Autor: da Redação

  • Crise no pólo naval leva a demissão de 3,2 mil em Rio Grande

    “A quadrilha de Brasília está vendendo o País”, afirmou o vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Rio Grande, Sadi de Oliveira Machado, lamentando a demissão de 3,2 mil trabalhadores do pólo naval de Rio Grande.
    A dispensa pegou todos de surpresa no começo da manhã desta segunda-feira (12) e causa comoção na cidade.
    Oliveira vinculou as causas da crise no pólo naval às investigações da Operação Lava Jato sobre corrupção na Petrobras, com envolvimento de políticos e integrantes do governo federal e empresas.
    Em meio a especulações de que a Engevix Construções Oceânicas (Ecovix) entraria com pedido de recuperação judicial, a empresa proprietária de um complexo de estaleiros em Rio Grande anunciou nesta segunda-feira (12) o processo de demissão em massa.
    Os desligamentos foram confirmados pelo Sindicato. Machado lamentou o fechamento dos postos e afirmou que o cenário na cidade é o pior possível. “Não existe qualquer possibilidade de trabalho. O descaso do governo federal e o desmonte da Petrobras criaram essa situação. Estão vendendo o País”.
    Na quinta-feira, o casco da plataforma de petróleo P-68 deixou o Estaleiro Rio Grande, seguindo para o Estaleiro Jurong, em Aracruz (ES). O presidente do Sindicato, Benito Gonçalves, chegou a afirmar que apesar da finalização do empreendimento, a maior preocupação era quanto à possibilidade da Ecovix entrar em processo de recuperação judicial e determinar a paralisação das operações em Rio Grande.
    A Ecovix é um braço de construção naval da empreiteira Engevix, investigada na Lava Jato.
    Atualmente, cerca de 3,8 mil pessoas estavam trabalhando no pólo naval de Rio Grande. A Ecovix estava discutindo com a Petrobras valores e aditivos de contratos para que o complexo não fosse fechado.
    Segundo o vice-presidente do sindicato, benefícios aos trabalhadores estavam sendo negociados desde a semana passada. Machado afirmou que o sindicato conseguiu garantir quatro meses de vale-refeição e plano de saúde até março aos trabalhadores.
    Outras ações devem ser tomadas pelo sindicato. “Vamos avaliar o que pode ser feito para reverter o caso. São mais de 3 mil pais e mães de família desempregados em pleno dezembro.”
    “É um sentimento de derrota”, afirmou. Ainda nesta segunda-feira, o prefeito de Rio Grande, Alexandre Lindenmeyer, se reúne com a equipe do governo municipal para tratar da situação da indústria naval no município.
    (Do Blog Reni Marques)meu ip

  • Queda de Michel Temer é o assunto da semana em Brasília

    Michel Temer enfrenta a pior semana desde que tomou posse, depois do impeachment de Dilma Rousseff.
    A delação de Cláudio Melo Filho, diretor da Odebrecht, que ocupou o noticiário no fim de semana, pode tornar insustentável a situação do presidente, já desgastado pela dificuldade em aprovar seus projetos de ajuste no Congresso e pelo agravamento da crise econômica.
    Uma pesquisa do Datafolha, feita antes da divulgação da delação de Melo Filho, já mostra a popularidade de Temer em queda livre.  Apenas 15% ainda acreditam em seu governo, enquanto os que o consideram ruim ou péssimo chega aos 51%.
    Nesse contexto, a repercussão das revelações do ex-diretor da Odebrecht podem ser o empurrão que falta para desestabilizar o governo.
    Na delação de Cláudio Melo Filho, ex-diretor de relações institucionais da Odebrecht, são citados 51 políticos de 11 partidos que recebiam propina. O nome de Michel Temer aparece mais de 40 vezes, inclusive numa reunião no Palácio Jaburu, quando ele pediu dinheiro a Marcelo Odebrecht (que teria liberado R$ 10 milhões).
    O delator detalha como cerca de 22 milhões de reais foram dispendidos  para aprovar 14 medidas provisórias de interesse da empresa. E não deixa dúvidas: o núcleo é formado por figuras notórias do PMDB.
    No Senado, Renan Calheiros, Romero Jucá, Eunício Oliveira.
    Na Câmara, a liderança é de Temer e seus operadores são Eliseu Padilha, Moreira Franco.”É um grupo organizado e liderado por Michel Temer”.
    “Quem fala com os agentes privados é Padilha. Centraliza as arrecadações e deixa claro muitas vezes que fala em nome de Michel Temer”.
    No depoimento de 82 páginas, o diretor mostra como havia uma relação simbiótica entre esses grupos e a Odebrecht, formando o que se chamou de PMDBrecht.
    A delação ainda não foi homologada (pode portanto ser anulada) e a divulgação de seu conteúdo decorre de um vazamento ilegal. Mas o estrago na opinião pública está feito e com isso mesmo grupos que têm dado sustentação ao governo Temer começam a mudar de posição.
    O caso mais significativo é a postura da Rede Globo, que já dá sinais de ter abandonado o presidente interino.
    Isso fica claro não só pelo grande destaque dado às denúncias do diretor da Odebrecht, que cita 41 vezes o nome de Temer, mas pelo trânsito que os veículos da Globo começam a dar às noticias sobre novas eleições para a Presidência.
    O nome do ex-ministro Nelson Jobim voltou ao noticiário como uma alternativa, no caso de uma eleição indireta para resolver a crise.
    Também a proposta de alteração da Constituição para permitir eleição direta até seis meses antes do fim do mandato voltou a ser cogitada.
    Um projeto de emenda constitucional de autoria do deputado Miro Teixeira que estava engavetado na Comissão de Constituição e Justiça desde junho pode ser retomado.
    O projeto já tem parecer favorável do relator, Esperidião Amin, e não foi levado à votação na Comissão por pressão da Casa Civil, segundo o deputado catarinense.
    Para barrar esse processo, o governo anunciou no início da manhã desta segunda um pacote de medidas para aquecer a economia. Os próximos dias serão decisivos.

