GERALDO HASSE/ Embolou o meio de campo

Geraldo Hasse

Apareceram recentemente na mídia alguns especialistas — antes pouco visíveis — no estudo das Forças Armadas, cujo humor costuma ser medido a partir de algum resmungo de um almirante, um brigadeiro ou um general.

Depois de alguma declaração atemorizante de um alto oficial sobre isso ou aquilo, sucede-se um jogo de “não foi nada disso” e (nem) tudo volta ao que era antes nos quartéis.

Sem nenhuma movimentação de tropas, somente com palavras, as FA se mantêm ultrapresentes no cenário político como apoiadoras, fiadoras, participantes e/ou beneficiárias do governo eleito em 2018.

Não surpreende que muitos analistas falem do risco de um golpe militar para manter Jair Bolsonaro e/ou Hamilton Mourão no poder a partir de 2023. Com ou sem eleições, o que estaria por trás desse jogo seria o chamado Partido Militar.

Tudo parece possível, mas está faltando uma análise sociológica do panorama político.

Ou, seja, como chegamos a isso que aí está: um ex-militar desclassificado na presidência, depois de um jurista (Temer), uma economista (Dilma), um dirigente sindical (Lula), um professor de sociologia (FHC), um playboy alagoano (Colllor), um político mineiro (Itamar), um prócer maranhense (Sarney)…

E ninguém sabe como sairemos dessa sinuca, já que os responsáveis pelo poder constitucional parecem amedrontados, como se não acreditassem na própria capacidade de reação.

A única possibilidade de extirpar o mal pela raiz está nas mãos do Senado, que pode encaminhar um processo de impedimento do presidente, mas a credibilidade do parlamento é tão baixa que, mesmo contando com o apoio do Judiciário, é possível que a proposta de impicho não seja aprovada.

Além disso, por cima de tudo, há a incógnita das Forças Armadas, que foram cooptadas e estão acumpliciadas ao governo em sua incrível marcha para detonar as bases da democracia e desmanchar os direitos das maiorias em benefício de detentores de privilégios históricos.

Falta ainda dimensionar a terrível aliança que se formou entre militares e políticos — o presidente Jair atua nas duas categorias, embora tenha sido expulso do Exército –, secundados por religiosos e milicianos atuantes em largas periferias urbanas.

Embora sejam recentes, essas parcerias sinistras têm raízes históricas e trazem até nossos dias um grau altíssimo de predisposição à violência contra os cidadãos indefesos e as comunidades desassistidas.

Na realidade, desde os tempos coloniais há uma tolerância com a violência dos coronéis rurais contra os camponeses, dos policiais contra o povo humilde.

O escritor Graciliano Ramos reclamou dos “amarelos” fardados em suas obras de ficção; João Ubaldo Ribeiro também mexeu nesse angu em seu romance Sargento Getúlio, mas a cultura da violência e a tolerância com a truculência se agravaram nos últimos 50 anos.

Uma ponta desse processo apareceu surpreendentemente no livro Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior,  premiado como o melhor romance brasileiro de 2020.  É uma história de quilombolas que se passa no interior da Bahia.

O Esquadrão da Morte mantido por policiais civis e o DOI-Codi militar aprofundaram a prática de crimes hediondos perdoados pela Anistia de 1979 até que a eleição de Bolsonaro veio para “legalizar” a exceção vigente. Aparentemente, estamos a um passo da baderna sob tutela militar.

É um quadro similar ao da ditadura, mas agravado pela ascensão do milicianismo.

Por falar em milícias, falta uma análise desse segmento armado e ativo à margem das leis ou em substituição a leis não observadas pelas autoridades competentes.

Até agora ninguém desvendou o alcance, a envergadura e a profundidade desse exército privado atuante abertamente no RJ e presente também em outros estados com assustadora liberdade.

Os milicianos são jagunços urbanos que passaram a trabalhar na ilegalidade e até na clandestinidade. Segundo consta, muitos dos seus quadros, especialmente os chefes, seriam egressos das Forças Armadas e das polícias militares e civis, das quais foram excluídos por mau comportamento – caso do atual presidente.

