ROBERTO AMARAL/ O atraso

Roberto Amaral

“Por que o Brasil ainda não deu certo?” perguntava-se Darcy Ribeiro, político,  antropólogo, ensaísta, conferencista e romancista, homem de grandes paixões,  certamente o mais inquieto dos pensadores  brasileiros do século passado, e, sem dúvida alguma, um dos mais profícuos e desassombrados intelectuais-militantes que já tivemos.

No seu estimulante “O povo brasileiro”, que começou a escrever no exílio do Uruguai, aquela pergunta, a cuja busca de resposta dedica sua obra madura, é formulada noutros termos, mais avançados, quando se indaga: “Por que, mais uma vez, a classe dominante nos vencia?” (referia-se à vitória do golpe de 1964).

Mas então, como se vê, a própria pergunta já trazia consigo a resposta, na indicação de nossa tragédia histórica como resultado do controle do poder por uma gente medíocre, perversa, anti-nacional, alienada e forânea.

Gente muito bem representada, aliás, pelos comensais do regabofe na mansão do especulador Naji Nahas, responsável pela quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, com o qual a casa-grande com seus procuradores (empresários, jornalistas, políticos, advogados) comemorou o acordo inter-elite que, a pretexto de afastar as ameaças de golpe iminente, anunciado no dia 7 de setembro, assegurou ao capitão Bolsonaro a inviabilização do impeachment e a impunidade de seus filhos.

Fora o que não se conhece. Como sempre, os acordos se amarram no andar de cima da hierarquia mandante para observação de todo o povo; desta vez o pacto foi traficado com militares, parlamentares e ministros do STF, tendo como costureiro e escrivão o inefável ex-presidente Michel Temer, advogado com vasta experiência nas Docas de Santos.

A classe dominante brasileira é uma das mais longevas do mundo, porque competente na preservação do mando político-econômico,  o mesmo desde a colônia, imune como se mostra a transformações sociais, políticas e econômicas.

Seu poder foi regado no escravismo e sobreviveria com a abolição e o trabalho assalariado, mediante as mais variadas formas de exploração; projeção dos interesses reinóis, sobrevive na independência, e no império transitou do domínio português para  o serviço do colonialismo britânico. Hoje é agente subalterno dos EUA.

O país  caminha do agrarismo à industrialização no século 20, da vida rural ao urbanismo; conhece insurgências de toda ordem, e em todas elas o povo é massacrado; desfaz-se da monarquia anacrônica, a última do continente, e adota a peculiar forma republicana de governo sem povo, de democracia juncada de golpes de Estado e ditaduras.

Os antagonismos se resolvem na conciliação, sob o comando da classe dominante, que não permite reformas de fato. Seu objetivo, lembrava José Honório Rodrigues, foi sempre acomodar as divergências dos grupos hegemônicos e jamais conceder benefícios ao povo, posto de lado, capado e recapado de seu papel de sujeito histórico, como escreveu Capistrano de Abreu.
O país conheceu momentos de turbulência e momentos de progresso e expansão capitalista.

Há quarenta anos convive com a estagnação econômica, de par com desindustrialização e brutal concentração de renda. O poder da casa-grande, porém, mais se fortalece.

O país exportador de açúcar e algodão, na colônia,  enriqueceu a oligarquia paulista na república com as exportações de café a preços subsidiados pelo resto do país; hoje exporta grãos e minério in natura, além de cientistas e pesquisadores, aos quais nega emprego, após investir em sua formação.

Aos trancos e barrancos, o Brasil se modernizou e hoje é uma das dez principais potências do mundo, sem haver combatido as desigualdades sociais, o que revela o projeto de sociedade que nos governa.

Em  500 anos de construção histórica, nada ameaçou a classe dominante,  impávida, insensível,  intocada, reproduzindo  o mando da velha casa-grande, na colônia e na república, o poder da terra e do capital concentrado, financeirizado,  globalizado.

Em 1930  comandou uma “revolução” que não arranharia a ordem social e econômica;  um de seus líderes, o governador mineiro Antonio Carlos de Andrada, proclamava: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”.

Modernizando o país a partir de uma ditadura (o “Estado novo”), o movimento de 1930 fortaleceu a ordem capitalista, e a “elite” econômica conservou o mando que não admite concessões à emergência de interesses nacionais ou populares.

Talvez, nesse processo histórico, estejamos próximos de encontrar explicação para o atraso da burguesia aqui vivente (e daí o atraso do país “que não dá certo”): sendo brasileira, não é nacional, pois jamais se conciliou, seja com os interesses da nação, seja com os interesses de seu povo; não tendo sido, jamais, progressista, nunca se conflitou com a aristocracia feudal, nem conheceu a menor contradição com os interesses do imperialismo, do qual desde cedo se fez sócia menor.

A contradição capital nacional versus imperialismo se resolveu numa composição de interesses.

Para essa burguesia, o povo é um incômodo e qualquer sorte de projeto nacional um anacronismo.

Essas observações me chegam com a leitura de entrevista concedida ao Estadão (16/10/2021) pelo presidente do conglomerado controlador do banco Itaú e uma série de outras empresas.

O banqueiro pede mais reforma trabalhista; não está satisfeito com os  direitos já surrupiados dos trabalhadores. Quer mais abertura econômica, mais privatizações, defende o aumento de juros, embora saiba que não sofremos de inflação de demanda.

É calorosamente contra o impeachment de Bolsonaro. Com o mesmo entusiasmo se diz eleitor de João Doria, que considera “um grande gestor público”, injustiçado pela avaliação popular.

A entrevista é longa. Nenhuma palavra lhe ocorreu, porém, sobre o desemprego, que atinge 14,7% da população ativa do país. Nada sobre a carestia que maltrata a população brasileira: a cesta básica passa de 60% do salário mínimo, e 50% da população brasileira com mais de 16 anos mora em residência cuja receita não ultrapassa um salário-mínimo.

O endividamento das pessoas representa 59,9% da renda média nacional, o pior resultado desde 2005, quando o indicador começou a ser apurado. Pelo menos 110 milhões de brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar (dados de 2020).
Nenhuma palavra sobre as mais de 603 mil vidas levadas pela pandemia.
Muitas palavras, porém,  para defender uma alternativa a Bolsonaro que não seja Lula. O sr. Alfredo Setúbal não é um ponto fora da curva, pelo contrário: suas opiniões, sua visão de mundo e de Brasil refletem o pensamento da atrasada classe dominante brasileira.

Há algumas poucas semanas, um analista da política visitou as praças do Rio de Janeiro e São Paulo para conhecer a visão do grande empresariado sobre o quadro político brasileiro e as expectativas para 2022, delineadas a partir das pesquisas de opinião, fartamente divulgadas pela imprensa.

De suas entrevistas colheu a manifesta rejeição à candidatura do ex-presidente Lula, a mesma rejeição que a grande oficialidade não cuida de disfarçar.

