Por Bruno Cobalchini Mattos
Gilberto Mendes, 50, é um senhor bem alinhado. Faz a barba toda semana, e sua camisa nunca está amassada ou para fora das calças. Para se proteger do frio, veste um casaco de couro que se estende até as canelas. A única coisa que parece destoar de seu traje é o boné preto que leva na cabeça. Quem o vê em uma esquina do bairro Santana fumando cigarro de palha dificilmente imagina que ele dorme ali mesmo, naquela calçada.
Nascido em Bagé, Gilberto mora em Porto Alegre desde os dois anos de idade. Fala devagar, tem bom vocabulário e se articula com facilidade. Diz que já fez muita coisa nessa vida. Vendeu quindim, fez chapeação numa oficina, fabricou cocada, teve um restaurante e foi proprietário de quatro caminhões de mudança.
Ele se emociona ao lembrar do passado. Cego de um olho devido a um acidente de carro, não consegue segurar as lágrimas. Hoje em dia, só tem um carrinho com o qual recolhe papelão e faz alguns fretes. A pequena carroça, que diz ter feito com as técnicas que aprendeu na oficina, tem um colchão no fundo e também serve de cama.
Eu quis saber como ele foi parar na rua. “Isso aí daria um livro”, ele responde. Insisto, mas não adianta. “A minha história não faz bem pras pessoas”, continua. “Eu conto um pouco pro pessoal aqui da rua e eles já ficam arrasados. Se tu não tem preparo psicológico, tu vai pra casa e fica pensando nisso, e o meu problema passa pra ti também. Então acho melhor que as pessoas não saibam mesmo. Mas uma coisa eu te digo: o olho que os outros põem pode estragar a tua vida”.
Por causa da idade e do porte físico (Gilberto é baixo, magro e pouco corpulento), ele só recolhe lixo nas redondezas. Ganha muito pouco com o trabalho de catador. “Hoje consegui tirar uns três e pouco. Isso não dá pra quase nada”. Os moradores da vizinhança ajudam com comida, mas mesmo assim não sobra.
“Esses tempos ofereceram pra comprar o meu carrinho, mas não adianta, se eu vender ele eu vou dormir aonde, no chão? Daí eu viro mendigo, e isso eu não quero. Eu não sou mendigo, eu sou reciclador. Tu logo vê que não sou um papeleiro normal. Eu sou de levantar a classe pra cima”, diz.
E é bom de papo, o Seu Beto. Ele conta que certa noite um morador de rua passou por ali e pediu uma corda emprestada. O homem queria se enforcar em uma árvore. Beto e outro morador de rua se sentaram com ele, e os três passaram a madrugada inteira conversando. Quando o sol saiu pela manhã, o homem se levantou, agradeceu e foi embora. Tinha desistido do suicídio.
Além dos cigarros de palha, o único vício de Beto é a cachaça, que ele diz tomar para criar coragem: “se tu tá na rua de noite, tem que se cuidar da surpresa. Uma vez eu não tomei cachaça antes de dormir e acordei de madrugada tremendo. Mas não era por causa da cachaça – era de medo. Então eu bebo pra ter coragem de brigar quando precisa”.
Conta que, antes de morar na rua, só bebia cerveja, e socialmente. Mudou para a cachaça por causa do preço. E jura que não usa mais nada. “A única droga que eu já usei foi maconha, quando tinha 27 anos. Mas eu parei aos 30, porque aquela vida não era pra mim”.
Uma das maiores dificuldades de Seu Beto é encontrar distração no seu tempo livre. Mas isso deve mudar. Alguns dias atrás ele encontrou um radinho no lixo, funcionando e com pilhas. Podendo ouvir as notícias, ele acha que as coisas vão ficar mais fáceis. “Se não eu fico aqui só pensando. Pensando num jeito de sair da rua, em como que eu vou resolver esse quebra-cabeça. E daí eu fico muito triste. Já tive depressão duas vezes por causa disso. A coisa é muito difícil”.
