Categoria: Análise&Opinião

  • Os limites da atuação parlamentar

    Lamare Conceição Garcia

    O recente episódio ocorrido na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, onde o vereador Mauro Pinheiro (PP) retirou o microfone das mãos da vereadora Juliana de Souza (PT) durante uma sessão plenária, colocou em evidência um complexo debate jurídico sobre os limites da atuação parlamentar e a caracterização de crimes contra a mulher na política.

    O caso, que gerou a suspensão temporária dos trabalhos, agora se desloca para as instâncias de controle interno da Casa Legislativa.

    No centro da disputa jurídica está a acusação de violência política de gênero. A vereadora Juliana de Souza argumenta que o ato de “cassar a fala de uma parlamentar no uso de suas prerrogativas” configura um ataque à liberdade de expressão e à democracia, indo além de um mero incidente regimental. Sob essa ótica, o cerceamento físico do direito à palavra é interpretado como uma tentativa de excluir ou restringir o mandato eletivo feminino através de intimidação.

    Em sua defesa, o vereador Mauro Pinheiro sustenta uma tese estritamente técnica e regimental, alegando que sua conduta foi pautada pelo Artigo 192 do Regimento Interno da Câmara Municipal de Porto Alegre (RI CMPA), que trata da preservação da ordem e do foco na pauta em discussão. Pinheiro argumenta que não houve motivação de gênero, mas sim uma reação a uma manifestação que se afastava do tema deliberado naquele instante — a citação de áudios do senador Flávio Bolsonaro, em um debate sobre a Lei de Uso e Ocupação do Solo.

    Do ponto de vista procedimental, a vereadora anunciou que formalizará uma denúncia na Comissão de Ética por quebra de decoro parlamentar. Caberá a este colegiado analisar se a conduta de Pinheiro excedeu os limites da disciplina regimental para ingressar na esfera da violência política. O presidente da Câmara, Moisés Barboza (PSDB), já confirmou que dará o devido encaminhamento à representação, seguindo os trâmites previstos no regimento.

    O incidente coloca em perspectiva interpretações divergentes sobre a aplicação da legislação no ambiente parlamentar. Caberá agora aos órgãos de controle avaliar se a conduta se restringiu ao exercício da disciplina regimental ou se caracterizou violência política de gênero.

    O desfecho do processo deverá contribuir para a definição de parâmetros sobre o uso da força física e os limites da interrupção de falas no exercício do mandato, buscando equilibrar as regras internas de conduta e a proteção dos direitos políticos.

  • O microfone e a coragem performática dos homens fracos

    Há uma pergunta simples que desmonta muitos valentões públicos: fariam o mesmo com outro homem? A resposta, quase sempre, é não.

    Por Cristiano Goldschmidt

    O episódio ocorrido no dia 13 de maio na casa legislativa de Porto Alegre, em que uma vereadora teve o microfone arrancado de suas mãos e sua fala interrompida de maneira física e autoritária por um colega homem diante de dezenas de testemunhas e câmeras, não é apenas um fato isolado da brutalidade política contemporânea. É um retrato simbólico de uma doença social antiga: a coragem performática dos homens fracos. Existe um tipo específico de covardia masculina que se fantasia de firmeza, que se veste de autoridade, que se encena como virilidade, mas que, na verdade, é apenas medo transformado em agressão.

    O homem verdadeiramente seguro de si não precisa arrancar o direito de fala de ninguém. Não precisa elevar seu corpo sobre o corpo do outro para provar existência. Não necessita interromper mulheres para sentir que ocupa espaço no mundo. Quem faz isso não demonstra força; demonstra pânico. O gesto agressivo contra mulheres quase sempre nasce de uma fragilidade emocional profunda, de uma masculinidade construída sobre areia movediça, incapaz de sobreviver ao contraditório sem recorrer à intimidação.

    Há uma pergunta simples que desmonta muitos valentões públicos: fariam o mesmo com outro homem? A resposta, quase sempre, é não.

    Não fariam porque reconhecem instintivamente o risco físico, político e simbólico da reação masculina. Não fariam porque sabem quando o interlocutor pode responder na mesma moeda. Não fariam porque muitos desses homens não são, de fato, violentos; são seletivamente violentos. E existe algo particularmente repulsivo na violência seletiva. Ela não nasce da perda de controle. Nasce do cálculo. O agressor avalia quem pode constranger, quem pode intimidar, quem socialmente foi historicamente treinado a suportar humilhações sem reagir.

    É por isso que tantas demonstrações públicas de machismo carregam uma teatralidade grotesca. O homem interrompe, aponta o dedo, invade o espaço físico, grita, ironiza, desqualifica, debocha. Não porque seja forte, mas porque acredita estar diante de alguém que a cultura ensinou a silenciar. Há, nesse comportamento, uma herança antiga de uma sociedade que normalizou homens ocupando o centro da palavra enquanto mulheres eram empurradas para a margem da escuta.

    Durante séculos, mulheres foram ensinadas a falar baixo, pedir licença, suavizar opiniões, sorrir para reduzir desconfortos masculinos. Muitos homens, por outro lado, foram educados para compreender qualquer discordância feminina como afronta pessoal. Quando uma mulher fala com convicção, alguns deles não escutam argumentos; escutam ameaça. E diante da ameaça, respondem como crianças emocionalmente mal alfabetizadas: interrompendo, hostilizando, tentando reduzir a mulher novamente ao silêncio.

    O mais curioso — e talvez mais trágico — é que muitos desses homens gostam de se enxergar como defensores da racionalidade. Gostam de repetir que mulheres são “emocionais”, “exageradas”, “dramáticas”. Entretanto, basta uma mulher ocupar o microfone com firmeza para que percam completamente o domínio sobre si mesmos. A reação agressiva quase sempre denuncia aquilo que tentam esconder: a incapacidade de coexistir com mulheres que não se submetem.

    Existe uma dimensão profundamente infantil nesse tipo de masculinidade. É o menino que nunca aprendeu a lidar com frustração e cresceu acreditando que autoridade se conquista pela imposição física ou pelo constrangimento público. Muitos chegam à vida adulta ocupando cargos, usando ternos caros, pronunciando discursos sobre moralidade e respeito institucional, mas emocionalmente permanecem adolescentes inseguros buscando provar superioridade diante dos outros.

    E talvez seja justamente essa insegurança o motor oculto do machismo agressivo. Homens seguros não precisam diminuir mulheres para existir. Homens intelectualmente sólidos não sentem necessidade de calar vozes divergentes. Homens emocionalmente maduros compreendem que discordância não é humilhação. Apenas os frágeis interpretam a presença feminina autônoma como ameaça ao próprio valor.

    A violência contra mulheres nem sempre chega em forma de socos. Muitas vezes ela se manifesta em gestos aparentemente menores, mas igualmente reveladores: interromper constantemente, rir enquanto uma mulher fala, tomar objetos de suas mãos, invadir seu espaço físico, transformar o debate em intimidação corporal. São violências cotidianas porque a sociedade aprendeu a tratá-las como detalhes temperamentais masculinos, quando na verdade são demonstrações explícitas de desprezo pela autonomia feminina.

    E há algo ainda mais perverso nesse comportamento quando ocorre em espaços públicos de poder. Porque o homem que tenta silenciar uma mulher diante das câmeras não está apenas agredindo aquela pessoa específica. Está enviando uma mensagem coletiva. Está comunicando a outras mulheres que determinados espaços ainda pertencem aos homens, que a palavra feminina continua condicionada à tolerância masculina, que o direito de existir politicamente pode ser revogado pela força simbólica da intimidação.

    Por isso episódios assim produzem indignação tão profunda. Não se trata apenas de um gesto isolado. Trata-se de uma encenação brutal de uma lógica histórica: homens tentando controlar a voz feminina quando ela se torna inconveniente.

    E talvez o mais revelador seja observar como muitos desses homens reagem depois. Raramente demonstram vergonha genuína. Frequentemente tentam inverter papéis, relativizar, minimizar, alegar excesso de emoção no calor do debate. Como se o problema fosse a intensidade do ambiente político, e não a escolha consciente de transformar divergência em intimidação. Há sempre uma tentativa desesperada de preservar a própria autoimagem de homem “honrado”, “forte”, “respeitável”. Mas honra sem autocontrole é apenas vaidade armada.

    Uma sociedade madura deveria ensinar meninos desde cedo que força não é capacidade de intimidar. Força é autocontenção. É conseguir ouvir sem explodir. É sustentar divergência sem recorrer ao corpo, ao grito ou à humilhação. O homem forte não é aquele que cala mulheres. É aquele que não precisa calá-las para continuar inteiro.

    No fundo, muitos atos de machismo agressivo revelam homens aterrorizados pela igualdade. Porque igualdade exige renúncia de privilégios emocionais antigos. Exige abandonar a expectativa de centralidade automática. Exige dividir espaço, escuta e poder. E alguns homens preferem a agressividade ao desconforto do amadurecimento.

