Enquanto brasileiros responsáveis tentam dar um freio na atuação dos sites de apostas e seus efeitos nefastos no endividamento das famílias, as bets entram rachando na Copa do Mundo, escalando craques da mídia como Neymar e Vini Jr, além de ex-jogadores, comentaristas e oportunistas em geral. Sem a menor cerimônia vendem a ilusão do dinheiro fácil, na lógica do “apostou, ganhou”.
Patrocinam a cobertura de todos os canais, alguns chegam perto de colocar os sites como benemerentes prestadores de serviço. “A bet dos brasileiros”, diz Galvão Bueno sobre o site que o contratou, com aquela empáfia de credibilidade que a Globo lhe deu, como se os sites fossem patrimônio do povo e não a sua ruína.
Algumas emissoras, como a CazéTV, chegam a sugerir temas de apostas durante a transmissão. As bets tiram dinheiro do comércio, do entretenimento, da cultura, ou seja, da qualidade de vida dos brasileiros. Produzem angústia, depressão, rupturas na estrutura familiar e já existem casos de suicídio por conta de dívidas que se tornam impagáveis.
Estima-se de pelo menos 11% da população esteja irremediavelmente viciada em apostas, um processo perverso no qual o cidadão aposta, por exemplo, R$ 5 mil, e, lá pelas tantas, se tiver sorte, ganha R$ 2 mil e se acha vencedor – e vai usar o prêmio para mais apostas. Todo o dia, um 7 a 1.
Junho tornou-se, em diversas partes do mundo, o mês dedicado ao Orgulho LGBTQIAPN+. Muito além de uma celebração identitária, trata-se de um período de reflexão histórica sobre liberdade, cidadania e dignidade humana. É também uma oportunidade para recordar algo frequentemente negligenciado por discursos preconceituosos: pessoas LGBTQIAPN+ não ocupam uma posição periférica na construção da civilização. Ao contrário, participaram ativamente de algumas das mais importantes revoluções intelectuais, científicas, tecnológicas, artísticas e filosóficas da história moderna.
Quando observamos o desenvolvimento do conhecimento humano, percebemos que inúmeras descobertas que moldam a vida contemporânea tiveram a contribuição direta de homens e mulheres cuja orientação sexual ou identidade de gênero os colocavam à margem das convenções de suas épocas. Muitos deles precisaram ocultar quem eram para que suas ideias fossem levadas a sério; outros enfrentaram perseguições institucionais, humilhações públicas ou mesmo a destruição de suas vidas.
Talvez nenhum exemplo seja mais emblemático do que o de Alan Turing (1912–1954). Matemático brilhante e pioneiro da computação moderna, ele foi uma das figuras centrais dos esforços britânicos para decifrar mensagens criptografadas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial. Seu trabalho contribuiu significativamente para abreviar o conflito e salvar milhares de vidas. Além disso, sua formulação do conceito de máquina de Turing universal estabeleceu as bases teóricas da computação moderna. Ainda assim, o mesmo Estado britânico que se beneficiou de seu gênio o condenou por ser homossexual. Submetido à chamada castração química e devastado pela perseguição institucional, Turing morreu em circunstâncias trágicas em 1954. Décadas depois, o mundo reconheceria que um dos pais da era digital foi vítima da intolerância.
A história de Turing não constitui uma exceção. Em diferentes áreas do conhecimento, homens e mulheres LGBTQIAPN+ produziram contribuições decisivas para o avanço científico. A física e astronauta Sally Ride (1951-2012), primeira norte-americana a viajar ao espaço, participou de missões que contribuíram para o avanço das atividades espaciais tripuladas e da pesquisa científica em órbita terrestre. Já Lynn Conway (1938-2024) revolucionou o projeto de circuitos integrados ao desenvolver, com Carver Mead, metodologias de design VLSI (Very Large-Scale Integration) que se tornaram fundamentais para a indústria de semicondutores e para a evolução dos microprocessadores modernos. Suas trajetórias demonstram que, mesmo diante de preconceitos e barreiras institucionais, pessoas LGBTQIAPN+ estiveram na linha de frente de transformações tecnológicas que redefiniram a vida contemporânea.
Nas ciências humanas, a presença LGBTQIAPN+ é igualmente marcante. O filósofo Michel Foucault (1926 -1984) transformou os estudos sobre poder, instituições e subjetividade. Suas análises continuam a influenciar pesquisas em sociologia, história, antropologia e ciência política, redefinindo o modo como se compreendem as relações entre saber e dominação nas sociedades modernas. O escritor James Baldwin (1924-1987) tornou-se uma das vozes mais influentes do século XX ao refletir, com notável precisão literária e vigor ético, sobre identidade, exclusão racial e direitos civis, articulando experiência pessoal e crítica social em uma obra de alcance universal. Já o médico e sexólogo judeu-alemão Magnus Hirschfeld (1868-1935) foi um dos pioneiros dos estudos científicos sobre sexualidade e identidade de gênero, tendo fundado o Instituto de Sexologia em Berlim e enfrentado diretamente as estruturas repressivas que buscavam criminalizar e patologizar a diversidade sexual, deixando um legado fundamental para a compreensão moderna das identidades LGBTQIAPN+.
Magnus Hirschfeld, à direita, com Karl Giese, 1934 | Foto do arquivo da Magnus-Hirschfeld-Gesellschaft
A literatura, por sua vez, oferece exemplos igualmente eloquentes. Oscar Wilde (1854-1900) permanece como uma das vozes mais refinadas da língua inglesa. Sua condenação por “indecência grave” no final do século XIX tornou-se um símbolo da violência institucional contra pessoas homossexuais. Entretanto, nem a prisão nem a tentativa de destruição de sua reputação conseguiram apagar a relevância de sua produção intelectual. Hoje, Wilde é reconhecido como um dos maiores escritores da modernidade.
A contribuição LGBTQIAPN+ para o avanço humano não se limita a indivíduos isolados. Trata-se de uma participação estrutural na construção do conhecimento. Laboratórios, universidades, centros de pesquisa, movimentos artísticos e instituições culturais foram enriquecidos pela presença de pessoas que, apesar de enfrentarem discriminação, produziram descobertas, teorias e obras fundamentais. Isso revela uma verdade simples: talento, criatividade e inteligência não obedecem às fronteiras arbitrárias impostas pelo preconceito.
É precisamente por essa razão que o mês do Orgulho não deve ser interpretado como uma celebração de privilégios. O orgulho surge como resposta histórica à vergonha imposta. Durante séculos, milhões de pessoas foram ensinadas a esconder seus afetos, seus corpos e suas identidades para evitar violência, exclusão social ou punições legais. O orgulho representa a recusa dessa lógica. Não se trata da exaltação de uma característica individual, mas da afirmação do direito de existir sem medo.
Essa reflexão torna-se ainda mais urgente quando observamos a realidade contemporânea. Em diversos países, relações entre pessoas do mesmo sexo continuam sendo criminalizadas. Em alguns casos, a legislação prevê penas de prisão; em outros, punições como tortura e até mesmo a pena de morte. Existem sociedades nas quais cidadãos LGBTQIAPN+ vivem sob permanente ameaça estatal, impossibilitados de expressar sua identidade ou de constituir relações afetivas reconhecidas juridicamente.
As consequências dessa exclusão são profundas. Não se trata apenas da negação de direitos civis, mas da destruição de potenciais humanos. Quantos cientistas deixaram de desenvolver suas pesquisas? Quantos artistas abandonaram suas vocações? Quantos intelectuais foram silenciados antes de compartilhar suas ideias? A intolerância não produz apenas sofrimento individual; ela empobrece coletivamente as sociedades que a praticam.
Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição paradoxal. Por um lado, o país acumulou avanços significativos nas últimas décadas. O reconhecimento da união estável homoafetiva, a equiparação da homofobia ao crime de racismo em determinadas circunstâncias e a ampliação do debate público sobre diversidade representam conquistas relevantes. Por outro lado, o Brasil ainda convive com elevados índices de violência contra pessoas LGBTQIAPN+, além da persistência de discursos discriminatórios que frequentemente buscam transformar direitos fundamentais em objeto de disputa ideológica.
A história demonstra que nenhum avanço democrático é irreversível. Direitos podem ser ampliados, mas também podem ser restringidos. Instituições podem proteger minorias, mas também podem falhar em sua missão quando submetidas a pressões autoritárias. Por isso, a vigilância cidadã permanece indispensável. Defender os direitos da população LGBTQIAPN+ não significa privilegiar um grupo específico; significa preservar princípios que sustentam qualquer democracia digna desse nome: igualdade perante a lei, liberdade individual e respeito à dignidade humana.
O mês de junho nos convida, portanto, a um exercício de memória. Recordar Alan Turing, Oscar Wilde, Michel Foucault, James Baldwin, Magnus Hirschfeld e tantas outras personalidades LGBTQIAPN+ não é apenas homenagear indivíduos notáveis. É reconhecer que a história do conhecimento humano também é a história da diversidade humana. Quando uma sociedade exclui pessoas por sua orientação sexual ou identidade de gênero, ela não apenas comete uma injustiça moral: ela limita seu próprio horizonte intelectual.
O Orgulho LGBTQIAPN+ é, em última análise, uma celebração da pluralidade que tornou possível o progresso humano. As grandes descobertas científicas, os avanços tecnológicos, as transformações culturais e os refinamentos filosóficos que moldaram o mundo contemporâneo não nasceram da uniformidade, mas da coexistência de experiências distintas. Defender essa diversidade não é uma concessão à modernidade; é um compromisso com a própria ideia de civilização.
