação de poder, reconstrução e fim do isolamento, numa tremenda corda bamba.

Israel criou uma zona-tampão para limitar o poder de um governo central sírio potencialmente hostil ou instável. Ocupou e consolidou uma zona de segurança no sul da Síria logo após a queda de Bashar al-Assad. Há evidências claras de que Israel prefere, ou pelo menos age no sentido de uma Síria fraca, descentralizada e fragmentada.

Na terça-feira, 18, Israel atacou uma base militar no noroeste da Síria, 70 km da fronteira turca e próxima da cidade de Aleppo, alegando que estava sendo preparada para as forças turcas. O episódio é importante porque representa uma escalada direta da disputa entre Israel e Turquia pelo futuro da Síria. Israel realizou oito ataques aéreos, atingindo principalmente a pista e instalações de armazenamento. Não houve relatos de mortes, conforme a agência Reuters.

Israel afirma que existe um “status quo” de segurança acordado com o novo governo sírio. Segundo o governo Netanyahu, Damasco estava prestes a violá-lo ao permitir o estacionamento de tropas turcas na base. Israel diz que havia advertido repetidamente a Síria de que isso constituiria uma ameaça à sua segurança.  

Há, portanto, uma questão estratégica maior: Israel está tentando impedir que a Turquia construa uma presença militar muito forte na Síria pós-Assad. A Turquia, por sua vez, tornou-se um dos principais apoiadores do governo de Ahmed al-Sharaa, fornecendo apoio militar, treinamento e assistência à reconstrução das forças sírias.

O ataque ocorreu menos de duas semanas após a Turquia, a Arábia Saudita e o Paquistão assinarem o Acordo Conjunto de Defesa de Meca, segundo o qual um ataque a um dos países é considerado um ataque aos três.

Petróleo sírio

Antes da queda do regime de Assad, os EUA já controlavam cerca de 80% a 90% dos campos de petróleo da Síria, localizados no nordeste do país, através de sua aliança com as Forças Democráticas Sírias, de maioria curda. Com a queda de Assad, o governo de transição da Síria assumiu o controle da maioria dos campos de petróleo e gás, que antes financiavam a administração autônoma curda.

A Síria nunca foi um grande produtor de petróleo no contexto do Oriente Médio e, após a queda de Assad, permanece marginal. O petróleo sírio tem importância mais local do que regional ou internacional. As estimativas atuais apontam para uma produção total de cerca de 100 mil barris por dia.

Eixo de Resistência

A representatividade do “Eixo de Resistência” na Síria, com apoio do Irã, sofreu uma mudança drástica e estrutural com a queda do regime de Bashar al-Assad. Antes da queda de Assad, a Síria era o centro nevrálgico do Eixo, com funções essenciais.

Entre elas, um corredor logístico vital que conectava o Irã ao Hezbollah no Líbano, permitindo o fluxo de armas, mísseis e financiamento. Com a ascensão do novo governo, essa estrutura ruiu. Atualmente, se manifesta de forma descentralizada e oculta, operando à margem do novo Estado.

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