Categoria: Análise&Opinião

  • Leandro Machado e a arqueologia das fraturas contemporâneas

    Por Cristiano Goldschmidt

    Em uma época em que parte significativa da arte contemporânea parece oscilar entre o espetáculo vazio e a hermenêutica excessivamente autocentrada, a trajetória de Leandro Machado se impõe como um raro exercício de densidade poética aliada à inteligência formal. Nascido em 1970, em Porto Alegre, Leandro construiu uma obra que não busca apenas ocupar espaços institucionais ou responder às demandas do circuito artístico; ela parece movida por uma necessidade mais profunda: compreender as zonas de fricção entre matéria, memória, cidade e subjetividade. Há em sua produção uma espécie de arqueologia do sensível, um trabalho contínuo de escavação simbólica da experiência urbana e humana.

    Autorretrato, 2017. Leandro Machado

    Artista negro, Leandro Machado incorpora em sua trajetória elementos identitários que não aparecem como mero discurso de superfície, mas como constituição ética, histórica e espiritual de seu olhar sobre o mundo. Quando afirma ser “de Xangô e de Obá”, não está apenas evocando pertencimentos religiosos ou simbólicos ligados às matrizes africanas; está afirmando uma cosmologia, uma herança de resistência e uma dimensão ancestral que atravessa sua produção artística. Em sua obra, essa ancestralidade não se traduz por ilustração folclórica nem por exotização da negritude. Ela aparece como força estruturante, como energia subterrânea que reorganiza a percepção da matéria, do gesto e do espaço.

    De quem é o corpo que pode ser torturado, 2018. Leandro Machado.

    Sua formação acadêmica também ajuda a compreender a complexidade de sua linguagem. Leandro possui formação em artes visuais — bacharelado em pintura e licenciatura em educação artística — ambos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Essa dupla experiência, simultaneamente técnica e pedagógica, parece ter contribuído para a elaboração de uma obra que alia domínio formal rigoroso a uma reflexão permanente sobre o papel social e humano da arte. Em seus trabalhos, percebe-se claramente alguém que conhece profundamente os mecanismos da imagem, da composição e da história da pintura, mas que se recusa a transformar esse conhecimento em mero virtuosismo estéril.

    Seu percurso evidencia um artista interessado menos em repetir assinaturas visuais facilmente reconhecíveis e mais em tensionar linguagens, suportes e procedimentos. Essa inquietação é precisamente uma das forças centrais de sua produção: a percepção de que a arte não deve cristalizar-se em identidade estanque, mas permanecer como campo aberto de investigação.

    Sua obra opera frequentemente na intersecção entre pintura, desenho, intervenção gráfica, assemblagem e experiências visuais que dialogam com a materialidade da cidade contemporânea. No entanto, reduzir seu trabalho a uma simples aproximação com o universo urbano seria insuficiente. A cidade, em Leandro Machado, não aparece apenas como tema; ela surge como estrutura mental, ruído psicológico e campo de disputa simbólica. Seus trabalhos parecem capturar aquilo que o filósofo alemão Walter Benjamin chamava de “experiência fragmentária da modernidade”: restos, sobreposições, apagamentos, cicatrizes visuais e camadas temporais convivendo em tensão permanente.

    Sem título, 2023. Fotografia. Leandro Machado.

    Há algo profundamente musical em sua construção imagética. Não no sentido decorativo da palavra, mas na maneira como ritmos, interrupções, vazios e densidades organizam o olhar do observador. Em muitas de suas obras, percebe-se um equilíbrio sofisticado entre contenção e explosão. A composição nunca é arbitrária; existe uma inteligência espacial rigorosa sustentando a aparente liberdade gestual. Esse domínio formal impede que a energia expressiva descambe para o mero impulso caótico. Leandro compreende que a potência estética nasce justamente do atrito entre controle e vertigem.

    Sua relação com a matéria também merece atenção especial. Em um período histórico profundamente digitalizado, no qual imagens são produzidas e descartadas numa velocidade quase desumana, sua obra reafirma o valor da fisicalidade. Texturas, camadas, marcas, resíduos e superfícies não são elementos acessórios, mas partes constitutivas do pensamento visual. A matéria em seus trabalhos possui memória. Cada desgaste parece carregar um vestígio temporal; cada intervenção sugere uma narrativa interrompida. Essa dimensão tátil devolve à experiência artística algo que o excesso de virtualização frequentemente dilui: a consciência do tempo inscrito nos objetos.

    Sem título, 2021. Intervenção Urbana e Fotografia.

    Existe ainda em sua produção uma dimensão ética silenciosa. Diferentemente de artistas que transformam posicionamentos políticos em slogans visuais imediatos, Leandro Machado opera numa esfera mais complexa e menos panfletária. Sua arte não simplifica a realidade em discursos binários. Ela produz estranhamento, deslocamento e reflexão. Ao invés de oferecer respostas confortáveis, convoca o espectador a habitar ambiguidades. Nesse sentido, sua obra dialoga com uma tradição crítica importante da arte latino-americana, especialmente aquela que compreende o espaço artístico como território de elaboração simbólica das tensões sociais.

    Sua trajetória em Porto Alegre também possui relevância cultural mais ampla. Em um país historicamente marcado pela concentração institucional no eixo Rio–São Paulo, artistas do sul do Brasil muitas vezes precisaram construir percursos de reconhecimento em condições menos favorecidas de visibilidade nacional. Leandro Machado pertence a uma geração que ajudou a afirmar a vitalidade intelectual e estética da produção gaúcha contemporânea sem recorrer a regionalismos caricatos. Sua obra não busca representar um “folclore do sul”, mas elaborar experiências universais a partir de uma vivência situada.

    Te reconhece diante da imagem que o espelho insiste, 2016. Gravura para o Museu do Trabalho. Leandro Machado.

    Entre os reconhecimentos conquistados ao longo de sua trajetória, destaca-se a circulação internacional do projeto “Arqueologia do Caminho”. Entre dezembro de 2018 e agosto de 2019, Leandro apresentou seu livro e a exposição homônima em três países, consolidando um importante momento de expansão de sua presença artística para além das fronteiras brasileiras. No Brasil, o projeto passou pelo Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul e pelo Espaço Cultural Canto da Carambola, no Rio de Janeiro; no Uruguai, foi apresentado em Montevidéu, na Galeria Marte; e, na França, em La Rochelle, no Centre Intermondes. Essa itinerância não representou apenas um reconhecimento institucional, mas também a confirmação da capacidade de sua obra dialogar com diferentes contextos culturais sem perder sua singularidade poética e política.

    Travessias afro-atlânticas, 2002. Foto de Leandro Machado

    Isso talvez explique por que sua produção consegue dialogar simultaneamente com referências internacionais e com uma sensibilidade profundamente brasileira. Há ecos do expressionismo, da abstração lírica, da arte urbana e mesmo de certas estratégias conceituais contemporâneas, mas tudo isso é atravessado por uma experiência concreta da instabilidade urbana latino-americana. O resultado não é derivativo. Pelo contrário: Leandro parece absorver influências para depois submetê-las a um processo de reinvenção subjetiva.

    Em julho de 2025, sob curadoria de Cristina Barros e Francisco Dalcol, sua primeira exposição individual no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli, “Leandro Machado – Hospícios e balneários [é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança]”, evidenciou de maneira contundente a amplitude e a maturidade de sua pesquisa artística. A mostra reuniu obras produzidas desde os anos 1990 e articulou diferentes linguagens, procedimentos gráficos, objetos, fotografias e instalações, compondo uma experiência visual marcada pela sobreposição de memórias, narrativas urbanas e tensões sociais. A partir do próprio título da exposição e da atmosfera construída pelo artista, era possível perceber uma reflexão profunda sobre pertencimento, vulnerabilidade social, ancestralidade e experiências de deslocamento humano. Hospícios e balneários surgiam menos como categorias fixas de espaço e mais como imagens simbólicas capazes de evocar simultaneamente cuidado, abandono, exclusão e desejo de comunidade. Em vez de oferecer leituras fechadas, a exposição parecia convidar o público a pensar sobre as formas como a sociedade contemporânea administra a diferença, a fragilidade e a convivência coletiva. O subtítulo — “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” — introduzia ainda uma dimensão ética e comunitária particularmente poderosa, sugerindo que nenhum processo de formação humana pode existir sem memória compartilhada, vínculos afetivos e responsabilidade coletiva. A mostra confirmou a capacidade de Leandro Machado de transformar matéria visual em reflexão crítica sem perder intensidade poética, consolidando sua presença como uma das vozes mais densas e singulares da arte contemporânea produzida no sul do Brasil.

    Abertura no MARGS. Leandro Machado – Hospícios e balneários [é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança]. 2025.

    Outro aspecto fundamental de sua contribuição artística reside na capacidade de preservar complexidade sem perder força comunicativa. Muitas obras contemporâneas sofrem de um hermetismo excessivo que afasta o público; outras, ao contrário, sacrificam profundidade em nome da fácil assimilação visual. Leandro Machado evita ambos os extremos. Sua obra pode ser intelectualmente sofisticada sem tornar-se fria. Pode ser emocionalmente intensa sem perder elaboração crítica. Essa coexistência rara entre sensibilidade e pensamento talvez seja um dos elementos que tornam seu trabalho particularmente relevante no cenário atual.