Em um tempo marcado por polarizações e discursos excludentes, talvez a lição mais importante de junho seja justamente esta: sociedades florescem quando permitem que todos os seus membros contribuam plenamente com seus talentos. O preconceito constrói muros; a liberdade constrói conhecimento. E, como a história demonstra de forma inequívoca, o conhecimento sempre foi uma das mais poderosas ferramentas de emancipação humana.
Ela domina um atributo que distingue os intérpretes mais sofisticados: a capacidade de produzir humor sem subestimar a inteligência do público
Grace Gianoukas na cerimônia de entrega dos troféus do Prêmio APCA no Teatro Sérgio Cardoso, São Paulo, em 2024 | Foto Adriano Escanhuela/Divulgação
CRISTIANO GOLDSCHMIDT
Há artistas cuja importância pode ser medida pela quantidade de trabalhos realizados. Outros podem ser avaliados pelo sucesso alcançado ou pelo reconhecimento institucional acumulado ao longo dos anos. Existem, porém, casos mais raros: aqueles cuja relevância transcende métricas convencionais e se estabelece na coerência entre pensamento, criação e presença pública. A trajetória de Grace Gianoukas pertence precisamente a essa categoria.
Em uma época marcada pela velocidade das celebridades instantâneas, pela lógica da viralização e pela transformação da cultura em mercadoria de consumo acelerado, Grace construiu uma carreira que desafia a superficialidade. Sua permanência no imaginário artístico brasileiro não decorre de estratégias de autopromoção nem de adesões oportunistas às tendências do momento, mas da consistência de um trabalho desenvolvido ao longo de décadas, atravessando linguagens, formatos e profundas transformações do cenário cultural brasileiro.
Há uma observação feita por ela que ajuda a compreender não apenas sua visão sobre a arte, mas também a forma como sua própria trajetória pode ser analisada. Ao comentar, em uma entrevista publicada no Instagram, o relato da atriz Isabel Teixeira acerca das críticas particularmente severas que lhe foram dirigidas por Barbara Heliodora, Grace afirmou não acreditar em elogios excessivos nem em descredibilizações excessivas.
A frase encerra uma percepção sofisticada sobre a natureza do julgamento artístico. Grace rejeita tanto a idolatria acrítica quanto a destruição simbólica produzida por avaliações desproporcionais. Trata-se de uma posição intelectualmente madura em um contexto histórico no qual o debate cultural frequentemente oscila entre a exaltação absoluta e a condenação sumária, como se a complexidade humana pudesse ser reduzida a categorias simplificadoras.
Curiosamente, ao observar a trajetória de Grace Gianoukas, emerge uma espécie de paradoxo. Se a atriz desconfia dos elogios excessivos, também é verdade que sua carreira oferece pouquíssimos elementos que sustentem tentativas sérias de descredibilização. Não porque seja uma artista imune a falhas — condição inexistente na experiência humana —, mas porque sua trajetória revela uma consistência profissional tão notável que se torna difícil encontrar episódios capazes de comprometer a qualidade de seu trabalho ou a integridade de sua atuação artística.
Grace Gianoukas, 2024 | Foto de Marcos Morelli / Pref. Rio Preto
Inteligência cênica
Uma das características mais marcantes de Grace Gianoukas é sua inteligência cênica.
Nem todo grande ator é necessariamente um intérprete reflexivo. A história das artes cênicas está repleta de artistas extraordinários cuja força criativa se manifesta sobretudo pela intuição, pela sensibilidade ou pela potência do instinto. Grace Gianoukas, entretanto, parece pertencer a uma linhagem mais rara: a dos intérpretes que aliam essas qualidades a uma consciência crítica sobre os mecanismos da representação, demonstrando compreender não apenas como atuar, mas também o significado cultural e humano do próprio ato de interpretar.
Essa característica se manifesta tanto em suas escolhas profissionais quanto na forma como constrói personagens. Em cena, raramente há desperdício de energia interpretativa. Seu trabalho costuma operar em uma região delicada de equilíbrio entre técnica e espontaneidade, entre elaboração intelectual e verdade emocional.
Ela domina um atributo que distingue os intérpretes mais sofisticados: a capacidade de produzir humor sem subestimar a inteligência do público. Essa qualidade tornou-se particularmente evidente em sua trajetória ligada à comédia. Durante décadas, parte da crítica cultural brasileira manteve uma visão hierárquica que colocava o drama em posição superior ao humor. Tal perspectiva ignorava que a comédia exige precisão de tempo, domínio corporal, capacidade de observação social e uma compreensão refinada das contradições humanas.
Grace sempre pareceu compreender isso de forma intuitiva e profunda. Não por acaso, uma das experiências mais significativas de sua carreira esteve ligada ao fenômeno Terça Insana (2001), que ficou anos em cartaz. Mais do que um projeto de humor de enorme repercussão popular, o espetáculo representou um momento importante da comédia brasileira contemporânea ao demonstrar que o riso poderia ser simultaneamente popular e intelectualmente provocador. A participação de Grace nesse contexto evidencia sua capacidade de construir figuras cômicas que ultrapassavam a simples caricatura. Havia em suas criações uma observação aguda dos comportamentos sociais, dos mecanismos de poder e das contradições da vida cotidiana. O humor surgia não como fuga da realidade, mas como instrumento privilegiado para compreendê-la.
Seu humor nunca foi apenas mecanismo de entretenimento. Em suas interpretações frequentemente existe uma camada de observação crítica sobre os comportamentos sociais, as fragilidades afetivas, os jogos de poder e os pequenos absurdos que estruturam a convivência cotidiana. É precisamente essa dimensão reflexiva que confere densidade a personagens que, nas mãos de intérpretes menos talentosos, poderiam se limitar à caricatura.
O teatro como escola permanente
Uma análise consistente da trajetória de Grace Gianoukas não pode ignorar a importância fundamental do teatro em sua formação artística. Antes de ser reconhecida por amplos públicos em outras mídias, foi o palco que lhe ofereceu o laboratório mais exigente para o desenvolvimento de sua linguagem interpretativa.
O teatro impõe ao ator um regime de presença que nenhuma outra linguagem reproduz integralmente. Diante do público, não há cortes, edições ou recursos de correção posteriores. Existe apenas a verdade do instante. É nesse território de risco permanente que muitos artistas desenvolvem sua disciplina, sua escuta e sua capacidade de construir personagens complexos. Grace pertence claramente a essa tradição.
A experiência teatral parece ter lhe proporcionado algo que permanece visível em toda a sua produção artística: a consciência de que interpretar não significa apenas representar emoções, mas compreender estruturas humanas. Seu domínio do ritmo, sua precisão gestual e sua capacidade de alternar intensidade e contenção revelam uma artista moldada por anos de convivência com a exigência técnica e intelectual do palco.
Essa relação profunda com o teatro também se manifesta em trabalhos mais recentes, como em Nasci pra Ser Dercy (2023). Enfrentar artisticamente uma figura da dimensão histórica de Dercy Gonçalves exige muito mais do que reproduzir trejeitos ou imitar uma personalidade conhecida. Exige compreender o significado cultural de uma artista que transformou a irreverência em linguagem e que frequentemente desafiou convenções morais, sociais e estéticas de seu tempo. O mérito de Grace esteve justamente em buscar a complexidade humana por trás do mito, revelando uma intérprete interessada não apenas em representar personagens, mas em dialogar com legados artísticos que ajudaram a moldar a cultura brasileira.
Mais do que uma etapa de formação, o teatro tornou-se uma espécie de fundamento permanente de sua identidade artística. Mesmo quando atua em outros formatos, percebe-se a presença dessa escola de rigor, na qual o trabalho do ator não se limita à expressão individual, mas se articula com uma visão mais ampla da cena, da dramaturgia e da experiência estética compartilhada com o público.
O raro talento da versatilidade
Outro aspecto notável de sua trajetória é a versatilidade. O termo costuma ser utilizado de maneira tão indiscriminada que muitas vezes perde significado. No caso de Grace Gianoukas, entretanto, ele descreve uma capacidade efetiva de transitar entre registros distintos sem perder identidade artística.
Ela consegue ser expansiva sem cair na caricatura. Pode ser intensa sem resvalar para o melodrama. Consegue explorar o grotesco sem abandonar a humanidade das personagens.
Tal característica revela uma compreensão profunda de um dos princípios fundamentais da interpretação: personagens não são conceitos abstratos, mas seres humanos complexos, contraditórios e frequentemente ambíguos.
Em suas atuações existe sempre uma percepção aguda da dimensão humana por trás dos gestos, das falas e dos conflitos apresentados em cena.
Essa versatilidade tornou-se particularmente visível em sua passagem pela televisão. Em Haja Coração (2016), por exemplo, sua Teodora Abdala demonstrava como a atriz domina um tipo de comicidade difícil de executar: a da vilania bem-humorada. Teodora poderia facilmente ter se transformado em uma figura unidimensional, construída apenas a partir do exagero. No entanto, Grace lhe conferiu ritmo, inteligência e uma presença cênica que transformava cada aparição em um exercício de precisão humorística. A personagem não funcionava apenas porque era engraçada, mas porque era interpretada com absoluta consciência dos mecanismos da comédia.
Algo semelhante ocorreu com Petúlia, em Orgulho e Paixão (2018). Em uma narrativa marcada por referências ao universo literário clássico, Grace construiu uma personagem que transitava entre o humor e a sensibilidade, evitando simplificações. O resultado foi uma figura que conquistou o público justamente porque carregava humanidade suficiente para não se reduzir a um simples alívio cômico.