    Mas toda vez que um homem tenta reduzir uma mulher ao silêncio pela intimidação, ele acaba revelando exatamente aquilo que gostaria de esconder: sua pequenez.

  • Inverno, Memória e Pertencimento: entre a poesia e a crueldade do frio

    O inverno aquecido pelo fogão a lenha, pelo conforto e pelo afeto contrasta com a dureza do frio para quem não tem sequer abrigo

    Por Cristiano Goldschmidt
    Assim que a primeira onda de frio chegou ao Rio Grande do Sul neste início de maio de 2026 (o inverno só começa oficialmente em 21 de junho), eu tive a sensação de que o tempo havia aberto uma velha gaveta da memória. Bastou o vento gelado começar a riscar os dias e o cheiro da lenha queimando reaparecer no ar para que eu voltasse, sem pedir licença, à infância dividida entre o Oeste do Paraná e a região das Missões.
    Sou filho de pais gaúchos, nascido na comunidade de Santa Cecília, município de Missal, no interior do Paraná, onde vivi até os dezesseis anos. Em dezembro de 1992, como fazíamos todos os anos, viemos passar as férias de verão em Sete de Setembro, então pertencente ao município de Guarani das Missões. Ali acabei ficando, acolhido pelo tio Wilson, irmão de minha mãe, e por sua esposa, tia Lourdes. Em 1994, meus pais retornaram
    definitivamente ao Rio Grande do Sul, trazendo a mudança na carroceria do caminhão e uma vida inteira de afetos apertados entre caixas de papelão.
    Antes disso, eu já conhecia o frio gaúcho pelas férias escolares de julho na casa dos tios e tias – em Sete de Setembro, Santo Ângelo, Giruá, Guarani das Missões, São Paulo das Missões –, pelos galpões cheirando a fumaça e pelos cobertores de pena de ganso da casa dos avós maternos.

    A infância, para mim, sempre teve temperatura baixa. Mesmo no Paraná, onde os invernos eram menos rigorosos do que no Rio Grande do Sul, havia geadas suficientes para transformar o amanhecer em espetáculo. Eu lembro da grama branca no quintal, das mãos aquecendo no fogão a lenha, da água chiando na chaleira e do leite fervendo devagar enquanto o rádio anunciava mais uma frente fria vinda do Sul. A casa em Portão do Ocoy – minha infância e parte da adolescência foram vividas entre Santa Cecília, Dom Armando e Portão do Ocoy –, Missal, era confortável. Não havia luxo, mas havia alegria e aconchego — e isso, descobri mais tarde, vale muito. O inverno não significava sofrimento; significava proximidade. Era a estação em que a família parecia se recolher para dentro dela mesma.
    Minha mãe, professora, assava pão caseiro nas tardes frias dos finais de semana. Meu pai cuidava do fogo como quem vigia um patrimônio sagrado. O cheiro da madeira queimando se misturava ao do café recém passado e da roupa secando perto do fogão. Até hoje, nenhum aquecedor conseguiu reproduzir a sensação daquele calor amigo. Havia um ritual silencioso nos invernos da minha infância: fechar as janelas cedo, preparar a água quente para o chimarrão, ouvir o vento assobiar e perceber que, lá fora, o frio era quase um personagem rondando a casa.
    Nas férias passadas nas Missões, no Rio Grande do Sul, o inverno tinha outra densidade. Parecia mais sério, mais encorpado, mas não menos poético. Os adultos falavam da geada como quem comenta um acontecimento importante. As madrugadas eram tão frias que a fumaça da respiração parecia querer ficar suspensa no ar. Eu me lembro dos galos cantando antes do amanhecer e da cerração cobrindo as estradas de chão. Lembro dos pés congelando no assoalho de madeira e da corrida até a cozinha para encontrar o fogão já aceso pela vó.
    Talvez tenha sido ali que nasceu minha paixão definitiva pelas estações bem – ou mais ou menos – definidas. Crescer entre o Paraná e o Rio Grande do Sul me ensinou que o clima também constrói identidade. O verão tinha sua alegria espalhafatosa, mas era no inverno que a vida parecia ganhar profundidade. As conversas duravam mais. As refeições reuniam mais gente em volta da mesa. O silêncio da noite fria trazia uma espécie de
    introspecção boa, dessas que ajudam a gente a se enxergar melhor.

    Quando voltamos definitivamente ao Rio Grande do Sul, naquele início dos anos 1990, alguns parentes e amigos dos meus pais estavam fazendo o caminho contrário. Muita gente vendia o que aqui tinha e saía do Estado em busca de ampliar suas oportunidades no centro-oeste. Nós retornávamos carregando saudade e pertencimento. Eu era adolescente e poderia ter
    encarado aquilo como perda, mas não foi assim. O frio das manhãs gaúchas me dava a sensação estranha de estar em casa antes mesmo de eu compreender totalmente o que era pertencimento.
    Já adulto, a vida também me ofereceu oportunidades de sair do Sul. Algumas eram tentadoras. Havia promessas de crescimento profissional em regiões onde o inverno praticamente não existia, onde julho parecia uma continuação cansada de março. Pensei muitas vezes. Pesei salário, estabilidade, futuro. Mas nunca consegui ignorar o peso afetivo das estações na minha vida. Pode parecer exagero para quem não sente isso, mas há pessoas que precisam do inverno como outras precisam do mar. Eu precisava da neblina nas manhãs, dos ventos cortantes em dias de céu azul, do cheiro de chuva fria chegando, das árvores perdendo folhas, da sensação de recolhimento que o frio traz. Permanecer no Rio Grande do Sul foi também uma escolha emocional.
    O inverno também nos obriga a desacelerar num tempo em que tudo parece funcionar em velocidade excessiva. Talvez seja por isso que eu goste tanto dele. Há uma honestidade no frio que o verão não possui. Nos dias gelados, ninguém consegue fingir invulnerabilidade por muito tempo. O corpo pede pausa, recolhimento, abrigo. A gente aprende a respeitar limites simples: o horário em que a noite chega mais cedo, o banho quente que vira recompensa, a necessidade de estar perto de alguém ou de alguma lembrança que aqueça. O inverno reduz os excessos e valoriza o essencial. Uma caneca quente entre as mãos pode significar mais conforto do que muitos luxos acumulados ao longo do ano.

    Com o passar dos anos, percebi também que o inverno tem uma relação profunda com a memória. Existem cheiros que só aparecem nessa época e que funcionam como portas invisíveis para o passado. O aroma da lenha queimando, da roupa guardada por meses no armário, do café passado e do chimarrão cevado ainda no escuro da manhã, tudo isso desperta lembranças que estavam quietas dentro da gente. Talvez porque o frio nos torne mais introspectivos, mais atentos ao que sentimos. No verão, a vida parece acontecer para fora; no inverno, ela acontece por dentro. E nesse movimento interior, reencontramos pessoas que já partiram, casas que já não existem e versões antigas de nós mesmos que permanecem vivas em algum canto da memória.
    Há ainda uma beleza silenciosa na paisagem do inverno gaúcho que sempre me emociona. A cerração cobrindo os campos, as árvores despidas ou as que só dão frutos nesta estação, o brilho branco da geada antes do sol nascer, tudo parece lembrar que a natureza também possui seus períodos de recolhimento e pausa.
    Vivemos numa época em que se cobra produtividade permanente, entusiasmo constante, felicidade exibida o tempo inteiro. O inverno ensina justamente o contrário: ensina que existem ciclos de silêncio, de espera e de interiorização que também são necessários para florescer depois. Talvez seja essa a grande lição da estação mais fria do ano — a de que até a vida precisa, às vezes, diminuir o ritmo para continuar pulsando com verdade.
    Claro que existe certa romantização no olhar de quem viveu o inverno cercado de proteção. Hoje, quando a primeira massa polar de 2026 derruba as temperaturas e as redes sociais e os grupos de mensagens se enchem de fotos de cafés especiais e cobertores felpudos, eu penso muito em quem enfrenta essa mesma estação de maneira brutal. O frio é poético quando existe estrutura. Fora disso, ele pode ser cruel.
    Há uma diferença imensa entre apreciar o inverno e sobreviver a ele. Quem tem casa aquecida transforma a estação em experiência sensorial: sopa fumegante, vinho, pinhão, pantufas, filmes, silêncio confortável. Já quem vive em moradias precárias sente o frio entrando pelas frestas como uma agressão contínua. Enquanto alguns comemoram a chegada das temperaturas baixas, outros contam cobertores, improvisam abrigo ou aquecimento e atravessam madrugadas inteiras sem dormir direito.
    Talvez por isso o inverno seja a estação mais humana de todas, porque ele escancara desigualdades. O calor excessivo incomoda a todos, mas o frio seleciona seus alvos com mais violência. Ele pune quem não tem teto adequado, agasalho, comida quente. E isso muda completamente a maneira como olhamos para ele.
    Ainda assim, continuo esperando o inverno todos os anos. Não apenas pelo conforto das lembranças, mas porque ele me devolve partes de mim mesmo. Há algo de profundamente emocional em ouvir o vento minuano soprando à noite e lembrar do menino que corria sobre a grama branca no interior do Paraná, que passava férias nas Missões, que dormia ouvindo a madeira estalar no fogão a lenha dos avós. O frio tem esse poder estranho de conservar memórias como quem preserva brasas sob a cinza.
    Nesta primeira onda de frio de 2026, enquanto o Rio Grande do Sul amanhece outra vez sob os impactos das baixas temperaturas, eu percebo que algumas escolhas da vida foram feitas menos pela razão do que pelos afetos. Permaneci aqui porque aprendi cedo que certas paisagens climáticas também viram morada emocional. E porque, apesar dos dissabores que o inverno inevitavelmente carrega, ainda encontro nele uma forma antiga de aconchego — aquela mesma que começou muitos anos atrás, entre o interior de Missal e as Missões, diante de um fogão a lenha aceso antes do amanhecer.

