Autor: da Redação

  • Flávio Koutzii

    Flávio Koutzii

    Natural de Porto Alegre, dedicou-se desde adolescente ao ativismo político nas frentes estudantis, passando desde cedo a militar no PCB e sucessivas cisões. Persegui­do, buscou refúgio em países europeus e da América Latina, militando finalmente na Argentina. Sequestrado e conde­nado, cumpriu vários anos de pena naquele país. Após cam­panha internacional por sua liberdade e a redemocratização argentina, retornou ao Brasil, onde militou no PT e exerceu diversos cargos parlamentares e executivos.
     
    Te deixo hoje…
    Te deixo hoje,
    com um abraço,
    com todo o carinho,
    Com a presença da memória,
    Com a saudade de ti,
    Com a saudade do “Flaco”
    Pensando nesses imensos territórios
    da vida e do amor,
    pensando nas possibilidades, potencialidades,
    e nas continuações,
    pensando no que não pôde ser,
    pensando no que deveria ser,
    pensando no que será…

  • Emanuel Medeiros Vieira

    Emanuel Medeiros Vieira

    Natural de Florianópolis (SC, 1945), formado na UFRGS em Direito, 1969, participou ativamente da militân­cia estudantil. Escritor de romances, poesias e memórias, com vinte e três livros publicados, participou de mais de cinquenta coletâneas no Brasil e no exterior. Membro da AP (Ação Popular), esteve preso durante meses na OBAN (Operação Bandeirantes) e no DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social), em São Paulo, seguindo posteriormente ao exílio. Foi vendedor de livros, editor, professor e redator de discursos. Seu romance “Olhos Azuis – Ao Sul do Efême­ro” (2009) -, foi contemplado com o Prêmio Internacional de Literatura, concedido pela UBE (União Brasileira de Es­critores).
     
    Desterro
    Desterro cumpriu-me
    e cumpriu-se.
    O rio começava atrás de casa
    (como eu),
    e foi embora – afluentes.
    Vento sul, Campo do Manejo, Rita
    Maria, Rio da Avenida, Miramar,
    bala queimada, Catecipes, Praia do Muller,
    procissão do Senhor Morto, Cine Rox,
    gibis, Grupo Escolar Dias Velho,
    Chico Barriga D’Água, paixão camuflada pela menina
    da Rua de Cima – ela nunca soube.)
    Só enuncio: acumulo – sobrecarregado.
    O rio foi embora.
    Casa demolida, mãe na soleira da porta, pitanga no
    quintal, regata na Baía Sul, matracas, turíbulos, trapiche da
    Praia de Fora, gaita-de-boca, groselha, tainha frita,
    fogão de lenha, beliches, pé de amora.
    Perdeu-se o rio: não sei do seu delta.
    Perdi-me: tiro certeiro na gaivota.
    A rua pequena, era a maior do mundo – coração.
    Desterro inunda-me:
    outrora/agora.
     
    Masmorras
    Clandestinidades, fugas na boca da noite
    Dormir cada dia num lugar
    Pensões, pulgas, esconderijos, dinheiro contado, pratos
    [feitos, uma pinga para o consolo provisório.
    Palavras apenas – e foi na carne que doeu.
    Tudo já foi ditado, mastigado, expelido.
    Foi?
    O Primeiro Interrogatório.
    O Segundo Interrogatório.
    O Quarto Interrogatório.
    O Décimo-Quinto Interrogatório
    (De manhã, de tarde, à meia-noite, às quatro da
    [madrugada).
    Choques elétricos, pau de arara, “cadeira do dragão”,
    [“telefones”, palmatórias.
    O verso de T.S.Eliot na cabeça:
    “As palavras se movem, a música se move
    Apenas no tempo: mas aquilo que apenas vive
    Pode apenas morrer. As palavras após a fala, alcançam
    [o repouso. (…)
    O corpo: não.
    Um bafo de morte na soleira da porta.
    (O processo, a burocracia, togas pretas, auditorias, fardas.)
    E um dia ir embora para plagas não conhecidas
    Um dia, voltamos.
    (Só restará o oblívio Alguém se lembrará?)
     
    Exílio
    Um Atlântico nesta separação:
    batido coração segue as ondas de maio.
    Desterros além da anistia,
    para lá dos poderes.
    Velas ao vento,
    não bastam os selos,
    a escrita crispada.
    Queria os sinais da tua pele,
    vacinas, umidades, penugens,
    pêlos perdidos no mapa do corpo,
    o olhar suplicante, soluços.
    Jornadas:
    missas de sétimo-dia,
    retratos arcaicos.
    Outro exílio:
    sem batidas na boca da noite, armas, fardas, medos,
    clandestinidades.
    Sol neste retorno:
    casa, guarda-chuva no porão, caneca de barro,
    álbuns, abraço agregador,
    cheiro de pão, gosto de café,
    o amanhã junta os o dois nós da memória,
    um menino e o seu outro: estou melhor feito vinho velho.
    Pai
    Meu pai cavalgava
    abraçado à sua dor oculta.
    No crepúsculo: só – na soleira da porta,
    cadeira de balanço, boina, olhar azul.
    Antes do assobio da Inelutável
    foi para a montanha.
    Como um elefante em despedida
    quis morrer sozinho.
    Quando chegar a hora
    farei como meu pai:
    subirei a montanha,
     
    Madona
    Senhora das horas inconclusas
    Senhora do torto parto
    do porto inalcançável
    Madona da ânsia infinita
    vã peregrinação
    Senhora do desassossego
    Conceda-me o bálsamo do olvido
    passagem silenciosa
    travessia sem medo
    Senhora do inútil tempo – que continua queimando
    Senhora da veloz juventude
    Madona de todas as velhices
    Outorga-me o estatuto da ausência
     
    Planalto
    O Planalto é sempre –
    nós é que passamos.
    Ulisses, oráculo, reaparece
    (num tempo que não quer profetas),
    Penelópe só tece dúvidas, eclipsado o sagrado:
    mercantis propósitos – só.
    O Planalto é sempre
    – nós é que passamos.
    A memória: nossa matéria
    – como lidar com tanto esquecimento?
    Carece preparar os rituais de retorno:
    suado feixe de
    carnes/emoções?
    (Qual a sua forma?)
    Aqui irrompeu o pranto,
    não a redenção.
    Expulsos do paraíso: vagamos.
    Rebanhos eletrônicos, restos de pompa,
    retóricas cartorárias, tecnocratas com dentes de ouro
    [– e celulares de última geração.
    O Planalto é sempre
    – nós é que passamos.
    Mas cansou-me o pranto:
    O sol inunda esta manhã
    pão quente, cheiro de café torrado,
    o poema arranca algo do efêmero,
    fundo-me no esquecimento
    (Também somos feitos daquilo que perdemos.)
    Deus faz que me esquece:
    depois reaparece.
     
