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  • POR QUE OS JORNALISTAS ESTÃO ADOECENDO MAIS

    Por Elaine Tavares*
    O psicólogo, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, Roberto Heloani, conseguiu levantar um perfil devastador sobre como vivem os jornalistas e por que adoecem.
    O trabalho ouviu dezenas de profissionais de São Paulo e Rio de Janeiro, a partir do método de pesquisa quantitativo e qualitativo, envolvendo profissionais de rádio, TV, impresso e assessorias de imprensa.
    E, apesar da amostragem envolver apenas dois estados brasileiros, o relato imediatamente foi assumido pelos delegados ao Congresso de Santa Catarina – que aconteceu de 23 a 25 de julho – evidenciando assim que esta é uma situação que se expressa em todo o país.
    Segundo Heloani a mídia é um setor que transforma o imaginário popular, cria mitos e consolida inverdades. Uma delas diz respeito à própria visão do que seja o jornalista.
    Quem vê a televisão, por exemplo, pode criar a imagem deformada de que a vida do jornalista é de puro glamour.
    A pesquisa de Roberto tira o véu que encobre essa realidade e revela um drama digno de Shakespeare. Deixa claro que, assim como a absoluta maioria é completamente apaixonada pelo que faz, ao mesmo tempo está em sofrimento pelo que faz, o que na prática quer dizer que, amando o jornalismo eles não se sentem fazendo esse jornalismo que amam, sendo obrigados a realizarem outra coisa, a qual odeiam. Daí a doença!
    Um dado interessante da pesquisa é que a maioria do pessoal que trabalha no jornalismo é formada por mulheres e, entre elas, a maioria é solteira, pelo simples fato de que é muito difícil encontrar um parceiro que consiga compreender o ritmo e os horários da profissão.
    Nesse caso, a solidão e a frustração acerca de uma relação amorosa bem sucedida também viram foco de doença.
    Heloani percebeu que as empresas de comunicação atualmente tendem a contratar pessoas mais jovens, provocando uma guerra entre gerações dentro das empresas.
    Como os mais velhos não tem mais saúde para acompanhar o ritmo frenético imposto pelo capital, os patrões apostam nos jovens, que ainda tem saúde e são completamente despolitizados. Porque estão começando e querem mostrar trabalho, eles aceitam tudo e, de quebra, não gostam de política ou sindicato, o que provoca o enfraquecimento da entidade de luta dos trabalhadores. “Os patrões adoram, porque eles não dão trabalho”.
    Outro elemento importante desta “jovialização” da profissão é o desaparecimento gradual do jornalismo investigativo. Como os jornalistas são muito jovens, eles não tem toda uma bagagem de conhecimento e experiência para adentrar por estas veredas.
    Isso aparece também no fato de que a procura por universidades tradicionais caiu muito. USP, Metodista ou Cásper Líbero (no caso de São Paulo) perdem feio para as “uni”, que são as dezenas de faculdades privadas que assomam pelo país afora. “É uma formação muitas vezes sem qualidade, o que aumenta a falta de senso crítico do jornalista e o torna mais propenso a ser manipulado”.
    Assim, os jovens vão chegando, criando aversão pelos “velhos”, fazendo mil e uma funções e afundando a profissão.
    Um exemplo disso é o aumento da multifunção entre os jornalistas mais novos. Eles acabam naturalizando a idéia de que podem fazer tudo, filmar, dirigir, iluminar, escrever, editar, blogar etc…
    A jornada de trabalho, que pela lei seria de 5 horas, nos dois estados pesquisados não é menos que 12 horas. Há um excesso vertiginoso.
    Para os mais velhos, além da cobrança diária por “atualização e flexibilidade” há sempre o estresse gerado pelo medo de perder o emprego. Conforme a pesquisa, os jornalistas estão sempre envolvidos com uma espécie de “plano B”, o que pode causa muitos danos a saúde física e mental.
    Não é sem razão que a maioria dos entrevistados não ultrapasse a barreira dos 20 anos na profissão. “Eles fatalmente adoecem, não agüentam”.
