Numa exposição que reúne nomes reconhecidos como Britto Velho, Cláudia Sperb, Leandro Selister, Paulo Favalli, Leonardo Loureiro e o uruguaio Gustavo Tabares, entre outros, no Espaço Físico, em Porto Alegre, a curadora Ana Zavadil dispõe as obras, de diferentes linguagens, de maneira inovadora: “Menos pela tentativa de unificação conceitual e mais pela construção de uma experiência espacial compartilhada”, explica ela.
Idealizadora do Espaço Físico (Rua Felipe Camarão, 700, sala 101), a curadora da mostra “Entre passagem e permanência” usa o local expositivo não como suporte neutro, mas como proposição ativa. “Em vez de organizar as obras a partir de um conceito temático único, a curadoria assume a própria arquitetura como eixo articulador: o espaço determina a forma de encontro, o ritmo do olhar e a experiência do corpo diante das obras”, esclarece Ana.
Obra de Paulo Favalli. Foto Divulgação
Assim, o percurso da exposição começa no corredor, que funciona como um dispositivo curatorial: um espaço que cria tensão, expectativa e sequência, fazendo com que o olhar seja constantemente ativado e reposicionado.
O ambiente a seguir rompe a linearidade e introduz outra presença. “Se o corredor sugere passagem, esse espaço final sugere permanência. Nesse ponto, a exposição se expande: o percurso não se encerra, mas se reorganiza”, diz Ana, que foi curadora-chefe do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), curadora-chefe do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS) e curadora assistente da 10ª Bienal do Mercosul, em 2015.
Obra de Brito Velho. Foto Divulgação
Essa é a terceira exposição no Espaço Físico, dirigido por Ana, que o inaugurou em janeiro deste ano. “A diversidade de obras da mostra não é ruído: é matéria de relação. As obras coexistem em um mesmo território, porque o espaço, ao conduzir e redistribuir a atenção, cria um campo comum de leitura”, afirma a curadora.
Obra de Simone Barros. Foto Divulgação
Artistas participantes
São as(os) seguintes artistas que participam da exposição: Alexandra Eckert, Britto Velho, Cátia Usevicius, Cláudia Sperb, Cleci Altermann Serpa, Fernanda Martins Costa, Gustavo Tabares, Heloísa Biasuz, Jane Maria, Juliana Desconsi, Jussara Moreira, Leandro Selister, Leonardo Loureiro, Márcia Marostega, Mylène d’Huyer, Paulo Favalli, Rita da Rosa, Sílvia Brum, Simone Barros e Wischral.
Obra de Leandro Selister. Foto Divulgação
SERVIÇO:
Exposição “Entre passagem e permanência”
Curadoria: Ana Zavadil
Abertura: 30/05 (sábado), das 10h30 às 12h30
Visitação: de 1º de junho a 1º de julho, de segunda a sexta, das 14h às 19h
Local: Espaço Físico
Endereço: Rua Felipe Camarão, 700 – sala 101 – Bom Fim, Porto Alegre/RS
Inteiramente reformado, ao custo de R$ 3,6 milhões, reabriu na quarta-feira (27/5), o Teatro Bruno Kiefer, no 6º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), em Porto Alegre.
O governador Eduardo Leite, do secretário da Cultura, André Kryszczun, e da diretora da CCMQ, Adriana Sperandir participaram da reinauguração.
A obra contemplou restauração integral da plateia, adequações às normas de acessibilidade e substituição de poltronas, carpetes e forros. As melhorias também alcançaram o foyer, o telhado, as portas de segurança e as instalações elétricas. No palco, foram realizadas intervenções que incluíram a renovação da iluminação, a instalação de um novo rack de comando e a recuperação do assoalho – o que modernizou a estrutura e qualificou as condições para artistas e público.
“Não basta defender a cultura no discurso, é preciso transformá-la em prioridade nas políticas públicas e no orçamento”, disse o governador .
Os convidados puderam conferir também o teaser de um vídeo institucional sobre o Projeto de Restauração do Teatro, que será lançado na versão completa em breve. O material, produzido pela produtora Ocorre Lab, conta com imagens da obra captadas no último ano, depoimentos de integrantes da classe artística e registros de atividades educativas realizadas em 2025, vinculadas ao projeto de restauro.
Restauração
O Teatro Bruno Kiefer é um dos principais espaços culturais do Rio Grande do Sul e grande referência para a cena artística e teatral. Ao longo de décadas, consolidou-se como local de encontros, trocas e produção para artistas, técnicos e público, contribuindo para a formação de espectadores e para o desenvolvimento das artes em Porto Alegre.
A reforma começou em fevereiro de 2025, com projeto assinado pelos arquitetos Flávio Kiefer e Joel Gorski. Ambos são autores também do plano que transformou o antigo Hotel Majestic na CCMQ, nos anos 1990.
Programação do segundo semestre
Nos próximos meses, o teatro recebe diversos espetáculos de música, artes cênicas, drag e dança. Dentre eles, projetos selecionados no Edital de Ocupação dos Teatros da CCMQ; espetáculos de curadoria, organizados pelo Núcleo de Administração dos Teatros da CCMQ; festivais de artes cênicas; e uma programação alusiva aos 120 anos de nascimento de Mario Quintana.
