MARCIA TURCATO/ A desinformação e o ataque às mulheres jornalistas

Por Márcia Turcato*

A máxima “informação é poder” foi atualizada para “desinformação é poder”.  A desinformação é uma estratégia global e concorre com a ética na informação. A desinformação integra o arcabouço das convicções ideológicas e para combatê-la um importante passo a ser dado é deixar de chamá-la de fake news. Uma notícia, por definição, não é falsa, ela foi apurada com ética por um/uma jornalista profissional. Falsas são as narrativas publicadas em portais que, embora pareçam ser sítios de notícia, publicam conteúdo sem responsabilidade social com o objetivo de prejudicar a capacidade de avaliação da audiência.

Conhecidas como fake news, as versões distorcidas da informação se apropriam de algum traço da realidade de forma a conferir credibilidade às teses de grupos de ideologia indefensável.  A desinformação imita o jornalismo na forma, mas não nos procedimentos. São criados personagens e inventados fatos para construir mentiras estratégicas para que pareçam verídicas e ganhem impulso nas redes sociais e, com isso, conquistar a simpatia de cidadãos de boa fé.

Em alguns casos, o discurso não é alterado, mas é feita edição das imagens, modificando a velocidade dos frames, ou o áudio da gravação, para que o protagonista aparente estar alterado e perca credibilidade junto a plateia. Essa é outra face da manipulação tecnológica que precisamos enfrentar.

Embora já exista um esboço de controle, as redes sociais ainda são um mundo de penumbra, onde nem sempre é possível identificar autores e seus propagadores. É um espaço sem impressão digital. Não sabemos de fato quem está teclando e não há regras claras sobre o seu uso. No entanto, é preciso reconhecer a importância da comunicação digital na sociedade e a popularização, a baixo custo, da produção de conteúdo que ela proporciona.

Nessa terra árida que é a web, as mulheres que exercem a profissão de jornalista são as maiores vítimas de ataques de toda a natureza. Em 2021, o relatório da Abraji- Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, identificou 1.270 agressões contra veículos de imprensa, sendo que em 91,3% dos casos o ataque foi contra mulheres jornalistas que haviam assinado os artigos publicados.

O relatório da Abraji aponta uma tendência de misoginia, machismo e descalabro que cresceu a partir de 2018 com a chegada de Jair Bolsonaro à presidência da República. O ataque às jornalistas, e às mulheres de um modo geral, parece refletir uma tendência de comportamento coletivo que imita o perfil do chefe do Executivo federal.

Diante desses fatos, é urgente a formação de um grupo temático que discuta o que é informação, identifique as estratégias de desinformação em circulação no Brasil, suas conexões no mundo da web, atue para encontrar caminhos que exponham essa rede global da desinformação como uma ferramenta de manipulação ideológica e crie mecanismos de proteção para os profissionais da imprensa. Para isso é fundamental discutir os temas relacionados a desinformação, regulação do uso das redes sociais, informação e poder, desinformação e governabilidade, informação e ética e deepweb (web profunda, que não pode ser acessada por mecanismos de buscas).

*Jornalista profissional formada na UFRGS, autora do livro “Reportagem: da ditadura à pandemia”.

FRAGA/ Rosvita Saueressig, anotações para um perfil (2)

Após 12 anos no mercado publicitário do Rio, mudei para SP em 1º/5/97.
Uma mão na frente e outra atrás, tive uns dois anos difíceis: vivia de escassos frilas.

Ao circular por eventos, encontrei a Rosvita num deles e daí resultaram algumas visitas à casa dela e do Nei. Ela estava no Valor Econômico e o Nei tinha seu restaurante em Vinhedo, na Grande SP. Esses encontros eram um porto seguro afetivo.

Até que certa vez o cinto apertou e não tinha dinheiro nem para pagar a pensão da minha ex-mulher e os 3 filhos.

