A (ir)responsabilidade da grande imprensa nas eleições 2026

Por Cristiano Goldschmidt

A democracia brasileira não ruiu no último domingo. Seria ingênuo acreditar que uma eleição, por si só, pudesse derrubá-la. Democracias não caem de uma hora para outra: são desconstruídas aos poucos, tijolo por tijolo, por mãos pacientes. O que o domingo revelou foi o estágio avançado desse processo, conduzido há muito tempo com a cumplicidade serena de quem nunca empunhou a marreta, mas vem fomentando o projeto, fornecendo os instrumentos e o horário nobre em que transmite, com precisão didática, o passo a passo da demolição.

O país acordou do primeiro turno destas eleições de 2026 com o nome de Flavio Bolsonaro estampado como favorito no centro da cena política. Muitas redações, que por anos fingiram ser narradoras imparciais de um criminoso incêndio, se alternam agora entre o riso jocoso que tentam disfarçar e o ensaio de um espanto teatral, com o olhar arregalado de quem descobre o fogo depois de ter fornecido o fósforo.

Há algo de profundamente macabro, de cerimonial fúnebre celebrado pelos próprios carrascos de paletó, nesse gesto de muitos que perguntam “como foi possível?” sem mencionar que passaram as últimas décadas distribuindo, em parcelas diárias e com a seriedade de um noticiário meteorológico, o combustível da catástrofe.

E não, não começou ontem. Começou em cada manchete que deu ao ataque às instituições a dignidade de “polêmica legítima”, em cada matéria, reportagem, comentário ou editoria que converteu a defesa da ordem constitucional em “posição partidária”, em cada mesa de debate em que o golpismo teve espaço e se sentou à direita da legalidade com a liturgia de quem cumpre um expediente burocrático.

Começou, e convém não esquecer, na cobertura do impeachment de 2016, quando a grande imprensa tratou a deposição de uma presidenta eleita, a primeira mulher a governar o Brasil, como um ato de assepsia institucional, condenou-a nas manchetes muito antes do veredicto e apresentou a ruptura como trâmite e o golpe como higiene. Foi ali que o autoritarismo aprendeu a falar a língua da legalidade, a vestir o terno do devido processo enquanto desmontava a soberania do voto, e a imprensa, mais uma vez, forneceu o palco, o coro e o verniz.

A grande imprensa comercial brasileira nunca foi imparcial, e a sua incapacidade quase sublime de reconhecer o próprio viés não é ingenuidade: é o disfarce perfeito, porque quem o veste sem saber que o veste não executa os gestos de quem representa, não há ensaio, não há a fresta por onde a encenação se denuncia, e o observador, diante de tamanha naturalidade, baixa a guarda. Quem se traveste de neutro não está nu; está vestido de um uniforme que tem nome, patrocínio e história, e o manto da imparcialidade, neste país, sempre foi bordado com as iniciais de quem paga a fatura.

A falsa equivalência foi o instrumento canônico dessa liturgia. Colocar no mesmo prato da balança o incendiário e o bombeiro, o demolidor e o pedreiro, não é equilíbrio: é uma escolha, e das mais covardes que o jornalismo conhece, porque se apresenta como virtude exatamente quando pratica a traição.

O âncora que anuncia, com a solenidade de quem preside uma mesa de mediação, que “há dois lados nesta história”, quando um dos lados carrega um balde de gasolina e a história é uma casa habitada, não está sendo neutro: está assinando embaixo do incêndio com a caneta que a audiência e o faturamento exigem.

Essa simetria fabricada entre o incendiário e o bombeiro, repetida mil vezes em mil edições, funcionou como uma máquina de canonização: ao dar ao anseio autoritário o mesmo enquadramento e a mesma seriedade de quem pondera, a grande imprensa comercial não apenas registrou esse anseio, consagrou-o, naturalizou-o, domesticou-o e concedeu ao fascismo o passaporte da respeitabilidade e endereço fixo no vocabulário da normalidade.

Os pesos e as medidas, porém, nunca foram os mesmos, e essa assimetria é a marca registrada do ofício, essa profissão que se vangloria de medir certo e pesa torto desde sempre. Escrutinava-se com lupa de laboratório a vida inteira de um candidato, cada gesto, cada vírgula, cada laço familiar; para o outro reservava-se o tratamento de quem já nasceu vencedor, o editorial que lamenta no primeiro parágrafo e absolve no terceiro, a aceitação silenciosa de quem fez as contas e decidiu que contrariar o favorito custava mais caro do que servi-lo.

Relativizava-se o que não admitia relativização, atenuava-se o que exigia repúdio, e no lugar do jornalismo investigativo instalou-se uma coreografia de equilíbrio em que a ameaça à democracia foi achatada até virar mera disposição de ânimo: o golpismo foi rebatizado de “radicalização”, o fascismo de “populismo”, a nostalgia da tortura de “saudade de tempos mais seguros”.