    O assédio moral que toda essa situação causa não é pouca coisa. Colocados diante da agilidade dos novos tempos, da necessidade da multifunção, de fazer milhares de cursos, de realizar tantas funções, as pessoas reprimem emoções demais, que acabam explodindo no corpo. “Se há uma profissão que abraçou mesmo essa idéia de multifunção foi o jornalismo. E aí, o colega vira adversário. A redação vive uma espécie de terrorismo às avessas”.
    Conforme Heloani, esta estratégia patronal de exigir que todos saibam um pouco de tudo nada mais é do que a proposta bem clara de que todos são absolutamente substituíveis. A partir daí o profissional vive um medo constante, se qualquer um pode fazer o que ele faz, ele pode ser demitido a qualquer momento. “Por isso os problemas de ordem cardiovascular são muito frequentes.
    Hoje, Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs) e o fenômeno da morte súbita começam a aparecer de forma assustadora, além da sistemática dependência química”.
    O trabalho realizado por Roberto Heloani verificou que nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro 93% dos jornalistas já não tem carteira assinada ou contrato. Isso é outra fonte de estresse.
    Não bastasse a insegurança laboral, o trabalhador ainda é deixado sozinho em situações de risco nas investigações e até na questão judicial. Premidos por toda essa gama de dificuldades os jornalistas não tem tempo para a família, não conseguem ler, não se dedicam ao lazer, não fazem atividades físicas, não ficam com os filhos. Com este cenário, a doença é conseqüência natural.
    O jornalista ganha muito mal, vive submetido a um ambiente competitivo ao extremo, diante de uma cotidiana falta de estrutura e ainda precisa se equilibrar na corda bamba das relações de poder dos veículos.
    No mais das vezes estes trabalhadores não tem vida pessoal e toda a sua interação social só se realiza no trabalho.
    Segundo Heloani, 80% dos profissionais pesquisados tem estresse e 24,4% estão na fase da exaustão, o que significa que de cada quatro jornalistas, um está prestes a ter de ser internado num hospital por conta da carga emocional e física causada pelo trabalho.
    Doenças como síndrome do pânico, angústia, depressão são recorrentes e há os que até pensam em suicídio para fugir desta tortura, situação mais comum entre os homens.
    O resultado deste quadro aterrador, ao ser apresentado aos jornalistas, levou a uma conclusão óbvia. As saídas que os jornalistas encontram para enfrentar seus terrores já não podem mais ser individuais. Elas não dão conta, são insuficientes.
    Para Heloani, mesmo entre os jovens, que se acham indestrutíveis, já se pode notar uma mudança de comportamento na medida em que também vão adoecendo por conta das pressões. “As saídas coletivas são as únicas que podem ter alguma eficácia”, diz Roberto.
    Quanto a isso, o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Rubens Lunge, não tem dúvidas. “É só amparado pelo sindicato, em ações coletivas, que os jornalistas encontrarão forças para mudar esse quadro”.
    Rubens conta da emoção vivida por uma jornalista na cidade de Sombrio, no interior do estado, quando, depois de várias denúncias sobre sobrecarga de trabalho, ele apareceu para verificar. “Ela chorava e dizia, `não acredito que o sindicato veio´. Pois o sindicato foi e sempre irá, porque só juntos podemos mudar tudo isso”. Rubens anda lembra dos famosos pescoções, praticados por jornais de Santa Catarina, que levam os trabalhadores a se internarem nas empresas por quase dois dias, sem poder ver os filhos, submetidos a pressão, sem dormir. “Isso sem contar as fraudes, como a de alguns jornais catarinenses, que não tem qualquer empregado. Todos são transformados em sócios-cotistas. Assim, ou se matam de trabalhar, ou não recebem um tostão”.
    *Jornalista

