5 de junho: Meio Ambiente, poder e o futuro da civilização

O conflito ambiental brasileiro nunca foi apenas ecológico. Ele é econômico, político, social e civilizatório.

Vista aérea da região central de Porto Alegre afetada pelas fortes chuvas no Rio Grande do Sul em maio de 2024. Foto de Ricardo Stuckert,/PR

Por Cristiano Goldschmidt

O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, chega em um momento histórico no qual a própria relação entre humanidade e natureza parece exigir uma revisão profunda. Em um planeta atravessado por eventos climáticos extremos, incêndios de escala continental, secas históricas, enchentes devastadoras e deslocamentos humanos causados pelo colapso ambiental, a data assume um significado que vai muito além das campanhas de conscientização e dos discursos institucionais. O que está em questão não é apenas o destino das florestas, dos rios ou das espécies ameaçadas, mas a sustentabilidade de um modelo civilizatório fundado na expansão incessante do consumo, na transformação da natureza em mercadoria e na convicção de que o crescimento econômico pode avançar sem limites em um mundo inevitavelmente limitado.

Há algo de profundamente contraditório em nosso tempo. Nunca se produziu tanto conhecimento científico sobre o funcionamento dos ecossistemas, e nunca se destruiu tanto. Nunca se falou tanto em sustentabilidade, e nunca houve tamanho avanço de monoculturas extensivas, mineração predatória, exploração fóssil e devastação de áreas protegidas. A palavra “verde”, indevidamente apropriada pelo marketing corporativo, tornou-se muitas vezes uma estética vazia, um ornamento discursivo incapaz de alterar estruturas profundas de exploração econômica.

O Brasil ocupa posição central nessa encruzilhada histórica. Nenhum outro país reúne simultaneamente tamanha biodiversidade, tão vasta disponibilidade de água doce, tão grande extensão de florestas tropicais e tamanho protagonismo no agronegócio global. Essa condição faz do território brasileiro não apenas um patrimônio nacional, mas um elemento decisivo para o equilíbrio climático planetário. A Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa deixaram de ser apenas biomas brasileiros; tornaram-se peças fundamentais da estabilidade ecológica da Terra.

É precisamente por isso que o debate ambiental no Brasil costuma ser tão feroz. Em torno da natureza brasileira movimentam-se interesses bilionários: exportações agrícolas, expansão pecuária, mineração, especulação fundiária, mercado internacional de commodities, infraestrutura logística e exploração energética. Ou seja, o conflito ambiental brasileiro nunca foi apenas ecológico; ele é econômico, político, social e civilizatório.

Nos últimos anos, contudo, o país voltou a apresentar indicadores importantes de redução do desmatamento, especialmente na Amazônia e no Cerrado. Dados oficiais apontaram queda significativa nos índices de devastação desses biomas, consolidando uma tendência de retração observada desde 2023. A Amazônia alcançou uma das menores taxas de desmatamento da última década, resultado atribuído ao fortalecimento da fiscalização ambiental, à retomada de operações de controle territorial e à reconstrução institucional de órgãos que haviam sofrido forte esvaziamento nos anos anteriores.

Nesse cenário, o nome de Marina Silva voltou a ocupar papel central na política ambiental brasileira. Figura histórica do ambientalismo latino-americano, Marina representa uma trajetória rara na vida pública contemporânea: a de alguém cuja atuação política permanece profundamente vinculada a uma experiência existencial concreta. Filha da Amazônia, seringueira, alfabetizada apenas na adolescência, ela construiu uma carreira marcada pela defesa persistente da floresta e dos povos tradicionais. Sua presença no Ministério do Meio Ambiente devolveu ao Brasil parte do protagonismo climático internacional perdido na década anterior.

Isso não significa, evidentemente, ausência de contradições. O governo brasileiro continua pressionado por interesses desenvolvimentistas internos, inclusive dentro da própria estrutura estatal. A tensão entre proteção ambiental e expansão econômica permanece viva em debates sobre exploração de petróleo, licenciamento ambiental, obras de infraestrutura e expansão agrícola. O Brasil contemporâneo parece dividido entre dois projetos de país: um que compreende a preservação ambiental como eixo estratégico do futuro e outro que ainda enxerga a natureza como mera fronteira econômica disponível à ocupação infinita.

A Amazônia no centro da geopolítica climática

A realização da COP30, em novembro de 2025, em Belém, no coração da Amazônia, representou um momento histórico para a diplomacia climática internacional e para a imagem do Brasil no exterior. Pela primeira vez, a principal conferência climática do planeta ocorreu dentro da maior floresta tropical do mundo, deslocando simbolicamente o centro do debate ambiental para um território que há décadas ocupa posição decisiva no equilíbrio ecológico global. O encontro consolidou o retorno do Brasil ao centro das negociações climáticas internacionais e fortaleceu a percepção de que a Amazônia deve ser tratada como questão estratégica para a sobrevivência planetária.

Ao mesmo tempo, a COP30 também expôs os limites da governança climática contemporânea. Apesar de avanços diplomáticos relevantes, persistiram impasses relacionados à eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, ao financiamento climático e à capacidade real dos países de cumprir metas ambientais ambiciosas sem alterar profundamente seus modelos econômicos. A conferência evidenciou uma contradição que atravessa todo o debate ambiental contemporâneo: nunca houve tamanho acúmulo de conhecimento científico sobre a crise climática e, ainda assim, interesses econômicos e geopolíticos continuam retardando medidas estruturais compatíveis com a gravidade da emergência planetária.

O Brasil chegou à COP30 carregando tanto credenciais positivas quanto profundas ambiguidades. De um lado, apresentou redução do desmatamento, reconstrução parcial da governança ambiental e fortalecimento do discurso climático internacional. De outro, continuou convivendo com expansão descontrolada de monoculturas, pressão crescente sobre terras indígenas, violência fundiária e avanço da pecuária sobre áreas de preservação.

