Com o Teatro Simões Lopes Neto lotado, estreou ontem o Casa da Palavra, projeto do Multipalco Eva Sopher que prevê rodas de conversa mensais entre personalidades de diferentes áreas sobre temas relacionados às artes e questões sociais.
Começou com o bate-papo Quem conta o país? O Brasil em cena e em prosa, com o cineasta Jorge Furtado e o escritor José Falero, que aproveitaram para revelar um suposto segredo: estão trabalhando juntos no roteiro de um filme baseado no livro Os Supridores.
Furtado e Falero têm diferença de uma geração. Furtado era fã de Mário Quintana. Fez em 1984 seu primeiro filme, Temporal. Depois, O Dia em que Dorival Enfrentou a Guarda e Ilha das Flores, que o levou a escrever para a TV Globo. O trabalho de maior audiência foi Memorial de Maria Moura. Trabalhou muito com Luis Fernando Verissimo em séries, como Os Normais.
Falero contou que sentiu vontade de escrever a partir de assistir na TV seriados de ficção. Prefere escrever a partir da intuição. Já tentou pesquisar pra se aprofundar nos temas mas concluiu que “investigar acaba atrapalhando”
Furtado escreve todos os dias e testa as falas em voz alta porque escreve pra filmar. Fez a plateia rir com a frase: “O prazo é a nossa musa”.
Falero contou que se esforçou muito para publicar seus escritos, quando trabalhava como porteiro ou supridor. Só conseguia escrever depois que ganhava o suficiente para sobreviver. Agora a situação se inverteu: é a escrita que o está sustentando. Então, nas horas vagas, ele vai jogar sinuca ou vai pro samba.

Pra encerrar, a mediadora da conversa, jornalista Bruna Paulin, perguntou o que cada um gostaria de eliminar do discurso das pessoas. Furtado: o racismo; Falero: a meritocracia.
E o que cada um de vocês gostaria que mudasse no país?
“Gostaria que a política não fosse vista como uma coisa suja”, disse Furtado. A seguir ele comentou: “Parece que não se roubam mais quantias como 100 mil; agora são milhões” (risos).
Respondendo ao desafio final, Falero disse que gostaria de ver ampliar-se a diversidade ou, seja, deseja que haja uma melhor distribuição de recursos ou menos desigualdade. E deu um exemplo que parece uma parábola: “Vamos pegar um saco de feijão e escolher o maior dos grãos… Como se faz? Ora, você não vai catar grão por grão até achar o maior. Você pega um punhado (uma amostra) e logo acha o maior. É uma escolha arbitrária e nós estamos acostumados e conformados com isso, mesmo sabendo que no saco de feijão provavelmente tem um grão maior que o escolhido”.
O público riu quando Falero confessou que detesta o livro Os Supridores, que lhe deu fama nacional. Acha que tem defeitos que está tentando corrigir no roteiro, enquanto Furtado, baseado em sua experiência como adaptador de 40 histórias literárias, insiste em respeitar o conteúdo do livro. Ambos divergem mas estão se entendendo. Não se falou em prazo ou datas de filmagem ou orçamento.
O ingresso para o Casa da Palavra é a doação de um livro, em boas condições, na entrada do teatro, a serem distribuídos a bibliotecas.
A iniciativa, com patrocínio da Casa da Memória Unimed/RS e apoio do Sescoop/RS, seguirá reunindo, nos próximos meses, profissionais de múltiplas vertentes, entre literatura, dança, teatro, dramaturgia, jornalismo e outras expressões artísticas e intelectuais. Com o projeto, o Multipalco Eva Sopher pretende reafirmar sua identidade como centro pulsante de produção cultural e pensamento contemporâneo. O objetivo é ampliar o papel do teatro como território de reflexão cultural.