  • A Lei Áurea libertou os corpos, mas preservou as correntes

    Nossa herança africana ocupa um lugar ambíguo demais: é
    simultaneamente origem de orgulho cultural e alvo histórico de exclusão social.

    Por Cristiano Goldschmidt

    Há datas que permanecem suspensas sobre um país como uma pergunta sem resposta definitiva. O 13 de maio de 1888 é uma dessas anomalias históricas: um acontecimento oficialmente encerrado, mas moralmente inconcluso. A assinatura da Lei Áurea costuma ser apresentada como ponto final de uma era de brutalidade; no entanto, quanto mais observo a formação brasileira, mais me parece que aquela assinatura inaugurou outra espécie de arquitetura de exclusão — menos visível, talvez, porém mais sofisticada e duradoura.

    O Brasil aboliu a escravidão sem abolir a estrutura mental que a sustentava.

    Existe algo de profundamente desconcertante nessa constatação. Porque ela destrói a fantasia confortável de que sociedades se regeneram através de decretos. A história raramente funciona assim. Instituições mudam mais rápido do que imaginários coletivos. Leis podem ser promulgadas numa tarde; civilizações levam séculos para desaprender suas crueldades.

    Talvez seja precisamente por isso que o 13 de maio provoque um mal-estar tão singular na consciência nacional. A data não permite comemorações puras. Há sempre alguma coisa que resiste ao tom festivo, como se o próprio passado recusasse ser encerrado com solenidade oficial. E talvez recuse mesmo. Afinal, a escravidão brasileira não foi apenas um sistema econômico: foi uma pedagogia social da desigualdade. Ela ensinou o país a naturalizar hierarquias humanas, a transformar privilégios em paisagem e violência em hábito administrativo.

    Ainda hoje percebo como o Brasil possui uma estranha intimidade com a assimetria. Há uma familiaridade quase estética com o abismo social. O luxo e a precariedade convivem aqui sem escândalo verdadeiro, separados por poucos metros, como se a desigualdade tivesse adquirido estatuto de fenômeno natural, semelhante ao clima ou ao relevo. Essa normalização talvez seja uma das heranças mais profundas da escravidão: ela não moldou apenas a economia nacional; moldou a percepção moral da realidade.

    E, no entanto, — talvez resida aí o aspecto mais complexo da experiência brasileira — foi exatamente sob esse regime de desumanização que floresceu uma das culturas mais sofisticadas do mundo moderno.

    Há uma contradição vertiginosa no Brasil. O país construiu parte decisiva de sua identidade estética a partir daquilo que tentou destruir. A música brasileira, a linguagem corporal, os ritmos, as culinárias, as formas de religiosidade e a própria ideia de brasilidade foram profundamente atravessadas pela experiência africana. Isso significa que a nação se tornou culturalmente dependente daquilo que politicamente marginalizou.

    Poucas tragédias históricas produziram um paradoxo tão intenso.

    Às vezes tenho a impressão de que o Brasil jamais resolveu verdadeiramente sua relação com a herança africana porque ela ocupa um lugar ambíguo demais: é simultaneamente origem de orgulho cultural e alvo histórico de exclusão social. O país exalta o samba enquanto suspeita dos corpos que o inventaram. Celebra a capoeira como patrimônio enquanto continua tratando certos jovens negros como ameaça presumida. Consome a estética negra, mas frequentemente teme sua presença política.

    Essa duplicidade talvez revele algo mais profundo sobre o funcionamento das sociedades modernas. Elas possuem enorme capacidade de absorver culturalmente aquilo que recusam humanamente. Transformam resistência em entretenimento, dor histórica em símbolo turístico, memória em decoração simbólica desprovida de consequência ética.

    É impossível pensar o 13 de maio sem perceber esse mecanismo.

    Porque a abolição brasileira carregou consigo uma violência peculiar: concedeu liberdade formal sem produzir pertencimento real. Milhões de pessoas deixaram juridicamente de ser propriedade sem que lhes fosse oferecida qualquer arquitetura concreta de cidadania. Nenhuma reforma estrutural acompanhou o gesto abolicionista. Nenhuma redistribuição significativa de terra. Nenhum projeto consistente de educação pública. Nenhuma tentativa séria de integração econômica.

    A liberdade chegou desacompanhada de mundo.

    Essa talvez seja uma das definições mais brutais de abandono histórico.

    E é curioso perceber como o imaginário nacional preferiu durante décadas concentrar sua atenção quase exclusivamente na figura da Princesa Isabel, como se a história da abolição pudesse ser reduzida ao gesto benevolente de uma personagem imperial. Sempre desconfio de narrativas excessivamente personalistas quando se trata de processos históricos complexos. Elas costumam funcionar como mecanismos de simplificação moral. Produzem heróis providenciais e eliminam tensões estruturais.

    A escravidão brasileira não terminou apenas porque uma princesa decidiu encerrá-la. Ela terminou também porque havia rebeliões, fugas, quilombos, imprensa abolicionista, pressão internacional, crise econômica, articulação intelectual e sobretudo porque existia uma massa humana que jamais aceitou plenamente sua condição de objeto.

    Talvez uma das maiores distorções da memória histórica brasileira tenha sido apagar o protagonismo da resistência negra no próprio processo de abolição. Existe uma tendência recorrente de representar pessoas escravizadas apenas como vítimas passivas da História, quando na verdade elas produziram continuamente formas de enfrentamento — abertas ou subterrâneas, organizadas ou fragmentárias.

    Quilombos não eram apenas esconderijos. Eram experiências radicais de imaginação política.

    A existência de comunidades autônomas negras em pleno sistema escravocrata talvez contenha uma das reflexões mais impressionantes sobre liberdade em toda a história brasileira. Porque liberdade, nesses casos, não surgia como abstração filosófica iluminista nem como concessão estatal; surgia como necessidade existencial concreta. Era construída clandestinamente, em territórios improvisados, através da recusa obstinada à lógica da propriedade humana.

    Há algo profundamente filosófico nisso: a liberdade humana frequentemente nasce antes de possuir reconhecimento jurídico. Ela começa como insubmissão interior.

    E talvez seja precisamente esse elemento que torna a cultura afro-brasileira tão poderosa. Ela não representa apenas contribuição estética; representa sobrevivência simbólica. Cada manifestação cultural preservada apesar da violência histórica carrega consigo uma espécie de desafio metafísico lançado contra a tentativa de apagamento.

    O que sobrevive depois da opressão?

    Essa pergunta atravessa silenciosamente o Brasil inteiro.

    Ela está nos terreiros que resistiram à perseguição policial e religiosa. Está na permanência de ritmos que atravessaram séculos. Está na linguagem cotidiana impregnada de heranças africanas muitas vezes invisíveis para quem as utiliza. Está até mesmo na maneira brasileira de compreender corpo, festa, musicalidade e convivência coletiva.

    Talvez toda cultura seja, no fundo, uma forma de memória que se recusa a morrer.

    Mas existe também outro aspecto do 13 de maio que me inquieta: a facilidade com que sociedades transformam marcos históricos em álibis morais. Como se abolir oficialmente a escravidão bastasse para absolver o país de suas continuidades estruturais. O problema das consciências nacionais é que elas frequentemente preferem cerimônias simbólicas a transformações reais.

    O Brasil gosta de datas. Gosta de monumentos, homenagens, discursos públicos. Mas raramente demonstra o mesmo entusiasmo diante de mudanças profundas capazes de alterar distribuições concretas de poder. Talvez porque mudanças reais custem privilégios reais.