Já em Salve-se Quem Puder (2020), sua Ermelinda revelou outra dimensão de seu repertório. A personagem possuía uma doçura afetiva que permitia à atriz explorar registros mais acolhedores, demonstrando que sua força interpretativa não depende exclusivamente da comicidade expansiva. Havia ali uma delicadeza emocional que evidenciava a amplitude de seus recursos como intérprete.
Essa capacidade ajuda a explicar por que tantas de suas personagens permanecem na memória do público. Não se trata apenas de performances tecnicamente eficientes, mas de construções que estabelecem vínculos afetivos e intelectuais duradouros.
Uma carreira construída sem atalhos
Talvez uma das razões pelas quais seja tão difícil encontrar elementos capazes de comprometer sua reputação artística esteja justamente na forma como sua carreira foi construída.
Grace Gianoukas pertence a uma geração que precisou desenvolver sua trajetória antes da consolidação da cultura digital e das redes sociais. O reconhecimento dependia fundamentalmente da qualidade do trabalho realizado e da capacidade de permanecer relevante ao longo do tempo. Sua carreira foi edificada em um ambiente profissional que exigia estudo, persistência, disciplina e reinvenção constante.
Por isso, quando se observa sua produção artística em perspectiva histórica, percebe-se uma continuidade rara. Não há a sensação de uma figura impulsionada por uma tendência passageira ou por mecanismos efêmeros de visibilidade. Existe, ao contrário, o percurso de uma artista que consolidou sua presença gradualmente, conquistando espaço por mérito, competência e dedicação.
A presença de Grace em produções de diferentes épocas ajuda a ilustrar essa permanência. Sua participação como Jocasta em Êta Mundo Melhor (2025) demonstra que continua sendo uma intérprete capaz de dialogar com novas gerações de espectadores sem perder as características que definiram sua identidade artística. Em um meio frequentemente obcecado pela novidade, sua permanência evidencia algo mais importante do que a mera longevidade profissional: a capacidade de continuar relevante porque seu talento permanece reconhecível e necessário.
É precisamente esse aspecto que torna difícil qualquer tentativa séria de reduzir sua importância. Críticas pontuais a trabalhos específicos podem existir — e devem existir, pois fazem parte da dinâmica saudável da arte. Contudo, uma análise honesta da totalidade de sua trajetória encontra muito mais evidências de excelência do que argumentos capazes de enfraquecer sua relevância.
A permanência como valor cultural
Vivemos um período histórico em que a longevidade artística se tornou um fenômeno cada vez mais raro. A cultura contemporânea frequentemente privilegia a novidade em detrimento da permanência.
Nesse contexto, trajetórias como a de Grace Gianoukas adquirem um significado que ultrapassa o âmbito individual. Elas demonstram que o verdadeiro valor artístico não depende apenas da capacidade de atrair atenção em determinado momento, mas da habilidade de permanecer intelectualmente relevante através das mudanças de época.
Seu percurso evidencia que a arte pode ser simultaneamente popular e sofisticada, acessível e profunda, divertida e reflexiva.Talvez seja essa combinação que explique o respeito conquistado junto a colegas, críticos e público ao longo dos anos.
Ao final, a frase sobre elogios excessivos e descredibilizações excessivas retorna como uma espécie de chave interpretativa. Grace Gianoukas parece compreender que a arte floresce melhor nos territórios da complexidade, longe dos extremos simplificadores.
Entretanto, existe uma ironia inevitável nesse raciocínio. Se o exagero elogioso deve sempre ser evitado, a análise de sua trajetória conduz a uma constatação difícil de ignorar: poucas artistas brasileiras conseguiram construir uma carreira tão consistente, intelectualmente sólida e artisticamente respeitável.
Talvez justamente por isso seja tão difícil encontrar algo que efetivamente deponha contra sua obra. Não porque esteja acima da crítica, mas porque sua trajetória foi construída sobre fundamentos suficientemente robustos para resistir ao teste mais exigente que existe no campo da cultura: o tempo.
Por trás de cada eleição existe uma disputa de projetos. Mas existem momentos em que o processo eleitoral transcende a simples escolha entre programas de governo e se transforma em algo mais profundo: um julgamento coletivo da memória histórica de uma nação. O Peru vive um desses momentos.
A presença recorrente de Keiko Fujimori como protagonista da política peruana obriga o país a revisitar um dos períodos mais controversos de sua história recente. Filha e herdeira política de Alberto Fujimori, presidente que governou o Peru entre 1990 e 2000, ela carrega consigo não apenas um sobrenome, mas um legado que continua dividindo profundamente a sociedade peruana. A própria persistência desse debate revela uma questão que ultrapassa as fronteiras do Peru e alcança qualquer democracia contemporânea: o que acontece quando sociedades que sofreram experiências autoritárias passam a considerar, novamente, a entrega do poder a representantes diretos dos mesmos grupos políticos que protagonizaram esses processos?
Keiko Fujimori| / Foto reproduzida de seu Facebook
A década de 1990 permanece como uma das mais complexas da história peruana. Alberto Fujimori chegou ao poder em meio a uma grave crise econômica e a uma intensa escalada da violência promovida por grupos insurgentes. Seus defensores costumam destacar o combate ao terrorismo e a estabilização econômica. Seus críticos, entretanto, lembram que tais resultados vieram acompanhados de práticas incompatíveis com os princípios fundamentais de uma democracia constitucional.
O episódio mais emblemático ocorreu em 1992, quando Fujimori promoveu o chamado autogolpe, dissolvendo o Congresso e intervindo no Poder Judiciário para concentrar poderes em suas mãos. O gesto representou uma ruptura institucional profunda e demonstrou como o discurso da eficiência pode servir de justificativa para a erosão gradual das garantias democráticas. Posteriormente, vieram à tona escândalos de corrupção, esquemas de espionagem política e graves violações de direitos humanos, que culminaram em condenações judiciais e consolidaram a imagem internacional do regime como uma experiência autoritária.
Contudo, a grande questão não reside apenas no passado. Ela reside na forma como esse passado continua sendo mobilizado politicamente no presente.
Se existe um aspecto particularmente perturbador na trajetória política de Keiko Fujimori, ele reside no fato de que sua carreira jamais conseguiu desvincular-se integralmente da herança histórica que a tornou conhecida nacionalmente. Ao contrário de lideranças que procuram construir uma identidade própria e autônoma, sua principal força política sempre esteve associada à preservação, à reinterpretação e, em certa medida, à reabilitação da memória política do pai, Alberto Fujimori. Essa escolha não é apenas simbólica. Ela representa uma disputa permanente pela narrativa histórica do país.
O problema não está em vínculos familiares. Democracias não operam com critérios hereditários de culpa. Filhos não respondem pelos atos de seus pais. O problema surge quando a herança reivindicada inclui precisamente o fechamento do Congresso, a submissão das instituições aos interesses do Executivo, denúncias de corrupção sistêmica e violações de direitos humanos reconhecidas judicialmente. Nesse contexto, a exaltação do legado fujimorista deixa de ser uma simples estratégia eleitoral e passa a representar um embate sobre os próprios limites éticos da memória política.
Mais do que uma candidatura individual, Keiko Fujimori tornou-se a expressão contemporânea de um movimento político que, ao longo dos anos, demonstrou dificuldade em realizar uma autocrítica profunda sobre os abusos cometidos durante a década de 1990. A ausência dessa revisão histórica produz uma consequência preocupante: a normalização gradual de práticas autoritárias sob o argumento de que determinados resultados econômicos ou de segurança pública seriam suficientes para compensar os danos provocados à ordem democrática.
Talvez resida aí uma das maiores fragilidades do fujimorismo como projeto político. Sua narrativa frequentemente convida a sociedade a recordar os supostos êxitos do período, mas se nega a reconhecer e a enfrentar com igual intensidade os custos institucionais que acompanharam esses resultados. Nenhuma democracia madura pode aceitar que a eficiência administrativa funcione como absolvição histórica para a concentração de poder ou para a relativização ou degradação dos direitos fundamentais.
A experiência histórica demonstra que regimes autoritários raramente se apresentam como autoritários. Em geral, surgem revestidos por promessas de ordem, estabilidade, prosperidade ou combate ao crime. A sedução dessas promessas reside justamente em sua aparente simplicidade. Problemas complexos recebem soluções rápidas; instituições são retratadas como obstáculos; mecanismos de controle passam a ser vistos como entraves à governabilidade. É exatamente nesse ponto que as democracias começam a correr riscos.
A história política contemporânea mostra que as democracias dificilmente morrem de maneira abrupta. Na maior parte dos casos, elas são corroídas lentamente. O processo começa pela desqualificação das instituições, avança pela concentração gradual de poder e culmina na normalização de práticas que anteriormente seriam consideradas incompatíveis com a vida democrática.
Por essa razão, a memória histórica desempenha papel central. Não se trata de cultivar ressentimentos ou de transformar o passado em uma prisão permanente. Trata-se de compreender que sociedades maduras precisam ser capazes de reconhecer seus erros para evitar repeti-los.
O caso peruano não é isolado. Em diversas partes do mundo, famílias associadas a governos autoritários conseguiram preservar influência política por décadas, transformando sobrenomes em patrimônios eleitorais. Trata-se de um fenômeno que deveria provocar reflexão profunda em qualquer sociedade democrática.