Os biomas brasileiros sob pressão

A expansão do agronegócio brasileiro constitui um dos grandes dilemas nacionais. É impossível compreender a economia do país sem reconhecer a importância do setor agrícola para exportações, geração de divisas e abastecimento global. Entretanto, também é impossível ignorar os efeitos destrutivos de determinados segmentos do modelo agroexportador contemporâneo. A lógica da monocultura extensiva empobrece o solo, reduz biodiversidade, amplia dependência química, destrói corredores ecológicos e transforma vastas áreas naturais em paisagens homogêneas.

No Cerrado, considerado por muitos cientistas o bioma mais ameaçado do Brasil, o avanço da soja e da pecuária já provocou perdas ambientais gigantescas. A Caatinga enfrenta desertificação crescente. O Pantanal sofre com queimadas devastadoras agravadas pelas mudanças climáticas. A Mata Atlântica, embora mais protegida hoje do que em décadas anteriores, continua fragmentada e pressionada pela urbanização. Mesmo os Pampas gaúchos, frequentemente esquecidos no debate ambiental nacional, enfrentam erosão de biodiversidade causada por monoculturas e silvicultura intensiva.

O legado dos pioneiros do ambientalismo

No Rio Grande do Sul, aliás, a consciência ambiental possui figuras históricas fundamentais. José Lutzenberger permanece como uma das vozes mais importantes do pensamento ecológico brasileiro do século XX. Muito antes da pauta ambiental ganhar centralidade global, Lutzenberger já denunciava os efeitos tóxicos dos agrotóxicos, a devastação dos solos e o caráter suicida de um modelo agrícola baseado exclusivamente na produtividade imediata. Sua atuação tinha algo de visionário e, ao mesmo tempo, profundamente humanista. Ele compreendia que destruir ecossistemas significava também destruir culturas, memórias e formas de vida.

Ao lado dele, Augusto Carneiro exerceu papel decisivo na construção do movimento ecológico gaúcho e brasileiro. Fundador da AGAPAN, Augusto Carneiro ajudou a transformar o ambientalismo em ação política concreta, articulando sociedade civil, universidades e movimentos sociais em torno da defesa ambiental. Ambos pertencem a uma geração que lutou quando ainda era comum tratar ambientalistas como sonhadores inconvenientes ou inimigos do progresso.

Hoje, paradoxalmente, muitas das advertências feitas por esses pioneiros tornaram-se realidade. As enchentes históricas que devastaram o Rio Grande do Sul recentemente revelaram de maneira brutal o impacto combinado de mudanças climáticas, urbanização desordenada, destruição de áreas úmidas e ausência de planejamento ambiental consistente. A tragédia gaúcha evidenciou que a crise climática deixou de ser hipótese futura; ela já redefine o presente.

Imprensa, política e os impasses do desenvolvimento

Nesse contexto, o papel da imprensa torna-se decisivo. A grande mídia brasileira avançou consideravelmente na cobertura ambiental nas últimas décadas. Hoje há mais espaço para reportagens sobre clima, biodiversidade e desmatamento do que havia no passado. Entretanto, permanece uma cobertura muitas vezes episódica, concentrada em tragédias imediatas ou eventos internacionais. Falta, em grande parte da imprensa, incorporar a questão ambiental como eixo permanente da cobertura econômica, política e social.

Frequentemente, jornais e emissoras ainda tratam o meio ambiente como tema setorial, quase decorativo, quando na verdade ele atravessa todas as dimensões da vida contemporânea: inflação de alimentos, migrações, saúde pública, energia, infraestrutura, segurança hídrica e desigualdade social. Além disso, parte significativa da mídia mantém relação ambígua com setores econômicos diretamente associados à degradação ambiental, especialmente devido à dependência publicitária de grandes grupos empresariais.

Outro elemento central desse debate é a atuação da chamada bancada ruralista no Congresso Nacional. Trata-se de uma das forças políticas mais organizadas e influentes do país. Seus integrantes frequentemente argumentam em defesa da segurança alimentar, da competitividade econômica e da soberania produtiva brasileira. Críticos, porém, apontam que parte significativa dessa bancada atua sistematicamente para flexibilizar licenciamento ambiental, enfraquecer órgãos de fiscalização, reduzir proteção de terras indígenas e ampliar possibilidades de exploração econômica em áreas sensíveis.

A escolha do século XXI

O conflito, portanto, não é simples. Não se trata de uma oposição caricatural entre “produção” e “preservação”. O verdadeiro desafio consiste em redefinir o próprio conceito de desenvolvimento. O século XXI exige abandonar a falsa dicotomia segundo a qual proteger a natureza impediria crescimento econômico. O futuro provavelmente pertencerá justamente às economias capazes de combinar inovação tecnológica, preservação ecológica e redução das desigualdades sociais.

O Dia Mundial do Meio Ambiente deveria servir menos para celebrações protocolares e mais para um exercício radical de lucidez coletiva. A humanidade ingressou numa era em que a própria estabilidade climática deixou de ser garantida. A antiga ilusão moderna de domínio absoluto sobre a natureza começa a ruir diante de incêndios, secas, tempestades e colapsos ambientais cada vez mais frequentes.

Talvez a pergunta decisiva já não seja apenas como salvar o planeta — a Terra continuará existindo —, mas como salvar as condições civilizatórias que tornaram possível a experiência humana tal como a conhecemos. O debate ambiental tornou-se, em última instância, um debate sobre memória, permanência e futuro. Sobre aquilo que desejamos legar às próximas gerações.

E o Brasil, com toda sua exuberância natural e todas as suas contradições históricas, ocupa posição central nessa escolha.