  • Ato em defesa das fundações públicas recebe centenas de apoiadores

    “Vivemos um momento de desinteligência, de constrangimento, em que as couraças da indiferença ou da estupidez se negam o diálogo. Mas não podemos desistir”. Assim falou Nelson Coelho de Castro já no encerramento.
    Foi um longo evento: das duas da tarde até o cair da tarde de domingo, centenas de pessoas passaram em frente à entrada do Jardim Botânico de Porto Alegre, onde também funciona o Museu de Ciências Naturais.

    Tarde na entrada do Jardim Botânico, em defesa das fundações
    Tarde na entrada do Jardim Botânico, em defesa das fundações

    Foi ao som de canções como “Índio”, de Caetano Veloso, interpretado com graça pelo quarteto feminino liderado por Monica Tomasi que centenas de pessoas se manifestaram ao longo da tarde deste domingo (11 de dezembro) contra os projeto de lei do governo do Estado que extinguem 9 fundações públicas do Rio Grande do Sul e tramitam na Assembleia Legislativa em regime de urgência.
    O Jardim Botânico e o Museu, assim como o Jardim Zoológico, são mantidos pela Fundação Zoobotânica (FZB), uma das nove ameaçadas de extinção pelo pacote proposto pelo governador José Ivo Sartori.
    jardim-botanico-evento2Foram mais de dez atrações musicais em shows que se estenderam até o cair da tarde. Em vários momentos, embalados por samba, bossa nova ou blues, os servidores tomaram conta da avenida Salvador França, interrompendo o trânsito por alguns instantes para entregar panfletos. Motoristas buzinavam em apoio aos manifestantes, muitos abaixavam os vidros ou desciam dos carros para cumprimentar os servidores e não faltou inclusive quem erguesse o punho para fora da janela em sinal de resistência.
    jardim-botanico-evento4“Essas manifestações de apoio são muito importantes para nós, porque mostram que a comunidade está do nosso lado, defendendo o patrimônio científico, tecnológico e cultural do Rio Grande do Sul”, celebrou a presidente da Associação dos Funcionários da FZB, Josy Matos.
    Entre o público presente, havia inúmeros apoiadores: cientistas, ambientalistas, músicos, profissionais liberais e intelectuais estavam lá.
    Um deles era o escritor e pesquisador em literatura Luis Augusto Fischer, que foi patrono da Feira do Livro em 2013: “Como eu frequento muito esse lugar, inclusive com as minhas crianças, eu sei o trabalho enorme que tem a Fundação Zoobotânica. Aqui se estuda a biologia da nossa região, há um trabalho de produção de mudas para repor em toda a cidade… é um negócio realmente maravilhoso que foi criado há mais de cinquenta anos”, observou.
    Fischer gravou um vídeo em apoio à causa, acompanhando a atitude de vários outros apoiadores que estavam no local como os músicos Marcelo Delacroix e Oly Júnior. “Estamos muito gratos por este apoio da classe artística, é bonito ver as pessoas se envolvendo”, sublinhou Josy.
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    O deputado Pedro Ruas participou do evento e convocou cidadãos comprometidos com a manutenção das fundações a ocuparem de forma permanente a Praça da Matriz, onde já está montado um piquete dos servidores desde o dia em que o pacote de Sartori foi anunciado, no dia 21 de novembro: “Precisamos lotar a praça e mostrar ao governador e aos parlamentares que a população está atenta e vai cobrar de seus representantes uma postura de respeito com o Rio Grande do Sul”.

  • A petroquímica entrou no Rio Grande do Sul pela Cientec

    ELMAR BONES
    Como repórter, conheci os pioneiros que trabalharam no projeto de um pólo petroquímico no Rio Grande do Sul, na Fundação de Ciência e Tecnologia.
    Foi ali, apesar da incipiente estrutura, que um pequeno grupo de pesquisadores desenvolveu o primeiro estudo de viabilidade, que seria o principal instrumento do governo (e dos gaúchos, porque a certa altura tornou-se uma causa estadual), para conquistar o polo.

    Mayer Avruch em 1976, quando era presidente do Cientec / Acervo JÁ
    Mayer Avruch em 1976, quando era presidente do Cientec / Acervo JÁ