Com o Teatro Simões Lopes Neto lotado, estreou ontem o Casa da Palavra, projeto do Multipalco Eva Sopher que prevê rodas de conversa mensais entre personalidades de diferentes áreas sobre temas relacionados às artes e questões sociais.
Começou com o bate-papo Quem conta o país? O Brasil em cena e em prosa, com o cineasta Jorge Furtado e o escritor José Falero, que aproveitaram para revelar um suposto segredo: estão trabalhando juntos no roteiro de um filme baseado no livro Os Supridores.
Furtado e Falero têm diferença de uma geração. Furtado era fã de Mário Quintana. Fez em 1984 seu primeiro filme, Temporal. Depois, O Dia em que Dorival Enfrentou a Guarda e Ilha das Flores, que o levou a escrever para a TV Globo. O trabalho de maior audiência foi Memorial de Maria Moura. Trabalhou muito com Luis Fernando Verissimo em séries, como Os Normais.
Falero contou que sentiu vontade de escrever a partir de assistir na TV seriados de ficção. Prefere escrever seguindo a intuição. Já tentou pesquisar pra se aprofundar nos temas mas concluiu que “investigar acaba atrapalhando”.
Furtado escreve todos os dias e testa as falas em voz alta porque escreve pra filmar. Fez a plateia rir com a frase: “O prazo é a nossa musa”.
Falero contou que se esforçou muito para publicar seus escritos, quando trabalhava como porteiro ou supridor. Só conseguia escrever depois que ganhava o suficiente para sobreviver. Agora a situação se inverteu: é a escrita que o está sustentando. Então, nas horas vagas, ele vai jogar sinuca ou vai pro samba.
Pra encerrar, a mediadora da conversa, jornalista Bruna Paulin, perguntou o que cada um gostaria de eliminar do discurso das pessoas. Furtado: o racismo; Falero: a meritocracia. E o que cada um de vocês gostaria que mudasse no país? “Gostaria que a política não fosse vista como uma coisa suja”, disse Furtado. A seguir ele comentou: “Parece que não se roubam mais quantias como 100 mil; agora são milhões” (risos). Respondendo ao desafio final, Falero disse que gostaria de ver ampliar-se a diversidade ou, seja, deseja que haja uma melhor distribuição de recursos ou menos desigualdade. E deu um exemplo que parece uma parábola: “Vamos pegar um saco de feijão e escolher o maior dos grãos… Como se faz? Ora, você não vai catar grão por grão até achar o maior. Você pega um punhado (uma amostra) e logo acha o maior. É uma escolha arbitrária e nós estamos acostumados e conformados com isso, mesmo sabendo que no saco de feijão provavelmente tem um grão maior que o escolhido”.
O público riu quando Falero confessou que detesta o livro Os Supridores, que lhe deu fama nacional. Acha que tem defeitos que está tentando corrigir no roteiro, enquanto Furtado, baseado em sua experiência como adaptador de 40 histórias literárias, insiste em respeitar o conteúdo do livro. Ambos divergem mas estão se entendendo. Não se falou em prazo ou datas de filmagem ou orçamento.
O ingresso para o Casa da Palavra é a doação de um livro, em boas condições, na entrada do teatro, a serem distribuídos a bibliotecas.
A iniciativa, com patrocínio da Casa da Memória Unimed/RS e apoio do Sescoop/RS, seguirá reunindo, nos próximos meses, profissionais de múltiplas vertentes, entre literatura, dança, teatro, dramaturgia, jornalismo e outras expressões artísticas e intelectuais. Com o projeto, o Multipalco Eva Sopher pretende reafirmar sua identidade como centro pulsante de produção cultural e pensamento contemporâneo. O objetivo é ampliar o papel do teatro como território de reflexão cultural.
Grupo construiu trajetória com narrativas oriundas do imaginário coletivo, sejam elas lendas populares, contos tradicionais ou releituras de clássicos universais.
Por Cristiano Goldschmidt
A Rococó Produções Artísticas e Culturais, surgida no contexto sul-rio-grandense, constitui um caso singular dentro da cartografia do teatro brasileiro contemporâneo, sobretudo por sua capacidade de articular, de maneira orgânica, dimensões que frequentemente se apresentam dissociadas: criação estética, formação de público e intervenção sociocultural. Fundada pelos atores Henrique Gonçalves e Guilherme Ferrêra, a companhia completou 10 anos de trajetória em 2025, consolidando-se como um projeto de continuidade e relevância. A análise de sua trajetória exige, portanto, um olhar que ultrapasse a mera enumeração de espetáculos ou conquistas institucionais, para alcançar a lógica interna que orienta sua permanência no cenário artístico.
