Categoria: Cultura-MATÉRIA

  • Brizola abre o coração e solta o verbo em livro raro

    Brizola abre o coração e solta o verbo em livro raro

    Há 30 anos, o ex-governador Leonel de Moura Brizola deu um raro depoimento de mais de quatro horas a um pequeno grupo de amigos -nativos, como ele, de Carazinho, ex-distrito de Passo Fundo, no norte do Rio Grande do Sul. A gravação feita num auditório da Câmara de Vereadores, na noite de 6 de abril de 1996, rendeu um rolo de fita BASF e quatro fitas Phillips K7, transcritas nos dias seguintes pela historiadora Silvana Moura, que integrou, com o também historiador Nei d’Avila, a bancada de profissionais de História Oral escalada para a missão.

    Um mês depois, Silvana entregou o material impresso – um catatau de 67 páginas – ao carazinhense Romeu Barleze, ex-deputado estadual trabalhista que convencera o amigo Brizola a contar em detalhes a história de sua vida. Mesmo alegando que sempre esteve mais voltado para o futuro, o ex-prefeito de Porto Alegre concordou em falar sobre o seu passado. E abriu seu coração, falou sem parar diante da plateia mínima, formada por cinco amigos, a dupla de historiadores e o técnico Daniel de Paula Manhães, encarregado de operar os dois gravadores.

    Reprodução da foto da entrevista de Brizola em 1996. Arquivo pessoal da professora Silvana Moura

    E o que aconteceu? Nada! Seguiu-se um silêncio de três décadas, só rompido agora pela Editora Insular, de Florianópolis, que acaba de lançar “Leonel Brizola por ele mesmo”, livro de 208 páginas contendo o depoimento histórico, uma sucessão de fotos e o QR Code que facilita a escuta da maior fala do comandante da Campanha da Legalidade de 1961. Ele vai lembrando e, de repente, está falando da paisagem, dos pinheirais, dos trens carregados de madeira, dos trabalhadores, dos irmãos, da mãe, do negro Otávio, seu “tutor”, um peão-tropeiro que lhe deu um petiço… É comovedor ler e/ou ouvir Brizola dizendo que tudo aquilo de sua infância lembra “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck, e merecia ser alvo da escrita de um João Guimarães Rosa.

    Com lançamento em Porto Alegre, Carazinho e no Rio, esse livro parece predestinado a virar um divisor de águas na história do Rio Grande do Sul, governado nos últimos 12 anos por políticos de centro-direita, entre os quais se alinhou o que restou do partido fundado por Brizola.

    Por ora, vale a pena esclarecer o que rolou nesses 30 anos em que a voz do trabalhismo foi perdendo ressonância.

    Na esperança de transformar o material em livro, já no século XXI, Silvana Moura entregou as quatro fitas K7 ao professor Nildo Ouriques, da UFSC, para que as repassasse a Nelson Rolim de Moura, dono da Editora Insular, de Floripa, que constatou que as fitas estavam perdendo qualidade – atucanado por outras demandas editoriais, ele demorou até ser aconselhado a restaurar o material magnético. Enquanto isso, em 2015, o depoimento impresso foi entregue por Romeu Barleze a Juliana Brizola, neta do ex-governador. Ocupada com seu mandato de deputado estadual, ela passou o calhamaço para Rejane Guerra, jornalista mineira residente no Rio a quem conheceu no diretório do PDT-RJ. Começou então um esforço para juntar o impresso às fitas que lhe deram origem. Assim, a bola voltou às mãos de Silvana Moura.

    Inicialmente projetado para sair em 2022, o livro somente se materializou agora, às vésperas da campanha para as eleições gerais de outubro. Supõe-se que o depoimento do líder trabalhista possa ser um trunfo a favor de Juliana Brizola em sua candidatura ao cargo de governadora.

    O único senão é que a historiadora Silvana Moura, que tanto se empenhou para publicar seu trabalho, estrilou publicamente diante da omissão de seu nome na capa, onde aparecem como organizadoras Juliana Brizola e Rejane Guerra.

    Surpreendido pela polêmica, o editor Nelson Rolim, que também é de Moura, acha que fez o certo, tanto que contemplou a historiadora com a primeira orelha do livro, um dos espaços mais nobres na indústria editorial. Afinal, o que fica é a voz e memória de Brizola, por ele mesmo.

  • Móveis Coloniais de Acaju volta às atividades e aos palcos do Opinião

    Móveis Coloniais de Acaju volta às atividades e aos palcos do Opinião

    Certamente Móveis Coloniais de Acaju não é das bandas mais conhecidas hoje em dia, ainda mais se pensarmos que se passaram 8 anos desde que eles tinham “dado um tempo”. Talvez isso seja o elemento mais surpreendente ao ver um público bem mesclado, mas, com muitos jovens, cantando todas as músicas nesse sábado, 07, no Opinião.

    Se há uma garantia, é que assistir a banda brasiliense ao vivo é sinônimo de diversão. Não unicamente por músicos incríveis e letras que vão do sagaz ao gentil, mas por ser uma miscelânea de entretenimento ao público: quer solo de instrumentos? TEM! Quer fazer a dança da cordinha passando por baixo de um trombone? TEM! Que tal um passinho coletivo? GARANTIDO!

    A cada momento, cada movimentação se dava de forma muito orgânica, e um lugar como o Opinião, mesmo lugar que pudemos assistir ao show há 14 anos, sem dúvida vemos o ambiente perfeito para todo esse frenesi se orquestrar, inclusive abrindo um momento icônico e reflexivo de perguntas e respostas com a plateia, onde se explicou essa “pausa indeterminada” de quase uma década e se refletiu sobre a importância do 8M, Dia Internacional das Mulheres, e sobre o papel do homem em meio a isso, com um longo discurso (para o momento) de uma mulher da plateia. Tal momento foi (talvez) muito intenso para um meio de show, ainda mais seguido de “Campo de Batalha”, tendo uma quebra no ritmo do público que enchia o bar. Mas nada que “Tempo” não levantasse os ânimos novamente, seguida de “Copacabana”, que levou a plateia a loucura!

    Em momento algum a música fica em segundo plano. Ao vivo, inclusive, os metais tomam mais força ainda, e a pegada fica ainda mais presente.

    Fundamental destacar o pique da banda, especialmente de Xande Bursztyn (Trombone) e Beto Mejía (flauta transversal), com dancinhas pulantes dignas de Ska das antigas, animadíssimas e hilárias, impressionantes por manterem o fôlego. Aliás, o divertimento pessoal que se viu em palco é de quem realmente tá em contato com o público, onde amigos cheios de piadas internas se apresentam e estão ali para se divertir. E isso é imprescindível para se acompanhar adequadamente o show: se jogar no divertimento.