É essa gente desapartada do país e do povo que dita o ritmo da política e economia. É com ela, portanto, que Lula terá de sentar para discutir um pacto de governabilidade, se conseguir se eleger mais uma vez. Não será fácil; Dilma não conseguiu.

***
O povo passa fome mas os bancos… Segundo o  Relatório de Estabilidade Financeira, divulgado pelo Banco Central (18.10.21), a rentabilidade dos bancos no 1º semestre deste ano retornou ao nível pré-pandemia. O lucro das instituições financeiras também cresceu. Já o Retorno sobre o Patrimônio Líquido, conhecido como ROE, chegou a 14% nos 12 meses encerrados em junho deste ano, índice mais elevado desde maio de 2020.

Ilustração da miséria – Vídeo que circula nas redes sociais mostra um grupo de pessoas catando restos de alimentos de um caminhão de lixo em Fortaleza,   em frente a um supermercado no bairro Cocó, área nobre da cidade.

 

MARIANO SENNA: Perguntar não ofende?

A explicação da grande mídia para o prêmio Nobel da Paz de 2021 foi a defesa da democracia. Os agraciados deste ano foram os jornalistas Maria Ressa (Filipinas) e Dimitry Muratov (Rússia).

Um sem relação direta com o outro, mas ambos com histórico de oposição ao poder político estabelecido em seus respectivos países. Porém, nenhum deles com projeção mundial.

“A liberdade de imprensa é uma pré-condição para a democracia”, escreveu o correspondente do UOL em Genebra, Jamil Chade.

Na visão dele e da maioria dos representantes da categoria, nações democráticas “têm menor chance de fazerem guerras”, visto que, supostamente, a maioria das populações sempre opta por soluções diplomáticas. 

"O jornalismo livre, independente e baseado em fatos serve para proteger contra abusos de poder, mentiras e propaganda de guerra... a liberdade de expressão e a liberdade de informação ajudam a garantir um público informado. Estes direitos são pré-requisitos cruciais para a democracia e proteção contra a guerra e os conflitos", diz a nota do Comitê do prêmio ao anunciar os vencedores.

Confrontado com a realidade atual, esse raciocínio impõe um questionamento inevitável.

Nas últimas décadas, foram justamente as maiores democracias do planeta que promoveram, direta e indiretamente (como financiadores), os grandes conflitos do século.

Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria são provas irrefutáveis disso. Assim, que modelo de cidadania e liberdade que se quer premiar agora?

Aprofundando a dúvida, sob vários pontos de vista, a justificativa para o Nobel da Paz 2021 não se enquadra no que se tem visto nos veículos das grandes democracias. Ou das pequenas democracias também.

Quem acompanha o movimento no Brasil, na Europa, ou nos Estados Unidos, vê claramente o nível de manipulação e desinformação praticado, especialmente pelas grandes redes de comunicação. Em geral, sob a velha batuta de quem é parte do establishment. Ou como se diz em inglês: following the power and the money.

Não é a primeira vez que a academia norueguesa se envolve em controvérsias.

O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed (2019), o presidente Norte-Americano, Barack Obama (2009), a presidente deposta de Burma, Aung San Suu Kyi (1991), e o antigo secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger (1973) são alguns exemplos de laureados problemáticos. Sem esquecer a União Européia, premiada em 2012.

Todos foram atores em conflitos armados desumanos antes e/ou depois de receberem a honraria.

Como seu colega Australiano, Jamal Khashoggi foi impiedosamente perseguido pelo poder de Estado, pela simples razão de ter cumprido o dever primário dos jornalistas: encontrar e divulgar informacoes que governos gostariam de manter secretas.

Mas a dúvida sobre a politização (no mau sentido) do Nobel da Paz desaparece com o artigo do jornalista britânico, Patrick Cockburn, no the Independent.

Publicado uma semana antes do Nobel, o texto chama atenção para verdadeiros heróis do jornalismo mundial moderno. Entre eles, os solenemente ignorados Julian Assange e Jamal Khashoggi.

O primeiro, australiano, apodrece numa prisão britânica, sob ameaça permanente de extradição aos Estados Unidos, onde certamente será condenado à prisão perpétua por espionagem.

O segundo, saudita, executado e esquartejado dentro da embaixada de seu país na Turquia. Seus crimes?! Contarem ao público mundial aquilo que governos poderosos querem manter em segredo.

Focado na revelação dos planos da CIA para assassinar Assange, o texto de Cockburn ainda aponta o jornalista Glenn Greenwald e a documentarista Laura Poitras como potenciais alvos do serviço secreto.

“Prender jornalistas como espiões têm sido sempre a norma de países autoritários”, diz, ao lembrar que outras potências ocidentais, como o Reino Unido, já manobram para aperfeiçoar a lei do direito à informação (Official Secret Act).

Proposta consultiva encaminhada pela Secretária de Estado Britânica, Priti Patel, em Maio deste ano, abre a possibilidade de jornalistas, informantes e denunciantes serem presos por 14 anos, caso se envolvam em “processos para obter informação sensível e confidencial que não está normalmente disponível ao público”.

Para os negligentes ou coniventes com tais evoluções do sistema democrático, fica a imperativa dúvida: por que jornalistas com maior importância e relevância para o ocidente não foram agraciados pela academia norueguesa?

Pelo menos por enquanto, perguntar não ofende.

GERALDO HASSE: Um tiro na água

A privatização da Corsan, pretendida pelo governador e autorizada pela Assembléia, está se configurando como um tiro na água. Primeiro porque não atenta para as necessidades da maioria da população; segundo, porque visa agradar à minoria empresarial que se compraz na busca de boas oportunidades de lucro.

Já que não dá prejuízo, a Corsan poderia captar sócios para acelerar sua ação em prol da maioria. Por que ninguém quer ser parceiro de uma estatal lucrativa?

O ‘case’ Corsan tende a deixar claro que não pode ser considerado bom gestor público quem considera correto e/ou viável entregar à iniciativa privada o abastecimento de um bem de primeira necessidade para a população. O currículo do atual governador diz que ele estudou para isso (gestão pública). Temos aí uma contradição entre teoria e prática. Isso sem falar que na campanha eleitoral o próprio candidato teria prometido não privatizar a Corsan.  Mudou de idéia? Ou simplesmente enrolou os eleitores?

Não vale dizer que a venda da empresa foi autorizada pela maioria da Assembléia. Agora, tocar o processo às pressas gera a desconfiança de que haveria uma ânsia de arrecadar recursos para financiar candidaturas em 2022. São detalhes que vão sendo jogados nas valas abertas pelas patrolas da privatização.

Antes que seja tarde, é preciso deixar claro que privatizar um serviço essencial à vida humana é uma leviandade que se apresenta com a roupagem moderna do (neo)liberalismo, cujos devotos vazam na hora H.