E ele quer ser tirado da rua? Pouco tempo atrás, um velho amigo passou ali e levou Beto para casa. Deixou ele tomar banho e lavar suas roupas. Prometeu que arranjava trabalho pra ele numa oficina de chapeação. Mas com uma condição: tinha que largar a cachaça. Beto não quis. “Quando tu toma uma garrafa inteira todo dia, tu não consegue parar assim. Tem que ser aos pouquinhos”, diz. Ele considera o amigo bem intencionado, mas reclama da opressão. “Não adianta me obrigar a fazer as coisas. Eu não sou comprado por comida – só pela boa conversa”.
Pergunto para ele o que pretende fazer agora. “Eu vou dar um jeito de sair daqui, mas antes eu preciso ajeitar as coisas comigo. O pessoal da igreja também ofereceu ajuda, mas ainda não dá. O meu mundo quem faz sou eu. Não é que eu não acredite em Jesus. Eu acredito. Mas enquanto eu não tiver bem comigo mesmo, ninguém vai poder me ajudar”.
Funcionários do Hospital de Pronto Socorro passaram o domingo distribuindo panfletos no Parque da Redenção e arredores convocando a população para um ato público nesta segunda feira. Dizem que o HPS, único hospital de emergências da cidade, “está esquecido pela prefeitura”. “Há muito não se investe em equipamentos, infra-estrutura e recursos humanos”. Às onze da manhã eles promovem um “abraço símbolico” ao prédio na avenida Osvaldo Aranha.
Leia o que dizia um dos panfletos distribuidos:
“HPS PEDE SOCORRO!”
“Os trabalhadores do HPS vêm buscar apoio da comunidade usuários diretos ou indiretos do Hospital de Pronto Socorro”.
“Esse símbolo de Porto alegre está esquecido. Há muito não se investe em equipamentos, infraestrutura a recursos humanos e quem acaba prejudicado é o usuário e os próprios trabalhadores que não podem dar um atendimento mais adequado e de melhor qualidade”.
“Além das condições subumanas a que estão submetidos usuários e população, a Prefeitura de Porto alegre está retirando a insalubridade daqueles que estão cuidando de você: administrativos, nutrição, limpeza, manutenção, lavanderia e serviço social”.
“Junte-se a nós, e vamos juntos defender o HPS, pois ele é de todos.
Por melhores condições de trabalho, por investimentos em equipamentos, reformas e RH, e pela manutenção da insalubridade”.
“Vamos juntos abraçar o HPS, segunda-feira , 29/06009, às 11 horas da manhã”.
O líder do governo na Câmara Municipal, Valter Nagelstein, fez um apelo ao secretário do Meio Ambiente, vereador Professor Garcia, para que apresse a votação do Projeto de Revitalização do Cais do Porto pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam). “A votação, que deveria ter acontecido nesta quinta-feira (25), foi adiada após manobras regimentais de conselheiros avessos aos avanços do projeto”, diz a nota emitida pela assessoria de imprensa do vereador.
Se não for atendido, Nagelstein pretende recorrer ao prefeito José Fogaça para que o projeto seja enviado para a Câmara Municipal, “independentemente da avaliação do Comam”. Assim que o projeto chegar ao Legislativo, Nagelstein irá propor regime de urgência à matéria.
“O Rio Grande, e Porto Alegre em especial, tem perdido oportunidades por falta de capacidade de construir consensos. Ora, se o consenso não é possível, vamos exercer outra faculdade da democracia, o direito de maioria. Não desejo passar mais 30 anos discutindo esse assunto, perder mais essa oportunidade. Desejo sim ver no Cais Mauá a mesma maravilha que já vi em tantos outros lugares do mundo. No dia que a obra estiver pronta as pessoas hão de se perguntar: mas por que eles eram contra?”, diz o vereador na nota distribuída à imprensa.
Lula vem a Porto Alegre, comprova sua popularidade e defende o Software Livre
Por Daniela de Bem e Paula Bianca Bianchi
Com a câmera na mão dona Marisa gritava: “Lula, Lula!”. Apesar de morar em Brasília, essa foi a primeira vez que ela conseguiu ver de perto o presidente que junto com outros 50 milhões de brasileiros ajudou a eleger. E não só viu como cheirou, beijou, abraçou e bateu foto.
