Categoria: Análise&Opinião

  • ELMAR BONES / Mino Carta, mestre de todos nós

    Mino Carta não gostava de ser chamado de mestre, mas ele não foi outra coisa senão o grande mestre de duas gerações de jornalistas brasileiros, entre os quais orgulhosamente me incluo.

    Tinha 24 anos, era um “foca” provinciano quando o conheci, em São Paulo, no curso da Editora Abril, em 1968. Ele formava a equipe que ia fazer a Veja.

    Lembro de sua figura elegante, um Mastroiani, rumo à sua sala no fundo da redação, no sexto andar da Abril, onde ele reuniu uma seleção de editores de primeira linha: Sérgio Pompeu, Luís Garcia, Renato Pompeu, Raimundo Pereira, Sebastião Gomes Pinto, Leo Gilson Ribeiro, José Ramos Tinhorão, Carmo Chagas, Geraldo Mayrink, Ulisses Alves de Souza, Bernardo Kuscinsky, Roberto Muggiatti, Henrique Caban… Mino Carta regia aquele grupo, brilhante e heterogêneo, com  maestria.

    Não era diretor de ficar no gabinete dando ordens. De portas abertas, discutia em voz alta, às vezes italianamente aos gritos, raramente perdendo o humor. Acompanhava todo o processo, da reunião de pauta ao fechamento. Em cima de sua mesa tinha sempre os diagramas, onde ia desenhando página a página da revista.

    Fiquei quatro anos na Veja e posso dizer que ali me formei. Com Mino e aquele grupo, percebi o jornalismo, com suas responsabilidades, seus riscos e suas ilusões.

    Não tínhamos proximidade e, nos últimos anos, nos encontramos esporadicamente. A última vez que fui a São Paulo, em julho, ele já não recebia visitas.

    Como profissional, porém, acompanhei-o sempre, como uma referência segura e inspiradora, que ele foi e será sempre para todos os que exercem esse difícil e espinhoso ofício de “informar o que acontece”.

    (Texto que escrevi a pedido do meu amigo Luís Augusto Fischer para a revista Parêntese)

  • Ruy, Jaguar, Verissimo, Mino Carta… logo agora?

    Sempre achei que certas pessoas alcançam uma condição que se tornam arquétipos e não deveriam morrer ou, pelo menos, deveriam ter um prolongado tempo para servir de referência a muitas gerações, para que a evolução fosse mais rápida.

    Claro, não é assim e cá estamos nós, no espaço de um mês,  diante da morte do Ruy Ostermann,  do Jaguar,  Luis Fernando Verissimo, Mino Carta…

    A morte não os aniquila, ainda bem. Restam suas obras, seus ensinamentos, sua inspiração.  Mas logo agora?

    Neste momento em que o Brasil vive o maior desafio de sua história perder alguns de seus melhores intérpretes! É sacanagem! (E.B)

  • Risco de guerra aberta na América Latina

    HENRIQUE CASANOVA*

    Sob o pretexto de combater o narcotráfico, os Estados Unidos decidem aumentar sua presença militar na América Latina.

    A manobra visa reforçar sua dominância e influência em territórios tradicionalmente vassalos. O movimento
    ocorre, porém, com políticas extremadas com as quais precisamos tomar muito cuidado.

    Caça a Nicolas Maduro
    Trump coloca a cabeça de Nicolas Maduro literalmente a prêmio, num episódio de relações internacionais que beira o absurdo para as tradições latinoamericanas.

    As razões dessa tensão são, porém, há muito conhecidas. A Venezuela reúne dois fatores que a colocam em irremediável rota de colisão com os Estados Unidos: primeiro, ela possui as maiores reservas de petróleo
    do mundo, mais até que a Arábia Saudita ou o Iran; segundo, o setor foi estatizado por Hugo Chaves em 2009 e até hoje as empresas norteamericanas não puderam se apropriar do importante recurso venezuelano.