Desde sua gênese, o grupo demonstra uma inclinação inequívoca para o hibridismo de linguagens. Tal característica não se reduz a um procedimento formal, mas configura-se como um princípio estruturante de sua poética. A cena rococoense — se assim se pode denominar — opera na interseção entre teatro narrativo, musicalidade cênica e elementos coreográficos, resultando numa gramática espetacular que privilegia o fluxo e a plasticidade. Essa opção estética revela uma compreensão ampliada do fenômeno teatral, entendido não apenas como representação dramática, mas como experiência sensorial e cognitiva simultaneamente.
A história da Rococó Produções é marcada por um processo contínuo de circulação e diálogo com diferentes públicos, especialmente no circuito de teatro para infância e juventude. Longe de assumir essa vertente como um espaço menor, o grupo a transforma em laboratório privilegiado de experimentação e refinamento técnico. Há, nesse aspecto, uma recusa deliberada do didatismo simplificador que historicamente permeou o teatro infantojuvenil. Em seu lugar, emerge uma dramaturgia que respeita a inteligência do espectador jovem, propondo narrativas densas, ainda que acessíveis, e investindo em soluções cênicas que estimulam a imaginação sem subestimar a complexidade do mundo.
Essa postura se reflete diretamente no trabalho de atuação. Os intérpretes da Rococó não se limitam à construção psicológica de personagens, mas assumem uma função polissêmica dentro da cena. São, ao mesmo tempo, atores, narradores, músicos e mediadores. Tal polivalência exige uma disciplina técnica específica, baseada na presença cênica, no domínio do ritmo e na capacidade de transitar entre registros expressivos distintos. O resultado é uma atuação que se afasta do naturalismo estrito e se aproxima de uma teatralidade assumida, na qual o jogo com o espectador torna-se elemento central.
No que concerne ao foco artístico, é possível identificar uma predileção por narrativas oriundas do imaginário coletivo, sejam elas lendas populares, contos tradicionais ou releituras de clássicos universais. Essa escolha não é casual: ao mobilizar tais matrizes simbólicas, o grupo estabelece pontes entre diferentes gerações e contextos culturais, contribuindo para a preservação e reinvenção de repertórios narrativos. Ao mesmo tempo, suas montagens frequentemente incorporam temáticas contemporâneas, como diversidade, convivência social e formação ética, produzindo um efeito de atualização que impede a fossilização dessas histórias.
As ações educativas da Rococó Produções constituem um dos eixos mais consistentes de sua atuação. Oficinas, projetos formativos e atividades de mediação cultural são concebidos não como apêndices, mas como extensões naturais do trabalho artístico. Nesse sentido, o grupo opera segundo uma lógica de teatro expandido, no qual a experiência estética se prolonga para além do espetáculo, alcançando processos de aprendizagem e sensibilização. Tal abordagem evidencia uma concepção de arte comprometida com a transformação social, ainda que essa transformação se dê de maneira sutil, no plano das percepções e afetos.
O reconhecimento obtido ao longo de sua trajetória, materializado em premiações e participações em festivais, funciona como indicador da consistência de seu projeto. Distinções na área do teatro infantojuvenil, em especial, sinalizam não apenas a qualidade de suas produções, mas também a relevância de sua contribuição para um segmento frequentemente negligenciado pelas políticas culturais. No entanto, mais significativo do que os prêmios em si é o fato de o grupo ter conseguido construir uma relação duradoura com o público, baseada na confiança e na recorrência.
Entre os principais integrantes da Rococó Produções, destacam-se artistas que acumulam funções criativas e pedagógicas, como direção, atuação e elaboração de projetos formativos. Atualmente, além de seus fundadores, integram o grupo Julio Estevan, Clarissa Siste e Jeniffer Pedroso. Ainda que a configuração do elenco possa variar ao longo do tempo, é precisamente essa flexibilidade que permite ao grupo manter-se dinâmico, incorporando novas experiências sem perder sua identidade. Trata-se de um coletivo no qual a autoria tende a diluir-se em favor de um pensamento artístico compartilhado.
A forte ênfase na comunicabilidade e na solidez da estrutura narrativa responde por parcela significativa da recepção consistente do grupo. Em um panorama teatral que, não raramente, privilegia a ruptura como valor em si, a Rococó investe numa zona de tensão produtiva entre tradição e experimentação, articulando-as de modo a evitar tanto o conservadorismo reiterativo quanto a inovação gratuita. Trata-se, portanto, de uma escolha estética deliberada, ancorada na centralidade da experiência do espectador e na eficácia do encontro cênico como espaço de partilha simbólica.
Em síntese, a Rococó Produções Artísticas e Culturais afirma-se como um projeto de longa duração que conjuga consistência estética, compromisso educativo e inserção social. Ao completar uma década de atividades em 2025, o grupo reafirma sua relevância no cenário cultural brasileiro. Sua trajetória evidencia a possibilidade de um teatro que, sem renunciar à elaboração formal, permanece acessível e significativo para públicos diversos. Ao investir na formação de espectadores e na valorização do imaginário coletivo, o grupo não apenas produz espetáculos, mas contribui para a construção de um tecido cultural mais sensível e plural.
