Autor: Elmar Bones

  • Em discurso de candidato, ex-governador Ivo Sartori diz que não é candidato em 2022

    Em discurso de candidato, ex-governador Ivo Sartori diz que não é candidato em 2022

    No encontro do MDB sexta-feira, em Caxias, só ficou certa uma coisa: o partido vai ter candidato ao Palácio Piratini em 2022. Quem?

    O deputado federal e atual presidente do partido no Estado, Alceu Moreira, já lançou sua candidatura, mas enfrenta resistências.

    O morubixaba Pedro Simon aposta em Ivo Sartori, e há até um movimento com bordão e tudo (“Um dois três, Sartori outra vez”), para trazer o ex-governador de volta.

    Para barrar Moreira, o único nome disponível no momento talvez seja mesmo Ivo Sartori

    O problema é que Sartori não quer ou diz que não quer. Ele argumenta que já deu “sua contribuição”, mas Sartori é “um soldado do partido”, como ele sempre diz. Se o partido quiser mesmo, ele vai.

    Se ele realmente não for, o nome do atual presidente da Assembleia,  Gabriel de Souza, está na fila.  Tem ainda o empresário Roberto Argenta que “já disse que quer ser candidato” e o ex-vice-governador José Paulo Cairoli, que diz não por enquanto.

    Alceu Moreira já colheu um revés: queria a definição do candidato em 4 de dezembro, mas o partido decidiu por uma prévia no início do ano que vem.

    Em seu discurso, o mais esperado do encontro partidário em Caxias, o ex-governador Sartori foi enigmático, como sempre.

    Os militantes do MDB, em coro, pediam “Sartori outra vez”. Ele disse que já deu sua contribuição e que o MDB precisa se renovar.

    Na véspera, em reunião com a velha guarda do partido, prometeu deixar no ar alguma esperança, até que se construa  uma candidatura alternativa à do presidente Alceu Moreira.  Provavelmente, a dele mesmo.

  • Subsídio para baixar os preços dos combustíveis, velha ideia que não dá certo

    Subsídio para baixar os preços dos combustíveis, velha ideia que não dá certo

    Ivanir José Bortot

    A iniciativa de subsidiar os preços dos combustíveis ao consumidor com recursos públicos é um sinal grave de retrocesso nos instrumentos de política monetária de controle da inflação.

    O mecanismo de subsídios e mesmo tabelamento de preços foram usados e geraram grandes distorções na economia. É que este instrumento acaba trazendo muito mais benefícios aos produtores do que aos consumidores.

    O Plano Real, que acabou com a inflação ao criar um ambiente de livre competição e estabelecer a paridade de um dólar por um real, eliminou muitos subsídios que existiam.

    Os subsídios do açúcar e do álcool pouco contribuíram para controlar a inflação e mesmo assim sangravam os recursos públicos.

    Em 1999, quando foi eliminado totalmente o subsídio ao álcool, o Tesouro Nacional deixou de repassar R$ 348 milhões aos usineiros.

    A ideia dos lobistas no Congresso Nacional é permitir ao Tesouro Nacional direcionar as receitas obtidas da Petrobras como dividendos, impostos e royalties, para formação de um fundo cujos recursos seriam usados para mitigar o aumento nos preços dos combustíveis.

    Os defensores esquecem que hoje estes recursos são destinados pelo Tesouro para fazer frente a diversas despesas correntes, como educação, saúde, custeio da máquina pública.

    Na prática, estes recursos teriam impacto sobre o resultado fiscal e o teto constitucional de gastos do orçamento da União.

    Os  parlamentares também articulam uma proposta que limitaria o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) aplicável aos combustíveis.

    Os governadores resistem a qualquer mudança, pois este é um tributo fácil de arrecadar e nenhum deles quer perder receita em 2022, ano em que esperam renovar seus mandatos.

     

  • “Transporte público tem contratos primitivos”, segundo presidente da Agergs

    “Transporte público tem contratos primitivos”, segundo presidente da Agergs

    O engenheiro Luiz Afonso Senna anda sem tempo para responder perguntas nestes dias em que o transporte público coletivo é a principal discussão, não só em Porto Alegre, como na maioria das grandes cidades brasileiras.

    Reconhecido especialista em transportes e mobilidade urbana, o engenheiro Senna é o atual presidente da Agergs, a Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Rio Grande do Sul, que tem entre seus objetivos “permitir o amplo acesso às informações sobre a prestação dos serviços públicos”.

