
Natural de Porto Alegre, dedicou-se desde adolescente ao ativismo político nas frentes estudantis, passando desde cedo a militar no PCB e sucessivas cisões. Perseguido, buscou refúgio em países europeus e da América Latina, militando finalmente na Argentina. Sequestrado e condenado, cumpriu vários anos de pena naquele país. Após campanha internacional por sua liberdade e a redemocratização argentina, retornou ao Brasil, onde militou no PT e exerceu diversos cargos parlamentares e executivos.
Te deixo hoje…
Te deixo hoje,
com um abraço,
com todo o carinho,
Com a presença da memória,
Com a saudade de ti,
Com a saudade do “Flaco”
Pensando nesses imensos territórios
da vida e do amor,
pensando nas possibilidades, potencialidades,
e nas continuações,
pensando no que não pôde ser,
pensando no que deveria ser,
pensando no que será…
Autor: da Redação
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Flávio Koutzii
Flávio Koutzii -
Emanuel Medeiros Vieira

Emanuel Medeiros Vieira
Natural de Florianópolis (SC, 1945), formado na UFRGS em Direito, 1969, participou ativamente da militância estudantil. Escritor de romances, poesias e memórias, com vinte e três livros publicados, participou de mais de cinquenta coletâneas no Brasil e no exterior. Membro da AP (Ação Popular), esteve preso durante meses na OBAN (Operação Bandeirantes) e no DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social), em São Paulo, seguindo posteriormente ao exílio. Foi vendedor de livros, editor, professor e redator de discursos. Seu romance “Olhos Azuis – Ao Sul do Efêmero” (2009) -, foi contemplado com o Prêmio Internacional de Literatura, concedido pela UBE (União Brasileira de Escritores).
Desterro
Desterro cumpriu-me
e cumpriu-se.
O rio começava atrás de casa
(como eu),
e foi embora – afluentes.
Vento sul, Campo do Manejo, Rita
Maria, Rio da Avenida, Miramar,
bala queimada, Catecipes, Praia do Muller,
procissão do Senhor Morto, Cine Rox,
gibis, Grupo Escolar Dias Velho,
Chico Barriga D’Água, paixão camuflada pela menina
da Rua de Cima – ela nunca soube.)
Só enuncio: acumulo – sobrecarregado.
O rio foi embora.
Casa demolida, mãe na soleira da porta, pitanga no
quintal, regata na Baía Sul, matracas, turíbulos, trapiche da
Praia de Fora, gaita-de-boca, groselha, tainha frita,
fogão de lenha, beliches, pé de amora.
Perdeu-se o rio: não sei do seu delta.
Perdi-me: tiro certeiro na gaivota.
A rua pequena, era a maior do mundo – coração.
Desterro inunda-me:
outrora/agora.
Masmorras
Clandestinidades, fugas na boca da noite
Dormir cada dia num lugar
Pensões, pulgas, esconderijos, dinheiro contado, pratos
[feitos, uma pinga para o consolo provisório.
Palavras apenas – e foi na carne que doeu.
Tudo já foi ditado, mastigado, expelido.
Foi?
O Primeiro Interrogatório.
O Segundo Interrogatório.
O Quarto Interrogatório.
O Décimo-Quinto Interrogatório
(De manhã, de tarde, à meia-noite, às quatro da
[madrugada).
Choques elétricos, pau de arara, “cadeira do dragão”,
[“telefones”, palmatórias.
O verso de T.S.Eliot na cabeça:
“As palavras se movem, a música se move
Apenas no tempo: mas aquilo que apenas vive
Pode apenas morrer. As palavras após a fala, alcançam
[o repouso. (…)
O corpo: não.
Um bafo de morte na soleira da porta.
(O processo, a burocracia, togas pretas, auditorias, fardas.)
E um dia ir embora para plagas não conhecidas
Um dia, voltamos.
(Só restará o oblívio Alguém se lembrará?)
Exílio
Um Atlântico nesta separação:
batido coração segue as ondas de maio.
Desterros além da anistia,
para lá dos poderes.
Velas ao vento,
não bastam os selos,
a escrita crispada.
Queria os sinais da tua pele,
vacinas, umidades, penugens,
pêlos perdidos no mapa do corpo,
o olhar suplicante, soluços.
Jornadas:
missas de sétimo-dia,
retratos arcaicos.