A Gravura Galeria de Arte promove a abertura de duas exposições nesta quinta-feira (14/05): a individual “Mulheres silenciadas”, da artista visual Ivone Rabelo, e a coletiva “Topografias sensíveis”, dos artistas João Carlos Bento, Cleci Serpa, Marion Lunke e Marília Chartune. A inauguração das duas acontece às 18h30, e as mostras ficam abertas à visitação até 6 de junho.
Obra de Ivone Rabelo – Série Mulheres Silenciadas. Divulgação
Com mais de duas décadas de atuação nas artes, Ivone Rabelo aborda a opressão, a violência de gênero e os silenciamentos impostos às mulheres. Por meio de manequins de loja em escala humana, materializa diferentes formas de abuso – emocional, financeiro, patrimonial e sexual -, dando corpo a realidades muitas vezes invisibilizadas. “Transformo a dor em linguagem artística”, resume ela, que ocupa a sala Branca da Gravura.
“Minha obra questiona o ideal imposto à mulher, que deve ser múltipla, perfeita, mas sempre submissa – e rompe com ele. É um grito de basta”, diz Ivone.
A curadora de “Mulheres silenciadas”, Ana Zavadil, ressalta que a escolha do manequim como figura central não é casual. “Trata-se de uma representação que desloca o corpo feminino do âmbito do indivíduo para o campo da objetificação. O manequim, como corpo artificial e comercial, carrega em si uma simbologia direta relacionada à mercantilização do feminino e a redução da mulher à condição de objeto. É uma presença corporal sem voz, sem história, sem identidade própria, ou seja, uma forma vazia, destinada a servir de suporte para o olhar alheio”.
Cores, flores e cidades
Integrante da mostra “Topografias sensíveis”, o artista formado pelo Instituto de Artes (IA/UFRGS) e arquiteto João Carlos Bento conta que sempre procura “trabalhar as cores como se fossem flores, que tragam uma energia positiva para os ambientes onde estão compondo”.
Obra de João Carlos Bento. Divulgação
Cleci Serpa, por sua vez, explica que, para ela, a cor não é descritiva. “Opera como território emocional, criando tensões, pausas e fluxos”.
Já Marília Chartune valoriza o fato de que a representação de grandes cidades, temática trabalhada por ela desde 1984, é atemporal e “surge nas pinceladas fluidas da técnica de aquarela”.
Obra de Cleci Serpa. Divulgação
Nascida na Alemanha, mas gaúcha de coração, Marion Lunke não faz segredo de que se vale de “pinceladas fortes e bem coloridas”. Ela tem as flores, o corpo humano e rostos de mulheres entre seus principais temas.
A coletiva dos quatros artistas, com curadoria de Regina Galbinski, ocupa a sala Negra. Conforme o texto curatorial, “cada pintura propõe uma experiência particular de observação, convidando o olhar a percorrer camadas, ritmos e silêncios”.
Obra de Marion Lunke. Divulgação
SERVIÇO:
Exposições: “Mulheres silenciadas” e “Topografias sensíveis”
Abertura: quinta-feira (14/5), das 18h30 às 20h30
Visitação: até 6 de junho, de segunda a sexta, das 9h30 às 18h30; sábado, das 9h30 às 13h30
A Galeria Escadaria abre neste dia 18 de abril (sábado), a partir das 15h, “Sete Cabeças”, exposição que reúne trabalhos de sete fotógrafos, que embora distintos em linguagem e abordagem, convergem em potência estética e relevância contemporânea.
A curadoria é de Marcos Monteiro, que já realizou 42 exposições a céu aberto em Porto Alegre, São Paulo, Pelotas e Gramado. A visitação ocorre diariamente, até o dia 3 de junho, no Píer da Usina do Gasômetro.
Foto de Míriam Ramalho, trabalho sobre mães refugiadas no campo de Dzaleka, no Malawi. Expo Sete Cabeças/Divulgação
As fotos abordam temas como religiosidade, sobrevivência humana, deslumbramento diante da natureza, manifestações populares e dimensões do imaginário e do surreal.
“Mais do que uma exposição, ‘Sete Cabeças’ é um encontro de olhares que tensionam, sensibilizam e expandem as possibilidades da fotografia contemporânea”, afirma Marcos Monteiro, criador da Galeria Escadaria, que funcionou desde 2021 no Viaduto Otávio Rocha, na avenida Borges de Medeiros, e por conta das obras de restauração passou para o Píer do Gasômetro, ambos cartões postais de Porto Alegre.
Foto de Fernando Kokubun, série Vestígios. Expo Sete Cabeças/Divulgação
O fotógrafo, curador e produtor é conhecido por seus projetos curatoriais a céu aberto com forte impacto social e estético, tendo com suas exposições públicas integradas à vida urbana ganho homenagens da Câmara de Vereadores de Porto Alegre e o Prêmio Açorianos de Artes Visuais.
Foto de Cynthia Jappur, série Utopia Cromática. Expo Sete Cabeças/Divulgação
OS ARTISTAS:
Cynthia Feyh Jappur – Utopia Cromática: Destaca-se pela intensidade visual e pela criação de imagens que operam no limite entre controle e imprevisibilidade. Sua obra é marcada por explosões cromáticas e sobreposições que, à primeira vista, sugerem o caos, mas se organizam de forma sensível e harmônica ao olhar.