  • NA OUTRA MARGEM DO GUAÍBA…

    O engenheiro Hermes Vargas postou em seu blog http://hidroviasinteriores.blog spot.com/ informações sobre o projeto “Ponta da Figueira Marina”, do consórcio Merlick-Sens, nas margens do Guaiba no Saco de Santa Cruz. São informações importantes, que não estão disponíveis na mídia convencional.
    ”O projeto de empreendimento imobiliário da Melnick/Sens está localizado no município de Eldorado do Sul, na Estrada do Conde, e visa a implantação de um condomínio de luxo numa área de 73,83 hectares nas margens do Rio Guaíba (Saco de Santa Cruz). Além da abertura das margens, com desvio das águas do Rio Guaíba para o interior do condomínio, onde serão abertos diversos canais artificiais, o empreendimento implica a abertura de um extenso canal de navegação privado no Saco de Santa Cruz”.

  • Portais da Cidade: pesquisa recomenda troca do nome

    A rede de transporte coletivo planejada para Porto Alegre, batizada de “Portais da Cidade”, pode trocar de nome.
    Os técnicos, desde o início, consideram o nome inadequado, porque não dá a idéia de mobilidade.
    Agora uma pesquisa com formadores de opinião indicou que os usuários não fazem relação da palavra “portal” com transporte coletivo, mas com turismo e até Internet.
    A troca do nome, ainda à espera de decisão política, não altera a essência do projeto.
    O modelo está em discussão desde 2005 e foi consagrado e ampliado nas decisões sobre a Copa de 2014. É o BRT (Bus Rapid Transit), a rede de vias expressas para ônibus.
    O sistema BRT, que pode ser traduzido como Transporte Rápido por Ônibus, foi desenvolvido originalmente em Curitiba, durante a gestão do prefeito Jaime Lerner.
    Hoje é consagrado internacionalmente como alternativa mais barata, mais versátil e mais eficiente do que o metrô para cidades de porte médio. É o metrô sobre rodas.
    Está implantado em mais de uma centena de cidades em todo o mundo.
    O sistema de Porto Alegre está na fase inicial do planejamento.
    Por enquanto saiu dinheiro apenas para desenvolvimento do projeto, 1 milhão de dólares financiados pela Corporação Andina de Fomento, uma fundação que investe em projetos de sustentabilidade.
    A empresa Rogitrans, do Paraná, já está contratada para detalhar o projeto operacional, que é a base de todos os outros. Já estão trabalhando também a Profill, nas questões de meio ambiente, e a Pública, para comunicação e marqueting. Foi a Pública que fez a pesquisa sobre o nome.
    A grande indefinição no projeto ainda é o centro da cidade. A idéia inicial, que deu nome ao projeto, de três grandes portais de transbordo no entorno do centro, está questionada, junto com o nome. Pergunta-se: como as linhas de ônibus vão cruzar o centro?.
    Abrir ao tráfego na Esquina Democrática (cruzamento da avenida Borges de Medeiros com a rua da Praia)?. Vai se estabelecer um sistema binário com a Marechal Floriano, ou uma linha que contorne o centro da rodoviária até o Gasômetro?
    São perguntas ainda sem resposta.
    O projeto é bastante complexo. Envolve as prefeituras de toda a região metropolitana, as empresas de transporte de passageiros, toda uma legislação a ser criada para permitir a integração com o sistema metropolitano.
    O custo de implantação dos sete corredores expressos* (alguns adaptações a penas) com os novos ônibus articulados e os pontos de integração, chega a 210 milhões de dólares. Essa Corporação Andina de Fomento, entra com 100 milhões de dólares. O restante vem de empréstimos da prefeitura junto à Caixa Econômica Federal.
    * Sertório, Farrapos, Centro, Zona Sul,
    Assis Brasil, Protasio Alves e Bento Gonçalves.

  • Procuradores repudiam declaração de Pompeo

    A Associação Nacional dos Procuradores da República divulgou uma nota à imprensa agora à tarde, depois da acusação de Pompeo de Mattos, candidato a vice-governador na chapa de Fogaça, de que estaria sendo “perseguido” politicamente, por ter sido enquadrado no Ficha Limpa pelo procurador regional eleitoral Carlos Augusto Cazarré. Abaixo, a íntegra da nota:
    A Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) vem a público defender a atuação de seu associado Carlos Augusto Cazarré, Procurador Regional Eleitoral no Rio Grande do Sul, das ofensas contra si divulgadas em veículos de comunicação daquele estado.
    O Ministério Público Eleitoral nada mais fez do que postular ao Poder Judiciário o cumprimento da Lei Complementar nº. 135/10, conhecida como “Ficha Limpa”, para impor aos candidatos cláusulas objetivas de inelegibilidade. Este procedimento tem sido sistematicamente adotado pelos Procuradores da República que atuam no ofício eleitoral em todo o País, em todas as instâncias da Justiça Eleitoral, inclusive o TSE.
    A Associação Nacional dos Procuradores da República repudia declaração que atribui à Procuradoria Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul o uso político dos instrumentos processuais. Para a ANPR, o debate sobre quaisquer ações judiciais deve pautar-se nas leis e nas interpretações delas decorrentes, em clima de respeito e urbanidade.
    Os Procuradores da República que atuam no ofício do Ministério Público Eleitoral cumprem a relevante missão de garantir a lisura do processo eleitoral, na defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.
    Antonio Carlos Alpino Bigonha
    Presidente da ANPR