    Desde que surgiu, Móveis Coloniais de Acaju chamaram a atenção. Aos viventes do tempo de MTV, pudemos ver que eles faziam parte de uma vertente musical muito inteligente e sarcástica, onde seus clipes tinham muita influência de artes e referências visuais que levavam a uma ascendência cultural muito engrandecedora para algumas gerações. Para mostrar que essa verve segue viva, pudemos sentir uma homenagem a Jorge Ben Jor (em ano de Ogum, “Jorge da Capadócia” é muito adequada para um momento mais luz baixa)

    *Um agradecimento especial ao gentil Fabio Pedrosa, baixista, que nos cedeu um setlist para orientar nessa matéria.

    Confira Imagens do show. Fotos: Fabiane Marques

  • OSPA e grandes nomes da música gaúcha celebram 400 Anos das Missões

    OSPA e grandes nomes da música gaúcha celebram 400 Anos das Missões

    Para celebrar os quatro séculos das Missões Jesuíticas Guaranis a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) promove um encontro artístico com a tradição gaúcha no concerto “400 Anos das Missões”. Sob regência de Manfredo Schmiedt, orquestra e artistas missioneiros convidados interpretam algumas das canções mais representativas da região. Promovido pela Secretaria da Cultura (Sedac), a apresentação ocorre no Complexo Cultural Casa da OSPA na sexta-feira (13/3), às 20h. Os ingressos custam entre R$ 15 e R$ 70 na plataforma Sympla. O concerto também será transmitido ao vivo pelo canal da OSPA no Youtube.

    A apresentação reúne no palco da Casa da OSPA a histórica Família Ortaça, que será representada por Marianita, Gabriel e Alberto Ortaça, filhos de Pedro Ortaça — último “Tronco Missioneiro” vivo e referência da cultura popular missioneira.

    Família Ortaça. Foto Divulgação/OSPA

    Como participações especiais, o concerto contará com o contrabaixista uruguaio Miguel Tejera, reconhecido por sua atuação na cena instrumental sul-americana, e o violonista, compositor e produtor Guilherme Castilhos, premiado em importantes festivais do Estado.

    O repertório valoriza sobretudo os quatro representantes do tronco missioneiro: Pedro Ortaça, Cenair Maicá, Jayme Caetano Braun e Noel Guarany. “Esses quatro nomes são a essência desse concerto, cada um tem pelo menos uma obra bem importante presente no repertório. Além disso, temos outras obras que foram de festivais e outros eventos ao redor das missões”, comenta o diretor artístico da OSPA, Manfredo Schmiedt.

    A ponte entre a música regional e a sonoridade sinfônica foi construída com arranjos inéditos compostos pelo violinista da OSPA Dhouglas Umabel, que tem formação clássica, mas também ampla experiência em festivais de música regional gaúcha. Todos os arranjos do concerto, com exceção de “Milonga para as Missões”, que foi arranjada pelo violinista da OSPA Arthur Barbosa, são de Umabel. 

    Participam ainda nomes consagrados como Lucio Yanel, um dos pilares do violão solista na música sulina; Ernesto Fagundes e Neto Fagundes, representantes de uma linhagem que mantém viva a tradição do Pampa em diálogo com a contemporaneidade; Shana Müller, uma das principais vozes femininas da música regional e latino-americana; Érlon Péricles, compositor de destaque e autor recorrente dos temas dos Festejos Farroupilhas; Patrício Maicá, herdeiro artístico de Cenair Maicá; Laura Guarany, intérprete da tradição missioneira e da herança de Noel Guarany; Lincon Ramos, gaiteiro, cantor e multi-instrumentista com três décadas de atuação; e Angelo Franco, cantor e compositor com mais de seiscentas músicas gravadas e trajetória marcada pela integração cultural missioneira.

    O espetáculo está estruturado em três partes temáticas: “Parte I – O Grito e a Resistência”, que evoca o trabalho de Pedro Ortaça na preservação da tradição; “Parte II – A Alma, o Verso e a Mística”, que ressalta o lirismo do cancioneiro regional, incluindo o poema campeiro “Bochincho”, de Jayme Caetano Braun; a “Parte III – Legado, União e Fronteiras” reafirma os laços entre passado e presente com obras como Veterano (Antônio Augusto Ferreira / Ewerton Ferreira) e Milonga para as Missões (Gilberto Monteiro); e o encerramento traz de volta ao palco todos os artistas convidados para interpretar o emocionante “Canto dos Livres” (Cenair Maicá). “É um repertório que fala das músicas da região das Missões, mas também como isso se espalhou pelo Rio Grande do Sul e formou a nossa cultura de música tradicional gaúcha”, pontua o diretor artístico da OSPA.

    Programação 400 Anos das Missões – O concerto da OSPA integra o conjunto de ações orientado pelo Decreto nº 57.369/2023, que institui 2026 como o ano oficial das Missões. O calendário comemorativo do governo estadual valoriza o patrimônio histórico e cultural das Missões Jesuíticas Guaranis, fundadas em 1626, enquanto promove o desenvolvimento sustentável da região.

    Serviço 

    Concerto especial da Ospa celebra os 400 Anos das Missões Jesuíticas Guaranis

    Quando: Sexta-feira (13/3), às 20h

    Onde: Complexo Cultural Casa da Ospa (Caff – Av. Borges de Medeiros, 1.501, Porto Alegre, RS)

    Ingressos: De R$ 15 a R$ 70, na bilheteria do Complexo Cultural Casa da Ospa no dia do concerto, das 15h às 20h

    Descontos: Ingresso solidário (com doação de 1kg de alimento), clientes Banrisul, Amigo Ospa, associados AAMAC RS, sócio do Clube do Assinante RBS, idoso, doador de  sangue, pessoa com deficiência e acompanhante, estudante, jovem até 15 anos e ID Jovem

    Estacionamento: Gratuito, no local

    Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 6 anos

    Transmissão ao vivo: A partir das 20h, no canal da Ospa no YouTube
    O evento disponibiliza medidas de acessibilidade.

  • Feminicídio – Artista visual Graça Craidy há 11 anos produz obras sobre violência contra a mulher

    Feminicídio – Artista visual Graça Craidy há 11 anos produz obras sobre violência contra a mulher

    A artista visual gaúcha Graça Craidy produziu, a partir de 2015, uma coleção com cerca de 60 obras sobre feminicídio e violência contra a mulher, a fim de denunciar esses tipos de crimes e ajudar a conscientizar a população em favor do fim dessas práticas delituosas.

    Com mais de 20 mortes de mulheres registradas em janeiro e fevereiro deste ano, o Rio Grande do Sul inicia 2026 como líder nacional da macabra estatística do feminicídio.

    Obra “mulher morta pelo marido”. Reprodução

    “Meu bem, meu mal”

    Neste mês de março dedicado às mulheres, 12 obras da artista, do recorte intitulado “Meu bem, meu mal”, estarão expostas na Assembleia Legislativa do RS.

    O projeto integra o ato de lançamento do Relatório Lilás 2026, da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Casa, na quarta-feira (4/3).