    Por isso o debate sobre memória histórica costuma gerar tanto desconforto. Ele obriga a sociedade a reconhecer que o passado não passou inteiramente. Obriga a admitir que desigualdades contemporâneas não surgiram espontaneamente nem resultam exclusivamente de fracassos individuais. Há uma arquitetura histórica sustentando o presente.

    E isso possui consequências éticas inevitáveis.

    Nenhuma nação pode compreender sua própria formação ignorando os mecanismos sobre os quais ergueu sua prosperidade. No caso brasileiro, essa prosperidade foi construída durante séculos através da exploração sistemática de corpos negros. Não reconhecer essa evidência produz uma espécie de amnésia moral coletiva — e povos amnésicos tornam-se incapazes de compreender a si mesmos.

    Mas também não acredito que a memória deva servir apenas ao ressentimento. Existe uma diferença importante entre consciência histórica e aprisionamento histórico. O objetivo de revisitar o passado não deveria ser cultivar culpa estéril, e sim ampliar lucidez.

    Lucidez talvez seja a palavra central.

    Porque o 13 de maio exige precisamente isso: lucidez suficiente para reconhecer simultaneamente o horror da escravidão, a insuficiência da abolição e a extraordinária potência cultural produzida por aqueles que sobreviveram ao sistema.

    É um equilíbrio difícil. Muitas narrativas caem ou na romantização conciliatória ou na visão puramente trágica da experiência brasileira. Nenhuma delas me satisfaz inteiramente. O Brasil não é apenas violência histórica, mas também não é apenas miscigenação festiva. É uma civilização construída sobre tensões permanentes entre exclusão e invenção, brutalidade e sofisticação cultural.

    Talvez por isso o país produza sentimentos tão contraditórios em quem tenta compreendê-lo seriamente.

    Há momentos em que o Brasil parece moralmente exausto de si mesmo. Em outros, parece revelar uma vitalidade cultural quase inexplicável. E suspeito que essas duas dimensões estejam conectadas. Parte da criatividade brasileira nasceu justamente da necessidade histórica de reinventar existência sob condições adversas.

    Transformar dor em linguagem talvez seja uma das operações mais humanas que existem.

    Quando penso no 13 de maio, não vejo exatamente uma celebração nacional. Vejo antes uma espécie de espelho incômodo colocado diante do país. Um espelho que revela não apenas aquilo que fomos, mas aquilo que ainda toleramos ser.

    E talvez o verdadeiro sentido dessa data esteja menos na ideia de conclusão do que na ideia de responsabilidade.

    Porque liberdade não é um acontecimento encerrado no tempo. Liberdade é manutenção contínua da dignidade humana contra todas as formas — antigas ou sofisticadas — de desumanização.

    O restante é apenas cerimônia.

    ————

    *Ilustração: reprodução da litografia Jogar Capoëra (ou Dança da Guerra), um dos primeiros registros visuais da prática da capoeira no país, do alemão Johann Moritz Rugendas, que viajou pelo Brasil no século XIX.

  • Maternidade e Alteridade: reflexões sobre origem, vínculo e responsabilidade

    A noção contemporânea de maternidade tem se ampliado. Hoje, reconhece-se que o cuidado e a formação não são prerrogativas exclusivas da mãe biológica

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    O Dia das Mães, frequentemente envolto em sentimentalismo previsível, merece uma abordagem que ultrapasse o gesto automático da homenagem e se aproxime de uma reflexão mais rigorosa sobre o significado da maternidade na experiência humana. Trata-se de uma ocasião que, embora socialmente instituída, toca em dimensões profundas da existência: a origem, o cuidado, a formação moral e a transmissão simbólica entre gerações.

    A maternidade não é apenas um dado biológico, ainda que dele se origine. Reduzi-la a esse aspecto seria ignorar a complexidade das relações humanas e a construção histórica do papel materno. Em diferentes épocas e culturas, ser mãe assumiu contornos diversos, ora exaltado como missão sagrada, ora instrumentalizado como função social. Essa oscilação revela que a maternidade é, antes de tudo, uma categoria interpretativa — um modo de compreender o vínculo entre aquele que gera e aquele que é lançado ao mundo.

    Do ponto de vista filosófico, a mãe ocupa uma posição singular: ela é, simultaneamente, origem e mediação. Origem, porque é o primeiro contato do indivíduo com a vida; mediação, porque é através dela que o recém-nascido começa a decifrar o mundo. Nesse sentido, a figura materna pode ser entendida como o primeiro “outro” com quem o sujeito se relaciona, inaugurando o campo da alteridade. Essa relação primordial, marcada por dependência e progressiva separação, estrutura não apenas a dimensão afetiva, mas também a capacidade de reconhecimento do outro enquanto sujeito.

    Entretanto, idealizar a maternidade como um espaço exclusivamente de ternura é incorrer em simplificação. A experiência materna é atravessada por tensões: entre cuidado e autonomia, proteção e liberdade, presença e ausência. A mãe que cuida também é aquela que precisa, em determinado momento, permitir o afastamento. Esse paradoxo não é um defeito, mas um elemento constitutivo da relação. Educar, nesse contexto, é introduzir limites e, ao mesmo tempo, preparar para a ausência desses limites — um exercício delicado que exige discernimento e responsabilidade.

    Há ainda uma dimensão ética na maternidade que merece atenção. Ser mãe implica tomar decisões que afetam profundamente a formação de outro ser humano. Não se trata apenas de prover sustento ou afeto, mas de participar ativamente da construção de um caráter. Nesse sentido, a maternidade é uma prática moral contínua, na qual valores são transmitidos menos por discursos e mais por exemplos cotidianos. A coerência entre o que se diz e o que se faz torna-se, portanto, um critério central.

    Nesse contexto, o Dia das Mães pode ser interpretado como um momento de reconhecimento que transcende o plano material. Reconhecer não é apenas presentear, mas tornar visível aquilo que, na rotina, tende a ser naturalizado ou silenciado. O cuidado materno, por sua constância, frequentemente se torna invisível aos olhos de quem dele se beneficia. A data, portanto, oferece a oportunidade de interromper a automatização das relações e explicitar o valor de gestos que sustentam a vida cotidiana.

    Isso não significa, contudo, que tal reconhecimento deva ser mediado pelo consumo. A transformação de datas simbólicas em eventos comerciais revela uma tendência contemporânea de substituir significados por objetos. Presentear pode ser um gesto legítimo, mas não esgota — e nem deveria esgotar — o sentido da celebração. Reduzir o Dia das Mães à aquisição de bens é empobrecer sua dimensão ética e afetiva, deslocando o foco da relação para a mercadoria.

    Há, nesse ponto, uma distinção relevante entre valor e preço. O valor da maternidade, enquanto experiência formadora e vínculo duradouro, não pode ser quantificado ou traduzido em equivalentes materiais. O preço, por sua vez, pertence à lógica do mercado, que opera por substituições e equivalências. Confundir esses dois planos implica aceitar que aquilo que é essencial possa ser representado por aquilo que é acessório — uma inversão que merece ser questionada.

    Assim, talvez o gesto mais significativo nesse dia não seja o mais dispendioso, mas o mais autêntico. Um tempo dedicado, uma escuta atenta ou mesmo uma palavra cuidadosamente escolhida podem carregar um peso simbólico maior do que qualquer objeto. Trata-se de restituir à relação seu caráter humano, recusando a ideia de que o afeto precise de mediação para se expressar de forma válida.

    No entanto, é necessário reconhecer que a maternidade não deve ser romantizada como destino obrigatório. A escolha de não ser mãe também constitui uma posição legítima dentro de uma sociedade que se pretende plural. Ao desvincular a identidade feminina da obrigação materna, abre-se espaço para uma compreensão mais livre e autêntica da experiência individual. Valorizar o Dia das Mães não deve significar reforçar expectativas normativas, mas reconhecer, com sobriedade, a relevância daqueles vínculos que efetivamente se constituem.

    Além disso, a noção contemporânea de maternidade tem se ampliado. Hoje, reconhece-se que o cuidado e a formação não são prerrogativas exclusivas da mãe biológica. Famílias adotivas, arranjos diversos e até figuras substitutas desempenham papéis maternos fundamentais. Essa ampliação não dilui o conceito, mas o enriquece, ao enfatizar que o essencial não está na origem genética, mas na qualidade do vínculo estabelecido.

    Celebrar o Dia das Mães, portanto, pode ser mais do que repetir gestos convencionais. Pode ser uma oportunidade para refletir sobre o que significa cuidar, formar e transmitir. Pode ser também um momento para reconhecer as ambiguidades e desafios que acompanham essa experiência, sem reduzi-la a idealizações simplistas.