Douglas Fischer – Siré. Dança dos Orixás: Fotógrafo gaúcho premiado e coautor do livro “Fulgêncio”, transcende o registro documental ao abordar a celebração de Oxum. Seu trabalho captura a dimensão simbólica e emocional dos rituais, traduzindo com sensibilidade a força espiritual presente nas imagens.
Fernando Kokubun – Vestígios: O fotógrafo porto-alegrense constrói narrativas visuais marcadas por tensão, ausência e transitoriedade. Em preto e branco, suas imagens intensificam contrastes e conduzem o olhar a zonas de ambiguidade. A presença humana surge como vestígio: corpos borrados e espectrais indicam a impermanência e a dissolução do sujeito no espaço.
Hilton Lebarbenchon – Ao Sul do Mundo: Mais do que uma coordenada geográfica, o sul da América do Sul aparece como experiência sensível de vastidão e silêncio. Paisagens imponentes — montanhas, cumes nevados e céus rarefeitos — constroem um território onde o tempo parece suspenso. A presença humana, mínima, não domina: coexiste com a força primordial da natureza.
Iara Tonidandel – Peso do Olhar Infantil: A artista apresenta retratos de crianças de países como Tailândia, Nepal, Colômbia, Ruanda, Tanzânia, Sri Lanka e Etiópia. Longe de qualquer apelo à piedade, seus olhares convocam responsabilidade. Cada imagem revela infâncias atravessadas por desigualdades, trazendo à tona questionamentos profundos por meio de uma abordagem documental sensível.
Míriam Ramalho – Mães de Dzaleka: Fotógrafa carioca com trajetória consolidada em expedições internacionais e autora de cinco livros, Míriam apresenta um recorte documental sobre mães refugiadas no campo de Dzaleka, no Malawi. Seu trabalho, também registrado em publicação editorial, evidencia com profundidade e respeito às realidades vividas por essas mulheres.
Roberta Tavares – Pernambuco: Onde o Chão Ferve e a Alma Dança: Com uma trajetória extensa e reconhecida, Roberta Tavares propõe uma leitura autoral do Carnaval de Pernambuco. Suas imagens vão além do registro e constroem uma narrativa em que corpo, ritmo e território se entrelaçam. Em cidades como Recife, Olinda, Nazaré da Mata e Carpina, o espaço urbano é transformado pela força da ocupação coletiva.
Foto de Douglas Fischer, de Siré – Dança dos Orixás. Expo Sete Cabeças/Divulgação
Serviço: Abertura: 18 de abril (sábado), a partir das 15h. Local: Pier da Usina do Gasômetro Encerramento: 3 de junho de 2026. Visitação: Diária, ao longo de 24h. Entrada franca.
Foto de Hilton Lebarbenchon, série Ao Sul do Mundo. Expo Sete Cabeças/Divulgação
Em 2018, surgiu a primeira mostra da Galeria Escadaria, no Viaduto Otávio Rocha, no Centro Histórico de Porto Alegre. Ao ar livre, funcionando 24 horas por dia, com acesso gratuito e com predominância de mostras fotográficas. De lá para cá, foram exibidas 43 exposições. Algumas delas foram levadas para outras cidades gaúchas. Com enorme sucesso de público e grande repercussão no meio cultural do Estado.
O fotógrafo, produtor cultural e curador, Marcos Monteiro, 70 anos, gaúcho de Bagé, conversou sobre a galeria com o JÁ Porto Alegre.
JÁ – Como surgiu a ideia da Galeria Escadaria?
Marcos Monteiro – Em 2018, realizei na Escadaria do Viaduto Otávio Rocha a primeira edição da exposição fotográfica anual Street Expo Photo. E a Galeria Escadaria surgiu oficialmente em 2020. A principal inspiração foi a necessidade de criar espaço para o meu trabalho fotográfico, já que galerias e museus raramente ofereciam oportunidades para fotógrafos iniciantes.
Marcos Monteiro, fotógrafo, produtor cultural e curador das mostras na Escadaria. Divulgação
JÁ – O que caracteriza a galeria?
Monteiro – A galeria sempre esteve localizada em espaço aberto, acessível a um público que, muitas vezes, não frequenta ambientes culturais tradicionais. Aberta 24 horas por dia e com acesso gratuito, a Galeria Escadaria consolidou-se como a maior galeria de arte a céu aberto do Brasil e uma plataforma democrática de difusão cultural, aproximando o público da fotografia e estimulando novos olhares sobre o espaço urbano.
Foto de Araquém Alcântara. Galeria Escadaria/ Divulgação
JÁ – Quantas mostras foram exibidas e quem expôs no local?