    Em entrevista à Radio Gaúcha, há um ano, ele disse: “Nós temos hoje nas grandes cidades, não é só Porto Alegre, são  arranjos econômicos financeiros muito primitivos. Há uma lógica que incentiva o aumento de custos”.

    Há um mês, com a emergência da questão do transporte público, em colapso no país inteiro, o JÁ pediu uma entrevista ao engenheiro Senna, para aprofundar o sentido de suas declarações.

    Através de sua secretária, ele respondeu que “não tem tempo”.

    Como consideramos importante sua manifestação, pelo cargo que ocupa e pela qualificação que tem, mandamos cinco perguntas básicas sobre o tema que é hoje o principal debate de Porto Alegre, realidade que ele conhece muito bem.

    Até o momento não recebemos resposta.

    Como ele também não desmentiu ou fez reparos às declarações ao Painel Atualidade, da Rádio Gaúcha, no dia 23 setembro de 2020, decidimos reproduzir o que ele disse, como parte do debate que pretendemos estimular sobre o transporte público coletivo – essa questão tão essencial e tão pouco esclarecida.

    “Os contratos são primitivos”

    O transporte público coletivo precisa se reiventar. Isso é algo que vem sendo discutido há muito tempo. Tem que ter arranjos financeiros robustos, modernos e atuais”.

    “Nós temos hoje nas grandes cidades, não é só Porto Alegre, muito primitivos os arranjos econômicos financeiros que eles possuem. Há uma lógica que incentiva o aumento de custo e coisas do gênero”.

    “Tem que ter arranjos inteligentes e acho que a pandemia está acelerando este processo.  Os processos tem que literalmente se reinventar. Eu agora estou com uma experiência muito rica que é ser presidente da Agergs que regula setores diferentes de infraestrutura. Agua e saneamento, energia…”

    “Eles tem arranjos econômicos financeiros muito sólidos por isso eles conseguem inclusive passar por crises como essas que nós estamos passando sem maiores problemas.”

    “”E o sistema de transporte público que tem arranjos muito precários, muito primitivos, ele obviamente tem problemas muito maiores. As causas, a quebra de demanda que já vinha acontecendo de um forma constante ao longo do tempo. Essa reinvenção passa por trazer o sistema para o século XXI”.

    “Eu tenho comentado muito, os aplicativo vieram pra ficar mas o impacto deles em países e nas cidades que são muito bem organizados e que tem o planejamento realmente efetivo, sério e profundo foi muito pequeno. Na realidade o aplicativo se somou, complementou o sistema já existente”.

    “Nenhum sistema na Europa, nos EUA, nesses países mais avançados nenhum sistema quebrou por causa de aplicativo e aqui tá quebrando, porque? Por que lá num planejamento se define o espaço de cada um e aqui não se fez isso”.

    “Não se poder ter um sistema regulado e um outro não regulado. Aí passa pela palavra planejamento que o país é muito precário a planejamento mais robusto. O aplicativo é um complemento e vão ter outros e vou dizer mais: a bicicleta passa a ser uma utilização muito maior’.

    “A gente precisa de um choque de gestão,  a curto prazo, a curtíssimo prazo…. eu insisto. Os contratos de concessão tem que ser modernos. Eles não podem se basear como se fosse um cartório. Eles tem que ter cláusulas muitos claras de performance econômica”.

    “Os contratos tem que incentivar que as empresas busquem clientes. Aliás chama-se de usuários, a  gente tem que chamar de clientes, a gente tem que chamar de consumidores. São palavras mais adequadas”.

    “No curtíssimo prazo é alterar os contratos de forma a fazer com que a eficiência seja buscada no sistema para que as tarifas possam se adequar. E o sistema não pode se basear… isso é uma questão que eu acho muito importante. Aqui no Brasil a gente associa transporte público como transporte para pobre, não. Transporte público é transporte pra cidade.  Então tem que ter atrativos para todos os segmentos em curto prazo e não é só tarifa. É qualidade no serviço, totalidades, uma série de características”.

    “Sim, há muitas coisas que podem ser feitas. Eu vejo pessoas falando, tem que ter subsídio, o governo tem que dar subsídio. Subsídio significa tirar de outro lugar, vai tirar da educação, vai tirar da saúde? Claro que não. Então nós temos que ter um planejamento adequado de curto prazo já imediato, tomando medidas práticas. Os municípios tem feito corredores exclusivos, mas não é só isso não. A grande questão é econômica… A passagem tem que ser barata, eu não sei se barata é a palavra mais adequada, mas a tarifa tem que ser a mais adequada atendendo inclusive os segmentos  que tem menos renda da população.