    Talvez o aspecto mais significativo da maternidade seja sua dimensão temporal. A mãe não apenas dá a vida, mas participa da sua continuidade, acompanhando — ainda que à distância — o desenvolvimento daquele que um dia dependeu integralmente dela. Esse vínculo, que resiste às transformações do tempo, revela algo fundamental sobre a condição humana: a impossibilidade de uma autonomia absoluta. Somos, em alguma medida, sempre devedores de um cuidado inicial que não escolhemos, mas que nos constitui.

    Assim, o Dia das Mães pode ser compreendido menos como uma celebração pontual e mais como um convite à consciência. Consciência da origem, da responsabilidade e da interdependência que define a vida em sociedade. Ao deslocar o foco do sentimentalismo para a reflexão, talvez se torne possível atribuir a essa data um significado mais duradouro e intelectualmente honesto.

    • Ilustração: A lição difícil (1884), reprodução de óleo sobre tela de William Bouguereau (1825-1905)

  • Do conforto à frustração: a falência do transporte por aplicativo

    O poder público, que deveria atuar como mediador e garantidor de padrões mínimos, parece operar em ritmo lento ou, em alguns casos, simplesmente se omitir.

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    A promessa, no começo, parecia quase irrecusável. Quem viveu aquele momento lembra bem da sensação de finalmente ter encontrado uma alternativa ao transporte caro e, muitas vezes, ineficiente das grandes cidades. Eu mesmo, como tantos outros, passei a depender desses aplicativos com a confiança de que estava fazendo uma escolha mais prática e econômica. Mas, com o passar do tempo, essa percepção foi se desgastando. Hoje, abrir o aplicativo já não traz a mesma tranquilidade — vem acompanhado de uma certa desconfiança, quase como quem sabe que pode pagar caro por algo que talvez não valha.

    As tarifas, aliás, se tornaram um dos maiores símbolos dessa frustração. É difícil não estranhar quando uma corrida em uma categoria básica, supostamente acessível, custa o equivalente — ou até mais — do que opções mais confortáveis ofereciam no passado. E o mais incômodo não é apenas o valor em si, mas a sensação de falta de lógica e transparência. Em horários comuns, sem chuva, sem trânsito extraordinário, os preços ainda assim disparam. O consumidor, sem muitas alternativas viáveis, acaba refém de um sistema que já não entrega aquilo que um dia prometeu.

    E a qualidade, de fato, tornou-se uma loteria. Carros sujos, com mau cheiro, bancos desgastados, ar-condicionado inexistente ou quebrado — esses elementos passaram a fazer parte da experiência cotidiana de muitos usuários. Em casos mais graves, há veículos em condições claramente inadequadas para circulação, o que levanta não apenas uma questão de conforto, mas de segurança. A sensação é de abandono: paga-se mais, recebe-se menos.

    Curiosamente, em meio a esse cenário, ainda surgem exceções que evidenciam como o serviço poderia — e deveria — funcionar. No final do ano passado, em São Paulo, ao sair de um hotel rumo à Pinacoteca do Estado de São Paulo, optei justamente pela categoria de menor preço. A motorista, conduzindo um carro simples, fez questão de ligar o ar-condicionado desde o início. Comentou, com naturalidade, que a pequena economia não compensava o desconforto do passageiro. Mais do que isso, incentivou que usuários avaliassem mal sempre que se sentissem prejudicados ou não contemplados pelo serviço contratado. Segundo ela, apenas com esse tipo de retorno consistente as plataformas seriam pressionadas a ter mais rigor na aprovação de veículos e motoristas. Foi um momento breve, mas revelador: mostrou que o problema não é apenas estrutural, mas também de postura — e que ainda há quem entenda o básico de uma prestação de serviço.

    Parte desse problema está diretamente ligada à ausência de fiscalização efetiva. O poder público, que deveria atuar como mediador e garantidor de padrões mínimos, parece operar em ritmo lento ou, em alguns casos, simplesmente se omitir. Essa lacuna regulatória cria um ambiente propício para abusos: tarifas dinâmicas pouco transparentes, falta de controle sobre as condições dos veículos e ausência de mecanismos eficientes de responsabilização. Sem regras claras e fiscalização consistente, o mercado tende a pender para o lado mais forte — e quem perde é o usuário.

    É importante reconhecer que, para muitos motoristas, dirigir por aplicativo é mais do que uma escolha: é uma necessidade. Trata-se de uma fonte de renda essencial, que sustenta famílias inteiras em um contexto econômico frequentemente adverso. No entanto, essa realidade não pode ser usada como justificativa para a deterioração do serviço. A precarização atinge também os próprios condutores, submetidos a longas jornadas, ganhos instáveis e custos elevados de manutenção. Ainda assim, o fato de haver dificuldades do outro lado não elimina o direito do cliente de receber um serviço digno pelo qual está pagando.

    Outro aspecto que merece atenção é a mudança na postura de parte dos motoristas. Não é incomum encontrar profissionais que demonstram agir como se estivessem fazendo um favor, e não prestando um serviço. Essa inversão de lógica compromete a relação básica de consumo, que deveria ser pautada por respeito mútuo e profissionalismo. O usuário não está pedindo um benefício; está contratando um serviço — e, como tal, tem expectativas legítimas de qualidade, segurança e cordialidade.

    Há também um efeito silencioso, mas profundo, dessa precarização: a normalização do ruim. O que antes geraria reclamação imediata hoje é aceito com um suspiro resignado. O passageiro entra no carro, percebe o estado do veículo, mas segue a corrida porque “é o que tem”. Essa adaptação gradual a padrões mais baixos é perigosa, pois reduz a pressão por melhorias e legitima a continuidade de práticas inadequadas.

    Outro ponto que merece reflexão é a assimetria de responsabilidades. Quando algo dá errado, a responsabilidade parece sempre diluída. A plataforma aponta para o motorista, o motorista aponta para as condições impostas pela plataforma, e o usuário fica no meio, sem uma solução clara. Esse jogo de empurra enfraquece a confiança no serviço e evidencia a necessidade de regras mais firmes, que definam deveres e consequências de maneira objetiva.

    Por fim, é impossível ignorar que a precarização não é apenas operacional, mas também relacional. O vínculo entre quem presta e quem utiliza o serviço foi esvaziado de empatia e profissionalismo. Em vez de uma relação comercial clara, baseada em troca justa, o que se vê muitas vezes é tensão, impaciência e desalinhamento de expectativas. Recuperar esse equilíbrio exige mais do que tecnologia ou ajustes de preço — exige responsabilidade, fiscalização e, acima de tudo, o reconhecimento de que um serviço, para existir de forma sustentável, precisa respeitar quem paga por ele.

  • Entre o compromisso ético da amizade e a omissão silenciosa

    Uma amizade que se retrai diante da possibilidade concreta de promover o outro revela, em última instância, que seu vínculo está condicionado a certas fronteiras invisíveis.

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Há uma forma silenciosa — e, por isso mesmo, profundamente reveladora — de medir o valor de uma amizade: não pelas palavras trocadas nos momentos de conforto, nem pelas risadas compartilhadas quando tudo parece leve, mas pela disposição concreta de sustentar o outro quando ele se encontra diante de suas próprias possibilidades ainda não realizadas. A amizade verdadeira, nesse sentido, não é apenas um espaço de acolhimento emocional; é também um território de responsabilidade mútua.

    Há quem pense que reconhecer o talento de um amigo já constitui, por si só, um gesto suficiente de generosidade. E, de fato, há algo de importante nisso: ser visto por alguém que nos conhece intimamente tem um valor quase ontológico, pois confirma que aquilo que intuímos sobre nós mesmos não é uma ilusão isolada. Contudo, o reconhecimento restrito ao círculo afetivo pode se tornar, paradoxalmente, uma forma sutil de limitação. O talento que não encontra passagem para o mundo permanece como potência estagnada — e a potência que não se realiza tende, com o tempo, a se transformar em frustração.

    É aqui que a amizade revela sua dimensão mais exigente. Apoiar um amigo não é apenas dizer “você é capaz”, mas perguntar: “como posso ajudar para que o mundo também veja isso?”. Essa mudança de perspectiva desloca a amizade do campo da contemplação para o campo da ação. Ela exige iniciativa, envolvimento e, sobretudo, uma certa dose de coragem. Porque, ao criar oportunidades para o outro, o amigo assume um papel ativo na transformação da vida alheia — mesmo que isso implique riscos, exposição e, por vezes, sacrifícios.

    Vivemos em uma cultura que frequentemente celebra o sucesso individual como fruto exclusivo do mérito pessoal. No entanto, essa narrativa ignora um aspecto fundamental da experiência humana: ninguém se realiza sozinho. Por trás de cada trajetória que se torna visível, há sempre uma rede — explícita ou invisível — de pessoas que, em algum momento, abriram portas, indicaram caminhos, ofereceram suporte. A amizade, quando levada a sério, é uma das formas mais nobres dessa rede.

