Quem entra no quilombo Kedi sem saber dos antecedentes do lugar, pode pensar que ali caiu um míssil perdido da guerra do Oriente Médio.
Paredes derrubadas, vigas expostas, ferragens retorcidas, portas e janelas arrombadas – as duas fileiras de casas que se estendem ao longo de um estreito beco estão reduzidas a escombros.
Nas poucas casas que ainda estão de pé, as pessoas se mostram arredias e inquietas. “É muito medo”, diz uma mulher na janela. Pela porta entreaberta vê-se uma criança no chão, uma velha numa cadeira. O marido sai para trabalhar de manhã e recomenda que ela não fale com estranhos.
Pensa em saír? “Não saí ainda porque querem pagar como se fosse uma família e são duas”. Explica que no terreno moram também sua filha, um neto e o genro. “Eles também precisam um lugar pra morar”.
Em março, depois de uma semana em que foram derrubadas 30 casas, a justiça proibiu as demolições. Mas neste fim de semana até de madrugada se ouviam as pancadas de marreta e picaretas derrubando paredes.
Já moraram 80 familias ali no Kedi. Agora falam em doze, não se sabe ao certo, todo o dia tem gente se mudando. Levam as tralhas e voltam para derrubar a casa, condição exigida para receber a indenização de R$ 180 mil negociada com a prefeitura mas paga por uma empresa privada, segundo denunciou ao MPF a Frente Quilombola.
Outra exigência para fazer jus ao pagamento é assinar um termo em que renuncia à identidade de quilombola.
Leonardo nasceu e se criou ali, tem 32 anos. Já fechou negócio, está levando seus pertences, vai construir duas peças no terreno de sua mãe, na Restinga. Ele não quer falar: “Só quero sair daqui, isso aqui virou inferno, só rato, sujeira, água podre”, diz entrando e fechando a porta da pequena casa de tijolo, onde vivia com a mulher e dois filhos.
No sábado, representantes do Movimento Quilombola se reuniram no local para debater a situação e discutir as possibilidades de resistência.
Desde 2023 tramita no Incra um processo para reconhecer a área como um quilombo, território ancestral de escravizados. O problema é que o reconhecimento da condição quilombola é um processo coletivo e a prefeitura adotou um programa de compra assistida, negociando isoladamente com cada família. No processo do Incra, que inclusive já tem o laudo antropológico, estão cadastradas 41 familias. Mas o quadro real se tornou confuso com o surgimento de aproveitadores desde que começaram as compras assistidas com a prefeitura. Consta que 120 acordos já foram feitos. “Muita esperteza, teve gente que pegou um quadradinho, só para receber”, diz Sérgio Valentim, da Frente Quilombola.
“Extirpar” é a palavra que o representante do Movimento Quilombola usa para o que está sendo feito com o Quilombo Kedi, um enclave de pobreza que restou numa das regiões mais valorizadas de Porto Alegre, cercado de condomínios e imóveis de alto padrão.
São duas fileiras de casinhas, muitas de tijolos sem reboco, ao longo de uma ruela, formando uma nesga com pouco mais de 30 metros de largura por 100 metros de comprimento, espremida entre o muro do Country Club e um condomínio de luxo.
A ocupação do território remonta ao fim da escravidão. Quando foi proibido o trabalho escravo no Brasil, em 1888, os negros escravizados nas fazendas da região, como ocorreu em todo o pais, foram largados à própria sorte. Alguns preferiram continuar com os antigos senhores, a maioria foi se instalando numa faixa de terra ao longo do riacho que corta uma grande extensão daqueles campos.
Moradores mais antigos ainda conheceram os avós que cuidavam do gado nessas fazendas e foram se arranchar na beira do riacho. Desse movimento nasceram várias comunidades negras na região: o Quilombo Silva, a Volta da Cobras e o Quilombo Kedi, que é uma corruptela de caddies como são chamados os carregadores dos tacos nos jogos de golfe. Deriva dos jovens da comunidade que prestavam esse serviço aos jogadores de golfe do vizinho Country Club, desde o início do século passado. (segue)