    Hiroshima
    Na manhã dominical,
    a bomba de Hiroshima,
    a bomba,
    tão clara,
    exata,
    cirúrgica.
    Bomba geométrica,
    certeira.
    A bomba vem do céu,
    mas não é ave.
    A bomba vem de cima,
    mas não é Deus.
    Desce fumegante,
    a bomba não negocia,
    a bomba não conversa,
    célere, impositiva,
    acerta o alvo, cai,
    a bomba queima, a bomba dissolve,
    a bomba dilacera.
    Alguém nasce no ano em que ela cai,
    e pensa naquele 1945:
    a surpresa daqueles milhares de olhos,
    à espera do lúdico no matinal domingo,
    parques, igrejas, passeios, visitas familiares,
    percebendo – sem tempo para a reflexão –
    a chegada da não-ave,
    emissária de Tanatos,
    que cai, cai,
    na paisagem limpa (cogumelos atômicos).
     
    Homem diante do mar
    Homem diante do mar
    (instância interrogativa).
    Precária caravela.
    E finita: a vida
    Trapiche:
    o homem só contempla
    (desembarcado).
    No estatuto da memória:
    ele se interroga, nunca mais a ação.
    No porto: a rapariga rosada estendeu um lenço.
    Limo: foram-se a juventude, o trapiche, a rapariga, o lenço.
    (Mátria: sou apenas um homem diante do mar.)
    Desterro: instante convertido em sempre.
    O homem desembarcado só pode viver de memória:
    [diante do mar.

  • Eloy Martins

    Eloy Martins

    Catarinense de Laguna, já na década de 1930 Eloy Martins integrava o movimento sindical metalúrgico e os quadros do PCB em Porto Alegre. Reiteradas prisões obri­gam-no a buscar trabalho em várias cidades, onde se man­tém na luta pela democracia, pelo petróleo e pela inclusão do Brasil nas tropas anti-nazistas. Consegue, após a rede­mocratização do país, eleger-se vereador em Porto Alegre. Dirigente operário em nível nacional e internacional, após o golpe de 1964 viveu vários anos na clandestinidade, sendo sequestrado e passando vários anos no cárcere a partir de 1971. Escreveu suas memórias políticas, onde descreve as sevícias sofridas na mão dos algozes.
     
    Boa noite
    Boa noite companheiro,
    Diga ao menos boa-noite,
    Quero ouvir você cantar.
    Lá lá lá Lá lá lá lá
    Boa noite companheiros,
    Mais um dia que passamos,
    Sustentando a nossa luta, para o homem libertar.
    Lá lá lá Lá lá lá lá
    Boa noite companheiros,
    Confiança no futuro,
    Pois estamos construindo,
    Um amanhã cheio de sol.
    Lá lá lá lá lá lá lá

  • Athanásio Orth

    Nasceu em Tapera, RS, onde realizou seus estudos básicos. Na convivência do Seminário da Cidade de Viamão, conheceu e adotou a Teologia da Libertação, forte movimento religioso dos anos 1960. Por suas convicções democráticas, passou a integrar grupos secretos de resistência ao regime autoritário vigente no Brasil, sendo perseguido, sequestrado, torturado e condenado. Na prisão, este filósofo e professor escreveu e publicou seu livro de poemas “A companheira e Duas Três Coisas Vistas da Ilha das Pedras”, vindo a falecer em acidente rodoviário em 1978. Na região de origem, dá nome a escolas, praças e bibliotecas.
    Encantamento
    Nos olhos do teu olhar
    enxergo minhas feições
    impregnadas de você.
    Manso e suavemente
    triste – o olhar.
    Estes olhos ocupados
    na descoberta de você,
    ainda se multiplicarão
    em pesquisa e admiração
    do ser e do acontecer.
    Depois nós dois miramos o longe:
    construções e chaminés,
    a urbe estrangulada
    vetada a meus pés.
    Expectativa: fundir
    ilha e cais da estiva
    dirigir o movimento…
    Lento, porém contramão,
    domingar uma barca
    carregada de rosas.
    Perdela jamas
    ternura, y cosas
    que vivan su muerte.
    Entonces está prohibido
    matar/matar
    a un hombre nuevo.
     
    Domingo, se não chover
    verei a ave de olhos inesgotáveis
    pousar seu corpo no meu.
    Vezes incontáveis configurei
    as partes e o conjunto. A boca
    ávidos trançamos em beijos.
    Quando recordo, a noite
    se faz imensa com o rio
    me invadindo de nostalgia.
    Então ouço companheiros
    em sonhos de lamentação.
    Domingo, salvo imprevisto,
    enlaçarei em lábios vertentes
    meu recado mudo e concreto
    com os cinco sentidos sentirei
    a presença lasciva da primavera
    ao entrelaçarmos os braços
    no toque libente
    de pólos que se atraem.
    Tudo quieto por aqui
    só a melancolia da paciência
    ao contemplar os clarões
    que da fábrica se espalham na água
    e umedecem meus olhos de tristeza.
    Domingo se você quiser
    seremos dois e um e mais
    como somos muitos agora.
     
    A balada pungente da ausente
    trinca e tranca o pranto
    no tristonho-risonho dos olhos.
    No sinistro da cela, ao pé
    da cama., Neruda sempre redito
    (puedo escribir los versos
    más tristes esa noche)
    me desespera em intenções de antes.
    Tenho pensado, careço dizer,
    um réquiem por Chael
    que dure exato o silêncio
    e um baião baiano, tributo
    a cantigar em novembro
    quatro de cada ano.
    Imaginei monumentos estilizados
    aos tombados no risco de esculpir
    a manhã plena de dia.
    Compus em madeira fragmentos
    à militante, mas Vera Lígia
    ainda não os leu e já
    se extraviaram e são outros
    e são desejos de talvez
    virem a ser inventos
    de mais encanto, porquanto
    o envolvimento em novas malhas
    da formosura cresce o labor.
     