    É famoso o discurso de Trump, em 2023, num comício do partido Republicano na Carolina do Norte, onde ele diz que durante seu primeiro governo a Venezuela estava a ponto de colapsar e ele poderia ter se apropriado do petróleo, criticando o governo Democrata que ainda precisava comprá-lo.

    Terrorismo na América Latina
    Por outro lado, os EUA pressionam as legislações do continente, inclusive as do Brasil, a classificar as facções do crime organizado como “Terrorismo”.

    Isso não é mero debate técnico. Segundo a lei dos Estados Unidos eles podem “legalmente” fazer intervenções militares em qualquer outra nação se a causa for o “combate ao terrorismo”.

    Importante lembrar que mesmo em meio às turbulências do tarifaço ao Brasil, existe um exercício militar do exército norteamericano marcado para novembro na caatinga brasileira.

    Por que agora?

    É interessante pontuar os contextos dessa investida norte-americana contra nosso continente. Lembremos primeiro da retumbante derrota da Otan na Guerra da Ucrânia e de como os EUA parecem finalmente dispostos a cessar o
    conflito sem que a Rússia tenha sido fragilizada economicamente.

    Já no Oriente Médio, o Imperialismo norte-americano parece ter ficado surpreso com a capacidade destrutiva dos contra-ataques iranianos a Israel, de modo que o cessar fogo não deverá ser quebrado naquele conflito nos
    próximos meses e quem sabe anos.
    A questão do Taiwan, onde os EUA esperavam poder iniciar uma guerra por procuração contra a China, semelhante ao que fazem na Ucrânia contra a
    Rússia, perdeu força em função do Genocídio em Gaza e a ideia de guerra aberta contra a China parece ter sido temporariamente abandonada pela Casa Branca.
    É nesse contexto que os EUA voltam-se ao seu quintal, tentando garantir seus interesses na América Latina e, com presença militar, atrapalhar os negócios da China no continente além de, quem sabe, finalmente emplacar as desejadas trocas de regime nos países que tem mostrado maior resistência aos seus interesses (a Venezuela com seu petróleo, principalmente).

    *Jornalista e Geógrafo

  • GERALDO HASSE / JÁ 40 ANOS

    Algumas vezes brinquei com Elmar Bones quando ele voltava animado de um almoço com alguma figura importante do Rio Grande do Sul. Após ouvi-lo comentar a perspectiva de fazer uma grande matéria que talvez abrisse as portas para uma série histórica de reportagem ou até um livro, como tantos feitos por JÁ Editores no século XXI, eu lhe perguntava se, findo o papo, não houve clima para colocar na mesa o tema crucial da sobrevivência da imprensa alternativa. “Pra tratar disso seria necessário um segundo encontro… e depois outro”, ele dizia, certo de que um jornalista de verdade não pode carregar também, além do caderninho de anotações ou do gravador, um talão de nota fiscal. Era uma brincadeira com certo fundo de verdade.

    A imagem do dublê de repórter/corretor de reclames é exagerada, especialmente na imprensa alternativa, mas vale aqui como ilustração do dilema do jornalista autônomo ou independente que precisa fazer das tripas coração para sobreviver ou, na velha metáfora futebolística, bater o escanteio e correr pra cabecear. É impossível fazer as duas coisas ao mesmo tempo, pois sabemos que boas ideias não remuneram o capital. Prevalece a picaretagem.

    Todos nós estamos cansados de saber que não é fácil arranjar aliados e que poucos, muito poucos se dispõem a apoiar projetos editoriais de longo prazo. Sem parceiros, la nave no va. E aqui estamos vendo o JÁ peludiando pra se manter vivo.  E lá se foram 40 anos.

    Façamos um exercício rápido de memória: quantas organizações genuinamente jornalísticas se mantêm vivas no Brasil? A maior parte sucumbiu ou está acuada economicamente nesse momento de transição tecnológica.