  • Schröder eleito presidente da Fenaj

    Celso Augusto Schröder, professor da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS (Famecos), foi eleito presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Schröder, que já era 1º vice-presidente da Federação, dirigirá a instituição nos próximos três anos.

  • No Divã do doutor Mariante

    Numa manhã de agosto, um tiro no coração mata o presidente do país.
    O peso do inconsciente nas decisões pessoais e políticas, a coerência da trajetória do suicida, estão no livro Três no Divã, que o psicanalista João Gomes Mariante autografa hoje, a partir das 19 horas, no auditório da Guarida Imóveis (rua Sete de Setembro, 1087).
    Mariante observa, com a lente da psicanálise, o comportamento e os processos mentais inconscientes nas personalidades de três importantes políticos: Getulio Vargas, Oswaldo Aranha e Flores da Cunha. Três homens com os quais conviveu.
    Abaixo, entrevista do autor ao editor Elmar Bones, publicada na edição de abril do JÁ Bom Fim.

    João Mariante, 92 anos de idade, 60 de Pasicanálise
    João Mariante, 92 anos de idade, 60 de Psicanálise

    Entrevista: João Gomes Mariante

    -O senhor é um porto alegrense da gema…
    -Nasci na rua Mariante com a Castro Alves. Mas toda minha formação até o ginásio foi no Rio, no Colégio Pedro II. Depois fiz Medicina em Niterói, me formei na turma de 1946. Era o único gaúcho, em meio a muitos paulistas, cariocas e nordestinos…
    -Sua familia foi para o Rio, é isso?
    -Não.Fui sozinho, para estudar. Lá casei e fiquei mais de 20 anos. Depois voltei para o Rio Grande, depois retornei ao Rio, onde me especializei na psiquiatria. De lá fui para Buenos Aires onde morei oito anos. Terminei minha formação psicanalítica lá e retornei para São Paulo, onde trabalhei por 26 anos. Fui professor na Faculdade de Ciências Médicas e várias instituições de São Paulo.
    -E sua experiência como jornalista?
    -Trabalhei em jornais no Rio, onde conheci o Café Filho, de quem fui assessor mais tarde. Dirigi três revistas médicas em São Paulo. “Medicina Social”, “Imprensa Médica e “Anais de Higiene Mental”. Peguei o virus. Dizem que jornal é uma cachaça…É pior que o crack, não se larga mais.
    -Por que o livro Três no Divã?
    -Quis conciliar essas duas experiência, da psicanálise com o jornalismo. Os três personagens do livro eu conheci pessoalmente, privei com os três…
    Aranha, GV,Mariante
    -Tem uma foto sua com Getúlio e Oswaldo…
    -Aquilo foi num churrasco. Vou explicar. O dr. Armando Alencar, então presidente do Superior Tribunal Federal era gaúcho de Rio Pardo, era meu padrinho de casamento. Eu me dava muito com ele, com os filhos dele. O dr. Armando a cada três ou quatro meses convidava o Getulio para um churrasco, e eu era hóspede permanente, passava os fins de semana no sítio dele em Itaipava. Aí fiz conhecimento com o Getúlio…
    -Falava com ele?
    -Sim, sim. Tinha até uma foto aí com ele, tomando o chimarrão, eu estava alcançando a cuia para ele. Era um painel, queimou no incêndio que destruiu meu consultório…
    -Incêndio, como foi?
    -Perdi quase tudo o que eu tinha. Estava no apartamento em que morava na Anita Garibaldi, fui avisado pela Regina Flores da Cunha, mas ela demorou para me encontrar. Quando vim para cá, isso estava um metro de lodo e cinza, os bombeiros também demoraram muito por causa do trânsito, mas quando cheguei já haviam apagado. Mas nada se salvou, um quadro do Portinari, um bom dinheiro que eu tinha guardado, de umas terras que vendi… Já tinha alugado uma caixa num banco, mas deixei para o dia seguinte, estava muito cansado, fui para casa… aconteceu. Faz oito anos, mas ainda estou pagando as dívidas…
    -Porque o senhor voltou para Porto Alegre?
    -Tinha uma herança para receber aqui, no fim terminei indo mal, não gosto nem de falar nisso…
    -Seguiu, então, trabalhando aqui?
    -Sim, em um mês que havia chegado não tinha mais horário. Analisei muita gente: reitor de universidade, professores, juizes, desembargadores…
    -Como o senhor conheceu o Oswaldo Aranha?