    De Longe e de Perto
    Chispas se levantam do levante de Ática
    e atiçam ódio contra a Amérika.
    Da contextura brutal do presídio
    brota uma alvorada de ternura e dureza.
    Sob os cassetetes se volatizam
    sonhos remotos, mas dos mortos
    sangram gritos de pantera.
    Sovados na teimosia de negar as grades
    os punhos deflagram a ousadia de ser.
    A coragem de carecer “o riso de um amigo
    e a voz macia de uma mulher”
    e de tombar sob escombros de gás
    madruga grávida de primavera.
    Corpo crivado à bala, Sam Melville
    se dissipa em fulgência de saber:
    “Há sutis surpresas à minha frente
    mas eu me sinto seguro e forte”.
     
    Nas palavras suprimidas
    A alegria de debate com o ódio.
    Dos quadrantes da terra informam:
    requinto central do capital
    e camaradas torturados
    metralhados na nota oficial
    segundo voz de prisão.
    Sem mediação a condição inumana
    se mistura com fome e fama
    de bem-aventuranças e proteínas
    e de gingas e danças com meninas,
    luzes roxas sobre as coxas
    pó e cisco na tigela.
    Ninguém vela a criança
    achada morta na favela.
    A burguesia exporta
    cresce a renda bruta,
    cada vez mais enxuta
    a marmita do servente.
     
    77 vezes 7 vezes
    Contra grandes estandartes
    setenta e sete vezes
    sete vezes se desejou
    enfarte dos patrões…
    benedictus
    pecata mundi
    Contra as chaves da opressão
    setenta e sete vezes
    sete vezes danados
    clamamos antes de trancados…
    miserere
    fructis ventri
    Contra os horizontes abertos
    setenta e sete vezes
    sete vezes usaram em vão
    ferrolhos e tramelas…
    ora amem
    hora morti nostri
    pérfidos e fétidos
    eles vão apodrecendo em feliz ilusão.
     
    Do continente sul
    Una noche envejece
    El destino de la América:
    Huevos de arañas
    Pájaros muertos
    E insetos tontos
    Em la calle central.
    Las tripas llenas de hambre
    La toza llena de torpezas
    Aunque parezca mentira,
    Proezas de la misma hazaña,
    Contra las cuales se assoma
    La artimanha de fuziles
    Discursos y canciones miles.
    No panorama soturno
    O triste pindorama
    Que ficou para submundo,
    Com o auri-verde perdão
    Da pujança, que cansa os olhos
    Que sabem sobre as contradições.
    Esta é a véspera
    Pro proleta proletária
     
    A fome fomenta a morte…
    A fome fomenta a morte
    mordendo mansamente
    a dor da vida desprovida.
    A dor dormida mais se rebela
    em cada nova ferida.
    nada será como antes:
    um dia a rebeldia eclodindo,
    aves de rapina alçando vôo
    derradeiro em mergulho fatal
    ao orgulho nas águas estagnadas
    de peixes podres emersos
    e escombros submersos
    carcomidos-fedidos idos,
    contra a granada arremessada
    o tiro repentino assassinando,
    contra a surpresa um quartel
    perdendo a defesa, ao estalido
    o sentinela esquecendo a ressaca
    babaca da própria sina…
    Mas a morte morde
    a fome fomenta
    a dorme até
    um dia a rebeldia.
     
    A burguesia velejando
    A burguesia velejando
    à tarde mansa
    não se cansa de usufruirfluir líquido do lucro.
    Navios que entram lentos pelo canal
    já se agitaram contra outros ventos
    e as ondas que convulsionam contra as pedras
    voltam e se amainam no rio
    como os marinheiros se acostumam
    aos ares de muitos mares.
    Braços proletários cujo trabalho
    vai incorporado neste frete
    alaram-se aos que aqui sofrem algemas
    exercendo protesto noutras terras.
    Já aconteceu saudar-nos
    um navio de bandeira vermelha
    emitindo acentos sonoros.
    Já aconteceu em manhã de sol
    as gaivotas espantadas em bando
    lembrarem poetas de cantares
    cantados e sofridos em portos
    sem portas, em minas e cantinas.
     
    Apesar de esbordoarem o rosto…
    Apesar de esbordoarem o rosto
    posto em algemas no pó da rua
    apesar de provar aos berros que o corpo
    é ótimo condutor de eletricidade
    apesar dos vergões no dorso
    e dos dentes que se esmigalham
    apesar da coronha na cabeça
    e a sanga de sangue entre os cabelos
    apesar de trancado entre paredes
    ferros e chaves ou cercado
    de águas e guardas
    apesar da dor que mais dói,
    o pior de tudo: pôr mudo
    a quem cabe pontear.
     
    Braço erguido em punho…
    Braço erguido em punho
    como se rompesse grilhões
    a alegria nos contagia, ele
    deslancha rumo ao nascente.
    Pega a voga companheiro,
    Segue antes. Já viste
    que o cativeiro não resiste
    à chispa em riste madrugando
    Conosco no bojo da liberdade.
    Mais que nunca sorve agora
    a bebida amarga dos operários,
    prova a taça até o fundo
    e do gosto a suor faze
    o nosso momento.
    Pelo descampado adestra a mira
    e o dedo no gatilho,
    guarda a pólvora e o sarilho
    para a hora propícia.
    Lembra de empunhar malhos
    Para derrubar os deuses.
    Não coleciones cântaros cristalizados
    cultiva as promessas que vicejam
    e que se vejam no acontecer diário.
    Prevê as provisões de volta.
    E considera que o amor
    aviva a visão das coisas.
    (para o Calino)
     
    Talhado para as coisas da vida
    Talhado para as coisas da vida
    zurziram tua carne barbaramente,
    mas teu corpo se esculpiu em bravo.
    Apodrecerá viva a boca
    que insultou de canalha a solidariedade
    e os algozes terão seu dilúvio
    misturados a excremento e lixo.
    Podemos ouvir George Jakson
    não entendendo tudo que Dylan diz,
    lixar o verniz de cada um,
    buscar dimensões não abraçadas,
    retomar as lições calhadas na lida.
    lançar a linha e aguardar o peixe,
    comer o pão dormido e não perder
    a firmeza, saber do acontecido
    conhecendo para onde indicam
    as luzes e percalços dos pioneiros da terra,
    não estamos num beco sem saída.
    Mas o reduto é de trevas
    E a prova palpável da luz
    Pode ser o ósculo dos camaradas
    Que compartilham a estrada.
    (num aniversário do Minhoca)