    Também chama atenção a maneira como sua produção parece resistir à lógica acelerada do consumo imagético contemporâneo. Suas obras exigem permanência do olhar. Não se revelam integralmente num primeiro contato. Há camadas perceptivas que emergem lentamente, como se cada trabalho recusasse a instantaneidade superficial que domina grande parte da cultura digital. Em tempos de hiperestimulação visual, essa desaceleração perceptiva possui quase um valor político.

    A arte de Leandro Machado também pode ser compreendida como um exercício de sobrevivência simbólica. Em suas superfícies fragmentadas, em suas tensões gráficas e em seus resíduos materiais, percebe-se uma tentativa contínua de reorganizar o caos da experiência contemporânea em alguma forma de sentido estético. Não um sentido conclusivo ou pacificador, mas um sentido aberto, inquieto e permanentemente inacabado. Talvez por isso suas obras provoquem simultaneamente desconforto e fascínio: elas reconhecem a fratura do mundo sem abdicar da possibilidade de produzir beleza.

    Prato, 2016. Leandro Machado.

    Num circuito artístico frequentemente seduzido por modismos efêmeros e estratégias de autopromoção, Leandro Machado representa a persistência de uma ética do trabalho artístico fundada em pesquisa, elaboração e coerência. Sua trajetória evidencia um artista comprometido com a construção paciente de linguagem própria, algo cada vez mais raro numa cultura marcada pela ansiedade da visibilidade instantânea.

    Mais do que produzir imagens, Leandro Machado constrói experiências perceptivas que interrogam o olhar contemporâneo. Sua contribuição para as artes visuais brasileiras reside justamente nessa capacidade de transformar matéria, gesto e fragmento em pensamento visual complexo. Em sua obra, a arte ainda preserva algo essencial: a potência de fazer o mundo parecer simultaneamente mais enigmático e mais humano.

    Sem título, 2023. Intervenção Urbana e Fotografia. Leandro Machado.
    Sem título, 2024. Leandro Machado.
    Sem título, 2015. Pintura. Leandro Machado.
    MARGS. Leandro Machado – Hospícios e balneários [é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança]. 2025.

  • Brizola e a campanha eleitoral no RS

    A candidatura de Juliana Brizola, na cabeça de uma inédita frente de esquerda,  coloca o ex-governador Leonel Brizola, seu avô e inspirador,  no centro da disputa eleitoral deste ano.

    Brizola morreu em junho de 2004.

    Governador do Rio Grande do Sul, líder do legendário movimento da Legalidade, deputado federal e, depois de 15 anos de exílio, duas vezes governador do Rio de Janeiro e duas vezes candidato à presidência da República, Leonel Brizola – que começou a vida como engraxate em Porto Alegre – se tornou uma figura mítica na política brasileira por seu discurso contundente e sua defesa incansável da soberania nacional e da educação pública como pilar da justiça social.

    Ele está colocado no centro da campanha eleitoral no Rio Grande do Sul e poderá ter peso decisivo no resultado de uma disputa histórica no Estado.

    É normal que apareçam as críticas e até alguns equívocos a respeito do grande líder popular. O mais grave deles até agora diz respeito às “brizoletas”, os títulos do Tesouro Estadual que o governo Brizola emitiu para pagar o funcionalismo que amargava cinco anos de atrasos salariais.

    Foi uma medida inédita e arrojada que gerou muitas críticas na época, mas que hoje está sendo distorcida pelos adversários de Juliana. Outro equívoco é a relação das lendárias “escolinhas do Brizola” com as brizoletas. Nada a ver, mas o erro repetido na imprensa tem envolvido até alguns brizolistas históricos.

    A candidatura de Juliana Brizola, na cabeça de uma inédita frente de esquerda,  coloca o ex-governador Leonel Brizola, seu avô e inspirador,  no centro da disputa eleitoral deste ano.

    Brizola morreu em junho de 2004.

    Governador do Rio Grande do Sul, líder do legendário movimento da Legalidade, deputado federal e, depois de 15 anos de exílio, duas vezes governador do Rio de Janeiro e duas vezes candidato à presidência da República, Leonel Brizola – que começou a vida como engraxate em Porto Alegre – se tornou uma figura mítica na política brasileira por seu discurso contundente e sua defesa incansável da soberania nacional e da educação pública como pilar da justiça social.

    Ele está colocado no centro da campanha eleitoral no Rio Grande do Sul e poderá ter peso decisivo no resultado de uma disputa histórica no Estado.

    É normal que apareçam as críticas e até alguns equívocos a respeito do grande líder popular. O mais grave deles até agora diz respeito às “brizoletas”, os títulos do Tesouro Estadual que o governo Brizola emitiu para pagar o funcionalismo que amargava cinco anos de atrasos salariais.

    Foi uma medida inédita e arrojada que gerou muitas críticas na época, mas que hoje está sendo distorcida pelos adversários de Juliana. Outro equívoco é a relação das lendárias “escolinhas do Brizola” com as brizoletas. Nada a ver, mas o erro repetido na imprensa tem envolvido até alguns brizolistas históricos. (Elmar Bones)

  • Salete van der Poel: a educadora fragmentada e a utopia que não envelhece

    Por Cristiano Goldschmidt

    Há sete anos — precisamente em 26 de junho de 2019 — publiquei no Jornal Extra Classe uma entrevista com Maria Salete van der Poel. Ela tinha 83 anos na ocasião e acabara de vir a Porto Alegre para ministrar uma aula na Faculdade de Educação da UFRGS e lançar o livro Vidas Aprisionadas. O título que escolhi para a publicação daquela conversa era também uma declaração pessoal dela, um achado que a sintetizava por inteiro: “Se eu perder a utopia, eu perco a vida”.

    Não era retórica. Era biografia.

    Aos 90 anos — completados em maio deste ano e que confirmam a sabedoria que só os velhos sábios sabem medir —, Maria Salete van der Poel segue firme, lúcida, combativa, agregadora, escrevendo, publicando, lançando. Acaba de nos dar Eu, fragmentada, um livro de memórias publicado pela Editora Diálogo Freiriano, e que será lançado no próximo dia 28 de julho, às 19 horas, no canal da Rede Café com Paulo Freire no YouTube. O título já anuncia o gesto estético e político da obra: uma mulher que se sabe múltipla, que não se pretende una nem acabada, que se oferece em cacos generosos ao leitor para que ele mesmo monte o mosaico.

    Alguns livros se escrevem com tinta. Este, com chão.

    Natural de Campina Grande, Paraíba, Maria Salete nasceu em 18 de maio de 1936 numa família de posses, mas cedo descobriu que a verdadeira riqueza está no encontro com o outro. Aos 15 anos já militava no Centro Estudantil Campinense. Aos 16, ensinava. Aos 20, estava nas fileiras da Juventude Universitária Católica e, depois, na Ação Popular — movimentos que, às vésperas do golpe de 1964, mais revolucionaram o movimento estudantil e universitário brasileiro.

    Em 1963, foi uma das trinta pessoas de todo o Brasil selecionadas para um curso com Paulo Freire no Recife. Ali aconteceu o que ela mesma descreve como um divisor de águas: “Na minha vida teve o antes e o depois de Paulo Freire. Eu já era uma excelente alfabetizadora, mas o que me faltava era a ideologia, a consciência política, a militância”. Quando o mestre partiu para o exílio, as cartas que ele lhe enviava atravessavam oceanos. Quando voltou, a amizade já era familiar — Paulo ia à casa dela na Paraíba, e a casa se tornava extensão da utopia.

    Foram 17 prisões durante a ditadura militar. A primeira, em 1º de abril de 1964, enquanto dava aula a uma turma de crianças, num colégio que fundara com a irmã aos 19 anos — o Instituto Moderno Nossa Senhora da Salete, que começara com 13 alunos e chegaria a 400, conhecido em Campina Grande como “a universidade infantil”. O exército cercou o prédio com fuzis e metralhadoras. Levaram-na num camburão. Ela, que nunca pegara nem numa borracha para bater num aluno, era agora “comunista ativa”, “subversiva”, alvo de fichas que a acusavam de receber dinheiro e armas de Moscou.

    Os arquivos da ditadura mentiam. Mas a vida de Salete dizia a verdade.

    Foi dela o primeiro trabalho de educação carcerária do Brasil. Em 1978, entrou no Presídio do Roger, em João Pessoa, sem máquina fotográfica, sem gravador — só com um diário e a convicção freiriana de que a palavra é ferramenta de libertação. Ali, aplicou o sistema Paulo Freire com os presos, escutou suas vozes, organizou o material didático a partir do que eles sabiam e do que eles eram. Quando tentou defender a dissertação de mestrado sobre essa experiência, foi boicotada, perseguida, impedida. A universidade ainda estava de joelhos diante dos militares. Salete, não. Depois de meses de silêncio administrativo, ela entrou na sala da coordenação e disse: “Já cumpri minha parte, estou sentada há meses esperando para defender minha dissertação”. No dia da defesa, aconteceu algo que os historiadores da educação registram como um marco: foi a retomada do pensamento de Paulo Freire no Brasil, até então proibido. Na banca, a orientadora Astrogilda Carvalho Paes de Andrade, da equipe de Freire. Na plateia, a história sendo reescrita.

    Em 1981, publicou Alfabetização de Adultos. Sistema Paulo Freire: Estudo de Caso num Presídio. Mandou um exemplar a Paulo, que a telefonou, emocionado. Era a confirmação de que a obra era fiel ao pensamento dele — não como cópia, mas como reinvenção.