Em sua breve passagem por Porto Alegre na tarde desta sexta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi da Vila Bom Jesus aos corredores da PUCRS e ainda teve tempo de inaugurar a nova gráfica da RBS, sem deixar, é claro, de arrancar suspiros da população.
Na Vila Bom Jesus, onde anunciou a criação do programa Território da Paz, uma série de 27 ações que tem como objetivo reforçar a segurança nas comunidades da Lomba do Pinheiro, Bom Jesus, Restinga e Cruzeiro, o presidente foi recebido como um rock-star com a direito a palco montado no meio do melhor campinho de futebol do bairro.
Os moradores disputavam lugar a tapa para enxergar melhor o presidente, que era seguido por um séquito de seguranças e políticos, entre eles, a ministra Dilma Rousseff, o ministro Tarso Genro, o ex-governador Olívo Dutra e o prefeito José Fogaça. Após um breve discurso em que lembrou a importância de melhorar a relação da polícia com as comunidades carentes, Lula foi para a PUC onde outra multidão o aguardava.
A segurança extensiva que baixou na faculdade, que recebeu essa semana o 10º Fórum Internacional de Software Livre – FISL para os íntimos –, tornava uma tarefa quase impossível ouvir o presidente, tanto para a imprensa quanto para os participantes do evento.
Um grupo de jornalistas de Santa Maria conversava resignado frente às portas do auditório. As credenciais de imprensa fornecidas pelo pessoal da FISL não foram suficientes para convencer a polícia federal a deixá-los ver a palestra. Faltava a tal da autorização presidencial. Outro grupo de participantes do Fórum aguardava ansioso na fila. Vai que sobrasse uma vaguinha na sala de duzentos lugares reservada para a fala do presidente.
Aqueles que não tinham paciência pra esperar e, mais que ouvir, queriam ver o presidente, se acotovelavam ao redor do cordão de isolamento branco que serpenteava da porta da PUC à porta do auditório, especialmente para Lula passar. Foi só o presidente colocar a cara na porta para a multidão sacar um sem fim de máquinas fotográficas e telefones celulares.
Paciente, Lula parava e cumprimentava o pessoal a cada dois passos e meio. Depois até brincou, “aquele corredor polonês valeu por quatro discursos”. Para os ministros sobrava um que outro aperto de mão.
Nessa hora dona Marisa – mais uma entre tantas Marisas, não a 1ª dama -, não se conteve, . Era tudo ou nada. E pra funcionária do MEC, negra e baixinha, que envergava uma camisa da CUT, um tanto deslocada entre aquele bando de aficcionados por computadores, o presidente era tudo.
Ela desviou uns dois seguranças, não prendeu o grito e com lágrimas nos olhos conseguiu o que queria. Uma foto com Lula.
Presidente diz que Lei Azeredo é censura
Depois da maratona, o presidente conseguiu finalmente entrar no auditório onde a platéia seleta aguardava. Aqui o tema deixou de ser a segurança das comunidades para entrar na segurança da internet.
Primeiro falou o coordenador do FISL, Marcelo Branco. “A internet livre está sofrendo um ataque internacional”, defendeu. “Um deputado pirateou uma lei francesa e apresentou no congresso”, afirmou, se referindo ao projeto de lei conhecido como Lei Azeredo que está na Câmara e, se aprovado, institui a quebra de privacidade sem mandado judicial.
Depois foi a vez da ministra da Casa Civil se dirigir ao microfone enquanto a platéia gritava em coro: “Dilma, Dilma!”. “Voltamos a observar aqui nessa minha Porto Alegre, nessa Porto Alegre do Fórum Social Mundial, que outro mundo é possível”, discursou. Ela lembrou a importância do software livre para o País e as inúmeras ações em que o governo utiliza essa tecnologia.
A ministra aproveitou para expor dados sobre o papel do brasileiro na internet, e destacou as iniciativas de uso de software livre no governo federal. “A utilização do software livre trouxe uma economia de 370 milhões de reais aos cofres públicos”, disse. Foram citados programas como o “Computador para todos”, a implantação de telecentros e o Ginga, um projeto nacional para a TV digital reconhecido internacionalmente.