    -Fui colega do filho dele no quartel, servimos no Forte Copacabana, nos tornamos muito amigos. Quando voltei para o Rio Grande, logo depois de formado, o Oswaldo Aranha me vendeu um jipe, vendeu por uma bagatela, só para não dizer que tinha me dado. Botei um reboque no jipe, coloquei minha mudança dentro e vim. Naquele tempo praticamente não tinha estrada, levei oito dias, em muitos trechos tinha que descer para retirar os galhos da estrada.
    -Veio para Porto Alegre?
    -Não, para Porto Mariante, terra da minha familia. Lá comecei. Tinha uma clínica, fazia de tudo: clinica geral, pediatria, quando via que não dava, levava para o hospital em Taquari ou Venâncio Aires…
    -E o Flores, conheceu como?
    -Conheci quando ele era deputado federal. Eu estava de volta ao Rio fazendo minha especialização, morava no mesmo hotel em que ele ficava. Um dia no elevador eu o cumprimentei. Ele disse: “Pelo jeito, tu és do Rio Grande”. Perguntou o que eu fazia no Rio, quando disse que era médico ele falou: Então vou te pedir para me fazer umas injeções na veia”. Aí, eu ia todos os dias ao quarto dele fazer a injeção. Fizemos amizade, ele me deu um revólver de presente.
    -Ele era falante…
    -Mas não se abria muito, não…
    -E o suicídio do Getulio? Chegaram a dizer que foi assassinato…
    -Isso é mito, lenda. Queriam culpar alguém. Foi suicídio. O suicida não se mata, ele mata alguém dentro dele. Quem ele quis matar? seus inimigos da UDN, o Carlos Lacerda, as multinacionais…
    -De qualquer forma, a morte dele é um enigma…
    -Ele sempre se moveu entre enigmas. O mito é algo que ninguém viu. É eterno e perene. O herói é perene, mas não é eterno. O mito é eterno, Getulio se mitificou para a eternidade…
    -Mas as verdadeiras causas…
    -Muitas dessas coisas são inconscientes. Não se pode provar nada nessa área. Tem que trabalhar com hipóteses e a hipótese para ter alguma validade tem que ser um pouco arrojada…
    -O senhor estava no Rio quando ele se matou?
    -Sim. Fui ao Catete quando correu a notícia, quando cheguei ninguém sabia direito o que tinha acontecido. O Euclides Aranha já estava lá e disse: “Senta aí, o presidente está morto”. Na familia ninguém acreditava que ele fosse se matar…
    -Mas ele tinha tendências suicidas?
    -Eu mostro no livro que ele sempre foi um suicida em potencial. Tem uma cena na noite em que foi deflagrada a Revolução de 30. Era uma correria danada, todo mundo agitado. A esposa do Osvaldo Aranha, dona Vindinha, contava que entrou no gabinete, o Getulio estava sentado, alisando um gato no seu colo. Ela perguntou o que ele pensava em fazer, ele tirou o revolver da cintura mostrou e continuou alisando o gato…Ele já estava sinalizando: em último caso tinha uma bala…
    -Ele era realmente um manipulador?
    -Ele era frio, gelado, tudo era estudado, falso, até o riso imotivado. Ele ria por qualquer coisa. Sempre foi mais preocupado com a tradição, a posteridade, do que com a própria vida. Se poderia dizer que ele amou mais a morte do que a vida.
    -Ele amava o poder…
    -Sabe qual era a biblia dele? O Principe, do Machiavel. Mas tinha influências do positivismo de Augusto Comte, seguia a cartilha castilhista-borgista. Nesse livro, não tive preocupação com a parte histórica, tanto que quase não cito datas. O objetivo era fazer um estudo profundo da personalidade de cada um, algo que ninguém fez até hoje…
    -O que o senhor constata, por exemplo?
    -A hipomania do Oswaldo Aranha. É uma manifestação branda do que hoje se chama de sindrome bipolar… O Flores tinha surtos epileptiformes, não quer dizer que fosse epilético, tinha rajadas epilépticas. Aquela investida dele no combate do Ibirapuitã, enfrentando de peito aberto a metralhadora, é sintomática. É um comportamento suicida…É inconsciente, porque a reação consciente é sempre de defesa, de preservação.
    -É a coisa do heroísmo…
    -O aspirante à heroicidade prefere morrer como herói do que viver como um cidadão comum… Erico Veríssimo diz no Retrato: “Cambará macho não morre na cama”.
    -Pode-se dizer que o senhor é um freudiano?
    -Eu sou um kleiniano (de Melanie Klein), mas não desprezo o Freud. Não há nada na psicanálise que Freud não tenha abordado, às vezes com outras palavras, mas nada escapa dele.