Existe algo de profundamente desconfortável — e até mesmo vergonhoso do ponto de vista histórico — quando nações que sofreram com a concentração de poder, a fragilização institucional e a supressão de direitos passam a aceitar com naturalidade a perpetuação política de grupos familiares diretamente ligados a esses processos. Não se trata de negar direitos políticos a ninguém. Trata-se de questionar o que leva uma sociedade a transformar em herança eleitoral experiências que deveriam servir como advertência histórica.
Quando descendentes políticos ou familiares de líderes associados a rupturas democráticas permanecem como forças centrais do sistema político durante décadas, evidencia-se uma incapacidade coletiva de renovação. Revela-se a dificuldade de construir novas lideranças, novos consensos e novas referências éticas para a vida pública. Trata-se de um sintoma que não deveria ser motivo de orgulho nacional, mas de inquietação.
A verdadeira questão não é se Keiko Fujimori reproduzirá – caso eleita – as nefastas práticas do passado de seu pai. A questão mais relevante é outra: por que uma democracia que conheceu os altos custos do autoritarismo continua sendo chamada, repetidamente, a decidir entre alternativas que mantêm viva a sombra desse mesmo passado? Essa pergunta talvez seja mais importante do que qualquer resultado eleitoral, porque diz respeito não apenas ao futuro do Peru, mas à capacidade das democracias contemporâneas de aprender com seus próprios erros.
No caso peruano, a discussão sobre o fujimorismo permanece viva justamente porque o país ainda busca responder perguntas fundamentais sobre sua identidade democrática. Até que ponto supostos resultados econômicos positivos podem justificar abusos institucionais? É possível separar eficiência administrativa de práticas autoritárias? O combate à criminalidade pode servir como argumento para flexibilizar garantias constitucionais? Essas questões não pertencem apenas ao Peru. Elas atravessam praticamente todas as democracias contemporâneas.
Mais importante do que o destino eleitoral de qualquer candidatura específica é a capacidade da sociedade de avaliar criticamente os legados políticos que se apresentam diante dela. O verdadeiro risco para uma democracia não está necessariamente em uma pessoa ou em um partido. Está na disposição coletiva de relativizar princípios democráticos em nome de soluções aparentemente simples para problemas complexos.
Quando isso ocorre, a história deixa de ser uma fonte de aprendizado e passa a ser um ciclo de repetições.
O Peru encontra-se diante de uma escolha que possui significado muito além de suas fronteiras. Independentemente do resultado eleitoral, o debate em curso recorda uma verdade frequentemente esquecida: democracias não são patrimônios permanentes. Elas exigem vigilância constante, memória ativa e compromisso inegociável com as instituições.
Uma sociedade pode sobreviver a crises econômicas, escândalos políticos e períodos de instabilidade. O que dificilmente supera sem consequências profundas é a perda da capacidade de distinguir entre a força legítima das instituições e a sedução recorrente dos projetos políticos que prometem concentrar poder em nome da salvação nacional. A história latino-americana está repleta de exemplos desse equívoco. O desafio das novas gerações é garantir que eles permaneçam apenas como história — e jamais voltem a se apresentar como destino. Que este não seja o destino atual do Peru.
Mayk Leão em seu sítio, na zona rural de Campo Largo, Paraná. Fotos reproduzidas de suas redes sociais.
CRISTIANO GOLDSCHMIDT
Por vezes, a internet produz fenômenos que ultrapassam os limites do entretenimento e se transformam em pequenos espelhos da condição humana. O caso do influenciador paranaense Mayk Leão, morador da zona rural de Campo Largo, é um desses acontecimentos raros que nos convidam a refletir menos sobre aquilo que apareceu no céu e mais sobre aquilo que se revela nas pessoas.
No dia 31 de maio, milhões de brasileiros acompanharam, quase em tempo real, uma sequência de acontecimentos narrados pelo próprio Mayk em seus stories. Desde as primeiras horas da manhã, ele relatava sons incomuns vindos dos arredores de sua casa, comportamentos estranhos dos animais sob seus cuidados e uma sensação crescente de inquietação. Ao longo do dia, os relatos foram se acumulando de maneira espontânea, sem a estrutura típica das narrativas planejadas para viralizar. À noite, veio o episódio que transformaria sua vida: a filmagem de luzes que pairavam e se movimentavam nas proximidades de seu sítio, fenômeno que ele próprio descreveu como um possível objeto voador não identificado.
Naturalmente, o debate explodiu. Céticos, curiosos, ufólogos, cientistas, humoristas e criadores de conteúdo passaram a discutir o que, afinal, aparecia nas imagens. As opiniões de dividiram entre hipóteses que variavam de drones a fenômenos atmosféricos, de ilusões ópticas a possibilidades mais extraordinárias. O vídeo viralizou, alcançou milhões de visualizações e fez com que o perfil de Mayk saltasse de pouco mais de 40 mil seguidores para dois milhões e meio em poucos dias. O fenômeno digital foi quase tão impressionante quanto o fenômeno que ele dizia ter presenciado.
Mas há uma questão que, para mim, parece mais relevante do que qualquer tentativa de identificar luzes no céu.
Após assistir atentamente a todos os relatos publicados naquele dia – e que permanecem disponíveis nos destaques de sua conta no Instagram –, o que mais chamou minha atenção não foi o suposto OVNI. Foi o próprio Mayk.
Em uma era marcada pela monetização instantânea da atenção, pela fabricação calculada de polêmicas e pela profissionalização do escândalo, seria natural suspeitar de uma encenação. O problema é que, observando cuidadosamente suas falas, suas reações, seus silêncios e suas emoções ao longo de horas de gravações, não encontrei os sinais típicos de alguém executando um roteiro previamente elaborado.
É claro que isso não constitui prova de nada. Não demonstra que o fenômeno registrado era de fato proveniente de outro planeta. Tampouco valida qualquer hipótese específica sobre o que ocorreu naquela noite. Contudo, existe uma diferença importante entre questionar um acontecimento e questionar o caráter de uma pessoa.
E é justamente nesse ponto que Mayk parece merecer um voto de confiança.
Mesmo profissionais treinados para entrevistar pessoas em situações de grande repercussão relataram impressões semelhantes. As jornalistas Manuella Mariani e Caio Budel, do G1 Paraná, que estiveram pessoalmente no sítio conversando com o influenciador, registraram a percepção de um forte sentimento de sinceridade e de espanto genuíno durante a entrevista. Evidentemente, percepções não são evidências científicas. Mas também não são irrelevantes. O contato humano continua sendo uma das ferramentas mais valiosas para compreender intenções, emoções e comportamentos.
Há algo ainda mais significativo na trajetória de Mayk que ajuda a contextualizar esse episódio.
Muito antes de se tornar conhecido nacionalmente, ele já dedicava sua rotina ao cuidado de centenas de animais, os seus, os resgatados de situações de abandono, de negligência ou de maus-tratos. Sua presença digital não era construída em torno de teorias ufológicas, mistérios sobrenaturais ou conteúdos sensacionalistas. Sua audiência acompanhava principalmente uma rotina de trabalho duro, de resgates, de alimentação de animais e de desafios financeiros constantes.
Mayk Leão com pintinho que já havia sido motivo de matéria nas TVs do Paraná por ter nascido com sobrancelha
Essa informação é relevante porque ajuda a entender quem era Mayk antes da fama repentina.
Vivendo em condições simples, enfrentando dificuldades econômicas e mantendo praticamente sozinho uma estrutura de cuidados com centenas de animais, ele jamais poderia prever que uma sequência de stories mudaria radicalmente sua visibilidade pública. O crescimento vertiginoso de seguidores trouxe oportunidades comerciais, contratos de publicidade e uma exposição que poucas pessoas experimentam ao longo de toda uma carreira.
E talvez seja justamente aqui que resida uma das passagens mais reveladoras dessa história.
Segundo relatos do próprio influenciador, empresas ligadas ao universo das apostas e jogos de azar passaram a procurá-lo com propostas extremamente lucrativas. Mayk afirmou que recusou ofertas que poderiam ter lhe rendido valores milionários. Em um país onde o marketing de apostas se tornou quase onipresente, essa decisão não é trivial.
Quando alguém que viveu dificuldades financeiras afirma renunciar a ganhos dessa magnitude, especialmente após experimentar anos de limitações econômicas, a atitude merece ao menos consideração. Afinal, princípios só podem ser medidos quando entram em conflito com oportunidades concretas.
Ao mesmo tempo, o influenciador tem explicado que pretende utilizar os recursos provenientes das publicidades que aceita para fortalecer o cuidado com os animais e proporcionar melhores condições de vida à própria família. Sua mãe enfrentou um grave problema de saúde, passou longo período internada em uma UTI após um AVC, e mesmo depois de tudo isso seus pais continuaram trabalhando e enfrentando as dificuldades comuns a tantas famílias brasileiras. Em diversas entrevistas, Mayk demonstra um desejo simples e profundamente humano: oferecer mais dignidade àqueles que estiveram ao seu lado durante os momentos difíceis.
Essa talvez seja a dimensão mais bonita de toda a história.
Porque, no fim das contas, é possível que um dia surja uma explicação perfeitamente convencional para aquilo que apareceu nas imagens. É possível também que algumas perguntas permaneçam sem resposta. Fenômenos estranhos costumam habitar exatamente essa zona de incerteza.
Mas o valor de uma pessoa não pode depender da explicação de um vídeo.
O que realmente importa é aquilo que ela faz quando as luzes das câmeras se apagam.
Até aqui, Mayk Leão tem demonstrado características que inspiram respeito: simplicidade, gratidão, capacidade de comunicação, afeto pelos animais e preocupação genuína com a família. Nada disso prova que ele viu uma nave extraterrestre. Mas talvez prove algo mais importante: que sua trajetória merece ser observada para além do episódio que o tornou famoso.