Esses ex-militares passaram a operar com serviços de proteção a comerciantes (nome brando do achaque trivial), da chantagem armada, incluindo distribuição de drogas, venda de GLP e sinal de TV. Assim se tornaram “donos” de bairros em que os serviços públicos não estão presentes ou funcionam mal.

Esse sistema de privatização montado à sombra de esquadrões da morte civis e militares reivindica os mesmos direitos operacionais de empreiteiros e outros empresários que manipulam concorrências, tocam obras públicas com sobrepreço e/ou aditivos escorchantes, sonegam impostos e praticam lobby, conchavo, propina, suborno e conspiração em conluio com funcionários públicos e parlamentares.

Se os grandes podem, por que os milicianos não poderiam impor regras e taxas às comunidades desservidas pelo Estado? Essa é a pergunta-base de suas operações. Lembram-se dos versos de Chico Buarque falando das “tenebrosas transações” feitas pelos “pigmeus do bulevar”?

Vai passar, dizia o poeta, mas o que se passou foi o aumento da impunidade. No fundo, os milicianos pretendem ser impunes como os empresários privilegiados do nosso capitalismo periférico protegido por um sistema político dominado pelo dinheiro.

Tornou-se lamentavelmente real a frase-piada do humorista Barão de Itararé: “Restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”.

P.C. de LESTER/ Manchetes que não foram escritas

 

Esta é a manchete do 247, site  de esquerda, na  noite desta segunda-feira, 19/07.  Uma manchete que seria saudada por Daniel Scola na Rádio Gaúcha.

Essa tática do espelho – trabalhar com as pautas da direita trocando o sinal – funciona como tática. Quando passa a ser estratégia, acaba fazendo o jogo do inimigo.

***

Artigo do Jilmar Tatto, coordenador nacional de comunicação do PT sobre a estratégia para enfrentar 2022  revela uma visão limitada da questão da informação/comunicação.

Enaltece o alto indice de engajamento nas redes petistas e descreve medidas para ampliar as conexões do partido nas redes sociais e não vai além.

Resumir o universo da comunicação social às redes entre grupos nos meios digitais é uma redução perigosa.

Norbert Wiener, pai da Cibernética, abriu as portas do mundo digital quando colocou a informação no centro , o elemento que garante a estabilidade, tanto de uma pedra, ou organismo vivo, quanto de uma sociedade.

Não há uma unanimidade sobre o que seja a informação, seria algo que  falta numa pedra quando ela vira pó.

Enfrentar o fogo cerrado que virá pelas redes, sem dúvida, é fundamental.

Mas desconsiderar o jornalismo, tanto o dos meios de massa, quanto o dos alternativos, onde há experiências importantes e promissoras, pode ser um erro grave.

 

 

MÁRCIA TURCATO/ Eleição 2022, cheque a informação!

Márcia Turcato, de Brasília

O Facebook já removeu cerca de 850 mil vídeos com informações falsas no Brasil, onde 39% das pessoas que têm celular utilizam a plataforma como mídia de compartilhamento de conteúdo*.

A desinformação, popularmente chamada de fake news, cresce no período eleitoral e se vale das redes sociais pela facilidade de manuseio, o que as tornou populares.

Checar informação é um trabalho árduo frente a montanha de conteúdos falsos publicados nas redes sociais diariamente e mais ainda no período eleitoral.

Não será diferente no pleito de 2022. Na verdade, a guerra informacional já começou e as estratégias de desinformação, com apoio da tecnologia, estão mais sofisticadas. Não basta mentir.

Agora são construídas novas verdades. A partir de conteúdos autênticos, disponíveis na web, é possível construir cenários, incluir ou retirar pessoas de um contexto, gravar áudios com a voz de alguém valendo-se de vestígios de arquivos de voz originais.

Essa desinformação sofisticada é chamada de Deepfakes, também utilizada no seu modo pornográfico para atacar reputações e fazer chantagem.