  • Antonio Pinheiro Salles

    Antonio Pinheiro Salles

    Nascido em Estrela, Minas Gerais, Antonio Pinheiro Salles já na adolescência militou no movimento estudantil. Iniciando como jornalista, foi vereador e líder universitário, sofrendo reiteradas prisões. Procurando preservar-se, pas­sou à vida clandestina na Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul. Como membro do POC, foi sequestrado neste estado, sofrendo inomináveis torturas. Anistiado, retomou a ação política, publicou vários livros de memória e é ativista de Direitos Humanos por Memória, Verdade e Justiça.
    O Adeus a Porto Alegre
    Não mais serei levado para o país do sul
    Onde, apesar dos pesares, pude sobreviver
    E te ver, te conhecer, te amar, te desejar
    Como se não fossem tantas as turbulências
    Como se o adeus ao porto de Porto Alegre
    Não estivesse na posse das possibilidades.
    É incrivel, mas sempre eu sabia da beleza,
    Até se a tristeza e a dor não adormeciam.
    Tu decidiste ser a minha serenidade
    Em cada visita me apresentando a vida
    Plena de nuanças novas, de esperanças
    Ressuscitadas e graças sem agradecimentos.
    Coisas que não te disse, macias pétalas
    Guardadas para te oferecer no amanhecer
    Talvez nunca possam mesmo ultrapassar
    Sustos, soluços e solidões da minha cela.
    Mas o amor não tem data nem concordata,
    Ainda que o terror não reconheça o amor.
    Não mais serei levado para o país do sul,
    Não nos veremos após a espera desesperada
    Havia névoa no voo da velha aeronave
    E uma nívea revolta na volta das algemas.
    O perfil de Porto Alegre foi fenecendo
    Enquanto tu sonhavas sem saber de mim.
    Tudo ficou distante… Teus olhos verdes
    Eu não vou conseguir mais ver de perto
    Em teus pagos peleamos; desafiamos o fogo,
    O frio, o minuano, a imensidão do mundo.
    Hoje, o Guaíba nasce e desce em minha face
    Quando penso em ti, tua força, tua cidade.

  • Antônio Alberi Malfi

    Natural de Passo Fundo (RS), militou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Preso em 1970, foi condenado pela 3ª Auditoria Militar de Santa Maria. Cumprida a pena, continuou sendo perseguido, tendo que exilar-se nos seguintes países: Chile, México, Bélgica e Argentina. Casado com Ieda Maria Andreatta Maffi. Após retornar do exílio, foi professor universitário, na Universidade de Ijuí, de Cultura Brasileira, Literatura Brasileira, Literatura Latino Americana, Literatura Portuguesa e Literatura Africana de Língua Portuguesa. Ativista político e dos Direitos Humanos, elegeu-se prefeito municipal de Braga (RS), por dois mandatos (1983/88 e 1993/96). Autor de um livro de poesias, escrito durante a prisão, que foi confiscado pelos militares.
    Dos Motivos
    Escrevemos porque nos falta o tempo
    de purgar a grande dor coletiva
    e na poesia que fazemos
    trazemos nossa esperança rediviva.
    Fazer versos é mais que manifesto:
    hoje, é luta e testemunhos.
    É um cerrar de punhos
    e um grito de protesto.
    Cantemos, pois, com a certa convicção
    de que calar é mais trágico e atroz.
    Infeliz o que sabe a canção
    e, no entanto, emudece a voz.
    Cicatrizes
    Crava-se na memória
    o espinho
    e a dor escorre
    como sangue.
    Na desesperança desencarnada
    de uma terra seca de searas
    pedras sobre pedras
    O suor é o sonho.
    As manhãs e as claras madrugadas
    foram apenas festas que a noite castrou.
    O espinho encravado no miolo da esperança
    na sutura dos ossos
    no pêndulo do nervo
    na paz do sangue
    na sagração dos dias
    na origem do pasmo
    na confluência da dor
    nas raízes da terra
    e na carnadura da pedra
    agride nossas cicatrizes.
    No eixo do tempo,
    a memória.
    Mas não serei eu
    agreste e perdido
    que há de lavar o sangue
    das mãos que mataram nos porões
    do tempo.
    Da dor vertida no peito
    feito lágrima e fel
    sabem o fio da faca
    e prumo da História.
    Da noite, sabemos nós
    que viemos do mundo dos abismos
    carregando almas naufragadas
    salitre nas feridas
    mágoas no peito
    e engasgo na garganta.
    Nós, que de muito plantar
    no escuro da noite
    as palavras que nos marcavam
    os sonhos que nos embalavam
    e os mitos que nos mantinham
    restamo-nos, sobreviventes,
    amanhecendo cicatrizes.
     
    Precariedade
    As precárias palavras
    no papel
    concentram a vontade do canto.
    Mas nada se revela
    nesta noite de mudez
    que não sejam inúteis, velhos
    e cansados gestos.
    O nó na garganta.
    A espinha do peixe
    não fere mais que o silêncio.
    Tudo é provisório
    nesta noite.
    Eu. Você. O ditador.
    E o nó.
     

  • Apresentação

    Pois aquele que hoje
    Derrama seu sangue comigo,
    Será meu irmão.
    William Shakespeare,
    em “Henrique V”, ato IV, cena 3
     