    ” A palavra chave é eficiência. Como que se busca eficiência a curto, médio, longo prazo? Essa é a questão a ser… eu acho que esse momento é muito interessante. Eu temo que essas campanhas politicas venha mais do mesmo e boa parte das propostas, proponham apenas subsídio.

    “O subsídio pode até servir para um período mas ele não pode ser solução do problema. EU discordo muito em relação a essa lógica. A gente não dá subsidio pra energia, pra água, fatores tão ou mais relevantes pra vida de uma pessoa na cidade, por que vai se ter um setor inteiro de subsídio?

     

     

  • Câmara convoca Paulo Guedes para explicar empresa em paraíso fiscal (ele pode cair antes)

    Câmara convoca Paulo Guedes para explicar empresa em paraíso fiscal (ele pode cair antes)

    Tornou-se indefensável a posição de Paulo Guedes no Ministério da Economia depois da revelação (até agora não desmentida) de que ele é sócio de uma offshore nas ilhas Virgens Britânicas.

    Nesta quarta-feira,  o plenário da Câmara aprovou, por 310 votos a favor e 142 contra, a convocação do ministro para dar explicações.

    “É imperativo que Guedes dê explicações ao Parlamento sobre a manutenção destas contas no exterior, mesmo após ter assumido uma função pública de enorme relevância, o que é vedado pelo artigo 5º do Código de Conduta da Alta Administração Federal. É inaceitável que, enquanto a economia do país afunda, ele mantenha seus recursos em moeda estrangeira, sendo beneficiado com a desvalorização de nossa moeda, graças à sua desastrosa gestão. Com esta convocação ele terá que se explicar ao povo brasileiro”, declarou o líder da oposição, o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ).

    Ministro da Economia, nomeado antes mesmo da posse do presidente Jair Bolsonaro, Paulo Guedes tem uma empresa ativa em paraíso fiscal, onde não incide imposto sobre os capitais.

    O negócio foi mantido mesmo depois de assumir cargo no governo federal.

    As informações fazem parte da investigação Pandora Papers, divulgadas neste domingo (3/10).

    O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, também  possui empresa em paraíso fiscal, de acordo com os dados revelados.

    A data da sua explicação aos deputados será marcada pela Mesa Diretora da Câmara. Não é certo que ele resista no cargo até lá.

    A deputada federal Joice Hasselmann, do POSL, ex- partido de Bolsonaro, copmentou em seu twitter:

    “Guedes vai virar papinha do centrão. Será engolido de colherzinha. A tigrada não vai nem precisar mostrar os dentes para mastigar”.  …

  • Escalada de preço dos alimentos pode levar a “tempestade financeira” no pós pandemia

    Escalada de preço dos alimentos pode levar a “tempestade financeira” no pós pandemia

    Ivanir José Bortot

    O Fundo Monetário Internacional (FMI) já alertou para o risco da economia mundial sofrer uma tempestade financeira no pós-pandemia em função de uma recuperação desigual entre países ricos e emergentes.

    A FAO, organismo das Nações Unidas, constatou um aumento médio em setembro de 33% nos preços dos alimentos, quando comparado com o mesmo mês em 2020, em um conjunto de países desenvolvidos devido à escassez de oferta e aumentos de custos de produção.

    Os preços no Brasil, embora seja um país produtor de alimentos, entraram em uma escalada generalizada devido à desvalorização do real que, apenas em setembro, foi de 5,36%.

    Como os combustíveis, insumos importados e tudo o mais que não produzimos estão atrelados ao dólar, há um impacto significativo sobre os custos de produção das empresas, sem falar nos aumentos das tarifas administradas de energia elétrica, da água etc.

    A desvalorização do real diante do dólar nos últimos anos vem reduzindo o poder de compra dos brasileiros no exterior e mais grave é que contribuiu para sancionar os reajustes de preços no mercado interno de produtos cujas cotações são formadas no mercado externo.

    A escalada de aumento de preços nos supermercados  faz lembrar os anos 1980 quando os funcionários destes estabelecimentos comerciais passavam o dia remarcando preços em etiquetas coladas aos produtos. A inflação nos 12 últimos meses já está em 9,68%, quando deveria estar em 3,75%.

    Câmbio

    A autoridade monetária tinha em suas mãos outros instrumentos, como o câmbio, para ajudar o alinhamento dos preços. O câmbio é um dos preços que influi na formação dos custos dos produtos da economia e na relação de troca na economia internacional.

