Dissidente pergunta: por que não podemos desconfiar da China?

Artista chinês Ai Weiwei. Foto: Divulgação

Mariano Senna, de Berlim

Um mês antes do governo alemão fechar o comércio, creches, escolas e proibir qualquer aglomeração de gente, o artista chinês Ai Weiwei deu uma entrevista bastante ácida ao jornal Berliner Zeitung.

No texto, além de criticar duramente a incoerência ética e política das relações da Europa com a China, o dissidente chinês alertou para a soberba inocência dos alemães para com quase tudo relacionado ao país comunista.

“Alemães e chineses não querem que eu fale sobre o coronavírus, assim como sobre a situação dos direitos humanos na China, ou sobre censura velada que ocorre em festivais internacionais”, atacou Ai Weiwei.

Ele fez um filme sobre a epidemia de SARS na China em 2003, e muitos outros sobre a forma como a burocracia comunista lida com situações de emergência. “Neste aspecto eu sei muito sobre a sociedade chinesa”, declarou.

Para ele o principal problema é que a China não abre as informações que tem, quando não mente. E não é transparente com a comunidade internacional. “Como pôde uma sociedade assim fechada se tornar o melhor parceiro da Alemanha? Só porque os chineses produzem tudo que os alemães querem e barato?”, indagou, completando em tom de cinismo: “Os alemães acharam a melhor parceria para a sua falada sociedade democrática”.

Na questão do novo vírus não é diferente. Ai Weiwei levanta na entrevista a questão do laboratório de Wuhan, localizado perto do mercado onde oficialmente a pandemia começou. “Mercados como este existem por toda a Ásia, laboratórios assim não”, afirmou. Para ele é inexplicável aceitar a versão oficial do governo em Pequim sem desconfiança. “O laboratório pesquisa justamente esse tipo de vírus, porque nos custa acreditar, que seja, na hipótese de um acidente?”. O artista plástico também levanta a questão dos cientistas e médicos envolvidos presos e especialmente o curtíssimo espaço de tempo entre o inicio da epidemia e a Quarentena: Cinco dias. “Nem os melhores sistemas de saúde do mundo conseguiriam ser tao rápidos”.

Analisando as informações que circulam hoje na imprensa brasileira, tem-se a sensação de um replay dublado do noticiário que circulava dois meses atrás pela capital alemã. Jornalistas especializados garantem que o vírus é natural, só não explicam que mesmo natural poderia ter sido criado em laboratório. Existem sabidamente diversos métodos de clonagem de vírus, muitos ainda experimentais. E a identificação da origem de um vírus depende crucialmente disso.

Muitos aceitam sem questionar a versão de profissionalismo e controle das autoridades chinesas. E nem se dão conta quando uma parte do texto contradiz exatamente a manchete da matéria: “Um estudo de 2015 feito em colaboração com o Instituto de Virologia de Wuhan, já havia mostrado que uma nova versão da proteína Spike circulado em coronavírus de morcegos, quando transplantada a um coronavírus inofensivo, conseguia fazê-lo invadir células humanas.”

Nesse caso, o contexto corrobora mais com a dúvida, do que com a certeza. A cada matéria sobre a origem e o desenvolvimento da pandemia acumulam-se mais dúvidas. Ainda que as manchetes reclamem a confirmação de uma verdade absoluta, a ciência séria sabe que é indo atrás do contraditório que eliminamos o que é falso. Verdade absoluta é coisa de religião.

Comentários

Uma resposta para “Dissidente pergunta: por que não podemos desconfiar da China?”

  1. Avatar de Alarico
    Alarico

    Quem sabe o que acontece na China hoje?

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