Caça às bruxas favorece o Centrão

pinheiro do vale
A caça às bruxas já começou. Embora o presidente ilegítimo Michel Temer tenha dado garantias de que não passaria o rodo sobre os remanescentes do governo da presidentedeposta Dilma Rousseff, os dedos-duros estão apontando petistas que permanecem nos cargos depois do golpe.
Nesta semana as denúncias começaram a se explicitar. O colunista Cláudio Humberto, jornalista bem informado sobre os bastidores de Brasília está dando nomes e cargos dos remanescentes do antigo regime que ainda não foram afastados, cobrando providências aos degoladores de cargos do Palácio do Planalto.
Os observadores do que estaria ocorrendo nestas águas turvas sugerem que pode ser uma manobra do “centrão” para aumentar a animosidade entre petistas e peemedebistas com a finalidade de torpedear o “acordão” entre os dois maiores partidos no Congresso para a partilha dos principais cargos nas duas casas do parlamento.
Os dois antigos aliados, compostos com o PSDB, haviam  chegado a uma fórmula para a divisão do mando no Poder Legislativo. Com isto, deixariam o volúvel “centrão” de fora, extinguindo essa fonte de instabilidades, como se viu na gestão do defenestrado Eduardo Cunha.
A montagem dos grandes partidos é a seguinte: no Senado, PMDB fica com a presidência com o senador Eunício Oliveira, do Ceará, representante do esquema sarneysista, com apoio de Renan Calheiros; a vice-presidência, cargo importante, mas sem poder de gestão, com o senador Paulo Bauer, do PSDB de Santa Catarina, contemplando o Sul. Ao PT caberia a secretaria geral.
Na Câmara, algo parecido: na presidência o deputado carioca Rodrigo Maia, do DEM (ex-PFL), partido satélite do PSDB, algo semelhante ao PCdoB na sua aliança eterna com o PT. O vice   poderia caber ao PMDB e a secretaria geral também ao PT. Ao “centrão”, nas duas casas,caberiam as posições periféricas nas mesas diretoras.
Essa partilha de poder é coerente, pois ao PT, partido de oposição, cabe os cargos mais importantes para a administração das duas Casas, enquanto os governistas ficam com o
comando das pautas de votações. Como disse um senador: “A Secretaria Geral é a prefeitura do Congresso”. Ou seja, os secretários gerais administram uma população de mais de 25 mil funcionários, um númer  equivalente ao efetivo da Marinha de Guerra ou do tamanho da força de trabalho da Volkswagen. Sem falar do orçamento, maior que de muitas capitais de estados.
Tudo certinho: só faltou “combinar com os russos”. Uma fração do PT não está engolindo o “acordão” da cúpula e ameaça somar-se ao “centrão”, só para complicar a vida do governo, que se veria diante de uma direção incontrolável no Legislativo, tal qual Dilma.
Isto explica a dúvida especulada na abertura desta matéria. Caçando as bruxas petistas o governo estaria criando uma área de atrito que poderia desaguar na implosão do “acordão”, favorecendo o “centrão” e enfraquecendo a esquerda orgânica.
O “centrão”, é bom lembrar, origina-se numa anomalia recente na história política do Brasil. No passado, o poder central já se defrontou com a fragmentação em partidos estaduais, que formavam frentes nacionais, tal como hoje é o PMDB. Este novo bloco, entretanto, deriva de partidos municipais.
As tais legendas de aluguel nascem nos municípios para compor alianças para prefeituras ou abrir espaço para candidaturas avulsas. Quando se apresentam em nível estadual já se transformam num ente esdrúxulo. No âmbito federal, os partidecos se convertem em balcões de negócios, imprimindo um fisiologismo até então desconhecido.
Estas forças, o chamado “centrão”, são insensíveis e impermeáveis ao chamado interesse nacional. Por isto os grandes partidos se propuseram a desidratá-lo e, com a reforma partidária já aprovada no Senado, extinguir de vez.
Nessa reforma não seria difícil acomodar parlamentares despartidarizados nas grandes legendas sobreviventes. Assim como seus partidos de aluguel, também os parlamentares serão sensíveis a convites apetitosos.
O grande problema, aí, não é na direita, mas na esquerda. Como absorver os pequenos partidos ideológicos e históricos?
São históricos porque têm divergências ideológicas de muitas décadas. É uma questão tão grave que já se propôs uma lei especial para eles. Mas se um dispositivo salva um pequeno partido da esquerda, a legislação valeria para a direita. Com isto, a reforma vai por águas abaixo.
Aí está um problema insolúvel. Traz de volta a sentença vocalizada e nunca escrita por Gaspar Silveira Martins: “Ideias não são metais, que se fundem” ou “ Ideias não são metais que se fundem”. Persiste a dúvida da vírgula.

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