Mas foi a fala de Lula que fez o auditório parar. Improvisando de começo, ele disse que Dilma falou pelo governo e arrancou risos da platéia ao cumprimentar um bebê. “Quero cumprimentar aquela criancinha que está ali no colo e não sabe direito porque está aqui. Um dia ela vai saber.”
O presidente defendeu o uso do software livre e disse que no Brasil “prevaleceu a idéia da liberdade e o tempero brasileiro”. Segundo ele, usar software pago é ficar “comprando e comendo a tecnologia dos outros”.
Lula falou ainda do polêmico projeto de Lei Azeredo, que classificou como censura – “Essa lei que tá aqui não vem pra coibir os abusos na internet, ela vem para fazer censura!” – e aproveitou para comentar o termo “mais sexy do governo”: a inclusão digital.
“Nós tiramos a população do século XVIII para o século XX com o programa Luz para Todos. Agora é hora de colocarmos eles no século XXI e pensar um programa que permita computadores para todos”, afirmou.
Por Bruna Cardoso
Foi dada a largada da maratona literária! A 3ª edição do evento começou nesta sexta-feira às 19h no Centro Municipal de Cultura (av. Érico Veríssimo, 307).
O livro escolhido para a maratona é o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. As 568 páginas serão revezadas entre os participantes – cada um lê o trecho desejado. Durante os intervalos haverá apresentações artísticas, organizadas pelo Cabaré do Verbo. E para garantir que ninguém durma na maratona, será distribuído chimarrão, quentão, comidas e muito café.
Maratonas literárias são comuns em países da Europa, aqui no Brasil o projeto é pioneiro. O tempo de duração é de 36h, e a expectativa é de que, assim como nas edições anteriores, cerca de 600 pessoas passem por lá. Leve sua caneca, sua cuia e boa leitura! foto: Sinai Zinn
Por Débora Gallas
Foi realizada nesta quinta-feira, na Assembléia Legislativa do RS, uma audiência pública para debater o Código Florestal Brasileiro, lei sancionada em 1965, e apontar possíveis mudanças e readaptações. A audiência contou com a participação do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que apresentou as propostas para o aperfeiçoamento da lei. O evento lotou o auditório Dante Barone, e foi necessária a exibição em telão no Plenarinho para que todos os presentes pudessem acompanhar a discussão.
Minc afirmou que o Brasil “precisa produzir mais e preservar mais”. Ele iniciou falando das conquistas do governo. Em 2009, as licenças ambientais aumentaram em 60%, enquanto o desmatamento da Amazônia diminuiu também em 60%. Foram implementadas ações como o corte do crédito de desmatadores, a parceria com ONGs ambientalistas, o aumento da oferta de madeira legalizada e o monitoramento do desmatamento da produção de soja em área de preservação.
O ministro considera que, atualmente, os problemas principais a serem resolvidos são relativos ao crescimento da pecuária. Minc cita a criação do Arco Verde, projeto que traz alternativas para o crescimento através de baixo impacto ambiental e para sustento das famílias – como, por exemplo, a substituição de atividades pecuárias pela piscicultura. As próximas metas do governo, segundo ele, são o investimento em fontes de energia renováveis e a recuperação de áreas degradadas pela exploração humana.
As propostas para o Código Florestal foram elaboradas pelo governo juntamente com entidades como a CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), a FETRAF (Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar) e o MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores), esclareceu Minc. Abaixo, os principais pontos mencionados pelo ministro:
1- Ele afirmou que é essencial aliar a questão ecológica à agricultura – sobretudo a agricultura familiar. Defendeu que deve haver um tratamento diferenciado para proprietários de áreas de até quatro módulos e que utilizam mão-de-obra familiar, por exemplo.
2- Cita a legalização de culturas instaladas em encostas que possuem entre 25 e 45 graus de inclinação, especialmente a fruticultura. Em locais com mais de 45 graus, incentiva-se a manutenção de culturas de lenhosas perenes já existentes, pois ajudam a segurar a erosão e o assoreamento.