Outro exílio:
sem batidas na boca da noite, armas, fardas, medos,
clandestinidades.
Sol neste retorno:
casa, guarda-chuva no porão, caneca de barro,
álbuns, abraço agregador,
cheiro de pão, gosto de café,
o amanhã junta os o dois nós da memória,
um menino e o seu outro: estou melhor feito vinho velho.
Pai
Meu pai cavalgava
abraçado à sua dor oculta.
No crepúsculo: só – na soleira da porta,
cadeira de balanço, boina, olhar azul.
Antes do assobio da Inelutável
foi para a montanha.
Como um elefante em despedida
quis morrer sozinho.
Quando chegar a hora
farei como meu pai:
subirei a montanha,
Madona
Senhora das horas inconclusas
Senhora do torto parto
do porto inalcançável
Madona da ânsia infinita
vã peregrinação
Senhora do desassossego
Conceda-me o bálsamo do olvido
passagem silenciosa
travessia sem medo
Senhora do inútil tempo – que continua queimando
Senhora da veloz juventude
Madona de todas as velhices
Outorga-me o estatuto da ausência
Planalto
O Planalto é sempre –
nós é que passamos.
Ulisses, oráculo, reaparece
(num tempo que não quer profetas),
Penelópe só tece dúvidas, eclipsado o sagrado:
mercantis propósitos – só.
O Planalto é sempre
– nós é que passamos.
A memória: nossa matéria
– como lidar com tanto esquecimento?
Carece preparar os rituais de retorno:
suado feixe de
carnes/emoções?
(Qual a sua forma?)
Aqui irrompeu o pranto,
não a redenção.
Expulsos do paraíso: vagamos.
Rebanhos eletrônicos, restos de pompa,
retóricas cartorárias, tecnocratas com dentes de ouro
[– e celulares de última geração.
O Planalto é sempre
– nós é que passamos.
Mas cansou-me o pranto:
O sol inunda esta manhã
pão quente, cheiro de café torrado,
o poema arranca algo do efêmero,
fundo-me no esquecimento
(Também somos feitos daquilo que perdemos.)
Deus faz que me esquece:
depois reaparece.
Hiroshima
Na manhã dominical,
a bomba de Hiroshima,
a bomba,
tão clara,
exata,
cirúrgica.
Bomba geométrica,
certeira.
A bomba vem do céu,
mas não é ave.
A bomba vem de cima,
mas não é Deus.
Desce fumegante,
a bomba não negocia,
a bomba não conversa,
célere, impositiva,
acerta o alvo, cai,
a bomba queima, a bomba dissolve,
a bomba dilacera.
Alguém nasce no ano em que ela cai,
e pensa naquele 1945:
a surpresa daqueles milhares de olhos,
à espera do lúdico no matinal domingo,
parques, igrejas, passeios, visitas familiares,
percebendo – sem tempo para a reflexão –
a chegada da não-ave,
emissária de Tanatos,
que cai, cai,
na paisagem limpa (cogumelos atômicos).
Homem diante do mar
Homem diante do mar
(instância interrogativa).
Precária caravela.
E finita: a vida
Trapiche:
o homem só contempla
(desembarcado).
No estatuto da memória:
ele se interroga, nunca mais a ação.
No porto: a rapariga rosada estendeu um lenço.
Limo: foram-se a juventude, o trapiche, a rapariga, o lenço.
(Mátria: sou apenas um homem diante do mar.)
Desterro: instante convertido em sempre.
O homem desembarcado só pode viver de memória:
[diante do mar. -
Eloy Martins

Eloy Martins
Catarinense de Laguna, já na década de 1930 Eloy Martins integrava o movimento sindical metalúrgico e os quadros do PCB em Porto Alegre. Reiteradas prisões obrigam-no a buscar trabalho em várias cidades, onde se mantém na luta pela democracia, pelo petróleo e pela inclusão do Brasil nas tropas anti-nazistas. Consegue, após a redemocratização do país, eleger-se vereador em Porto Alegre. Dirigente operário em nível nacional e internacional, após o golpe de 1964 viveu vários anos na clandestinidade, sendo sequestrado e passando vários anos no cárcere a partir de 1971. Escreveu suas memórias políticas, onde descreve as sevícias sofridas na mão dos algozes.