    Foto Carlos Souza/Divulgação

    A mostra permanecerá aberta à visitação até as 18h de sexta-feira (6), no Espaço de Exposição Dep. Carlos Santos. A entrada é gratuita. São quadros, acrílica sobre tela e sobre papel, que variam de 60 x 40 cm a 1.80 x 3.60 m.

    A primeira exposição de Graça nessa temática coincidiu com o surgimento da Lei do Feminicídio, que tipificou o assassinato de mulheres por razões de gênero como crime hediondo no país, em 2015.

    De lá para cá, em praticamente todos os meses de março as obras de sua coleção foram expostas em instituições como Tribunal de Justiça do RS, Justiça Federal, Tribunal Regional do Trabalho, Memorial do Ministério Público, Associação dos Juízes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e Universidade Federal do Paraná (UFPR) – Campo Mourão, entre outras.

    Obra da artista já foi utilizada em capa de livro. Reprodução

    Obras suas também já ilustraram capa de livros sobre o tema, como o de autoria da primeira desembargadora gaúcha, Maria Berenice Dias (aposentada), e foram objeto do estudo acadêmico no Instituto de Artes da UFRGS.

    “Até que a morte nos separe”

    Além de “Meu bem, meu mal”, título que alude ao contexto onde geralmente acontecem os crimes, dentro de casa, muitas vezes diante dos filhos, Graça também possui outros diversos recortes: “Até que a morte nos separe” – pinturas a partir de fotos das cenas dos crimes publicadas em jornais; “Livrai-nos do Mal” – que aponta as violências referidas na Lei Maria da Penha; “Feminicidas, o machismo que mata” – na qual os homens são representados com revólveres no lugar do pênis; e “Estupro” – que retrata abuso sexual coletivo cometido por homens contra uma mulher.

    Mudança pela educação

    A artista defende que é preciso “mudar a cultura do machismo, do senhor proprietário, da mulher propriedade”, o que, acredita, só vai acontecer  pela educação.

    Aos 74 anos de idade, Graça acredita que a arte pode sensibilizar pessoas com poder de interferir para a reversão do atual quadro. “A arte não pode impor igualdade, barrar o gesto nem conter o tiro. Mas quem é tocado pela arte pode”.

    A artista Graça Craidy. Foto Carlos Souza/Divulgação

    Expressionista, ela soma dezenas de trabalhos individuais e coletivos, em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília; no exterior, já apresentou uma mostra individual na Itália, onde também fez cursos em Roma e Florença.

    Relatório Lilás

    Com 165 páginas, o Relatório Lilás reúne uma série de textos, entre os quais o do presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos, deputado Adão Pretto Filho (PT). Ele diz que a realidade brutal “exige resposta enérgica, estrutura institucional e, acima de tudo, compromisso com a vida das mulheres”. Dado trazido por Pretto aponta que, em abril de 2025, o RS registrou um aumento de mais de 1000% nos casos de feminicídio em comparação com o mesmo período do ano anterior. Em um só mês, 11 mulheres foram vítimas de feminicídio.

    Em sua 4ª edição, o Relatório Lilás conclui que “a combinação de medidas judiciais céleres, mutirões processuais, capacitação da rede de proteção, educação para a igualdade de gênero e reeducação dos autores de violência, juntamente com o envolvimento em ações promovidas por outros órgãos, tem gerado resultados significativos”.

    Casos consumados e tentados – O Brasil registrou 6.904 vítimas de casos consumados e tentados de feminicídio em 2025, o que representa um aumento de 34% em relação ao ano de 2024, quando houve 5.150 vítimas. Foram 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, totalizando quase seis (5,89) mulheres mortas por dia no país. Os dados são do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina/PR (Lesfem/UEL).

    No início de fevereiro, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário firmaram o Pacto Brasil entre os Três Poderes para Enfrentamento do Feminicídio.

  • Valter Sobreiro, o dramaturgo que plantou o teatro em Pelotas           

    Valter Sobreiro, o dramaturgo que plantou o teatro em Pelotas           

    GERALDO HASSE

    Lançado em fins de 2025, o livro “6 Décadas de Teatro”, contendo uma dezena de artigos acadêmicos sobre a obra de Valter Sobreiro Júnior, oferece uma nova e ampla dimensão da carreira desse professor, cenógrafo, escritor e diretor teatral que fez toda vida profissional em Pelotas, de onde só saiu esporadicamente para encenar suas peças em outras cidades.

    Editado pela Life Editora, de São Paulo, o livro de 198 páginas foi organizado por João Luiz Pereira Ourique, professor de teatro da UFPel que coordenou o trabalho de 15 acadêmicos de universidades públicas de Pelotas, Rio Grande, Santa Maria e Campo Grande.

    É um estudo profundo sobre a dramaturgia de Sobreiro, que escreveu nove peças, adaptou dezenas de outras e participou de cerca de 70 espetáculos teatrais ao longo de seus 60 anos de militância no teatro.

    Nascido no dia do Natal de 1941 em Rio Grande, Sobreiro lembra da primeira vez em que foi a um espetáculo teatral na sua cidade natal: tinha menos de cinco anos quando assistiu “I Piccoli de Podrecca”, levado por uma trupe italiana de marionetes. Sua infância foi movimentada, em decorrência da atividade itinerante do pai funcionário público federal (fiscal da Previdência). Órfão de mãe aos três anos, foi criado por uma tia que se tornaria sua madrasta.

    Dos cinco aos sete anos morou em Santana do Livramento, onde assistiu a teatro, cinema, dança e rinhas de galos. Também transitou por hotéis de Uruguaiana, Alegrete, São Francisco de Assis e Quaraí. De 1950 a 1951 viveu em Passo Fundo, de onde certa vez foi levado a Erechim para cantar num programa de rádio de um certo Maurício Sirotsky Sobrinho, o mesmo que anos depois lançaria Elis Regina no Clube do Guri em Porto Alegre. Passou o ano de 1952 em Porto Alegre. Em 1953 a família se fixou em Pelotas, de onde nunca mais quis sair.

    Matriculado no tradicional Colégio Pelotense, terminou o ginásio em 1956 e, ao invés de continuar os estudos, passou a frequentar a Rádio Cultura, onde não faltavam opções para quem não tivesse medo do microfone. Após se apresentar como cantor em programas de auditório, foi convidado a produzir um programa sobre cinema, tema de artigos que publicava no Diário Popular, como sócio militante do clube de cinema local fundado em 1950 – na cidade havia então pelo menos seis boas salas com uma oferta variada de filmes. Apoiado pelo diretor Elias Bainy, trabalhou na discoteca, no departamento de notícias e como diretor de elenco de rádio-teatro até 1960, quando as novelas passaram a chegar gravadas de São Paulo, obrigando os rádio-atores a buscar novas atividades.

    Ele seguiu na rádio, mas retomou os estudos e a partir de 1962 passou a trabalhar em banco. Findo o colegial, começou o curso de Direito, que lhe permitiria trabalhar como advogado trabalhista.