3- Pagamento aos pequenos agricultores que prestam serviços ambientais e possibilitam a ampliação das reservas. O ministro exemplifica com as ações que implementou quando era secretário do Meio Ambiente no estado do Rio de Janeiro, onde os agricultores que fizeram trabalho de reflorestamento das matas ciliares e APPs (Áreas de Preservação Permanentes) receberam cheques como recompensa.
4- Incentivar atividades que possibilitem rendimento, como a fruticultura, ao mesmo tempo em que as reservas são recuperadas.
5- Averbação 100% gratuita para o agricultor familiar, que pode receber auxílio do poder público e assistência técnica também gratuitos.
Entre os pontos considerados polêmicos pelo ministro, está a questão do prazo de três anos para o manejo nas reservas legais pelos agricultores familiares. Minc encerra, ovacionado pelo público, enfatizando a importância da educação e da conscientização ambiental no Brasil.
O assunto mais debatido pelos integrantes da mesa foi a questão da agricultura familiar. Entre os parlamentares, Edson Brum (PMDB), presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária e Cooperativismo defende que o agricultor é parceiro do meio ambiente, mesmo que visto como vilão, e cita o plantio direto na palha como exemplo da consciência do povo gaúcho. Também afirma que há uma melhoria da qualidade da água que vem da cidade para a região rural.
Na defesa dos pequenos produtores, adota a idéia de que esses agricultores não têm como arcar com a perda de produção e, consequentemente, de renda, que a área de reserva legal acarreta. Heitor Schuch, da Comissão de Economia, manifestou idéias parecidas: “Os agricultores são os maiores ambientalistas do estado e do país, pois, se terminar a terra, eles morrem também”. Sobre a questão do prejuízo econômico às famílias, justifica que a agricultura familiar cumpre o decreto porque não pode, e não porque não quer.
O presidente da FAMURGS (Federação dos Municípios do RS), Marcus Vinícius Vieira Almeida, defendeu a autonomia do estado e dos municípios para legislar sobre seus próprios ecossistemas e se mostrou favorável às áreas de reserva legal. Também salientou que os produtores devem ser considerados agentes de preservação e, por isso, aqueles que não prejudicam a natureza devem ser compensados, não podem ficar a mercê dos incentivos do governo.
O presidente da FECOAGRO, Rui Polidoro Pinto, também defendeu o debate regionalizado e a não penalização dos agricultores e cooperativas se tiverem de abrir mão de seus meios de produção. Elton Weber, presidente da FETAG (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul) afirmou que “a legislação deve ser rediscutida, pois não deve expulsar as pessoas do campo e fazer com que recebam cesta básica porque não podem produzir”.
Já o vice-presidente da FARSUL (Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul), Gedeão Silveira Pereira posicionou-se de forma contrária às reservas legais, apresentando o argumento de que elas varrerão cerca de 790 mil empregos em todo o país, pois o agronegócio representa um enorme faturamento para o Brasil. “É necessária uma maior discussão para, depois, não chorar a falta de alimentos na gôndola do supermercado”.
Houve polêmica durante a fala da ambientalista Conceição Carrion, presidente da APEDEMA (Assembléia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente). O tempo de sua fala já havia sido dividido com o tempo de Felipe Amaral, também da APEDEMA (dois minutos e meio para cada um). Com as constantes vaias de parte da platéia, reivindicou um aumento do tempo.
Ela começou defendendo que o Código Florestal permaneça sob a supervisão da legislação federal, uma vez que “é perigoso que esteja sob as vontades do governo do estado e das elites locais, que já permitiram grandes empreendimentos e licitações de barragens”, além de outras obras de grande impacto ambiental. Posiciona-se completamente a favor das reservas legais devido à sua importância para a manutenção da biodiversidade e o seu uso sustentável.
Carrion acrescenta que é necessário o cumprimento da legislação ambiental pelos agricultores, frente à ameaça de “transformarmos em monoculturas os ecossistemas do Brasil, que estão entre os mais diversificados do mundo”. Ela cita o caso da monocultura de eucalipto no sul do estado, que causa um processo de esgotamento dos recursos naturais e diz que é vendido um falso discurso de que a reserva legal causaria a perda de milhões de dólares para causar pânico nos produtores, pois o agronegócio e a exportação serão prejudicados, não a demanda de alimentos pela população. Ela termina sua fala com a frase “Mesmo com a última semente sobre a terra, vão querer transformá-la em moeda”.