Recorri à Rosvita e ela prontamente me deu um help. Prometi pagar quando as coisas melhorassem. E quando melhoraram, me tornei redator da Made Brasil, braço de design da W/Brasil.

Procurei a Rosvita para saldar a dívida e ela, prontamente, recusou o dinheiro. E como era natal, sugeriu que eu comprasse mais presentes para a família.

Contando assim, parece apenas mais um gesto solidário entre velhos amigos. Mas foi mais que isso, e a diferença estava na atitude afetuosa da Rosvita.

Em seguida ela foi atuar no marketing de um cartão de crédito, trocamos alguns telefonemas, e acabei de volta aos pagos.

Agora que a Rosvita se foi, poderia desfiar a baita admiração pela sua extraordinária capacidade jornalística e tantos outros méritos profissionais e pessoais dela, que todos reconhecem e podem relembrar.

Mas nesse momento de perda e saudade prefiro destacar esse episódio humanitário. Rosvita sabia dar o melhor de si a todos com quem convivia, bem-humorada, atenta, sempre disposta e disponível. Uma fortaleza entre nós.

 

ELMAR BONES / Rosvita Saueressig, anotações para um perfil

Em 1967, quando entrei como estagiário na Folha da Tarde, o “vespertino da cidade”, tinha uma única mulher na redação: Laila Pinheiro, se não me engano.

Sessenta homens ou mais, entre repórteres, editores, fotógrafos, estagiários, contínuos. Uma mulher.

No vetusto Correio do Povo, que tinha uma redação maior, também trabalhava uma única mulher cujo nome lembrarei daqui a pouco…Ligia, creio.

Quando fui para a Veja em São Paulo, dois anos depois, vi que não era muito diferente. Numa equipe de mais de cem, formada para “revolucionar o jornalismo brasileiro” não chegava a meia dúzia o número de mulheres. Dorrit Harazim, ainda em atividade, era uma delas.

Me acorrem estas memórias no momento em que fico sabendo da morte da jornalista Rosvita Saueressig, a Fita. Ela foi uma das líderes dessa geração de mulheres que invadiu e revitalizou as principais redações brasileiras, num momento em que o jornalismo pátrio estava no chão.

Conheci-a em 1972, quando o José Antônio Severo me levou para a Folha da Manhã em Porto Alegre. As mulheres já estavam se impondo na Universidade e isso se refletiu no chamamento que fizemos nas faculdades para renovar a redação. Metade dos candidatos eram mulheres, Rosvita era uma delas e logo se destacou como repórter e editora e, também, como líder do grupo das seis “meninas” contratadas, metade do corpo de novos repórteres. Ruy Carlos Ostermann confiou a ela a editoria de “Esporte Amador”, recém-criada, para resgatar uma tradição de Porto Alegre, de diversidade esportiva, sufocada pelo futebol.

Em pouco tempo era uma liderança na redação inteira, acatada inclusive pelos veteranos mais renitentes. Era “pé de boi” no trabalho mas fazia tudo com leveza, sempre sorridente, otimista e sempre disposta a ajudar. Maternal, não sonegava seus sábios conselhos.

Era o tempo da ditadura, acenava-se com abertura, os militares indicariam mais um general para a Presidência da  República. Os jornais especulavam, vários nomes eram cogitados, grande a expectativa, escassas informações. Às nove horas da manhã chegou à redação um informe colhido (sim, tinha um repórter que passava lá) no QG do então III Exército: o novo presidente seria o  Ernesto Geisel, ninguém sabia quem era. Era gaúcho, de Estrela, só o que se sabia. Rosvita saiu da reunião de pauta, ligou para parentes em Novo Hamburgo e descobriu que a família Geisel eram numerosa em Estrela, cidade de colonização alemã, a cento e poucos quilômetros de Porto Alegre. Ao meio dia estava na casa dos parentes, que já tinham confirmação. Dona Lucy, a mulher do general, tinha telefonado, a família estava em alvoroço. No dia seguinte, quando todos os jornais ainda especulavam, a manchete da Folha da Manhã era a seguinte: “Geisel é o homem” e quatro páginas com o material recolhido na família.