Boa noite
Boa noite companheiro,
Diga ao menos boa-noite,
Quero ouvir você cantar.
Lá lá lá Lá lá lá lá
Boa noite companheiros,
Mais um dia que passamos,
Sustentando a nossa luta, para o homem libertar.
Lá lá lá Lá lá lá lá
Boa noite companheiros,
Confiança no futuro,
Pois estamos construindo,
Um amanhã cheio de sol.
Lá lá lá lá lá lá lá -
Athanásio Orth
Nasceu em Tapera, RS, onde realizou seus estudos básicos. Na convivência do Seminário da Cidade de Viamão, conheceu e adotou a Teologia da Libertação, forte movimento religioso dos anos 1960. Por suas convicções democráticas, passou a integrar grupos secretos de resistência ao regime autoritário vigente no Brasil, sendo perseguido, sequestrado, torturado e condenado. Na prisão, este filósofo e professor escreveu e publicou seu livro de poemas “A companheira e Duas Três Coisas Vistas da Ilha das Pedras”, vindo a falecer em acidente rodoviário em 1978. Na região de origem, dá nome a escolas, praças e bibliotecas.
Encantamento
Nos olhos do teu olhar
enxergo minhas feições
impregnadas de você.
Manso e suavemente
triste – o olhar.
Estes olhos ocupados
na descoberta de você,
ainda se multiplicarão
em pesquisa e admiração
do ser e do acontecer.
Depois nós dois miramos o longe:
construções e chaminés,
a urbe estrangulada
vetada a meus pés.
Expectativa: fundir
ilha e cais da estiva
dirigir o movimento…
Lento, porém contramão,
domingar uma barca
carregada de rosas.
Perdela jamas
ternura, y cosas
que vivan su muerte.
Entonces está prohibido
matar/matar
a un hombre nuevo.
Domingo, se não chover
verei a ave de olhos inesgotáveis
pousar seu corpo no meu.
Vezes incontáveis configurei
as partes e o conjunto. A boca
ávidos trançamos em beijos.
Quando recordo, a noite
se faz imensa com o rio
me invadindo de nostalgia.
Então ouço companheiros
em sonhos de lamentação.
Domingo, salvo imprevisto,
enlaçarei em lábios vertentes
meu recado mudo e concreto
com os cinco sentidos sentirei
a presença lasciva da primavera
ao entrelaçarmos os braços
no toque libente
de pólos que se atraem.
Tudo quieto por aqui
só a melancolia da paciência
ao contemplar os clarões
que da fábrica se espalham na água
e umedecem meus olhos de tristeza.
Domingo se você quiser
seremos dois e um e mais
como somos muitos agora.
A balada pungente da ausente
trinca e tranca o pranto
no tristonho-risonho dos olhos.
No sinistro da cela, ao pé
da cama., Neruda sempre redito
(puedo escribir los versos
más tristes esa noche)
me desespera em intenções de antes.
Tenho pensado, careço dizer,
um réquiem por Chael
que dure exato o silêncio
e um baião baiano, tributo
a cantigar em novembro
quatro de cada ano.
Imaginei monumentos estilizados
aos tombados no risco de esculpir
a manhã plena de dia.
Compus em madeira fragmentos
à militante, mas Vera Lígia
ainda não os leu e já
se extraviaram e são outros
e são desejos de talvez
virem a ser inventos
de mais encanto, porquanto
o envolvimento em novas malhas
da formosura cresce o labor.
De Longe e de Perto
Chispas se levantam do levante de Ática
e atiçam ódio contra a Amérika.
Da contextura brutal do presídio
brota uma alvorada de ternura e dureza.
Sob os cassetetes se volatizam
sonhos remotos, mas dos mortos
sangram gritos de pantera.
Sovados na teimosia de negar as grades
os punhos deflagram a ousadia de ser.
A coragem de carecer “o riso de um amigo
e a voz macia de uma mulher”
e de tombar sob escombros de gás
madruga grávida de primavera.
Corpo crivado à bala, Sam Melville
se dissipa em fulgência de saber:
“Há sutis surpresas à minha frente
mas eu me sinto seguro e forte”.
Nas palavras suprimidas
A alegria de debate com o ódio.
Dos quadrantes da terra informam:
requinto central do capital
e camaradas torturados
metralhados na nota oficial
segundo voz de prisão.