Se em 2020 já foi difícil, imagine a batalha comunicacional que acontecerá em 2022, na eleição presidencial. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está finalizando seu plano de ação para esse confronto e, no mínimo, manterá as parcerias firmadas na eleição passada.

Em 2020, o Tribunal trabalhou com nove agências de checagem e formou a “Coalizão para Checagem – Eleições 2020”. Participaram do projeto: Agência France Press (AFP), Agência Lupa, Aos Fatos, Boatos.org, Comprova, E-Farsas, Estadão Verifica, Fato ou Fake e UOL Confere.

No mesmo ano, o TSE ampliou a estratégia para combater a disseminação de informação falsa, ampliando a parceria para mais 60 entidades da área de comunicação.

As informações checadas estão disponíveis na página Fato ou Boato, no portal do TSE. Graças a uma outra parceria, feita com as operadoras de telefonia e o Conexis Brasil Digital, todos os sites do domínio da Justiça Eleitoral têm o chamado zero rating, ou seja, podem ser acessados sem cobrança ao pacote de dados do celular.

Isso é muito importante porque, quando está sem acesso à internet, o usuário não consegue checar a origem da informação  publicada nas redes sociais.

A iniciativa de checagem de fatos e de fornecimento de informações sobre o processo eleitoral do TSE integra o Programa de Enfrentamento à Desinformação, coordenado pela secretária-geral do Tribunal, Aline Osório.

O Programa é permanente e é formado apenas pelo pessoal da Corte, não conta com participação de instituições convidadas, que poderiam oferecer um novo olhar à missão de proteger o processo eleitoral.

Esse não é um ambiente da missão institucional do TSE, cujo quadro de pessoal é constituído por gente especializada em legislação eleitoral e pouco conhece do submundo das redes sociais como ferramenta de desinformação política, partidária e eleitoral.

É imprescindível a parceria com as agências de checagem e a colaboração com instituições de defesa da democracia, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), por exemplo, que poderiam ser observadores convidados do Programa de Enfrentamento à Desinformação do Tribunal.

Memória

No pleito de 2020, o Facebook e o Instagram removeram 140 mil posts com informações erradas intencionalmente sobre data e horário de votação e rejeitou 250 mil conteúdos que não informavam ser anúncio eleitoral ou quem estava pagando por eles. No mesmo período, o WhatsApp cancelou contas que dispararam mensagens em massa.

Mais de 4.700 contas de WhatsApp haviam sido denunciadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas  a checagem da plataforma reconheceu apenas 1.004 como contas automáticas e elas foram bloqueadas.

O TSE coloca à disposição do público para checagem da informação o número de WhatsApp 61.96371078.

O enfrentamento à desinformação não é apenas um trabalho de checagem. É necessário também regular esse espaço, criar regras que disciplinem um ambiente que hoje é uma terra sem lei. A regulamentação do tema é da competência do Congresso Nacional.

PL da Fake News

Em 2020, o Senado aprovou o PL 2.630/2020  de combate às fake news, que cria a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet, com normas para as redes sociais e serviços de mensagem.

A intenção é evitar notícias falsas que possam causar danos individuais ou coletivos e à democracia. O texto está agora para na Câmara dos Deputados, aguardando  análise, mas não agradou.

Mais de 40 entidades, como a Fenaj, a Abraji, e a OAB, e empresas como o Facebook e o Google, protestaram pela forma célere em que o texto tramitou no Senado em 2020, em plena pandemia, com sessões remotas.

Em nota enviada aos senadores, os signatários alegam que “em um contexto em que o Senado realiza deliberações por meio do sistema remoto, sem a existência de comissões, o debate aprofundado sobre o tema se mostrou comprometido desde o início.

Em função disso, pedimos que o Projeto de Lei 2630/2020, seja retirado da pauta do Senado, a fim de que seja aperfeiçoado e amplamente debatido com a sociedade brasileira, da forma que uma lei desta envergadura requer”.

Estamos a pouco mais de um ano da eleição majoritária no Brasil e o cenário de disputa está aberto. Não sei vocês, mas eu recebo posts todos os dias sobre os possíveis presidenciáveis, quase tudo é desinformação.