A fama repentina é uma das forças mais imprevisíveis do mundo contemporâneo. Ela pode construir carreiras sólidas ou destruir pessoas despreparadas para administrá-la. Por isso, o próximo capítulo dessa história dependerá menos do que aconteceu no céu de Campo Largo e mais das escolhas feitas aqui na Terra.
Se Mayk conseguir cercar-se de pessoas sérias, estruturar adequadamente sua carreira e transformar essa oportunidade inesperada em um projeto duradouro de vida, o episódio deixará de ser apenas uma curiosidade viral da internet. Tornar-se-á uma história de ascensão construída sobre trabalho, autenticidade e propósito.
Independentemente do que realmente cruzou os céus naquela noite, há algo que parece evidente: milhões de brasileiros não se conectaram apenas a um mistério. Conectaram-se a um ser humano.
E, em tempos tão marcados pela desconfiança, talvez essa seja a descoberta mais extraordinária de todas.
O conflito ambiental brasileiro nunca foi apenas ecológico. Ele é econômico, político, social e civilizatório
Vista aérea da região central de Porto Alegre afetada pelas fortes chuvas no Rio Grande do Sul em maio de 2024. Foto de Ricardo Stuckert/PR/JÁ
CRISTIANO GOLDSCHMIDT
O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, chega em um momento histórico no qual a própria relação entre humanidade e natureza parece exigir uma revisão profunda. Em um planeta atravessado por eventos climáticos extremos, incêndios de escala continental, secas históricas, enchentes devastadoras e deslocamentos humanos causados pelo colapso ambiental, a data assume um significado que vai muito além das campanhas de conscientização e dos discursos institucionais. O que está em questão não é apenas o destino das florestas, dos rios ou das espécies ameaçadas, mas a sustentabilidade de um modelo civilizatório fundado na expansão incessante do consumo, na transformação da natureza em mercadoria e na convicção de que o crescimento econômico pode avançar sem limites em um mundo inevitavelmente limitado.
Há algo de profundamente contraditório em nosso tempo. Nunca se produziu tanto conhecimento científico sobre o funcionamento dos ecossistemas, e nunca se destruiu tanto. Nunca se falou tanto em sustentabilidade, e nunca houve tamanho avanço de monoculturas extensivas, mineração predatória, exploração fóssil e devastação de áreas protegidas. A palavra “verde”, indevidamente apropriada pelo marketing corporativo, tornou-se muitas vezes uma estética vazia, um ornamento discursivo incapaz de alterar estruturas profundas de exploração econômica.
O Brasil ocupa posição central nessa encruzilhada histórica. Nenhum outro país reúne simultaneamente tamanha biodiversidade, tão vasta disponibilidade de água doce, tão grande extensão de florestas tropicais e tamanho protagonismo no agronegócio global. Essa condição faz do território brasileiro não apenas um patrimônio nacional, mas um elemento decisivo para o equilíbrio climático planetário. A Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa deixaram de ser apenas biomas brasileiros; tornaram-se peças fundamentais da estabilidade ecológica da Terra.
É precisamente por isso que o debate ambiental no Brasil costuma ser tão feroz. Em torno da natureza brasileira movimentam-se interesses bilionários: exportações agrícolas, expansão pecuária, mineração, especulação fundiária, mercado internacional de commodities, infraestrutura logística e exploração energética. Ou seja, o conflito ambiental brasileiro nunca foi apenas ecológico; ele é econômico, político, social e civilizatório.
Nos últimos anos, contudo, o país voltou a apresentar indicadores importantes de redução do desmatamento, especialmente na Amazônia e no Cerrado. Dados oficiais apontaram queda significativa nos índices de devastação desses biomas, consolidando uma tendência de retração observada desde 2023. A Amazônia alcançou uma das menores taxas de desmatamento da última década, resultado atribuído ao fortalecimento da fiscalização ambiental, à retomada de operações de controle territorial e à reconstrução institucional de órgãos que haviam sofrido forte esvaziamento nos anos anteriores.
Nesse cenário, o nome de Marina Silva voltou a ocupar papel central na política ambiental brasileira. Figura histórica do ambientalismo latino-americano, Marina representa uma trajetória rara na vida pública contemporânea: a de alguém cuja atuação política permanece profundamente vinculada a uma experiência existencial concreta. Filha da Amazônia, seringueira, alfabetizada apenas na adolescência, ela construiu uma carreira marcada pela defesa persistente da floresta e dos povos tradicionais. Sua presença no Ministério do Meio Ambiente devolveu ao Brasil parte do protagonismo climático internacional perdido na década anterior.
Isso não significa, evidentemente, ausência de contradições. O governo brasileiro continua pressionado por interesses desenvolvimentistas internos, inclusive dentro da própria estrutura estatal. A tensão entre proteção ambiental e expansão econômica permanece viva em debates sobre exploração de petróleo, licenciamento ambiental, obras de infraestrutura e expansão agrícola. O Brasil contemporâneo parece dividido entre dois projetos de país: um que compreende a preservação ambiental como eixo estratégico do futuro e outro que ainda enxerga a natureza como mera fronteira econômica disponível à ocupação infinita.
A Amazônia no centro da geopolítica climática
A realização da COP30, em novembro de 2025, em Belém, no coração da Amazônia, representou um momento histórico para a diplomacia climática internacional e para a imagem do Brasil no exterior. Pela primeira vez, a principal conferência climática do planeta ocorreu dentro da maior floresta tropical do mundo, deslocando simbolicamente o centro do debate ambiental para um território que há décadas ocupa posição decisiva no equilíbrio ecológico global. O encontro consolidou o retorno do Brasil ao centro das negociações climáticas internacionais e fortaleceu a percepção de que a Amazônia deve ser tratada como questão estratégica para a sobrevivência planetária.
Ao mesmo tempo, a COP30 também expôs os limites da governança climática contemporânea. Apesar de avanços diplomáticos relevantes, persistiram impasses relacionados à eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, ao financiamento climático e à capacidade real dos países de cumprir metas ambientais ambiciosas sem alterar profundamente seus modelos econômicos. A conferência evidenciou uma contradição que atravessa todo o debate ambiental contemporâneo: nunca houve tamanho acúmulo de conhecimento científico sobre a crise climática e, ainda assim, interesses econômicos e geopolíticos continuam retardando medidas estruturais compatíveis com a gravidade da emergência planetária.
O Brasil chegou à COP30 carregando tanto credenciais positivas quanto profundas ambiguidades. De um lado, apresentou redução do desmatamento, reconstrução parcial da governança ambiental e fortalecimento do discurso climático internacional. De outro, continuou convivendo com expansão descontrolada de monoculturas, pressão crescente sobre terras indígenas, violência fundiária e avanço da pecuária sobre áreas de preservação.
Os biomas brasileiros sob pressão
A expansão do agronegócio brasileiro constitui um dos grandes dilemas nacionais. É impossível compreender a economia do país sem reconhecer a importância do setor agrícola para exportações, geração de divisas e abastecimento global. Entretanto, também é impossível ignorar os efeitos destrutivos de determinados segmentos do modelo agroexportador contemporâneo. A lógica da monocultura extensiva empobrece o solo, reduz biodiversidade, amplia dependência química, destrói corredores ecológicos e transforma vastas áreas naturais em paisagens homogêneas.
No Cerrado, considerado por muitos cientistas o bioma mais ameaçado do Brasil, o avanço da soja e da pecuária já provocou perdas ambientais gigantescas. A Caatinga enfrenta desertificação crescente. O Pantanal sofre com queimadas devastadoras agravadas pelas mudanças climáticas. A Mata Atlântica, embora mais protegida hoje do que em décadas anteriores, continua fragmentada e pressionada pela urbanização. Mesmo os Pampas gaúchos, frequentemente esquecidos no debate ambiental nacional, enfrentam erosão de biodiversidade causada por monoculturas e silvicultura intensiva.
O legado dos pioneiros do ambientalismo
No Rio Grande do Sul, aliás, a consciência ambiental possui figuras históricas fundamentais. José Lutzenberger permanece como uma das vozes mais importantes do pensamento ecológico brasileiro do século XX. Muito antes da pauta ambiental ganhar centralidade global, Lutzenberger já denunciava os efeitos tóxicos dos agrotóxicos, a devastação dos solos e o caráter suicida de um modelo agrícola baseado exclusivamente na produtividade imediata. Sua atuação tinha algo de visionário e, ao mesmo tempo, profundamente humanista. Ele compreendia que destruir ecossistemas significava também destruir culturas, memórias e formas de vida.
Ao lado dele, Augusto Carneiro exerceu papel decisivo na construção do movimento ecológico gaúcho e brasileiro. Fundador da AGAPAN, Augusto Carneiro ajudou a transformar o ambientalismo em ação política concreta, articulando sociedade civil, universidades e movimentos sociais em torno da defesa ambiental. Ambos pertencem a uma geração que lutou quando ainda era comum tratar ambientalistas como sonhadores inconvenientes ou inimigos do progresso.
Hoje, paradoxalmente, muitas das advertências feitas por esses pioneiros tornaram-se realidade. As enchentes históricas que devastaram o Rio Grande do Sul recentemente revelaram de maneira brutal o impacto combinado de mudanças climáticas, urbanização desordenada, destruição de áreas úmidas e ausência de planejamento ambiental consistente. A tragédia gaúcha evidenciou que a crise climática deixou de ser hipótese futura; ela já redefine o presente.
