Bolsonaro: o golpe em doses diárias

 Bolsonaro assina posse do novo diretor-geral da PF, Rolando de Souza (segundo da direita para a esquerda), junto com os ministros da Justiça, André Mendonça, e das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. /Foto: Isac Nóbrega/PR

Jair Bolsonaro começou a semana revigorado em seus propósitos de ampliar os limites do poder autocrático do presidente.

Enfrentou uma tempestade com a demissão do ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, que deixou o governo acusando-o de tentar interferir em investigações da Polícia Federal.

As acusações de Moro trouxeram o impeachment à ordem do dia e  levaram o STF a anular a nomeação do novo diretor da PF, Alexandre Ramagem, amigo dos filhos do presidente, assinada por Bolsonaro.  Uma das insinuações de Moro é que Bolsonaro quer livrar os filhos investigados pela PF do Rio a serviço da Justiça .

No sábado, Moro depôs na sede da PF, em Curitiba, em inquérito que investiga se as tentativas de Bolsonaro de influir na Polícia Federal poderiam caracterizar “obstrução à Justiça”.

O depoimento gerou grande expectativa, teve enfrentamento no local, entre bolsonaristas e moristas,  durou mais de cinco horas, mas não produziu o efeito esperado. A íntegra divulgada nesta terça-feira não acrescenta dados que possam alterar o quadro. O “efeito Moro” se dissipou.

Bolsonaro contra atacou no domingo. Uma carreata, pela Esplanada dos Ministérios, seguida de uma manifestação com as clássicas bandeiras e camisetas com as cores do Brasil e as faixas pedindo intervenção militar, fechamento do STF e do Congresso. Uma minoria ruidosa e bem organizada.

Na frente do Planalto, o presidente foi ao encontro dos manifestantes para dizer aquilo que já fora plantado nas suas redes sociais: não  foi ele  que tentou interferir em investigações,  como acusa Moro; foi o STF, ao suspender a nomeação de Ramagem, que interferiu nas atribuições do presidente.

Fez um discurso irado, dizendo que chegara ao limite, não ia tolerar mais interferência e rematou dizendo que tem o povo e as forças armadas ao seu lado, dando a entender que não vai hesitar  em lançar mão desse poder se tentarem cerceá-lo. Tudo devidamente filmado e imediatamente difundido pelas redes e imprensa.

Os jornalistas que tentavam cobrir a manifestação foram espancados e escorraçados pelos seguidores do presidente que não deu maior importância aos fatos, atribuindo-os a “infiltrados” .

A invocação das forças armadas num ato antidemocrático soou como ameaça e ganhou repercussão em todos os meios. No mesmo dia, altos oficiais não identificados ouvidos pelo Estadão falavam do desconforto que a alusão do presidente provocara no meio militar.

Na segunda-feira cedo, a repórter Andrea Sadi, do G1, publicou em seu blog que “a cúpula das três Forças Armadas se irritou com a fala do presidente na manifestação, quando ele disse que as Forças estão com ele”.

Os generais não foram surpreendidos. No sábado, enquanto as atenções se voltavam para o depoimento de Moro, Bolsonaro havia reunido a cúpula militar e os ministros militares do seu governo, para expor sua inconformidade com as últimas decisões de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), questionando atos do presidente.

Mencionou três casos:

A liminar do ministro  Alexandre de Moraes, que suspendeu a nomeação do delegado Alexandre Ramagem; a decisão de Luís Roberto Barroso no caso dos diplomatas venezuelanos; e Celso de Mello na abreviação de prazo para  o depoimento de Sérgio Moro.

Se houve desconforto na cúpula militar, ele não transparece na nota divulgada segunda à tarde, com assinatura do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva. A nota diz que as Forças Armadas “cumprem sua missão constitucional” e que estarão “sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade”.

O comunicado afirma que Marinha, Exército e Força Aérea são “organismos de Estado, que consideram a independência e a harmonia entre os Poderes imprescindíveis para a governabilidade do País”.

Essa frase indica o acolhimento da  tese de Bolsonaro, de que está sofrendo interferência de outros poderes em suas atribuições.

Na manhã de terça, Bolsonaro se manteve no ataque. Desceu para falar com apoiadores e a imprensa no Palácio do Planalto. Ouviu discursos fanatizados e se dirigiu aos jornalistas exibindo um fac-símile da capa da Folha de S.  Paulo com a manchete: “Novo diretor da PF assume e acata pedido de Bolsonaro”.

Começou a gritar: “Mentira”. “Mentira deslavada”, “Jornalismo canalha”, bradava.

Depois de derrubar seu ministro mais popular, para confessadamente ter mais “interlocução” com a Polícia Federal, o presidente faz as mudanças que quer e não aceita que a imprensa registre: “Eu estou tendo influência sobre a Polícia Federal? Isso é uma patifaria, é uma patifaria”.

Quando perguntado pelos repórteres, ele gritava: “Cala a boca, Cala a boca”.

Encolhido o Parlamento, ante o avanço da tropa de choque do Centrão; reticente o STF, ante a manifestação das forças armadas; controlada a polícia federal e a imprensa agredida e colocada sob suspeita…  Jair Bolsonaro vai dando seu golpe em doses diárias.

Bolsonaro: 'Peço a Deus que não tenhamos problemas nesta semana, chegamos no limite'

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