Já o secretário de Meio Ambiente do RS, Berfran Rosado, falou pouco e disse menos ainda. De início, destacou a importância da produção rural no estado e a conseqüente geração de empregos e renda que a agricultura proporciona. No início de seu posicionamento, porém, ele foi interrompido pelo presidente da Assembléia, Ivar Pavan (PT). O deputado pediu a alguns presentes mais exaltados que respeitassem a fala do secretário e os demais espectadores, devido a uma faixa que ostentavam e que prejudicava a visão de boa parte do público. A faixa estampava os dizeres “Vende-se um bioma: Falar com Berfran”.
Sobre o Código Florestal, defendeu uma modificação que o tornasse “mais democrático”. Rosado explica que o Código precisa levar em conta as peculiaridades de cada região do país para ser válido e socialmente aceito. Foi um pouco mais longe em sua fala quando sugeriu a criação de uma nova Medida Provisória que discuta os impasses da lei, dê garantias aos produtores e possibilite o manejo da Reserva Legal além do Código Florestal – e que essa MP seja encaminhada para votação imediatamente.
O secretário também enfatizou que é fundamental o apoio aos pequenos produtores, além de destacar o pioneirismo no Rio Grande do Sul a respeito das discussões já promovidas a respeito da conservação dos recursos naturais. Ele lembra que os Códigos Ambiental e Florestal foram aprovados por unanimidade na Assembléia Legislativa do RS.
Empresários firmam pacto pela sustentabilidadeElmar Bones, de São Paulo
Não tem precedente no Brasil o “Pacto pela Sustentabilidade” que o Wal Mart firmou esta semana com 18 dos seus maiores fornecedores – gigantes como a Ambev, Unilever, Golgate/Palmolive, Coca-Cola, Nestlé – que no conjunto representam quase 15% do PIB brasileiro.
Pela primeira vez no país, os maiores grupos industriais, sob a liderança de uma cadeia de varejo, uma das três maiores, se comprometem com metas de longo prazo para redução dos impactos ambientais ao longo da cadeia de seus produtos.
O compromisso implica também não adquirir produtos de áreas de desmatamento ilegal ou que envolvam trabalho escravo.
“Isso é o que todas as empresas deviam fazer”, disse o ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, no evento que lançou o pacto, terça, 23, em São Paulo.
O diretor-geral do Greenpeace no Brasil, Marcelo Furtado, lembrou a atitude das três maiores redes do varejo – Wal Mart, Pão de Açúcar e Carrefour – que suspenderam as compras de carne de fazendas em áreas de desmatamento ilegal, medidas também sem precedentes. “Estamos diante de uma mudança de padrão”, disse.
Era a primeira vez também que um representante do Greenpeace falava numa reunião de grandes empresários.
Hector Nunez, presidente do Walt Mart Brasil, disse que “estamos diante de uma nova economia, precisamos reinventar a maneira de fazer negócios. Os impactos ambientais não podem mais ser ignorados”.
“Onda Verde para veio ficar”
Andrew Winston, professor de Yale e consultor de empresas, é co-autor de “Green to Gold”, traduzido no Brasil por “O Verde que Vale Ouro”, livro que anuncia uma “nova era” na maneira como as grandes empresas estão encarando as questões ambientais.
Junto com Daniel Esty, também de Yale, Winston pesquisou e entrevistou centenas de grandes executivos e diz ter percebido uma “onda verde” se expandindo no ambiente das grandes corporações.
A Walt Mart é uma das primeiras e está na vanguarda, segundo Winston. Mas não está sozinha. “Incorporar a sustentabilidade é estratégia dos negócios e é uma necessidade que todos estão percebendo”, diz ele.
A ideia convencional de que preservação significa custo, segundo Winston, foi superada pela emergência dos desafios ambientais.
Um marco nesse processo foi o furacão Katrina que arrasou arrasou New Orleans, em 2004. Naquele momento se aguçou a percepçao sobre as mudancas climáticas e as consequências da devastação ambiental.
