Por P.C. de Lester
A palestra do arquiteto e urbanista Jaime Lerner na Federasul, nesta quarta-feira (1º/07) foi de certa forma romântica, na linha de que a cidade do futuro deve aliar os conceitos de mobilidade urbana, sustentabilidade e sociodiversidade com convivência e tolerância.
“Espaços vivos e preparados para a população usufruir de forma aprazível”.
Lerner descarta as perspectivas catastrofistas,como a do filme Blade Runner, clássico da ficção, de 1982, dirigido por Ridley Scott, que mostra uma Los Angeles decadente em 2019, suja, poluída, com a poluição, chuvas constantes, consumismo exacerbado e a consequente busca de novas formas de colonização. Enfim, o colapso moral e material da civilização.
Lerner está otimista quanto ao nosso futuro. Inclusive em relação ao automóvel, hoje vilão da mobilidade e do meio ambiente: “Será diferente, não mais para o dia a dia e viagens individuais”, afirma.
O carro do futuro para a utilização diária poderá ser como a bicicleta de aluguel nos dias de hoje.
Inclusive, o ex-governador do Paraná tem o seu próprio projeto de um carro elétrico, feito de papel reciclado.
O veículo, que pode levar apenas uma pessoa seria uma alternativa para cumprir pequenas distâncias e evitar o trânsito das grandes cidades.
Chamado de Dock Dock, o carro tem 1,5 metro de altura por um metro de comprimento e tem autonomia de até 100 quilômetros sem precisar de recarga.
Em relação aos seus projetos para o “Cais Mauá” e “Orla do Guaíba, trecho 1”, Lerner só mostrou imagens românticas e deu uma cutucada nos empresários locais:
-“Em Curitiba sempre pude contar com investidores, mesmo que o retorno não fosse tão espetacular, mas que fossem obras necessárias para a cidade”.
O que não veio à baila na reunião almoço da Federasul é que projeto do Cais Mauá está longe de ter unanimidade e a Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH) não descarta a possibilidade de rescisão do contrato.
O complexo contrato está com a Cais Mauá Brasil S/A, com o plano urbanístico feito pelo escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados, de Curitiba, e o esboço arquitetônico das edificações, do estúdio espanhol b720 Fermín Vázquez Arquitectos.
O consórcio obteve o arrendamento da área por 25 anos, renováveis por outros 25, e tem a obrigação de retornar os bens construídos ao município ao fim da concessão.
Este projeto contempla shopping center, hotel e torres comerciais e a manutenção do fatídico muro, somente mais palatável, pois ganhará uma cascata de água.
Só que os investidores, como bem ressaltou Lerner, ainda não apareceram ou estão na moita, aguardando os acontecimentos.
A população está mobilizada através do coletivo Cais Mauá de Todos, que já promoveu diversas reuniões na frente do Pórtico da Mauá, Centro Histórico, que reúnem milhares de pessoas descontentes com a concessão do antigo porto da Capital à iniciativa privada.
Existe um projeto intervenção arquitetônica e urbanística alternativo, que tem como base três ações principais: eliminar as barreiras entre o Guaíba e a cidade, restaurar o patrimônio histórico e repensar a mobilidade urbana e a acessibilidade do local.
A população quer um debate público sobre o projeto previsto para a área.
E isto tem tudo a ver com a proposta de cidade do futuro que Lerner externou em sua palestra: espaços vivos e preparados para a população usufruir de forma aprazível.
Quem sabe a Federasul convida o coletivo Cais Mauá de Todos a apresentar seu projeto alternativo num próximo “Tá na Mesa” para enriquecer o debate.

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