Imprensa, política e os impasses do desenvolvimento
Nesse contexto, o papel da imprensa torna-se decisivo. A grande mídia brasileira avançou consideravelmente na cobertura ambiental nas últimas décadas. Hoje há mais espaço para reportagens sobre clima, biodiversidade e desmatamento do que havia no passado. Entretanto, permanece uma cobertura muitas vezes episódica, concentrada em tragédias imediatas ou eventos internacionais. Falta, em grande parte da imprensa, incorporar a questão ambiental como eixo permanente da cobertura econômica, política e social.
Frequentemente, jornais e emissoras ainda tratam o meio ambiente como tema setorial, quase decorativo, quando na verdade ele atravessa todas as dimensões da vida contemporânea: inflação de alimentos, migrações, saúde pública, energia, infraestrutura, segurança hídrica e desigualdade social. Além disso, parte significativa da mídia mantém relação ambígua com setores econômicos diretamente associados à degradação ambiental, especialmente devido à dependência publicitária de grandes grupos empresariais.
Outro elemento central desse debate é a atuação da chamada bancada ruralista no Congresso Nacional. Trata-se de uma das forças políticas mais organizadas e influentes do país. Seus integrantes frequentemente argumentam em defesa da segurança alimentar, da competitividade econômica e da soberania produtiva brasileira. Críticos, porém, apontam que parte significativa dessa bancada atua sistematicamente para flexibilizar licenciamento ambiental, enfraquecer órgãos de fiscalização, reduzir proteção de terras indígenas e ampliar possibilidades de exploração econômica em áreas sensíveis.
A escolha do século XXI
O conflito, portanto, não é simples. Não se trata de uma oposição caricatural entre “produção” e “preservação”. O verdadeiro desafio consiste em redefinir o próprio conceito de desenvolvimento. O século XXI exige abandonar a falsa dicotomia segundo a qual proteger a natureza impediria crescimento econômico. O futuro provavelmente pertencerá justamente às economias capazes de combinar inovação tecnológica, preservação ecológica e redução das desigualdades sociais.
O Dia Mundial do Meio Ambiente deveria servir menos para celebrações protocolares e mais para um exercício radical de lucidez coletiva. A humanidade ingressou numa era em que a própria estabilidade climática deixou de ser garantida. A antiga ilusão moderna de domínio absoluto sobre a natureza começa a ruir diante de incêndios, secas, tempestades e colapsos ambientais cada vez mais frequentes.
Talvez a pergunta decisiva já não seja apenas como salvar o planeta — a Terra continuará existindo —, mas como salvar as condições civilizatórias que tornaram possível a experiência humana tal como a conhecemos. O debate ambiental tornou-se, em última instância, um debate sobre memória, permanência e futuro. Sobre aquilo que desejamos legar às próximas gerações.
E o Brasil, com toda sua exuberância natural e todas as suas contradições históricas, ocupa posição central nessa escolha.
Em suas obras, a cidade deixa de ser simples paisagem: torna-se organismo vivo, território de disputa, memória em ruínas e possibilidade permanente de reinvenção do olhar
Série consumidores de espaços, Fotografia, Porto Alegre, 2001, Acervo Pinacoteca Barão de Santo Ângelo
CRISTIANO GOLDSCHMIDT
A trajetória de André Venzon ocupa um lugar singular dentro da arte contemporânea brasileira porque sua produção nasce precisamente do atrito entre cidade, arquitetura e experiência humana. Em vez de compreender o espaço urbano apenas como cenário ou pano de fundo, Venzon transforma a própria materialidade da cidade em linguagem estética e reflexão crítica. Sua obra emerge das fissuras do ambiente metropolitano, dos dispositivos de contenção e ocultamento que organizam o cotidiano das grandes cidades, convertendo estruturas aparentemente banais em campos de investigação poética. Poucos artistas brasileiros desenvolveram uma pesquisa tão consistente sobre os modos como a paisagem urbana condiciona afetos, percepções e formas de convivência.
Nascido em Porto Alegre em 1976, Venzon construiu uma trajetória em que pensamento visual, atuação institucional e elaboração conceitual caminham lado a lado. Mestre em Poéticas Visuais pelo Instituto de Artes da UFRGS e especialista em Gestão e Políticas Culturais pela Universidade de Girona, sua formação revela um artista interessado não apenas na criação de imagens, mas na compreensão ampla dos sistemas culturais e simbólicos que organizam a experiência contemporânea. Essa dimensão intelectual nunca aparece em sua produção como discurso ornamental: ela se manifesta organicamente na densidade crítica das obras e na coerência de sua pesquisa.
Entre os elementos mais emblemáticos de sua produção está a investigação dos tapumes urbanos — especialmente as placas de madeirite tingidas em tonalidades vibrantes de fúcsia e magenta, tão presentes em canteiros de obras das cidades brasileiras. O que para muitos seria apenas resíduo arquitetônico ou barreira provisória transforma-se, em suas mãos, em matéria estética, signo político e superfície de memória. Há algo profundamente revelador nessa escolha. O tapume é, por natureza, uma estrutura de separação: delimita espaços, impede acessos, esconde transformações, anuncia intervenções econômicas e reorganiza a circulação dos corpos. Venzon percebe nesse objeto aparentemente funcional uma poderosa metáfora da vida urbana contemporânea.
Caminhante, 2003, fotografia emoldurada com tapume , 100 x 65 cm, tiragem 1 de 5, Acervo do Museu Nacional de Belas Artes – RJ.
Sua obra desloca o tapume do campo estritamente utilitário para uma esfera simbólica carregada de ambiguidades. Essas superfícies tornam-se registros da tensão permanente entre visibilidade e ocultamento. Em muitos trabalhos, percebe-se que o artista não está interessado apenas na aparência física desses materiais, mas no universo social que eles silenciosamente revelam. O tapume indica que algo está sendo erguido, demolido ou interditado; ele anuncia progresso e, simultaneamente, exclusão. Existe nele uma promessa de futuro, mas também a violência implícita de quem redefine o espaço urbano sem necessariamente considerar os sujeitos que o habitam.
Ao incorporar esses elementos à sua poética, André Venzon realiza uma operação de ressignificação extremamente sofisticada. A cidade deixa de ser apenas tema e converte-se em suporte, arquivo e linguagem. Fragmentos urbanos, resíduos arquitetônicos e materiais desgastados passam a carregar camadas de memória afetiva, social e histórica. Em vez de idealizar o espaço urbano, sua obra investiga justamente aquilo que costuma permanecer invisível: os limites impostos pela arquitetura, os bloqueios cotidianos, os silêncios urbanos, as formas sutis de isolamento produzidas pelas cidades contemporâneas.
Há, em sua produção, uma dimensão melancólica que jamais se confunde com nostalgia passiva. Muitos de seus trabalhos parecem operar como cartografias emocionais de uma cidade em permanente mutação. Rastros de infância, referências afetivas, signos populares e resíduos do cotidiano são reorganizados numa linguagem visual que oscila entre abstração e memória concreta. Em suas obras, percebe-se frequentemente o embate entre utopia e deterioração — como se a promessa moderna de convivência coletiva tivesse sido atravessada por processos contínuos de fragmentação social.
Dreaming, 2012. Offset em moldura de tapume, registro de intervenção com letras-caixa luminosas de tapume na fachada da CCMQ. Coleção do artista.
Essa tensão aparece também na materialidade de suas composições. As superfícies carregam marcas do tempo, sobreposições, desgastes, camadas interrompidas e acidentes incorporados ao processo criativo. Nada parece excessivamente polido ou artificialmente concluído. Ao contrário: Venzon preserva nas obras os vestígios do percurso, como se a própria construção da imagem precisasse permanecer exposta. Existe nisso uma ética do processo que resiste à assepsia visual dominante em grande parte da produção contemporânea internacionalizada. Sua obra reivindica o direito à imperfeição, ao ruído e à fratura como formas legítimas de experiência estética.
Embora dialogue com tradições como a abstração informal, o expressionismo e certas vertentes da arte urbana contemporânea, André Venzon evita qualquer submissão a modelos reconhecíveis. Sua linguagem possui autonomia própria. O artista absorve referências sem se tornar ilustrador de tendências. O resultado é uma produção marcada por forte identidade visual e por uma investigação persistente das relações entre cor, matéria e arquitetura. O uso recorrente do magenta — cor associada aos tapumes urbanos que o fascinam — acaba adquirindo em sua obra uma dimensão quase psicológica: uma presença vibrante que simultaneamente atrai e interrompe o olhar.
Série PARA VER QUE NÃO VEMOS TUDO, 2025, intervenção com bordado industrial sobre tapeçaria estilo Gobelin vintage em moldura de tapume. Acervo do artista.
Mas limitar a relevância de André Venzon apenas à produção artística seria insuficiente. Sua trajetória também possui enorme importância institucional e cultural no Rio Grande do Sul. Ao longo das últimas décadas, ele exerceu funções decisivas na articulação da cena artística gaúcha, ocupando posições de liderança em espaços fundamentais da cultura brasileira. Foi presidente da Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa, conselheiro estadual de cultura, integrante do Colegiado Nacional de Artes Visuais e diretor do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul em diferentes períodos. Sua atuação demonstra compreensão rara da arte como prática social e como instrumento de construção pública da sensibilidade.
Essa dimensão coletiva de sua atuação talvez explique a coerência entre obra e pensamento. Venzon nunca tratou a arte como exercício isolado de individualismo autoral. Seu percurso revela compromisso contínuo com a criação de ambientes de circulação cultural, formação crítica e fortalecimento institucional das artes visuais. Como coordenador da galeria da Fundação ECARTA e diretor artístico do Instituto Cultural Laje de Pedra, contribui para ampliar o diálogo entre produção artística, público e reflexão contemporânea.