    Só entrou como professora na Universidade Federal da Paraíba depois de vencer cinco concursos públicos. Nos cinco, tirou primeiro lugar. Escolheu lecionar História da Educação Brasileira e Prática de Ensino de Sociologia da Educação. Durante 18 anos, levou seus estagiários para trabalhar com meninos de rua, com meninas de 9 a 12 anos forçadas a se prostituir pela situação em que viviam, com bibliotecas populares, com os esquecidos do sistema. Era a disciplina mais disputada do centro — alunos de outras áreas migravam para fazer sociologia com ela.

    Fundou a Rede de Letramento de Jovens e Adultos da Paraíba (Releja), em março de 1989, ao lado do marido, Cornelis Joannes van der Poel, sociólogo e filósofo holandês com quem construiu uma parceria de vida e de militância que atravessou décadas. A Releja completou 30 anos em 2019 e segue ativa, mesmo depois de ter sido “enterrada” — como ela mesma diz, com a amargura de quem viu o trabalho de uma vida ser desmontado por governos que tratam a Educação de Jovens e Adultos como peso, não como prioridade.

    Mas este artigo não é apenas sobre a trajetória pública de Maria Salete. É sobre o que acontece depois que a entrevista termina e o gravador é desligado.

    Porque a verdade é que, quando encontrei Salete pela primeira vez, em maio de 2019, na Faculdade de Educação da UFRGS, eu não fazia ideia de que estava conhecendo alguém que se tornaria uma referência afetiva na minha vida. A entrevista correu longa — mais de duas horas de conversa que renderam 24 minutos de leitura no Extra Classe. Ela falou de tudo: das prisões, de Paulo Freire, da educação carcerária, do desmonte da EJA no governo Bolsonaro, da utopia como condição para viver. Ao final, despedimo-nos com aquele calor genuíno que só quem já viveu alguma forma de militância sabe reconhecer.

    O que veio depois foi uma amizade que não estava no roteiro.

    Salete é daquelas pessoas que enviam áudios longos, que escrevem mensagens longas, generosas, que perguntam como estamos e o que estamos fazendo, que lembram de datas, que mandam fotos, que compartilham alegrias e indignações com a mesma intensidade. Suas mensagens gravadas ou escritas chegam como pequenas cartas — e aí está o paradoxo que me acompanha desde então: quanto mais ela me aciona, mais eu me sinto em dívida. A correria do trabalho, das atividades que se acumulam, os prazos que não esperam, a dedicação à família, o cansaço que se instala como um véu entre a intenção e o gesto — tudo conspira contra a resposta à altura que eu gostaria de dar.

    Ela merecia respostas mais longas, mais demoradas, mais à altura da generosidade que sempre teve comigo. Merecia que eu encontrasse tempo para lhe dizer, com todas as letras, o quanto a admiro. Merecia minha dedicação. Mas a vida, essa máquina de urgências, vai empurrando a gratidão para depois de amanhã — e o depois de amanhã nunca chega.

    Este artigo talvez seja uma tentativa de reparação. Uma resposta pública, ainda que insuficiente, a tudo o que ela me deu e que eu não soube retribuir no devido tempo.

    Agora, aos 90 anos, Salete nos entrega Eu, fragmentada (Memórias). A metáfora do título é precisa e comovente: uma mulher que se reconhece em pedaços, que não esconde as fraturas, que não alisa a própria biografia para parecer coerente ou heroica. Pelo contrário — o que ela nos mostra, página após página, é que a vida de uma educadora popular é feita de retalhos, de encontros e desencontros, de perdas e recomeços, de um amor que se multiplica em muitos amores. O livro é, nas palavras da própria editora, “um manifesto de esperança”. Cada capítulo, um espelho de uma educadora que sempre se multiplicou em muitas.

    O lançamento será no dia 28 de julho, às 19 horas, numa live no canal da Rede Café com Paulo Freire no YouTube. Ela estará lá — lúcida, combativa, agregadora — para conversar sobre o livro, sobre a vida, sobre a utopia que nunca a abandonou. E eu estarei lá também, não apenas como jornalista e pedagogo, mas como amigo. Talvez não consiga dizer tudo o que deveria. Talvez as palavras faltem outra vez. Mas estarei lá.

    Porque, no fundo, a verdade é esta: há pessoas que nos marcam de um jeito que a narrativa jornalística, com todo o seu rigor, não consegue conter. Maria Salete van der Poel é uma delas. Ela não é apenas a pioneira da educação carcerária no Brasil, não é apenas a freiriana que manteve a chama acesa nos anos de chumbo, não é apenas a professora que dedicou mais de sete décadas ao chão da escola. Ela é, acima de tudo, uma mulher que transforma o encontro em vínculo, e o vínculo em compromisso.

    Que venham os 100 anos. Que venham mais livros. Que venham mais mensagens longas que eu não saberei responder a tempo — mas que, ainda assim, continuem chegando.

    Porque se eu perder a utopia, eu perco a vida.

    Serviço:

    Livro: Eu, fragmentada (Memórias), de Maria Salete van der Poel

    Editora: Diálogo Freiriano | 164 páginas Lançamento: 28 de julho de 2026, às 19h

    Onde: Canal da Rede Café com Paulo Freire no YouTube

  • Pela proibição das Bets no Brasil

    Foto: Joedson Alves/Agência Brasil

    Por Cristiano Goldschmidt

    Não queria escrever sobre isso. Pelo menos não com um exemplo tão próximo. Tenho uma amiga que usufrui de boa situação financeira — salário de dezenove mil reais mensais. Há pouco tempo o marido me confidenciou: ela está gastando três mil reais por mês em Bets. Antes, eram gastos exagerados comprando sapatos. São dezenas de pares que formam uma coleção. Agora, além dos sapatos, são as Bets. O hábito, embora ainda não comprometa o orçamento familiar, já se transformou num problema, afetando a relação de ambos. Têm duas filhas, plano de saúde, uma diarista que vem três vezes por semana. Ou seja, aparentemente nada faltava. E, no entanto, faltava.

    Ele já tentou conversar, mas ela diz que não está comprometendo nada. Quando fiquei a sós com ela, toquei no assunto. Franziu a testa, revirou os olhos, disse que o marido exagerava. “São trezentos, quatrocentos reais por semana. Não comprometo as contas, não comprometo as crianças, não deixo de pagar nada. É o meu dinheiro, eu trabalho para isso. É minha diversão, meu lazer. Uma hora eu paro.”

    “Uma hora eu paro.” Essa frase deveria ser bordada nos átrios de todo cassino, seja ele físico ou digital, pois carrega o núcleo do autoengano que alimenta a indústria do jogo: a ilusão de que o vício é uma decisão que se toma a cada aposta, e não uma corrente que se forja a cada nova derrota seguida de uma quase vitória.

    É aí que reside a genialidade perversa das Bets e dos tigrinhos — esses caça-níqueis digitais travestidos de diversão que prometem fortuna com um apertar de botão. Diferentemente de um cassino físico, onde o dinheiro vira ficha e a ficha vira abstração, aqui a abstração é dupla: o dinheiro some na tela com a elegância de um passe de mágica, e a derrota é imediatamente reenquadrada como “sorte que não veio”, “quase que foi”, “da próxima vez”. O jogo nunca termina. Cada rodada é um recomeço. Cada recomeço, uma promessa.

    O que me aflige não é apenas o montante — os tais três mil reais — mas a naturalidade com que uma mulher inteligente, formada, bem-remunerada, descreve essa sangria como inofensiva. Ela não está, afinal, comprometendo a renda da família. As contas estão pagas. As crianças têm escola, plano de saúde, roupas novas. O que há de errado em gastar o próprio dinheiro com entretenimento?

    Há uma resposta, e ela não é moral num sentido rasteiro. A questão é mais sutil e mais grave: o que acontece com uma pessoa quando o risco vira rotina? Quando a experiência da perda é sistematicamente anestesiada pela expectativa do ganho seguinte?

    Os estudos neurocientíficos sobre o chamado near-miss — a jogada em que os símbolos se alinham quase por completo, mas não inteiramente — mostram que o cérebro processa a derrota por pouco como se fosse uma vitória. As mesmas regiões ativadas pelo ganho se acendem diante de uma quase conquista. O sistema de recompensa é sequestrado. O sujeito não aposta apesar de perder; aposta porque perdeu. A derrota alimenta o ciclo, não o interrompe.

    Não se trata, portanto, de falta de caráter ou de educação financeira. Trata-se de uma arquitetura comportamental deliberada. Os tigrinhos foram desenhados por engenheiros, psicólogos e analistas de dados que entendem de condicionamento operante muito melhor do que a maioria de nós entende de si mesma. A cada rodada de três segundos, o jogador é exposto a um microciclo completo de expectativa, tensão e desfecho — e o desfecho, quando negativo, é rapidamente apagado pela possibilidade de tentar de novo. O intervalo entre uma jogada e outra é curto demais para que a razão se instale. É o triunfo do design sobre a deliberação.

    O filósofo Byung-Chul Han, ao escrever sobre a sociedade do cansaço, aponta para um fenômeno que se aplica perfeitamente a este contexto: a substituição da experiência pela estimulação. O sujeito contemporâneo já não suporta o tédio, o vazio, a pausa reflexiva. Ele precisa de estímulo contínuo, de dopamina em fluxo constante. As Bets oferecem exatamente isso: uma torneira de pequenos eventos emocionantes que nunca precisa ser fechada. O problema é que, ao abrir essa torneira, não se está apenas pagando por entretenimento; compra-se um padrão neurológico que reconfigura a relação com o tempo, com o dinheiro e com o futuro.