    O JÁ faz parte de um grupo de blogues e sites nanicos que sobrevivem basicamente graças ao apoio de leitores, mas cabe lembrar que resta outro caminho possível para sustentar o jornalismo tal como foi ensinado nas faculdades e praticado em boas casas do ramo: é o cooperativismo, o único capaz de unir jornalistas, artistas, publicitários, acadêmicos, anunciantes e leitores na busca democrática de um mundo mais igualitário, sustentável e feliz.

    Neste momento em que o fascismo bate nas portas ameaçando banir os direitos fundamentais, me apraz lembrar a experiência da Coojornal, fundada em agosto de 1974 por algumas dezenas de jornalistas e logo incorporando centenas de associados dentro e fora do Rio Grande.

    Sim, nossa cooperativa teve dissenções internas mas faliu mesmo por ação da ditadura militar, que coagiu o mercado a deixar de apoiar aquele modelo singular de negócio. Agora que estamos sob o jugo das grandes plataformas tecnológicas inspiradas pelo ideário neoliberal, creio portanto que faz sentido pensar em formas cooperativas de criação e debate de informações e ideias.

  • PAULO BRACK / Quem ganha com a pressa na decisão sobre a mineração de areia no Guaíba?

    A exploração de areia no rio Jacuí foi desastrosa e causou desbarrancamento e alterações na margem do rio, com prejuízos à vegetação ribeirinha. O IPH da UFRGS alerta para a necessidade de mais estudos para que este tipo de atividade, se possível, fique restrita a determinadas áreas. Mas estes estudos não foram realizados com o tempo e a profundidade necessários.

    A pressa é inimiga da precaução. O lobby da mineração e da construção civil é pesado e esperava esta oportunidade. O  governo estadual tem que deixar de submeter a área técnica da Fepam e Sema para os negócios imediatistas de sempre. A SEMA perdeu e se desvirtuou quando foi incorporada, nos governos de Eduardo Leite, a área de Infraestrutura, como prioridade.

    A linha neoliberal atual provoca descontrole de serviços públicos, o que já começou a ocorrer em 2017, com a extinção da FZB, FEE, CIENTEC, etc, e com as recentes privatizações de empresas públicas de água (Corsan) e energia (CEE).

    Não é possível que se admita submeter ingerência política nos estudos técnicos do Zoneamento Ambiental do Litoral Norte, como ocorreu ha cerca de dois anos.

    Não é possível que se admita o atual enfraquecimento dos Polígonos de Exclusão de Pulverização Aérea de Agrotóxicos, em Nova Santa Rita, deixando vulneráveis produção agroecológica em assentamentos e milhares de pessoas sujeitas a estes venenos.

    Não é possível que se permita que o Setor da Celulose e Madeira elabore e conduza a aprovação, há poucos meses, de um novo Zoneamento Ambiental da Silvicultura, que recebeu severas críticas do corpo técnico da Fepam, do Ibama e de entidades ambientalistas, com risco de destruir ainda mais o que resta do Pampa.

    Não é possível que se interrompa o necessário Zoneamento Ecológico-Econômico do RS, iniciado em 2017, congelado a partir de 2019, nos governos de Eduardo Leite, sem explicação que não seja, subliminarmente, não atrapalhar os negócios imediatistas da elite econômica do Estado, em especial a expansão das monoculturas de soja que já alcançam 6,7 milhões de hectares no RS.

    Não é possível repetir a violência que ocorreu em 2020, na aprovação da flexibilização do novo Código Estadual de Meio Ambiente, submetido a regime de urgência em 2019, não permitindo sequer que o CONSEMA tivesse oportunidade de discuti-lo  à semelhança do que aconteceu com a mordaça imposta à área técnica da SEMA e FEPAM, resultando na perda de centenas de artigos e itens mais protetivos do Código anterior (Lei 11.520/2000).

    Não é possível que o tema da mineração de areia, no curso d’água Guaíba, seja feito, mais uma vez, na pressa, tendo em conta, inclusive, a presença de metais pesados depositados em seu fundo. Vale a pena trazer metais pesados ao corpo d’água? Como ficarão a mata ciliar, os juncais, os sarandizais e a condição de pesca artesanal em suas margens?