Sem mediação a condição inumana
se mistura com fome e fama
de bem-aventuranças e proteínas
e de gingas e danças com meninas,
luzes roxas sobre as coxas
pó e cisco na tigela.
Ninguém vela a criança
achada morta na favela.
A burguesia exporta
cresce a renda bruta,
cada vez mais enxuta
a marmita do servente.
77 vezes 7 vezes
Contra grandes estandartes
setenta e sete vezes
sete vezes se desejou
enfarte dos patrões…
benedictus
pecata mundi
Contra as chaves da opressão
setenta e sete vezes
sete vezes danados
clamamos antes de trancados…
miserere
fructis ventri
Contra os horizontes abertos
setenta e sete vezes
sete vezes usaram em vão
ferrolhos e tramelas…
ora amem
hora morti nostri
pérfidos e fétidos
eles vão apodrecendo em feliz ilusão.
Do continente sul
Una noche envejece
El destino de la América:
Huevos de arañas
Pájaros muertos
E insetos tontos
Em la calle central.
Las tripas llenas de hambre
La toza llena de torpezas
Aunque parezca mentira,
Proezas de la misma hazaña,
Contra las cuales se assoma
La artimanha de fuziles
Discursos y canciones miles.
No panorama soturno
O triste pindorama
Que ficou para submundo,
Com o auri-verde perdão
Da pujança, que cansa os olhos
Que sabem sobre as contradições.
Esta é a véspera
Pro proleta proletária
A fome fomenta a morte…
A fome fomenta a morte
mordendo mansamente
a dor da vida desprovida.
A dor dormida mais se rebela
em cada nova ferida.
nada será como antes:
um dia a rebeldia eclodindo,
aves de rapina alçando vôo
derradeiro em mergulho fatal
ao orgulho nas águas estagnadas
de peixes podres emersos
e escombros submersos
carcomidos-fedidos idos,
contra a granada arremessada
o tiro repentino assassinando,
contra a surpresa um quartel
perdendo a defesa, ao estalido
o sentinela esquecendo a ressaca
babaca da própria sina…
Mas a morte morde
a fome fomenta
a dorme até
um dia a rebeldia.
A burguesia velejando
A burguesia velejando
à tarde mansa
não se cansa de usufruirfluir líquido do lucro.
Navios que entram lentos pelo canal
já se agitaram contra outros ventos
e as ondas que convulsionam contra as pedras
voltam e se amainam no rio
como os marinheiros se acostumam
aos ares de muitos mares.
Braços proletários cujo trabalho
vai incorporado neste frete
alaram-se aos que aqui sofrem algemas
exercendo protesto noutras terras.
Já aconteceu saudar-nos
um navio de bandeira vermelha
emitindo acentos sonoros.
Já aconteceu em manhã de sol
as gaivotas espantadas em bando
lembrarem poetas de cantares
cantados e sofridos em portos
sem portas, em minas e cantinas.
Apesar de esbordoarem o rosto…
Apesar de esbordoarem o rosto
posto em algemas no pó da rua
apesar de provar aos berros que o corpo
é ótimo condutor de eletricidade
apesar dos vergões no dorso
e dos dentes que se esmigalham
apesar da coronha na cabeça
e a sanga de sangue entre os cabelos
apesar de trancado entre paredes
ferros e chaves ou cercado
de águas e guardas
apesar da dor que mais dói,
o pior de tudo: pôr mudo
a quem cabe pontear.
Braço erguido em punho…
Braço erguido em punho
como se rompesse grilhões
a alegria nos contagia, ele
deslancha rumo ao nascente.
Pega a voga companheiro,
Segue antes. Já viste
que o cativeiro não resiste
à chispa em riste madrugando
Conosco no bojo da liberdade.
Mais que nunca sorve agora
a bebida amarga dos operários,
prova a taça até o fundo
e do gosto a suor faze
o nosso momento.
Pelo descampado adestra a mira
e o dedo no gatilho,
guarda a pólvora e o sarilho
para a hora propícia.
Lembra de empunhar malhos
Para derrubar os deuses.
Não coleciones cântaros cristalizados
cultiva as promessas que vicejam
e que se vejam no acontecer diário.
Prevê as provisões de volta.
E considera que o amor
aviva a visão das coisas.