Alguns posts são grosseiros, outros são construídos com muito recurso. É preciso checar. Se você tem dúvida sobre algum conteúdo, não compartilhe e envie para alguma agência de checagem. Exerça sua cidadania.

*Dados do Pew Research Center e do Digital News Report da Universidade de Oxford

 

 

 

 

ENIO SQUEFF/ O dilema dos militares

“Será aceitável que todos os militares acordem que o Brasil tem de entregar o que temos de mais de precioso? Será que querem mesmo criar um fosso intransponível entre eles e nós?”  (Desenho de Enio Squeff)

Enio Squeff

Na época em que trabalhei no Estadão, isto é, em plena ditadura militar, comentava-se que o brigadeiro Eduardo Gomes, ainda em vida “Patrono da Força Aérea Brasileira” e golpista de 64,  teria interrompido uma reunião do  alto comando da FAB, presidida por João Paulo Burnier, também brigadeiro, alertando-o que se levasse a cabo seu plano de eliminar algo em torno de 50 mil brasileiros, iria denunciá-lo à imprensa internacional.

Ao que se comentava, Burnier pretendia imitar os militares argentinos nos famosos  “voos da morte”:  poria milhares de opositores da ditadura civil militar em aviões,  e os jogaria no mar. Eduardo Gomes o teria advertido, que se ele quisesse criar uma ruptura definitiva entre o povo brasileiro e suas Forças Armadas, ele que prosseguisse com seu plano criminoso. Burnier recuou.

Nunca li essa história em jornal ou livro. Mas é possível que tivesse acontecido. O desvario de alguns chefes militares da época – justamente os que mantiveram muitos de seus discípulos nas academias militares e que hoje comandam as tropas brasileiras – nunca foram punidos pelo que cometeram. Burnier teria feito escola.

Este talvez seja o problema de alguns generais, brigadeiros e almirantes seguidores dos algozes daquele período. Não foi ao léu que Jair Messias Bolsonaro prometeu que o Brasil só se salvaria se fossem mortos 30 mil brasileiros. Na época (isso não é novidade), acrescentou: “Vão morrer inocentes, lamento, mas e daí?”.

O resto da história todos o vivenciamos. O atual presidente eleito do Brasil, contudo, deve-se admitir, foi  modesto em seus propósitos. Quinhentos mil brasileiros mortos depois, ele pode ostentar o título de o maior “Pagador de Promessas” da direita brasileira.

Ao não comprar vacinas deliberadamente, ele coalhou os cemitérios do Brasil de centenas de milhares de cadáveres.

Numa certa medida, portanto, o que Burnier não fez, por respeitar o velho Eduardo Gomes com a sua bengala, o ex-capitão expulso do Exército, talvez faça: o divórcio definitivo dos militares com a população que os sustenta com os seus impostos.

Não se duvide, em suma, que o presidente e seus seguidores, principalmente  no Exército, estão pouco se lixando para a mortandade que, a essas alturas, está apavorando o mundo.

Daí às manifestações do dia 04 do corrente, quando centenas de milhares de brasileiros foram às ruas protestar contra tudo isso; e que, no fundo, define este governo, como o pior que o Brasil já teve.

O que os professores das escolas militares devem ter repetido aos hoje generais, brigadeiros e almirantes,  discípulos do velho Burnier, foi sustado pelo imponderável, já que a Covid lhes fez o especial favor, de nos matar antes.

Delírio?

Gostaria que o fosse, embora os membros do alto oficialato sugiram a toda hora e sempre, que eu, por desgraça, possa estar certo.

Ora, Eduardo Gomes, reacionário, golpista, direitista inveterado, sabia o que dizia quando alertou Burnier e seus asseclas, de que as Forças Armadas nunca poderiam criar um fosso abissal entre elas e o povo. Não se trata da dívida que eles têm conosco por lhes pagarmos o soldo e, mesmo assim, termos  de aturá-los no papel que nunca lhes demos, de serem os tutores do Brasil.