    No meio da vida de bancário e estudante, sobreviveu a opção pelo teatro, incentivada por professores como Aldyr Garcia Schlee, Angenor Gomes e Luiz Carlos Correa da Silva, fundadores da Sociedade de Teatro Escola de Pelotas (STEP, 1962) e do Teatro dos Gatos Pelados (TGP), criado em 1963 por alunos e mestres do Pelotense (“gato pelado” é o apelido dos estudantes dessa centenária escola pública municipal). Esses dois grupos teatrais deram ressonância nacional às atividades cênicas em Pelotas, onde desde a segunda metade do século XIX se formou um público apreciador das artes exibidas nos teatros Sete de Abril, Guarany e nos auditórios de escolas e clubes sociais.

    No início de sua atividade como animador do teatro, Sobreiro fez a cenografia de peças infantis, mas, já em 1962, escreveu seu primeiro texto teatral, “O Infeliz Jovem Rei”, apresentado pela primeira vez no ano seguinte. Em 1966, se tornou oficialmente professor do Pelotense.

    Abaixo, AS NOVE PEÇAS analisadas e/ou comentadas no livro “6 Décadas de Teatro”:

    1. O INFELIZ JOVEM REI (1962/63), drama inspirado em “Hamlet”, do dramaturgo inglês William Shakespeare.
    2. BIRA & CONCEIÇÃO, escrita em 1966, é uma ópera popular cantada cuja primeira encenação, dirigida por Angenor Gomes e auxiliado por José Luiz Marasco, do TGP, desencadeou o convite para concorrer ao Festival Nacional de Teatro de Estudantes em 1968 no Rio. Uma das exigências do festival, como “contrapartida social”, era encenação de uma peça infantil em uma comunidade periférica da capital carioca. Ocupado na produção da peça maior, Sobreiro pediu ao professor Aldyr Schlee que o cobrisse na emergência. Inspirado no clássico “Chapeuzinho Vermelho”, o amigo criou uma versão moderna levada numa favela – os originais se perderam na voragem do AI-5, que escancarou a ditadura em 13 de dezembro de 1968. “Bira & Conceição” ganhou o prêmio de melhor música, superando 32 concorrentes – as canções foram compostas pelo próprio dramaturgo, que não estudou música formalmente, mas tinha o que, no popular, se chama de “bom ouvido”. Segundo o doutor em música e professor Leandro Maia, que analisou Bira & Conceição, “Valter Sobreiro tem consciência melódica e noção harmônica”. Em consequência dessa pioneira excursão ao Rio, a equipe pelotense ficaria desfalcada do cenógrafo Fernando Mello da Costa, que se mudou para o Rio algum tempo depois de abrir espaço profissional em Porto Alegre. Décadas depois, sempre no Rio, o próprio Mello da Costa cobrou o resgate da peça, principalmente da trilha musical, da qual não havia gravação nem partitura. Mesmo achando que a peça estava superada pela evolução dos temas do teatro moderno, Sobreiro o atendeu em 2012, com a ajuda do músico Leonardo Oxley Rodrigues, mas a peça não chegou a ser remontada porque o cenógrafo faleceu em 2019. As partituras transcritas pelo acadêmico Alinson Alaniz estão salvas no livro “6 Décadas”. A ópera tem apenas quatro personagens (uma mulher, dois homens e a mãe deles) e um coro de oito vozes presente o tempo todo em cena e amparado por um  grupo de músicos.
    3. EM NOME DE FRANCISCO, sobre o poeta pelotense Francisco Lobo da Costa (1853-1888). Publicada pela Editora Tchê em 1987, teve 36 apresentações no RS, PR, PB e no Uruguai, sendo premiada em Novo Hamburgo e Ponta Grossa. Um grupo de Pelotas montou-a posteriormente e, usando trechos da peça, fez um vídeo que acabou ganhando um prêmio.
    4. MARAGATO – Publicada em 1995 pela editora da UFPel. Drama falado e cantado em torno da Revolução Federalista de 1893, quando se defrontaram maragatos e ximangos, uma rivalidade histórica que até hoje ecoa no RS. Ganhou 30 prêmios entre 1988 e 1991. Foi apresentado em 31 cidades gaúchas, em oito outras fora do Rio Grande e no Uruguai, incluindo o Teatro Solis de Montevidéu. Estima-se que tenha sido assistida por 45 mil pessoas. O autor recusou propostas de montagem por um grupo de Porto Alegre.
    5. DON LEANDRO ou OS SENDEIROS DE SANGUE – Peça de 1999 inspirada no “Rei Lear” de Shakespeare. Trata do poder na velhice, envolvendo disputas entre homens e mulheres.
    6. DE PRODÍGIOS E MARAVILHAS, de 2006, peça sobre sonhos, fantasias, desejos, conflitos e os sofrimentos resultantes de enganos e frustrações.
    7. ENTREMEZ DA RAINHA MARIA , A LOUCA, E SEU CRIADO BELISÁRIO, 2011, sobre a hipocrisia entre as classes sociais, a escravidão, o exílio, e a saudade da terra natal.
    8. PAI-DE-DEUS, de 2012, trata das relações entre algoz e vítima (torturador e torturado) durante uma ditadura militar. Desde o início, a peça tem momentos que lembram o tradicional ‘pas de deux’ do balé, que simula um diálogo em forma de dança, mas na realidade do palco se trata de um confronto, uma tentativa de ajuste de contas. Estreou em Pelotas em 2012, foi apresentada em Porto Alegre em 2016 e voltou a ser encenada em Pelotas em 2020. De 2023 a 2024, cedida ao Grupo Tholl, formado por ex-alunos de Sobreiro, a peça foi levada a Porto Alegre, São Paulo e Rio, sob a direção de João Schmidt, também ator nesse que é o drama politicamente mais denso e atual de Sobreiro. No artigo em que analisa no livro “6 Décadas” o contexto político da peça, a atriz e professora de dramaturgia Fernanda Vieira Fernandes observa: “A ausência de julgamento e condenação dos crimes de tortura e morte de cidadãos brasileiros favorece a perda da memória e, pior, mantém à espreita o autoritarismo com ares de solução milagrosa”.
    9. RESSOLANA (2014), ambientada numa área de fronteira luso-castelhana no século XIX, trata de um triângulo formado por um pai, seu filho e uma prostituta que se quer livre. O desfecho é trágico: para se vingar do pai, que não cumpre a promessa de libertá-la, a mulher envenena o jovem. Ciúme, posse e vingança tecem o enredo fronteiriço que ecoa as tragédias gregas. Única peça de Sobreiro inédita em palcos.