    O BC poderia ter evitado em parte uma desvalorização do real vendendo no mercado parte dos US$ 370,5 bilhões das reservas do País.

    Ao invés de vender dólar no mercado em agosto, a autoridade monetária comprou US$ 14,7 milhões contribuindo para desvalorização do real. É verdade, no entanto, que no sistema de livre flutuação de câmbio outros fatores têm peso na formação da cotação da moeda: risco fiscal, crise política, fuga de capital, taxa de juros.

    Os dados indicam que o Banco Central perdeu em 2021 a batalha no controle de preços, mesmo com elevação das taxas básicas de juros em 6,25%.

    O enfrentamento deste processo inflacionário vai exigir uma política monetária restritiva com aumento ainda maior de juros, podendo chegar a dois dígitos como apostam economistas do mercado financeiro.

    Com juros desta magnitude pode haver um fluxo maior de ingresso de dólar no País com reflexo positivo sobre o câmbio.

    Uma recuperação nas perdas do real diante do dólar teria impacto sobre os preços, uma vez que os produtos importados poderiam chegar às prateleiras dos supermercados contribuindo para o abastecimento em condições competitivas.

    Os prejuízos que poderiam causar às exportações seriam remediados, tendo em vista que os itens de maior peso vendidos pelo Brasil são as commodities (soja, milho, ferro etc.), cujos preços tiveram aumentos em dólar.

    O mercado decide

    A autoridade monetária não está impedida de vender parte de suas reservas, sem colocar em risco a soberania do país, para fazer frente aos movimentos especulativos do mercado de câmbio.

    A operação contribuiria para segurar a inflação, redução da dívida bruta do Tesouro Nacional e até mesmo potencializar a contração da política monetária. Ao vender dólares, o BC estaria retirando reais da economia.

    O ministro da Economia, Paulo Guedes, segue com os fundamentos liberais ao pé da letra da escola de Chicago. O sistema de câmbio atual do Brasil é flutuante. O que significa que o BC não deve interferir no mercado de moeda em dólar para definir a taxa de câmbio, mas para garantir a funcionalidade deste mercado diante de situações graves. As operações de compra e venda de moeda estrangeira são realizadas entre o público, empresas e instituições financeiras autorizadas a operar pela lei da oferta e procura.

    Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, tenta segurar a escalada inflacionária – Foto: Orlando Brito

    Estamos com dificuldade de retomar o crescimento, mesmo com juros baixos e depreciação do real. Paulo Guedes e Roberto Campos Neto, o presidente do Banco Central, terão que recorrer a outros instrumentos, além da política de juros, para estimular a economia a crescer. Sem um crescimento sustentável não haverá arrecadação de impostos suficientes para garantir equilíbrio das contas públicas, sem falar na importâncias de geração de empregos e renda.

    Apenas para lembrar que durante no governo de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, o dólar apreciou-se até 1985, por conta do mix de uma política monetária altamente contracionista com uma política fiscal expansionista, associada ao aumento dos gastos militares e cortes nos impostos. Neste período, o déficit em conta corrente dos EUA aumentou muito, transformando a maior economia do mundo de credora em devedora líquida.

     

  • José Antonio Severo (1942/2021): repórter até o fim

    José Antonio Severo (1942/2021): repórter até o fim

    Morreu na madrugada desta sexta-feira, 24 de setembro, o jornalista e escritor José Antonio Severo, aos 79 anos.

    Em mais de meio século como repórter, editor, diretor, ele passou pelos principais veículos de comunicação do país.

    Desde o Jornal do Dia, de Porto Alegre, onde começou – seguindo por Veja, Realidade, Exame, Reuters, Estadão, Gazeta Mercantil, TV Bandeirantes, Rede Globo – sempre deixou a marca de um talento exuberante e generoso.

    Hospitalizado há duas semanas, continuou conversando, escrevendo e respondendo a mensagens até o último momento, quando foi levado para o centro cirúrgico, segundo conta sua mulher, a cantora Célia Mazzei.

    À tarde, conversou com o sobrinho Alberto sobre a situação do Afeganistão e da economia brasileira. Pouco depois, falou com o editor Edgar Lisboa, sobre um artigo que havia escrito para ser publicado no fim de semana.

    Sugeriu algumas alterações e encerrou o telefonema: “Vou ter que desligar, vou entrar para uma cirurgia agora”.

    Era diabético e contraiu covid no início do ano. Embora tenha se recuperado rapidamente, desde então sua saúde ficou instável, com perda crescente de imunidade, obrigado a sucessivas internações e até uma cirurgia para extrair a vesícula.