    O estudo foi concluído em abril de 1974 por três funcionários da Cientec: Mayer Avruch, economista e presidente da fundação, Orion Hertes Cabral, engenheiro químico e diretor executivo e Élio Falcão Vieira, economista e coordenador da pesquisa.
    Foi encadernado num grosso volume de capa vermelha com o título: “Polo Petroquímico do Rio Grande do Sul – Estudo Preliminar”. Ao que consta, está arquivado na biblioteca do BRDE, em Porto Alegre.
    No palanque das autoridades, em 1983, quando o polo foi inaugurado, havia dois presidentes da República (Geisel que saia, Figueiredo que entrava) três governadores  e todos os ministros do governo recém empossado. Nem um dos pioneiros.
    Nestes tempos de fúria, em que se pretende extinguir estruturas como a Cientec num golpe de caneta, vale a pena lembrar um pouco da história:
    petroquimicacj-300x430A PALAVRA PETROQUÍMICA*
    A soja dominava o noticiário econômico local quando a palavra petroquímica começou a aparecer com regularidade nos jornais de Porto Alegre, no início de 1972.
    Nos primeiros dias daquele ano, o Correio do Povo noticiou a criação de um “grupo técnico do governo” para estudar a viabilidade de um polo petroquímico no Rio Grande do Sul   
    A nota do jornal assinalava que “a petroquímica é um dos ramos mais dinâmicos da indústria moderna”, capaz de dar um novo rumo ao desenvolvimento do Rio Grande do Sul, ainda “muito dependente da produção agropecuária”.
    O decreto que deu origem à notícia  era a primeira vitória numa batalha silenciosa travada por um pequeno grupo de economistas, no interior do governo estadual. Eram quatro ou cinco abnegados que, não raro, eram motivos de piada entre os colegas.
    Eram homens de planejamento, sabiam que no interior do governo se discutia a criação de um terceiro polo petroquímico no pais. Viram nisso uma oportunidade para um Estado que se debatia em busca de caminhos para o desenvolvimento.
    Havia um polo pioneiro em São Paulo, outro em construção na Bahia. O  terceiro poderia ser no Rio Grande do Sul, por que não?
    Mayer Avruch era o inspirador do grupo. Aos 43 anos, ele tinha a cabeleira precocemente branca, mas seu rosto era jovial e seu discurso otimista.  Tinha vinte anos  de serviço público e há mais de dez insistia na petroquímica como caminho para acelerar a industrialização do Rio Grande do Sul, com reflexos em toda a região Sul.
    (…) Havia um estudo pioneiro, incomplerto, feito em 1965 por economistas do BRDE, sobre a indústria química. Mostrava o acelerado crescimento que ela registrava no Brasil e as limitações que tinha no Rio Grande do Sul, onde a matéria prima era toda importada de São Paulo. Esse foi o ponto de partida do grupo de Avruch, em 1972.
    Sua primeira tarefa foi criar um núcleo de pesquisa com a transformação do velho e autárquico Instituto Tecnológico do Estado numa Fundação de Ciencia e Tecnologia, Cientec, para poder receber dinheiro de empresas e aplicar em pesquisas e projetos. “O Triches (governador Euclides Triches ) me mandou para a Cientec para fazer coisas para o futuro, me deu verbas e disse:”equipa aquilo lá”.
    “Foi através da Cientec que conseguimos contratar o Instituto Francês do Petróleo, mandar gente para o exterior, acumular conhecimento lá dentro”.
    Num folder distribuído em 1972, a Cientec oferecia “tecnologia química” como o motor que poderia acelerar a indústria. “É o instrumento que o Rio Grande do Sul que o rio grande do sul necessita para enfrentar (sic)   o acelerado e contínuo desenvolvimento brasieiro.
    Oferecia pesquisas, análises e ensaios em 17 ramos da indústria química, além de serviços de consultoria e projetos. Exibia uma lista de 34 clientes privados e estatais que já usavam seus serviços de  consultoria e projetos, entre as quais estavam Aços Finos Piratini, Petrobrás, Esso Brasileira de Petróleo,  Indústria Celulose Riograndense e Siderurgica Riograndense”.      
    *Do livro “A Petroquímica Faz História”, de Elmar Bones e Sérgio Lagranha, JÁ Editores, 2008  
     