Quando houve a “debandada da Folha da Manhã”, Rosvita foi  para a Coojornal, a cooperativa, ainda incipiente, desorganizada. Assumiu as tarefas essenciais e contraditórias de agregar e disciplinar um grupo de jornalistas jovens e voluntariosos. Criar rotinas, cumprir prazos e estabelecer metas, numa empresa que era de todos. “Sargento Saueressig!”, brincavam os irreverentes, batendo continência. Ela ria, mas não cedia. Em pouco tempo a Coojornal produzia mais de 30 publicações para terceiros e um jornal próprio que tinha leitores no país inteiro.  Ela era uma figura central na cooperativa, coordenando meia centena de jornalistas, e se fosse preciso ia ela mesma ao aeroporto encontrar um certo passageiro que traria os originais de uma reportagem especial, enviada de São Paulo.

Quando a repressão se abateu sobre a Coojornal e fomos presos, o caso dela era o mais absurdo: Osmar Trindade e eu assinávamos o texto que resultou na condenação pela Lei de Segurança Nacional. O Rafael Guimarães participara de toda a operação para a entrega dos documentos militares.  Mas a Rosvita… ela, na sua diligência, simplesmente pegara os papéis e levara a uma gráfica para fazer cópias.

Ela não invocou nada disso, assumiu solidária toda a bronca. Na prisão, só fui vê-la no dia em que íamos sair. Ela estava sorridente, com um vaso de flor na mão.

Depois disso acompanhei de longe sua carreira, principalmente na Gazeta Mercantil e no Valor Econômico, sempre com a mesma performance. Não por acaso, ela foi uma das primeiras pessoas que o Celso Pinto convidou, quando foi montar a equipe para fazer o Valor.

As mulheres conquistaram as redações e todas as atividades atinentes ao jornalismo, grande avanço. Mas a profissão está mais uma vez no chão, esgoelada por um modelo superado. Terá que se reconstruir a partir da base e, nessa busca, referências inspiradoras como Rosvita serão fundamentais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GERALDO HASSE / Respeito aos que vivem na pior