(para o Calino)
Talhado para as coisas da vida
Talhado para as coisas da vida
zurziram tua carne barbaramente,
mas teu corpo se esculpiu em bravo.
Apodrecerá viva a boca
que insultou de canalha a solidariedade
e os algozes terão seu dilúvio
misturados a excremento e lixo.
Podemos ouvir George Jakson
não entendendo tudo que Dylan diz,
lixar o verniz de cada um,
buscar dimensões não abraçadas,
retomar as lições calhadas na lida.
lançar a linha e aguardar o peixe,
comer o pão dormido e não perder
a firmeza, saber do acontecido
conhecendo para onde indicam
as luzes e percalços dos pioneiros da terra,
não estamos num beco sem saída.
Mas o reduto é de trevas
E a prova palpável da luz
Pode ser o ósculo dos camaradas
Que compartilham a estrada.
(num aniversário do Minhoca) -
Antonio Pinheiro Salles

Antonio Pinheiro Salles
Nascido em Estrela, Minas Gerais, Antonio Pinheiro Salles já na adolescência militou no movimento estudantil. Iniciando como jornalista, foi vereador e líder universitário, sofrendo reiteradas prisões. Procurando preservar-se, passou à vida clandestina na Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul. Como membro do POC, foi sequestrado neste estado, sofrendo inomináveis torturas. Anistiado, retomou a ação política, publicou vários livros de memória e é ativista de Direitos Humanos por Memória, Verdade e Justiça.
O Adeus a Porto Alegre
Não mais serei levado para o país do sul
Onde, apesar dos pesares, pude sobreviver
E te ver, te conhecer, te amar, te desejar
Como se não fossem tantas as turbulências
Como se o adeus ao porto de Porto Alegre
Não estivesse na posse das possibilidades.
É incrivel, mas sempre eu sabia da beleza,
Até se a tristeza e a dor não adormeciam.
Tu decidiste ser a minha serenidade
Em cada visita me apresentando a vida
Plena de nuanças novas, de esperanças
Ressuscitadas e graças sem agradecimentos.
Coisas que não te disse, macias pétalas
Guardadas para te oferecer no amanhecer
Talvez nunca possam mesmo ultrapassar
Sustos, soluços e solidões da minha cela.
Mas o amor não tem data nem concordata,
Ainda que o terror não reconheça o amor.
Não mais serei levado para o país do sul,
Não nos veremos após a espera desesperada
Havia névoa no voo da velha aeronave
E uma nívea revolta na volta das algemas.
O perfil de Porto Alegre foi fenecendo
Enquanto tu sonhavas sem saber de mim.
Tudo ficou distante… Teus olhos verdes
Eu não vou conseguir mais ver de perto
Em teus pagos peleamos; desafiamos o fogo,
O frio, o minuano, a imensidão do mundo.
Hoje, o Guaíba nasce e desce em minha face
Quando penso em ti, tua força, tua cidade. -
Antônio Alberi Malfi
Natural de Passo Fundo (RS), militou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Preso em 1970, foi condenado pela 3ª Auditoria Militar de Santa Maria. Cumprida a pena, continuou sendo perseguido, tendo que exilar-se nos seguintes países: Chile, México, Bélgica e Argentina. Casado com Ieda Maria Andreatta Maffi. Após retornar do exílio, foi professor universitário, na Universidade de Ijuí, de Cultura Brasileira, Literatura Brasileira, Literatura Latino Americana, Literatura Portuguesa e Literatura Africana de Língua Portuguesa. Ativista político e dos Direitos Humanos, elegeu-se prefeito municipal de Braga (RS), por dois mandatos (1983/88 e 1993/96). Autor de um livro de poesias, escrito durante a prisão, que foi confiscado pelos militares.
Dos Motivos
Escrevemos porque nos falta o tempo
de purgar a grande dor coletiva
e na poesia que fazemos
trazemos nossa esperança rediviva.
Fazer versos é mais que manifesto:
hoje, é luta e testemunhos.
É um cerrar de punhos
e um grito de protesto.
Cantemos, pois, com a certa convicção
de que calar é mais trágico e atroz.
Infeliz o que sabe a canção
e, no entanto, emudece a voz.
Cicatrizes
Crava-se na memória
o espinho
e a dor escorre
como sangue.
Na desesperança desencarnada
de uma terra seca de searas
pedras sobre pedras
O suor é o sonho.