    Raul Ellwanger

    Raul Ellwanger

    Após mais de cinco décadas do golpe patronal-militar de 1964, a revelação das atrocidades oficiais e a memória da resistência popular tem trazido à opinião pública fatos, nomes, documentos e revelações que ajudam a recompor a verdade daqueles anos dolorosos. Cada grão dessas lembranças vai somando na construção do verdadeiro quadro social e cultural da época, desde o grande evento mediático dos tiranos (paradas militares, manchetes jornalísticas, inaugurações), até pequenos gestos de solidariedade e amor esquecidos na sombra dos calabouços ou silenciados no abrigo dos lares. Fazer luz sobre a época ditatorial permite ao cidadão de hoje orientar sua participação pessoal e política, fazendo da pedagogia da memória uma ferramenta para aperfeiçoar a vida atual.
    O presente volume quer trazer à luz um aspecto especial e peculiar da vida dos resistentes, com a edição de poemas criados em situação de ameaça, coerção, dor física, desamparo e amedrontamento. Com sua carga de beleza e fantasia, de ilusão política, de devaneios e amores, de reflexões e autocríticas pessoais, estas obras urgentes misturam o poder natural da palavra poética com a dramática situação de vida daquelas moças e moços.
    Ora na clandestinidade ou sob tortura, ora em sequestro incógnito ou no exílio, ora na arriscada vida cotidiana, a opositora e o opositor ao regime recorreram à poesia para se expressar. Seria o jogo poético um lenitivo para suas dores, seriam suas odes canções de esperança, seriam suas rimas gritos de liberdade, seriam somente o derrame de suas tristezas, seriam apenas um consolo ante o andar lento do tempo encarcerado, seriam simples vocações poéticas e nada mais?
    Alguns foram cantores de uma só canção, outros seguiram no generoso ofício de poetar. Alguns deitaram suas estrofes sob ameaça de violência imediata, no interior mesmo de prisões, na antessala do choque elétrico. Outros, durante intermináveis dias e noites de longas condenações ilegais nos insalubres presídios e quartéis, na revista corporal indecorosa. Alguns terão entornado em ocultos papelotes de cigarro seus sonetos de amor por um noivo ou uma visitante solidária. Houve mesmo rabiscos de grampos no reboco de paredes. Alguns escreveram no bojo de jornadas de lutas de rua, em confronto físico com os esbirros. Decerto também escreveram na calada da noite, em seus lares à pouca luz, ocultando estrofes na frincha dos colchões.
    Subversiva por natureza, foi a poesia com frequência vitimada pelos totalitarismos. São figuras emblemáticas alguns magníficos poetas, como Federico Garcia Lorca executado na Espanha, Nazim Hikmet prisioneiro na Turquia, Pablo Neruda exilado do Chile e Juan Gelman exilado da Argentina, Mario Benedetti exilado e Liber Falco assassinado no Uruguai, Otto René Castillo incinerado na Guatemala, José Martí mutilado e assassinado em Cuba, o catalão Joaquín Amat Piniella e seus poemas encontrados com sessenta anos de atraso, também Javier Heraud morto no Perú, os assassinados na Argentina Tilo Wenner e Roberto Santoro, Ernesto Cardenal oprimido na Nicarágua, incluindo a Roque Dalton “justiçado” por companheiros em El Salvador. Desde a época da Inconfidência Mineira até o regime de 1964, nossos vates sentiram o peso da perseguição, como Thiago de Mello e Ferreira Gullar que provaram o pão amargo do exílio nas últimas décadas, como Fernando Batinga (preso no Estádio Nacional de Santiago) e José Falcón no Chile, onde este último termina por suicidar-se.
    Na presente seleção, onde as lacunas são inevitáveis, destacamos a figura do poeta cachoeirense Nilton Rosa da Silva, assassinado no Chile, e de Manoel Raymundo Soares, militar paraense vitimado em Porto Alegre, de quem publicamos trechos de cartas à esposa. Aqueles que ofereceram seu sangue pela liberdade, se tornam carne e unha de seus povos, ainda mais quando o fizeram longe de seu torrão.
    Dois poetas prisioneiros se destacam no Brasil: Alex Polari e Pedro Tierra. Sob grave sevícia e ameaça de vida, encontraram a fortaleza espiritual para registrar o sentimento coletivo de toda uma época e a percepção sensível de sua delicada situação pessoal. Entregaram à sociedade brasileira e mundial seu brado de protesto, sua denúncia das desumanidades, sua perplexidade juvenil ante um mundo bárbaro e, acima de tudo, ofertaram toda a imensa beleza guardada em seus corações. Contaram para isso com a coragem de mães e pais, amigos companheiros e advogados, que sob grave risco escoavam precários manuscritos até solidárias mãos, para salvá-los e tentar publicá-los. Assim, estes braços fraternos velaram pelo nascimento e existência de obras que hoje são pérolas da cultura democrática do Brasil.
    A seleção que se reúne neste volume abdica de qualquer valoração estética. Busca apenas redescobrir e colocar ao alcance do público atual a faceta quase perdida de alguns dos nossos “poetas da dura noite”. Nem poderia a perseguição ser critério de excelência artística. Ambicioso seria esperar de todo versejador ameaçado que realizasse a façanha de José Hernandez, poeta argentino que no exílio rio-grandense construiu seu épico “Martin Fierro”, marco da poesia popular e telúrica do extremo meridional da América. Nos basta com dizer da bondade, da beleza e da generosidade de homens e mulheres que ousaram atrever-se a lutar e vencer no terreno da arte durante os momentos mais terríveis de suas vidas frágeis e desamparadas.

    Porto Alegre, junho de 2019

  • Leite fala em "vender trechos" do Cais Mauá para restaurar armazéns

    Leite fala em "vender trechos" do Cais Mauá para restaurar armazéns

    Em entrevista nesta manhã de quinta-feira, 30, o governador Eduardo Leite deixou claro que não pretende renovar ou repactuar o atual contrato de concessão do Cais Mauá, assinado há quase dez anos. “Vamos ter que buscar outro modelo, que tenha sustentabilidade”, disse Leite.

    Uma alternativa em estudo, segundo ele, seria “vender trechos do cais para empreendedores privados”, usando os recursos dessas vendas para restaurar os armazéns, onde seria desenvolvido um núcleo de economia criativa.

    O governador ainda vai ouvir a Procuradoria Geral do Estado na quinta-feira, mas a tendência é encerrar o contrato por descumprimento da parte do concessionário.

    Um relatório técnico entregue ao governador há duas semana aponta sete pontos do contrato que não foram cumpridos, a começar pelo pagamento do arrendamento previsto, em atraso há mais de ano.

    Leite disse que nas condições atuais nem o Cais Embarcadero, plano alternativo para dar início às obras, se sustenta, porque configura um subarrendamento, o que é vedado pelo contrato.

    A solução de vender trechos do cais a empresas privadas depende de um acordo com o governo federal, para que  a área seja excluida da poligonal portuária. O governador disse que está negociando isso em Brasilia.
    (Vem aí o Dossiê Cais Mauá impresso. Garanta seu exemplar).

  • A imprensa e o “efeito contágio”

    A imprensa e o “efeito contágio”

    Por Tiago Lobo

    O jornalismo brasileiro vem explorando exaustivamente casos de assassinatos em massa e, dependendo de como isso é feito, pode ser muito nocivo.  

    Desde 1985 a American Psychological Association (APA) alerta para o fato de que crianças e adolescentes podem tornar-se menos sensíveis à dor alheia ou sentir-se amedrontados após a exposição a programas violentos na televisão. Em relatório a APA indicava que programas infantis freqüentemente apresentavam até vinte cenas contendo agressões, a cada hora.

    Para Donna Killingbeck, pesquisadora da Universidade do Leste do Michigan, nos E.U.A., medidas de segurança como revistas em estudantes, policiamento dentro das escolas e contratação de empresas especializadas, como resposta adotadas após tiroteios e ameaças, geram mais problemas e provocam uma percepção distorcida por parte da população que compreende as tragédias através da mídia.