  • Círculo de Pesquisas Literárias completa meio século de história

    Naira Hofmeister
    Com um “parabéns à você” cantado em afinados tons graves e velinhas assopradas em uma tradicional torta Marta Rocha, o Cipel – Círculo de Pesquisas Literárias – comemorou 50 anos de estudos da história, cultura e manifestações sociais do Rio Grande do Sul.
    A reunião festiva ocorreu neste sábado, 10 de dezembro, em um restaurante na Galeria Chaves, em pleno Centro Histórico de Porto Alegre. Ali na Rua da Praia, uma das tantas que o historiador e decano do clube Moacyr Flores não se conforma por terem mudado de nome (oficialmente ela é “dos Andradas”). “Agora mesmo, fui dar o endereço para o taxista e não conseguia me lembrar o nome da Jerônimo Coelho, só me vinha ‘do Poço’ na cabeça…”, admite.
    “Nós trocamos os nomes populares das ruas, que tinham muita sabedoria, pelos nomes dos generais. Foi depois da Guerra do Paraguai. Mais tarde, com o golpe de 1889, não se podia mais falar nada do Império, então a Rua do Imperador virou da República; a da Imperatriz, Venâncio Aires e assim por diante”, recorda, incomodado.
    O papo chegou a este ponto porque, aos 82 anos, Moacyr Flores prepara seu artigo para a 32ª antologia do Cipel, publicação anual temática da casa. A edição 2017 vai abordar “Literatura & Cinema” e o historiador está escrevendo sobre a adaptação de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo para as telas. No livro há descrição minuciuosa do tecido urbano do bairro de Botafogo no Rio de Janeiro, por coincidência, onde Moacyr e a esposa, a também historiadora Hilda Flores possuem um apartamento. “Lá está tudo igual: vamos a um supermercado em uma rua que é mencionada no romance”, exemplifica.
    Se Moacyr é o decano, Hilda foi a sócia que mais tempo permaneceu no cargo máximo do Cipel – de presidente, não presidenta, conforme sua preferência. Foram 26 anos à frente da instituição, 13 gestões, capítulo que se encerrou também neste sábado, quando ela passou as chaves da instituição ao novo – e jovem – presidente da casa, Rafael Bán Jacobsen, um físico e escritor de 36 anos.
    O ato soa solene, mas Jacobsen logo desmistifica: “Agora sou eu que tenho que tomar conta da faxina, cuidar para que os cupins não ataquem o acervo…”. Nada de glamour.
    O Cipel se mantém com a anuidade paga pelos seus sócios, que não chegam a 100 pessoas. As antologias são fruto de trabalho caseiro – capas, diagramação, editoração, tudo fica por conta de algum integrante do grupo. No caso, a maioria do trabalho recai sobre Lotário Neuberger, que mantém a Ediplat – Editora Plátano Ltda – responsável pelas publicações da casa. No número mais recente, que se dedica aos 50 anos do círculo, a capa é obra criativa de Moacyr Flores, que produziu e fotografou a imagem, e desenvolveu a arte no computador.
    Dissidência anti-discursos
    O Cipel foi fundado em 8 de dezembro de 1966, fruto de uma dissidência da Academia Rio-grandense de Letras (ARL). “Na Academia tinha muito discurso, auto-elogios. Pesquisa mesmo e debate, era muito pouco”, explica Moacyr Flores.
    Foi quando Lothar Hessel, professor da Faculdade de Letras da Ufrgs, “aglutinou um grupo de ex-alunos, amigos e colegas da ARL em torno de debates que desejavam conhecer melhor”, conta Hilda, no texto introdutório da 31ª antologia, dedicada ao cinquentenário da instituição.
    “Costumavam encontrar-se na Livraria do Globo, até que um dia Pedro Leite Villas-Bôas ofereceu um apartamento no centro da cidade. Na segunda reunião criaram o Cipel”, detalha.
    Nos primeiros anos o trabalho consistiu em fazer levantamentos bibliográficos no interior do Estado. “Não havia nenhuma pesquisa sobre a nossa literatura. Chegávamos nas bibliotecas e perguntávamos: o que tem de produção daqui? Se lembravam o nome do autor, não sabiam as obras ou conheciam apenas uma”, relata Moacyr Flores.
    Dessa pesquisa surgiram os primeiros dicionários de literatura gaúcha.
    Homenagem ao Partenon Literário

    Monumento com a nominata da associação cultural pioneira de Porto Alegre foi reinaugurado
    Monumento com a nominata da associação cultural pioneira de Porto Alegre foi reinaugurado

    Outro dos objetos de estudo desse grupo pioneiro foi o Partenon Literário, associação cultural porto-alegrense do século XIX. Entre outras atividades, o Partenon promovia saraus, aulas noturnas para pobres e escravos, editava uma revista literária – tudo isso em uma cidade onde a maioria esmagadora da população não sabia ler nem escrever.
    O Partenon foi o tema da primeira antologia do Cipel, publicada em 1976. Na quarta-feira da semana passada (7 de dezembro), o Círculo de Pesquisas Literárias reinaugurou um monumento em homenagem à associação pioneira na Praça da Matriz. A antiga placa de bronze com a nominata dos sócios mais ativos do Partenon, instalada no local nos anos 80 por iniciativa do Cipel, mas roubada posteriormente, foi substituída por uma de pedra.
    “O Partenon foi um marco cultural , chegou a reunir 80 sócios e é anterior inclusive à Academia Brasileira de Letras. Fez campanha pela abolição e defendeu o republicanismo muito antes de esses temas ganharem as ruas”, elogiou, na ocasião, Moacyr Flores.
    Outro feito notável do Partenon foi ter levado a cabo uma campanha pela emancipação das mulheres através da educação. A professora Luciana de Abreu foi o símbolo dessa causa, ao ter sido a primeira mulher a falar em uma tribuna – a do Partenon – no Brasil.
    O grupo também criou um curso noturno de alfabetização para pobres e escravos que desejassem aprender a ler e escrever e incentivou a criação de bibliotecas no interior do Estado.