As manhãs e as claras madrugadas
foram apenas festas que a noite castrou.
O espinho encravado no miolo da esperança
na sutura dos ossos
no pêndulo do nervo
na paz do sangue
na sagração dos dias
na origem do pasmo
na confluência da dor
nas raízes da terra
e na carnadura da pedra
agride nossas cicatrizes.
No eixo do tempo,
a memória.
Mas não serei eu
agreste e perdido
que há de lavar o sangue
das mãos que mataram nos porões
do tempo.
Da dor vertida no peito
feito lágrima e fel
sabem o fio da faca
e prumo da História.
Da noite, sabemos nós
que viemos do mundo dos abismos
carregando almas naufragadas
salitre nas feridas
mágoas no peito
e engasgo na garganta.
Nós, que de muito plantar
no escuro da noite
as palavras que nos marcavam
os sonhos que nos embalavam
e os mitos que nos mantinham
restamo-nos, sobreviventes,
amanhecendo cicatrizes.
Precariedade
As precárias palavras
no papel
concentram a vontade do canto.
Mas nada se revela
nesta noite de mudez
que não sejam inúteis, velhos
e cansados gestos.
O nó na garganta.
A espinha do peixe
não fere mais que o silêncio.
Tudo é provisório
nesta noite.
Eu. Você. O ditador.
E o nó.
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Apresentação
Pois aquele que hoje
Derrama seu sangue comigo,
Será meu irmão.
William Shakespeare,
em “Henrique V”, ato IV, cena 3
Raul Ellwanger

Raul Ellwanger
Após mais de cinco décadas do golpe patronal-militar de 1964, a revelação das atrocidades oficiais e a memória da resistência popular tem trazido à opinião pública fatos, nomes, documentos e revelações que ajudam a recompor a verdade daqueles anos dolorosos. Cada grão dessas lembranças vai somando na construção do verdadeiro quadro social e cultural da época, desde o grande evento mediático dos tiranos (paradas militares, manchetes jornalísticas, inaugurações), até pequenos gestos de solidariedade e amor esquecidos na sombra dos calabouços ou silenciados no abrigo dos lares. Fazer luz sobre a época ditatorial permite ao cidadão de hoje orientar sua participação pessoal e política, fazendo da pedagogia da memória uma ferramenta para aperfeiçoar a vida atual.
O presente volume quer trazer à luz um aspecto especial e peculiar da vida dos resistentes, com a edição de poemas criados em situação de ameaça, coerção, dor física, desamparo e amedrontamento. Com sua carga de beleza e fantasia, de ilusão política, de devaneios e amores, de reflexões e autocríticas pessoais, estas obras urgentes misturam o poder natural da palavra poética com a dramática situação de vida daquelas moças e moços.
Ora na clandestinidade ou sob tortura, ora em sequestro incógnito ou no exílio, ora na arriscada vida cotidiana, a opositora e o opositor ao regime recorreram à poesia para se expressar. Seria o jogo poético um lenitivo para suas dores, seriam suas odes canções de esperança, seriam suas rimas gritos de liberdade, seriam somente o derrame de suas tristezas, seriam apenas um consolo ante o andar lento do tempo encarcerado, seriam simples vocações poéticas e nada mais?
Alguns foram cantores de uma só canção, outros seguiram no generoso ofício de poetar. Alguns deitaram suas estrofes sob ameaça de violência imediata, no interior mesmo de prisões, na antessala do choque elétrico. Outros, durante intermináveis dias e noites de longas condenações ilegais nos insalubres presídios e quartéis, na revista corporal indecorosa. Alguns terão entornado em ocultos papelotes de cigarro seus sonetos de amor por um noivo ou uma visitante solidária. Houve mesmo rabiscos de grampos no reboco de paredes. Alguns escreveram no bojo de jornadas de lutas de rua, em confronto físico com os esbirros. Decerto também escreveram na calada da noite, em seus lares à pouca luz, ocultando estrofes na frincha dos colchões.