    Isso pode levar a população a superestimar o risco de morte que as crianças e adolescentes correm nas escolas. A conclusão do estudo, publicado em 2001, “The role of television news in the construction of school violence as a “moral panic”” (“O papel do telejornalismo na construção da violência escolar como “pânico moral””) é que estas medidas não têm ajudado a evitar tragédias.

    Um ano depois de Killingbeck levantar o debate sobre a mídia e as medidas de segurança adotadas que seriam prejudiciais, três pesquisadores de Harvard concluiram que tiroteios em massa são eventos raros e representam um percentual muito baixo no leque de causas de mortes de crianças e adolescentes em geral, e mesmo de crianças e adolescentes na escola.

    David James Harding, Jal Mehta e Cybelle Fox em “Studying rare events through qualitative case studies: Lessons from a study of rampage school shootings” (“Estudando eventos raros através de estudos de caso qualitativos: Lições de um estudo de tiroteios na escola”) chamam atenção ainda para os perigos de percepções distorcidas que podem reforçar a justificativa de medidas extremas ineficientes.

    A física Sherry Towers, da Universidade do Estado do Arizona (E.U.A) estudou o “efeito de contágio” de tiroteios em massa e concluiu que a cobertura da mídia nacional acaba aumentando a frequência dessas tragédias.

    “Nossa pesquisa examinou se havia ou não evidências de que assassinatos em massa podem inspirar cópias. Encontramos evidências de que os assassinatos que recebem atenção da mídia nacional ou internacional realmente inspiram eventos similares em uma fração significativa do tempo”, disse em entrevista ao site da Universidade do Arizona, em 2015.

    Ela compara crimes inspirados em tragédias anteriores a uma doença, onde você geralmente precisa de um contato próximo para espalhá-la e afirma que os meios de comunicação agem como um “vetor” que pode transmitir a infecção através de uma área muito grande. Mas ressalta que pessoas suscetíveis à ideação para cometer esses crimes são bastante raras na população. É por isso que ela conclui que é necessária muita cobertura midiática sobre uma ampla área geográfica para que esse tipo de “contágio” ocorra.
    The Intercept Brasil propõe caminho
    No dia 23 de março, o The Intercept BR enviou um editorial aos seus leitores via boletim semanal, por e-mail. Assinado pelos jornalistas Tatiana Dias e Alexandre de Santi, o texto “Como derrubamos duas páginas de ódio sem dar audiência para elas” compartilhou um autoexame pela equipe do veículo e, ao mesmo tempo, sugeriu caminhos efetivos para a imprensa lidar com conteúdos de ódio e criminosos que buscam notoriedade.

    O Intercept decidiu abrir mão da “notícia” e, de certa forma, se transformou nela: pressionaram Google e Facebook para remover duas páginas que disseminavam conteúdo de ódio e conseguiram.
    “disseminar um conteúdo de ódio – ainda que for como denúncia – não é mais importante do que agir para que ele seja removido o mais rápido possível, cobrando responsabilidade de quem deve ser cobrado. Se Google e Facebook não tivessem derrubado os vídeos, publicaríamos uma reportagem denunciando a omissão. Felizmente, não foi necessário. Esperamos que não seja necessária a pressão de um jornalista para que isso aconteça”.

    A política editorial adotada pelo veículo pode ser ancorada em um sem número de estudos que concluem que atiradores em massa e propagadores de ódio buscam fama e que a ausência deste debate na cobertura da imprensa nacional é extremamente perigosa. Grandes grupos de comunicação com seus rádios, tvs e jornais repercutiram cada suposta novidade, ou meras especulações sobre Suzano sem observar critérios pré-estabelecidos no código de ética do jornalismo brasileiro e recomendações internacionais para lidar com este tipo de assunto. Ato falho, talvez, mas leviano.

    O código de ética do jornalismo brasileiro, documento máximo do profissional da imprensa, deixa claro em seu artigo 2º, incisos I e II que  “a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação (…) e que as informações divulgadas “devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público”.

    Interesse público é, antes de mais nada, uma norma jurídica e um princípio do sistema constitucional brasileiro que significa que os direitos e garantias individuais de cada cidadão conhecido como “interesse particular”, se somam e formam o que se entende por interesse público.
    Celso Antônio Bandeira de Mello, jurista e professor da PUCSP, o define como “a soma de interesses individuais, a ser representado por uma instituição jurídica comum: o Estado, o Poder Público”.

    Estes interesses individuais referem-se ao campo dos direitos constitucionais e adquiridos, como mais segurança nas ruas, 13º salário e etc. Não englobam desejos e anseios abstratos. E aí é que mora a confusão onde se confunde “interesse público” com interesse “do” público. Este último não representa coletividade, mas audiência.

    Portanto, outro trecho do texto do The Intercept merece destaque:
    “o papel da mídia e dos intermediários que também funcionam como mídia, como Google e Facebook, precisa ser discutido. Se a sociedade valoriza a violência, nós vamos dar a ela o que ela quer ver, exacerbando o ódio? Ou assumir uma postura mais responsável?”, defende o The Intercept BR. 

    O código de ética da profissão, novamente, indica em seu artigo 7º, inciso V, que o jornalista não pode “usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime”.

    O artigo 11º diz ainda que o jornalista não pode divulgar informações “de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes”.

    Portanto, o efeito indireto da cobertura desregrada da imprensa é, de forma não intencional, uma afronta ao seu próprio documento deontológico.
    Dont Name Them e No Notoriety
    Você deve ter percebido que a série de reportagens “As redes do ódio” não cita o nome de nenhum dos atiradores e isso é proposital.
    Decidimos aderir a algumas diretrizes de sites como Dont Name Them (“Não nomeie-os”), e No Notoriety (“Sem notoriedade”) para não darmos, justamente, o que eles queriam: fama, notoriedade, reconhecimento e validação.

    Sob autorização do psicólogo Dr. Daniel Reidenberg, diretor-executivo do SAVE.ORG (Suicide Awereness Voices of Education), gerente do Conselho Nacional de Prevenção ao Suicídio dos E.U.A. e secretário geral da Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP), a ONG de Jornalismo e Direitos Humanos Pensamento.org, traduziu um documento, antes disponível apenas em inglês no site www.reportingonmassshootings.org, que oferece recomendações sobre como a mídia pode cobrir um incidente em que uma pessoa (ou um pequeno grupo) atira em vários outros em um ambiente público. Esse projeto foi liderado pelo SAVE e incluiu especialistas nacionais e internacionais do AFSP, do CDC, da Universidade de Columbia, da Força-Tarefa de Mídia do IASP, JED, NAMI-NH, SPRC e vários especialistas do setor de mídia.

    Você pode realizar o download, gratuitamente, no link Portuguese (BR) translation.