  • Panacéia reformista

    Vilson Antonio Romero (*)
    Panacéia era uma deusa da mitologia greco-romana, filha de Esculápio (ou Asclépio), o deus da medicina. Panacéia representava a cura e uma de suas irmãs era Higia, a deusa da boa saúde. Os três – pai e duas filhas – são citados no juramento de Hipócrates, feito pelos médicos na formatura – “Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas…”
    Atualizando o significado, panacéia significa um “remédio para todos os males” e é usada em sentidos diversos da medicina.
    A proximidade das urnas incentiva a elocubração e a panacéia reformista.
    No Brasil, falar em reformas virou chavão repetitivo e desgastado que recrudesce em cada momento onde se pretenda repensar o Estado nacional, em especial nos momentos e debates pré-eleitorais.
    O cenário atual em nada distoa disto, pois os programas de governo estão sendo elaborados e como diz o professor José Pastore: “Ano eleitoral é sempre tempo de muito ilusionismo. Promete-se tudo o que os eleitores querem ouvir”.
    É óbvio que, com a faixa presidencial no peito e a caneta na mão, os novos mandatários, a cada início de governo apresentam suas “inovadoras” propostas, algumas tão requentadas que até o mais humilde e desinformado cidadão afirma que “este filme já vi”.
    Há inúmeras pressões partidárias, além das oriundas dos financiadores de campanha que sempre exigem comprometimento com algumas teses, auscultadas entre seus segmentos.
    O cardápio reformista é amplo. A reforma trabalhista, defendida por 55% de entrevistados em pesquisa recente da consultoria MCI, é entendida como essencial “para o progresso do Brasil”. Com a aplicação de diversas medidas, pretende-se reduzir o custo da contratação de mão-de-obra.
    O que não se sabe ainda se às custas da queda de contribuições e tributos incidentes sobre a folha de salários (o que dificilmente encontrará guarida nos guardiões dos cofres públicos) ou do corte de direitos e vantagens dos trabalhadores (o que revoltará as centrais sindicais e os trabalhadores em geral).
    Na alardeada reforma do paquiderme tributário nacional, cantada em prosa e verso há algumas décadas, uma das propostas mais singelas pretende a redução de um ponto percentual da carga tributária ao ano, até chegar ao patamar de 30% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas há diversos outros projetos que passam pelo Imposto sobre Valor Agregado, unificação de impostos, etc. A briga maior é entre os entes federativos (União, Estados, Municípios), temerosos de perder substância arrecadatória.
    Na reforma previdenciária, com mais apelo midiático, já começam a aumentar os alardes de rombos e insuficiências financeiras dos sistemas de aposentadoria e pensão de trabalhadores privados e públicos. Enquanto que para estes pretendem estabelecer uma idade mínima, sem que haja consenso sobre qual patamar etário, para aqueles a complementariedade por ocasião do jubilamento segue em pauta.
    No leque, ainda se fala em reforma fiscal, sindical, agrária. E por aí vai a panacéia reformista, como se com todas estas mudanças a vida dos cidadãos em geral possa ser modificada e melhorada. Muito pelo contrário, a maioria das mudanças em debate é sempre restritiva, redutora de direitos e vantagens ao trabalhador, à trabalhadora e à sociedade em geral. Na hora de votar temos que refletir sobre isto. O momento se aproxima.
    ………………….
    (*) jornalista, auditor fiscal da RFB, diretor de Direitos Sociais e Imprensa Livre da Associação Riograndense de Imprensa, da Fundação Anfip de Estudos da Seguridade Social e presidente do Sindifisco Nacional em Porto Alegre. vilsonromero@yahoo.com.br – 51-91992266