Isso, porém, vem desde há muito. A rigor, desde o golpe em que os militares derrubaram o Império.

Claro que a monarquia é uma excrescência, mas daí às Forças Armadas se comportarem ainda hoje como tropas de ocupação de seu próprio país, vai uma distância que o brigadeiro Eduardo Gomes teria antevisto, e que, mesmo assim, anima muitos fardados brasileiros.

Será que é preciso ter mais que bom senso ou o velho patriotismo para  que as Forças Armadas se comprometam com um governo genocida, responsável pelo maior morticínio já perpetrado contra o povo brasileiro?

Será aceitável que todos os militares acordem que o Brasil tem de entregar o que temos de mais de precioso, o seu petróleo, as suas hidrelétricas, suas florestas, e tudo mais que Bolsonaro, Guedes, Salles e os demais se esforçam por doar? Será que querem mesmo criar um fosso intransponível entre eles e nós?

O dilema é deles.

ELMAR BONES / Eleições 2022: o fator Eduardo Leite (2)

A atitude do governador Eduardo Leite ao declarar-se gay em rede nacional de televisão tem muitas implicações, mas o que interessa a todos são os efeitos políticos, de uma decisão motivada por interesses políticos, uma vez que o governador como ele mesmo diz nunca teve problemas em assumir a sua orientação sexual. Não a proclamava porque “não era o caso”. Agora é.

Pré-candidato a candidato tucano à Presidência da República, o governador  sabe que não tem como entrar numa campanha eleitoral cruenta como a que se avizinha, tendo uma questão como essa nas sombras.

Ao tomar a iniciativa de declarar (ele não esperou nem o Pedro  Bial perguntar), certamente está considerando os dividendos eleitorais de uma atitude que se alinha com uma das causas  emblemáticas do Século 21,  a diversidade de orientação sexual.

Eduardo  Leite é um dos quatro pré-candidatos a candidato do PSDB para a eleição de 2022, disputando com  João Dória, Tasso Jereissati, Arthur Virgílio.

Foi sua assessoria que procurou Pedro Bial acenando com a  manchete que podia render?

Ou foi iniciativa da Globo, ao perceber Eduardo Leite como a tão sonhada terceira via, capaz de alijar Bolsonaro, barrar Lula e, sobretudo, manter o projeto neoliberal em andamento?

Os desdobramentos dentro do sistema Globo indicam que há uma clara aposta no governador gaúcho. Farta cobertura no jornal O Globo, o  farol ideológico do grupo, inclusive o furo na coluna da Patrícia Kogut, que antecipou a revelação da entrevista.

E, no dia seguinte à entrevista, uma análise no Globo,  dizendo que  Eduardo Leite “tornou sua vida privada uma não-arma para ser explorada por adversários no jogo sujo das disputas políticas”.

“Não há mais como dizer que Leite esconde algo de seus eleitores”, diz o texto, taxativo.

Depois discorre sobre a gestão de Eduardo Leite que ” assumiu o governo de um estado marcado por divisões políticas prolongadas e finanças arruinadas”.

Não chega a dizer que ele equilibrou as finanças do Estado, mas insinua: “Conseguiu construir um apoio na Assembleia estável o suficiente para tentar pôr ordem no Caixa do estado”.

Numa matéria do início de maio O Globo já tinha destacado a fé de Eduardo Leite no ideário liberal.

Seja como for, o gesto deu outra envergadura à pré-candidatura do governador gaúcho, no momento em que ele precisa se viabilizar  dentro de seu próprio partido.

As prévias do PSDB estão marcadas para 17 de outubro e os pré-candidatos devem inscrever-se entre 01º e 10 de agosto, para iniciar a propaganda intrapartidária a partir de 01º de setembro.

Leite está pelo menos dois meses à frente.

 

ELMAR BONES/ Galvani, um jornalista

Perder Walter Galvani nesta altura do campeonato é como perder um grande epidemiologista no meio da pandemia.

Basta mencionar a revolução que ele produziu, em plena ditadura, ao abrir as portas da vetusta Companhia Jornalística Caldas Júnior para os jovens jornalistas que estavam saindo da universidade e eram discriminados pelos “chapa branca” que dominavam as redações.

Foi bom em tudo o que fez: coluna social, reportagem, editor, chefe de redação e, depois, escritor.

Sempre com aquele faro de repórter que o levou a descobrir, às vésperas dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, que não havia, nem aqui nem em Portugal, uma biografia de Pedro Álvares Cabral.

Informação que ele guardou até ter toda a pesquisa feita para o livro que editou pela Record.

No meio da pandemia de desinformação que nos assola,  uma mente lúcida como a de Walter Galvani é uma perda irreparável.

ELMAR BONES/ Eleições 2022: o fator Eduardo Leite

A pré-candidatura de Eduardo Leite à presidência da República pelo PSDB foi lançada há  quatro meses por 12 deputados aecistas. Eles vieram a Porto Alegre para formalizar o apoio ao governador gaúcho.

A princípio, o lançamento foi entendido como uma manobra dos caciques tucanos para acuar João Dória, auto-candidato à presidência desde que assumiu o Palácio dos Bandeirantes em janeiro de 2019.

Para se livrar de constrangimentos na campanha,  Dória quis expulsar Aécio Neves, um dos fundadores do Partido, e, no embalo,  tentou tomar o controle do diretório nacional, numa manobra desastrada. Caiu em desgraça.

Para defenestrá-lo, os caciques do partido cortejaram Luciano Huck e com a desistência dele, voltaram-se para a alternativa do jovem governador do Rio Grande do Sul.

Com Isso, a decisão sobre o candidato tucano para 2022  foi remetida para uma eleição prévia, situação não prevista por Dória.

Na sequência, um dos caciques tucanos, Tasso Gereissati, também se lançou como pré-candidato, talvez como manobra dispersiva. Assim como  Artur Virgílio, também sem chances.

Eduardo Leite já recebeu a avaliação de sua performance num encontro com dez dos maiores empresários do país, em São Paulo, que o ouviram como pré candidato do PSDB.

Um dos presentes, de larga experiência e conhecedor do meio político, relatou que a conclusão é: o discurso é articulado, o diagnóstico é certo, os números estão no lugar, o governador sabe o que diz e sabe com quem fala,  mas não empolga. O tom é burocrático, de um tecnocrata,  “não encanta”.

O potencial que viram, no entanto,  motivou o relatório crítico que remeteram ao governador, com o reconhecimento de que são  falhas que o candidato pode facilmente superar.

A frase do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso neste fim de semana arrancou urras dos mais empolgados no núcleo que trabalha a campanha do governador.

FHC disse que Lula “é uma pessoa inteligente, intuitiva. Mas, para ser franco, nós precisamos de gente jovem, que tenha energia”.

Todos entenderam a referência  direta a Eduardo Leite.

Se vencer as prévias,  Leite será um fortíssimo candidato à terceira via e, na pior das hipóteses, pode ser um vice decisivo no segundo turno.

 

 

 

 

 

ANDRES VINCE/ Chile: e se meio século de neoliberalismo desembocar no comunismo?

Outubro de 2019. Tudo parecia correr bem no Chile, o “paraíso neoliberal” do continente.

No Brasil, o ministro da economia, Paulo Guedes, vendia o “modelo chileno”, a começar pelo sistema de capitalização na Previdência, como saída para a crise das finanças públicas.

Na verdade, desde o golpe militar de setembro de 1973, o país andino viveu, sem anestesia, as agruras da transição, de uma economia estatizada para uma economia privatizada.

Resultado: anos de recessão e desemprego. Alguns economistas afirmam que só houve alguma recuperação na economia por volta de 1978. Meia década sangrando, literalmente.

A partir daí, mesmo em ritmo lento, a economia cresceu por décadas. Até que os  chilenos começaram a se perguntar: “Se o país cresce ano a ano e nós continuamos na mesma situação ou pior, pra onde está indo esse crescimento?”