Verifique-se como estão as coisas em Uruguaiana, onde o serviço de água e esgoto foi entregue em 2011 à Odebrecht Ambiental, que alguns anos depois — respingada pela Lava Jato — passou o negócio à canadense BRK, que tergiversa diante das cobranças de que está falhando.

Ora, não faz sentido transferir para mãos privadas — como negócio — um serviço tocado há décadas por gestores públicos que já costumam contratar terceiros para obras de saneamento. Tudo indica que é mais fácil corrigir lacunas e senões do que simplesmente jogar fora o vovô com a água da bacia.

Se a privatização é uma porta aberta para a valorização (isto é, o encarecimento) do serviço de abastecimento, quem vai fornecer água gratuita para as bicas das vilas desassistidas pelo estado? Quem vai cuidar efetivamente da canalização dos esgotos e do saneamento básico?

Estamos cansados de saber que tudo isso é direito dos cidadãos e tarefa dos governos, mas sempre aparece alguém disposto a burlar o compromisso e fugir à responsabilidade. Isso é gestão pública — no sentido democrático da expressão?

 

ELMAR BONES: Paulo Guedes, do ajuste ao paraíso

Ninguém duvidou da revelação que o superministro da Economia, Paulo Guedes, tem R$ 51 milhões numa offshore (extra-território, fora do alcance das leis que regulam os ganhos de capital).

Todos consideraram um fato menor. Toda a dita grande imprensa (Globo e afiliarados, Folha de São Paulo, Estadão, Bandeirantes, etc), que não foi atrás dos fatos, mal tocou no assunto.

Não informou sequer qual o ramo de atividade da empresa, a “Dreadnoughts” ( tipo predominante de navio de guerra encouraçado no início do século XX, segundo a Wikipedia)

As declarações do ministro de que tudo está dentro da lei, bastaram. A questão politica e moral foi desconsiderada.

Uma política econômica, que sacrifica o trabalhador ao atrelar os preços internos ao dólar, beneficia o ministro que tem seu capital aplicado no exterior e, ainda por cima,  livre de impostos.

Não é estranho que, pela lógica financeira, se justifique esse contra-senso. Está dentro das leis, o capital é como a água, escorre por onde há menos resistência.

Mas como explicar ao trabalhador que tem seu salário congelado (quando não reduzido) e enfrenta uma escalada dos preços que lhe ameaça a sobrevivência?.

Como levar a sério um ministro que prega o ajuste fiscal e, em nome dele, defende o corte de gastos sociais,   ao mesmo tempo em que protege seus cabedais  abrigando-os num “paraíso fiscal”, onde não paga impostos.

Um defensor do ministro disse que R$ 51 milhões são “uma merreca” comparados à fortuna de Paulo Guedes. Aí está uma boa pauta para os deputados que vão inquirí-lo: qual o tamanho da fortuna de Paulo Guedes e onde ela está?

A mínima obrigação de um ministro, que impõe sacrifícios ao povo, deveria ser explicar de onde vem o seu dinheiro.

 

LOURENÇO CAZARRÉ: Mestre da Palavraria

Conheci José Antônio Severo em Brasília, no começo de 2017, quando nós – jornalistas da Princesa do Sul exilados no Planalto, uma alegre e colorida comunidadede velhinhos – lançamos um livro intitulado “50 tons de rosa – Pelotas na ditadura”. O título era tão infeliz e infame que fez com que perdêssemos um prêmio literário importante. Mas, em compensação, aquilo que obramos recebeu um tremendo elogio do Severo:

– O de vocês é o único livro sobre a ditadura que se lê dando gargalhadas.

É verdade. Uma das partes mais divertidas do livro é aquela em que o Lúcio Vaz – que devassou os arquivos nefandos – reproduz os textos canhestros dos espiões da nossa “redentora” sobre os “perigosos” subversivos locais.

Na própria sessão de lançamento, em um restaurante de pratos caros e pequenas porções, Severo embrenhou-se na leitura do opúsculo e o devorou. Alguém de nós tem a foto de um senhor elegante enfronhado na leitura em meio à badalação estéril.

Caraoquê

Um segundo contato ocorreu quando umantigo jornalista gaúcho e agora artista plástico paulistano, chamado Ênio Squeff – um turco nascido no meio da italianada da Serra -, me ligou informando que levaria um amigo para o jantar que teríamos naquela noite em minha casa. A reboque arrastou consigo o multi-instrumentista José Antônio Severo.

Ao final da noite, vários escoceses derrotados -esvaídos, caídos sobre a mesa, sem fôlego para soprar suas obscenas gaitas de fole –, os dois setentenáriossenhores saíram incertos para a noite solitária.

Baleado na asa, como diz o povo das nossas incultas cidades fronteiriças, o bem-comportado Ênio, que é mais bonito que o Omar Sharif, quis recolher-se logo à casa de seu filho que mora em Brasília, o economista Gabriel.

Severo discordou. Tinha em mente um programa bem mais movimentado. Queria arrastar o otomano até um caraoquê, onde elespoderiam seguir palavreando e apojando.

Não conseguiu. Squeff recolheu-se.

Dono da cena

Quem conheceu o Imperador de Caçapava do Sul sabe que, onde querque chegasse, o jornalista e escritor José Antônio Severo – que também andou dando uns tapas na arte cinematográfica- assumia a cena. Especialmente se a tomada estivesse sendo filmada em torno de uma mesa engarrafada.

Como sempre fui apaixonado por História, identifique-me de imediato com aquele sujeito alto e desempenado nos seus setenta e tantos outonos. Era proprietário de uma invejável cabeleira integral e ligeiramente grisalha, ao contrário da minha, dez anos mais nova, porém totalmente branca e rarefeita na cumeeira.

Os amigos que o conheceram jovem dizem que Severo era um pão, um galã do tipo portenho, sempre trajando ternos bem cortados e de cabeleira riscada na lateral elambida com muito Glostora. Por esses distantes anos – asseguram seus invejosos parceiros -, sem muito esforço,José Antônio extraia fundos e enternecidos suspiros das criaturas do remotamente considerado sexo frágil.

Pois bem, ao redor de uma távola, todo assunto que era levantado – político, histórico, econômico, comportamental ou artístico – Severo cortava.

 Sujeito de vastíssima cultura, para cada tema que pipocasse, ele tinha sempre uma informação desconhecida, inesperada, surpreendente.

Curtido em décadas fumacentas ao redor de mesas de bar, ele cortava até mesmo quando estava, como dizia, batendo em retiradasem munição. Ou seja, dava umas talhadas na melancia mesmo quando seu conhecimento sobre a bobagem tratada era insuficiente.

Como sabem os que estudam essa maravilhosa ciência que é conversa vadia de boteco, sempre desencontrada e perfeitamente inútil, o grande contador de história é aquele que descobriu, ainda jovem, que os fatos verdadeiros pouca ou nenhuma importância têm em uma noitada fluída.