    Mas há um ponto ainda mais delicado nessa reflexão. Nem todo apoio é, de fato, apoio. Há amizades que, sob o disfarce de proteção, mantêm o outro em um espaço confortável, porém limitado. Evitam expô-lo ao julgamento externo, ao risco do fracasso, à dureza do mundo. Embora isso possa parecer cuidado, muitas vezes é apenas uma forma de preservar a própria dinâmica da relação — uma tentativa inconsciente de manter o outro próximo, acessível, dependente. Nesse caso, a amizade deixa de ser um impulso para o crescimento e se torna um mecanismo de contenção.

    A verdadeira amizade, ao contrário, aceita — e até incentiva — a possibilidade de distanciamento que o crescimento pode trazer. Ela compreende que ajudar o outro a alcançar novos espaços significa, inevitavelmente, alterar a configuração da relação. E, ainda assim, escolhe apoiar. Esse é um gesto raro, porque exige desapego e maturidade emocional.

    Há, portanto, uma ética implícita na amizade autêntica: a ética da promoção do outro. Não se trata de anular a si mesmo, nem de transformar a relação em um projeto unilateral de investimento. Trata-se de reconhecer que o vínculo se fortalece quando ambos se comprometem com o florescimento mútuo. Nesse sentido, oferecer oportunidades não é um favor; é uma extensão natural do reconhecimento do valor do outro.

    É interessante notar que, muitas vezes, o próprio indivíduo tem dificuldade de reivindicar seu espaço no mundo. Inseguranças, medos e condicionamentos sociais atuam como barreiras invisíveis. O amigo, então, assume uma função quase mediadora: ele enxerga com mais clareza aquilo que o outro ainda hesita em afirmar. E, mais do que enxergar, ele age. Indica, apresenta, recomenda, insiste. Esse conjunto de pequenas ações, frequentemente invisíveis para quem observa de fora, pode ser decisivo para que um talento encontre seu lugar.

    No fundo, a amizade verdadeira opera como uma espécie de testemunho ativo. Ela não apenas afirma “eu sei quem você é”, mas também se compromete com a tarefa de fazer com que essa verdade encontre ressonância no mundo. Há algo de profundamente ético — quase político — nesse movimento, pois ele rompe com a lógica da indiferença e da competição pura, substituindo-a por uma lógica de cooperação e cuidado.

    Talvez seja por isso que amizades desse tipo sejam tão transformadoras. Elas não se limitam a acompanhar a vida; elas participam da sua construção. E, ao fazê-lo, criam uma espécie de memória compartilhada do crescimento: cada conquista de um se torna, em alguma medida, também a conquista do outro.

    Em última análise, o valor da amizade não reside apenas na presença, mas na implicação. Estar presente é importante, mas implicar-se é o que realmente diferencia o vínculo superficial do vínculo profundo. Implicar-se é agir em favor do outro mesmo quando não há garantias, mesmo quando o reconhecimento não será imediato, mesmo quando o esforço não será visível.

    E talvez seja justamente aí que a amizade encontra sua forma mais elevada: quando deixa de ser apenas um espaço de afeto e se torna um compromisso com o vir-a-ser do outro. Porque, no fim das contas, ser amigo de alguém é, em alguma medida, assumir a responsabilidade de não permitir que aquilo que ele pode ser permaneça apenas como possibilidade.

    Entretanto, há uma zona ética ainda mais desconfortável, frequentemente evitada: a dos amigos que, podendo agir, escolhem não fazê-lo. Não se trata aqui daqueles que não possuem meios ou condições reais de ajudar, mas daqueles que detêm algum grau de influência, acesso ou capacidade de intermediação e, ainda assim, permanecem inertes. Essa inércia raramente se apresenta como negligência explícita; ela costuma se esconder sob justificativas plausíveis — a falta de tempo, o receio de se expor, o medo de comprometer sua própria posição. No entanto, quando analisada com rigor, essa omissão revela uma fissura naquilo que se poderia chamar de compromisso ético da amizade.

    Em muitos casos, essa recusa em agir não nasce da indiferença pura, mas de um conflito mais sutil: a tensão entre o desejo de ver o outro crescer e o desconforto diante das implicações desse crescimento. A ascensão de um amigo pode provocar comparações silenciosas, deslocamentos de identidade e até a sensação de perda de um certo equilíbrio relacional previamente estabelecido. Assim, ao não oferecer a oportunidade que está ao seu alcance, o indivíduo preserva não apenas sua zona de conforto, mas também uma hierarquia implícita que o favorece. Trata-se, portanto, menos de uma falha de caráter isolada e mais de um mecanismo humano — embora eticamente questionável — de autopreservação.

    Reconhecer essa dinâmica não implica condenar sumariamente tais amizades, mas exige uma reavaliação honesta de seus limites. Uma amizade que se retrai diante da possibilidade concreta de promover o outro revela, em última instância, que seu vínculo está condicionado a certas fronteiras invisíveis. E talvez a questão mais importante não seja se todos somos capazes de oferecer oportunidades, mas se estamos dispostos a enfrentar o desconforto que isso implica. Pois é justamente nesse ponto — onde o apoio deixa de ser abstrato e se torna ação com consequências reais — que a amizade se define em sua forma mais autêntica ou se revela, silenciosamente, insuficiente.

  • CMPC: Nova fábrica, velhos impactos?

    EDUARDO RAGUSE*


    Por volta das 13h40, do dia 05 de maio de 2026, ocorreu a despressurização de emergência da caldeira da fábrica de celulose da empresa CMPC, no município de Guaíba.

    O evento causou grande susto e apreensão entre os moradores do entorno da indústria devido ao ruído fortíssimo, odor e grande quantidade de emissões atmosféricas (com chuvisqueiro nas casas dos moradores). Há relatos de pessoas com dor nos ouvidos, dor de cabeça e mal-estar, e de animais domésticos assustados. Apesar da empresa informar em comunicado aos moradores de que a situação se normalizaria em aproximadamente 20 minutos, a duração foi de cerca de uma hora.

    A despressurização é uma ação emergencial para evitar acidentes maiores como rompimentos, vazamentos ou explosão, e segundo informações extraoficiais, teria sido
    realizada por ter sido encontrada uma “rachadura” em alguma das estruturas do equipamento. Em resposta aos diversos moradores que acionaram o número de
    Emergência Ambiental da FEPAM, o órgão ambiental respondeu: “A CMPC informou que tiveram que realizar esse procedimento de forma emergencial visto suspeita de vazamento da caldeira”.

    Não é a primeira vez que ocorrem episódios de emergência na empresa, principalmente após a quadruplicação de sua capacidade produtiva, ocorrida em 2015, autorizada através de um licenciamento ambiental que se mostrou, se não completamente equivocado tecnicamente, com muitos limites que deveriam ser revistos, já que claramente o ambiente local demonstra não ter capacidade de suporte para os riscos e impactos causados, que foram objeto de muito enfrentamento de moradores locais, e até processo judicial por crime ambiental, situação que foi acomodada através de um Termo de Ajustamento de Conduta firmado pela CMPC com o Ministério Público, e por uma compra estratégica de casas de parte destes moradores pela empresa.

    Segue um pequeno histórico:

    Em maio de 2015, cinco trabalhadores da empresa foram hospitalizados e a empresa fechada pela FEPAM após vazamento de dióxido de cloro.

    Em maio de 2016, dez funcionários foram levados a atendimento médico após vazamento do mesmo gás.

    Em fevereiro de 2017 houve um acidente grave nesta mesma caldeira, inaugurada há menos de dois anos, levando à paralização total da fábrica nova até novembro de 2017. O caso foi parar em uma disputa judicial entre a empresa e a seguradora Mapfre, que teve que pagar R$ 1,1 bi de indenização.

    Em fevereiro de 2019 um trabalhador morreu após ser prensado por equipamento na fábrica.

    Em setembro de 2022 houve incêndio na caldeira da fábrica antiga, que segue em operação.

    Em fevereiro de 2025 houve, novamente, um grave vazamento de cloro, desta vez ultrapassando os limites do pátio da empresa, levando moradores ao pânico, com sensação de sufocamento, forte ardência e queimação nos olhos e nariz, náusea, salivação e dor de cabeça. Atingiu também trabalhadores e levou alguns ao desmaio. Parte da empresa foi evacuada e a operação paralisada.

    Já ocorreu despressurização emergencial da caldeira inclusive durante a noite, em abril de 2025, onde apesar de ter sido noticiado ser uma operação de rotina a empresa, depois de pressionada, admitiu aos moradores que foi mais uma ação emergencial.

    Em junho de 2025 ocorreu a morte de um trabalhador terceirizado na fábrica, sem detalhes públicos sobre o ocorrido.

    Fora a constante geração de ruído (somente legalizada por uma outra “acomodação”, desta vez no Plano Diretor de Guaíba) e de odor de compostos reduzidos de enxofre, que ultrapassa os muros da empresa, atingindo diferentes pontos de Guaíba, a depender da direção dos ventos, desrespeitando de maneira continua a Licença de Operação.