  • CCCEV mostra obras de Danúbio Gonçalves

    A elaboração do charque, os árduos afazeres dos mineiros de Butiá, o balonismo, a beleza da natureza campeira. Estes e outros temas integram a exposição “Aos Grandes Mestres – Danúbio Gonçalves”, em cartaz no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo a partir desta 3ª, 28/7.
    O pintor, desenhista e gravador bageense Danúbio Gonçalves é um dos mais importantes artistas plásticos do país. A mostra, que ficará na Sala O Arquipélago até 28 de agosto, reune 62 quadros nas técnicas de pintura a óleo, desenho a lápis, xilogravura, litogravura e aquarela.
    Obras em acrílico sobre tela do artista passaram pelo Centro Cultural em 2008, na mostra Balonismo II, tema que desperta entusiasmo no pintor, que, desde 1997, participa dos festivais de balonismo que acontecem em Torres. Nesta oportunidade, o público irá conferir, além dos trabalhos acerca deste esporte aéreo praticado com um balão de ar quente, as séries Charqueadas e Mineiros de Butiá, que consistem em xilogravuras; Marrocos, de litografias; Temas Campeiros, com temática sobre a vivência do artista nas estâncias da região da Campanha, Figuras Femininas e Retratos – série que engloba até uma pintura do escritor alagoano Graciliano Ramos, datada de 1951.
    A curadora Ediolanda Liedke idealizou a mostra com base nas filmagens para o documentário Danúbio Quadro a Quadro, dirigido pelo cineasta Henrique de Freitas Lima. A vida e a obra do artista são apresentadas, portanto, em linguagem semelhante ao filme.
    “A série Charqueadas passou para a posteridade como o único documento sobre os processos de elaboração do charque. Por conta dela, inserida na categoria de arte social, Danúbio recebeu o Prêmio Viagem ao País, concedido durante o 2° Salão de Arte Moderna do Rio de Janeiro“, conta Ediolanda. Com duração de oito minutos, o trailer do documentário de Freitas Lima será projetado constantemente na sala O Arquipélago, como complemento da exposição.
    Estará disponível, ainda, um caderno de Danúbio com desenhos de observação das viúvas e pescadores da vila portuguesa de Nazaré. “Na vida de Danúbio, estes cadernos substituem a utilização da máquina fotográfica. Folheá-los é fascinante e um privilégio”, acrescenta a curadora da exposição. Henrique antecipa que, próximo ao encerramento da exposição, em data ainda a ser confirmada, o documentário sobre a trajetória do pintor será exibido publicamente pela primeira vez no auditório do CCCEV.
    “As filmagens ocorreram em Porto Alegre, Bagé e na Cidade do México, onde Danúbio conviveu, in loco, com o legado de artistas como Leopoldo Mendez, Diego Rivera e David Siqueiros, que influenciaram fortemente não apenas a sua obra, mas também a de outros artistas de sua geração, como Carlos Scliar, Glênio Bianchetti e Vasco Prado”, comenta Freitas Lima.
    Com apoio do Fundo de Apoio à Cultura de Porto Alegre (Fumproarte), o documentário sobre Danúbio Gonçalves é o primeiro episódio da Série Grandes Mestres.
    “Aos Grandes Mestres – Danúbio Gonçalves” é uma realização do projeto Arte SESC – Cultura por Toda a Parte, que conta com a parceria da Freitas Lima Consultores Associados e do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo.
    Porto Alegre é a quinta cidade gaúcha que irá receber a exposição. O horário de visitação, no CCCEV, será de terças a sextas-feiras, das 10h às 19h, e aos sábados, das 11h às 18h, com entrada franca.
    Sobre Danúbio
    Nascido em 1925, Danúbio se mudou para o Rio de Janeiro aos dez anos de idade, onde permaneceu por 14 anos. Ao longo de sua carreira, visitou países do bloco comunista, rejeitou a Bienal de São Paulo e o abstracionismo, defendendo uma arte regional, de cunho social, próxima ao Realismo Socialista. Em 1943, estudou com Cândido Portinari e fez cursos de gravura em metal, com Carlos Oswald, e de xilogravura, com Axl Leskoschek, importantes gravadores residentes na capital fluminense.
    Sob a orientação de Portinari, desenhou modelo vivo com artistas como Iberê Camargo e freqüentou o atelier do paisagista e pintor Roberto Burle Marx e do escultor August Zamoyski, além de ter estudado na Sociedade Brasileira de Belas Artes. No seu retorno a Bagé, conheceu Glauco Rodrigues e Enio Bianchetti e, com eles, fundou o Clube de Gravura de Bagé. Em 1950, viajou a Paris, onde estudou na Academie Julian.
    Na volta ao Brasil, em 1951, participou, em Porto Alegre, do Clube Amigos da Gravura, fundado por Carlos Scliar e Vasco Prado. Até 1969, Danúbio dedica-se ao mosaico, assinando obras em painéis na Igreja de São Roque, em Bento Gonçalves, no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, junto ao túmulo do padre Reus, em São Leopoldo, e na igreja de São Sebastião, em Porto Alegre.
    Danúbio foi professor de gravura do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio de Grande do Sul (UFRGS) e diretor do Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Entre 70 e 78, ministrou palestras e cursos de xilogravura, litografia, desenho e pintura no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
    Em 1992 recebeu o Título Honorífico de Cidadão Emérito de Porto Alegre, concedido pela Câmara Municipal de Vereadores. No mesmo ano, ilustra Perótica, portfólio com poesias de Luís Coronel e, em 1995, publica Do Conteúdo à Pós-Vanguarda, editado pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre.
    A obra de Danúbio Gonçalves está presente em diversas coleções particulares e acervos referenciais, a exemplo do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli, do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e da Pinacoteca do Estado de São Paulo e do Museu de Arte Moderna de São Paulo, entre outros.
    SERVIÇO
    O que: Aos Grandes Mestres – Danúbio Gonçalves
    Quando: de 28 de julho, a partir das 10h, a 28 de agosto
    Onde: Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, na Rua dos
    Andradas, 1223, Centro Histórico.
    Quanto: entrada franca.
    Realização: SESC-RS, com apoio de Freitas Lima Consultores Associados e Centro Cultural CEEE Erico Verissimo.