    A amiga que menciono não vê isso. Ou vê, mas ainda não sentiu. E talvez o pior aspecto desse vício silencioso seja justamente a forma como ele demora a mostrar sua face mais destrutiva. No primeiro mês, são três mil reais que não fariam diferença. No sexto mês, já são dezoito mil que poderiam ter sido investidos, poupados, gastos em uma viagem com a família. No segundo ano, o montante já ultrapassa o valor de um carro popular. E a pessoa, olhando para trás, perceberá que não tem nada a mostrar — apenas uma coleção de telas piscando, de quase ganhos que nunca se concretizaram, de promessas que o algoritmo jamais pretendeu cumprir.

    Há, ainda, um aspecto trágico na relação entre os tigrinhos e a população de baixa renda no Brasil. Enquanto minha amiga pode perder três mil reais sem comprometer as contas de luz, o trabalhador assalariado ou entregador de aplicativo que aposta duzentos reais por semana está comprometendo um percentual muito maior de sua renda — e, com ela, sua capacidade de reagir a emergências, de planejar o mês seguinte, de sustentar as mínimas margens de segurança que separam a precariedade do colapso. As plataformas sabem disso. E, mesmo quando dizem promover “jogo responsável”, o fazem com a mesma convicção com que a indústria do tabaco financiava campanhas de prevenção ao câncer.

    Defendo, portanto, a proibição. Não por puritanismo nem por uma visão ingênua de que a lei pode eliminar o desejo, mas porque estamos diante de um produto desenhado deliberadamente para sequestrar o sistema de recompensa do cérebro humano com o propósito explícito de extrair o máximo de recursos possível de seus usuários. A indústria das Bets opera no mesmo registro das substâncias psicoativas mais nocivas: vicia, empobrece, degrada. A diferença é que, enquanto o crack é vendido em becos por traficantes, as Bets são anunciadas em horário nobre, patrocinam times de futebol e têm CNPJ.

    Não se trata de cercear a liberdade individual. Liberdade pressupõe consciência, e consciência pressupõe informação simétrica. Ora, o jogador comum não tem a menor ideia das probabilidades reais que enfrenta; não compreende o conceito de valor esperado, não enxerga a assimetria informacional que o coloca em desvantagem insuperável diante de um sistema calibrado por centenas de engenheiros. A “escolha” de apostar ocorre em um ambiente de opacidade deliberada. O livre mercado, aqui, não é livre — é predatório.

    O Estado brasileiro já proíbe substâncias e atividades que causam danos sociais comparáveis, e o faz com base no princípio da precaução e na proteção dos mais vulneráveis. As Bets deveriam seguir o mesmo caminho. Não é uma cruzada moral contra o jogo, mas o reconhecimento de que certos produtos, por sua própria natureza, são incompatíveis com o bem-estar coletivo. Assim como não se legaliza o crack argumentando que “cada um sabe de si”, não se deveria normalizar uma indústria cujo modelo de negócio depende da ruína financeira de seus consumidores.

    O economista comportamental Richard Thaler demonstrou que os seres humanos não tomam decisões financeiras como agentes racionais, mas como criaturas emocionais que avaliam ganhos e perdas de forma assimétrica. Perder duzentos reais dói mais do que ganhar duzentos reais alegra. As Bets exploram essa assimetria ao criar um ambiente onde as pequenas perdas são continuamente mascaradas pela esperança do grande ganho — que, estatisticamente, nunca virá. O cassino não precisa trapacear. A matemática já está a seu favor. O problema é que, para o jogador, a matemática é invisível, e a esperança é concreta.

    O que está em jogo é algo mais profundo do que a regulação de um setor econômico. É a definição do tipo de sociedade que queremos — uma que trata o vício como mercado a ser explorado ou uma que entende a dependência como falência existencial a ser combatida. O lobby das Bets é forte, os patrocínios são vultosos. Mas o custo humano — as famílias endividadas, as pessoas que vendem o carro, que penhoram a casa, que roubam dos parentes — esse custo não aparece nos balanços trimestrais.

    Quanto à minha amiga, não sei se deixará de apostar. Sei que o dinheiro continua saindo, mês após mês, e que o lugar que ele ocupa em sua vida é o mesmo espaço onde poderiam florescer outras coisas — um livro, uma conversa, o tédio fértil onde nascem as ideias que realmente importam. O estrago não é apenas financeiro. É existencial. E isso é muito mais difícil de recuperar do que três mil reais por mês.

  • ONG Pé de Pano é exemplo de trabalho e conquistas na região das Missões

    Enarê, antes e depois de ser resgatado pela Pé de Pano com apoio da Brigada Militar. Estava caído vítima de maus tratos e espancamentos. Ficou com sequelas neurológicas que permanecem após 8 anos de cuidados pela ONG.

    Por Cristiano Goldschmidt

    Um cavalo exausto parado à beira de uma estrada, as costelas aparentes, o olhar apagado por dias de fome e esforço excessivo, não revela apenas o sofrimento de um animal. Revela também as escolhas de uma sociedade e a ineficiência do poder público. A forma como tratamos os seres mais vulneráveis sempre acaba expondo algo sobre nossa própria humanidade – ou a falta dela. Talvez por isso o cuidado com os animais seja uma questão que ultrapassa a sensibilidade individual e alcance o campo da ética, da responsabilidade e da consciência coletiva.

    É justamente nesse espaço, onde a indiferença poderia prevalecer, que surgem pessoas dispostas a agir. Em Santo Ângelo, no interior Rio Grande do Sul, a ONG Pé de Pano SOS Cavalos (@ong_pedepano) transformou essa disposição em missão permanente. Desde 2015, a entidade dedica-se ao resgate, tratamento e reabilitação de equinos vítimas de maus-tratos. Ao longo dos anos, dezenas de cavalos encontraram ali uma segunda oportunidade de vida. Muitos chegaram debilitados, desnutridos ou feridos; outros carregavam marcas menos visíveis, mas igualmente profundas, deixadas pelo abandono, pela negligência e pela exploração. Cada resgate representa mais do que o salvamento de um animal. Representa a recusa em aceitar que o sofrimento seja tratado como algo normal.

    Resgatados, tratados e reabilitados, os equinos passam a viver soltos na sede da Pé de Pano | Divulgação ONG Pé de Pano

    Cada equino acolhido pela ONG traz consigo uma história. Alguns foram submetidos a jornadas exaustivas puxando carroças muito além de suas capacidades físicas. Outros sofreram abandono após anos de trabalho. Muitos chegam acometidos por doenças que poderiam ter sido evitadas com cuidados mínimos. Em diversos casos, não é apenas o corpo que precisa ser tratado. O medo, a desconfiança e os traumas também exigem um longo processo de recuperação.

    O trabalho da ONG nos convida a refletir sobre uma questão fundamental: qual é o valor de uma vida?

    Vivemos em uma época marcada pela lógica da utilidade. Com frequência, atribuímos valor às coisas de acordo com aquilo que podem produzir. Um cavalo muitas vezes é reduzido à condição de ferramenta de trabalho. Quando deixa de servir a determinada finalidade econômica, torna-se descartável aos olhos de quem o explorava. Essa lógica, infelizmente, ainda persiste em muitos lugares.

    Mas a atuação da Pé de Pano desafia justamente essa visão. Ao acolher um animal ferido, envelhecido ou incapaz de gerar qualquer retorno financeiro, a ONG afirma algo profundamente humano: a dignidade de um ser vivo não depende de sua utilidade. O valor da vida não pode ser medido por sua capacidade de produzir lucro.

    Essa compreensão aproxima o trabalho da entidade de uma dimensão muito maior do que o simples resgate animal. Trata-se de reconhecer que a compaixão é um princípio civilizatório. Uma sociedade que aprende a respeitar os mais vulneráveis torna-se também mais preparada para proteger crianças, idosos, pessoas em situação de exclusão e todos aqueles que necessitam de amparo.

    À frente dessa missão estão pessoas que decidiram transformar indignação em compromisso. Entre elas, destacam-se as advogadas Cristine Peixoto e Tatiane Sarmento, que dedicam parte significativa de suas vidas à defesa dos equinos e à manutenção da ONG.

    Cristine Peixoto tornou-se uma das vozes mais conhecidas da causa animal na região das Missões. Sua atuação demonstra que a defesa dos cavalos não se limita ao resgate emergencial. É necessário também enfrentar questões estruturais, promover conscientização e buscar mudanças capazes de prevenir novos casos de violência e abandono. Ao lado dela, Tatiane Sarmento integra essa rede de pessoas que compreendem que a proteção animal exige dedicação constante, muitas vezes silenciosa e distante dos holofotes.

    Poucas pessoas imaginam as dificuldades enfrentadas por organizações dessa natureza. Os custos são elevados. Os recursos quase sempre são escassos. Alimentação, medicamentos, atendimento veterinário, transporte e manutenção dos espaços de acolhimento dependem de uma combinação permanente de voluntariado, doações e solidariedade. Frequentemente, o número de animais necessitando de ajuda é maior do que a capacidade de atendimento disponível.