  • No Rio, metade do pacote de Pezão já foi derrubado

    O pacote de ajuste do governo do Estado do Rio de Janeiro enfrenta grandes resistências.
    As pressões do funcionalismo, com manifestações diárias na rua, mesmo com a violenta repressão, estão se refletindo nas votações.
    Ao fim da primeira semana de votação na Assembleia Legislativa fluminense, a proposta original apresentada pelo governador Pezão está desfigurada. A previsão de uma economia de R$ 27 bilhões com os cortes terá que ser refeita porque dez projetos já não passaram no plenário – nove foram retirados de pauta e um – que estabelecia o fim dos programas Renda Melhor e Renda Melhor Jovem, ambos custando R$ 13 milhões mensais – acabou rejeitado.
    Um levantamento feito pelo G1 nesta sexta-feira mostra o seguinte resultado:
    RETIRADO DE PAUTA
    1 – Extinção da Fundação Leão XIII – economia de R$ 2,5 milhões por ano.
    2 – Extinção da Suderj – economia de R$ 1,4 milhão por ano.
    3 – Extinção do Instituto de Terras e Cartografia – economia de R$ 1,5 milhão por ano.
    4 – Extinção da Fundação de Apoio à Pesca – economia de R$ 1,6 milhão por ano.
    5 – Extinção do Instituto de Assistência dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro – economia de R$ 800 mil por ano.
    6 – Extinção do Instituto Estadual de Engenharia e Arquitetura – economia de R$ 1,1 milhão por ano.
    7 Extinção do Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro – economia de R$ 3,2 milhões por ano.
    8 – Uso de 40% das receitas de fundos de 12 instituições.
    9 – Extinção do adicional por tempo de serviço para todos os servidores, civis e militares – economia de R$ 202 milhões por ano.
    AINDA SERÁ VOTADO
    10 – Mudanças no Rioprevidência – aumento na alíquota dos servidores de 11% para 14% e da contribuição patronal de 22% para 28% .
    11 – Adequação dos repasses de duodécimos à previsão da Receita Corrente Líquida, com elaboração dos orçamentos dos poderes respeitando esse cálculo em 2018.
    12 – Estabelecimento de limite para crescimento das despesas com pessoal dos poderes: seria referente a 70% da Receita Corrente Líquida do Estado.
    13 – Aumento do ICMS para cerveja, refrigerante, combustível e serviços de telecomunicações. É proposto, ainda, reajuste escalonado do imposto para consumo de energia.
    14 – Adiamento para 2020 de aumentos salariais que, aprovados em 2014, entrariam em vigor em 2017. Isso geraria uma economia de R$ 2,4 bilhões no terceiro ano.
    15 – Alíquota provisória da previdência, com duração de quatro quadrimestres.
    APROVADO
    16 – Fim de qualquer tipo de anistia a devedores de impostos ao longo dos próximos 10 anos. Também foi aprovada a proibição de refinanciamento de dívidas.
    17 – Criação de um modelo de intimação eletrônica para cobranças da Secretaria de Fazenda o que vai agilizar processos e reduzirá custos e tempo.
    18 – Redução de pagamentos de pequenos valores: os limites para débitos que o Estado tem de quitar com dinheiro ou depósito caiu de 40 para 20 salários mínimos.
    19 – Mudança de cobrança nas barcas: moradores de Paquetá e Ilha Grande que não têm isenção de Imposto de Renda começam a pagar metade do valor da passagem.
    20 – Limitação do Bilhete Único Intermunicipal: os usuários isentos do Imposto de Renda mantém o benefício. Os outros perdem o subsídio. A tarifa subiu de R$ 6,50 para R$ 8.
    REJEITADO
    21 – Fim dos programas Renda Melhor e Renda Melhor Jovem.
    Entre os deputados governistas, existe a percepção pessimista quanto à possibilidade de aprovação das propostas que ainda não foram apresentadas.
    Entre elas, a elevação da alíquota de contribuição previdenciária de 11% para 14%. Os parlamentares aliados ao Palácio Guanabara também veem o adiamento do reajuste dos servidores da área de Segurança Pública para 2020 também é visto com desconfiança.

  • Movimento em defesa das fundações tem eventos domingo e segunda

    Uma série de eventos marca a agenda da mobilização contra a extinção de nove fundações gaúchas, prevista no pacote enviado à Assembleia pelo governador José Ivo Sartori, batizado de Plano de Modernização.
    No domingo, 11, acontece o “S.O.S. As fundações públicas estão na rua” no Jardim Botânico (avenida Salvador França, 1427). O evento reúne mais de 20 músicos em XX shows, a partir das 14h. Entre os artistas estão nomes como Nelson Coelho de Castro, Marcelo Delacroix, Marisa Rotemberg e Oly Jr. Em paralelo às apresentações musicais, o grupo Studio P fará um varal de artes e pintura coletiva, a partir das 15h.
    Na segunda-feira, 12, acontece um abraço simbólico à Fundação Cultural Piratini, responsável pela TVE e pela FM Cultura, que também está ameaçada de extinção. A concentração começa às 10h, em frente à sede da Fundação, na rua Correia Lima, 2118.
    O caso da Fundação Piratini vem mobilizando artistas e agentes culturais através de diversos eventos e manifestações públicas de repúdio ao projeto. No Facebook, diversos apoiadores publicaram vídeos se posicionando contra a proposta de extinção. O ex-governador Alceu Collares, o ex-vice-governador, crítico teatral  e professor de comunicação Antônio Hohlfeldt, a vice-reitora da Ufrgs e escritora Márcia Tiburi e o jornalista Juremir Machado são alguns dos nomes.
    Nesta sexta-feira, os músicos Thiago e Ian Ramil se apresentaram no Jornal do Almoço, da RBS TV, vestindo camisetas do movimento “Salve salve TVE e FM Cultura”, repetindo o gesto, na semana passada, do músico Tonho Crocco.
    Um único projeto de lei (PL 246) prevê a extinção da Fundação Zoobotânica, Fundação Piratini, Fundação de Ciência e Tecnologia (CIENTEC), a Fundação de Economia e Estatística (FEE), a Fundação de Recursos Humanos (FDRH) e a Metroplan.
     

  • Viaduto Otávio Rocha completa 84 anos sem recursos para revitalização

    Uma das mais vultuosas e importantes obras da história de Porto Alegre, hoje convertida em retrato do descaso com o patrimônio público, o Viaduto Otávio Rocha completa 84 anos.
    O aniversário do famoso viaduto, que teve sua construção concluída em 1932, será celebrado em um evento que reunirá teatro, fotografia, feira e performances ao longo de todo o dia, neste domingo, 11, a partir das 10h, por iniciativa da associação dos comerciantes locais e do movimento Amigos do Viaduto.
    O organizadores do evento almejam aproximar moradores do entorno, bem como a população em geral, para utilizar este espaço público e, através da convivência, buscar soluções conjuntas com os órgãos públicos responsáveis pelas questões sociais, segurança e saúde pública. Constatam que hoje os vizinhos sentem-se inseguros de transitar por ali.