Confrontadas com a gravidade da situação, as empresas estão agindo e descobrindo que “o verde não é incompatível com o lucro”.
Ao contrário, a busca da sustentabilidade, via inovação e criatividade, pode representar uma “ecovantagem” para as empresas que saírem na frente.
A Wal Mart foi uma das primeiras. Desde 2005 passou a incluir a sustentabilidade na sua estratégia de negócios nos Estados Unidos.
Agora está expandindo essas práticas para os outros países onde atua. Na China, já reuniu mil fornecedores em outubro do ano passado, em Beijin, para dar inicio a um programa de sustentabilidade. No Brasil, construiu em outubro também o seu primeiro supermercado ecoeficiente, no Rio De Janeiro.
A possibilidade de que a adesão ao verde seja apenas uma fachada, um lance de marketing, esbarra, segundo Winston, no comportamento dos consumidores que estão cada vez mais conscientes e mais atentos.
Fazer um discurso verde e continuar com as práticas antigas seria um risco muito grande para uma empresa e Winston cita, em seu livro, vários casos de grandes prejuízos sofridos por companhias que descuidaram das boas práticas ambientais e sociais.
Não só os consumidores, os próprios funcionários das empresas estão a exigir e fiscalizar, mas também os acionistas, as ongs e as organizações comunitárias. “Isso é o que está mudando as empresas.”
O livro foi lançado em 2006 nos Estados Unidos e chegou ao Brasil no ano passado.
Principais metas definidas no pacto
Os signatários do Pacto pela Sustentabilidade se comprometem em reduzir os impactos em todas as etapas da produção – fontes de matéria-prima, embalagens, emissões de gases no transporte – para formar uma cadeia de suprimentos sustentável.
O compromisso inclui também não comprar produtos com vícios de origem, vindos de áreas de desmatamento, envolvendo trabalho escravo, ou empresas irregulares.
Metas definidas:
– Reduzir em 70% o fosfato nos detergentes para lavanderia e cozinha até 2013;
– Oferecer produtos de lavanderia no mínimo duas vezes mais concentrados até 2012;
– Oferecer pelo menos um produto orgânico por categoria de alimentos ate 2012;
– Estimular as vendas de produtos com diferencial em sustentabilidade;
– Apoiar e estimular o desenvolvimento de produtos de ciclo fechado.
Redução de Resíduos (lixo zero)
– Reduzir embalagens em ate 5% ate 2013;
– Implantar o Packaging Scorecard ate 2009;
– Reduzir o consumo de sacolas plásticas em 50% ate 2013.
Campanha para reduzir sacolas plásticas
No final do ano passado, o Wal Mart lancou um programa inédito no varejo brasileiro, dando ao cliente o credito de R$ 0,03 por sacola plástica não utilizada.
A meta da companhia é reduzir em 50% o uso de sacolas plásticas até 2013.
Em vigor em todas as lojas do Nordeste e do Sul (mais de 260 unidades), o programa já recolheu mais de 3 milhões de sacolas e concedeu mais de R$ 100 mil em descontos para os clientes.
Por outro lado, a rede estimula o uso de sacola retornável, oferecendo um modelo a R$ 2,50, feita em algodão cru com capacidade para até 35 quilos. Desde o lançamento, hÁ um ano, já foram vendidas mais de 2 milhões de sacolas.
* * *
A WM está há 14 anos no Brasil. Tem 348 unidades em 18 Estados, sendo 95 no Rio Grande do Sul, o que tem maior número de lojas. No ano passado faturou R$ 17 bilhões, crescendo 13% em relação ao ano anterior. Investiu R$ 1,2 bilhão, quantia que este ano vai se elevar para 1,6 bilhão, o maior investimento da empresa desde que chegou ao país, que vai resultar em dez mil novos empregos.
No mundo, a rede tem 7.900 unidades, sendo 4.258 nos Estados Unidos, 1.197 no México e 243 na China. Está em 15 países.
Tem 2 milhões de funcionários, 100 mil fornecedores e 200 milhões de clientes.