    Há, porém, uma dificuldade menos visível do que a falta de recursos e mais difícil de mensurar do que qualquer despesa financeira. Ela nasce do contato cotidiano com histórias de sofrimento que jamais deveriam existir. Cada cavalo resgatado traz consigo os vestígios de uma trajetória marcada pela negligência, pela exploração ou pelo abandono. Para quem está à frente desse trabalho, o desafio não consiste apenas em recuperar corpos debilitados, mas também em continuar acreditando na capacidade humana de cuidar, mesmo depois de testemunhar tantas situações que parecem negar essa possibilidade. É justamente dessa tensão entre a crueldade e a compaixão que nasce a força necessária para seguir adiante.

    Entretanto, apesar dos desafios, as conquistas existem.

    Entre elas, poucas possuem significado tão profundo quanto a luta pelo fim da tração animal em Santo Ângelo, consolidada através da Lei Municipal nº 4.393/2021. Durante anos, essa causa exigiu perseverança, coragem e a disposição de enfrentar práticas que muitos consideravam naturais apenas porque haviam sido repetidas por gerações. Cristine Peixoto, Tatiane Sarmento e os demais integrantes da entidade compreenderam que a verdadeira transformação social começa quando hábitos arraigados passam a ser questionados à luz da ética e da compaixão. A defesa dos cavalos não era apenas uma reivindicação em favor dos animais; era também um convite para que a sociedade refletisse sobre os limites morais da exploração daqueles que dependem inteiramente dos seres humanos. A entrada em vigor da proibição da tração animal, em 2026, representou mais do que o cumprimento de uma norma jurídica. Simbolizou a vitória da consciência sobre a indiferença, do respeito sobre a conveniência e da responsabilidade coletiva sobre a acomodação diante do sofrimento. Foi a demonstração de que mudanças profundas podem nascer da persistência de pessoas que se recusam a aceitar a injustiça como algo inevitável.

    As vitórias também aparecem em dimensões mais silenciosas. Estão no cavalo que volta a caminhar depois de meses de tratamento. No animal que recupera peso, saúde e confiança. Na adoção responsável que oferece um novo destino a quem conheceu apenas sofrimento. Estão ainda na mudança de olhar de uma comunidade que passa a compreender que os animais não são objetos à disposição da vontade humana, mas seres capazes de sentir dor, medo, afeto e bem-estar.

    Talvez a maior contribuição da ONG Pé de Pano não possa ser medida por números ou leis aprovadas. Seu legado mais importante talvez esteja na transformação de consciências. Em uma época marcada pela pressa, pelo individualismo e pela banalização do sofrimento, a entidade nos recorda que a compaixão continua sendo uma força capaz de modificar realidades.

    Os cavalos resgatados pela ONG jamais poderão agradecer com palavras. Mas existe gratidão no animal que volta a confiar após ter conhecido apenas a violência. Existe gratidão naquele que recupera a saúde e encontra um lugar seguro para viver. E existe, sobretudo, uma lição para todos nós: o grau de humanidade de uma sociedade não se revela apenas pela forma como trata seus semelhantes, mas também pela maneira como cuida daqueles que dependem inteiramente de sua proteção. Afinal, a civilização não se constrói apenas com leis, edifícios ou avanços tecnológicos. Ela se constrói, diariamente, através da capacidade de reconhecer valor e dignidade mesmo na vida que não pode pedir socorro com palavras.

    Se você quer conhecer mais sobre o trabalho da ONG acesse o perfil no Instagram @ong_pedepano

  • 10 anos sem Abbas Kiarostami: o legado do mestre iraniano

    Abbas Kiarostami | Foto de Hamed Malekpour para a Agência de Notícias Tasnim

    Por Cristiano Goldschmidt

    Há uma duração — nem sempre exata, mas frequentemente próxima — em que a memória transita do luto agudo para a sedimentação histórica. Dez anos é esse tempo em que a ausência de um artista deixa de ser uma ferida aberta para se tornar uma lacuna estrutural na forma como compreendemos o mundo. Em 4 de julho de 2016, quando Abbas Kiarostami partiu em Paris, o cinema perdeu não apenas um de seus maiores diretores, mas o seu mais gentil filósofo da imagem. O mundo que ele deixou para trás, em 2016, ainda tateava as incertezas de uma era de pós-verdade e fragmentação digital, mas o mundo de 2026, onde nos encontramos agora, parece ter mergulhado definitivamente em uma saturação visual que torna o seu cinema mais do que um legado: torna-o um antídoto. O silêncio que Kiarostami deixou não foi um vácuo de produção — sua influência ecoa em cada cineasta que ousa demorar o olhar —, mas a ausência de uma perspectiva: aquela capacidade quase mística de encontrar o universal no particular, o eterno no efêmero e a verdade na mais descarada das encenações.

    A filosofia do olhar: O automóvel como confessionário

    Para Kiarostami, a câmera nunca foi um instrumento de captura passiva, mas uma ferramenta de interrogação constante que desafiava o espectador a completar a obra com sua própria subjetividade. Talvez em nenhum outro lugar essa filosofia tenha sido tão pungente quanto no interior dos automóveis que serviram de cenário para obras-primas como Gosto de Cereja (1997) e Dez (2002). O carro, sob sua direção, transmutou-se: de meio de transporte em estúdio móvel, de estúdio móvel em confessionário laico. A intimidade era forjada pela proximidade física e pela paisagem que passava — imutável, indiferente — do lado de fora da janela. Ao confinar seus personagens a esse espaço restrito, Kiarostami eliminava as distrações do mundo para focar na essência do diálogo e na microexpressão da alma humana.

    Em Gosto de Cereja, a busca de um homem por alguém que o enterre após o suicídio não é um exercício de niilismo, mas uma celebração da vida mediada pelo olhar do outro, revelando que a redenção habita o sabor de uma fruta, o pôr do sol através de um para-brisa empoeirado. Nesse filme, a morte não é o tema; é apenas o pretexto para uma conversa sobre a razão de viver. Cada encontro dentro do carro é uma pequena epifania, um instante em que a vida se justifica por sua própria persistência.

    A fronteira borrada: A verdade da mentira

    A genialidade de Kiarostami residia na sua recusa em aceitar a dicotomia entre documentário e ficção, uma fronteira que ele não apenas cruzou, mas que dissolveu com a precisão de um alquimista. Em Close-Up (1990), ao reconstruir o caso real de um homem que se passou pelo cineasta Mohsen Makhmalbaf, ele criou uma obra que questiona a própria natureza da identidade e do desejo de ser reconhecido. Da mesma forma, a chamada Trilogia de Koker — composta por Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), E a Vida Continua (1992) e Através das Oliveiras (1994) — representa um dos exercícios metalinguísticos mais sofisticados da história da arte.

    Ao retornar ao local de um terremoto devastador para procurar os atores de seu filme anterior, Kiarostami transformou o “fazer cinema” no tema central da narrativa, revelando que a arte não é um espelho da realidade, mas uma construção que, paradoxalmente, é a única forma de alcançarmos uma verdade emocional profunda. Ele nos ensinou que a encenação é, frequentemente, o caminho mais direto para a honestidade — uma lição que desmente séculos de desconfiança entre arte e verdade.

    O legado digital e a imagem fixa

    Nos seus últimos anos, Kiarostami abraçou a tecnologia digital não como uma facilidade técnica, mas como uma nova fronteira para a experimentação poética. Sua transição para a fotografia e para obras experimentais culminou em 24 Frames (2017), seu testamento visual póstumo, onde ele deu vida a imagens estáticas, fossem elas fotografias autorais ou pinturas clássicas. Nesse projeto, cada quadro é uma meditação sobre o tempo e o movimento, um convite para que o espectador recupere a capacidade de observar o detalhe mínimo: o balanço de uma folha, o voo de um pássaro ou a queda da neve.

    Essa fase final de sua carreira revelou um artista que, embora mestre do diálogo, estava cada vez mais interessado no que as imagens dizem quando as palavras calam. O digital, para ele, era uma forma de libertar o cinema das amarras industriais e devolvê-lo à sua essência de observação pura, quase pictórica, onde a tecnologia servia apenas para ampliar a sensibilidade humana. Em 24 Frames, o tempo não passa — ele respira.

    Kiarostami em 2026: A fragilidade da memória

    Chegamos a julho de 2026 e a relevância de Abbas Kiarostami é celebrada por cineastas e estudiosos em todo o mundo, um reconhecimento que demonstra como sua estética continua a fecundar a imaginação de jovens realizadores de todas as nacionalidades. No entanto, essa celebração convive com a melancolia da perda material. A deterioração de espaços que abrigaram sua obra — como sua antiga residência em Teerã — serve como metáfora dolorosa para a fragilidade do legado físico diante do tempo e da negligência política. A deterioração de sua casa nos lembra que, embora as ideias sejam perenes, os espaços que as abrigaram são vulneráveis.

    Preservar Kiarostami em 2026 exige mais do que revisitar seus filmes: exige uma resistência ativa contra o esquecimento e contra a simplificação de sua obra, que muitas vezes é reduzida a um exotismo geográfico, ignorando sua universalidade radical e seu compromisso inabalável com a dignidade do indivíduo. Sua importância não reside em ser um “cineasta iraniano”, mas em ser um cineasta que, através da experiência iraniana, tocou o coração universal.