    ÍNTEGRA DAS PEÇAS EM LIVRO

    Em reconhecimento à importância do trabalho do dramaturgo Valter Sobreiro Junior, a UFPel planeja publicar a íntegra de sua obra teatral, constituída pelas nove peças analisadas e comentadas no livro “6 Décadas”, em cuja introdução a professora Lilian Becker de Oliveira, mestra em Memória Social e Patrimônio Cultural, escreveu: “A importância das obras de Valter Sobreiro Júnior para a cidade de Pelotas transcende o âmbito teatral, configurando-se como um patrimônio imaterial de valor inestimável para a memória cultural da região. (…) Sobreiro Júnior é considerado um formador de gerações de artistas e sua influência no teatro pelotense ressalta uma metodologia que introduziu conceitos como a ‘unidade plástica do espetáculo’, integrando cenografia, iluminação, figurino e trilha sonora em uma proposta integradora, como destacou Joice Ester Ayres de Lima em trabalho de 2011 na UFPel.

    Para criar o que denomina “cenografia de planos estruturados”, Sobreiro trocou experiências com diretores, atores e teóricos, além de professores e jornalistas especializados – muita gente ao longo do tempo, cabendo porém uma lembrança especial a Gianni Ratto (1916-2005), diretor que coordenou a montagem da caixa cênica e do aparato de som e luz do Theatro Sete de Abril na reforma dos anos 1980, quando os dois tiveram uma fértil convivência.

    Se for publicado, o livro da UFPel sobre as peças de Sobreiro pode ser sua consagração final, já ensaiada em homenagens prestadas em anos recentes nas três maiores cidades costeiras da Lagoa dos Patos:  em 2021, o ano em que completou 60 anos de teatro, Sobreiro recebeu do governo estadual a Medalha Simões Lopes Neto, por mérito cultural; no mesmo ano, seu nome foi fixado em placa de bronze no saguão do Teatro 7 de Abril, fundado em 1831 no coração de Pelotas; em 2022, a prefeitura de Rio Grande também inaugurou uma placa comemorativa no teatro municipal, fundado em 1929.

    DOIS ROMANCES

    Embora tenha se dedicado prioritariamente ao teatro, encontrou tempo para escrever dois romances: “Petrona Carrasco”, premiado pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul em 1989, foi publicado pelo Instituto Estadual do Livro (IEL) em parceria com a Editora Tchê; e “O Demônio a ser Pago no Estúdio dos Fundos”, publicado pela Editora Lerigou, lançado em 2024 em Pelotas e em 2025 em Porto Alegre. No depoimento ao signatário deste perfil, Sobreiro disse que pretende ainda escrever sobre sua vida: “Tem tantas peripécias que pode dar uma novela”.

    CENA FINAL

    Comentando sua adesão incondicional ao teatro em Pelotas, Valter Sobreiro diz que cedo percebeu a necessidade de circular com os espetáculos, para justificar o investimento feito e divulgá-los, mas esbarrou nas limitações do tempo, pois tinha compromissos familiares (três filhos) e profissionais (trabalhar como professor e advogado) na cidade. Por isso recusou convites para levar suas peças a outros países. “Mas plantei a ideia de produzir em Pelotas”, conclui, lembrando que nunca lhe faltaram patrocinadores porque “muitos empresários e políticos eram frequentadores de espetáculos de música e artes cênicas”.

    Embora tenha alcançado notoriedade nacional e levado suas peças até ao Uruguai, o dramaturgo ficou toda a vida em Pelotas, sustentando-se como advogado trabalhista e dando aulas de teatro, sem se fazer notar senão pela dedicação ao meio onde as vaidades pessoais trombam nos camarins, nos palcos e até no saguão dos teatros. Por ironia da história, nenhum dos seus descendentes (três filhos, sete netos e dois bisnetos) mora em Pelotas.

     

  • Exposição de livros abre calendário sobre 400 anos das Missões

    Exposição de livros abre calendário sobre 400 anos das Missões

    Mais de 50 obras sobre história, cultura e imaginário dos Sete Povos das Missões estão expostas ao público até o final de março na sede do Instituto Estadual do Livro (Rua André Puente, 318 – Bairro Independência, Porto Alegre).

    É o primeiro de uma série de eventos programados para marcar os 400 anos das reduções organizadas pelos padres jesuítas e que chegaram a reunir 30 mil guaranis, numa experiência única de catequeses dos povos originários da América.

    Também estão expostos excertos de frases selecionadas das obras e fotografias da série “O Renascer das Missões – 400 anos”, do fotógrafo Clio Luconi.

    O publico encontrará obras que transitam entre história, romance, poesia, literatura infantil, HQs, ensaios e artigos, compondo um panorama amplo da produção literária sobre as Missões Jesuíticas Guaranis. Entre as publicações estão títulos considerados fundamentais para a compreensão da temática missioneira, como o clássico “Lendas do Sul”, de Simões Lopes Neto e “Sepé Tiaraju, história das ruínas de São Miguel”, de Alcy Cheuiche.

    “Essa mostra é resultado de um trabalho minucioso de pesquisa, montagem e composição dos excertos das obras em exposição. As imagens complementam o nosso olhar sobre as Missões”, explicou o Diretor do IEL, Sílvio Bento.

    Para marcar o quadricentenário, o governo do Rio Grande do Sul promove uma ampla programação, que inclui festivais de música, mostras de cinema, concursos fotográficos, debates e atividades educativas, muitas delas realizadas nas próprias ruínas missioneiras.

    O site oficial reúne informações, memórias e iniciativas que integram as comemorações, reforçando o papel das Missões como patrimônio histórico e cultural de relevância mundial.

     

    Serviço

    “Missões Jesuíticas Guaranis – Acervo Literário IEL”

    -De 11 de fevereiro a 31 de março

    -Rua André Puente, 318 – Bairro Independência, Porto Alegre.

    -Horário: 8h30 às 17h30

    -Entrada gratuita

  • Cazarré transplanta personagem em brincadeira (séria) com os mestres

    Cazarré transplanta personagem em brincadeira (séria) com os mestres

    Num feito sem precedentes na história da literatura mundial, a novela brasileira “Breve Memória de Simeão Boa Morte”, do escritor gaúcho-brasiliense Lourenço Cazarré, foi publicada no Brasil em fins de 2025 somente depois de aparecer em Lisboa, onde ganhou 5 mil euros em concurso literário patrocinado pelo governo português.

    O mais surpreendente é que se trata de uma corrosiva paródia do festejado conto “O Alienista” (Rio, 1881), que explora com ironia a reviravolta na carreira do médico Simão Bacamarte, um dos mais famosos personagens de Joaquim Maria Machado de Assis, o jornalista-escritor que viveu no Rio de 1839 a 1908.

    Mais de um século depois da consagração de Machado como o maior escritor brasileiro, eis que um escritor contemporâneo tem a ousadia de inventar que o “médico psiquiátrico” Simão Bacamarte foi plágio de um personagem cuja criação atribui a João Simões Lopes Neto, jornalista-escritor pelotense que viveu a maior parte da vida em Pelotas entre 1865 e 1916.

