Sinal dos tempos: jornais vendem suas impressoras para o ferro-velho

Impressora Goss Communiti de seis unidades em operação.

Há quinze anos, o empresário Antonio Badra investiu R$ 2 milhões para comprar uma impressora rotativa de oito unidades, capaz de imprimir 20 mil exemplares por hora de um jornal de 36 páginas, coloridas.

Tinha planos de fazer de seu jornal A Platéia, de Santana do Livramento, um diário regional e montar um polo gráfico para imprimir jornais e periódicos de toda a região, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai.

Na semana passada,  Badra vendeu sua monumental rotativa Goss Communit, de 30 toneladas, pelo peso, a preço de sucata para a Siderúrgica Gerdau.

Ela estava há três anos parada, coberta com uma lona, no centro de um enorme galpão vazio, o que restou do parque gráfico sonhado pelo empresário. “É dolorido mas é a realidade”, disse ele ao JÁ.

Badra teve mais sorte: pelo menos cinco outras impressoras rotativas que imprimiam jornais no interior do Rio Grande do Sul – alguns deles centenários, como o Diário Popular, de Pelotas – já foram vendidas para o ferro-velho, que paga menos que a sucata.

Vendidas como sucata ou ferro velho, as enormes rotativas, que há 20 anos eram símbolo de uma revolução na produção de jornais, hoje são apenas a face mais visível e, talvez, mais chocante de uma outra revolução –  a maior já experimentada pela imprensa desde que os primeiros informativos impressos começaram a circular na Alemanha, no século 18.

Com a difusão da tecnologia digital,  o jornal impresso em papel, que reinou 200 anos no centro do universo da comunicação, rapidamente, tornou-se obsoleto como veículo para atingir grandes massas.

Uma notícia que no papel leva pelo menos oito horas para chegar aos primeiros consumidores, chega imediatamente a todos pelo meio digital on line.

Antonio Badra lembra que há dez anos não quis vender a impressora para o Correio do Povo, que pretendia criar um parque gráfico regional, para atender os seus assinantes e outros jornais da região. Um projeto parecido com o dele, que ainda parecia promissor, e por isso recusou o negócio.

Foi nos últimos cinco anos, segundo Badra, que se tornou claro o impasse do impresso: perda de circulação e aumento de custos. Há três anos ele parou as máquinas:  suspendeu a edição diária e passou a imprimir uma edição semanal aos fins de semana na gráfica da Zero Hora. Levou o noticiário do dia a dia para o digital.

Foi o mesmo caminho feito pelo Diário Popular, de Pelotas, que tem 131 anos. Levou o noticiário para o digital, vendeu a impressora para o ferro-velho e imprime suas edições na gráfica da Zero Hora, em Porto Alegre.

A cena que se pode imaginar de uma grande impressora fundida como sucata é simbólica, mas está longe de ser um epitáfio dos jornais ou das empresas jornalísticas no interior do Estado. Sequer dos impressos.

Antonio Badra, por exemplo, acha que o impresso vai se reabilitar, se descobrir o conteúdo adequado : “Nossos cadernos de variedades, com assuntos exclusivos, têm anunciantes e têm leitores”, diz . Ele já pensa inclusive em fazer uma edição impressa na quarta, além do domingo. “Demanda tem, mas tem que ter o conteúdo diferenciado.”

“Na verdade, estamos tirando um peso dos nossos ombros”, diz Adair Weiss, presidente da Associação dos Diários do Interior, sobre as impressoras a caminho do ferro-velho.

Segundo ele, trata-se de uma transição em que novos meios oferecem novas e amplas oportunidades no mercado da comunicação. Dispensar atividades secundárias e se preocupar com o conteúdo, é essencial, segundo Weiss.

Ele dá como exemplo sua própria empresa,  o Grupo A Hora, de Lajeado: “Temos um jornal diário há 19 anos e um semanário, nunca tivemos gráfica, não precisa, a gente manda os arquivos de noite recebe o jornal de manhã”.  O digital, segundo ele, pode ser complementar ao impresso,  com a vantagem de ter alcance ilimitado. “Os jornais que têm bons portais nunca foram tão influentes”, avalia Weiss.

A questão, não resolvida plenamente em nenhum lugar do mundo, é que o jornalismo digital ainda não encontrou sustentação financeira: o anunciante  tem alternativas melhores e mais baratas na web e o leitor não quer pagar pela informação.

A receita que os portais jornalísticos estão conseguindo, na maioria dos casos, não cobre o que foi perdido pelo encolhimento do impresso. “Nem de perto”, diz Eládio Vieira da Cunha, diretor do Jornal do Povo, de Cachoeira, diário que vai completar 92 anos e é o carro chefe do grupo, um dos mais fortes do interior do Estado.

Segundo o diretor, a circulação através de assinaturas, principalmente,  se mantém estável, mas a retração na publicidade é preocupante. A versão on line do jornal já tem um alcance muito maior do que o impresso, mas ainda não compensa as perdas com a migração dos anunciantes.

“Que eu saiba, diz Eládio, até agora apenas o New York Times, que é um dos maiores jornais do mundo, está conseguindo superar o desafio, ao menos é o que eles dizem: perderam 600 mil exemplares de circulação no impresso, mas obtiveram cinco milhões de assinantes no digital, que estaria compensando. Aqui no Brasil, mesmo os grandes ainda estão apanhando, embora venham dando sinais de recuperação”.

Ao mesmo tempo que alguns jornais se desfazem de suas impressoras ociosas, um outro movimento ocorre no mercado de jornais, cuja crise é mais aguda nas regiões com a economia deprimida, como a fronteira e a zona Sul.

Nas regiões mais dinâmicas estão se criando polos impressores como em Santa Cruz, Cachoeira, Novo Hamburgo e a Zero Hora, que hoje imprime cerca de 80 jornais, inclusive diários do interior do Estado, na sua gráfica em Porto Alegre. Nesses polos, os jornais impressos, embora com perdas em circulação, se mantém influentes e lucrativos.

A nova realidade fez com que a Associação dos Diários do Interior do RS mantivesse entre seus sócios mesmo aqueles que deixaram de circular diariamente, como é o caso de A Platéia.

Hoje são 24 jornais diários em cidades-polo do Estado. São aproximadamente 132.000 exemplares diários publicados, segundo o site da Associação.

Além destes jornais ligados à ADI, cerca de uma centena de  jornais impressos, com periodicidade semanal ou bissemanal, filiados à Associação dos Jornais do Interior (Adjori) circulam no interior do Rio Grande do Sul enfrentando as mesmas incertezas de uma transição sem precedentes.

NOTA DO EDITOR: Na primeira versão desta matéria constava que a edição impressa do Diário Popular de Pelotas passara a circular semanalmente. Errado. Ele terceirizou sua impressão mas segue diário. O DP completou 130 anos em 2020, é o mais antigo em circulação do RS.

2 comentários em “Sinal dos tempos: jornais vendem suas impressoras para o ferro-velho”

  1. Boa noite.
    Gostaria de saber de onde conseguiram a foto para ilustrar a matéria sobre a venda das impressoras?
    Podem dar o nome do fotógrafo que realizou a obtenção?
    Aguardo retorno.
    Obrigado.

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