Monteiro – Até hoje, foram realizadas 43 exposições, entre coletivas e individuais. Além de consagrados fotógrafos gaúchos, o espaço já recebeu importantes nomes da fotografia brasileira, como Walter Firmo, Araquém Alcântara, Gabriela Biló, Márcio Vasconcelos, Maria Eugênia Nabuco, Marina Klink, Gal Oppido, Márcio Scavone, Ana Carolina Fernandes, Fernanda Chemale, Penna Prearo, Claudio Edinger e Luiz Garrido, entre muitos outros, reafirmando seu papel como vitrine da produção fotográfica nacional.
O espaço também já apresentou o trabalho de artistas internacionais de grande relevância, como Boushra Y. Almutawakel, considerada uma das fotógrafas mais influentes do mundo. Participaram, ao todo, cerca de 400 fotógrafos, com aproximadamente 1.000 obras expostas. Com média de 20 mil visitantes mensais, tornou-se uma das galerias mais visitadas do país.
Foto de Walter Firmo. Galeria Escadaria/ Divulgação
JÁ – Outras mostras causaram repercussão?
Monteiro – Entre as mostras de maior repercussão estão – a primeira edição da Street Expo Photo, que reuniu cerca de 300 visitantes na abertura e, ao longo de suas sete edições, trouxe grandes nomes da fotografia brasileira. A exposição da portuguesa Fernanda Carvalho, em 2022. A mostra Autorias, com curadoria de Graça Craidy, que apresentou 22 retratos em óleo/acrílica sobre tela, exibidos em espaço público por um mês. A exposição Ir. Real, de minha autoria, com grande frequência de público. E a recente exposição de Araquém Alcântara, um dos maiores fotógrafos do Brasil.
Foto de Gal Oppido. Galeria Escadaria/ Divulgação
JÁ – Além da escadaria, em quais locais as exposições ocorreram?
Monteiro – Em Porto Alegre, as mostras já foram realizadas em bairros como a Restinga, no Parque da Redenção, na Praça da Alfândega, e na Orla do Guaíba. E já houve nas cidades de Pelotas e São Paulo. Em breve, pretendemos inaugurar uma unidade da Galeria em Gramado.
Foto de Tina Gomes. Galeria Escadaria/ Divulgação
JÁ – Como é o formato expositivo da galeria?
Monteiro – As fotografias são apresentadas em painéis fixos, instalados no chão. A ideia surgiu em 2016, em parceria com Gilberto Perin e com apoio da Aliança Francesa, no projeto Mosaicografia. Foram instalados 20 painéis de 10 metros de extensão no Largo Glênio Peres, em frente ao Mercado Público de Porto Alegre, reunindo 400 fotógrafos do Brasil, América Latina e Europa. O projeto foi um grande sucesso, alcançando cerca de 300 mil visitantes.
Foto de Lorenzo Scavone. Galeria Escadaria/ Divulgação
JÁ – E qual será a próxima exposição?
Monteiro – No dia 18 de abril, a partir das 15h, com o título Sete Cabeças. Ela reúne sete fotógrafos que, embora distintos em linguagem e abordagem, convergem em potência estética e relevância contemporânea. Os fotógrafos participantes: Cynthia Feyh Jappur (POA), Douglas Fischer (POA), Fernando Kokubun(POA), Hilton Lebarbenchon (POA), Iara Toonidandel (POA), Míriam Ramalho (RJ) e Roberta Tavares (PE).
Foto de Lu Brito. Galeria Escadaria/ Divulgação
JÁ – E a questão de apoio cultural e patrocínio?
Monteiro – O apoio e patrocínio cultural variam conforme o projeto. Muitos são viabilizados por meio de editais públicos, como a Lei Rouanet, a LIC, além de recursos próprios.
Foto de Raphael Alves. Galeria Escadaria/ Divulgação
JÁ – O que mais tem a nos dizer?
Monteiro – A Galeria Escadaria tem como propósito aproximar a arte do cotidiano das pessoas por meio de exposições realizadas em espaços públicos. A iniciativa entende a cidade como território de aprendizagem, convivência e experiência estética, transformando áreas de circulação em ambientes de acesso livre à cultura.
As exposições em espaço público rompem barreiras tradicionalmente associadas aos ambientes culturais formais, permitindo que o encontro com a arte aconteça de forma espontânea, acessível e democrática. Assim, o transeunte torna-se espectador, e o espaço urbano transforma-se em lugar de sensibilização, pertencimento e formação cultural contínua. A Galeria Escadaria reafirma a arte como experiência coletiva, estimulando a imaginação.
Foto de José Bassil. Galeria Escadaria/ Divulgação
A Gravura Galeria de Arte abre duas novas exposições na terça-feira, dia 7 de abril: “Muitos Mundos”, da artista visual Andréia Moll, e “Do Descarte à Superfície”, da artista Leonor Moura. As mostras têm curadoria de Letícia Lau.
As inaugurações acontecem das 18h30 às 20h30. As obras de “Muitos Mundos” ocupam a sala Negra, e os trabalhos de “Do Descarte à Superfície”, a sala Branca da Gravura, dirigida pela galerista e arquiteta Regina Galbinski.
