Completando 18 anos, feira ecológica se emancipa

Ecologistas e produtores criaram a primeira feira de produtos orgânicos (Fotos: Tânia Meinerz/JÁ)

Helen Lopes

A Feira de Agricultores Ecologistas (FAE), que acontece todos os sábados na avenida José Bonifácio, completa 18 anos na terça-feira, 16 de outubro. Enquanto organizam as comemorações, produtores estão criando uma associação própria para gerenciar o tradicional mercado de orgânicos.

A iniciativa tem origem na gradual extinção da pioneira Cooperativa Ecológica Coolméia, que chegou a ter 2 mil associados, mas que fechou as portas no ano passado por problemas administrativos e diversas dívidas.

A FAE surgiu em 1989, onze anos depois de a Coolméia ter sido fundada por vegetarianos que buscavam suprir suas necessidades de alimentação, mas não encontravam verduras e legumes sem agrotóxicos. Numa época em que a palavra sustentabilidade tinha pouco espaço no cotidiano,  a união entre consumidores e agricultores deu origem à primeira feira orgânica do Brasil.

Um projeto inovador, que impulsionou a produção nessa modalidade em todo Estado e deu origem ao que hoje é o maior evento ecológico de Porto Alegre. A feira possui 48 bancas, envolve mais de 100 famílias de pequenos agricultores do Rio Grande do Sul e recebe um público estimado de 5 mil pessoas por dia. É também um ponto de encontro de ambientalistas e simpatizantes da defesa aos recursos naturais. 

Ponto de encontro ecológico

Mais de cinco mil pessoas circulam pela feira ecológica da José Bonifácio nas manhãs de sábado, segundo cálculos da Prefeitura. Além de comércio de alimentos, a feira é um ponto de encontro dos ecologistas, estudantes ou de quem apenas busca alimentos livres de agrotóxicos. “Já sabemos mais ou menos o horário que cada um vem”, brinca a fotógrafa Irene Santos, moradora da Vasco da Gama.

Nas rodinhas, há troca de receitas, dicas sobre cultivo ecológico, articulação dos ativistas ou simplesmente um bate-papo informal. Para o engenheiro José Vilhena, os encontros acontecem de forma natural porque as pessoas compartilham a doutrina ecológica. Vilhena observa que nestes 18 anos, os agricultores aprimoraram as técnicas de cultivo. “Os produtos estão mais diversificados e com melhor aparência”, atesta o engenheiro.

Além de aperfeiçoar o cultivo, os agricultores também resgataram plantas e alimentos desprezados, como Beldoegra, Dente de leão, Serralha, entre outros, que eram vistos como inços, mas que podem ser usados em chás ou pratos. Outro exemplo são as folhas de beterraba, muitas vezes levadas direto à lata do lixo, mas que possuem grande valor nutritivo. “Isso faz parte da visão da feira: aproveitar integralmente os alimentos”, ensina a nutricionista Hertha Wiener (foto).

Até a fama de careira, aos poucos, é superada. “É como se fosse um valor agregado”, analisa a dona de casa Fernanda Alves, que todos os sábados vem da Zona Norte ao Bom Fim. Segundo os organizadores, o atual desafio da feira é consolidar as atividades de conscientização, como, por exemplo, a diminuição do uso de plástico. Para atingir esse objetivo, eles realizam campanhas regulares pela substituição das sacolas e dos copos plásticos. 

Raízes

A primeira feira sustentável do Brasil surgiu da necessidade dos associados da Cooperativa Coolméia de encontrar alimentos livres de agrotóxicos. “Pensamos até num sítio”, recorda Hertha.

Primeiro, os ecologistas fizeram uma fruteira na sede da cooperativa, depois organizaram eventos anuais de três dias na Redenção, chamado Tupambaé, que mesclava comércio de alimentos, aulas de reciclagem e terapias alternativas. Para a engenheira agrônoma Glaci Campos Alves, uma das precursoras, a feira foi resultado do nível de consciência ecológica que propiciava o contexto histórico.

De fato, o debate sobre a utilização de químicos cresceu na década de 80, quando se criou a lei dos agrotóxicos. Com o apoio do movimento ambientalista, Pastoral da Terra e MST, aos poucos os pequenos agricultores foram se somando. “Já se produzia sem veneno, mas havia dificuldade para vender”, conta Pedro Lovato (foto), um dos primeiros a aderir.

Produtor de frutas em Farroupilha, Lovato avalia que nestes 18 anos a feira viabilizou a permanência de muitos pequenos agricultores na terra. Ele mesmo é um exemplo: fazia entrega a domicilio porque não conseguia local para comercializar sua produção.  “Com a feira, pude ficar na terra e ainda me sinto realizado porque vi muitas pessoas crescerem com alimentos livre de agrotóxicos”.

O propagandista

O livreiro ecologista Augusto Carneiro, de 84 anos, mostra as fotos das primeiras edições da feira, que ele ajudou a fundar. Contemporâneo de José Lutzenberger, hoje ele expõe livros e cartilhas sobre meio ambiente. “Minha função é fazer propaganda da ecologia”, diz. Ao lado de Carneiro, a nutricionista Hertha Wiener, também na casa dos 80, é um símbolo da feira e ainda hoje promove degustação de receitas alternativas e presta orientação nutricional de forma gratuita numa banca montada pela organização.

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