A linguagem é o primeiro território da rendição, e a imprensa entregou a linguagem antes de entregar qualquer outra coisa, entregou-a com cerimônia, convencida de que vendia moderação quando, na verdade, vendia a corda com que a democracia poderá ser enforcada.

Há, por trás de tudo, uma fisiologia que seria desonesto ignorar: a grande imprensa é uma indústria, e das mais vorazes, porque hoje não vive apenas de vender notícia ao leitor, vive de se vender a si mesma como ativo financeiro. As redações foram convertidas em peça de balanço, em objeto de especulação, em moeda de troca entre grupos econômicos; o leitor virou audiência, a audiência virou dado, e o dado virou mercadoria leiloada a quem paga mais, não a quem tem razão.

E a indústria do noticiário se alimenta de choque, de tensão, do duelo encenado que apresenta o agressor e o agredido como adversários equivalentes diante das câmeras, enquanto a audiência cresce, o caixa agradece e o balanço, no fim do trimestre, sorri.

Ninguém, nas cúpulas editoriais onde a notícia é decidida e empacotada, deseja literalmente o fim do mundo; mas todos desejam o noticiário que o anuncia, a próxima edição do apocalipse, porque o caos, hoje, já não precisa ser vendido ao leitor para render: ele sustenta a engrenagem inteira, o valor do grupo, a atenção convertida em ativo, o interesse de quem financia a redação sem jamais ler o que ela publica.

Essa gula, esse tráfico diário de pânico disfarçado de serviço público, foi o combustível que aqueceu a caldeira: foi preciso relativizar para não perder o leitor de um lado, foi preciso equivaler para não parecer alinhada ao outro, e nessa dança de calculistas cada um jurava estar apenas fazendo o seu trabalho, cada um empurrava o país um centímetro a mais para o abismo com a consciência tranquila de quem cumpre tabela e recebe por isso.

Se alguém ainda duvida de que isso é ofício antigo, que consulte os arquivos da própria história. A mesma imprensa que hoje pergunta “como foi possível”, quando não trabalhou ativamente para que fosse possível, é a mesma que, em 1964, abençoou o golpe com manchetes de primeira página, que por décadas tratou a tortura como “excessos” isolados, a ditadura como “necessidade” histórica e a censura como “custo da ordem”; é a mesma que, quando o regime resolveu que até os aliados incomodavam, aprendeu na própria pele o gosto do silêncio imposto. E não se deixe enganar pela pergunta: ela tem o tom de quem, no dia seguinte ao primeiro turno, já anunciava as manchetes do segundo com um contentamento mal disfarçado.

A mídia comercial nunca foi ingênua, nunca foi vítima, nunca foi arrastada para a contramão da história: foi cúmplice, foi lucrativa, foi pontual, compareceu a todos os encontros que o poder marcou. E quem tem essa biografia não poderá, caso o resultado do segundo turno confirme o do primeiro, reivindicar o papel de viúva da democracia com lágrimas de encomenda, porque a democracia, para ela, nunca foi um valor: foi um produto, vendido enquanto deu lucro e trocado sem remorso quando o mercado pediu outra mercadoria.

Sabemos que o espanto que algumas redações ensaiam nestes dias é, ele mesmo, um produto. Há algo de obsceno na coreografia do mea-culpa: o comentarista de sobrolho franzido, a análise sobre “o que fizemos de errado”, tudo o que poderia ser reflexão verdadeira convertido em mais um episódio da programação, mais um espetáculo rentável, mais uma forma de lucrar com a própria culpa.

Quando a grande imprensa se dedica, com a mesma maquinaria com que fabricou o resultado, a se punir em público, não está se corrigindo: está produzindo a própria absolvição, está anunciando a versão palatável da história antes que a história verdadeira seja escrita por outros, está, em suma, transformando o abismo em pauta e a cumplicidade em cotação de audiência. Ela trabalhou por este resultado, trabalhou com afinco, e a pergunta que o país lhe fará, se a tragédia se consumar, não é se estava espantada, mas se terá a coragem de assumir a culpa diante da democracia agonizante, em vez de converter a confissão em mais um produto.

E a ironia mais amarga, a que nenhum editorial tem coragem de encarar, tem o nome de um lugar que nenhum mapa oficial registra, mas que o governo de seu pai tornou célebre: o cercadinho, aquela pequena área cercada diante do Palácio da Alvorada onde o presidente falava apenas com os fiéis e mantinha a imprensa do lado de fora da grade, a uma distância que era, ao mesmo tempo, física e simbólica.

Se Flavio Bolsonaro vencer o segundo turno, os primeiros a serem amordaçados do lado de fora dessa cerca serão exatamente os que hoje se espantam. A história já ensaiou essa cena no governo do pai, quando a imprensa que o aplaudiu no palanque aprendeu, na própria pele, que o autoritarismo não distingue o adulador do crítico, que a boia estendida ao tirano é lançada ao mar no exato momento em que o barco aporta.