    Não é possível que se naturalize mais um processo apressado, como ocorreu nos regimes de urgência que resultaram na aprovação do PL dos venenos, do PL da irrigação, do PL da facilitação das podas de árvores para o cabeamento aéreo em prol das empresas de transmissão e distribuição de energia elétrica.

    Não é possível admitir que setores econômicos possam seguir tendo supremacia sobre a área ambiental, contrariando a Constituição Federal, e submetam as políticas públicas a seu interesse imediatista, concentrador e destruidor do meio ambiente.

    Este contexto de atropelos neoliberais, numa consulta de última hora, para um tema tão delicado da mineração de areia em um sistema profundamente complexo do curso de água Guaíba, poderá tornar-se em mais uma etapa para o desfazimento das políticas públicas ambientais ainda vigentes.

    Um outro mundo é impossível quando a economia se desprende dos limites da natureza, como uma locomotiva sem freios, gerando destruição ecológica de grande dimensão e provavelmente sem volta para a qualidade socioambiental atual e futura do Estado do Rio Grande do Sul.

     

    Paulo Brack
    Professor, vereador de Porto Alegre

  • A solidão no poder: Lula contra todos os partidos

    Paulo Baía *

    O Brasil político de agora é uma máquina de fingimentos. Lula, no centro da engrenagem, governa com ministros que representam partidos que, na prática, não o apoiam. Ocupam espaços no Executivo, circulam com a liturgia do poder, mas no Congresso Nacional agem como sabotadores discretos. A base que o sustenta é a mesma que o solapa. A coalizão formal não passa de um corpo sem nervos, sem alma, sem fidelidade. É uma dança sem música entre o presidente e forças que não querem dançar, só arrancar concessões.

    Essa encenação diz muito mais do que parece. Trata-se de uma forma de dominação que opera por dentro da institucionalidade, esvaziando-a de sentido. O presidencialismo de coalizão, antes pragmático, tornou-se um jogo de sequestro e resgate. O governante se vê obrigado a pagar resgates diários para manter o governo refém de pé. Ministérios são entregues como moeda de troca, mas não há entrega política em contrapartida. Há apenas o parasitismo elegante de quem finge governabilidade para manter as aparências enquanto o poder real escorre por entre os dedos.

    Lula, nesse cenário, emerge como uma figura trágica: o político mais experimentado do país, com um vínculo afetivo profundo com os setores mais pobres da população, mas isolado no comando de um governo que é dele e não é. Um presidente que fala para o povo, mas é silenciado por um Parlamento que fala apenas para si. Ele carrega um mandato que lhe foi dado pelo voto, mas está cercado por forças que desconfiam do voto como expressão legítima da soberania popular. O Congresso atual é um espelho invertido da vontade coletiva: projeta um país que não existe e combate o país que existe.

    Essa forma de operar o poder é mais do que cálculo. É uma cultura, uma prática social arraigada, uma antropologia do cinismo. Os partidos se tornaram agremiações negociantes, onde o conteúdo ideológico foi dissolvido na ambição por espaços. Não há aliança possível com projetos que desejam o colapso silencioso do próprio governo que integram. A política virou um mercado onde se vende estabilidade a preços exorbitantes e se entrega sabotagem com recibo institucional. A traição é sistemática, mas cuidadosamente protocolada.

    O que torna essa situação ainda mais brutal é o fato de que não há exceções. Nenhum partido com representação no Congresso Nacional atua hoje com coerência em defesa do governo que ajudou a compor. Os que indicaram ministros estão mais interessados em benefícios orçamentários do que em apoiar efetivamente um programa de governo. Os que se dizem de centro apenas calculam seus ganhos em silêncio. E os que integram o Executivo se tornaram operadores do seu próprio projeto, divorciado da Presidência. Nenhum partido, de fato, se compromete com a travessia política de Lula. Todos, de maneira direta ou omissa, colaboram para a erosão de sua autoridade.

