Carta de Barcelona

Neste domingo, dia 20 de novembro, cumpriu-se 30 anos da morte de Franco. Mesmo passadas três décadas do falecimento do ditador, a sociedade espanhola continua dividida quanto ao papel que o franquismo representou para o país. Em Madri e no Vale dos Caídos, onde está o mausoleu que o ditador mandou levantar para guardar seus restos mortais, centenas de falangistas reuniram-se para homenagear a memória de Franco. Enquanto que, na maioria da cidades espanholas, o que se viu foram gestos de desaprovação aos anos de chumbo.

Essa divisão da sociedade espanhola também se nota na política de hoje em dia, entre os simpatizantes do Partido Popular (PP) de centro direita e do Partido Socialista Obrero Español (PSOE) de centro esquerda, agora no governo. Todas as iniciativas políticas dos socialistas são torpedeadas no congresso pelos populares. A última, é a proposta de um novo estatuto para Catalunha. Espanha é um país distribuido em 17 comunidades autônomas que gozam de uma grande autonomia. Têm leis próprias, uma espécie de constituição (estatuto), que regulam suas relações com o estado espanhol e com a União Européia.

O estatuto de Catalunha é de 1978, logo depois da volta da democracia em 1975, quando da morte de Franco. Estava pactado entre os grupos políticos espanhóis que nesta legislatura começariam as reformas dos estatutos. O bascos tentaram o seu, no ano passado, mas foi rejeitado pelo congresso espanhol. Agora os catalães estão tentando pactar com o restante da espanha o seu. A principal briga é semântica. Os catalães dizem que são um país que está dentro da Espanha, portanto são uma nação dentro da nação espanhola e querem colocar isso no seu estatuto. Mas a constituição espanhola diz em seu artigo segundo que Espanha é uma nação indivisível e que, por isso, é a única nação que cabe dentro de Espanha.

Parece pouca coisa, mas não é. Europa é um continente muito sensível aos nacionalismo, como nos recorda o extermínio na Bósnia, na década passada. A crispação é de tal magnitude que chega a provocar risos, pelo menos para alguns. Existe um boicote aos produtos catalães em várias regiões espanholas, sobretudo com o cava (champanha) que é o produto estrela aqui da Catalunha. Com a proximidade das festas de fim de ano, os empresários catalães estão com os pelos em pé com a pouca procura pelo seu cava. Nem para brindar a entrada de um novo ano, castelhanos e catalães conseguem alcançar um acordo.

A única coisa capaz de relaxar um pouco a animosidade entre os dois bandos parece ser o futebol bem jogado. Depois do segundo gol do Ronaldinho, no clássico de sábado, em Madri, onde o Barcelona goleou o Real Madri por três a zero, os sócios do Real Madri aplaudiram, em pé, a sensacional jogada do atleta gaúcho. Feito que só havia ocorrido uma vez antes, quando o mesmíssimo Diego Maradona marcou outro gol de placa para o Barcelona, no estádio Santiago Bernabéu.

Rivadavia Severo*

* Jornalista

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