Um sentimento de vazio e abandono começou a pipocar aqui e ali, em movimentos isolados. E foi se avolumando, até que o terceiro aumento seguido da tarifa do metrô de Santiago levou gigantescas manifestações às ruas.

Insensível. o ministro da Economia Juan Andrés Fontaine lembrou que a tarifa do metro era flutuante, variando conforme a demanda, e aconselhou: “El que madruga será ayudado con una tarifa más baja”. Traduzindo: “acordem mais cedo pra economizar”.

Claro que não foi só o metrô, foi a água,  a educação,  a saúde,  a previdência, foi a diferença no tratamento de gêneros, o abuso contra os povos originários, foi uma lista de abandonos sociais. Em resumo, foi o Estado mínimo.

Mas, o que se viu em Santiago, foi a materialização do que poderíamos chamar de a profecia de Allende: “Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.”

O povo nas ruas jogou o sistema político chileno nas cordas.  Os manifestantes mantiveram as forças de segurança de joelhos por mais de seis meses e toda repressão policial era repelida com mais violência.

A tentativa de controlar as manifestações via forças armadas talvez tenha sido o maior erro do governo. O toque de recolher despertava velhas lembranças. A repulsa foi generalizada. Os soldados não conseguiam nem descer do caminhão de transporte devido à chuva de pedras.

A popularidade do presidente Piñera caiu a 15%. Recolheu as tropas. Azar dos carabineiros, que foram levados ao limite da exaustão.

As manifestações só foram freadas pela pandemia e pela promessa do plebiscito sobre uma nova constituição, que acabou sendo aprovada em 25 de outubro de 2020 por 78,3% da população que compareceu às urnas. Algo em torno de 7,5 milhões de chilenos, aproximadamente 51% da população apta ao votar no referendo.

A assembleia constituinte foi eleita entre 15 e 16 de maio de 2021 e sua composição dos 155 membros ficou definida da seguinte forma: 17 cadeiras para os povos originários, cerca de 50 cadeiras para os independentes e as cerca de 90 cadeiras restantes mais ou menos divididos entre a esquerda, o centro e a direita, com uma ligeira vantagem para a esquerda.

Essa composição sinaliza claramente que o Chile terá a Constituição mais moderna do mundo, não apenas pela contemporaneidade, mas pela sua representatividade.

Será a primeira assembleia constituinte do mundo com paridade de gênero garantida por lei. E, ao contrário do que se possa imaginar, foram as mulheres que tiveram que ceder 11 cadeiras aos homens, porque elas, simplesmente, arrasaram nas urnas.

Mas, conseguirá o Chile construir um novo modelo de sociedade sobre os pilares do neoliberalismo, que por sua vez, foi construído sobre os escombros do socialismo?

Algo indica que não e talvez a marca mais significativa nesse sentido tenha sido a eleição de uma sub-prefeita comunista para Santiago, uma das 32 subprefeituras (chamadas de comunas) que formam a capital chilena.

A economista santiaguense Irací Hassler tem apenas 30 anos e tomará posse no próximo dia 28 de junho e será a primeira comunista a administrar a comuna de Santiago, que tem cerca de 200 mil habitantes.

Seu colega de partido, Daniel Jadue, reeleito subprefeito de Recoleta, uma comuna vizinha a Santiago, está tentando se gabaritar às eleições presidenciais.

As pesquisas indicam que ele tem chance e a história permite o sonho comunista de chegar ao poder pelo voto: o Chile já elegeu um presidente socialista e foi o primeiro país da américa latina a eleger uma mulher para a presidência, Michelle Bachelet.

E se, agora, meio século de neoliberalismo desembocar no comunismo? Corram para as montanhas, dos Andes, é claro!

ELMAR BONES/ Um factóide por dia

A imprensa pode se queixar de Jair Bolsonaro em relação a tudo, menos que ele não lhe forneça manchetes.

É um ataque homofóbico, é um relatório falso do TCU, é uma acusação à China,  é a defesa da cloroquina,  A cada dia um factóide que, na boca do presidente da República, acaba nas manchetes.