    A resposta possível a esse estado de coisas seria a ruptura com o pacto podre. Não no sentido antidemocrático da ruptura institucional, mas na dimensão simbólica de abandonar a hipocrisia. Convocar o povo, não para protestos desesperados, mas para a construção de uma nova linguagem política. Uma linguagem que não aceite mais a conciliação como destino, mas que reivindique o conflito como terreno legítimo da transformação. Isso exigiria um gesto raro: renunciar à zona de conforto do governismo e encarar de frente a realidade brutal do país que se nega a mudar.

    Há um poder novo que só emerge quando tudo parece perdido: o poder de quem não deve nada ao cinismo. Um presidente cercado por inimigos elegantes, que vestem a institucionalidade como disfarce, pode descobrir nesse cerco uma liberdade radical. A liberdade de nomear as coisas como são. A coragem de dizer ao povo que o governo está cercado por aqueles que se beneficiam do fracasso do país. Não se trata de heroísmo, mas de lucidez. A lucidez de quem compreende que a governabilidade que hoje se oferece ao Brasil é um pacto de mediocridade.

    A corrosão da democracia brasileira não se dá apenas pelo autoritarismo explícito, mas pela captura do processo democrático por interesses privados. O Congresso se converteu numa federação de negócios, impermeável à dor social, alheio ao povo e devotado apenas à manutenção de seus próprios privilégios. Suas decisões raramente ecoam as urgências do país. É um poder que fala uma língua que ninguém mais entende, porque já não fala com ninguém.

    Romper esse ciclo exige mais que força. Exige beleza, forma, narrativa. É preciso reencantar a política com um discurso que não tema a frontalidade. O Brasil precisa ouvir, com clareza, que está sendo governado contra si. E que há, sim, uma saída: não pelos atalhos do autoritarismo, mas pela reinvenção do poder como espaço de verdade. A verdade, nesse caso, é cruel, mas libertadora: o presidente está só. E justamente por isso pode ser mais livre do que nunca. Porque nada mais o prende aos ritos de uma aliança que nunca existiu.

    O país está diante de um espelho. De um lado, a imagem oficial da institucionalidade, feita de siglas ocas e discursos calculados. Do outro, o reflexo cruel de um governo que tenta sobreviver num ambiente que o quer sangrar até o fim. Lula ainda é o único elo entre o povo real e a política possível. Mas esse elo está sendo testado, esticado até o limite. A história não perdoa aqueles que fingem que tudo está bem quando o mundo desmorona. Talvez tenha chegado a hora de não fingir mais. A solidão do poder pode ser, também, o início de sua purificação. E essa solidão, hoje, é absoluta: Lula está só diante de todos os partidos. E diante da história.

    * Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

  • Armazenagem: um gargalo que ameaça o futuro do agro

    Paulo Bertolini*

    O agronegócio brasileiro vem crescendo a cada safra, ampliando constantemente sua capacidade de produção. De acordo com as informações divulgadas pela Companhia Nacional de Abastecimento, a safra de grãos 2024/2025 está estimada em 330,3 milhões de toneladas. Se confirmado, será o maior volume já registrado na série histórica da companhia. Isso representa um aumento de 32,6 milhões de toneladas na comparação com o ciclo 2023/2024.

    No entanto, por trás desses expressivos números esconde-se um gargalo estrutural crônico e perigoso: a incapacidade do país de armazenar adequadamente o que é produzido.

    Com uma capacidade estática de armazenagem de só 210 milhões de toneladas, considerando toda a infraestrutura construída até hoje, o Brasil enfrenta um déficit alarmante de 120 milhões de toneladas.

    Esse número não é só uma estatística, é um freio ao nosso potencial e um risco à segurança alimentar e econômica do Brasil.

    A matemática é clara e preocupante. Para evitar que o déficit aumente, o Brasil precisaria investir cerca de R$ 15 bilhões por ano em novas estruturas de armazenagem. Contudo, estamos longe de alcançar essa meta.