    Pode? Pode. Na ficção vale tudo, desde que a coisa seja bem feita.

    Como fazem muitos escritores que não desistem de suas intuições, Cazarré começou devagar, como numa brincadeira; com o tempo, muito tempo, a história foi tomando corpo até que se abriu a brecha para fazer o que se pode tomar como um desagravo histórico ao pelotense João Simões Lopes Neto, cuja qualidade literária só foi reconhecida pelo filólogo Aurélio Buarque de Hollanda, que avisou o paulista Mário de Andrade, que conversou com o gaúcho Augusto Meyer, amigo do ditador Getúlio Vargas – mais de trinta anos após sua morte, ao contrário de Machado, que se tornou celebridade em vida.

    Para alcançar o desfecho de sua história, Cazarré explorou coincidências e contradições entre os dois autores e seus personagens, de modo que pode criar um Simeão Boa Morte espelhado em Simão Bacamarte, com direito a pegadinhas que hão de ser gratas aos fãs do autor de “Contos e Lendas do Sul”, brochura parcamente lançada (200 exemplares) em 1912 em Pelotas.

    Sem dúvida, aqui se pode falar de um protesto do Interior contra a Capital, onde mediocridades e/ou nulidades alcançam uma suposta imortalidade acadêmica enquanto gênios da província são descartados, quando não proscritos do cenário artístico. O fato é que o criador de Simeão Boa Morte caprichou na brincadeira, aprofundando a inversão dos papéis entre o Simão original e o Simeão nele inspirado, tendo o desplante de inventar para seu personagem (Simeão) uma morte parecida com a de Brás Cubas, outro célebre personagem de Machado de Assis.

    Nascido em Pelotas em 1953, Lourenço Cazarré passou a vida labutando como jornalista e usando as horas vagas para, igual a Machado, escrever ficções de reconhecida qualidade literária, tanto que ganhou vários prêmios, a começar pela I Bienal Nestlé de Literatura, em 1982. Seu romance “O Calidoscópio e a Ampulheta” ganhou de 445 candidatos. Já nesse livro premiado pela banca de cinco jurados da Nestlé – Adonias Filho, Dirce Riedel, Flavio Loureiro Chaves, Letícia Malard e Marisa Lajolo –, ele usa como referência textos de João Simões Lopes Neto, que lhe forneceu as epígrafes para cada uma das cinco partes do livro.

    Tem mais: como o Bacamarte machadiano, o Boa Morte cazarresco é apresentado como um médico que largou o ofício para abraçar outras atividades. No caso de Simeão Boa Morte, a escolha teria sido o jornalismo, o teatro e pequenos negócios, o que corresponde efetivamente à trajetória pessoal de João Simões Lopes Neto, que na juventude passada no Rio teria estudado medicina, mas sem chegar sequer à metade do curso – história nunca comprovada, como esclarece Carlos Francisco Sica Diniz, autor da mais completa biografia do maior escritor pelotense, publicada em 2023 pela Editora Coragem, de Porto Alegre.

    Em anos recentes, Cazarré esmerou-se em escrever ficções inspiradas em grandes autores nacionais, como Euclides da Cunha (“Os Sertões”) e Graciliano Ramos (“Vidas Secas”). No caso de Machado, a bronca começou durante um curso de mestrado em literatura brasileira na UnB no final dos anos 80, quando lhe tocou analisar a obra de Machado de Assis.

    Para fundamentar sua crítica, Cazarré dissecou, por anos, os 30 melhores contos de Machado (título de um livro do século XX), além de passar os olhos por seus romances, poemas, crônicas e sueltos de imprensa. Tanto fez que se cansou do estilo do escritor carioca. No trabalho universitário escrito em 1987, se destacam alguns trechos de gritante sinceridade:

    “O que me afastou de Machado foi a falta de ação nos seus romances. É tudo arrastado como a vida no Império. Burocratas sem sal satisfeitos com suas vidinhas medíocres. Trambiqueiros ociosos, parasitas empenhados em dar o golpe do baú”.

    Ele prossegue, impiedoso: “No romance ‘Dom Casmurro’ (que plantou no imaginário brasileiro a dúvida sobre a fidelidade da jovem esposa Capitu ao marido Bentinho), “os ricos são apresentados em linguagem sóbria”, enquanto “a galhofa sobra para os trabalhadores como João Pádua ou parasitas pobres que almejam ficar ricos para viver como os ricos”.

    Aprofundando sua crítica, o pós-graduando da UnB observou ainda que os personagens machadianos “carecem de transcendência para o bem ou para o mal”, ficando longe, por exemplo, de escritores da mesma época, como os russos Dostoievski ou Tchekov ou franceses que se dividiam entre a imprensa e a literatura, caso de Balzac. Já as mulheres machadianas sonham com casamento, conforto, jantares, posição social e casa própria bem decorada. Nesse aspecto, ao refletir o clima e o conteúdo de romances ambientados em Paris, Machado teria sido um fiel retratista da futilidade da vida na corte de D. Pedro II, cuja influência alcança hoje os dramalhões apresentados toda noite desde 1950 nas telenovelas brasileiras. Em sua monografia engavetada, Cazarré lembra que o elogiado escritor carioca, além de escrever para jornais, era colaborador assíduo de revistas femininas que lhe pagavam “por linhas publicadas”. Além de ter um emprego público, o sujeito era frila…

    Naturalmente, Cazarré reconhece os méritos jornalísticos e literários do Bruxo de Cosme Velho, autor de 200 contos, uma dezena de romances, 800 crônicas, além de poemas e artigos na imprensa carioca. Mas, depois de muitos anos, não resistiu à tentação de criar um personagem inspirado em Simão Bacamarte.

    Manipulando um vocabulário rebuscado que lembra escritores como José Candido de Carvalho, Dias Gomes e Ariano Suassuna, Cazarré elabora em sua “Breve Memória de Simeão Boa Morte” um folhetim galhofeiro de 82 capítulos curtos em que — em nome de Simeão, claro — vergasta Machado de Assis como criador de personagens repetitivos: rapazes à caça de sinecuras estatais e dotes de jovens casadoiras ou viúvas abonadas. Assim, em cada página de seu memorando, Simeão trata o autor de “Dom Casmurro” como “mercenário”, “casamenteiro literário”, “pérfido, matreiro e pernicioso”, “amanuense do Império”, “pintor de fuxicos”, “alfaiate de lengas lengas matrimoniais” e assim por diante, num rol depreciativo nunca visto no jornalismo ou na literatura nacionais.

    Ao apontar Machado como “malévolo e caçoísta”, Cazarré se revela um baita iconoclasta. Sua ousadia foi abonada por um crítico que, à boca pequena, o considerou “muito corajoso” por criticar o maior ícone da literatura nacional, fundador da Academia Brasileira de Letras. É uma irreverência que confirma a habilidade do jornalista-escritor contemporâneo no manejo das palavras: desde seus primeiros escritos, ele carregou na ironia ao construir tramas compactas com personagens autênticos movendo-se em ambientes quase sem enfeites.