  • Biodiversidade em palestra

    Hoje, 21/7, das 18h as 19h30, acontece a primeira palestra do ciclo O Uso Sustentável da Biodiversidade, no Museu da UFRGS (Av Osvaldo Aranha, 277), com entrada franca.
    A promoção é do Instituto Curicara (curicara.org.br), do Museu e do Centro de Ecologia da UFRGS. Mais informações pelos telefones 3308-3390 ou 3308-4022.

  • SMOV diz que reforma do tunel começa em agosto

    Segundo a assessoria de imprensa da SMOV, a reforma do túnel Conceição vai mesmo começar na primeira quinzena de agosto, embora a data certa ainda não esteja marcada.
    Vai depender do prefeito José Fortunatti, que pretende reunir a imprensa para divulgar os detalhes da obra, a maior desde que foi construído o túnel, há 40 anos.
    Na EPTC, no entanto, a possibilidade de adiamento não foi descartada, embora todas as obras preparatórias já estejam concluídas.
    “Pelo que sabemos, o prefeito pretende fazer o anúncio nos próximos dias, mas ainda se discute se o momento é o mais oportuno”, disse uma fonte.
    A reforma será executada pela EPT Engenharia, empresa com sede em São Paulo, que venceu a licitação e já assinou o contrato com a Secretaria de Obras.
    O custo da obra está estimado em R$ 2,6 milhões e sua conclusão pode demorar até 18 meses dependendo de diversos fatores, inclusive as chuvas.
    A reforma exigirá a interdição parcial do túnel e terá impacto em regiões de grande movimento, como o entorno da Rodoviária, o complexo Santa Casa, a UFRGS e parte do centro.
    A necessidade da reforma foi apontada há dez anos, quando uma inspeção técnica detectou problemas na estrutura de concreto do túnel.