População das ilhas: “Aqui as máscaras disputam bocas com a fome”

Bruna Ferreira, 20 anos: trabalho voluntário para garantir sobrevivência.

Para os moradores das ilhas do Delta do Jacui a crise da pandemia começou em março, com a suspensão da tradicional Feira do Peixe, junto ao Mercado Público de Porto Alegre.

“Foi um enorme prejuízo para as familias que já se preparavam para a 240ª edição do evento, onde a cada ano garantem a sobrevivência por alguns meses”.

São mais de 8 mil habitantes em três ilhas cujo território que corresponde a quase 10% da extensão de Porto Alegre e onde os casarões e marinas que se estendem à beira dágua escondem a dura realidade do interior das ilhas.

“Aqui a desigualdade é nítida, mostra a extrema pobreza e a extrema riqueza lado a lado”, diz Bruna Ferreira, 20 anos, estudante de Psicologia, nascida e criada na ilha da Pintada.

Membro do Colaí Movimento de Cultura há dois anos, ela participa como voluntária das redes de apoio aos mais pobres formada por diversas entidades sociais.

Os moradores vivem da pesca, do trabalho para as bancas do Mercado Público e peixarias e dos inúmeros galpões de reciclagem e outras atividades informais.

Não só os pescadores perderam com a pandemia. Quem trabalhava nos galpões de reciclagem viu o lixo reduzir. Quem trabalhava no Mercado Público, ou em outros comércios, viu a demanda diminuir.

Quem continua trabalhando tem que enfrentar o ônibus 718, para chegar ao centro de Porto Alegre. Com horário reduzido, está sempre lotado.

Muito antes desse cenário de pandemia, as Ilhas já tinham essa realidade de estarem próximas (geograficamente) da prefeitura e distantes das políticas públicas.

“Hoje, muitas ações relacionadas ao vírus que chegam aqui – promovidas pela prefeitura ou governo do estado – têm caráter informativo. São importantes, mas não atendem as necessidades mais urgentes”, diz a estudante Bruna.

A ideia da máscara chega às ilhas enfraquecida, segundo ela: “Chega pra disputar a boca com a fome que já tá aqui e já tá matando há muito tempo”.

As informações oficiais contam seis casos de covid 19 nas ilhas, mas esse numero pode ser maior. As três unidades de Saúde – na Ilha do Pavão, na Ilha dos Marinheiros e na Ilha da Pintada – estão abertas, mas não fazem testes.

Na Ilha do Pavão, a Unidade de Saúde serve almoço para as crianças. “Tem que garantir sobrevivência. Não resolve com um carro de som mandando usar a máscara ou ficar em casa”, diz Bruna.

As escolas também distribuem cestas básicas, mas ainda está longe de atender todo mundo que precisa: “Tem gente que não tá no Cadastro Unico, não recebe auxílio emergencial, aí fica num limbo…”

Quem se movimenta pra ajudar os moradores que estão em maior vulnerabilidade ainda nesse momento, é geralmente quem também vive no local e vê tudo de perto.

São entidades como as associações de moradores, as igrejas, os centros de umbanda e alguns coletivos – como o Colaí Movimento de Cultura, que muitas vezes fazem linha de frente.

“Quem olha da ponte pra cá não sabe que em plena pandemia as três ilhas ficaram sem abastecimento de água por uma semana inteira, por exemplo”, lembra Bruna.

O Colaí, o movimento cultural que ela integra, reune jovens que há sete anos trabalham com políticas sociais, e “já se reinventou muitas vezes nessa trajetória”.

O foco era promover cultura e lazer, com eventos, debates e apresentações abertas para a juventude das Ilhas.

Com a pandemia, tiveram que ampliar o campo de ação, participando também  de iniciativas educativas, promoção da leitura, oficinas e até um curso pré-vestibular na sede do Centro Cultural, na Ilha da Pintada, onde está também a “Biblioteca Marginal Ilha do Saber”.

Também as ações assistencialistas se tornaram necessárias para o enfrentamento do vírus: na confecção e distribuição de máscaras, na campanha do agasalho que começou mais cedo esse ano, na distribuição de álcool gel e cestas básicas de alimentação e higiene.

Em parceria com a Rede Beabah de Bibliotecas Comunitárias do Rio Grande do Sul, da qual a Biblioteca Marginal faz parte, hoje acompanham 150 famílias mapeadas das Ilhas, ajudando com alimentos e produtos de higiene.

São mais de 4 toneladas de produtos por mês distribuídos a essas famílias carentes.

“Tem que correr atrás de doações, tem que distribuir, é um trabalho que exige bastante dos voluntários, mas que é feito com dedicação e que compensa muito”, como diz Bruna.

Reportagem: Guilherme Hagel/ estagiário

Edição: Elmar Bones

Comentários

Uma resposta para “População das ilhas: “Aqui as máscaras disputam bocas com a fome””

  1. Avatar de Geraldo Hasse
    Geraldo Hasse

    Bela matéria. Reportagem em tempo de pandemia, coisa rara. Ao Hagel e ao JÁ, parabéns.

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