    O viaduto atraiu os sem teto, uma das razões é que ali há um banheiro público / PM/JÁ
    Com o aumento do déficit habitacional, o viaduto atraiu os sem teto, uma das razões é que ali há um banheiro público 

    Sucessão de descuidos 
    O passeio de pedras portuguesas sob o imponente monumento foi remendado às vésperas da Copa 2014, mas desde então o local está descuidado, precisando de reforma. Mas o problema mais premente é que as calçadas sob o viaduto se converteram em um condomínio a céu aberto de moradores de rua, o que expõe em pleno centro da cidade o problema habitacional e demanda atuação da assistência social. Porém, recentemente o prefeito José Fortunati afirmou que o viaduto é caso de polícia, pois há no local narcotráfico.
    Há mais de dez anos, os comerciantes e moradores do entorno tentam viabilizar a revitalização do viaduto. Porém, até hoje, não se conseguiu recursos para tirá-lo do papel. O projeto foi concluído em agosto de 2015 e custou R$ 400 mil. O custo estimado da obra é de R$ 33 milhões.
    Em novembro deste ano, Adacir José Flores, presidente da Arccov (Associação Representativa e Cultural dos Comerciantes do Viaduto Otávio Rocha) falou na Tribuna Popular da Câmara de Vereadores. Flores defendeu a formalização de uma parceria com a Prefeitura, para que a associação possa buscar os recursos através de leis de incentivo. “Queremos deixar um legado para a área social, política e humana de Porto Alegre”, completou Flores, que classificou o viaduto como patrimônio cultural da cidade.
    Para o presidente da Arccov, a situação atual do Viaduto Otávio Rocha é crítica: “É necessária uma solução humana para os moradores em situação de rua que lá se encontram, a fim de emancipá-los”, destacou.

  • Congelamento de gastos trará "retrocesso social", segundo a ONU

    A organização das Nações Unidas (ONU) criticou nesta sexta-feira, 9, a proposta do governo de Michel Temer que congela por 20 anos os gastos públicos, indexando-os à inflação, a chamada PEC 55.
    Em nota à imprensa, o relator especial da ONU para extrema pobreza e direitos humanos, Philip Alson, diz que o efeito “inevitável” da medida será o prejuízo aos mais pobres nas próximas décadas.
    “Se adotada, essa emenda bloqueará gastos em níveis inadequados e rapidamente decrescentes na saúde, educação e segurança social, portanto, colocando toda uma geração futura em risco de receber uma proteção social muito abaixo dos níveis atuais”, afirma Alson.
    O Relator Especial nomeado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU recomendou ao Governo Brasileiro que garanta um debate público apropriado sobre a PEC 55, que estime seu impacto sobre os setores mais pobres da sociedade e que identifique outras alternativas para atingir os objetivos de austeridade.
    “Uma coisa é certa”, ele ressaltou. “É completamente inapropriado congelar somente o gasto social e atar as mãos de todos os próximos governos por outras duas décadas. Se essa emenda for adotada, colocará o Brasil em uma categoria única em matéria de retrocesso social”.
    O representante da ONU reitera que a PEC 55, que pode ser votada em segundo turno na próxima terça-feira, 13, é uma medida radical, desprovida de toda nuance e compaixão. “Vai atingir com mais força os brasileiros mais pobres e mais vulneráveis, aumentando os níveis de desigualdade em uma sociedade já extremamente desigual e, definitivamente, assinala que para o Brasil os direitos sociais terão muito baixa prioridade nos próximos vinte anos.”
    Ele acrescentou: “Isso evidentemente viola as obrigações do Brasil de acordo com o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais que o pais ratificou em 1992, que veda a adoção de “medidas deliberadamente regressivas” a não ser que não exista nenhuma outra alternativa e que uma profunda consideração seja dada de modo a garantir que as medidas adotadas sejam necessárias e proporcionais.”
    Philip Alston apontou que, nas ultimas décadas, o Brasil estabeleceu um impressionante sistema de proteção social voltado para erradicar a pobreza e o reconhecimento dos direitos à educação, saúde, trabalho e segurança social.
    “Essas políticas contribuíram substancialmente para reduzir os níveis de pobreza e desigualdade no país. Seria um erro histórico atrasar o relógio nesse momento,” disse ele.
    O Plano Nacional de Educação no Brasil clama pelo aumento de 37 bilhões de reais anualmente para prover uma educação de qualidade para todos os estudantes, enquanto a PEC reduzirá o gasto planejado em 47 bilhões de reais nos próximos oito anos. Com mais de 3,8 milhões de crianças fora da escola, o Brasil não pode ignorar o direito deles de ir à escola, nem os direitos de todas as crianças a uma educação de qualidade.
    O debate sobre a PEC 55 foi apressadamente conduzido no Congresso Nacional pelo novo Governo com a limitada participação dos grupos afetados, e sem considerar seu impacto nos direitos humanos. Um estudo recente sugere que 43% dos brasileiros não conhecem a emenda, e entre aqueles que conhecem, a maioria se opõe a ela.
    O relator especial, que está em contato com o Governo Brasileiro para entender melhor o processo e a substancia da emenda proposta, ressaltou que “mostrar prudência econômica e fiscal e respeitar as normas internacionais de direitos humanos não são objetivos mutuamente excludentes, já que ambos focam na importância de desenhar medidas cuidadosamente de forma a evitar ao máximo o impacto negativo sobre as pessoas.”
    “Efeitos diretamente negativos têm que ser equilibrados com potenciais ganhos a longo prazo, assim como esforços para proteger os mais vulneráveis e os mais pobres na sociedade”, disse ele.
    “Estudos econômicos internacionais, incluindo pesquisas do Fundo Monetário internacional, mostram que a consolidação fiscal tipicamente tem efeitos de curto prazo, reduzindo a renda, aumentando o desemprego e a desigualdade de renda. E a longo prazo, não existe evidência empírica que sugira que essas medidas alcançarão os objetivos sugeridos pelo Governo,” salientou o relator especial.
    O apelo de Alston às autoridades brasileiras foi endossado também pelos a Relatora Especial sobre o Direito à Educação, Koumbou Boly Barry.
     