A maioria das pessoas se enternece diante de um cão perdido, um gatinho faminto ou um pássaro ferido. Alguns se revoltam ao ver um cavalo magro puxando uma carroça pelas ruas. De uma forma ou de outra, todo mundo se dispõe a ajudar os animais perdidos ou explorados, mas não se vê a mesma disposição quando o perdido ou judiado é um ser humano.
Com frequência se veem pessoas incomodadas ou até revoltadas com mendigos, pedintes, carentes ou catadores – todos mais ou menos confundidos com “vagabundos” ou identificados como “essa gente que não gosta de trabalhar”.
Também cresce o número de pessoas que se dispõem a proteger árvores ou defender o verde, mas não dão refresco nem estendem a mão aos que, supostamente, “vivem encostados no Bolsa Família…”
Quem já se defrontou com um flagelado (da fome, da seca ou das enchentes) sabe que uma pessoa nessa situação fica fora do eixo, abalada no seu equilíbrio, perdida e sem rumo.
Antigamente havia até uma expressão – “abobado da enchente” – usada para definir pessoas perturbadas pela perda da casa, de utensílios domésticos ou de algum parente durante uma cheia. Às vezes a pessoa parecia lesada apenas por ter ficado sem dormir ou sem comer na noite em que as águas invadiram sua casa.
A expressão caiu de uso, mas a situação se repete periodicamente nas chamadas zonas ribeirinhas ou nas encostas – áreas de baixo valor onde o povo acaba construindo suas moradas.
Agora imagine-se alguém que durma na rua, passe frio, e não faça refeições regularmente, não tenha onde tomar banho e vestir uma roupa limpa antes de se acomodar num ambiente minimamente confortável para sorver, por exemplo, uma canja, a mínima comida de sal, e depois desfrutar de um sono reparador.
Agora imagine-se o pobre flagelado (pela miséria) comendo um prato de arroz + feijão com bife a cavalo, batata fria, e a sobremesa sendo um quindim ou um camafeu feito em Pelotas, RS.
Por isso são dignas de admiração e aplauso essas pessoas que toda noite saem pelas ruas e oferecem sopa aos famintos espalhados pelos viadutos e marquises. É o mínimo de humanismo para seres degringolados.
É claro que não basta o prato de comida, como também não resolvem a esmola, as campanhas do agasalho. É preciso dar o passo seguinte, encaminhá-los, pobres carentes, aos serviços públicos capazes de lhes oferecer a ajuda mínima para que recuperem a estima e, a seguir, consigam a mínima inserção na sociedade e na economia.
Nesse aspecto, o Bolsa Família é o primeiro degrau da porta que leva à redenção do cidadão degradado não importa por que motivo. É degrau porque exige que as famílias mantenham os filhos na escola – a porta capaz de levar a um mundo novo, longe da miséria.
A relação custo/benefício do Bolsa Família precisa ser reconsiderada pelos críticos dos programas de inserção social dos caídos do caminhão da economia. O custo do BF representa menos de 10% do que o Tesouro Nacional paga de juros da dívida pública, na qual estão pendurados miles de investidores de países ricos.
Que cada um pense nisso ao ver um perdido na noite dormindo na rua nesse último inverno do mentecapto no Planalto.
ORAÇÃO DO DIA
“Senhor, dai pão a quem tem fome/e fome de justiça a quem tem pão”

BENEDITO TADEU CÉSAR / Sem alarmismo, mas com força. Não ao golpe!

Benedito Tadeu César*

Setores bolsonaristas atacam cada vez mais o sistema eleitoral e os democratas o defendem enfaticamente. Seria possível pensar na possibilidade de estarmos sendo manipulados para defender as urnas eletrônicas e o processo de apuração enquanto os próprios bolsonaristas se preparam para atacá-los de fato, com o objetivo de alterar o resultado eleitoral em favor de Bolsonaro? Se isso acontecesse, nós ficaríamos sem argumentos para discordar do resultado.

Que fique claro: não existe sistema eletrônico que seja infalível e inviolável. Fosse assim, não existiriam tantas empresas de segurança eletrônica e nem seriam contratados tantos hackers para testar os sistemas de proteção existentes nas instituições financeiras, militares etc. em todo o mundo.

Esta pode parecer uma hipótese paranoica, mas quando começaram o processo do impeachment da Presidente Dilma Rousseff e o processo contra o ex-Presidente Lula da Silva, pouquíssimos analistas e/ou militantes acreditavam que Dilma seria derrubada e, menos ainda, que Lula pudesse ser preso. Achávamos que o apoio popular a Dilma e principalmente a Lula seriam suficientes para impedir qualquer golpe e, principalmente, para impedir a prisão de Lula. A todos, parecia loucura alguém sequer tentar prender Lula.

Desta vez, estejamos alertas.

Isto significa a possibilidade de estarmos encurralados? Não devemos mais defender as urnas eletrônicas e o processo eletrônico de apuração dos votos? Claro que não, a Justiça Eleitoral e o processo eleitoral eletrônico devem ser preservados e defendidos. O que precisamos, além disto e com urgência, é construir uma forte barreira democrática na sociedade civil, capaz de resistir a qualquer tentativa de golpe.

A força desta barreira dependerá de sua amplitude e enraizamento na sociedade brasileira: todos os setores e instituições da sociedade civil e do Estado democrático, inclusive ex-bolsonaristas, a OAB, a ABI, as organizações religiosas, as centrais sindicais e os sindicatos de trabalhadores, as associações empresariais de todos os setores e níveis, as diversas instâncias da Justiça e do Ministério Público, os partidos políticos e a imprensa de todas as formas e meios precisam ser mobilizados e instados a se manifestarem fortemente contra qualquer tipo de golpe.