    Embora tenha escrito alguns romances para os públicos adulto e juvenil, sua especialidade são contos inspirados em acontecimentos de sua terra natal, que chegou a ter codinome (Tapera) e, no caso da sua última novela, é São Francisco do Laranjal, um belo nome que evoca o padroeiro da cidade e seu balneário na Lagoa dos Patos.

    Várias de suas histórias são inspiradas em episódios da infância num arrabalde denominado Vila do Sapo, assim chamado por ocupar uma várzea úmida cortada pelo Arroio Pepino, que passa(va) atrás do campo de futebol do GE Brasil, o bravo Xavante. Por aí fica claro que o escritor pelotense acolheu com gosto o conselho do russo Leon Tolstói: “Se queres ser universal, pinta tua aldeia”. A aldeia natal do jovem pelotense era tipo uma favela de banhado.

    Transbordando ironia, a história de Simeão Boa Morte combina avaliação literária e crítica social, a qual se estende sem perdão da corte imperial carioca à atual ciranda de Brasília, onde o novelista vive há quase 50 anos.

    No Brasil, o livro passou até agora em branco, ressalvada a apreciação positiva de Adelton Gonçalves, ensaísta renomado, com vários livros publicados. Para ele, a novela é tão boa que pode ser considerada uma grande homenagem ao autor de “O Alienista”.

    Na orelha da edição brasileira, o crítico André Seffrin afirma que Simeão é uma obra-prima e, como tal, poderia ser, “gaiatamente”, assinada pelo próprio Machado de Assis.

    È claro que as tiradas carrazeanas não desfazem a aura que envolve o autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, mas na literatura ninguém está imune à crítica, embora seja muito mais fácil tecer elogios às novidades bem escritas. Outros escritores brasileiros laureados como José de Alencar, Lima Barreto, Jorge Amado, Erico Verissimo, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Oswald de Andrade e Dalton Trevisan foram criticados por seus estilos narrativos, suas posições políticas e até por suas manias pessoais.

    No auge da forma técnica, Cazarré não se cansa de trabalhar em projetos novos ou na revisão de livros que relança com inovações formais, distribui aos amigos e põe à venda onde acredita que possam conquistar leitores. Em 2025, inaugurou uma parceria com Fernando Duval, consagrado artista plástico pelotense que mora há décadas no Rio e lhe forneceu ilustrações para a capa de seus dois últimos livros, “Contos Pelotenses” e “Breve Memória de Simeão Boa Morte”.

    Com mais de meio século de militância no jornalismo e na literatura, Cazarré tem cacife para ser convidado a tomar chá na ABL. É duvidoso que se interesse por envergar o ridículo fardão dos acadêmicos. De louros literários, a esta altura do campeonato, talvez aprecie ser indicado ao Nobel de Literatura.

    Sim, teria café no bule, mas para chegar à Academia Sueca precisaria enfrentar outros bons usuários da língua portuguesa no Brasil, na África e em Portugal. De Milton Hatoun a Mia Couto, é cada vez maior a lista de candidatos potenciais a prêmios literários internacionais, com o agravante de que o idioma português somente é falado, lido e escrito por não mais do que 4% da população do planeta. Cazarré leva alguma vantagem por ser dos mais jovens. Em julho completará 73 anos.

    SERVIÇO FINAL

    Lançada no Brasil pela Faria e Silva, editora do Rio ligada ao grupo Alta Books, a novela sobre Simeão Boa Morte ocupa pouco mais da metade de um livro de 180 de páginas enriquecido com cinco outros contos típicos da verve cazarreana, difundida em dezenas de livros próprios, coletâneas e textos avulsos publicados em sites brasileiros e de Portugal. Está à venda na Amazon por R$ 44.

  • Os 70 anos de “Grande sertão: veredas”, na exposição da artista visual Graça Craidy, em Niterói

    Os 70 anos de “Grande sertão: veredas”, na exposição da artista visual Graça Craidy, em Niterói

     

    Mostra de Graça Craidy, com abertura no sábado (7/2), reúne 50 obras, com destaque para retratos dos personagens da obra-prima de Guimarães Rosa e do próprio autor

    *Texto e fotos de Carlos Souza

    A obra-prima do escritor João Guimarães Rosa (1908/1967), “Grande sertão: veredas”, que revolucionou a literatura brasileira, completa 70 anos de seu lançamento, ocorrido em 1956, e recebe como homenagem uma exposição no Espaço Cultural Correios, em Niterói (RJ), de autoria da artista visual gaúcha Graça Craidy.

    Guimarães Rosa entra no Cerrado a cavalo/Divulgação

    De sábado (7/2), quando será inaugurada às 15h30, até 28 de março, a mostra “Grande Sertão”, de Graça, perfila 50 obras, entre as quais destacam-se retratos de alguns dos principais personagens do romance, como Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo, Otacília, Nhorinhá, Manuelzão, Sô Candelário e Quelemém, por exemplo.

    O próprio escritor, que foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, aparece em dois retratos – num deles se embrenhando no Cerrado mineiro a cavalo junto com vaqueiros – excursão que de fato aconteceu na fase em que coletava dados para escrever a obra. A flora e a fauna da região onde se desenvolve a narrativa ambientam a exposição, com coqueiros buritis, pássaros e aves criados pela artista.

    Artista Graça Craidy quer receber visitantes de braços abertos no Espaço Cultural Correios Niterói/ Divulgação

    Para ter domínio da temática e aguçar sua inspiração, Graça, de 74 anos, que vive e tem ateliê em Porto Alegre, não só leu o romance como fez um curso – Travessia – sobre o livro, durante o qual leu, releu e debateu a narrativa por meses com a professora da USP Maria Cecilia Marks.

    A artista também pesquisou teses, monografias e ensaios sobre o livro e assistiu algumas vezes ao monólogo “Riobaldo”, protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad. O ator fará um pocket show na abertura da exposição no Espaço Cultural Correios.

    Ema, ave presente no Cerrado/ Divulgação

    Trabalho “expressionista e apaixonado”

    “Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu ‘Grande Sertão’ particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse grande romance”, diz Graça.

    Jagunço Hermógenes/ Divulgação

    “Grande sertão: veredas”, na leitura da artista, “retrata o Brasil profundo, em plena mudança do Império para República, a contragosto dos senhores de terra e coronéis que viam no poder central republicano a anulação do seu poder histórico exercido nas pequenas comarcas desde o tempo das sesmarias”.

    Para ela, “naquele momento histórico de surdas batalhas entre fazendeiros e seus jagunços contra a polícia e os novos políticos representando a República, um sertão recortado por rios, veredas, coqueiros-buritis, pássaros e animais selvagens acoita homens comuns incomuns à cata de poder e de Deus, em fuga da morte e do Diabo, divididos entre o bem e o mal, regurgitando questões caras à humanidade, como o amor, e mais que amor, o amor entre dois guerreiros: Riobaldo e Diadorim”.