Não há aliança com o fascismo que o fascismo respeite; não há jornalista que o cercadinho poupe pelo fato de ter sido útil, porque a utilidade é descartável por definição, e o despotismo, quando chega, cobra de todos, começando exatamente por aqueles que o serviram. Quem se deita com o fascismo achando que pode escolher a hora de sair da cama está apenas escolhendo o lado do colchão em que será estrangulado.

A tolice profunda, trágica, quase cômica dessa estratégia é que a imprensa ajuda a construir a forca acreditando que será poupada por ter fornecido a corda. Serve aos anseios golpistas com a moderação de quem acha que pode controlar aquilo que desperta, domesticar a fera com manchetes equilibradas, escolher a tempo o lado vencedor e salvar o próprio pescoço com um ajuste de pauta.

Mas regimes autoritários não fazem distinção fina, não leem currículo, não consultam o histórico de colaboração: para eles, todo jornalista é suspeito, todo jornal é inimigo em potencial, e o cercadinho do filho será, como o do pai, o destino de quem apostou na fera e perdeu a mão para o bicho.

A imprensa que hoje se traveste de imparcial será desnudada por aqueles a quem serviu, e descobrirá, na humilhação pública e no silêncio forçado, que a neutralidade que fingiu nunca existiu, que ninguém acreditou nela, nem mesmo os que dela se serviram.

Cumpre, então, falar de culpa, essa palavra que as redações evitam como um termo técnico defunto. A imprensa brasileira carrega uma parcela do abismo em que o país se encontra, e essa parcela não é pequena nem lateral: é estrutural, é histórica, é quase fundadora. Foi ela que, em diferentes momentos, tratou a ditadura como necessidade, a tortura como excesso, o ataque às instituições como polêmica; foi ela que deu ao autoritarismo um verniz de respeitabilidade sempre que o lucro ou a conveniência pediram; foi ela que, no ciclo que agora se fechará no segundo turno das eleições de 2026, transformou a defesa da democracia em posição sectária e o ataque à democracia em opinião defensável.

A omissão também é um ato, e o silêncio tem autoria: cada matéria que amaciou, cada título que relativizou, cada equilíbrio que falseou a gravidade dos fatos deixou uma marca no resultado que aí está, e a imprensa que pergunta “como foi possível” é a mesma que respondeu, ano após ano, que não era bem assim, que os dois lados tinham suas razões, inclusive o lado que sempre quis enforcar a democracia no poste mais próximo.

Espera-se, no entanto, mesmo que inocentemente, que a grande imprensa faça agora, até o próximo dia 25 de outubro, uma reflexão profunda sobre sua atuação historicamente antidemocrática e antipovo, sobre seu papel de cúmplice relutante e lucrativo de todos os autoritarismos brasileiros.

Espera-se, porque é próprio da natureza humana esperar que o mal se reconheça no espelho e se arrependa antes que seja tarde. Mas talvez não haja tempo, e talvez a esperança seja, ela mesma, parte da comédia: instituições que falham no exato momento da prova raramente recebem da história um segundo capítulo de redenção, e o que se avizinha não é um cenário de mea-culpa e reforma interior, mas de engolimento, de cercadinho, de liberdade de imprensa reduzida a cinzas protocolares.

O arrependimento que não veio antes não virá depois, porque depois não haverá voz para pronunciá-lo; os editoriais serão amanhã reféns mudos, amordaçados pela fera que ajudaram a eleger – torçamos para que essa hipótese não se concretize –, relendo em silêncio as próprias manchetes como quem folheia a ata de um crime do qual foram, ao mesmo tempo, autores, plateia e vítimas.

Que fique, ao menos, o registro, para que não se diga que ninguém avisou. A democracia, se cair, não terá caído sozinha, e os que a verem cair, de microfone na mão e espanto no rosto, não poderão alegar ausência: estiveram presentes, estiveram moldando o vocabulário, calibrando as medidas, vestindo o manto da imparcialidade sobre o uniforme da conveniência.

E agora, diante do abismo que se aproxima, resta à imprensa pouco tempo para rever a própria contribuição na escrita do futuro do país. Caso contrário, restará a única pergunta digna do seu passado: não “como foi possível”, mas “quem fomos nós para que isto fosse possível”.

Se a resposta vier, chegará tarde; se vier, servirá aos que virão depois, aos que ainda acreditam que o jornalismo pode ser outra coisa, que a notícia pode ser um ato de coragem e não uma cerimônia de equilíbrio entre a verdade e a forca. Para estes, e somente para estes, a história ainda guarda uma página em branco. Para os outros, para os que se travestiram de neutros enquanto escolhiam de que lado ficar, restará apenas a ata do crime que ajudaram a escrever, e a lembrança de que, quando lhes perguntaram de que lado estavam, responderam com a solenidade de quem preside uma mediação que havia dois lados na história, enquanto um deles carregava a corda.