    Há duas semanas voltara ao hospital para tratar de uma hemorragia no pulmão e foi isso que o levou à cirurgia no fim da tarde de sexta-feira, à qual não resistiu.

    Gaúcho, de Caçapava do Sul, Severo cresceu no campo e sempre lembrava da infância em meio às lides campeiras na estância da família.

    Estava disposto a seguir essa vida aos 16 anos, quando mudou-se para Porto Alegre e matriculou-se na Escola  Técnica de Agricultura de Viamão, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

    Formado, obteve o primeiro emprego na Secretaria Estadual da Agricultura, e aí descobriu sua vocação. Tinha facilidade para escrever e foi designado para o Serviço de Informação Agrícola, onde passou a produzir um “Informativo Rural e Econômico”.

    Inquieto, teve a ideia de viajar pelo Estado, produzindo matérias para o informativo e suas reportagens chamaram atenção. Foi convidado, em 1964, para ser editor do suplemento rural do Jornal do Dia,  jornal católico editado em Porto Alegre.

    Uma reportagem sobre o preço da carne rendeu-lhe outro convite, do jornal O Estado de S.Paulo, para um estágio na capital paulista. Antes do fim do estágio, estava contratado, emplacando matérias de capa, que o levaram à condição de repórter especial.

    Em 1968, quando a Editora Abril montou a equipe para lançar a revista Veja ele se inscreveu e foi selecionado.

    Mas foi na revista Realidade, pouco depois, que se tornou conhecido por suas reportagens sobre esportes radicais, vivenciadas e narradas na primeira pessoa.

    Era reconhecido na rua e ficava constrangido: “Eu devia estar fazendo matérias de denúncia à ditadura e, em vez disso, estava me divertindo fazendo coberturas de esportes”.

    Essa inquietação levou-o de volta a Porto Alegre, onde assumiu a direção da Folha da Manhã, mas a experiência não durou dois anos e retornou à imprensa paulista.

    Nessa época surgiram os primeiros textos mais longos. Pretendia que se tornassem roteiros de séries para a TV.

    “A Guerra dos Cachorros”, editado pela LPM, transpunha para São Paulo o fenômeno das matilhas de cães selvagens que assolavam os campos nos tempos do Rio Grande primitivo.

    No cenário urbano, os cães simbolizavam uma revolta dos animais pelo tratamento que recebem dos humanos. Ele considerava um projeto frustrado.

    “A Invasão”, de 1978, também publicada pela LPM, é uma “reportagem-ficção”  sobre uma mudança de regime político no Brasil.

    Um outro desafio, porém, se apresentou e, em 1979, foi trabalhar na Rede Globo. Primeiro como repórter do  Jornal Nacional e, pouco depois, como editor-chefe do Jornal da Globo, do qual foi um dos criadores.

    Ainda era uma época em que os profissionais do jornalismo impresso, resistiam ao telejornalismo. Ali nasceu o formato existente hoje, com bancadas compostas por jornalistas – até então, eram locutores que liam as notícias no ar.

    Mesmo em outras funções sempre se considerou “um repórter 24 horas por dia”, rigoroso em relação aos fatos. “Não tenho apego ao texto, sempre dei total liberdade aos editores para que mexessem. Só me fixo na precisão dos dados”, dizia.

    Sempre jovial e entusiasmado, gostava de conversar com os mais jovens e dava conselhos: “Não se levem muito a sério. Levem a sério a notícia” ou “O leitor não é abstrato. Tem que escrever para o leitor”.

    A experiência na TV, também reavivou uma paixão da infância, o cinema. “Quando vínhamos para Porto Alegre, eu e meus irmãos emendávamos uma sessão na outra”, lembrava.

    Do encontro com o escritor e cineasta Tabajara Ruas nasceu o produtor e roteirista.  Escreveu “Os senhores da guerra”, romance histórico, pensando na versão cinematográfica.

    No drama de dois irmãos em conflito, resume o período sangrento no início do século XX, em que o Rio Grande do Sul se dividiu entre “Chimangos” e “Maragatos”.

    A pesquisa para essa obra levou-o a uma incursão pelas guerras pela conquista do extremo sul da América, Percorreu a região por um ano e, por um ano e meio, isolou-se com uma pequena biblioteca numa casa na praia do Santinho em Florianópolis, onde produziu “General Osório e seu Tempo”, obra de quase mil páginas, painel impressionista da formação do extremo sul da América.