Por Paula Bianca Bianchi
A tensão continua em Teerã. Após alguns conflitos à tarde, concentrados no centro e dispersados pela polícia, as famílias se refugiam em suas casas. As que podem assistem ao noticiário internacional através de satélites clandestinos, instalados na altura do chão para não serem detectados pelas brigadas do governo.
Em um país de 70 milhões de habitantes em que 60% das pessoas tem menos de 30 anos, quem puxa os protestos são as mulheres, acompanhadas dos setores urbanos e estudantes – 60% da população feminina freqüenta a faculdade.
Conforme uma estudante iraquiana que preferiu não se identificar, celulares e máquinas fotográficas estão sendo recolhidos e a população evita o centro da cidade. Ela conta que um grande manifestação está planejada para amanhã a partir do mausoléu de Khomeini.
A internet também está sob controle, principalmente após a divulgação do vídeo que mostra a jovem Neda Agha-Soltande, 27 anos, sendo baleada. A conexão sofre oscilações e cortes constantes e redes sociais como Facebook e Twitter estão sobre vigilância – cerca de 18 milhões de iranianos usam a internet. Neda Agha-Soltan estava nas imediações de um protesto quando foi morta com um tiro no peito
É através delas que chegam a maior parte das informações sobre o país, uma vez que o governo proibiu a permanência de jornalistas e agências de notícias.
Protestos semelhantes aos dos últimos sete dias já vitimaram cerca de 20 pessoas desde a divulgação do resultado das eleições, realizadas no dia 16 de junho. Reformistas afirmam que o pleito foi fraudado para reeleger o atual presidente Mahmoud Ahmadinejad e evitar a vitória do ex-primeiro-ministro Mir Hossein Mousavi.
Estas são as maiores manifestações registradas no país desde 1979 quando a população derrubou o xá Reza Pahlevi e instaurou a Revolução Islâmica. Ironicamente, são os filhos dos filhos desses manifestantes que hoje voltam às ruas para pedir por uma nova forma de governo.
Elmar Bones, de São Paulo
O orador mais aplaudido no lançamento do “Pacto pela Sustentabilidade” promovido pela Walt Mart, em São Paulo, foi o diretor geral do Greenpeace no Brasil, Marcelo Furtado.
Ele não escondeu a surpresa e agradeceu a oportunidade de falar num evento como aquele.
Na platéia, a maioria representada por seus presidentes, estavam 300 empresas – Coca Cola, Ambev, Unilever, Cargill, Bung, Colgate, Friboi – e outras 200 ongs.
No palco, onde pela manhã passara o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, estavam os presidentes da Fundação Akatu e do Instituto Ethos.
Furtado saudou os empresários pela apoio ao relatório “A Farra do Boi” que o Greenpeace divulgou no inicio de junho, denunciando a pecuária predatória na Amazonia.
Disse que a decisão da Associação Brasileira de Supermercados de recomendar o corte dos fornecedores denunciados representa “uma mudança de padrão”.
No final, para demonstrar que o Greenpeace não é mais só “chute na canela”, disse que faria “uma coisa que vocês acham que a gente não sabe fazer”, e encerrou batendo palmas. O auditorio retribuiu com entusiasmo.
O Pacto de Sustentabilidade que os 20 maiores fornecedores do Wal Mart, gigantes de todos os setores, assinaram, é um compromisso com metas de “ecoeficiência” (redução de resíduos, menor consumo de energia, embalagens menores, substituição de sacolas de plástico) e uma condenação a “práticas degradantes” como o desmatamento ilegal e o trabalho escravo. (continua)
Uma Ação Civil Pública ajuizada na Justiça Federal pede a anulação das leis recentemente aprovadas na Câmara de Porto Alegre autorizando os projetos Gigante para Sempre, do Inter, e a Arena do Grêmio.
Trinta assinaturas de líderes comunitários e intelectuais ligados ao Fórum de Entidades subscrevem o pedido de interferência da Justiça.
O fundamento da ação seria a incompetência legal da Câmara para dar aprovação prévia as obras previstas nos dois projetos, que deveriam ser antes submetidas antes a estudos de impacto ambiental impacto de vizinhança e outras exigências previstas na Constituição e nas leis municipais.
A juíza encarregada do processo já distribuiu as primeiras intimações