Ambas as exposições são propostas por duas artistas visuais integrantes do VW Atelier Coletivo, com longa prática artística. Cada uma desenvolve investigações que atravessam seus posicionamentos diante da realidade e dos modos de habitar o mundo.
Obra de Andréia Moll. Reprodução
De acordo com a curadora, Muitos Mundos surge a partir de uma pergunta simples: O que é realidade? Pensando na teoria ontológica de realidades ramificadas, a artista busca pelo cerne, ou como ela afirma, o ‘mundo principal’, diante da pluralidade de universos singulares simbolizado por esferas evidenciadas em suas pinturas e monotipias.
Referindo-se à mostra Do Descarte à Superfície, Lau observa que “consumimos sem ver. Descartamos sem perceber. Aqui, tudo volta à superfície”.
Obra de Leonor Moura. Reprodução
Vivência diversificada
Andréia Moll morou na Finlândia, Venezuela, México, Holanda e Estados Unidos. A pluralidade de ambientes impulsionou sua pesquisa, que se concentra nos fatores envolvidos na construção das visões de mundo individuais.
Seus trabalhos, em desenho, pintura, fotografia e colagem, partem de uma pergunta “simples e vertiginosa”: em que mundo, afinal, vivemos?
“Em um tempo marcado pela multiplicação de telas, notícias e experiências mediadas, a exposição propõe uma pausa reflexiva. Como estabelecemos conexões entre as diferentes “realidades” que nos chegam a cada contato humano, a cada manchete, a cada novo aplicativo? E, para além da fragmentação, existe uma realidade primeira — um fundamento ao qual valha a pena retornar?”, reflete ela.
Ético e sustentável
O trabalho de Leonor Moura envolve o uso de itens que a maioria das pessoas despreza: embalagem, papel de presente, enchimento de uma caixa de sapatos, etc.
Mais do que uma escolha estética, essa prática carrega uma postura ética. Ao ressignificar resíduos do consumo cotidiano, Leonor acredita que insere em sua obra o conceito de sustentabilidade, não como tema declarado, mas como método vivido.
A artista coleciona e arquiva esse material organizando-o por tipo, cor, textura e espessura. Na produção das pinturas, os fragmentos são dispostos sobre telas preparadas com tinta acrílica. Colados e agrupados por afinidades de cor, textura ou transparência, eles assumem o papel da mancha pictórica: substituem a tinta, dialogam com ela, constroem camadas.
O resultado é um híbrido entre pintura e colagem que provoca uma dupla percepção: de longe, as obras revelam composições abstratas de grande força visual; de perto, a materialidade dos papéis — suas dobras, fibras e histórias — emerge com toda a sua presença física reveladas na superfície. É um convite para pensarmos em consciência ambiental e transformação.
Visitação: de 7 abril de 2026 a 09 de maio de 2026.
Vernissage: 7 de abril de 2026, das 18:30 às 20:30.
Horários: segunda a sexta-feira, das 9h30 às 18h30; sábados, das 9h30 às 13h30.
Local: Gravura Galeria de Arte – Rua Corte Real, 647 – Petrópolis, Porto Alegre – RS
A artista visual gaúcha Graça Craidy não poderia desejar outro local para expor sua coleção de retratos de personagens do livro “Grande Sertão: Veredas”, no momento em que a obra-prima do imortal João Guimarães Rosa completa 70 anos de seu lançamento, a Academia Brasileira de Letras.
É justamente na ABL que a mostra “Grande Sertão”, de Graça, será inaugurada terça-feira (31/03), às 17h. E lá permanecerá até 29 de maio, aberta à visitação das 10h às 18h, no 1º andar do Palácio Austregésilo de Athayde, à Av. Presidente Wilson, 203, Centro do Rio de Janeiro.
Guimarães Rosa no cerrado. Reprodução
O atual ocupante da Cadeira nº 2 da academia, Eduardo Giannetti, escreveu um texto inédito, especialmente para a mostra, pelo fato de Guimarães Rosa ter ocupado, no passado, a mesma cadeira.
“Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande Sertão completa 70 anos mais vivo – e necessário – que nunca. Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo de Guimarães Rosa, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se”, sustenta, no primeiro parágrafo de seu texto, o titular da cadeira fundada por Coelho Neto e que tem como patrono o poeta Álvares de Azevedo(leia a íntegra do texto de Giannetti ao final).
Riobaldo e Diadorim
Natural de Ijuí e radicada em Porto Alegre, Graça, de 74 anos, apresenta 17 quadros e um tríptico, em acrílica sobre tela e sobre papel. Nas obras, os principais personagens do livro ganham feições físicas inspiradas pela narrativa, inclusive levando em conta a personalidade e o comportamento traçados pelo autor. Entre os personagens retratados estão, por exemplo, Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo, Manuelzão, Maria Mutema, Otacília, Nhorinhá, Sô Candelário, Os Ramiros, Medeiros Vaz.
Jagunço Hermógenes
O próprio Guimarães Rosa aparece, em um dos trabalhos, embrenhando-se no Cerrado, a cavalo, junto com vaqueiros – a excursão de fato aconteceu, na fase em que o escritor coletava informações para escrever a obra.