    Sinta-se livre para compartilhar este documento.
    Acompanhe as reportagens da série:

  • Motivação divide especialistas

    Motivação divide especialistas

    Por Tiago Lobo

    A puberdade masculina dá os seus primeiros sinais entre os 9 e 14 anos: os testículos aumentam, pelos começam a surgir pelo corpo, a voz engrossa e a produção de testosterona (o hormônio masculino) faz com que o sistema reprodutivo, ossos e músculos amadureçam. E também pode mexer com o cérebro.

    O consenso na comunidade científica internacional é que o hormônio possui um efeito facilitador sobre a agressão, mas não age sozinho. Presos violentos, por exemplo, possuem níveis mais altos de testosterona que seus pares mais dóceis.

    “Pelo o que podemos dizer até agora, a testosterona é gerada para preparar o organismo para responder a competição e/ou desafios à situação de alguém”, explica Frank McAndrew, professor de psicologia no Knox College em Galesburg, Illinois, Estados Unidos, em entrevista a Scientific American Brasil.

    “Qualquer estímulo ou evento que sinaliza uma dessas coisas pode desencadear uma elevação nos níveis do hormônio”, relata o professor.

    Exposição a violência afeta habilidades sociais

    Augusto Buchweitz, pesquisador do Instituto do Cérebro do RS (InsCer) da Pontifícia Universidade Católica do RS (PUCRS), analisou como a exposição à violência afeta o cérebro de adolescentes por meio de neuroimagens (imagens do cérebro). A pesquisa da sua equipe, publicada na revista científica internacional Developmental Science, aplicou um questionário para adolescentes de escolas de Porto Alegre, algumas situadas em bairros com os maiores índices de violência da capital.

    Os jovens tinham o cérebro monitorado por imagem enquanto deviam decidir o estado mental de pessoas vistas em fotos onde apenas os olhos eram mostrados. As áreas que envolvem a percepção e a cognição social (a parte da sociabilidade) eram menos ativadas em jovens que tinham um histórico de maior exposição à violência. Nestes jovens, ao mesmo tempo, a conectividade da amígdala (conhecida como o “centro do medo” do cérebro) foi maior. Os níveis de cortisol, medidos por amostras de cabelo, também eram mais elevados nos jovens mais expostos à violência.  

    O estudo sugere que a violência pode afetar várias sub-habilidades importantes para a convivência em sociedade, como a empatia.

    “Não se pode dizer se isso vai ter efeitos futuros, mas estudos mostram que este tipo de funcionamento atípico pode aumentar o risco para transtornos de humor, por exemplo”, explica o pesquisador em entrevista ao site da PUCRS.

    Agora imagine um espaço na internet criado exclusivamente para estimular jovens recém-saídos da puberdade a cometer atentados e propagar o ódio. E imagine se estes jovens forem virgens e vítimas de bullying. O efeito tem se mostrado desastroso.

    Receita perigosa

    Famílias disfuncionais, má influência, busca de fama e poder: essa é uma receita perigosa (mas não definitiva) segundo os estudos do psicólogo Peter Langman, pesquisador do Centro Nacional de Avaliação de Ameaças do Serviço Secreto dos Estados Unidos e autor do livro “Why Kids Kill: Inside the Minds of School Shooters” (“Por que jovens matam: por dentro das mentes de atiradores em escolas”), que vem dedicando boa parte da vida ao estudo do tema.

    O psicólogo Peter Langman dedica boa parte da vida a estudar tiroteios em massa (Foto: arquivo pessoal)

    Ele mantém o site School Shooters, que agrega uma base de dados com 150 casos reportados em 10 países desde 1913. São eles: Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, Escócia, E.U.A., Finlandia, França, Suécia e Ukrânia. O site também oferece recomendações para prevenir ataques.
    No artigo Rampage school shooters: A typology (“Atiradores de escolas: uma tipologia”), de 2009, Langman analisou 10 casos e classificou estes jovens em três tipos: traumatizados, psicóticos e psicopatas.

    Da amostragem analisada três eram traumatizados, cinco psicóticos e dois psicopatas.

    Os três atiradores traumatizados vieram de lares desfeitos com abuso de substâncias e comportamento criminoso pelos pais. Todos foram fisicamente abusados ​​e dois foram abusados ​​sexualmente fora de casa.

    Os cinco atiradores psicóticos tinham transtornos do espectro da esquizofrenia, incluindo esquizofrenia e transtorno de personalidade esquizotípica. Todos eles vieram de famílias intactas, sem histórico de abuso.

    Os dois atiradores psicopatas não foram abusados ​​nem eram psicóticos. Eles demonstraram narcisismo, falta de empatia, falta de consciência e comportamento sádico.

    Apesar de ajudar a compreender um pouco a mente dos atiradores, estes perfis estão muito longe de servirem como base para identificar possíveis novos autores, visto que  “a maioria das pessoas traumatizadas, psicóticas e psicopatas não cometem assassinato”, segundo Langman enfatiza.

    Ele indica que 82% dos autores desses atentados cresceram em “famílias disfuncionais” e que um “desejo de fama” ou de “se sentir masculino e poderoso” costuma ser a motivação.

    Para caracterizar uma “família disfuncional”, ele cita fatores como ausência dos pais, infidelidade, divórcio, dependência química, comportamento criminoso, violência doméstica e abuso infantil.

    Langman explica o que ao se juntarem a fóruns online que debatem assassinatos em massa, jovens que se sentem deslocados conquistam um grupo e se unem a uma subcultura na qual podem se sentir especiais, diferentes e superiores à sociedade dominante.

    “Quanto mais sentem que não são ninguém / nada, mais são levados a se sentirem poderosos por meio de ideologias de superioridade e ódio”, disse ao repórter.

    Para Langman, existem alguns mitos a serem superados: a conexão entre atiradores como vítimas de bullying é imprecisa.

    “Não que isso nunca seja verdade, mas seu significado foi muito exagerado”, declarou o pesquisador ao site Monitor on Psychology.

    A ideia de que apenas adolescentes solitários cometem estes crimes também merece atenção: Langman encontrou atiradores entre 11 e 62 anos em suas pesquisas, sendo a maioria deles adultos. Muitos atiradores de escolas não estão isolados: diferente da maioria dos casos brasileiros.

    Langman revela que meninas podem, sim, puxar o gatilho. Mesmo que isso seja menos comum: com base em uma análise dentro de um período de 50 anos de casos documentados, 95,3% dos atiradores eram homens e 4,7% eram mulheres.