É preciso constituir uma frente tão ampla quanto for possível em defesa da democracia, que reúna todos os candidatos democráticos e seus eleitores no repúdio a qualquer tipo de golpe. Precisamos reunir lulopetistas, ciropedetistas, dória-ou-eduardopeessedebistas, tebetemedebistas, janoneavantistas, dávilanovistas, leonardoupistas e os demais que houver verapessetuistas e todos os demais “istas” do campo democrático.

Os setores bolsonaristas das forças armadas e da sociedade civil precisam ser fortemente alertados de que eles estarão isolados se tentarem desencadear qualquer tipo de golpe, seja ele eletrônico ou armado. A união dos democratas de todos os matizes é o caminho hoje para garantir a democracia.

* Cientista político, professor da UFRGS (aposentado) e ex-professor da UFES, integrante da coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito

VILSON ROMERO/ Imprensa livre

Vilson Antonio Romero (*)

Em 3 de maio, comemora-se no Brasil, o Dia do Parlamento, instituído por lei de 1975, saudando a instalação da primeira Assembleia Constituinte e a criação do Poder Legislativo em território nacional.

O calendário também assinala a data como o Dia do Sertanejo, Dia do Pau-Brasil, Dia do Sol e, não menos importante, o nascimento do florentino Nicolau Maquiavel, em 1469, entre outros registros.

Mas, para nós, profissionais da comunicação social, a maior referência do 3 de maio é a celebração do “World Freedom Day”, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

A comemoração instituída em 20 de dezembro de 1993 pela Assembleia Geral das Nações Unidas celebra o Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Declaração de Windhoek.

Dois anos antes, em maio de 1991, a Unesco realizou uma conferência em Windhoek, na Namíbia, que encerrou com a Declaração para o Desenvolvimento de uma Imprensa Livre, Independente e Pluralista.

Esse manifesto sublinhou, entre outras coisas, que "a criação, manutenção e promoção de uma imprensa independente, pluralista e livre é essencial para o desenvolvimento e manutenção da democracia numa nação, e para o desenvolvimento económico".

Apesar de, anualmente, a data ser saudada em todos os cantos do mundo livre e democrático, os profissionais e veículos de comunicação social seguem sofrendo todo o tipo de atentado ao redor do planeta.

A ONG Repórteres Sem Fronteiras (Reporters sans Frontiéres), com sede em Paris, já denuncia, em seu barômetro da liberdade de imprensa, a morte de 23 jornalistas, somente em 2022.

A Inter American Press Association (SIP) encerrou sua reunião semestral em abril, na Flórida, EUA, denunciando um aumento das ocorrências de agressões, prisões e exílio forçado de jornalistas nas Américas, além de ataques à mídia, assédio judicial, estigmatização e um saldo de 15 assassinatos de jornalistas.

Neste início de maio, a Unesco e o governo uruguaio realizam em Punta Del Este uma conferência para a celebração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, com o tema “Jornalismo sob cerco digital”.

O encontro abordará o chamado autoritarismo digital, que ocorre quando há controle governamental das informações via ferramentas digitais, de modo a atrapalhar o trabalho jornalístico e colocar em risco repórteres e defensores de direitos humanos.

Dentro de uma perspectiva muito próxima aos brasileiros, também devem analisar as formas pelas quais o autoritarismo digital pode comprometer eleições, justificar guerras, além de reprimir e desorientar os cidadãos.

O mundo digital abriu janelas de oportunidade para o exercício da liberdade de imprensa, da ampliação do jornalismo investigativo, mas escancarou a porta de entrada para as ameaças e ataques virtuais, intensificados na última década.