O que vale – dizem os poetas e os dementes – é o estilo, a técnica, a sintaxe, a prosopopeia. E, claro, a performance cênica: a tragada funda no mata-rato, a inclinação estudada do copo e a potência da voz. O vozeirão do Severo era daqueles de acuar guaipeca contra o alambrado.

Historiador

Depois de ler osdois volumes da obra de Severo sobre guerras no Sul da América, pensando elogiá-lo, eu disse a ele que, no meu imodesto entender, ele era, no fundo, um verdadeiro historiador, um redator de epopeias,lamentavelmente perdido para o ramerrame rasteiro do jornalismo.

Eis que José Antônio, que era um lorde britânico, quase perdeu as cadernetas. Desencontrou-se de sua fleugma. Desatinou-se. Que não! Que era um repórter puro sangue!Um mastim farejador!Que havia dado um furo mundial sobre o preço ou produção de petróleo nos anos 1970, quando viajava frequentemente às Arábias. Que dirigira redações pesadas. Que criara um grande jornal televisivo. E por aí se foi.

Não retruquei. Mas ainda mantenho o meu veredicto.

Cavalheiro gentil e generoso

Quando digo queJosé Antônio Severo era um gentleman londrino, eu me refiro também à maneira como ele era visto pelas donzelas. Era um cavalheiro às antigas. Sem a falsa cordialidade dos, hoje, politicamente corretos. Era um galanteador nato, porque herdara esse dom de seus ancestrais.

Gentil e atencioso com as damas, ele era o exato contrário da maioria dos bárbaros barbadosque, quando mamados, não prestam atenção às moças da mesa, quase sempre mais interessadas em discutir assuntos transcendentes e elevados. Como A Relação.

A extrema generosidade é um outro traço que certas literaturas costumam conceder aos personagens cavalheirescos. Severo deu inúmeros exemplos de sua magnanimidade.

Como exerceu muitos cargos de comandância, pode ajudar muitos colegas competentes que – pelas catástrofes quase diárias do jornalismo – se viram de repente de mãos abanando e privados do ganha-pão.

Amigos contam, porexemplo, que Severo foi o elemento que conseguiu – em um tempo em que eram raros os agentes literários – a edição de um livro do jornalista gaúcho Walter Galvani sobre Pedro Álvares Cabral. Essa obra valorosa, fruto de vasta pesquisa, poderia ter naufragado numa editora pequena, mas o nosso herói obteve que fosse lançada por uma casa editorial de peso. O livro ganhou depois, inclusive, um destacado prêmio internacional.

Craque das noitadas

Deixo para os que conviveram com Severo nas muitas redações que ele chefiou brilhantemente a escritura das suas muitas histórias e vitórias no jornalismo.

Com esse texto quero registrar apenas o carinho que eu sinto por um craque das noitadas, um mestre da palavraria eum terno e sequioso amante daquilo que a Escócia produz de melhor. Nas madrugadas que atravessamos juntos, jamais deixamos em pé um desses sujeitos que vestem saias xadrez.

Numa época em que passava frequentemente pela loja livre de impostos do aeroporto, eu comprava a minha cota já pensando no Severo.E guardava os JoãozinhosCaminhadores verdinhos e dourados para o grande connoisseur e apreciador, sir Joseph Anthony.

Lembro,ainda, o prestígio que Severo conquistou – com sua conversa cintilante – junto aos poucos jovens que frequentam aquela mesa que costuma receber, prioritariamente, pessoas da melhor idade.

Melhor? Sei.

Meu filho Érico, cineasta e jornalista, e meu genro Rafael, diplomata, ambos chegando aos quarenta, ficaram imediatamente cativos do charme desse imenso contador de boas histórias quando o conheceram.

Escritor

Passemos agora aos dois grandes livros – Rios desangue e Cinzas do Sul– sobre os quais escrevi uma resenha em que ressalto importância e as peculiaridades desse trabalho historiográfico que mescla muito jornalismo com uma pitada de ficção.

Reproduzo a seguir trechos do meu tratadoseveriano:

“Leitor entusiasmado dos historiadores que narraram as incontáveis guerras, revoluções, revoltas, insurreições, quarteladas e rebeliões que sacudiram o Cone Sul entre os séculos 18 e 19, o jornalista gaúcho José Antônio Severo devorou também as negligenciadas obras publicadas em pequenas editoras por autores de final de semana. Para conferir, visitou os locais que foram palco das maiores batalhas travadas naquele período. E juntou a tudo isso conversas que, quando menino, escutava de seus ancestrais, participantes desses entreveros. Para amarrar o pacote, inventou um fio literário – a vida de um dos maiores militares brasileiros, o general Manuel Luís Osório, o marquês do Herval”.

“Com uma carreira jornalística de mais de meio século, vivida em algumas das principais redações do país, José Antônio Severo escreveu em cerca de 10 meses 100 anos de guerra no continente americano, obra de dimensões pampianas, com um total de 1.089 páginas…”

“Talvez se possa dizer que o grande mérito deste livro, além, claro, de sistematizar toda uma vasta e dispersa bibliografia, é a presença de um jornalista em uma seara quase sempre restrita a excessivamente contidos, ou por vezes derramados, historiadores”.

“Com um texto ágil, claro e direto, despido dos conhecidos rococós retóricos característicos da América Latina, Severo esboça diante de seus leitores um quadro amplo e detalhado das lutas que acabaram por moldar os quatro dos países do extremo sul da América Latina”.

“Repórter acima de tudo, o autor comparece com grande número de informações pouco ventiladas que surpreendem até mesmo ratos de biblioteca razoavelmente versados nesse tipo de literatura…”

“…fala da introdução da alfafa em uma terra onde os pangarés só comiam grama rala; das carretas de bois que necessitavam de doze juntas para arrastar 80 arrobas; que o custo de um escravo era cinco vezes maior do que o de um imigrante europeu; conta que os caudilhos argentinos Rosas e Urquiza eram os dois homens mais ricos daquele país; que cada soldado de cavalaria arrastava consigo três rocins mal nutridos; que os fortíssimos cavalos de batalha, ferrados e alimentados a milho, só eram usados nas cargas; que os cavaleiros minuanos e charruas levavam um homem na garupa para lançá-lo dentro da linha de defesa dos brancos; descreve a tomada de Porto Alegre pelos guerreiros farroupilhas e de como eles a perderam depois de um porre geral e homérico; informa que dom Pedro II já era a favor da abolição em 1845 e que lamentava que ela não fosse aprovada no Parlamento por oposição das bancadas de Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo; esmiúça a profunda ligação de Caxias com o Rio Grande do Sul por 20 anos (foi governador e senador pelo Estado); informa que para viajar a Mato Grosso a rota mais cômoda era a marítimo-fluvial, passando por Montevidéu e seguindo por rios interiores; que o Paraguai antes da guerra não tinha moeda, mas havia implantado a primeira linha de trem da América do Sul; que Solano Lopez em sua fuga final conduzia sua mãe e sua irmã, prisioneiras, em uma jaula; que o espião do Paraguai em Montevidéu era o embaixador português; e lamenta os imensos prejuízos trazidos por esses conflitos sempre acompanhados de saques e violações”.