    A maioria dos atiradores não possui alvo específico. Dos 48 analisados no livro de Langman, “School Shootters” (“Atiradores de Escola”, ainda inédito no Brasil), apenas um visou um desafeto. Quando existe um alvo, na maioria das vezes, eles são funcionários da escola, professores e administradores. Os próximos alvos mais comuns são meninas.

    As motivações para perpetrar um tiroteio em massa formam uma rede complexa e de mapeamento intrincado: “entre os adolescentes, pode ser que um garoto tenha terminado um namoro na mesma época em que é suspenso da escola, em que recebe uma multa de trânsito ou é preso por alguma coisa, mais ou menos na mesma época em que tem problemas em casa ou não”. Langman explica que uma sucessão de “fracassos”, falhas ou retrocessos acontecendo com alguém que é psicopata, psicótico ou traumatizado, gera uma combinação de dinâmicas psicológicas e eventos de vida que colocam as pessoas em um caminho de violência. Entre os adultos, casamentos fracassados, fracassos ocupacionais e, principalmente, dificuldades financeiras são elementos críticos.

    Outro dado importante: atiradores com menos de 20 anos geralmente têm algum tipo de influência externa, seja alguém recrutando-os para participar de um ataque ou de um “modelo”.

    “Eu encontrei pelo menos uma dúzia de atiradores que foram atraídos por Hitler e os nazistas. Também poderia ser um modelo fictício: o filme “Assassinos Naturais” foi citado por vários atiradores”. Trata-se de um filme policial satírico de 1994 dirigido por Oliver Stone, com roteiro de Quentin Tarantino. 

    Um relatório publicado em 2004, pelo Serviço Secreto dos E.U.A. em parceria com o Departamento de Educação norte-americano, revisou 37 casos envolvendo 41 atiradores entre ataques e tentativas ocorridos em 26 estados de 1974 até 2000. O objetivo do documento “The Final Report and Findings of the Safe School Initiative” (Algo como “O relatório final e os resultados da Iniciativa Escola Segura”), que você pode acessar aqui (em inglês), era compreender o fenômeno e lançar propostas preventivas.

    A conclusão do relatório vai de encontro com os resultados das pesquisas de Langman: não há um perfil psicológico ou demográfico característico dos atiradores em escolas. No entanto, o relatório sugere variáveis que podem ser identificadas na maioria dos casos.

    As mais significativas são:

    • A dificuldade dos atiradores em lidar com perdas significativas e falhas pessoais
    • A manifestação de comportamentos anteriores que sinalizavam que eles precisavam de ajuda
    • O fato de terem sido ou serem vítimas de perseguições e humilhações de colegas.

    Langman defende que idealmente as escolas e universidades deveriam contar com equipes de avaliação de ameaças, multidisciplinares, incluindo administração, corpo docente, forças policiais, saúde mental e, às vezes, representação legal. A principal tarefa dessas equipes seria investigar ameaças de violência e separar falsos alarmes de violência potencial ou iminente.

    “Nada é simples aqui, mas os psicólogos estão na melhor posição para entrevistar e avaliar alguém, procurando por evidências de uma personalidade psicopata, questões psicóticas, histórico de trauma e para construir um relacionamento com essa pessoa para avaliá-los”, defende.

    Influência do meio e família
    A pesquisadora Eva Fjällström, da Luleå University of Technology, ao norte da Suécia, publicou um ensaio em 2007 onde defendeu que, em tiroteios em massa, as famílias não são “causas”, mas têm uma participação importante e determinada responsabilidade: “o que pode parecer ser um ato de loucura pode ser melhor entendido como resultante da ausência de orientação que leva a uma falta de estabilidade e segurança básicas. Amigos solidários e uma família solidária são essenciais para todos os indivíduos, especialmente adolescentes, e as conseqüências, se não houverem tais relações, podem, como vimos aqui, ser devastadoras”, conclui Fjällström .

    A dupla Stephen Thompson e Ken Kyle, no artigo “Understanding mass school shootings: Links between personhood and power in the competitive school environment” (“Entendendo o tiroteio em massa nas escolas: ligações entre personalidade e poder no ambiente escolar competitivo”), publicado em 2005, acrescentaram um ponto de vista interessante a esta investigação. Segundo eles a preocupação não deve ser com o perfil psicológico dos atiradores, mas com os perfis dos meios onde os massacres ocorrem e como isso pode influenciar as respostas de estudantes despreparados para estes ambientes.

    Outras pesquisas, como a de Gary e Alison Clabaugh, “Bad Apples or Sour Pickles? Fundamental Attribution Error and the Columbine Massacre” (“Maçãs podres ou picles azedo? Erro Fundamental de Atribuição e o Massacre de Columbine”), também de 2005, sugerem que quando psiquiatras e psicólogos a serviço Departamento Federal de Investigação dos E.U.A., o FBI, divulgam os supostos perfis psicológicos dos atiradores, acabam provocando ondas de discriminação e gerando mais tensão em escolas com alunos que passam a ser identificados como socialmente inaptos e assassinos em potencial.

    Ódio às mulheres
    No Brasil, a maioria dos atiradores odiavam mulheres.
    De acordo com o estudo “Meta-Analyses of the Relationship Between Conformity to Masculine Norms and Mental Health-Related Outcomes” (“Meta-Análises da Relação entre a Conformidade com as Normas Masculinas e os Resultados Relacionados à Saúde Mental”, em tradução livre), da Universidade Estadual de Indiana, nos E.U.A, homens com comportamento playboy e que buscam poder sobre as mulheres são mais propensos a ter problemas psicológicos. A análise se ateve a 11 dimensões de masculinidade e reuniu dados de 78 estudos sobre saúde mental e percepções de masculinidade de 19.453 homens analisados.

    “As normas masculinas de Playboy e “poder sobre as mulheres’ são as normas mais intimamente associadas a atitudes sexistas”, disse Joel Wong, líder da pesquisa.

    “A associação robusta entre a conformidade com essas duas normas e resultados negativos relacionados à saúde mental ressalta a ideia de que o sexismo não é meramente uma injustiça social, mas também pode ter um efeito prejudicial na saúde mental daqueles que adotam tais atitudes.”

    Ainda mais preocupante, disse Wong, era que os homens que se conformavam fortemente com as normas masculinas tinham mais probabilidade de ter problemas de saúde mental, mas também menores chances de procurar tratamento.

    Simone de Beuvoir já dizia, em seu livro “O Segundo Sexo”, que “o masculino se impõe ao anular o outro (feminino)”. Ela segue atual.

    Acompanhe as reportagens da série: