Autor: Elmar Bones

  • Quadruplicação da Aracruz em Guaíba (RS) aumenta procura por curso técnico

    Débora Cruz, Especial para o JÁ

    Desde conversas informais entre amigos até o número de inscritos para o curso técnico de uma escola pública. A quadruplicação da planta da Aracruz Celulose no município de Guaíba (RS), na Região Metropolitana de Porto Alegre, está fomentando a expectativa de geração de empregos na região. Trata-se de um investimento de US$ 1,2 bilhão, com previsão de gerar cem empregos diretos, que espera passar de 450 mil para 1,8 milhão de toneladas a produção de polpa de celulose por ano.

    Em Guaíba funciona um dos três cursos técnicos em Celulose e Papel do país – os outros dois estão no Paraná e em São Paulo. Oferecido por uma escola pública, o Instituto Estadual de Educação Gomes Jardim, no Centro da cidade, o curso tem registrado número recorde de inscritos nas duas últimas seleções, para 2006 e para 2007. No ano passado, quando foram oferecidas 35 vagas, houve 943 inscritos, uma média de 27 candidatos por vaga. Para o processo seletivo deste ano o número de inscrições foi ainda maior: aproximadamente 1,3 mil candidatos para 40 vagas.

    O curso foi criado em 1979 e forma uma média de 20 alunos por ano. Resultado de uma parceria entre o governo do Estado (que cede o espaço físico) e a empresa (que oferece os professores e banca os salários deles), tem duração de dois anos e ocorre no turno da noite. No primeiro ano, as aulas acontecem na escola. No segundo, são realizadas dentro da Aracruz, onde os onze professores que ministram as aulas trabalham.

    O coordenador do curso, engenheiro industrial mecânico e consultor técnico da Aracruz, Francisco Braga Giacobbo, afirma que a empresa procura priorizar, nas contratações, os alunos que possuem tal formação. “Os bons alunos conseguem vaga”, assegura. Segundo ele, o curso não prepara somente para a indústria de celulose, mas também para a indústrias de produtos químicos que existem na região. Porém, há entraves. E um deles é que a geração de empregos no setor no Rio Grande do Sul não vai de vento em popa. “O mercado aqui na região Sul é meio restrito, mas Santa Catarina e Paraná têm muitas indústrias de papel de celulose”, alerta.

    De acordo com Giacobbo, mais da metade do corpo técnico da empresa é oriundo do curso. “A preferência é pela mão-de-obra local. Penso que é preciso evoluir, crescer e que esse tipo de ação, ou melhor, de obra, gera muitos empregos. Mas tenho um pouco de preocupação sobre como será organizada essa obra e até que ponto a natureza será preservada.” A opinião é da professora de Letras Jéssica Chacon, que leciona em três escolas públicas do município.

    O paradoxo geração de empregos versus preservação do meio ambiente frente à ampliação da produção de celulose na unidade da empresa em Guaíba também preocupa a estudante de Biologia Karine Didio. “Existe sim pontos positivos que é a criação de novos empregos, mas como estudante de Biologia olho principalmente os prejuízos que a Aracruz vem trazendo para o meio ambiente. A gente discute muito isso na faculdade e o que sempre se vê é que esses investimentos não compensam o estrago que fica na questão ambiental”, reflete.Ela conta que conhece moradores que buscaram o curso técnico em Celulose e Papel do Instituto Gomes Jardim justamente devido à notícia da ampliação. “Tem gente fazendo o curso técnico contando certo com uma vaga lá dentro. As pessoas estão achando que todo o município vai
    ter emprego garantido.”

  • Presidente do Conselho Estaual de Cultura quer discutir “gargalo da LIC”

    Guilherme Kolling

    Em agosto, o Conselho Estadual de Cultura aprovou 37 projetos que somados, poderiam captar R$ 6,9 milhões pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura (LIC). Mas a verba de renúncia fiscal que a Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) tinha disponível era de R$ 3,5 milhões. Resultado, mesmo apresentando reconhecido mérito cultural, algumas iniciativas tiveram que ser cortadas.

    É sobre este descompasso entre o aumento da demanda e o arrocho nos repasses para o setor que o presidente do Conselho Estadual de Cultura, o advogado e cineasta Gilberto Herschdorfer, propõe um debate. “Temos que discutir esse assunto até para melhorar o método utilizado pelo Conselho”.

    Hoje, uma lista dos projetos recomendados é entregue através de ofício para a Sedac, a cada 30 dias. A Secretaria, por sua vez, apresenta a verba disponível para o período, invariavelmente inferior ao solicitado. Só então os conselheiros se reúnem para uma avaliação coletiva, feita mês a mês, em que eles escolhem em conjunto quais projetos serão cortados.

    Em agosto, por exemplo, foram desclassificados seis dos 37 projetos com mérito cultural. Tudo para se adequar ao valor disponível. Um dos que ficou de fora foi a nova sede da Fundação Iberê Camargo, que pedia R$ 1,6 milhão para a etapa final da construção do museu, às margens do Lago Guaíba.

    “Isso não significa uma recusa definitiva. Nos dois meses seguintes o projeto volta a ser apreciado”, informa Herschdorfer. Aliás, a Fundação Iberê Camargo já arrecadou, nas diferentes etapas da obra, cerca R$ 5,2 milhões na LIC, segundo o presidente do Conselho. “Nesse momento, não tínhamos como priorizar o projeto, em razão do valor pedido”, explica.

    E a situação tende a ficar mais difícil, já que o valor anual que o Governo destina para a LIC foi congelado nos últimos anos em R$ 28 milhões. “O correto seria cumprir o que determina a lei” – um repasse de 0,5% da arrecadação líquida com ICMS, o que totalizaria cerca de R$ 42 milhões para 2007.

    “As solicitações aumentam a cada ano. Se considerarmos a inflação, pode-se dizer que a verba tem diminuído”, observa Gilberto Herschdorfer. Além de cumprir a lei referente ao valor da LIC, ele aponta como soluções um repasse de verbas orçamentárias ao FAC – Fundo de Apoio à Cultura e uma gradativa independência de projetos tradicionais.

    “As feiras, festivais e iniciativas que acontecem todos os anos devem, gradativamente, ir se desprendendo da LIC”, defende. Em audiência pública, ele citou como exemplos os festivais de gaúchos e carnavais espalhados pelo Estado. Mas na entrevista exclusiva que concedeu em seu escritório em Porto Alegre, falou que a tese serve para todas as áreas: cinema, feiras do livro…

    “A lei é uma ferramenta de incentivo à cultura. Deve ajudar a promover novas iniciativas, não mantê-las eternamente. Pode acontecer o mesmo que se deu com o cinema, que parou por anos, depois do fim da Embrafilme. Era uma dependência completa. Imagina se a LIC é extinta. Pára tudo. Temos que pensar o futuro”, alerta.

  • Especial da Feira: Discursos de protesto marcam abertura

    Naira Hofmeister

    A entrevista coletiva para apresentar as novidades da 53ª Feira do Livro de Porto Alegre, na manhã da quinta-feira, 18 de outubro, transformou-se em um ato de protesto. Motivados pelo roubo do livro que a estátua de Carlos Drummond de Andrade segurava – o monumento de Xico Stockinger, localizado na Praça da Alfândega, homenageia também o poeta Mario Quintana – o patrono do evento, Antonio Hohlfeldt, e o presidente da Câmara Riograndense do Livro, Waldir da Silveira, condenaram o ato e garantiram que “o vandalismo não vai interferir na Feira”.

    Silveira tranqüilizou os freqüentadores quanto à segurança na Praça. O presidente da CRL acredita que o problema não vai se repetir. “Temos um esquema garantido pela Brigada Militar que é excelente”, observa Silveira. O livro roubado será devolvido às mãos de Drummond em uma cerimônia, ainda sem data prevista,  que vai marcar a instituição do Dia Contra o Vandalismo na capital do Estado.

    Além da condenação pública do ato, a “arma” na qual a organização aposta suas fichas para combater o vandalismo é a ação social. “Esse não é um evento só de literatura, mas também de cidadania”, salientou Hohlfeldt.

    Um dos projetos mais importantes é a promoção de encontros entre autores e os internos da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul,  a FASE. “Recentemente levamos a Jane Tutikian, cuja caixa de e-mails vive lotada de comentários da gurizada”, comemora Silveira. A partir de agora, em parceria com a Associação dos Escritores Gaúchos, os encontros serão mensais.

    Novidade também em 2007 é a visitação a crianças que fazem hemodiálise. O patrono Antonio Hohlfeldt já confirmou sua presença em três hospitais – Santa Casa, Clínicas e São Lucas da PUCRS – onde vai promover rodas de leitura e doação de livros. “Elas não podem estar na praça, mas isso não deve ser impeditivo para a leitura”.

    Alunos das escolas públicas de Porto Alegre também foram convidados para comparecer na Praça da Alfândega. Dezoito ônibus da CRL circulam constantemente para buscar e levar as crianças de escolas estaduais da capital e dos municípios vizinhos. A Prefeitura de Porto Alegre garante verba par o transporte dos alunos da rede pública do município. A única exigência da organização do evento é que as escolas promovam um encontro com algum autor que as crianças estejam lendo. Já há eventos no teatro Sancho Pança com mais de mil alunos inscritos.

    O Projeto Asteróide será novamente um destaque. Num estande próprio, os meninos de rua do centro de Porto Alegre se reúnem para atividades literárias, recebem lanches e têm duchas à disposição para tomarem banho.

  • Completando 18 anos, feira ecológica se emancipa

    Ecologistas e produtores criaram a primeira feira de produtos orgânicos (Fotos: Tânia Meinerz/JÁ)

    Helen Lopes

    A Feira de Agricultores Ecologistas (FAE), que acontece todos os sábados na avenida José Bonifácio, completa 18 anos na terça-feira, 16 de outubro. Enquanto organizam as comemorações, produtores estão criando uma associação própria para gerenciar o tradicional mercado de orgânicos.

    A iniciativa tem origem na gradual extinção da pioneira Cooperativa Ecológica Coolméia, que chegou a ter 2 mil associados, mas que fechou as portas no ano passado por problemas administrativos e diversas dívidas.

    A FAE surgiu em 1989, onze anos depois de a Coolméia ter sido fundada por vegetarianos que buscavam suprir suas necessidades de alimentação, mas não encontravam verduras e legumes sem agrotóxicos. Numa época em que a palavra sustentabilidade tinha pouco espaço no cotidiano,  a união entre consumidores e agricultores deu origem à primeira feira orgânica do Brasil.

    Um projeto inovador, que impulsionou a produção nessa modalidade em todo Estado e deu origem ao que hoje é o maior evento ecológico de Porto Alegre. A feira possui 48 bancas, envolve mais de 100 famílias de pequenos agricultores do Rio Grande do Sul e recebe um público estimado de 5 mil pessoas por dia. É também um ponto de encontro de ambientalistas e simpatizantes da defesa aos recursos naturais. 

    Ponto de encontro ecológico

    Mais de cinco mil pessoas circulam pela feira ecológica da José Bonifácio nas manhãs de sábado, segundo cálculos da Prefeitura. Além de comércio de alimentos, a feira é um ponto de encontro dos ecologistas, estudantes ou de quem apenas busca alimentos livres de agrotóxicos. “Já sabemos mais ou menos o horário que cada um vem”, brinca a fotógrafa Irene Santos, moradora da Vasco da Gama.

    Nas rodinhas, há troca de receitas, dicas sobre cultivo ecológico, articulação dos ativistas ou simplesmente um bate-papo informal. Para o engenheiro José Vilhena, os encontros acontecem de forma natural porque as pessoas compartilham a doutrina ecológica. Vilhena observa que nestes 18 anos, os agricultores aprimoraram as técnicas de cultivo. “Os produtos estão mais diversificados e com melhor aparência”, atesta o engenheiro.

    Além de aperfeiçoar o cultivo, os agricultores também resgataram plantas e alimentos desprezados, como Beldoegra, Dente de leão, Serralha, entre outros, que eram vistos como inços, mas que podem ser usados em chás ou pratos. Outro exemplo são as folhas de beterraba, muitas vezes levadas direto à lata do lixo, mas que possuem grande valor nutritivo. “Isso faz parte da visão da feira: aproveitar integralmente os alimentos”, ensina a nutricionista Hertha Wiener (foto).

    Até a fama de careira, aos poucos, é superada. “É como se fosse um valor agregado”, analisa a dona de casa Fernanda Alves, que todos os sábados vem da Zona Norte ao Bom Fim. Segundo os organizadores, o atual desafio da feira é consolidar as atividades de conscientização, como, por exemplo, a diminuição do uso de plástico. Para atingir esse objetivo, eles realizam campanhas regulares pela substituição das sacolas e dos copos plásticos. 

    Raízes

    A primeira feira sustentável do Brasil surgiu da necessidade dos associados da Cooperativa Coolméia de encontrar alimentos livres de agrotóxicos. “Pensamos até num sítio”, recorda Hertha.

    Primeiro, os ecologistas fizeram uma fruteira na sede da cooperativa, depois organizaram eventos anuais de três dias na Redenção, chamado Tupambaé, que mesclava comércio de alimentos, aulas de reciclagem e terapias alternativas. Para a engenheira agrônoma Glaci Campos Alves, uma das precursoras, a feira foi resultado do nível de consciência ecológica que propiciava o contexto histórico.

    De fato, o debate sobre a utilização de químicos cresceu na década de 80, quando se criou a lei dos agrotóxicos. Com o apoio do movimento ambientalista, Pastoral da Terra e MST, aos poucos os pequenos agricultores foram se somando. “Já se produzia sem veneno, mas havia dificuldade para vender”, conta Pedro Lovato (foto), um dos primeiros a aderir.

    Produtor de frutas em Farroupilha, Lovato avalia que nestes 18 anos a feira viabilizou a permanência de muitos pequenos agricultores na terra. Ele mesmo é um exemplo: fazia entrega a domicilio porque não conseguia local para comercializar sua produção.  “Com a feira, pude ficar na terra e ainda me sinto realizado porque vi muitas pessoas crescerem com alimentos livre de agrotóxicos”.

    O propagandista

    O livreiro ecologista Augusto Carneiro, de 84 anos, mostra as fotos das primeiras edições da feira, que ele ajudou a fundar. Contemporâneo de José Lutzenberger, hoje ele expõe livros e cartilhas sobre meio ambiente. “Minha função é fazer propaganda da ecologia”, diz. Ao lado de Carneiro, a nutricionista Hertha Wiener, também na casa dos 80, é um símbolo da feira e ainda hoje promove degustação de receitas alternativas e presta orientação nutricional de forma gratuita numa banca montada pela organização.

  • Trânsito mata de novo

    Mais um feriado prolongado e mais uma vez as manchetes dos jornais da segunda-feira se repetem com os dados trágicos do saldo: mortos, feridos, danos materiais, etc. Enquanto:
    1) Pessoas com pouca experiência continuarem a dirigir nas estradas (“motoristas de fins de semana”);
    2) O governo não investir pesadamente nas rodovias, seja diretamente ou por concessões (que têm que ser fiscalizadas com rigor), sinalizando, refazendo trechos, equipando as polícias com os instrumentos necessários à coibição de velocidade e aferição da embriaguez de condutores;
    3) As polícias rodoviárias (federal e estaduais) não forem para os trechos fiscalizar e autuar em vez de ficarem no interior dos postos;
    4) Os condutores experientes não se conscientizarem que a faixa amarela não é um símbolo decorativo e sim uma regulamentação legal ao ato de ultrapassar;
    5) Os contratantes de transporte coletivo insistirem na pressa das entregas obrigando os motoristas de caminhão a tomar rebites para cumprirem horários, o que os torna potencialmente homicidas na boléia;
    6) A legislação continuar retrógrada e não punir os autores como delitos do Código Penal em vez de o serem os do Código de Trânsito;
    7) As escolas não receberem uma disciplina específica de educação para o trânsito, obrigatória, com carga-horária mínima, ministradas por especialistas, com vistas a se educar os motoristas de amanhã, numa visão estratégica de futuro;
    8) Os veículos de nossa frota não forem obrigados a sair da linha de montagem com o mínimo de equipamentos obrigatórios de segurança como airbags e freios ABS (por exemplo).
    Iremos lamentar por muito tempo a perda de vidas e as lesões deformantes que vemos todas as segundas-feiras pós-feriados.

  • Presidente do TJ diz que Executivo "falseia a verdade"

    Elmar Bones

    O presidente do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, Marco Antonio Barbosa Leal, reagiu de forma agressiva às tentativas da governadora Yeda Crusius de cortar R$ 78 milhões no orçamento do Judiciário.

    Leal disse que o Executivo “falseia a verdade com o único objetivo de desmoralizar o judiciário”. E foi enfático: “Não vou tolerar isso e não quero saber se é governador ou presidente da república, ou  quem quer que seja”.

    O motivo da reação do desembargador foi o relatório entregue na quinta-feira (11) pela governadora ao Superior Tribunal Federal para justificar o corte nas verbas do Judiciário e tentar reverter a liminar que mandou o Executivo repor o valor cortado no orçamento de 2008.

    O relatório apresenta um diagnóstico da crise financeira do Estado e  inclui um quadro comparativo de despesas mostrando que o Judiciário gasta mais que o Executivo. As despesas com pessoal, por exemplo, cresceram 148% nos últimos sete anos, enquanto o aumento nos demais poderes foi pouco mais de 80%.

    No dia seguinte, em entrevista à imprensa, Yeda disse que “o Judiciário gasta muito, economiza pouco e tem uma capacidade de investimento muito superior à do Executivo”.

    Para sua resposta, Barbosa Leal convocou uma coletiva de imprensa, que reuniu cerca de 40 jornalistas, incluindo os principais colunistas e comunicadores do rádio e da televisão, na terça feira, 16 de outubro, no Palácio da Justiça.

    Ele começou ironizando o quadro que compara as despesas entre os dois poderes. “Vejo aqui que o Executivo não tem despesa com o auxílio creche…Me preocupa muito essa ausência de crianças no Executivo. Vou levar ao conhecimento da ONU”.

    Segundo Leal, os dados referentes ao Executivo, referem-se apenas à administração direta e os números foram manipulados para “jogar a opinião pública contra o Judiciário”.

    Ele voltou a insistir num acordo que teria selado com a governadora há um mês atrás, em que aceitava reduzir a verba total do Judiciário em 2008, de R$ 1,421 bilhão orçados inicialmente para R$ 1,360 bilhão. Mas no orçamento encaminhado à Assembléia logo depois, a governadora reduziu para  R$ 1,343 bilhão, mantendo o corte original de R$ 78 milhões.

    Mostrando anotações da reunião, Leal disse que a governadora não cumpriu a palavra empenhada: “Mesmo que não houvesse um documento, para um gaúcho, a palavra basta. Para o gaúcho basta o fio do bigode, e quando não tem bigode vale um aperto de mão”. E numa alusão direta ao fato de a governadora ser paulista: “Aqui a palavra vale, não é como em outros estados onde a palavra é, digamos assim, volátil”.

    Perguntado sobre o desempenho da governadora até agora, o desembargador disse que “é mau, é só crise e crise”. Disse que numa escala de um a dez, daria três para a governadora. “Está na hora de parar de falsear a verdade, de acabar com esse discurso midiático e catastrófico”.

    Leal disse que é a favor do aumento das alíquotas, mas acha que o governo em vez de pensar só em cortes deveria pensar em cobrar a dívida ativa, negociar a dívida com a união, e cortar incentivos para aumentar a receita.

    O desembargador classificou de “esdrúxulo” o projeto da governadora de formar um Fundo de Precatórios utilizando 50% dos rendimentos dos depósitos judiciais. Hoje esse rendimento, que chega a R$ 70 milhões por ano, vai integralmente para o Fundo de Reaparelhamento do Judiciário. “É o recurso que temos para construir fóruns e fazer as obras exigidas pelo crescimento dos serviços do Judiciário”.

  • Gaúcho já pagou R$ 1,3 bilhão em pedágio

    Elmar Bones

    O usuário gaúcho já desembolsou R$ 1,3 bilhão ao passar pelas sete praças de pedágio em operação no Estado, desde que foram instaladas em julho de 1998 até dezembro de 2006. O número faz parte de um levantamento que a Associação dos Usuários de Rodovias Concedidas (Assurcon) entregou à Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga distorções nos contratos de concessão de rodovias no Rio Grande do Sul.

    A maior arrecadação foi registrada na praça de Lageado, num total de R$ 338 milhões nos nove anos. O pólo metropolitano vem em segundo lugar com R$ 288 milhões e o de Caxias em terceiro com R$ 189 milhões. O maior crescimento se deu em Gramado, onde arrecadação saltou de R$ 78 mil, no ano de 1998, para R$ 12,9 milhões no ano passado.

    Os dados da receita foram obtidos junto ao Daer, segundo o secretário executivo da Assurcon/Serra, Agenor Basso. Segundo ele, as associações de usuários, que lutaram desde o início pela CPI, já consideram que ela foi “abortada” e que o relatório a ser apresentado pelo deputado Befran Rosado vai desconsiderar todas as denúncias de irregularidades apresentadas.

    “A Comissão foi tomada pelos deputados que defendem a prorrogação dos atuais contratos, não houve condições para se debater a questão. Não foram chamados para depor sequer os formuladores dos atuais contratos, que deixam a sociedade e o usuário à mercê das concessionárias”, diz Basso. A Assurcon já considera a batalha perdida. “Nós agora estamos nos mobilizando para conseguir uma CPI do Daer, nos próximos dias vamos começar a colher assinaturas”.

  • Jornalismo Ambiental

    Christian Lavich Goldschmidt, escritor e ator
    Na última quarta-feira, 10 de outubro, iniciaram-se no Salão de Atos da UFRGS, as atividades do 2º Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, tendo como tema Aquecimento Global: um desafio para todos. A abertura foi marcada muito mais pela entusiasmada participação do conferencista da noite, o cineasta inglês Adrian Cowel, do que pelo discurso pouco envolvente e convincente dos políticos presentes.
    Com um público estimado em torno de 500 pessoas e contando com jornalistas de países como Cuba, Equador, México, Panamá e Uruguai, os organizadores prestaram uma homenagem ao ecologista gaúcho Augusto Carneiro, braço direito de Lutzenberger em muitas conquistas e que do alto de seus 85 anos continua na luta em defesa do meio ambiente.
    O cineasta britânico abriu sua conferência lembrando o amigo José Lutzenberger, e citou um episódio curioso ocorrido no início da década de 80, quando viajava com o ecologista pela BR 364, no Acre: “Lutz pediu de repente pra eu parar o carro, desceu e entrou na Floresta. Depois de uns 3 minutos retornou. Quando íamos partir, ele pediu para aguardarmos uns 10 minutos. Depois da espera convidou-nos para irmos até a Floresta observar onde ele havia urinado. Chegando lá, vimos que havia muitos insetos, centenas, em sua urina. Isso provava a ausência de sal naquele ambiente”. Após a lembrança, Cowel apresentou uma síntese dos documentários realizados na Amazônia e disse ainda ter encontrado em Lutzenberger um homem corajoso, pois foi o único disposto a falar e criticar o programa de desenvolvimento na Amazônia em plena ditadura, quando o desmatamento era a política do governo.
    Amigo também de Chico Mendes, o conferencista emocionou aos presentes com imagens do seringueiro em momentos de confraternização com a família e amigos, pouco antes de sua morte. Em 1986 Chico foi o primeiro candidato a cargo político a defender a Amazônia. Em 1988 foi confirmada a primeira reserva extrativista pelo governo, por isso, segundo os fazendeiros, Chico tinha que morrer.
    Cowel deu ainda a boa notícia de que está doando todo seu acervo de 50 anos para a Universidade Católica de Goiás. São 16 toneladas de filmes, positivos e negativos, que virão ao Brasil após minuciosa catalogação, e que atualmente estão no porão de sua casa, em Londres. Em encontro com Lara Lutzenberger, Cowel informou que doou os direitos autorais do acervo da “Década da Destruição” à Universidade Católica de Goiás com a ressalva de que a Fundação Gaia deve poder veicular suas imagens sem ônus.

  • O Che que Cuba admira

    Naira Hofmeister*

    A opinião mais mortal sobre Che Guevara nas ruas de Havana soa num suave timbre. A cubana admira muito mais do que o caráter e a coragem do guerrilheiro argentino que, ao lado de Fidel Castro, derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista e implantou o socialismo na ilha caribeña. “Era muito sexy”, resume uma senhora de meia idade que tem um pôster do herói na cabeceira da cama.

    Aos homens, resta narrar as intermináveis lendas que cercam sua personalidade, invariavelmente relacionada ao altruísmo, desapego e moral exemplar. A coisa mais comum em Cuba é topar com alguém que conheceu Che Guevara.

    Dizem os “historiadores” das ruas cubanas que Che inventou ele mesmo uma espingarda quando suas armas foram tomadas pelo exército. Também são inúmeros os relatos de histórias engraçadas, todas com um profundo ensinamento moral.

    “Na Serra do Escambray, Che recebeu de presente dos camponeses uma galinha, que não dava para alimentar mais de uma pessoa. Ele estava morto de fome – assim como suas tropas e o próprio sertanejo. Che mandou cozinhar o frango e deu aos cachorros do acampamento, dizendo que nunca aceitaria comer mais do que sua tropa apenas porque tinha um grau militar”, narra Orlando, que vive próximo à cidade de Trinidad, por onde passou a Coluna 8, comandada pelo argentino. O camponês jura que viu com os próprios olhos a cena.

    “Ele encarnou o ideal de justiça social que os revolucionários pregavam. Por isso a batalha por Santa Clara durou três dias e não três meses, como previam. Sua postura estimulava muito os combatentes”, observa Jose Amadeo Brito, que lutou em 1958 ao lado de Che e hoje reúne material para um livro sobre o mítico guerrilheiro.

    Mesmo depois de sua triunfal vitória sobre o exército batistiano, Che Guevara não se rendeu ao conforto de membro do governo.

    Conrado Moreno (foto) tem hoje 87 anos e foi operador da Rádio Rebelde – criada por Che Guevara para transmitir as informações da Sierra Maestra aos demais acampamentos guerrilheiros. Também funcionava como agência internacional de notícias.

    Depois que entraram em Havana, Conrado foi falar com o comandante e pedir-lhe autorização para voltar à cidade natal, no interior. Conrado disse que não entendia o sistema de transporte – muitas linhas de ônibus, ruas grandes demais, carros por toda a parte. Che pareceu comovido e mandou que voltasse no dia seguinte.

    Quando retornou, Conrado não encontrou Che. Ele não estava, mas havia deixado um envelope que o homem imaginou ser um ofício de desligamento ou transferência. “Quando abri, retirei de dentro uma porção de mapas das ruas de Havana e todas as rotas de ônibus ativas”. Ele diz que hoje consegue rir do acontecimento, mas na época sentiu-se ofendido.

    Conhecedores relatam outra face

    Defensor clássico das teses neoliberais, o cubano Carlos Alberto Montaner, que vive fora da Ilha há quase 50 anos, tem uma visão distinta de Guevara. “Ele matou muita gente em La Cabaña”, e citou duas frases que confere ao guerrilheiro. Uma carta para a primeira esposa, Hilda Gadea, escrita na Sierra, em que diz que “está sedento de sangue”. Outra, depois do triunfo da Revolução, na qual diz que “Um bom revolucionário tem que ser uma verdadeira máquina de matar”.

    A mística em torno do guerreiro serve ao regime de Fidel Catsro, acredita Montaner. “Fidel queria de fato acabar com Che, porque ele não se subordinava a ninguém e era intelectualmente arrogante”. A importância do mártir foi a única responsável pela manutenção de sua figura no panteão dos heróis contemporâneos.

    O biógrafo de Che, Jon Lee Anderson, discorda. “Assassinato é diferente de execução”. Ele admite que a execução massiva de inimigos dos guerrilheiros, logo que tomaram o poder – e que foi comandada por Guevara desde o quartel de La Cabaña –, foi um erro. “Uma atitude imprudente, aberta à imprensa e com julgamentos à jato. Mas em termos relativos não foi uma revolução sangrenta”, avalia.

    Jon Lee defende que Che Guevara foi um homem extraordinário. “Era admirado por amigos e por inimigos”. Mas entende que há diferença entre o culto guevarista na América Latina e em outras partes do mundo. “Aqui ele simboliza os problemas que até hoje tem que ser resolvidos. No primeiro mundo, as pessoas não se enxergam mais em causa política alguma”, compara. O herói, fora de sua terra, é explorado comercialmente pela mídia, o que o torna facilmente substituível.

    E é essa face de herói que está estampada nas páginas dos jornais e outdoors da Ilha: o exemplo de Che Guevara. As manhãs de domingo em que o Ministro do Interior ou o Presidente do Banco Nacional de Cuba – depois de dar expediente de 12 horas durante seis dias da semana – trabalhar como estivador voluntário aos domingos. O guerrilheiro que dava voz de prisão a si mesmo porque tinha dormido enquanto vigiava o acampamento ou que voltou a todas as fazendas para pagar as dívidas do tempo de guerrilha, depois que tomou o poder.

    O Che que inspirou o discurso de Fidel Castro, quando a notícia de sua morte – 40 anos atrás – foi oficializada. “Se queremos um futuro melhor, que sejamos com Che”.

    Mas a brincadeira que corre solta em Havana é que a grande herança de Che Guevara ao povo cubano foi a tendência a “enforcar” o banho.

    * A repórter esteve em Havana nos meses de janeiro e fevereiro deste ano.

  • Moinhos de Ventos no buraco

    Graças às obras do Conduto Álvaro-Chaves Goethe, “canteiro de obras” é a expressão que melhor resume a condição atual das principais vias do Moinhos de Vento e oito bairros dos arredores. Atualmente, a Cristóvão Colombo e a Coronel Bordini estão com trechos interrompidos que não serão liberados antes de novembro e dezembro, respectivamente.
    O trânsito, especialmente na Marquês do Pombal – utilizada como desafogo da Cristóvão –, está caótico. Buzinas e o motor das máquinas acabam com a tranqüilidade do bairro. Além da poeira acumulada e da dificuldade de acesso a determinadas áreas cujos retornos são longos. Os pedestres são prejudicados pela redução das calçadas – que constantemente são utilizadas como “via alternativa” por motoboys apressados.
    A construção começou em 2005 e a previsão inicial para conclusão era julho deste ano, mas um desvio na Marquês do Pombal – que evitou a derrubada do recém declarado Túnel Verde – provocou um adiamento.
    O diretor de obras do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), Sérgio Zimmermann, assegura que estará pronto até o fim do ano. “A Cristóvão vai estar concluída este mês, depois, é a vez da Bordini”.
    Mas não recebe muito crédito de moradores e comerciantes da região, cansados dos transtornos que duram dois anos. Ainda assim, a maioria admite a importância da obra que deve terminar com as inundações causadas pela insuficiência da rede pluvial.
    Interrupção do trânsito e das vendas

    O uruguaio Eduardo Anqueres é o dono da pastelaria El Cuervo, inaugurada há seis meses na Cel. Bordini, e nunca recebeu clientes vindos de carro. A rua está fechada desde que a casa abriu e o uruguaio contabiliza 40% de prejuízo. “Os comerciantes e a sociedade estão reféns da incompetência da Prefeitura e da empreiteira”, ataca.
    Empreendedores da Cristóvão temem uma repetição dos transtornos do final de 2006, quando promoveram uma campanha para evitar as obras na época do Natal. Amanda, gerente da loja da Boticário da galeria Esplanada Center, conta que muitos comerciantes deixaram o empreendimento por conta da dificuldade de acesso, barulho e poeira que todos os dias afastam os clientes.
    Buraco na Bordini completou um ano em agosto
    Uma cratera e uma tela laranja é o que Humberto Carvalho enxerga a cada vez que sai de seu prédio, na Cel. Bordini. A obra parou ali para não trancar a Marquês do Pombal enquanto a Cristóvão não fica pronta. A demora gerou um protesto em agosto, quando o buraco completou um ano.
    A principal reclamação é a retirada da calçada, que custou caro aos moradores. “Quero ver se vão botar de volta ou se só vão jogar cimento”, explica.
    Com a chegada do calor, a preocupação deve aumentar porque a água acumulada no buraco pode causar a proliferação da dengue.
    O diretor do DEP explica que todas as calçadas serão arrumadas, mas que as que eram feitas de pedras específicas serão refeitas com basalto, como determina a Legislação de Porto Alegre. (Reportagem de Alexandre Haubrich)