Também merece destaque sua participação em projetos ligados à memória urbana e simbólica do estado, como a autoria do monumento dedicado à primeira imigração judaica organizada para o Brasil, instalado no Parque Farroupilha. Esse trabalho evidencia outro aspecto importante de sua trajetória: a capacidade de articular arte pública, memória histórica e pertencimento coletivo sem recorrer ao monumentalismo vazio.
Ao observar o conjunto de sua produção, torna-se evidente que André Venzon pertence à categoria de artistas que transformam materiais cotidianos em instrumentos de pensamento crítico. Sua obra não busca oferecer respostas simples nem imagens de consumo imediato. Ela exige atenção, duração e disponibilidade perceptiva. Em tempos marcados pela aceleração digital e pela superficialidade das experiências visuais, seu trabalho reafirma o poder da arte como espaço de resistência simbólica.
A contribuição de André Venzon para as artes brasileiras reside justamente nessa capacidade de unir rigor poético, consciência urbana e atuação cultural consistente. Sua produção demonstra que ainda é possível construir uma arte profundamente conectada ao presente sem abdicar de complexidade formal e densidade intelectual. Em suas obras, a cidade deixa de ser simples paisagem: torna-se organismo vivo, território de disputa, memória em ruínas e possibilidade permanente de reinvenção do olhar.
Disse lá atrás que Flávio Bolsonaro era um “chapéu na cadeira”. Um sobrenome para amparar a tese da polarização “Bolsonaro-Lula” e abrir caminho a uma “terceira via”, que viria “unir o país” e livrá-lo “da polarização e do radicalismo”.
Até agora não surgiu o nome, se surgiu ainda não foi identificado.
Vai surgir ou o chapéu vai ocupar a cadeira e ser mesmo o nome para barrar o Lula 4, em outubro? Eis a questão.
Ferido de morte com a revelação de suas relações com Daniel Vorcaro, o capo do Master, Flávio ganha alguma sobrevida com as últimas manifestações de Trump. Mas ainda é cedo para dizer que ele é o nome ou o chapéu.
A agressividade de Lula nos ataques a Flávio depois do tarifaço dos Estados Unidos pode ser lida como um sinal de que ele está escolhendo o oponente.
De fato, é o oponente que Lula pediria a Deus: despreparado, com robusto contencioso de denúncias, das rachadinhas ao dinheiro de Vorcaro, sem falar na pecha de traidor da Pátria.
A direção compreende que a grande tragédia do texto de Zeller não está nos fatos extraordinários, mas na banalidade devastadora dos afetos mal administrados.
Por Cristiano Goldschmidt
Há peças que se estruturam sobre acontecimentos. Outras, mais raras, organizam-se em torno de ausências. O Filho, texto do dramaturgo e cineasta francês Florian Zeller, pertence a essa segunda categoria. Sua matéria dramática não é propriamente o conflito, mas aquilo que se deteriora silenciosamente dentro das relações humanas enquanto todos ainda insistem em manter a aparência de normalidade. Assistir à montagem brasileira dirigida por Léo Stefanini, no Salão de Atos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, no último domingo, 31 de maio, foi menos uma experiência teatral convencional do que um mergulho gradual numa espécie de vertigem emocional cuidadosamente arquitetada. Ao final, o que permanecia não era apenas a memória das atuações ou da encenação, mas um mal-estar profundo, desses que não se dissipam quando as luzes da plateia se acendem.
Gabriel Braga Nunes, Andreas Trotta e Maria Ribeiro em O FILHO, peça do dramaturgo e cineasta francês Florian Zeller
O mérito maior desta montagem talvez esteja justamente na recusa do melodrama fácil. Em mãos menos sofisticadas, O Filho poderia transformar-se numa narrativa sobre adolescência problemática ou numa denúncia sentimental sobre saúde mental. Nada disso acontece aqui. A direção compreende que a grande tragédia do texto de Zeller não está nos fatos extraordinários, mas na banalidade devastadora dos afetos mal administrados. Pais que acreditam estar fazendo o melhor. Filhos incapazes de traduzir o próprio sofrimento. Adultos tão ocupados em reorganizar suas vidas que não percebem as rachaduras crescendo dentro da casa. Há uma crueldade involuntária circulando por toda a peça — e é precisamente isso que a torna tão perturbadora.
A dramaturgia de Zeller possui uma inteligência estrutural admirável. O autor escreve diálogos aparentemente simples, cotidianos quase prosaicos, mas faz deles instrumentos de compressão psicológica. Cada conversa contém algo que não está sendo dito. Cada silêncio parece mais eloquente do que as frases pronunciadas. Em cena, a linguagem nunca é plenamente comunicativa; ela funciona como máscara, defesa ou fracasso. Talvez por isso o texto provoque tamanha sensação de impotência: ninguém ali consegue realmente alcançar o outro. Todos falam. Ninguém consegue tocar o núcleo do sofrimento alheio.
A montagem brasileira entende essa arquitetura emocional e evita excessos explicativos. Gabriel Braga Nunes constrói um pai dividido entre afeto genuíno e incapacidade emocional com admirável contenção. Seu personagem não é monstruoso, negligente ou egoísta de maneira caricatural. Ao contrário: é justamente sua humanidade imperfeita que torna tudo mais doloroso. Há momentos em que o ator parece operar quase por suspensão, como alguém permanentemente atrasado em relação à gravidade da situação que vive. Sua interpretação rejeita grandes explosões emocionais – há uma única exceção – e aposta numa espécie de desgaste interno contínuo. O resultado é profundamente convincente.
Ao lado dele, Maria Ribeiro realiza talvez o trabalho mais delicado da montagem. Sua personagem carrega uma culpa difusa, dessas impossíveis de organizar racionalmente. A atriz evita transformar a mãe numa figura exclusivamente fragilizada. Existe nela irritação, cansaço, ressentimento e, sobretudo, uma exaustão moral que Maria Ribeiro traduz com extrema precisão. Seu desempenho possui uma dimensão quase documental: em vários momentos, parece menos uma atuação do que a observação íntima de alguém tentando sobreviver emocionalmente ao colapso da própria família.
Thaís Lago também merece destaque individual pela inteligência com que constrói sua personagem. Em uma peça dominada por tensões familiares de alta voltagem emocional, a atriz compreende que sua função dramática não está em disputar protagonismo, mas em oferecer contrapontos de sensibilidade e estabilidade aos conflitos centrais. Sua atuação revela um trabalho cuidadoso de escuta cênica, sustentado por uma presença discreta, porém constantemente significativa. Lago evita qualquer excesso interpretativo e investe numa composição marcada pela naturalidade, permitindo que pequenos gestos, pausas e inflexões revelem camadas emocionais que enriquecem a narrativa. É justamente essa economia expressiva que confere densidade à personagem e amplia a credibilidade do universo humano construído pela montagem.
Mas é Andreas Trotta quem sustenta o coração mais brutal da peça. Seu trabalho como o jovem Nicolas impressiona não pela intensidade ostensiva, mas pelo controle rigoroso da vulnerabilidade. O ator compreende algo fundamental: adolescentes em sofrimento raramente parecem trágicos o tempo inteiro. Há ironia, apatia, humor involuntário, dispersão, manipulação afetiva e ternura coexistindo simultaneamente. Trotta evita todos os clichês da juventude atormentada. Seu Nicolas não é um símbolo geracional nem uma abstração psicológica; é um corpo exausto tentando continuar existindo num mundo que perdeu legibilidade emocional.
Em diversos momentos da apresentação no Salão de Atos, era possível perceber a plateia mergulhada num silêncio particularmente denso — não o silêncio protocolar do respeito teatral, mas aquele outro, mais raro, que surge quando o público reconhece em cena alguma verdade desconfortável sobre si mesmo. O Filho produz esse efeito porque não oferece distância moral segura. Não há vilões evidentes. Não há soluções redentoras. O espetáculo obriga o espectador a confrontar uma pergunta inquietante: até que ponto o amor basta quando faltam instrumentos emocionais para compreender o sofrimento do outro?
A direção de Léo Stefanini demonstra inteligência ao não tentar “embelezar” essa devastação. Sua encenação aposta na limpeza formal, na circulação precisa dos atores e numa administração rigorosa do ritmo. Há um entendimento claro de que o horror da peça nasce justamente da normalidade dos ambientes. Tudo parece funcional, civilizado, organizado — e talvez seja exatamente isso que torne a experiência tão angustiante. O desastre emerge não do caos, mas da vida cotidiana funcionando aparentemente como deveria.
Nesse sentido, o figurino concebido por Yakini Rodrigues revela sensibilidade dramatúrgica rara. Em vez de buscar estilizações ostensivas ou signos visuais excessivamente simbólicos, Yakini constrói uma aparência de absoluta normalidade que, paradoxalmente, aprofunda a dimensão trágica do espetáculo. As roupas parecem pertencer organicamente à vida cotidiana daqueles personagens: tecidos discretos, cortes funcionais, tons sóbrios, escolhas que traduzem pessoas absorvidas por rotinas urbanas emocionalmente desgastadas. Há algo particularmente inteligente na maneira como o figurino evita individualizar excessivamente os personagens por meio da aparência, permitindo que a tensão psicológica emerja sobretudo da relação entre os corpos, os silêncios e os afetos interrompidos. Trata-se de um trabalho de refinada discrição, desses que não procuram chamar atenção para si mesmos, mas sustentam silenciosamente a credibilidade emocional da encenação.
O elenco de apoio contribui decisivamente para a engrenagem emocional da peça. Marcio Marinello imprime densidade às pequenas aparições, enquanto Luciano Schwab trabalha com precisão as zonas periféricas da tensão dramática. Ambos compreendem a lógica de contenção que atravessa a encenação e evitam qualquer movimento que desestabilize o delicado equilíbrio tonal do espetáculo. Nenhuma atuação parece fora da frequência dramática proposta pela montagem. Existe um raro senso de conjunto em cena, resultado de um trabalho coletivo que compreende a importância de cada presença para a construção da atmosfera de inquietação e fragilidade que sustenta o todo.
Também impressiona a forma como o espetáculo evita discursos simplificadores sobre sofrimento psíquico. Em tempos nos quais tantas obras transformam temas emocionais complexos em slogans terapêuticos ou mensagens motivacionais embaladas para consumo rápido, O Filho recusa qualquer sentimentalismo pedagógico. A peça não pretende ensinar o público a lidar com depressão, adolescência ou relações familiares. Sua ambição é mais difícil — e artisticamente mais relevante. Ela procura expor a falência parcial da comunicação humana contemporânea. Pais e filhos dividem espaços, rotinas, afetos e ainda assim permanecem separados por distâncias emocionais imensas.
Há algo profundamente contemporâneo na maneira como Zeller retrata famílias emocionalmente alfabetizadas apenas na superfície. Todos conhecem os vocabulários corretos, os protocolos do cuidado, os discursos da escuta, mas poucos conseguem verdadeiramente sustentar a presença necessária diante da dor radical do outro. O espetáculo toca nesse nervo exposto do presente com rara honestidade.
Ao final da sessão, conclui-se que O Filho pertence a essa categoria cada vez mais rara de experiências artísticas que não desejam apenas entreter ou emocionar, mas produzir fricção moral, desconforto reflexivo e memória duradoura. É um espetáculo que permanece reverberando muito depois da saída do teatro. Na noite de 31 de maio, no Salão de Atos da PUC-RS, essa reverberação era quase palpável. As pessoas deixavam seus lugares mais silenciosas do que o habitual, como quem regressa lentamente de um território emocional difícil de nomear. Talvez porque O Filho nos lembre de algo que preferimos esquecer: há sofrimentos que acontecem diante dos nossos olhos sem que saibamos reconhecê-los a tempo. E há amores sinceros que, mesmo verdadeiros, ainda assim fracassam.
Há momentos em que a política internacional deixa de operar através da diplomacia e passa a atuar pela linguagem da intimidação. A recente decisão do governo Donald Trump de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas não pode ser compreendida apenas como uma medida de segurança pública ou cooperação internacional contra o crime transnacional. Trata-se de um gesto político carregado de significados geopolíticos, simbólicos e eleitorais. E, sobretudo, de um episódio que expõe uma questão cada vez mais preocupante para a democracia brasileira: a atuação de setores da extrema direita nacional que recorrem a potências estrangeiras para pressionar, constranger e deslegitimar instituições do próprio país.
O discurso oficial norte-americano sustenta que as facções brasileiras possuem alcance internacional, movimentam bilhões de dólares e representam ameaça à segurança regional. Nada disso é propriamente falso. PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas de enorme capacidade operacional, responsáveis por redes de tráfico, lavagem de dinheiro, corrupção e violência armada que atravessam fronteiras. Entretanto, reconhecer a gravidade dessas organizações não significa aceitar automaticamente a sua equiparação ao terrorismo.
A distinção não é apenas semântica. Ela possui implicações jurídicas, políticas e estratégicas profundas. Terrorismo, em sua formulação clássica e em grande parte das convenções internacionais, pressupõe motivações ideológicas, religiosas, étnicas ou políticas destinadas a produzir efeitos de coerção coletiva sobre governos ou populações. O terrorismo busca alterar a ordem política através do medo. Já o crime organizado, ainda que utilize violência extrema, opera prioritariamente sob uma lógica econômica. Seu objetivo central não é a conquista do poder político ou a imposição de uma visão de mundo, mas a expansão de mercados ilícitos, territórios e fluxos financeiros.
É precisamente por essa razão que grande parte das estruturas jurídicas internacionais continua tratando terrorismo e crime organizado como fenômenos distintos. As principais organizações criminosas latino-americanas são normalmente enquadradas como ameaças transnacionais de segurança, não como movimentos terroristas. A própria tradição jurídica europeia preserva essa diferenciação conceitual porque compreende que a diluição das fronteiras entre crime e terrorismo tende a ampliar poderes excepcionais do Estado e abrir espaço para intervenções políticas travestidas de operações de segurança.
Quando tudo passa a ser terrorismo, o conceito deixa de descrever uma realidade específica e passa a funcionar como instrumento político. Não é coincidência que a retórica da “guerra ao terror” tenha servido, ao longo das últimas décadas, para justificar invasões, operações clandestinas, vigilância em massa, sanções econômicas e interferências em países considerados estratégicos pelos interesses norte-americanos.
A América Latina conhece esse roteiro. Conhece-o muito bem.
Da Guatemala ao Chile, da Nicarágua ao Panamá, da República Dominicana ao Brasil, o continente acumulou experiências traumáticas nas quais a defesa da democracia, da liberdade ou da segurança serviu de argumento para projetos de influência externa profundamente incompatíveis com a autodeterminação dos povos. Os métodos mudaram, os discursos se atualizam, mas a lógica de tutela permanece surpreendentemente semelhante.
Flávio Bolsonaro e Donald Trump. Foto publicada nas redes sociais por Flávio no dia 26 de maio. Reprodução.
É nesse contexto que a decisão da administração Trump adquire contornos particularmente inquietantes. Não apenas pelo conteúdo da medida, mas pelo fato de ela ter sido estimulada por membros da própria família Bolsonaro, que há anos cultivam uma espécie de diplomacia paralela baseada na desqualificação permanente das instituições brasileiras perante governos estrangeiros. As notícias sobre a atuação de Flávio Bolsonaro junto a autoridades norte-americanas para defender essa classificação não podem ser tratadas como um detalhe secundário. Elas revelam uma concepção de patriotismo profundamente contraditória.
Existe algo de paradoxal — e até mesmo de grotesco — na imagem de políticos que se apresentam como defensores intransigentes da pátria recorrendo continuamente a agentes estrangeiros para pressionar o próprio país. O nacionalismo que professam parece terminar exatamente onde começam seus interesses particulares.
O fenômeno não é novo. Ao longo dos últimos anos, integrantes do bolsonarismo transformaram organismos internacionais, parlamentos estrangeiros e setores do governo norte-americano em palcos para campanhas sistemáticas de deslegitimação do Supremo Tribunal Federal, do sistema eleitoral brasileiro e das instituições republicanas. Em qualquer democracia madura, uma prática semelhante provocaria enorme constrangimento político.
Mais grave ainda é que essa ofensiva internacional ocorre enquanto figuras centrais desse mesmo campo político permanecem cercadas por investigações, denúncias e controvérsias envolvendo corrupção, rachadinhas, relações com milicianos e estruturas paralelas de poder. Não cabe ao articulista substituir o trabalho da Justiça nem antecipar condenações. Mas é impossível ignorar a ironia histórica presente no fato de personagens frequentemente associados a suspeitas tão graves reivindicarem para si o monopólio moral da luta contra o crime.
Há uma dimensão quase teatral nessa operação discursiva. Enquanto o crime organizado é transformado em ferramenta retórica para atacar adversários políticos, permanecem frequentemente obscurecidas as zonas cinzentas onde violência, negócios ilícitos, clientelismo e poder institucional se encontram. O Brasil conhece bem essas áreas de sombra. E elas raramente se limitam às periferias ou aos presídios.
A transformação do PCC e do Comando Vermelho em organizações terroristas atende muito mais às necessidades simbólicas de uma narrativa política do que à precisão conceitual exigida pelo direito internacional. Produz manchetes impactantes. Cria a sensação de endurecimento. Alimenta imaginários de guerra. Mas dificilmente resolve as estruturas concretas que sustentam essas organizações: desigualdade social, corrupção sistêmica, fluxos internacionais de armas, lavagem financeira e fragilidade institucional.
Ao contrário. O risco é que a teatralização permanente da segurança pública substitua políticas eficazes por gestos espetaculares.
O Brasil necessita de cooperação internacional para combater o crime organizado. Necessita de inteligência compartilhada, controle financeiro, fiscalização de fronteiras e coordenação policial. Mas cooperação não é sinônimo de subordinação. Parceria não significa tutela. E soberania não pode ser tratada como um conceito descartável sempre que interesses eleitorais ou geopolíticos entram em cena.
A história demonstra que países fortes não são aqueles que terceirizam suas decisões estratégicas. São aqueles capazes de enfrentar seus problemas internos sem renunciar a sua autonomia política.
O episódio envolvendo Trump, o PCC, o Comando Vermelho e o bolsonarismo talvez seja menos revelador sobre as facções criminosas do que sobre uma parcela da elite política brasileira. Uma parcela que parece incapaz de distinguir oposição de sabotagem, divergência de deslegitimação institucional e cooperação internacional de submissão.
Em tempos de radicalização permanente, talvez seja necessário recordar uma verdade elementar: nenhuma democracia se fortalece quando seus próprios atores políticos trabalham no exterior para enfraquecer o seu país. E nenhuma soberania resiste por muito tempo quando seus defensores mais barulhentos são também os primeiros a colocá-la em negociação.