  • Autor escreve livro para lançar aos 100 anos: “Não tenho tempo para morrer”

    ELMAR BONES
    João Gomes Mariante, psicanalista e jornalista, completou 98 anos em 26 de fevereiro de 2016.
    Deste então, entre outras coisas, trabalha num livro que irá concluir em fevereiro de 2018, com o título: Como cheguei aos 100 anos.
    Ele escreve a mão, com uma caneta tinteiro, letras grandes bem desenhadas, em folhas soltas que vai numerando. Quando há ouvintes, gosta de testar os trechos que já escreveu:
    “Não fui amamentado por minha mãe e sim por muitas amas de leite que invariavelmente entravam em choque com ela.”
    Levanta os olhos do papel e acrescenta, com a voz magoada: “Ela brigava com todas”.
    Nascido em Porto Alegre, foi “ainda em fraldas” para Porto Mariante, pequeno povoado à beira do rio Taquari, do qual a família de seu pai era fundadora. Criou-se na fazenda do avô autoritário, que não o estimulava a estudar. Queria que fosse bom pialador (que derruba o boi na corrida, jogando o laço nas patas dianteiras)
    Tinha 12 anos quando se alfabetizou. Estudou em Porto Alegre, cursou Medicina no Rio de Janeiro, foi funcionário da embaixada brasileira em Buenos Aires, psicanalista em São Paulo.
    Voltou para Porto Alegre com planos de se estabelecer como psicanalista. Enfrentou dificuldades, principalmente o início de uma surdez que hoje o aflige. “Pedir para o paciente repetir, não dá.”
    Voltou-se para o jornalismo, valendo-se da experiência pioneira com a Revista de Medicina Social, que editou no Rio na década de 1940.
    Lançou em outubro de 2002 o jornal MenteCorpo, mensário, voltado para a popularização do conhecimento médico e psicanalítico.
    O número que está circulando é o 137, uma edição especial toda dedicada à cidade de Venâncio Aires, feita quase integralmente por ele, como todas.
    Ele determina a pauta, escreve os editoriais e as principais matérias, além de mobilizar numerosos articulistas, para compor as 48 ou mais páginas de cada edição.
    Além de editor, ele é o empresário, que capta publicidade, cuida da distribuição e comanda uma pequena equipe de colaboradores. Em cima da mesa já estão espalhadas as provas da próxima edição. “Essa madrugada vou escrever o editoral e a Personalidade do Mês, que ainda não sei quem é…”
    tres_no_diva_1308531602bTodos esses encargos não o impediram de lançar três edições revisadas e ampliadas de um livro em que explora seus conhecimentos de psicanálise e suas relações com três ícones da política do Rio Grande do Sul: Osvaldo Aranha, Flores da Cunha e Getúlio Vargas.
    Ele conheceu os três no Rio de Janeiro, onde era estudante. Era afilhado de um ministro de Vargas.
    Frequentou churrascos aos quais Vargas comparecia e dele chamou atenção por uma frase, dita numa roda de estudantes paulistas: “São Paulo é a locomotiva do Brasil, mas o carvão é de São Jerônimo e o maquinista é de São Borja”.

    Mariante é o homem de bigode atrás de Vargas
    Mariante é o homem de bigode atrás de Vargas

    A frase arrancou uma das famosas gargalhadas de Vargas e então lhe apresentaram o jovem gaúcho atrevido que estudava no Rio.
    Foi amigo desde a escola de um dos filhos de Osvaldo Aranha e conheceu Flores da Cunha no Rio, quando era estudante de medicina e, numa emergência, até aplicou-lhe algumas injeções.
    Com Osvaldo Aranha
    Com Osvaldo Aranha

    Seus anos de dedicação à profilaxia do suicídio, levaram-no a identificar um traço autodestrutivo na conduta política dos caudilhos gaúchos. Daí resultou o livro, do qual já publicou duas edições.
    Em junho deste ano lançou um novo ensaio de 200 páginas fixando-se em Getulio Vargas, procurando rastrear os sinais inconscientes de que Vargas teve em mente, desde sempre, o suicídio como uma saída.
    O lançamento mais recente
    O lançamento mais recente

