Evento credencia RS como polo regional produtor de chips para América Latina

Secretária Lisiane Lemos abordou as ações do programa Semicondutores RS – Foto: Vitor Conto/Ascom Sict

O Simpósio de Semicondutores da América Latina e do Caribe (SemiCon-LAC 2026), que encerra nesta sexta-feira (19), no Tecnopuc, marca a consolidação do Rio Grande do Sul, um “hub de semicondutores da América Latina”, segundo os próprios organizadores do evento..

Um hub de semicondutores é um polo estratégico regional ou global que concentra e conecta toda a cadeia de desenvolvimento de chips eletrônicos. Ele funciona como um ecossistema centralizado que reúne indústrias, universidades, centros de pesquisa e incentivos governamentais para criar, testar ou fabricar microchips.

No cenário atual, a busca por descentralizar a fabricação de chips — antes muito focada na Ásia — transformou esses hubs em pilares de soberania tecnológica e econômica para os países.

O evento organizado pelo Parque Científico e Tecnológico da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Tecnopuc) e o governo do Rio Grande do Sul, por meio da Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia (Sict) não está fora dessa realidade.

Tem bases reais, pois o Rio Grande do Sul já possui alguns ativos que nenhum outro estado brasileiro reúne simultaneamente, com destaque para o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), empresa pública , localizada em Porto Alegre.

O ecossistema do Tecnopuc já abriga mais de 320 organizações, desde startups em estágio inicial até corporações multinacionais; centros de pesquisa da PUCRS e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que focam em design de chips (projeto), pesquisa de materiais e formação de capital humano; empresas de encapsulamento, design de chips e sistemas eletrônicos e programa estadual Semicondutores RS, criado em 2023.

Nesse cenário, o estado gaúcho pode efetivamente se tornar o principal polo brasileiro de projeto (design) de chips, prototipagem, encapsulamento e testes, formação de engenheiros e atração de startups e centros de P&D.  Transformar Porto Alegre em referência latino-americana é difícil, mas possível.

A América Latina praticamente não possui uma indústria robusta de semicondutores. O México tem integração com a cadeia norte-americana, a Costa Rica tem operações da Intel e o Brasil possui o Ceitec e alguns polos dispersos. O campo ainda está relativamente aberto. O importante é o Rio Grande do Sul manter investimentos por 10 anos, ampliar o Ceitec, atrair empresas estrangeiras, formar mão de obra especializada. Assim, a expressão “hub latino-americano” deixa de ser apenas discurso.

O que é improvável no médio prazo é construir uma indústria comparável a Taiwan, Coreia do Sul ou China. Uma única fábrica moderna de semicondutores de ponta custa dezenas de bilhões de dólares. A TSMC, de Taiwan, investe mais em um ano do que todo o orçamento brasileiro destinado ao setor em várias décadas.

O investimento de cerca de R$ 220 milhões no Ceitec é importante para a realidade brasileira, mas é pequeno diante da escala global da indústria. Mesmo após a modernização, o Ceitec continuará focado em nichos específicos e tecnologias maduras, não em chips avançados de inteligência artificial ou smartphones de última geração. No entanto, é possível afirmar que o Rio Grande do Sul pode se tornar o principal centro latino-americano de pesquisa, design, encapsulamento e aplicações de semicondutores até o início da próxima década.

O fato de o SemiCon-LAC 2026 reunir representantes de China, Estados Unidos, Coreia do Sul, União Europeia, Malásia e diversos países latino-americanos mostra que existe uma tentativa séria de inserir o estado na reorganização global das cadeias produtivas de chips. O evento, por si só, não cria um hub, mas é um instrumento de articulação e atração de parceiros.

A titular da Sict, Lisiane Lemos, frisou que o estado não está apenas olhando para o cenário nacional, mas para o tabuleiro global. “Não estamos competindo com outros estados; estamos competindo com o mundo. O diferencial agora é que trouxemos os grandes players globais para cá para mostrar o potencial humano e industrial do Rio Grande do Sul”, pontuou.

O papel das instituições de fomento e pesquisa também foi central durante a cerimônia de abertura. O diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapergs), Odir Dellagostin, classificou o SemiCon-LAC como um dos movimentos mais ambiciosos já articulados para posicionar a região na cadeia global. Complementando a visão técnica, o superintendente de Inovação da Pontifícia Universidade Católica do RS e do Tecnopuc, Jorge Audy, reforçou que “soberania nacional hoje é sinônimo de domínio do ciclo de ciência, tecnologia e inovação”.

O verdadeiro teste entre 2026 e 2030 será quantas novas empresas do setor se instalarão no RS, quantos centros de P&D serão criados e se o Ceitec conseguirá transformar os investimentos recebidos em produção comercial sustentável. Esses indicadores dirão se estamos diante de uma política industrial consistente. (Sérgio Lagranha)

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