    A cada colheita recorde, o problema se agrava e ignorar essa necessidade compromete a rentabilidade do produtor e a estabilidade de preços para o consumidor. A capacidade de formar estoques reguladores é uma ferramenta vital para controlar a inflação de alimentos e garantir o abastecimento, especialmente em tempos de instabilidade climática e geopolítica.

    O PCA (Programa de Construção e Ampliação de Armazéns) foi criado para mitigar esse problema, oferecendo linhas de crédito como o “PCA Grãos”, com juros de 7% ao ano e prazos estendidos para estruturas de até 6.000 toneladas. Na prática, porém, o acesso a esses recursos é um desafio, principalmente para os pequenos e médios produtores.

    A falta de recursos suficientes alocados ao programa e a excessiva burocracia dificultam o acesso ao financiamento por quem mais precisa. O custo elevado da implantação, cerca de R$ 1.500 por tonelada de capacidade, considerando equipamentos, montagem, energia e obras civis, contribui para a perpetuação do déficit.

    Outro agravante é a má distribuição geográfica das estruturas de armazenagem. Só 15% dos silos estão dentro das fazendas, onde seriam mais eficazes. Os 85% restantes concentram-se em áreas urbanas, complexos industriais e portos. Essa distância entre a colheita e o armazenamento causa perdas significativas de grãos, eleva substancialmente os custos logísticos com frete e cria um fluxo ineficiente em toda a cadeia produtiva.

    O produtor, sem a possibilidade de estocar a safra na origem, fica pressionado a vender rapidamente durante o pico da colheita, muitas vezes a preços inferiores, sobrecarregando o sistema de transporte e perdendo poder de negociação.

    O contraste com outros grandes produtores agrícolas, como os Estados Unidos, é enorme. Lá, a capacidade estática de armazenagem supera a produção de uma safra inteira, com mais da metade dos silos localizados dentro das propriedades rurais. Esse modelo confere maior eficiência e controle ao produtor, beneficiando o país como um todo.

    É preciso encarar com seriedade o fato de que o deficit de armazenagem é um dos maiores entraves ao desenvolvimento sustentável do agronegócio brasileiro. Não basta produzir em volumes recordes se não formos capazes de administrar essa produção de forma eficiente, estratégica e inteligente.

    A expansão da capacidade de armazenagem, especialmente nas propriedades rurais, deve ser tratada como uma prioridade nacional. Isso exige mais recursos para programas como o PCA, desburocratização do acesso ao crédito e novos modelos de incentivo e investimento público-privado.

    Superar o gargalo dos silos é fundamental para destravar o pleno potencial do agro, garantir a segurança alimentar e fortalecer a economia brasileira. Manter o cenário atual é aceitar um futuro de ineficiência, perdas e vulnerabilidade.

    *Paulo Antonio Pusch Bertolini, 57 anos, é empresário, presidente da Abramilho (Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo).

  • GERALDO HASSE/ A imprensa e a medalha Alberto André

    Assisti de casa, on line, à cerimônia de entrega da  medalha Alberto André, da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) a  onze jornalistas gaúchos*.

    Foi no final da tarde da segunda-feira, 7 de abril, no Palácio da Justiça em Porto Alegre. Eu deveria escrever um artiguete impessoal, conforme a velha regra da imprensa, que só aos cronistas permitia textos na primeira pessoa, mas deixei-me levar por uma reflexão talvez impertinente sobre as similitudes entre as atividades de jornalistas, juízes e policiais, três categorias que dependem de audiências, escutas, investigações, oitivas e da busca de provas para o sim e o não das coisas, dos fatos e das versões.

    Sim, objetividade, impessoalidade e imparcialidade são as regras principais a serem observadas na prática do jornalismo, no exercício da magistratura e também nos mistéres da polícia.

    Então, que este artigo se transmute em crônica e, como tal, prime pela leveza e deixe cair apenas um ou dois relhaços no lombo de quem se bandeou para “o outro lado” do balcão.

