Felipe Uhr
Ao contrário do significado de seu apelido, o edifício Galeria XV de Novembro, o conhecido Esqueletão do centro de Porto Alegre, guarda vida e histórias para contar dentro de sua estrutura inacabada há mais de sessenta anos.
Em março de 2020 a FASC cadastrou “pelo menos” 45 ocupantes, hoje não se sabe ao certo quantas pessoas ou famílias residem no velho prédio.
“São mais de vinte (famílias) morando aqui” fala Renato Correia da Luz, morador do Esqueletão há 25 anos. Sua história com o prédio inacabado é curiosa.
Chegou para fazer um serviço, reformar janelas, acabou se acomodando no edifício. Depois comprou um apartamento, segundo ele “em um negócio pessoal” com o proprietário Marques Adair Figueiredo.
É no terceiro piso, no fundo do corredor do prédio que vai da Otávio Rocha até a Galeria do Rosário, que “seu Renato”, aos 78 anos, vive dias de incerteza.
“Querem me tirar daqui pra me dar aluguel social?” questiona ele. Diz que não tem para onde ir. Se a Prefeitura, ou o poder público lhe der um lugar para morar, aceita na hora, mas se recusa aceitar os quinhentos reais do aluguel social. “Eu vou morar onde com esse valor?”
Com quase três décadas vividas ali, Renato gosta do centro de Porto Alegre. Em seu confortável apartamento, que ele mesmo reformou, recebeu a reportagem do JÁ.
“Eu investi dinheiro do meu bolso, fiz piso, elétrica e hidráulica, porque não tinha nada quando eu cheguei.” Gaba-se ele ao mostrar seu aposento: “Agora tu acha justo eles virem aqui, me tirarem o que é meu e darem aluguel social?”.
Até chegar ao apartamento de seu Renato há três lances de escadas, sem luz. Os corredores são úmidos, algumas goteiras, o cheiro de esgoto.

Piso, paredes com reboco inacabado em grande parte dos corredores ,onde não se vê extintores de incêndio – mas eles existem, segundo um lojista que não quis ser identificado: “A gente guarda, se não, roubam”, comentou.
Chegando ao apartamento de seu Renato, termina o piso exposto sem acabamento e começa o de azulejo. É no ambiente de dois cômodos, mais o banheiro, onde ele vive há pelo menos dez anos, sozinho. Antes tinha uma companheira.
Na parede, o retrato da neta mais nova; na mesa, a foto do neto e da filha. No quarto, uma cama de casal, um armário corroído pelo tempo e outra televisão em cima de um gaveteiro.
Não há fiação exposta, apenas a da Internet. As paredes, sem uma pintura recente, mostram os efeitos do tempo.
Segundo ele, com o pouco que ganha, é impossível fazer melhorias. Mesmo assim, ele gosta de onde vive. O prédio inacabado não faz seu Renato ter medo.

Segundo ele, já foram feitos três laudos que garantem que o prédio não apresenta riscos de desabamento. “Até os do governo caem, menos o nosso, isso é conversa deles, o que incomoda é o visual desse prédio aqui no centro”, diz ele, descrente de uma possível restauração.
Cidadão respeitador da lei, Renato diz que vai cumprir qualquer decisão judicial, mesmo que não concorde, mas reitera também que ninguém da assistência social veio conversar com ele:
“Fizeram uma reunião lá em março do ano passado, depois veio a pandemia e não teve mais”. O velho senhor ainda lembra que nenhuma decisão judicial chegou à sua porta.
Processo longo e confuso
A decisão de desocupar Galeria XV de Novembro, conhecida como Esqueletão, tomada no dia 9 de agosto pelo juiz Eugênio Couto Terra, da 10ª Vara da Fazenda Pública de Porto Alegre, foi mais um capítulo de um processo que há décadas se arrasta pela Justiça.
Nem a Procuradora do Município encarregada do caso, Eleonora Serralta, tem certeza de quando começou. “É um processo de muitos anos”, frisa ela, que chegou em 1999, quando o processo já tramitava.
Na verdade são dois processos com mais de trinta réus, inclusive o Município de Porto Alegre.
Por não se tratar de uma invasão, o caso é delicado, avalia a procuradora. “Por mais que as condições sejam precárias as pessoas alugam aquelas peças.”
Segundo ela, nas reuniões que aconteceram, pelo menos quarenta e cinco famílias foram cadastradas. Foi liberado Auxílio Moradia para os que foram identificados como vulneráveis. ”Alguns recebem e não fazem jus.”
A última averiguação foi feita no dia 27 de maio. Havia oito novos moradores, que não estavam cadastrados e que não haviam participado da reunião.
A procuradora reconhece que é difícil obter um número definido de moradores, visto que novos inquilinos vão surgindo e passando pelo imóvel.



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