    Estes episódios recorrentes, e outros que possivelmente não venham a público, acendem um alerta quanto à qualidade e aos níveis de controle da operação e de segurança do trabalho desta indústria de alto risco, que está instalada há poucos metros de centenas de residências da zona sul de Guaíba. Fica explicito também a falta de um Plano de Emergência, ou mesmo qualquer tipo de orientação aos moradores do entorno em casos de acidentes na empresa, os moradores literalmente não sabem para onde correr caso precisem se proteger de algum vazamento de gás tóxico, incêndio ou explosão na fábrica.

    É evidente, há anos, a necessidade de se garantir melhores condições de segurança aos trabalhadores da CMPC e de qualidade de vida para os moradores do entorno, fatos que, mesmo sendo de alta gravidade, não tem medidas eficazes tomadas pelas autoridades responsáveis à nível municipal ou estadual, além disto estes fatos não são sequer discutidos pela sociedade, construindo uma aparência de que as operações
    industriais e os monocultivos de eucaliptos no Bioma Pampa não causam nenhum impacto, o que é reforçado pelas ações de mídia da CMPC, a patrocinadora do Campeonato Gaúcho de Futebol, que até tem um time fictício chamado Defensores da Natureza!

    Nova fábrica aumentará poluição

    Mas, para além do que ocorre onde a CMPC já opera, é preciso alertar que a empresa está em processo de licenciamento ambiental para a instalação de uma fábrica ainda maior que a de Guaíba, no município vizinho de Barra do Ribeiro. Utilizando o mesmo sistema de branqueamento, que não é Totalmente Livre de Cloro, o que seria a melhor tecnologia disponível.

    Já foram identificadas, por um grupo multidisciplinar de técnicos e pesquisadores, uma série de omissões, lacunas e problemas no Estudo de Impacto Ambiental do chamado “Projeto Natureza”, que faria uso massivo de água do Guaíba e consequentemente despejaria uma nova carga de poluição também massiva em nosso querido e tão maltratado manancial (242 milhões de litros por dia, que, somados aos 154 milhões de litros já despejados por dia pela fábrica de Guaíba, equivalem à um volume superior ao que Porto Alegre gera de esgoto diariamente), seus poluentes incluem o despejo potencial de dioxinas e furanos – altamente tóxicos, e elementos como nitrogênio e fósforo que podem agravar os episódios de floração de cianobactérias, que levam àquela conhecida coloração esverdeada e às alterações de gosto e odor da nossa água e que também podem gerar substâncias tóxicas.

    Mais de mil pescadores podem ser impactados, segundo estimativas desta comunidade tradicional (que não estão sequer sendo consultados), pois vários peixes sensíveis podem sofrer com os efluentes e com o revolvimento do fundo do Guaíba durante as obras. Seria ainda impactada a Praia das Areias Brancas, na Ponta do Salgado, na Barra do Ribeiro, local onde seria instalada a tubulação de efluentes até o Guaíba.

    O local que a empresa quer se instalar é terra Mbya Guaraní, conhecida como Ponta da Formiga, e já é público o imenso assédio que este povo está sofrendo por parte da empresa, que está inclusive pressionando o Ministério Público Federal para que não siga com seu trabalho de defesa dos direitos deste povo originário à Consulta Livre, Prévia e Informada, pressionam também a FUNAI para que garanta sua anuência e a FEPAM para que garanta sua licença ambiental. O Governo do Estado já assinou Protocolo de Intenções garantindo isenções e diferimentos fiscais.

    Outro aspecto que precisa de destaque é o impacto nas estradas gaúchas, segundo os dados da própria empresa, até 2032, haveria um incremento de mais de 25 caminhões bi-trem de 36 toneladas, por hora, circulando em nossas estradas com toras de eucalipto, considerando seu regime de operação de 24 horas por dia, 7 dias por semana, teríamos um incremento de mais de 600 bi-trem por dia, cerca de 19 mil caminhões de quase 20 metros de comprimento e 36 toneladas a mais circulando por mês.

    A intensa movimentação de caminhões de grande porte para o transporte de madeira dos plantios até as fábricas, resulta em maior trânsito e riscos nas estradas, causando acidentes frequentes (na maioria dos casos fatais), além de desgastes e danos nas rodovias e estradas vicinais, e emissões de Gases de Efeito Estufa neste transporte.

    Além disto, todo o impacto que o aumento dos monocultivos de eucaliptos irá ocasionar no Bioma Pampa (área de expansão dos plantios visada pela empresa), não está sendo considerado no processo de licenciamento ambiental.

    Informações sobre estes impactos e sobre quem é a CMPC podem ser lidas no recente estudo produzido pela Amigas da Terra Brasil: Expansão dos desertos verdes em um Pampa em extinção.

    Os estudos da empresa também não fazem nenhuma Avaliação de Impactos à Saúde.

    A sociedade gaúcha deve mais uma vez se mobilizar, assim como fez no caso da Mina Guaíba, que seria a maior mina de carvão à céu aberto do país, um projeto que no início parecia impossível de interromper, mas com organização, mobilização, informações técnicas independentes e de qualidade e muito debate público, se mostrou ser um projeto sem viabilidade ambiental e social.

    Será que o Projeto Natureza tem esta viabilidade? Será que é bom para um RS em meio ao colapso ambiental?

    Dia 15/05, as 15:30, na Assembleia Legislativa do RS, em Porto Alegre, ocorrerá uma Audiência Pública para discutir os impactos socioambientais e o licenciamento ambiental desta nova fábrica de celulose! O assunto é de interesse de todas e todos os gaúchos, desta e das futuras gerações! Tá feito o convite pra peleia!

    *Engenheiro Ambiental, integra a organização Amigas da Terra Brasil

  • A Literatura Brasileira no Dia do Trabalho

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    O 1º de maio costuma ser lembrado pelo peso histórico das lutas trabalhistas, pelo som das manifestações e pela memória viva de direitos conquistados ao longo de décadas. No entanto, essa mesma data abriga uma outra forma de celebração, menos ruidosa, mas igualmente significativa: o Dia da Literatura Brasileira. Longe de ser apenas uma banal coincidência, essa sobreposição revela uma afinidade profunda. No Brasil, escrever nunca foi só vocação ou talento — é também trabalho. Um trabalho muitas vezes solitário, pouco reconhecido, atravessado por dificuldades materiais, mas que insiste em existir como forma de resistência.

    Antes mesmo de se reconhecer como literatura, a produção escrita no Brasil já delineava contornos do que viria a ser uma identidade narrativa própria. Nos relatos de viajantes, nas cartas enviadas à metrópole, nas descrições fragmentadas de um território ainda em disputa, havia uma tentativa de traduzir o desconhecido em linguagem. Era uma escrita que vinha de fora, carregada de estranhamento e curiosidade. Com o passar do tempo, no entanto, o país começou a produzir suas próprias vozes, e esse deslocamento — de objeto narrado a sujeito narrador — marca o surgimento de uma literatura que não apenas descreve, mas interpreta e questiona.

    Com essa transformação, a língua portuguesa também se reinventa em solo brasileiro. Ela se expande, se mistura, se contamina de influências diversas, refletindo a complexidade cultural do país. O resultado é uma linguagem que não se encaixa facilmente em moldes fixos: ora erudita, ora coloquial; ora marcada pela oralidade, ora pela experimentação formal. Diferentemente de tradições literárias mais lineares, a brasileira se constrói por meio de rupturas, como se cada geração precisasse redescobrir suas próprias formas de expressão.

    Essa característica de reinvenção constante está diretamente ligada às tensões sociais que atravessam o país. A literatura brasileira não se limita ao campo estético; ela dialoga com a realidade de maneira incisiva. Ao longo da história, serviu como instrumento de denúncia, reflexão e memória. Escritores transformaram em palavras experiências marcadas por desigualdade, violência e exclusão, ampliando o alcance de vozes frequentemente silenciadas. Nesse sentido, a literatura não apenas representa o mundo — ela o tensiona, o questiona e, por vezes, o desestabiliza.

    É impossível ignorar, nesse contexto, o caráter político do ato de escrever e de ler. Em um país onde o acesso à educação sempre foi desigual, a própria possibilidade de produzir e consumir literatura carrega implicações sociais profundas. Durante muito tempo, os espaços literários foram restritos a determinados grupos, o que moldou não apenas quem escrevia, mas também quais histórias eram contadas. Hoje, há um movimento contínuo de ampliação desse horizonte, ainda que marcado por desafios persistentes.