Dedicatória

Cerca de dez dias antes da morte de José Antônio Severo, minha editora, Sônia Junqueira, das editoras Autêntica e Yellowfante, sugeriu-me que colocasse uma dedicatória no livro Amor e guerra em Canudos – novela juvenil que tem a cidade de Antônio Conselheiro como cenário.

Lasquei:

Para José Antônio Severo, meu historiador favorito, dedico este livro que ele leu quando ainda era um esboço.

Eu queria fazer uma surpresa a ele. Creio que se alegraria muito, embora sempre ficasse meio sestroso e desconfiado quando eu dizia que ele era “O Heródoto da pampa”.

Infelizmente, José Antônio não receberá o primeiro exemplar autografado, como eu planejava. Eu o enviarei para Célia, sua esposa.

Célia e sua irmã Celma, que formam uma consagrada dupla musical, brindaram nossa confraria com um breve e delicioso recital quando vieram com Severo a Brasília.

PS1.Detalhe sob o qual eu jamais falarei, mesmo sob ameaça de ser guilhotinado: o grande Severo, ao ler esse meu livro no original,descobriu um erro histórico que havia escapado à minha – e de outros desatentos – revisão. Sem Severo, o livro sairia com uma barrigada.

PS2. Depois dessa “barrigada”, só nos resta, a nós, velhos jornalistas, dos tempos de Remington e Olivetti (não eram jogadores de futebol, viu, garotada?), encapar nossas máquinas de escrever e sair em busca de um boteco pé-sujo para beber uns licores em memória dessa figuraça inesquecível.

GERALDO HASSE: Esse tal de Severo

A morte de José Antônio Severo foi um choque porque, embora beirasse os oitenta anos, ele sempre exibiu confiança e dinamismo, e não dava mostras de esmorecer em seu ânimo de viver.

Ninguém esperava que ele partisse tão cedo. Entre muitos amigos e colegas, seu próprio nome soava como uma fortaleza inexpugnável.

Basta lembrar o que talvez tenha sido seu último bilhete, duas ou três linhas escritas no início de sua última tarde (23 de setembro), quando ele pediu desculpas por não poder participar da live semanal da Coonline, coordenada por seu tocaio José Antonio Vieira da Cunha – todas as quintas na hora do Angelus: “Tenho uma consulta médica”, justificou, escamoteando o verdadeiro motivo de sua ausência: estava indo para uma cirurgia pulmonar programada para contornar sequelas da covid-19 contraída no primeiro semestre de 2021. Morreu sedado, mas na plenitude de suas faculdades mentais.

É o caso de indagar onde foi parar sua inquietação de repórter; sua disposição de viver; seu gosto pela conversação.  Ele foi jornalista a vida toda — um jornalista autodidata que fez da leitura, da pesquisa e da reportagem suas ferramentas de trabalho num ofício para o qual, alguns anos depois, se exigiria formação em curso superior de comunicação social. A partir dos 18 anos, começando como repórter agrícola, saltou de uma redação a outra, aceitando convites que lhe pareceram bons desafios profissionais.

Assim chegou a cargos de chefia em grandes veículos da mídia. Se alguma vez quebrou a cara em suas mudanças de trabalho, não dava a mão à palmatória, tampouco dava tempo para mágoas ou rancores. Sempre em movimento, cultivou amigos na imprensa nanica, mas nunca chegou a vestir a camisa de um daqueles jornais que desafiaram a ditadura militar.

Ele já tinha dez anos de janela quando o conheci na redação da Veja, de onde ele estava saindo (após trabalhar na revista Realidade) para ajudar na construção da revista Exame, que nasceu como mensal de economia e negócios da Editora Abril, a mais poderosa empresa editorial brasileira, ao lado do Estadão e de O Globo. Isso foi em 1972, quando Severo já buscava o viés histórico das coisas. Na nova revista, coube a ele editor um encarte sobre a gênese de grandes empresas que brilhavam na Bolsa de Valores: Antarctica, Brahma, Gerdau, Metal Leve etc. Todo mês, a revista publicava na capa um retrato a óleo (do personagem central da matéria histórica) pintado por Jaime Figuerola, artista plástico. A tela original, emoldurada, era dada de presente ao empresário focalizado. Quem levava o quadro à fonte? Ora quem. Isso, até mudar de emprego.

Com ele não tinha conversa fiada. Não é que levasse tudo a sério. Possuía um invejável senso de humor. Contava causos dando risada. Mas não era de falar abobrinhas. Lia muito, costurava as informações colhidas em diversas fontes e chegava a conclusões esclarecedoras, que gostava de passar aos amigos e compartilhar com os leitores. Seus textos ricos em informações não vinham com floreios e metáforas. Seu estilo era direto. Por isso ele era fonte de consulta para os colegas. Se não tinha a informação, sabia quem tinha. Era muito bem relacionado nos meios oficiais. Não tenho na memória todos os lances de sua carreira, mas algumas vezes me surpreendi com sua capacidade de se manter em boas posições.

De repente, estava trabalhando na Copesul com o ex-ministro Cirne Lima, que lhe propiciou recursos para uma profícua gestão na área cultural. Basta lembrar as obras literárias e históricas publicadas na década de 1990 e na primeira década do século XXI. Poderia ter sido um trabalho de prestígio e boa remuneração para o resto da vida, mas o instinto de sobrevivência o levou para longe de Triunfo no momento em que a Braskem comprou a central petroquímica rio-grandense.

Por conhecer diplomatas, militares, fazendeiros, deputados, advogados, cronistas, poetas e músicos, ele sempre transitou com facilidade pelas fronteiras que supostamente devem separar o jornalismo, a vida empresarial e as atividades no âmbito do governo. Tudo isso sem renunciar ao estilo que se tornou sua marca. Na Gazeta Mercantil foi um diretor itinerante que levava recados da direção às bases e vice-versa. Nesse aspecto, ele era um jornalista que fazia política de bastidores, conversando, sondando, captando o clima das sucursais e dando munição para mudanças e saídas.