Graça não só é uma leitora constante do romance como fez um curso – “Travessia” – sobre o livro, debatido durante meses com a professora da USP Maria Cecília Marks, especialista na obra literária.
A artista gaúcha também pesquisou em teses, monografias e ensaios sobre a ficção e assistiu algumas vezes ao monólogo “Riobaldo”, protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad.
A prostituta Nhorinhá
“Me sinto muito honrada por expor na ABL. Agradeço à academia, em especial ao acadêmico Antonio Carlos Secchin, Secretário-Geral e coordenador do Ciclo de Conferências Vida de Artistas, por acolher outra linguagem artística na homenagem a uma obra literária tão importante, e a Guimarães Rosa”, diz a artista.
Manuelzão
“Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu ‘Grande Sertão’ particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse grande romance”, acrescenta Graça.
“Experiência transpsíquica”
Os originais do livro foram entregues à editora José Olympio em fevereiro de 1956. Em carta a seu colega de Itamaraty, Azeredo da Silveira, o escritor, que também era diplomata, relatou: “Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairando, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”.
Riobaldo na velhice
O romance chegou às livrarias em meados de julho daquele ano. Aclamado pela crítica, foi escolhido como o melhor livro de 1956, venceu o Prêmio Machado de Assis do Instituto Nacional do Livro, o prêmio Carmen Dolores Barbosa, o prêmio Paula Brito e, em junho de 1961, o Prêmio Machado de Assis da ABL pelo conjunto da obra. “Grande Sertão: Veredas” constou da lista dos “100 melhores livros de todos os tempos” organizada, em 2002, pelo Clube do Livro da Noruega (Norwegian Book Club). O destaque do texto deu-se principalmente pelas inovações linguísticas.
Maria Mutema Zé Bebelo
A exposição “Grande Sertão” foi montada, pela primeira vez, em Porto Alegre, em novembro de 2024, paralelamente à Feira do Livro, e permaneceu em cartaz até 20 de dezembro, no Clube do Comércio.
*Íntegra do texto do acadêmico Eduardo Giannetti, atual ocupante da Cadeira nº 2 da ABL, que foi de João Guimarães Rosa.
“Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande sertão completa 70 anos mais vivo – e necessário – que nunca. Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo de Guimarães Rosa, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se.
A prosa poética rosiana instaura um universo linguístico todo seu. Ela não se reduz a instrumento a serviço de uma narrativa, mas pertence à realidade sertaneja por ela recriada com a mesma potência, vivacidade e força dos seus personagens. O dito e o modo de dizer em uníssono: acorde perfeito. O sertão feito verbo.
Diadorim morta
Grande Sertão mira o esquivo: o que não se deixa falar – e cala. O ponto exato em que o singular absurdo de cada consciência individual, no que ela tem de mais intratável, caprichosa e incomunicável, rompe o dique, vence o estreito e roça a outra margem. A visão-lampejo do incomum nas veias da vida comum. Em Rosa, o impulso criador está a serviço de um propósito definido: o reencantamento do mundo pela presença do mistério. O trêmulo júbilo na alma”.
A Virada Sustentável apresenta, entre suas atrações comemorativas dos 10 anos, a exposição: O Brasil de Araquém Alcântara. Será no dia 21 de março, às 17h, na Galeria Escadaria do píer da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre.
Esta exposição contém fragmentos visuais de um Brasil que pulsa para além das fronteiras urbanas, capturado pelo olhar sensível de Araquém Alcântara. Através destas imagens, somos convidados para uma jornada pelos territórios onde água, luz e vida selvagem compõem uma gramática do existir.
Araquém Alcântara, um dos mais importantes fotógrafos e precursor da fotografia de natureza do Brasil, dedicou sua vida a registrar a vida em nossos biomas.
Com mais de cinco décadas de trabalho, sua câmera se transforma em instrumento de resistência e memória, documentando simultaneamente a exuberância e a fragilidade dos ecossistemas brasileiros.
A proposta é sensibilizar o público para a preservação da biodiversidade ao revelar sua plena exuberância no território mato-grossense: Amazônia, Cerrado e Pantanal.
Nestas fotografias, vemos um país-organismo vivo, na onça vigilante, na mata fechada, no pescador que corta o rio como extensão de si mesmo, nas vitórias-régias que flutuam como planetas aquáticos.
O fotógrafo revela um Brasil das fronteiras dissolvidas – onde a água vira céu nos reflexos perfeitos, onde luz esculpe silhuetas, onde o encontro entre preservação e desaparecimento permanece em tenso equilíbrio.
Fotos Araquém Alcântara
Virada Sustentável
A cidade de Porto Alegre recebe, entre os dias 18 e 22 de março, a 10ª edição da Virada Sustentável, evento que se consolidou como um dos maiores movimentos de cultura e conscientização ambiental do país. Dentro da programação, o Festival Multiartes ganha destaque ao reunir diferentes manifestações artísticas que dialogam com a sustentabilidade e a relação entre natureza e vida urbana.