    Nos últimos dois anos, trabalhou na pesquisa para o roteiro da série “200 Anos da Independência”, produzido pela TV Cultura de São Paulo, para exibição em 2022. Da pesquisa resultou um livro com o mesmo título que será editado na data.

     

     

  • Juros mais altos e reajustes salariais abaixo da inflação: o trabalhador paga a conta da crise

    Juros mais altos e reajustes salariais abaixo da inflação: o trabalhador paga a conta da crise

    No mês de agosto, o reajuste salarial mediano no país ficou 1,4 ponto percentual abaixo da inflação, considerando como base o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

    Apenas 9,5% das negociações resultaram em ganhos reais, de acordo com o boletim Salariômetro, divulgado hoje (23) pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

    O reajuste médio negociado foi de 8,5% em agosto, enquanto o INPC, no acumulado de 12 meses, ficou em 9,9%. O piso salarial mediano – modelo que corrige discrepâncias – negociado foi de R$ 1.255 em agosto, enquanto o piso médio foi de R$ 1.396.

    O Salariômetro analisa os resultados de 40 negociações salariais coletivas, que são depositados no Portal Medidor, do Ministério da Economia.

    Não houve aumento mediano real como resultado das negociações em nenhum dos últimos 12 meses, conforme a fundação.

    Desde setembro do ano passado, o índice tem oscilado de -1,4% a zero.

    Segundo a Fipe, a inflação projetada para as próximas datas-base ficará perto dos 10%, o que deverá comprimir o espaço para ganhos reais no futuro.

    Enquanto isso, para conter a alta de preços  dos alimentos, combustíveis e energia, o Banco Central (BC) aumentou os juros.

    Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa Selic – juros básicos da economia – de 5,25% para 6,25% ao ano, decisão já esperada pelos analistas financeiros.

    A taxa está no nível mais alto desde julho de 2019, quando estava em 6,5% ao ano. Esse foi o quinto reajuste consecutivo na taxa Selic.

    De março a junho, o Copom tinha elevado a taxa em 0,75 ponto percentual em cada encontro. No início de agosto, o BC passou a aumentar a Selic em 1 ponto a cada reunião.

    Em comunicado, o Copom informou que deverá elevar novamente a Selic em um ponto percentual na próxima reunião, no fim de outubro. Com o teto da meta de inflação estourado em 2021, o órgão informou que trabalha para trazer a inflação de volta para o intervalo da meta em 2022 e, “em algum grau”, em 2023.

    “O Copom considera que, no atual estágio do ciclo de elevação de juros, esse ritmo de ajuste [um ponto percentual por reunião] é o mais adequado para garantir a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante e, simultaneamente, permitir que o Comitê obtenha mais informações sobre o estado da economia e o grau de persistência dos choques”, destacou o texto.

    Com a decisão de hoje (22), a Selic continua num ciclo de alta. De julho de 2015 a outubro de 2016, a taxa permaneceu em 14,25% ao ano. Depois disso, o Copom voltou a reduzir os juros básicos da economia até que a taxa chegasse a 6,5% ao ano em março de 2018.

    A Selic voltou a ser reduzida em agosto de 2019 até alcançar 2% ao ano em agosto de 2020, influenciada pela contração econômica gerada pela pandemia de covid-19. Esse era o menor nível da série histórica iniciada em 1986.

    Inflação
    A Selic é o principal instrumento do Banco Central para manter sob controle a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

    Em agosto, o indicador fechou no maior nível para o mês desde 2000 e acumula 9,68% em 12 meses, pressionado pelo dólar, pelos combustíveis e pela alta da energia elétrica.

    O valor está acima do teto da meta de inflação. Para 2021, o Conselho Monetário Nacional (CMN) tinha fixado meta de inflação de 3,75%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual. O IPCA, portanto, não podia superar 5,25%.

    No Relatório de Inflação divulgado no fim de junho pelo Banco Central, a autoridade monetária estimava que, em 2021, o IPCA fecharia o ano em 5,82% no cenário base.

    Crédito mais caro
    A elevação da taxa Selic encarece o crédito e desestimula a produção e o consumo. Além disso, taxas mais altas dificultam a recuperação da economia.

     

  • PF faz buscas na empresa que intermediou compra de vacinas

    A Polícia Federal realiza, nesta quinta (17), operação de busca e apreensão na sede da Precisa Medicamentos, nas cidades de Barueri e Itapevi, no estado de São Paulo.