    Riobaldo (E) segue os passos de Diadorim, à sua frente/ Divulgação

    Com “Grande sertão”, já montada antes em Porto Alegre e no Rio, é a quinta vez que Graça une sua arte à literatura. A primeira foi na coleção “Clarices”, de 33 retratos de Clarice Lispector; a segunda e a terceira foram nas coletivas  “Autorias I” e “Autorias II”, que organizou e participou ao lado de 42 artistas gaúchos que retrataram 51 escritores do Rio Grande do Sul; e “Erico”, em novembro e dezembro de 2025, em homenagem aos 120 anos de nascimento de Erico Verissimo, da qual foi curadora e artista junto com 46 colegas.

    Personagem Maria Mutema/ Divulgação

    Inovação linguística

    Mineiro de Cordisburgo, Guimarães Rosa morava no Rio, na Rua Francisco Otaviano, 33, em Copacabana, quando escreveu as quase 600 páginas de “Grande sertão: veredas”.

    Ao entregar os originais à editora José Olympio, em fevereiro de 1956, ele escreveu ao colega diplomata e amigo Azeredo da Silveira: “Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairante, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. […] Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”.

    Manuelzão, personagem da mostra Grande Sertão/ Divulgação

    Recebido com aplausos pela crítica, principalmente por suas inovações linguísticas, o livro foi um dos mais vendidos durante meses e venceu prêmios literários como o Machado de Assis. Em 2002, “Grande Sertão: Veredas” integrou a lista dos 100 melhores livros de todos os tempos do Clube do Livro da Noruega. O romance foi a única obra brasileira na relação selecionada por 100 escritores de 54 países.

    Bananeira, em aquarela/ Divulgação

    SERVIÇO

    Exposição: “Grande sertão”

    Artista: Graça Craidy

    Abertura: sábado (7/2), às 15h30, incluindo pocket show do ator Gilson de Barros

    Visitação: de 2ª a 6ª, das 11h às 18h; sábado, das 13h às 18h, até 28 de março

    Local: Espaço Cultural Correios, Av. Visconde do Rio Branco, 481, Centro, Niterói, RJ

    Entrada franca

    *Texto e fotos de Carlos Souza

  • Tributo a Van Halen por Frank Solari: virtuosismo e amor ao Rock

    Tributo a Van Halen por Frank Solari: virtuosismo e amor ao Rock

    Texto feito em parceria com Karina Lacerda

    O exímio guitarrista Frank Solari fez na última quinta-feira, dia 29 de janeiro de 2026, um show Tributo a Van Halen. Acompanhando Frank, estavam os experientes  músicos Jonathas Pozo no vocal (Rage In My Eyes, Icona Rock), André Gomes no baixo (Cheiro de Vida) e Elias Frenzel na bateria (Reação em Cadeia).

    Foto: Karina Lacerda

    O público lotou o Sargent Peppers, tradicional Pub do bairro Moinhos de Vento, para assistir ao espetáculo, sendo que os ingressos já haviam se esgotado duas semanas antes. Inclusive, na fila da entrada do show, havia alguns desavisados que esperavam conseguir entradas na hora e acabaram saindo frustrados. Para esses, um consolo: Frank avisou que em breve haverá novas apresentações do projeto. Visivelmente o público era composto quase que majoritariamente por pessoas acima dos 40 anos – aqueles que presenciaram tanto o auge do Van Halen quanto o início da prodigiosa carreira de Frank nas décadas de 80/90 – embora se visse alguns jovens na plateia.

    Foto: Karina Lacerda

    A poderosa introdução do álbum 1984, que tocou ao fundo enquanto os músicos se posicionavam no palco, preparou a atmosfera do espetáculo. O show começou com a enérgica “Jump”, com Frank nas guitarras e também no teclado, usando nessa um timbre bastante fiel à sonoridade original. Aliás, Frank confessou que já estudava piano há seis anos antes de se dedicar à guitarra, e que justamente foi Eddie Van Halen quem o inspirou a trocar de instrumento principal. No set list ainda constaram hits consagrados das eras mais marcantes da banda: da fase Dave Lee Roth (“Panama”, “Hot For Teacher”, “Running With The Devil”, “Eruption”), à fase Sammy Hagar (“Love Walks In”, “When It’s Love”, “Why Can’t This Be Love”, a emocionante “Dreams” e a clássica “Right Now”). O bis ficou aos encargos de “Pretty Woman” (cover do consagrado sucesso de Roy Orbison) e “You Really Got Me”, uma grata surpresa em um espetáculo que não privilegiou apenas hits, mas também músicas não tão conhecidas do grande público, tais como “Main Street” e “House of Pain”.

    Foto: Karina Lacerda

    Vale lembrar que Frank, além da brilhante carreira solo com os álbuns
    Frank Solari” (que por sinal foi apresentado na íntegra no mesmo Sargent Peppers em 17/10/2024, quando completou 30 anos), “Um Círculo Mágico”, “Acqua” e “Multiversal”, também já se dedicou a outros tributos, tais como Iron Maiden, Santanna e até mesmo ao compositor barroco Antonio Vivaldi, no espetáculo “Vivaldi Elétrico”, apresentado com a Orquestra da Universidade Luterana do Brasil.

    Foto: Karina Lacerda

    Frank se mostra um músico completo e versátil. Não é apenas um “guitar hero” desfilando sua técnica impecável, mas também um grande intérprete, que emociona seu público com sua incontestável sensibilidade e amor ao que faz, confirmando seu lugar definitivo entre os grandes personagens da história da música gaúcha.

  • Instituto Ágora lança, em sarau iluminado, o projeto “Vamos ler Cachoerinha?”

    Instituto Ágora lança, em sarau iluminado, o projeto “Vamos ler Cachoerinha?”

    O Instituto Cultural e Social Ágora, de Cachoeirinha, credenciado como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, em setembro, prepara-se, agora, para lançar um programa bastante ambicioso denominado Vamos Ler, Cachoeirinha?.
    A iniciativa foi contemplada com recursos de uma emenda parlamentar de R$300 mil, destinada à entidade pela deputada Fernanda Melchionna, que lidera a Frente em Defesa do Livro, da  Leitura e da Escrita, do Congresso Nacional.
    O Vamos Ler, Cachoeirinha? tem por objeto qualificar, ampliar e diversificar projetos e ações que vêm sendo realizados, no munícipio, pelo Instituto Cultural e Social Ágora e parceiros, visando contribuir para a construção de uma cidade mais leitora.
    “Sintam-se todos convidados para o Sarau Iluminado, que realizaremos,  no dia 23 de fevereiro, às 19h, em nossa sede, para apresentar o programa, que envolverá a participação de dezenas de agentes culturais da cidade”, diz a organização do programa cultural e social.