    Numa solenidade como esta que envolveu a ARI e o Judiciário gaúcho, aceita-se como normal certo exagero na forma como se apresentam as pessoas agraciadas em nome de Alberto André, o jornalista que deu nome à medalha.

    Enaltecidas em seu fazer profissional, as figuras escolhidas se põem nervosas e acabam não dizendo o que pensam ou esquecem o que pretendiam dizer.

    Na sucessão de falas ocorrida no evento do Dia do Jornalista, o saldo foi bastante positivo: após duas horas de escuta, até um veterano no metiê pode se sentir estimulado a continuar nessa luta rica em perdas e danos para a maioria dos praticantes do jornalismo. Foi como se declarou Elmar Bones, 81 anos: e ele bem que poderia ter aproveitado o cenário para se queixar de ter sido vítima de decisões judiciais negativas em relação a reportagens impecáveis do jornal JÁ (caso Rigotto e caso Sanfelice, para citar os mais clamorosos).

    Seriam queixas justas, ou até caberia um desabafo (“O quê estou a fazer neste palácio que ignora a imparcialidade com que trabalho?!”), pois uma vez foi preso durante a ditadura por divulgar fatos históricos como editor do Coojornal, o mensário que marcou época pela combatividade ao lado da imprensa nanica.

    No contexto de crescente atordoamento dos jornalistas e de degradação da imprensa perdida no nevoeiro imposto pela mídia eletrônica, parece que só se consideram vitoriosos e gratificados os que se desviaram da trilha principal e aderiram a práticas viciosas, esquecendo que o objetivo maior do jornalismo e dos meios de comunicação social é servir ao interesse público. Fora daí, não podemos esquecer que tudo o mais é falsificação, merchantagem, enganação, panaceia. “Sem anistia”, como encerrou sua fala o octogenário Antonio de Oliveira, com a medalha da ARI no peito. (GH)

    *Foram homenageados: Alisson Coelho, Analice Bolzan, Ana Amélia Lemos, Antonio Oliveira, Elmar Bones, Fernando Zanuzo, Gabriela Mendonça, Mary Silva, Romar Beling, Tania Moreira e Ricardo Chaves (in memorian)

  • Ricardo Chaves, Kadão: anotações para um perfil

    “Morreu o Kadão”!

    Estava num bar no Bom Fim com Jorge Polydoro, quando ele recebeu a notícia no celular. Minha memória disparou, vi o menino,  filho do Hamilton Chaves, na sede da Ecad no centro de Porto Alegre, em 1967.

    Hamilton, jornalista, compositor, vereador, cassado em 64, estava empenhado, junto com Lupicínio Rodrigues, na valorização do trabalho dos músicos locais.

    Tentavam organizar a sociedade arrecadadora de direitos autorais, que não tinha representação no Rio Grande do Sul. Lupicínio, na verdade, só emprestava o nome e o prestígio. Dinâmico, bem relacionado, cheio de ideias, Hamilton Chaves é que dava vida àquela pequena sala, alugada num edifício na rua da Praia.

    Kadão teria 13 anos, ia encontrar o pai no final do expediente. Fui revê-lo dez anos depois,  já como fotógrafo profissional, na Coojornal. Trabalhava na Veja, mas era sócio da cooperativa e colaborador ligado à equipe de Assis Hoffmann.

    Foi, quem sabe, o mais bem dotado herdeiro daquela tradição representada por Assis Hoffmann e que tinha raízes na Última Hora gaúcha, o mais original dos jornais da rede de Samuel Wainer.  O repórter e o fotógrafo formavam uma unidade empenhada em produzir uma reportagem.

    O fotógrafo não era mais o retratista, que trazia uma imagem formal para “ilustrar” o texto do repórter. A fotografia tinha que trazer a informação complementar ou, às vezes, a mais importante, para passar ao leitor o que realmente havia acontecido.