    “A operação é cumprimento de solicitação realizada pela Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal para apurar ações e omissões no enfrentamento da pandemia da covid-19 no Brasil (CPI da Pandemia), sob decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal, através de sua Excelência, o Ministro Dias Toffoli”, diz nota divulgada pelo presidente, vice-presidente e relator da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), Randolfe Rodrigues ( Rede- AP) e Renan Calheiros (MDB-AL), respectivamente.

    Ainda segundo a cúpula da CPI, a operação tem como objetivo a busca e apreensão de informações relativas ao contrato entre a Precisa Medicamentos e a empresa indiana Bharat Biotech, assim como todos os documentos relacionados ao contrato.

    “A CPI buscou de todas as formas obtenção dessas informações junto à empresa e ao Ministério da Saúde, não obtendo êxito. Devido a isso, se fez necessária a utilização deste instrumento judicial”, justificaram os senadores.

    Histórico
    A Precisa foi a empresa que intermediou o contrato entre o Ministério da Saúde e a farmacêutica Bharat Biotech para a compra de 20 milhões de doses da vacina Covaxin ao custo de R$1,6 bilhão.

    A empresa entrou na mira da CPI após a comissão ter recebido denúncias de irregularidades no contrato. O acordo foi cancelado em agosto pelo Ministério da Saúde.

    Por meio de nota assinada pelos advogados Ticiano Figueiredo e Pedro Ivo Velloso, a Precisa Medicamentos classificou como “inadmissível, num estado que se diz democrático de direito, uma operação como essa de hoje”.

    Ao contrário do que diz a cúpula da comissão de inquérito, a empresa ressalta que entregou “todos os documentos à CPI”, além de três representantes da empresa terem prestado depoimento ao colegiado.

    Segundo os advogados, sempre que intimados, os representantes da Precisa prestaram depoimentos à PF, à Controladoria-Geral da União (CGU), além de ter entregue toda documentação ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Tribunal de Contas da União (TCU).

    Segundo os advogados, ” a operação de hoje é a prova mais clara dos abusos que a CPI vem cometendo”, por conta dos “interesses de alguns senadores com ambições eleitorais”.

    (Com informações da Agência Brasil)

  • Briga de Eduardo Leite com a Petrobras é campanha política

    Briga de Eduardo Leite com a Petrobras é campanha política

    O governador Eduardo Leite recorreu à Justiça contra a Petrobras por propaganda enganosa. Pede até indenização por dano moral.

    A causa é um anúncio em que a estatal mostra a estrutura de custos da gasolina e diz que recebe apenas R$ 2,00 pelo litro de gasolina que está custando quase R$ 7,00 na bomba.

    O vídeo veiculado ressalta o peso do ICMS cobrado pelos Estados, que chega em média a 28% do preço final da gasolina.

    Na ação, o governador alega que a Petrobras omite informações e tenta jogar para os Estados a culpa pelo alto preço dos combustíveis.

    O anúncio da Petrobras atende a um interesse do candidato Bolsonaro, de passar aos governadores a culpa pelo alto preço dos combustíveis.

    A ação do governador Eduardo Leite é também a de um candidato, que não aceita ser o vilão da alta dos combustíveis.

    A verdade é que alíquota do ICMS no Rio Grande do Sul para a gasolina é 30%  desde 2016, com validade até 2022. Não por acaso, o preço da gasolina no Estado só perde para o Tocantins.

     

  • “Transporte público tem contratos primitivos”, segundo presidente da Agergs

    “Transporte público tem contratos primitivos”, segundo presidente da Agergs

    O engenheiro Luiz Afonso Senna anda sem tempo para responder perguntas nestes dias em que o transporte público coletivo é a principal discussão, não só em Porto Alegre, como na maioria das grandes cidades brasileiras.

    Reconhecido especialista em transportes e mobilidade urbana, o engenheiro Senna é o atual presidente da Agergs, a Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Rio Grande do Sul, que tem entre seus objetivos “permitir o amplo acesso às informações sobre a prestação dos serviços públicos”.

    Em entrevista à Radio Gaúcha, há um ano, ele disse: “Nós temos hoje nas grandes cidades, não é só Porto Alegre, são  arranjos econômicos financeiros muito primitivos. Há uma lógica que incentiva o aumento de custos”.

    Há um mês, com a emergência da questão do transporte público, em colapso no país inteiro, o JÁ pediu uma entrevista ao engenheiro Senna, para aprofundar o sentido de suas declarações.

    Através de sua secretária, ele respondeu que “não tem tempo”.

    Como consideramos importante sua manifestação, pelo cargo que ocupa e pela qualificação que tem, mandamos cinco perguntas básicas sobre o tema que é hoje o principal debate de Porto Alegre, realidade que ele conhece muito bem.