    A necessidade do olhar humano

    Ao completarmos uma década sem a sua presença física, percebemos que o cinema de Abbas Kiarostami é mais necessário hoje do que em qualquer outro momento da história. Em uma era dominada por algoritmos que antecipam nossos desejos e por uma estética de choque que anestesia a sensibilidade, a simplicidade de Kiarostami surge como um ato de rebeldia. Seus filmes não nos dão respostas prontas; eles nos devolvem as perguntas fundamentais.

    Ele nos ensinou a olhar para a estrada, para a árvore na colina e para o rosto do estranho com uma curiosidade desarmada e um respeito profundo. A complexidade da alma humana, para ele, não estava nos grandes dramas épicos, mas nos pequenos gestos de persistência e na beleza resiliente da vida que insiste em continuar, mesmo após os terremotos e as perdas. Dez anos depois, sua obra permanece como lembrete: o cinema não existe para explicar o mundo, apenas para nos deixar a sós com o mistério das coisas.

  • Geografia do desamparo: entre o calor e o dilúvio

    Por Cristiano Goldschmidt

    O ar em Roma, nestes dias de junho e início de julho, não é mais um elemento invisível que se respira, é uma presença sólida, uma massa translúcida que se impõe sobre os ombros de quem se atreve a caminhar pelas praças de pedra. Não se trata apenas de calor, no sentido meteorológico do termo, mas de uma alteração na própria textura da realidade urbana. Quando os termômetros em Saarbrücken, na Alemanha, tocam os 41 graus Celsius e as fontes de Viena parecem evaporar antes mesmo de a água atingir o mármore, percebemos que não estamos diante de uma estação, mas de um veredito. A Europa, esse jardim temperado que moldou a nossa ideia de civilização e equilíbrio, está derretendo sob uma cúpula de fogo que ignora fronteiras e tradições.

    Fonte da imagem: https://www.esa.int/ESA_Multimedia/Images/2026/06/Europe_feels_the_heat_beneath_our_feet 

    Amigos que residem em diferentes pontos do continente me enviam relatos que transcendem os dados dos institutos de meteorologia. Eles descrevem uma rotina de confinamento térmico, onde o simples ato de abrir uma janela se tornou uma concessão perigosa. Na Itália, o alerta vermelho em dezoito cidades não é apenas um aviso de saúde pública, é o reconhecimento de que a infraestrutura clássica, as ruas estreitas pensadas para o frescor das sombras medievais, não dão mais conta de um sol que parece ter se aproximado alguns quilômetros da superfície. O asfalto que amolece na Alemanha é o mesmo que, no Brasil, é arrancado pela força das enxurradas.

    Ao mesmo tempo, do outro lado do Atlântico, o Brasil vive o avesso desse mesmo drama. Enquanto o europeu busca desesperadamente por uma sombra que não queime, o brasileiro no Nordeste e no Sul tenta se equilibrar sobre o que restou de suas ruas, agora transformadas em leitos de rios improvisados. A água que caiu sobre Pernambuco e as cidades catarinenses e gaúchas neste último final de semana não foi a chuva que abençoa a colheita, foi o excesso que destrói a memória. Há uma ironia trágica nessa sincronia: o mundo parece ter perdido a medida. Onde falta umidade, a terra racha e a vida se esconde; onde ela sobra, a terra desliza e a vida se perde.

    Essa simultaneidade de extremos não é uma coincidência estatística, é o sintoma de uma Terra que parou de sussurrar seus avisos para começar a gritar. Ao observar as ondas de calor na Hungria ou na Áustria, não podemos nos limitar a falar em mudanças climáticas como se fosse um conceito abstrato de laboratório. É preciso falar sobre a falência da previsibilidade. A Europa sempre foi o continente da ordem, das estações bem marcadas, do tempo que se podia cronometrar. Hoje, Berlim e Milão experimentam uma tropicalização perversa, onde o calor não traz o frescor do mar, mas o peso de um forno industrial. É o fim da Europa Temperada e, com ela, o fim de uma certa segurança ontológica que o homem ocidental cultivou por séculos.

    A filosofia do Antropoceno nos ensina que o impacto humano sobre o planeta atingiu uma escala geológica, mas o que sentimos na pele é algo muito mais íntimo. É o desconforto de um corpo que não reconhece mais o seu habitat. O paralelismo entre o calor europeu e as chuvas brasileiras revela a nossa profunda interconexão na tragédia. Não existe mais um lá e um aqui quando se trata do colapso dos sistemas reguladores do planeta. A umidade que falta na bacia do Danúbio é a mesma que se concentra de forma desordenada sobre o Atlântico Sul, precipitando-se em volumes que desafiam qualquer planejamento urbano. O que une o cidadão de Budapeste ao morador de uma encosta em Maceió é a vulnerabilidade diante de uma natureza que perdeu a paciência com os nossos protocolos de intenções.

    Podemos refletir sobre o conceito de exílio climático sem que ninguém precise sair de casa. O cidadão que vive hoje em Viena ou Munique, trancado em apartamentos que não foram projetados para o calor extremo, é um exilado de sua própria cultura climática. Ele não reconhece mais o verão de sua infância. Da mesma forma, o brasileiro que vê sua casa submersa pela terceira vez em um ano é um estrangeiro em sua própria terra, um sobrevivente de um regime de chuvas que não segue mais o calendário dos seus avós. O mundo tornou-se um lugar estranho, e essa estranheza é o que define a nossa era.

    É profundamente melancólico ver a Europa, o berço do Iluminismo, sucumbir a um calor que cega a razão. A Alemanha, com sua precisão técnica, vê seus trens pararem e sua energia vacilar diante da demanda por resfriamento. É a prova de que a técnica, por mais avançada que seja, não pode substituir a estabilidade dos ciclos naturais. No Brasil, a tragédia das águas no Nordeste e no Sul expõe a nossa ferida aberta: a desigualdade. Pois, se o calor na Europa mata o idoso isolado em seu apartamento, a chuva no Brasil mata o pobre que não tem para onde fugir quando o morro desce. O clima é o grande equalizador da dor, mas o impacto social é cruelmente seletivo.

    Precisamos de uma nova ética da existência, uma que vá além do pragmatismo econômico. O que as ondas de calor na Europa e as inundações no Brasil nos dizem é que a Terra não é um cenário para a nossa história, ela é a própria história. Quando ignoramos o limite do planeta, estamos ignorando o limite da nossa própria sobrevivência. A imagem de uma Itália a ferver e de um Brasil a submergir deveria ser o quadro definitivo deste século, uma obra de arte trágica que nos obriga a repensar cada gesto de consumo, cada política de desenvolvimento.

    O intelectual não pode mais se dar ao luxo do pessimismo passivo. É preciso uma indignação ativa. O calor extremo que atinge a Áustria e a Hungria neste momento é um lembrete de que a estabilidade é uma ilusão que custa caro. A água que devasta o Sul do Brasil é o eco desse mesmo lembrete. Estamos todos no mesmo barco, e o casco está furado. A diferença é que alguns estão na proa, tentando ignorar o sol escaldante, enquanto outros já estão com a água pelo pescoço na popa. Mas o naufrágio, se não mudarmos o curso, será coletivo.

    Enquanto o sol se põe sobre uma Europa exausta e as águas começam a baixar em algumas cidades brasileiras, resta-nos a reflexão sobre o que restará de nós quando o clima terminar de redesenhar o mapa do mundo. Seremos capazes de construir uma solidariedade que atravesse oceanos, unindo a dor do calor europeu à urgência da água brasileira? Ou continuaremos a tratar cada evento como uma fatalidade isolada, uma anomalia em um sistema que já se provou falido? A resposta não está nos dados meteorológicos, mas na nossa capacidade de sentir a dor do outro como se fosse a nossa, porque, no fim das contas, a atmosfera que nos sufoca é a mesma que nos afoga.

  • O Estado sucumbiu antes dos seis jovens de Rio das Pedras

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Na manhã deste domingo, 28 de junho, acompanhei pela GloboNews a reportagem sobre o desaparecimento de seis jovens em um intervalo de apenas três meses em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

    Confesso que fui tomado por uma indignação profunda e pela perturbadora percepção de que, no Brasil, nos habituamos a coexistir com o intolerável. A notícia trazia um dado que, em uma nação verdadeiramente comprometida com a dignidade humana, seria irrelevante: nenhum dos seis jovens possuía antecedentes criminais ou, segundo seus familiares, qualquer vínculo com facções criminosas. Testemunhas relatam que foram abordados e executados por milicianos. A Polícia Civil investiga os casos. Contudo, a verdadeira tragédia reside justamente nesse detalhe.

    O simples fato de a biografia de uma vítima precisar de escrutínio para que sua morte desperte comoção revela uma deformação severa do nosso senso ético. É como se o direito à indignação estivesse condicionado a um atestado de idoneidade, uma espécie de certificado de respeitabilidade que separa as vidas que merecem luto daquelas que podem ser descartadas. Por isso, tantas famílias, imersas no luto e antes mesmo de clamarem por justiça, veem-se compelidas a blindar a honra de seus filhos. Este é, talvez, um dos sintomas mais perversos da degradação moral fomentada pela violência endêmica: a vítima é julgada antes do algoz.