Quando eu pesquisava a história da mecanização agrícola do Brasil, na década de 90, consultei-o sobre o que havia acontecido na sua região natal, entre Caçapava e Bagé, nos anos 1950. Ele sabia por ser filho de fazendeiro (Alberto Severo, diretor da Farsul nos anos 60) e por ter estudado na Escola Técnica Agrícola de Viamão. Poderia ter dito que não se lembrava de nada, era muito guri… Na realidade, tinha vivenciado o desenrolar, no próprio quintal, da política de incentivo à autossuficiência da produção de trigo, com financiamento do Banco do Brasil. O trigo cultivado no inverno e colhido no final da primavera abriu caminho para a implantação da lavoura de soja. Resumo da história: a mãe dele, Dona Corina, fez parte de um grupo de mulheres que havia se esforçado para difundir o leite de soja entre a juventude rural de Caçapava do Sul (quem comandou a campanha da soja no Estado de São Paulo, nos anos 50, com apoio do governador Janio Quadros, foi o agrônomo José Gomes da Silva, que ganhou por isso o apelido de Zé Sojinha; seu filho José Graziano da Silva, também agrônomo, criou o programa Fome Zero e foi por oito anos diretor da FAO, de onde voltou há um ano; por aí se vê que a soja tem boas raízes no RS e no Brasil).

Daquela conversa com a “fonte Severo”, veio à luz um outro lado até então desconhecido da história do nosso amigo jornalista: a mãe dele, quando solteira, veio estudar em Porto Alegre e morou por quatro anos a partir de 1928 na casa de Antonio Augusto Borges de Medeiros (1863-1961), o próprio ex-presidente da província, tudo isso graças às velhas amizades familiares caçapavanas. Eis outra conclusão que pode parecer ousada mas é plausível: filho de um casamento de maragato com chimanga, Severo aprendeu em casa os ritos da conciliação que forjaram seu modus operandi equilibrado como cidadão e jornalista.

Embora trabalhasse em prol da harmonia, ele admirava os usuários das forças militares. Era admirador da Brigada Militar, cultivava a leitura dos microhistoriadores municipais, especializados na narrativa de batalhas localizadas em pequenos redutos do território gaúcho. De tanto ler acabou se tornando apto a escrever Os Senhores da Guerra, Rios de Sangue, Cinzas do Sul e as 1 mil páginas biografia do General Osório, livros que lhe deram a chance de repassar a história das guerras e revoluções do Sul. Dando ênfase às batalhas e a detalhes como os armamentos e as táticas militares, ele se pôs num patamar raro – um tanto ensaísta, bastante historiador, meio romancista.

Com essa capacidade de trabalho, fazendo pontes onde quer que se encontrasse, criava oportunidades onde aparentemente não havia chance de plantio nem de colheita. A mim ele sempre surpreendeu por sua mobilidade. Num momento estava morando em Santiago a serviço da agência Prensa Latina. De repente me aparecia na TV Globo como editor-chefe e comentarista do Jornal da Globo, às tantas horas da noite. Depois se mudou para a TV Bandeirantes. No ano passado me disse que estava procurando um copywriter para um livro de Aldo Rebelo (editado pelo JÁ).

A última surpresa foi saber que mesmo baleado pela covid-19 vinha trabalhando num futuro seriado da TV Cultura de São Paulo sobre os 200 anos da independência do Brasil, a se comemorar em 2022. Foi seu derradeiro trabalho, justamente na TV, onde ele juntou tudo o que sabia e tinha vivido como repórter, pesquisador, historiador e produtor de cinema – aqui, uma de suas experiências mais gratificantes, ao lado do multimídia Tabajara Ruas.

Um repórter-historiador gaúcho trabalhando na TV estatal paulista, eis uma proeza de Jantonio Severo. Como ele chegou lá? Costurando histórias, claro. Há alguns anos, ele escreveu artigos de jornal em que se mostrou admirador dos bandeirantes, que seriam os verdadeiros inspiradores do moderno espírito empreendedor do empresariado paulista. Ao destacar o lado liberal-empreendedor dos bandeirantes, Severo desdenhou o fato de que os bandeirantes mataram e aprisionaram índios, e destruíram as missões jesuísticas entre os guaranis. Ele se justificou dizendo que esse era o espírito da época e que não era nada razoável julgar fatos do passado remoto com argumentos e pontos de vista modernos. No século XVIII os bandeirantes representavam os interesses lusitanos enquanto os jesuítas eram súditos da Espanha.

CARNE ASSADA

Uma vez, durante uma conversa sobre os malefícios da carne vermelha, ele argumentou que o Dr. Carandiru é quem estava certo ao elogiar a dieta dos homens das cavernas. Ele fechou a discussão com uma declaração de princípios válida não apenas para o âmbito da gastronomia: “Eu sou troglodita”, ele disse. Sim, era mesmo, mas sem grossura. No fundo, era um gentleman, um diplomata, um conciliador. Esse perfil harmônico sempre me intrigou. Ele não metia a boca em ninguém. Nem tragueado passava dos limites da gentileza.

Uma vez, na casa em que morava no Santinho, ele espetou uma picanha e antes de coloca-la sobre o braseiro aplicou-lhe uma grossa camada de sal, de tal forma que a carne ficou esbranquiçada. Estranhei o procedimento, mas ele explicou: “É assim que os gaúchos da campanha salgavam a carne”. Desperdício de sal, pensei, lembrando que o sal era um insumo raro no Sul. Quando o assado ficou pronto, Severo usou a faca para varrer o sal ainda existente em cima da carne. Argumentei que ele não precisaria colocar tanto sal se o jogaria fora ao final. Na realidade, o excesso de sal impedira que a carne fosse queimada.

JOSÉ ANTONIO PINHEIRO MACHADO: O incrível Severo

Outubro de 1972. Madrugada gelada em Roma, onde eu estudava e trabalhava como correspondente da Folha da Manhã, um dos jornais da então poderosa Caldas Júnior.

De repente o telefone. Atendo. Era o José Antônio Severo, nosso Diretor de Redação, aflito, na ligação interurbana:

“Alô, Pinheiro! Tens que ir para Paris, urgente! Pega um avião e te manda. O Kissinger está lá para assinar a paz do Vietnam.”

Ponderei que era impossível. O aeroporto estava fechado. As empresas aéreas em greve.

“Então, vai de trem! Precisamos estar lá de qualquer maneira!”

E lá fui eu para uma viagem Roma-Paris, que na época durava 24 horas. Consegui chegar em tempo. Fiz contato com um amigo do Partido Comunista ligado ao pessoal do Vietcong e consegui uma entrevista exclusiva com “Madame Binh”, a elegante Nguyen Thin Binh, “Madame Ministre” do Vietcong, oficialmente  chamado “Governo Revolucionário Provisório”. Ela me garantiu que, ao contrário do que anunciavam os porta-vozes dos Estados Unidos, a paz só seria assinada nos termos e nos prazos que a delegação do Vietnam havia estipulado. O que realmente aconteceu. E o desmentido foi a manchete do Correio do Povo e da Folha da Manhã, com uma longa entrevista de Madame Thi Binh, absolutamente exclusiva. Tudo graças ao empenho do nosso diretor José Antonio Severo, um jornalista absolutamente fora de série, capaz de “farejar” as grandes notícias ainda que estivessem do outro lado do oceano.

Numa longa entrevista que fiz com Breno Caldas, proprietário e filho de Caldas Júnior, fundador do Correio do Povo, o “Doutor Breno” (todos nós o chamávamos assim) publicado em 1987 pela L&PM (“Meio Século De Correio do Povo – Glória e Agonia de um grande Jornal”), ele, que foi o proprietário e o poderoso diretor do Correio do Povo durante meio século, e também da Folha da Tarde e da Folha da Manhã, declarou:

“O Severo foi um grande elemento, um ótimo jornalista que tivemos lá, e que, de certa forma, foi desperdiçado, não se aproveitou devidamente…”

Além da valiosa contribuição que deu como jornalista brilhante ao Correio do Povo dos bons tempos e dos outros jornais da Caldas Júnior de Breno Caldas (Folha da Tarde, Folha Esportiva e Folha da Manhã), Severo teve intensa participação na imprensa, rádio e TV do centro do País, entre eles TV Globo, TV Bandeirantes, ….

Além de jornalista exemplar, Severo foi um brilhante escritor com vasta bibliografia onde se destacam:

“General Osório e seu tempo” (biografia, 850 páginas);

“Os senhores da guerra” (romance, 502 páginas);

“100 anos de guerra no continente americano” — (História — volume 1: Rios de Sangue, 461 páginas); volume 2, Cinzas do Sul, 618 páginas);

“A guerra dos cachorros” (romance, L&PM, 187 páginas);

“A Invasão” (ficção política, L&PM, 225 páginas)

 

SÉRGIO TAKEMOTO/ Habitação popular: política social extinta

* Sergio Takemoto

O Brasil enfrenta uma realidade inominável, de tão triste. Além de uma pandemia que se arrasta por mais de um ano e meio — com a perda de quase 600 mil vidas e mais de 21 milhões de pessoas infectadas — o país amarga uma inflação que chegou ao maior nível em 21 anos para o mês de agosto.

Convive, ainda, com taxas de juros em alta, cerca de 15 milhões de desempregados, risco crescente de escassez de energia elétrica e uma crise político-institucional que provoca incertezas e tira a paz da nação.

Além de tudo isso, o Brasil ainda registra outra marca lamentável: um déficit habitacional de 5,8 milhões de moradias, de acordo com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Neste contexto dramático e um ano após ter acabado com os subsídios para os beneficiários mais carentes do extinto Minha Casa Minha Vida — criando um programa [Casa Verde e Amarela] que não decolou e cuja entrega de novas casas está abaixo da média dos últimos anos — o governo editou medida provisória que garante acesso à moradia para uma corporação específica: os policiais.

O chamado “Habite Seguro” será operado pela Caixa Econômica Federal, com subsídios e condições de crédito especiais para cerca de 600 mil agentes da segurança pública, incluindo aqueles que já se aposentaram.

A categoria é uma das principais bases de apoio a Bolsonaro.

E por que o governo deixou de fora milhões de brasileiros que engrossam os números do MTST e também arriscam suas vidas para se dedicar ao país, como é o caso de enfermeiros, garis, pedreiros e tantos outros trabalhadores formais e informais?

Além deste fato, especialistas e até ex-ministro da Justiça questionam a legalidade do Habite Seguro.

Para bancar o programa neste ano pré-eleitoral, o Executivo vai usar R$ 100 milhões do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP), ligado ao Ministério da Justiça (MJ).

O FNSP, de acordo com o site do próprio MJ, foi criado “para apoiar projetos na área de segurança pública e prevenção à violência, enquadrados nas diretrizes do plano de segurança pública do governo federal”.

Desse modo, a ilegalidade do Habite Seguro está em tirar dinheiro de um fundo que não tem essa destinação: financiar moradia.

Parece claro, portanto, que mais uma vez o governo está usando a Caixa e recursos da União para fins políticos.

Neste caso, para beneficiar uma das principais bases de apoio ao bolsonarismo em detrimento a outras parcelas da população. Todos devem ter acesso à moradia, a um teto para viver. Mas, o governo novamente dá as costas para quem mais precisa.

Prova disso é que o montante de recursos reservados para o Habite Seguro corresponde a 25% do total de R$ 400 milhões que existem no Orçamento deste ano para o grupo do Casa Verde e Amarela com renda mensal de até R$ 2 mil.

O Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) admite publicamente o risco de paralisia nas obras do programa e pede mais R$ 800 milhões para assegurar os contratos em andamento.

Devemos lembrar que o governo Bolsonaro acabou com a Faixa 1 do Minha Casa Minha Vida (MCMV), que beneficiava, com subsídio médio de 90% do valor da moradia, famílias com renda até R$ 1,8 mil. De 2009 a setembro de 2020, foram entregues, para este grupo de beneficiários, 1,5 milhão de casas pelo MCMV, segundo relatório da Controladoria-Geral da União (CGU). ​Este ano, foram concluídas apenas cerca de 20 mil unidades habitacionais para famílias mais carentes. ​Passado um ano desde a criação do Casa Verde e Amarela, nenhuma moradia foi regularizada ou recebeu melhorias, como prometia Bolsonaro.

Trata-se de um inquestionável desmonte das políticas públicas, deixando os brasileiros mais vulneráveis fora dos programas habitacionais. Casa própria para os mais pobres é política social extinta no atual governo.

Enquanto isso, recursos obtidos com a privatização de subsidiárias estratégicas da Caixa Econômica — como também com os quase R$ 30 bilhões que serão devolvidos pelo banco público ao Tesouro por meio dos chamados Instrumentos Híbridos de Capital e Dívida (IHCDs) — serão consumidos no pagamento de juros de uma dívida pública que supera R$ 5 trilhões.

Se R$ 3 bilhões obtidos com a venda de ações da Caixa Seguridade fossem mantidos com a estatal [Caixa], por exemplo, os programas habitacionais ganhariam fôlego e poderiam financiar a construção de aproximadamente 45 mil casas a famílias mais carentes, de acordo com cálculos do próprio MDR.

Na tentativa de diminuir as críticas por beneficiar apenas uma categoria específica com o Habite Seguro, o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, anunciou a redução de juros do crédito imobiliário.

Guimarães, aliás, é o gestor que acusa, sem provar, o “desvio de R$ 46 bilhões do banco público em anos anteriores”, colocando em suspeição a honestidade dos empregados do banco que mantém a instituição na liderança do financiamento habitacional, com 70% de participação no segmento.

Desvirtuar políticas públicas e atacar trabalhadores não é, nem de longe, o caminho para trazer o Brasil de volta aos trilhos.