    Até o momento não recebemos resposta.

    Como ele também não desmentiu ou fez reparos às declarações ao Painel Atualidade, da Rádio Gaúcha, no dia 23 setembro de 2020, decidimos reproduzir o que ele disse, como parte do debate que pretendemos estimular sobre o transporte público coletivo – essa questão tão essencial e tão pouco esclarecida.

    “Os contratos são primitivos”

    O transporte público coletivo precisa se reiventar. Isso é algo que vem sendo discutido há muito tempo. Tem que ter arranjos financeiros robustos, modernos e atuais”.

    “Nós temos hoje nas grandes cidades, não é só Porto Alegre, muito primitivos os arranjos econômicos financeiros que eles possuem. Há uma lógica que incentiva o aumento de custo e coisas do gênero”.

    “Tem que ter arranjos inteligentes e acho que a pandemia está acelerando este processo.  Os processos tem que literalmente se reinventar. Eu agora estou com uma experiência muito rica que é ser presidente da Agergs que regula setores diferentes de infraestrutura. Agua e saneamento, energia…”

    “Eles tem arranjos econômicos financeiros muito sólidos por isso eles conseguem inclusive passar por crises como essas que nós estamos passando sem maiores problemas.”

    “”E o sistema de transporte público que tem arranjos muito precários, muito primitivos, ele obviamente tem problemas muito maiores. As causas, a quebra de demanda que já vinha acontecendo de um forma constante ao longo do tempo. Essa reinvenção passa por trazer o sistema para o século XXI”.

    “Eu tenho comentado muito, os aplicativo vieram pra ficar mas o impacto deles em países e nas cidades que são muito bem organizados e que tem o planejamento realmente efetivo, sério e profundo foi muito pequeno. Na realidade o aplicativo se somou, complementou o sistema já existente”.

    “Nenhum sistema na Europa, nos EUA, nesses países mais avançados nenhum sistema quebrou por causa de aplicativo e aqui tá quebrando, porque? Por que lá num planejamento se define o espaço de cada um e aqui não se fez isso”.

    “Não se poder ter um sistema regulado e um outro não regulado. Aí passa pela palavra planejamento que o país é muito precário a planejamento mais robusto. O aplicativo é um complemento e vão ter outros e vou dizer mais: a bicicleta passa a ser uma utilização muito maior’.

    “A gente precisa de um choque de gestão,  a curto prazo, a curtíssimo prazo…. eu insisto. Os contratos de concessão tem que ser modernos. Eles não podem se basear como se fosse um cartório. Eles tem que ter clausulas muitos claras de performance econômica”.

    “Os contratos tem que incentivar que as empresas busquem clientes. Aliás chama-se de usuários, a  gente tem que chamar de clientes, a gente tem que chamar de consumidores. São palavras mais adequadas”.

    “No curtíssimo prazo é alterar os contratos de forma a fazer com que a eficiência seja buscada no sistema para que as tarifas possam se adequar. E o sistema não pode se basear… isso é uma questão que eu acho muito importante. Aqui no Brasil a gente associa transporte público como transporte para pobre, não. Transporte público é transporte pra cidade.  Então tem que ter atrativos para todos os segmentos em curto prazo e não é só tarifa. É qualidade no serviço, totalidades, uma série de características”.

    “Sim, há muitas coisas que podem ser feitas. Eu vejo pessoas falando, tem que ter subsídio, o governo tem que dar subsídio. Subsídio significa tirar de outro lugar, vai tirar da educação, vai tirar da saúde? Claro que não. Então nós temos que ter um planejamento adequado de curto prazo já imediato, tomando medidas práticas. Os municípios tem feito corredores exclusivos, mas não é só isso não. A grande questão é econômica… A passagem tem que ser barata, eu não sei se barata é a palavra mais adequada, mas a tarifa tem que ser a mais adequada atendendo inclusive os segmentos  que tem menos renda da população.

    ” A palavra chave é eficiência. Como que se busca eficiência a curto, médio, longo prazo? Essa é a questão a ser… eu acho que esse momento é muito interessante. Eu temo que essas campanhas politicas venha mais do mesmo e boa parte das propostas, proponham apenas subsídio.

    “O subsídio pode até servir para um período mas ele não pode ser solução do problema. EU discordo muito em relação a essa lógica. A gente não dá subsidio pra energia, pra água, fatores tão ou mais relevantes pra vida de uma pessoa na cidade, por que vai se ter um setor inteiro de subsídio?