    O papel que, segundo Luiz Cláudio Cunha, Kadão teve no desvendamento do “sequestro dos uruguaios”, é exemplar desse novo papel dos fotógrafos na cobertura jornalística, naqueles anos remotos.

    Na passagem pela Veja, em São Paulo, convivendo no dia-a-dia com os melhores fotojornalistas em atividade no país, Kadão consolidou sua vocação. Daí em diante, cresceu exponencialmente.

    Outra característica daquele grupo, que em determinado momento se aglutinou na Coojornal, foi o espírito solidário, de generosidade, que o Kadão requintou.

    Sempre lembro o caso do Arfio Mazzei, que morreu recentemente, fotógrafo respeitado. Estava perdido na vida, teve uma chance na fotografia do jornal A Platéia, de Livramento.  Não sabia nada, nem máquina tinha. Kadão recebeu-o, ministrou-lhe um treino intensivo e, se não me engano, ainda emprestou uma câmera.

    Kadão morreu na sexta-feira, 4 de abril de 2025. Ainda está muito próximo para que possamos perceber toda a sua dimensão e seu devido lugar na história do fotojornalismo brasileiro. (Elmar Bones)

     

     

  • Por que o súbito interesse dos EUA na Groelândia?

    Por que o súbito interesse dos EUA na Groelândia?

    Henrique Casanova

    Donald Trump escandalizou o ambiente da geopolítica internacional quando declarou sua intenção de anexar a Groelândia. O Presidente norte-americano é conhecido como um excêntrico e a afirmação foi vista com certo humor por parte dos seus seguidores.

    Analistas mais bem informados, porém, rapidamente ligaram a surpreendente fala com o fato de que a Groelândia tem solo rico em minérios relevantes na produção de energias alternativas.

    A Groelândia, que é um território autônomo vinculado à Dinamarca, tem grandes reservas de minérios, alguns destes raros, necessários no desenvolvimento dos  carros elétricos. Importante lembrar que famosos bilionários do setor estão literalmente na cúpula do governo Trump. É esperado um boom de mineração naquele território para os próximos anos.

     

    Tensões com China e Rússia

    Com o progressivo recuo das geleiras, devido ao aquecimento global, as rotas marítimas do círculo polar ártico tornam-se cada vez mais navegáveis. O país com mais território nessa região é a Rússia, adversário histórico dos Estados Unidos, mas também a China (contra quem o Império norte-americano prevê uma guerra) tem o mar ártico como importante rota da sua pujante economia.

    Restringir o acesso da China àquela região é a preocupação estratégico-militar dos Estados Unidos quando falam que anexar a Groelândia é uma questão de “segurança nacional”. A intenção é ampliar a presença militar naquele território (os EUA já possuem uma base militar ao Norte da ilha). Donald Trump, em reunião com o Secretário Geral da OTAN, Mark Rutte, semana passada, afirmou que controlar a Groelândia é do interesse da segurança de todo o bloco Ocidental.

    O que pensa disso tudo o povo Groelandês?

    Uma pesquisa realizada com a população nativa em janeiro deste ano mostra que 85% da população se opõe a fazer parte dos Estados Unidos. O grupo de pesquisa Verian, endossado por jornais locais e dinamarqueses, levantou ainda que foram apenas 6% os que responderam favoráveis, com 9% de indecisos.

    Considerada a maior ilha do mundo, a Groelândia tem clima hostil, já que seu território está localizado nas altas e gélidas latitudes polares. Sua população concentra-se na costa Oeste e compõe cerca de 60 mil habitantes, a maioria da etnia esquimó “Inuíte”. Seu governo é autônomo, com parlamento próprio. O país tem sistema de saúde e ensino superior gratuitos.

    Os Groelandeses cultivam distanciamento até mesmo com a Dinamarca, almejando sua completa independência enquanto país. Seu primeiro ministro, Mute Egede, é de etnia nativa e afirmou, neste 13 de março, que “é necessário endurecer a rejeição a Trump. As pessoas não podem continuar nos desrespeitando”.