    Essa ampliação se manifesta de maneira especialmente intensa nas margens — geográficas e simbólicas. Fora dos grandes centros editoriais, surgem narrativas que desafiam convenções e ampliam o repertório literário. Autores periféricos, indígenas, negros, mulheres e outras vozes historicamente excluídas vêm não apenas ocupando espaço, mas transformando a própria ideia de literatura. O que antes era considerado periférico passa a ocupar o centro de debates, revelando novas formas de linguagem, novas estruturas narrativas e novas perspectivas de mundo.

    Ao mesmo tempo, a literatura brasileira contemporânea carrega uma dimensão de resistência que dialoga diretamente com o espírito do 1º de maio. Muitos escritores conciliam a escrita com outras atividades profissionais, enfrentando a precariedade do mercado editorial. Editoras independentes surgem e sobrevivem graças à persistência de quem acredita no valor da palavra escrita. Leitores, por sua vez, constroem seus próprios caminhos de acesso, muitas vezes por meio de bibliotecas públicas, trocas informais ou iniciativas comunitárias.

    Há, nesse ecossistema, uma espécie de esforço coletivo que mantém a literatura viva, mesmo diante de adversidades. É como se cada livro publicado, cada texto compartilhado, cada leitura realizada fosse também um gesto de afirmação. A literatura, nesse sentido, não depende apenas de grandes instituições — ela se sustenta em redes invisíveis de criação, circulação e recepção.

    Curiosamente, essa celebração não se manifesta em grandes eventos ou cerimônias oficiais. Ela acontece de forma difusa, quase imperceptível: em salas de aula, em clubes de leitura, em cadernos esquecidos, em textos escritos à margem do cotidiano. A literatura brasileira vive tanto nos livros publicados quanto nas histórias contadas oralmente, nas experiências que circulam fora dos circuitos tradicionais.

    Essa dimensão discreta não diminui sua importância — pelo contrário, a fortalece. Enquanto o Dia do Trabalhador mobiliza coletividades nas ruas, a literatura opera no campo do íntimo, do reflexivo. Ainda assim, ambas compartilham um mesmo fundamento: a ideia de construção. Construir direitos, construir narrativas, construir sentidos para a experiência humana.

    O 1º de maio, portanto, convida a uma reflexão mais ampla. Ele não apenas rememora conquistas passadas, mas também aponta para desafios presentes. No campo literário, isso implica pensar sobre acesso, diversidade, reconhecimento e sustentabilidade. Implica perguntar quem ainda está à margem e quais histórias ainda não foram contadas.

    Ao ampliar esse olhar, percebe-se que a literatura brasileira não é um conjunto fixo de obras consagradas, mas um processo em constante transformação. Ela se alimenta de tensões, de contradições, de encontros e desencontros. Cada nova voz que emerge altera o panorama, acrescentando camadas de complexidade e vitalidade.

    Talvez seja justamente essa capacidade de transformação que mantém a literatura relevante. Em um mundo marcado pela velocidade e pela superficialidade, ler e escrever exigem pausa, atenção e escuta. São atos que resistem à lógica da pressa, criando espaços de reflexão que se tornam cada vez mais raros — e, por isso mesmo, mais necessários.

    No fim das contas, a coincidência entre o Dia do Trabalhador e o Dia da Literatura Brasileira deixa de parecer acaso e passa a revelar uma afinidade essencial. Ambos celebram formas de produção — material e simbólica — que sustentam a vida em sociedade. Ambos reconhecem o esforço, a persistência e a imaginação como elementos fundamentais para a construção de um país.

    Porque um país não se ergue apenas com infraestrutura ou legislação. Ele também se constitui nas narrativas que produz, nas histórias que escolhe contar e nas vozes que decide ouvir. E enquanto houver alguém disposto a escrever — mesmo diante das dificuldades, mesmo longe dos holofotes — haverá sempre um Brasil em processo de reinvenção, tecido lentamente na matéria viva das palavras.

  • Rejeição a Messias: quando o Senado tensiona os limites da democracia

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    A rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal não é um fato trivial — e tratá-la como um simples exercício de independência institucional seria, no mínimo, ingênuo. Há algo mais profundo em jogo. O episódio expõe, com certa nitidez, a forma como parcelas organizadas da direita radical brasileira vêm operando: não necessariamente para ocupar formalmente todas as instituições, mas para tensioná-las ao limite, desgastá-las e, sempre que possível, torná-las disfuncionais.

    É claro que o Senado tem o direito — e até o dever — de rejeitar indicações presidenciais quando julgar inadequadas. O problema não está no gesto em si, mas no ambiente político que o molda. Nos últimos anos, consolidou-se no Brasil uma prática de sabotagem institucional que não se apresenta como tal. Ela se disfarça de rigor técnico, de zelo republicano, de “preocupação com a independência”. Mas, na prática, opera por meio de campanhas coordenadas, pressão pública e construção de narrativas que antecedem qualquer avaliação objetiva.

    No caso de Jorge Messias, a discussão sobre sua proximidade com o governo — algo comum a praticamente todos os indicados ao STF ao longo da história — foi amplificada de maneira seletiva. Não se trata de dizer que essa proximidade não deva ser debatida. Deve. Mas o que chama atenção é o uso estratégico desse argumento por setores que, em outros momentos, não demonstraram o mesmo nível de preocupação com critérios semelhantes.

    Esse tipo de seletividade não é um detalhe: é um sintoma. Ele revela que o debate deixou de ser sobre o perfil ideal de um ministro do Supremo e passou a ser sobre a capacidade de bloquear o governo em qualquer frente possível. O STF, nesse contexto, torna-se menos uma instituição a ser preservada e mais um campo de disputa a ser controlado — ou, ao menos, enfraquecido.

    Há um padrão que se repete. Sempre que o tribunal atua como limite a investidas autoritárias ou como garantidor de regras constitucionais, intensifica-se uma campanha de deslegitimação. Questiona-se sua autoridade, atacam-se seus membros, constrói-se a ideia de que a Corte não representa a sociedade. A rejeição de uma indicação presidencial, quando inserida nesse ambiente, deixa de ser um evento isolado e passa a fazer parte de uma engrenagem maior.

    O risco disso é menos imediato do que parece — e, por isso mesmo, mais perigoso. Não se trata de um colapso abrupto das instituições, mas de um desgaste contínuo. Aos poucos, vai-se corroendo a previsibilidade dos processos, banalizando conflitos entre os Poderes e naturalizando a ideia de que tudo pode ser permanentemente contestado. Quando esse tipo de lógica se instala, a estabilidade democrática deixa de ser um dado e passa a ser uma exceção.

    Dito isso, seria um erro responder a esse cenário apenas com indignação ou denúncia. Há também uma dimensão propositiva que não pode ser ignorada. A rejeição abre uma oportunidade concreta — e talvez necessária — de repensar a composição do Supremo de maneira mais estrutural.

    É difícil justificar, em pleno século XXI, a baixa presença de mulheres na mais alta Corte do país. Não se trata de um argumento identitário superficial, mas de reconhecer que o direito não é produzido em abstrato. Ele é interpretado por pessoas, com trajetórias, experiências e sensibilidades distintas. Um tribunal excessivamente homogêneo e masculino tende, inevitavelmente, a ter pontos cegos.

    A indicação de uma mulher para o STF, neste momento, teria um peso que vai além do simbolismo. Seria uma forma de alinhar a instituição com a realidade do próprio sistema jurídico brasileiro, no qual mulheres já são maioria em diversos níveis, da advocacia à magistratura. Mais do que isso: seria um gesto de reposicionamento político diante de uma tentativa clara de captura do debate institucional por agendas regressivas.

    Mas é importante dizer: não basta que seja uma mulher. A escolha precisa reunir densidade jurídica, trajetória sólida e independência real. Caso contrário, o movimento corre o risco de ser esvaziado ou instrumentalizado. O desafio está justamente em combinar representatividade com excelência — algo que, felizmente, não falta no cenário jurídico brasileiro.

    No fim das contas, o episódio diz menos sobre Jorge Messias e mais sobre o momento que o país atravessa. Há uma disputa em curso sobre o papel das instituições e sobre os limites da política. De um lado, forças que operam pela instabilidade, pelo ruído constante, pela erosão da confiança. De outro, a necessidade — ainda que nem sempre plenamente articulada — de reconstruir parâmetros mínimos de funcionamento democrático.

    O próximo passo do governo será decisivo. Não apenas pelo nome a ser indicado, mas pelo tipo de mensagem que essa escolha vai transmitir. Em contextos de tensão institucional, escolhas importam mais do que nunca. Elas não apenas preenchem cargos — elas sinalizam rumos.

    Se houver alguma lição a extrair desse episódio, talvez seja esta: a defesa das instituições não se faz apenas resistindo a ataques, mas também aproveitando as brechas que surgem para fortalecê-las de forma concreta. E, neste caso, isso passa, inevitavelmente, por ampliar quem tem voz dentro delas.

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    *Foto: Ton Molina/Agência Senado