    No entanto, há uma camada ainda mais sombria e estrutural. O sumiço desses jovens não é apenas um dado na mórbida estatística fluminense; ele simboliza o colapso histórico de um Estado que, há décadas, demonstra incapacidade de garantir sua premissa elementar: a salvaguarda da vida. É impossível tratar o tema sob a ótica asséptica com que dramas humanos são convertidos em indicadores de gestão. Há mais de quarenta anos, o Rio de Janeiro sobrevive a promessas de pacificação, planos estratégicos e operações pirotécnicas. Mudam-se os governadores, secretários e slogans, mas o medo permanece imutável. O que não se altera é o rastro de famílias em busca de respostas e a certeza de que existem territórios onde a soberania legítima foi revogada por poderes paralelos que operam à luz do dia.

    Um Estado não fracassa apenas ao falhar na captura de criminosos. Ele sucumbe quando perde o monopólio legítimo da força e, consequentemente, a confiança da população. Quando grupos armados ditam quem circula, quem trabalha e quem deve desaparecer, a autoridade pública dissolve-se em uma irrelevância burocrática. Essa erosão institucional não é súbita; ela é um processo lento de normalização do absurdo, onde a exceção se torna a regra e o crime organizado assume funções de ordenamento social. Rio das Pedras, berço histórico das milícias, é o laboratório desse experimento de falência republicana.

    É aviltante. Não há termo mais preciso para descrever a sensação de impotência diante do Estado que assiste, inerte, ao sequestro de sua própria autoridade. É aviltante que moradores de uma metrópole global vivam sob o jugo de milícias, sendo retirados de transportes públicos sob a mira de fuzis. É ultrajante que mães peregrinem por meses enquanto o silêncio institucional agrava a angústia. Toda autoridade pública deveria sentir o peso do constrangimento diante dessa falência. Governar não é gerir coletivas de imprensa nem produzir gráficos de redução de criminalidade que não se traduzem na segurança das calçadas; governar é assegurar o direito básico de ir e vir sem o risco do extermínio.

    A palavra “desaparecido” carrega uma crueldade singular: ela suspende o luto. Diferente da morte confirmada, que permite o rito de passagem e o início da cicatrização, o desaparecimento condena os familiares a uma clausura emocional. Não permite o repouso da esperança nem a finitude do desespero. É uma tortura psicológica continuada, onde cada dia sem respostas é uma nova violação da dignidade humana. A repetição dessas tragédias gera uma anestesia coletiva, transformando o extraordinário em corriqueiro. Uma sociedade que perde a capacidade de se horrorizar diante do bárbaro começa a aceitá-lo como destino inevitável, uma característica geográfica do Rio de Janeiro.

    O Rio de Janeiro não merece esse fardo. Sua população não pode ser refém da dicotomia entre a beleza exuberante de sua geografia e a brutalidade de seu cotidiano. Nenhuma democracia é plena enquanto o poder paralelo legisla, julga e executa à revelia das instituições republicanas. Quando o crime exerce funções estatais, assistimos ao encolhimento da própria República, que se retira das periferias e deixa o cidadão à mercê da “lei da força”. A ausência do Estado não é um vácuo; ela é preenchida por uma ordem arbitrária e violenta que ignora os direitos fundamentais.

    A pior violência não é apenas o ato do algoz, mas a inércia persistente das instituições que deveriam impedir que isso continuasse acontecendo. Os seis jovens de Rio das Pedras expõem uma ferida que transcende a segurança pública: é uma crise política, moral e civilizatória. É a prova de que o contrato social foi rompido em determinadas áreas do território nacional. A memória coletiva, anestesiada pelo excesso de escândalos e tragédias, torna-se curta demais para enfrentar problemas que exigem soluções estruturais e coragem política.

    O desaparecimento mais inquietante, afinal, não é apenas o desses jovens, mas o da convicção de que o Estado ainda existe para proteger o cidadão comum. Quando essa crença se esvai, a violência deixa de ser um crime isolado para se tornar uma ausência sistêmica. A imagem mais dolorosa do Brasil contemporâneo não é apenas a das ausências em Rio das Pedras, mas a de um país que segue seu curso como se certas vidas pudessem ser apagadas sem que, com elas, desaparecesse também a nossa própria humanidade. Resta o silêncio das autoridades e o grito sufocado de mães que, contra todas as evidências, ainda esperam pelo retorno de quem o Estado permitiu que sumisse.

    A tragédia desses jovens é um espelho onde o Brasil deveria se olhar para enxergar o tamanho de sua omissão. Enquanto o poder público se ocupar apenas de administrar a própria imagem, Rio das Pedras continuará sendo o símbolo de uma República que encolhe diante do fuzil. O desaparecimento dos seis jovens é o desaparecimento da nossa esperança em um país onde a vida, independentemente de antecedentes ou endereços, seja o valor supremo. Sem isso, não há democracia, apenas uma convivência forçada com o bárbaro.

    Abaixo, os seis jovens desaparecidos em Rio das Pedras de janeiro a junho (fotos: Reprodução TV Globo): Josimar dos Santos Ferreira, 36 anos, Ryan Palhares, 25 anos, Pedro Henrique Lopes Guimarães, Luan Victor, 15 anos, Gustavo Henrique Nascimento Francisco e João Ícaro Alves Souza.

    Josimar dos Santos Ferreira, 36 anos

    Ryan Palhares, 25 anos

    Pedro Henrique Lopes Guimarães

    Luan Victor, 15 anos

    Gustavo Henrique Nascimento Francisco

    João Ícaro Alves Souza

  • Quando a Terra treme e a humanidade falha

    Por Cristiano Goldschmidt

    Alguns acontecimentos desafiam qualquer tentativa de explicação. O instante em que a terra rompe o pacto de silêncio que mantém com a humanidade talvez seja um deles. Um terremoto não pede licença, não escolhe o momento oportuno nem distingue fronteiras, ideologias, crenças ou classes sociais. Apenas acontece. E quando acontece, recorda-nos uma verdade que insistimos em esquecer: por mais grandiosa que seja a obra construída pelas mãos humanas, continuamos habitando um planeta dotado de forças próprias diante das quais nossa tecnologia, nosso poder econômico e nossas pretensões de controle ainda revelam seus limites.

    Foi exatamente essa lembrança que voltou a ecoar diante do terremoto que atingiu a Venezuela. Em poucos segundos, famílias inteiras viram desaparecer a segurança do cotidiano. Casas deixaram de ser abrigo. Ruas transformaram-se em corredores de incerteza. O medo invadiu uma rotina que para muitos já era de dificuldades e milhões de pessoas passaram a viver a angustiante expectativa de reencontrar parentes, contabilizar perdas e reconstruir aquilo que parecia sólido até o instante anterior.

    Terremoto na Venezuela foi em 24/6/26 | Foto: Reprodução Reuters/Agência Brasil

    Diante da dimensão de tragédias naturais, os números impressionam e as imagens chocam. Mas nenhuma estatística consegue traduzir a dor silenciosa de quem perde um filho, uma mãe, um companheiro ou simplesmente o lugar que chamava de lar. A verdadeira extensão de um desastre nunca cabe nos boletins oficiais. Ela permanece inscrita na memória daqueles que sobreviveram.

    Ao longo da história, aprendemos a conviver com fenômenos que escapam completamente à nossa vontade. Terremotos, erupções vulcânicas, furacões, secas prolongadas, enchentes e tsunamis fazem parte da dinâmica de um planeta em permanente transformação. São expressões da própria vida geológica da Terra, cuja existência antecede em bilhões de anos a presença humana.

    Essa constatação deveria produzir humildade. Entretanto, produzimos, muitas vezes, exatamente o contrário.

    Se existem tragédias inevitáveis, há também aquelas que são cuidadosamente arquitetadas pelo próprio homem. Enquanto a natureza, ocasionalmente, rompe seu equilíbrio e impõe sofrimento, o ser humano parece empenhado em fabricar desastres cotidianos que poderiam simplesmente não existir.

    Talvez seja essa a contradição mais dolorosa do nosso tempo.

    Como se não bastassem os desafios impostos pelas forças naturais, insistimos em ampliar o sofrimento coletivo por decisão própria. Enquanto equipes de resgate procuram sobreviventes entre os escombros deixados por terremotos, outras pessoas, em diferentes regiões do planeta, precisam fugir não dos movimentos da crosta terrestre, mas das ofensivas conduzidas por tanques, mísseis e aviões de guerra.

    A guerra entre Rússia e Ucrânia já produziu uma sucessão de cidades destruídas, famílias fragmentadas e gerações marcadas pelo trauma. No Oriente Médio, sucessivos ciclos de violência continuam transformando crianças em refugiadas antes mesmo que tenham conhecido plenamente a infância. Em ambos os casos, não foi a natureza que decidiu espalhar destruição. Foram escolhas humanas.

    Essa diferença é moralmente decisiva.

    Diante de um terremoto, resta-nos socorrer, reconstruir e confortar. Diante de uma guerra, antes de reconstruir, é preciso perguntar por que aceitamos que ela exista. Afinal, terremotos pertencem à geologia. Guerras pertencem à política, ao poder, ao fanatismo, aos interesses econômicos e à incapacidade de reconhecermos no outro alguém igualmente digno de viver em paz.

    Vivemos uma época curiosa. Nunca produzimos tanto conhecimento científico. Nunca dominamos tecnologias tão sofisticadas. Somos capazes de enviar sondas a milhões de quilômetros da Terra, desenvolver inteligência artificial, decifrar parte do código genético da vida e estabelecer comunicação instantânea entre continentes. Apesar disso, permanecemos incapazes de resolver aquilo que talvez seja o problema mais elementar da civilização: aprender a conviver sem transformar diferenças em motivo para destruição.