    “Em vários momentos, em situações cruciais, ele considerou a ideia de se dar um tiro se tudo desse errado. Até que chegou naquele 24 de agosto, quando tudo havia realmente dado errado”.
    Para a autobiografia que está escrevendo, prevê umas 300 páginas: “Vai ser uma coisa simples, talvez faça algum sucesso”, pondera.
    Já descreveu a primeira surra que levou da mãe, pelo susto que deu numa tia muito carola. A tia o obrigava a confessar e a comungar. Ele odiava: “Eu cuspia na hóstia”. À noite tinha que rezar em pé junto da cama, antes de deitar.
    Um dia a tia tomou-lhe a reza e ele lascou um verso que aprendera na rua: “Deita-te corpo /espicha-te rabo/arreganha esse cú/ para todos os diabos”.
    Diverte-se com suas memórias
    Diverte-se com suas memórias

    A tia desmaiou. A surra foi tamanha que até hoje ele fica em dúvida se o verso não é “muito forte” para entrar nas memórias.
    Depois de um longo expediente, ele sente dificuldade para erguer-se da poltrona de onde comanda a editora e o jornal, mas não aceita ajuda:
    “Deixa comigo…”, diz empunhando a bengala.
    Vai até a cozinha e volta com uma garrafa de uísque. “Já vou trazer o gelo.” Vai e volta com passinhos curtos. Fala dos seus planos, das próximas edições do jornal, da campanha que vai lançar, da viagem a Buenos Aires. Quer lançar um outro livro com as crônicas que publicou no Jornal do Comércio nos últimos 20 anos. Reclama que a Zero Hora não tem publicado seus artigos. Desespera-se com a incapacidade de organizar papéis. “É uma desgraça!”. Mostra a capa do livro que ele mesmo  idealizou: uma ampulheta com um restinho de areia na parte de cima.
    Pergunto se no livro ele vai revelar o segredo. “Que segredo?”. De como chegou aos 100 anos. “Ah, acho que fui salvo pela psicanálise. Embora tivesse condições genéticas, não teria chegado a essa idade se não fosse a psicanálise”.
    Conta que foi um jovem turbulento, duas vezes baleado. Levanta a perna da calça para mostrar a cicatriz do tiro que levou num entrevero em Santa Cruz. Isso não revela também uma tendência suicida? “Sem dúvida, tinha esse componente.”
    Parece buscar a origem desse componente. “Meu avô queria um filho homem, não aceitou o fato de ter vindo uma mulher, minha mãe. Ele não escondia a decepção e isso causou nela um trauma muito grande, ela nunca superou. Quando nasci, ele quis fazer de mim o filho que não teve.”
    Outro ingrediente de sua receita de vida é dormir pouco. Sempre foi assim. Sai da cama antes das quatro.
    Dorme uma hora depois do almoço e depois vai até nove, dez da  noite. “Não tenho tempo para morrer”, brinca.  Diz que vai “parar duas horas antes, para arrumar alguns papéis…”. E sintetiza tudo: “O trabalho é a grande e única terapia”. Mas é preciso gostar do que faz.
    Ele por exemplo, no final de semana, percorreu mais de mil quilômetros para dar autógrafos e palestra em Dom Pedrito. Com frequência, toma um ônibus e vai a Santana do Livramento, gosta de ir ao cassino de Rivera.
    Na segunda-feira, já tem compromisso na agenda: “Quero falar com aquele rapaz para o site. Quero fazer o jornal on line”.
    Palavras escolhidas com precisão a cada texto, discurso ou palestra
    Palavras escolhidas com precisão a cada texto, discurso ou palestra

    Além da atividade intensa com o jornal, com os livros e com uma agitada agenda social, os 98 anos não impedem João Gomes Mariante de acompanhar os fatos do noticiário e de ter uma lúcida opinião sobre eles.  Confira:
    “Estou com muito medo de uma guerra civil. Medo de estourar esse movimento de rua, esse Bolsonaro quer liderar o golpe. O Exército vai ter que sair para guerra…”
    “Corrupção é sempre a desculpa para os golpes. Getulio não roubava mas protegia os corruptos. O Jango a mesma coisa.  Em 1964, os milicos prometiam moralizar mas não pegaram o Ademar de Barros e tantos outros que eram aliados deles”.
    “Eduardo Cunha é um psicopata. É diferente do psicótico, o psicopata se caracteriza pela ausência de culpa. Não tem controle interno, projeta no outro, nunca aceita a culpa. Ele não se compromete. Cunha compromete os outros…”
    “A Lava Jato abriu os olhos do povo, o PT se excedeu na roubalheira. Nunca tantos roubaram tanto de tantos. E, depois, a arrogância, o povo não tolera mais o arrogante”.
    “Lula é muito inteligente, mas é um paranóico, tem mania de grandeza, se sente perseguido.  Acredito que ele está terminado, nunca mais”.
    Eleições municipais: “Para mim não foi surpresa, o pessoal quer coisa nova. Os que se declararam não políticos, levaram. Não está na ordem dos contagiados”.
    Violência: “Enquanto não se fizer uma varredura na polícia, não vai se resolver o problema da criminalidade no Brasil, porque os grandes criminosos estão dentro da polícia. Tinha que ter um projeto: submeter todos eles a um exame psiquiátrico”.
    Caso Plinio Zalevski: “Pra mim não foi suicídio, foi homicídio. Quem se mata não dá dois cortes. Dificilmente, quando dá um corte profundo, dá o segundo. Não consegue dar. A motivação também é pouco convincente. Mais plausível é que o tenham obrigado a escrever aquilo”.