Subversiva por natureza, foi a poesia com frequência vitimada pelos totalitarismos. São figuras emblemáticas alguns magníficos poetas, como Federico Garcia Lorca executado na Espanha, Nazim Hikmet prisioneiro na Turquia, Pablo Neruda exilado do Chile e Juan Gelman exilado da Argentina, Mario Benedetti exilado e Liber Falco assassinado no Uruguai, Otto René Castillo incinerado na Guatemala, José Martí mutilado e assassinado em Cuba, o catalão Joaquín Amat Piniella e seus poemas encontrados com sessenta anos de atraso, também Javier Heraud morto no Perú, os assassinados na Argentina Tilo Wenner e Roberto Santoro, Ernesto Cardenal oprimido na Nicarágua, incluindo a Roque Dalton “justiçado” por companheiros em El Salvador. Desde a época da Inconfidência Mineira até o regime de 1964, nossos vates sentiram o peso da perseguição, como Thiago de Mello e Ferreira Gullar que provaram o pão amargo do exílio nas últimas décadas, como Fernando Batinga (preso no Estádio Nacional de Santiago) e José Falcón no Chile, onde este último termina por suicidar-se.
Na presente seleção, onde as lacunas são inevitáveis, destacamos a figura do poeta cachoeirense Nilton Rosa da Silva, assassinado no Chile, e de Manoel Raymundo Soares, militar paraense vitimado em Porto Alegre, de quem publicamos trechos de cartas à esposa. Aqueles que ofereceram seu sangue pela liberdade, se tornam carne e unha de seus povos, ainda mais quando o fizeram longe de seu torrão.
Dois poetas prisioneiros se destacam no Brasil: Alex Polari e Pedro Tierra. Sob grave sevícia e ameaça de vida, encontraram a fortaleza espiritual para registrar o sentimento coletivo de toda uma época e a percepção sensível de sua delicada situação pessoal. Entregaram à sociedade brasileira e mundial seu brado de protesto, sua denúncia das desumanidades, sua perplexidade juvenil ante um mundo bárbaro e, acima de tudo, ofertaram toda a imensa beleza guardada em seus corações. Contaram para isso com a coragem de mães e pais, amigos companheiros e advogados, que sob grave risco escoavam precários manuscritos até solidárias mãos, para salvá-los e tentar publicá-los. Assim, estes braços fraternos velaram pelo nascimento e existência de obras que hoje são pérolas da cultura democrática do Brasil.
A seleção que se reúne neste volume abdica de qualquer valoração estética. Busca apenas redescobrir e colocar ao alcance do público atual a faceta quase perdida de alguns dos nossos “poetas da dura noite”. Nem poderia a perseguição ser critério de excelência artística. Ambicioso seria esperar de todo versejador ameaçado que realizasse a façanha de José Hernandez, poeta argentino que no exílio rio-grandense construiu seu épico “Martin Fierro”, marco da poesia popular e telúrica do extremo meridional da América. Nos basta com dizer da bondade, da beleza e da generosidade de homens e mulheres que ousaram atrever-se a lutar e vencer no terreno da arte durante os momentos mais terríveis de suas vidas frágeis e desamparadas.Porto Alegre, junho de 2019
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Leite fala em "vender trechos" do Cais Mauá para restaurar armazéns
Em entrevista nesta manhã de quinta-feira, 30, o governador Eduardo Leite deixou claro que não pretende renovar ou repactuar o atual contrato de concessão do Cais Mauá, assinado há quase dez anos. “Vamos ter que buscar outro modelo, que tenha sustentabilidade”, disse Leite.
Uma alternativa em estudo, segundo ele, seria “vender trechos do cais para empreendedores privados”, usando os recursos dessas vendas para restaurar os armazéns, onde seria desenvolvido um núcleo de economia criativa.
O governador ainda vai ouvir a Procuradoria Geral do Estado na quinta-feira, mas a tendência é encerrar o contrato por descumprimento da parte do concessionário.
Um relatório técnico entregue ao governador há duas semana aponta sete pontos do contrato que não foram cumpridos, a começar pelo pagamento do arrendamento previsto, em atraso há mais de ano.
Leite disse que nas condições atuais nem o Cais Embarcadero, plano alternativo para dar início às obras, se sustenta, porque configura um subarrendamento, o que é vedado pelo contrato.
A solução de vender trechos do cais a empresas privadas depende de um acordo com o governo federal, para que a área seja excluida da poligonal portuária. O governador disse que está negociando isso em Brasilia.
(Vem aí o Dossiê Cais Mauá impresso. Garanta seu exemplar).