    Também enfrentamos outra tragédia silenciosa, concebida lentamente ao longo de décadas. A degradação ambiental deliberadamente provocada altera ecossistemas, intensifica eventos climáticos extremos, compromete a disponibilidade de água, acelera a perda da biodiversidade e amplia a vulnerabilidade de populações inteiras. Embora um terremoto não seja consequência das mudanças climáticas, ele se soma a um cenário global em que desastres naturais encontram sociedades frequentemente fragilizadas por escolhas econômicas e políticas equivocadas.

    Não é a Terra que se tornou mais cruel. Em muitos aspectos, somos nós que a tornamos mais difícil de habitar.

    Talvez por isso cada tragédia devesse produzir mais do que comoção passageira. Deveria produzir consciência.

    O sofrimento dos venezuelanos não pertence apenas à Venezuela. Assim como a dor dos ucranianos não pertence exclusivamente à Ucrânia, e o drama vivido por milhares de famílias no Oriente Médio não diz respeito apenas àquela região. Num mundo profundamente interligado, toda dor humana ultrapassa fronteiras. Cada desastre revela nossa vulnerabilidade compartilhada. Cada vítima nos recorda que a nacionalidade é um acidente geográfico; a condição humana, porém, é universal.

    Há momentos em que a solidariedade deixa de ser virtude para tornar-se necessidade civilizatória. Não se trata apenas de enviar ajuda humanitária, alimentos ou recursos materiais — embora tudo isso seja indispensável. Trata-se de preservar a capacidade de sentir a dor alheia como algo que também nos diz respeito. Uma sociedade começa a fracassar quando se acostuma ao sofrimento dos outros.

    Talvez nunca consigamos impedir que a terra volte a tremer. Certamente continuaremos convivendo com fenômenos naturais que escapam ao nosso controle. Mas há uma escolha que permanece inteiramente sob nossa responsabilidade: decidir se continuaremos produzindo guerras, alimentando discursos de ódio, devastando o meio ambiente e multiplicando sofrimentos evitáveis.

    A natureza já impõe desafios suficientes. Não deveríamos competir com ela na produção de tragédias.

    Que o terremoto na Venezuela não seja lembrado apenas como mais um episódio registrado nas páginas do noticiário internacional. Que ele permaneça como um convite à compaixão e, sobretudo, como um lembrete de que, diante da imensidão das forças da natureza, todos pertencemos à mesma condição humana. Se somos incapazes de impedir que a Terra se mova sob nossos pés, ainda podemos escolher caminhar juntos sobre ela com mais solidariedade, mais responsabilidade e muito mais paz.

  • Durante anos ela foi apenas a “mudinha do Belói”

    Cristiano Goldschmidt

    Talvez por estar prestes a completar 50 anos em setembro próximo, ultimamente tenho pensado muito na minha infância e no início da adolescência em Portão do Ocoí, no oeste do Paraná, durante a década de 1980 e começo dos anos 1990. Muitas lembranças surgem aos poucos. Algumas trazem acontecimentos extraordinários. Outras permaneceram porque se repetiram tantas vezes que acabaram se confundindo com a própria paisagem daquele tempo. Entre elas está a figura de uma menina que atravessava a comunidade quase todos os domingos, visitando casas, entrando em cozinhas, ocupando varandas e participando, à sua maneira, da vida de praticamente todos os moradores.

    Para nós, ela era a “mudinha do Belói”.

    O Belói era seu pai, um próspero produtor rural da região. E aquela era a forma pela qual a comunidade a identificava. Hoje, é importante dizer, sabemos que a expressão “surdo e mudo”, tão comum décadas atrás, é inadequada. O termo correto é pessoa surda ou simplesmente surda. Mas estou falando de um tempo em que essa discussão inexistia no cotidiano das pequenas comunidades. Naquele contexto, “mudinha do Belói” não carregava maldade nem intenção pejorativa. Era apenas o nome pelo qual todos sabiam de quem se tratava.

    Eu mesmo a conhecia apenas assim.

    E isso talvez explique uma das maiores surpresas que essa história me reservou.

    Mas essa revelação viria muitos anos mais tarde.

    Naquele tempo, a “mudinha do Belói” era parte da vida cotidiana de Portão do Ocoí.

    Os domingos pareciam pertencer a ela.

    Depois do almoço, iniciava uma espécie de peregrinação que se repetia semana após semana. Visitava uma casa, depois outra, depois mais outra. Algumas vezes permanecia apenas alguns minutos. Em outras, passava boa parte da tarde. Tudo dependia da recepção, do movimento da casa e das pessoas que encontrava.

    Era impossível encontrar alguém que não a conhecesse.

    Quem morava na comunidade inevitavelmente acabava cruzando com ela em algum momento do domingo.

    Hoje penso que poucas pessoas desbravaram tão bem aquele lugar quanto ela. Enquanto muitos de nós circulávamos entre escola, casas e propriedades vizinhas, ela parecia percorrer um território mais amplo. Conhecia os moradores, acompanhava as mudanças das famílias, percebia ausências, reaparecimentos e novidades. Havia algo de profundamente humano naquela necessidade de estar entre as pessoas.

    Nós brincávamos muito.

    E, embora a comunicação pudesse parecer improvável para quem observasse de fora, não me lembro de ter sentido qualquer dificuldade real para me entender com ela. Não conhecíamos Libras. Simplesmente fomos criando nossos próprios sinais e meios para nos entender.

    Um gesto significava uma coisa.

    Outro, algo diferente.

    Certas expressões dispensavam qualquer explicação.

    Com o tempo, construímos uma linguagem inteiramente nossa, feita de convivência, observação e confiança. Era uma língua que não existia em livro algum, mas funcionava perfeitamente para duas crianças que passavam horas brincando juntas.

    Lembro de corridas pelos quintais, de brincadeiras improvisadas e daqueles longos períodos em que o relógio parecia ter pouca importância. Muitas vezes bastava um olhar para que um entendesse o que o outro pretendia fazer.

    Talvez por isso eu nunca tenha pensado nela a partir de sua condição de pessoa surda.

    Ela tinha também um jeito muito particular de ocupar o mundo. Era uma menina simples, mas não pela condição financeira da família, que era boa. A simplicidade estava na forma de viver. Ao mesmo tempo, gostava de adornos, de roupas diferentes e de peças que chamavam atenção. Pulseiras, colares, brincos e outros enfeites pareciam fazer parte de sua linguagem pessoal. Era como se utilizasse cores e brilhos para expressar aquilo que as palavras nunca puderam dizer.

    Enquanto muitas pessoas se preocupavam em seguir padrões, ela parecia seguir apenas a própria intuição. Suas escolhas refletiam uma personalidade livre, espontânea e absolutamente autêntica.

    Lembro de vê-la chegar usando várias pulseiras ao mesmo tempo, colares vistosos ou roupas que se destacavam em meio à discrição predominante da comunidade. Nada daquilo parecia calculado. Era apenas a maneira como gostava de existir no mundo.

    Também gostava de ser maquiada. Bastava aparecer um batom, um pó facial ou qualquer novidade desse universo para que seus olhos demonstrassem interesse.

    E gostava de ganhar presentes. Uma roupa, um colar, uma pulseira ou qualquer bijuteria eram recebidos com uma alegria sincera, daquelas que não precisam ser explicadas. O que a encantava era a atenção contida no gesto.

    Havia ainda outra característica pela qual se tornara conhecida entre nós: seu entusiasmo pelos doces.

    Se havia bolo, pudim, sagu ou qualquer outra sobremesa servida depois do almoço, as chances de repetir eram grandes. E repetia com uma satisfação tão genuína que acabava despertando simpatia em todos ao redor.

    Muitas das minhas lembranças dela estão associadas justamente a esses pequenos momentos. Não a grandes acontecimentos, mas às cenas comuns que acabam sobrevivendo ao tempo: ela surgindo na estrada e entrando pelo portão sem necessidade de convite formal, sentada na cozinha observando o movimento da casa, experimentando um colar novo, repetindo uma porção de doce.

    Durante muito tempo, pensei que essas fossem apenas lembranças de infância.

    Até 2023.

    Foi então que a revi pela primeira vez desde 1993.

    Trinta anos haviam passado.

    E foi nesse reencontro que descobri algo: a “mudinha do Belói” tinha um nome.

    Gorete.

    Com Gorete Pazini, em setembro de 2023 | Arquivo pessoal C.istiano Goldschmidt.

    Confesso que a revelação me emocionou mais do que eu esperava. Não porque o nome fosse importante em si, mas porque ele parecia completar uma história iniciada décadas antes, como se uma peça discreta, ausente durante todo esse tempo, finalmente encontrasse seu lugar.

    Saber seu nome não alterou a imagem que eu guardava dela.

    Ela continua surgindo da mesma forma que sempre surgiu na minha memória: caminhando de casa em casa, carregando seus colares, distribuindo sorrisos, inventando maneiras de conversar e transformando uma comunidade inteira numa extensão do próprio lar.

    Primeiro aparece ao longe, na estrada.

    Depois atravessa o portão.

    Senta-se na cozinha.

    Observa o movimento da casa.

    Experimenta uma pulseira nova.

    Aceita mais uma porção de doce.

    E segue caminho para a próxima visita.

    Como fazia todos os domingos.

    E, enquanto eu me lembrar dela, continuará atravessando aquele portão.

    Com o lenço verde que ganhou de presente do autor em setembro de 2023.