* Sergio Takemoto é presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae)

CARLOS CASTILHOS/ Jornal dá tiro no pé

O jornal O Estado de S. Paulo comprometeu a própria credibilidade perante seus 232,8 mil leitores diários (*) ao dedicar, numa edição de domingo (**), uma página dupla para publicar um conjunto de textos, aparentemente jornalísticos, sobre o conflito entre ruralistas e indígenas.

Aparentemente jornalísticos porque, segundo o site Intercept, os textos foram produzidos por uma agência publicitária com o suporte financeiro de uma instituição mantida por associações de grandes ruralistas e por empresas produtoras de adubos e agrotóxicos. O objetivo é fazer lobby contra o STF que deve julgar nos próximos dias um processo regulando a demarcação de terras indígenas em todo país.
A página dupla foi produzida pela empresa Estadão Blue Studio, que segundo consta em sua página web, cria “soluções publicitárias inovadoras e orientadas à performance”, ou seja, promoção dos interesses (políticos e comerciais) de seus clientes. Logo é uma produção publicitária disfarçada de material jornalístico com o objetivo de promover a ideia de que o STF deve derrubar o chamado “marco temporal”, que segundo os ruralistas “pode acabar com o agronegócio no país”.

O conjunto de três textos publicados pelo Estadão foi patrocinado pela organização AgroSaber, que se apresenta como uma “agência de notícias do agronegócio” e que segundo o Intercept é uma entidade vinculada à Frente Parlamentar da Agropecuária, a associações de produtores rurais como a ABRAPA (produtores de algodão), APROSOJA (soja) e ABRASS (produtores de sementes).

Não há nada de ilegal no fato de um jornal criar uma agência publicitária para produzir anúncios. E nem há nada condenável no fato dos anúncios serem pagos por empresas, governos ou organizações civis. Mas quando o material publicitário usa o formato conhecido no jornalismo como “publi-reportagem”, ele disfarça interesses políticos ou corporativos como se fossem informações sérias, garantidas pela credibilidade do jornal.

Enganar o leitor usando este expediente pode ser uma solução financeira de curto prazo, mas aumenta a chance de acabar se transformando num problema de longo prazo, quando o vírus da dúvida na credibilidade do jornal contagiar seus leitores. O descrédito é praticamente a sentença de morte de um jornal, especialmente na conjuntura atual com a crise no modelo de negócios da imprensa.

Engodo lucrativo

As dificuldades financeiras da maioria dos grandes conglomerados jornalísticos nacionais e internacionais tornam mais atraente a alternativa das “publi-reportagens”, que são hoje mais comuns do que se pensa na imprensa mundial. Só que a maioria absoluta deste tipo de desinformação paga passa desapercebida pelos leitores, porque as manchetes e o espaço dado no papel ou em tempo de transmissão via rádio ou TV impacta muito mais do que pequenas inserções identificando os verdadeiros interessados e objetivos do material publicado.

É nestas circunstâncias que aumenta a importância de organizações jornalísticas, como o Intercept e a Agência Pública, dos grupos de checagem de fatos e de instituições como o Observatório da Imprensa. Os conglomerados industriais na imprensa brasileira não dissimulam sua hostilidade aos críticos de publicidade disfarçada de notícia, deixando de levar em conta que a verificação e cobrança da credibilidade das notícias, artigos e entrevistas são na verdade uma preocupação com o futuro dos jornais, revistas e programas audiovisuais de informação.

A premeditada confusão entre jornalismo e publicidade começou a ser discutida em larga escala já na primeira década do século atual, com a polêmica em torno da chamada publicidade nativa (ver texto publicado aqui no OI). David Ogilvy, criador da expressão, afirmou que a publicidade disfarçada de notícia poderia aumentar em até 50% a tiragem de jornais impressos. Segundo o respeitado Nieman Lab, da Universidade Harvard, a publicidade nativa gerou receitas de 17 bilhões de dólares para jornais no mundo inteiro em 2017. Aqui no Brasil, não há dados sobre esta modalidade de anúncio pago.

É compreensível a preocupação dos grandes jornais brasileiros diante da queda acumulada de 12,2% na circulação das versões impressas desde 2016. Mas o preço da sobrevivência de empresas, que no passado acumularam lucros consideráveis, não justifica vender ao leitor versões distorcidas da realidade como se fossem notícias verdadeiras.

(*) Soma dos leitores da edição impressa (de maio), e da versão online (em junho), segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC) .

(**) 22/08/2021

***

Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.

(Publicado originalmente no Observatório de Imprensa)

 

ALEXANDRINO ALENCAR/ Hora de se reinventar

Alexandrino Alencar

Tal qual a publicidade “O primeiro sutiã a gente não esquece”, o meu primeiro trabalho foi na indústria petroquímica, no início dos anos 1970.

Primeira paixão, sempre um referencial ao longo de minha vida profissional.

Uma indústria nascente, na qual as equipes eram, principalmente, de empreendedores, ex-petroleiros, engenheiros recém-formados e técnicos  com cursos preparatórios específicos.

A empresa fica no ABC paulista, berço de vários segmentos industriais, que aos poucos foram se deslocando para esse Brasil, democratizando a início da industrialização nos anos 1980.

O setor petroquímico em particular, teve a capacidade de se adaptar e se reinventar várias vezes ao longo do tempo. As crises econômicas dos anos 1980 e 1990, Plano Collor, politica empresariais de redução de custos capitaneadas pelo então diretor de compras da GM, José Ignácio Lopez de Arriotúa, o just in time, as atuais concentrações de compras de fornecedores chineses, com preços imbatíveis, os reflexos da pandemia e outros.

Há décadas, o nosso PIB dos bens e serviços vem patinando, com uma redução expressiva do setor industrial face ao crescimento do agronegócio e dos serviços, situação preocupante pela sua importância para a sociedade.

Alguns sinais são preocupantes, como a extinção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), rebaixado a secretaria do Ministério da Economia, este com perfil rentista, também um downgrade na representação setorial.

No passado feita pelos “capitães (sic) das indústrias”, hoje tem como lideranças, executivos capacitados, sem dúvida. Porém, também sem a legitimidade e, por isso, com pouca influência. Assim, estamos vendo a saída de diversas empresas multinacionais de um mercado que foi sempre promissor e disputado.

É chegada a hora de se reinventar.

Uma das iniciativas de curto prazo é o ESG, mantra a ser praticado pelas empresas como forma de uma transformação empresarial/cultural.

De uma forma mais estruturada – e como uma sugestão para se ter um novo ambiente de estímulo e reconhecimento da importância do setor industrial buscando excelência, competitividade e produtividade – é preciso pensar sobre a volta do MDIC como órgão representante legítimo do poder executivo.

Além disso, incorporar o Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI) como forma de otimizar esforços, estratégias e recursos em inovação, pesquisa e infraestrutura para todo o segmento produtivo.

Alexandrino Alencar é advogado e engenheiro químico