Nesta quinta-feira (10), por exemplo,  anunciou que quer desobrigar o uso de máscara por pessoas que já estejam vacinadas ou que tiveram a covid-19.

“Acabei de conversar com um tal de Queiroga, não sei se vocês sabem quem é. Nosso ministro da Saúde. Ele vai ultimar um parecer visando a desobrigar o uso de máscara por parte daqueles que estejam vacinados ou que já foram contaminados para tirar este símbolo que, obviamente, tem a sua utilidade para quem está infectado”, afirmou o presidente durante solenidade para anúncio de medidas do Ministério do Turismo.

A própria agência oficial do governo, a Agência Brasil fez uma ressalva na notícia:

“A obrigação do uso de máscara em espaços e ambientes públicos, entre outras medidas sanitárias, é definida em decretos estaduais e municipais, por iniciativa de prefeitos e governadores, conforme decisão vigente do Supremo Tribunal Federal (STF)”.

“De acordo com epidemiologistas, a população vacinada ou que já teve a doença deve continuar usando máscaras porque, mesmo imunizada, ainda pode transmitir o vírus para outras pessoas. Segundo especialistas, a desobrigação do uso de máscara só seria recomendável quando o país alcançar um número expressivo de pessoas completamente vacinadas”.

Um presidente normal pediria o parecer ao Ministério da Saúde e aguardaria o resultado para anunciar. Mas Jair Bolsonaro não se preocupa com os fatos. Ele quer estar nas manchetes, na vã tentativa de encobrir com factóides os descaminhos de seu governo.

 

 

ELMAR BONES/A barreira do medo foi vencida

Como está todo mundo em casa se informando pela Globo, pela Folha ou o Estadão e suas afiliadas e blogs e sites, ainda não caiu a ficha sobre as manifestações do sábado passado, 29 de maio (marquem a data).

Os ditos jornalões e seus agregados não acreditaram na mobilização. Não se interessaram pelos preparativos, ou sequer noticiáram que ia acontecer, Os governistas eu nem cito, porque é ocioso.

O fato é que, leitor desses guardiões da democracia,  fui à esquina democrática em Porto Alegre, onde foi marcado o início da manifestação,  para ver um fracasso,

Há seis meses não ia a Porto Alegre, cheguei na véspera e o que vi sobre os protestos marcados para o sábado 29, foram esparsos cartazes apócrifos colados em algumas paredes na avenida Borges da Medeiros.

Devo confessar que, embora já com as duas vacinas e me sentindo razoávelmente protegido, eu não teria ido se soubesse que teria tanta gente.

A companhei as passeatas de 2013, as célebres “jornadas de junho”, as de 2014 e de 2015. (Na verdade acompanho passeatas em Porto Alegre desde 1967). Digo: essa foi uma das maiores.

Quando cheguei na esquina da Borges com a Riachuelo, os espaços visíveis estavam todos tomados.

A massa vinha subindo a Borges e entrando na Riachuelo (desviando do trajeto tradicional pela Borges até o Largo Zumbi dos Palmares).

Estava a meu lado o colega Flávio Ilha, ficamos vendo as fileiras passando, todos de máscara, procurando manter um minimo de distanciamento.

Era visível que havia uma organização, um ritmo no andamento  e era muita gente. Várias vezes comentamos: uma das maiores já acontecidas em Porto Alegre em período recente.

Mais do que a quantidade: um “clima” diferente das mobilizações controladas por partidos, nas palavras de ordem e nas alegorias, estrategicamente entremeadas com os grupos de tambores ao longo da marcha. O predominio de jovens.

Vendo as manifestações por todo o país, ouso dizer: foi o mais duro golpe em Bolsonaro, porque anula as suas armas principais: o medo e a ameaça, Ele não está mais sozinho nas ruas.

Ouvi dizer que uma outra manifestação está sendo convocada para o próximo dia 12. Estou curioso para ver, mas acho que  a barreira do medo foi vencida e as ruas agora vão para cima do Bolsonaro.