São fatores importantes a serem objeto de muito reflexão por parte de profissionais da área, na busca de condições plenas de trabalho. Que o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa impulsione um pouco mais as garantias do ato de bem informar à sociedade.
…………..
(*) jornalista, vice-presidente da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) emembro da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

Cultura é espaço de resistência

Márcia Turcato, diretora de Comunicação e Daiana Dias presidenta do
IPAC- Instituto de Pesquisa e Promoção à Arte e Cultura

A extinção do Ministério da Cultura, transformado em secretaria, o
desmonte da Agência Nacional do Cinema (Ancine), acusações de
censura, citações nazistas, alusão à ditadura militar, troca constante de
gestores, possibilidade de financiar atividades não diretamente
relacionadas a cultura, como certames de lutas marciais, e
fundamentação religiosa para escolha de projetos para patrocínio são
algumas características da gestão da Cultura no atual governo.

E o olhar do governo federal centrou seu foco na produção cultural privada.

O Observatório de Censura à Arte, criado em 2019, mapeou 51 casos
de censura ou agressão à produção cultural no Brasil desde o
cancelamento da mostra Queermuseu, no espaço Farol Santander, em
Porto Alegre.

Em comum, as obras censuradas têm como temática a
nudez, questões feministas, antirracistas e relativas à comunidade
LGBTQI+, além de críticas ao presidente da República.

O Mapa da Censura, divulgado no início de março, fez um trabalho
ainda mais minucioso, somando eventos censurados a eventos
atacados.

O Mapa mostrou que a maior parte dos ataques contra a
Cultura, com 192 casos (ou 91% do total), partiu do Poder Executivo,
sendo que o Judiciário foi responsável por 13 casos (6,16%).

O Executivo Federal, durante o mandato de Bolsonaro, foi responsável por
72% dos registros. No total, foram 211 ataques ao setor cultural em três
anos do governo Bolsonaro. O Mapa foi divulgado pelo Mobile-
Movimento Brasileiro Integrado pela Liberdade de Expressão Artística.

O Mapa revelou ainda que os principais protagonistas da agenda de
ataques à cultura estão no governo federal, tanto na administração
direta como na indireta, como o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional) e a Fundação Palmares. Mas a matriz narrativa é o
próprio presidente da República e seus auxiliares no governo.

A estratégia é de destruição sistemática do espaço de produção artística,
de opinião, de estética e de manifestações populares artísticas.

Com uma medida provisória, publicada no dia dois de janeiro de 2019, o
presidente da República extinguiu o Ministério da Cultura (MinC). O
conjunto de competências e órgãos ligados ao MinC, em parte, foi
distribuído para outros ministérios e outra parte acabou extinta.

A Cultura e suas manifestações artísticas, assim como a Educação,
sempre foram espaços de resistência e renovação. Os ataques
sistemáticos e estratégicos comandados do Palácio do Planalto
mostram que há uma ideologia de desconstrução desses importantes
setores sociais, como vimos, recentemente, a tentativa de amordaçar o
festival Loolapalooza, realizado em São Paulo.

Mas a Cultura resiste em suas manifestações populares e na produção artística independente. A
Cultura é espaço de resistência.

LOURENÇO CAZARRÉ/ Meninos de zinco

“Meninos de zinco”

Svetlana Aleksiévitch

Companhia das Letras, 366 páginas

Painel polifônico de uma guerra

Lourenço Cazarré

Dias atrás o Afeganistão voltou a ser citado no noticiário internacional por uma informação sobre meninas que estariam, agora, sendo impedidas de ir à escola. Era apenas uma notinha perdida em meio à verdadeira borrasca de cenas assombrosas geradas pela Guerra da Ucrânia. Mas uma notinha já esperada, claro.

Ano passado, após uma presença de quase vinte anos no Afeganistão, forças de países ocidentais – liderados pelos Estados Unidos – retiraram-se daquele país. O governo que deixaram por lá desmoronou em poucas semanas e a nação de ásperas, belas e inacessíveis montanhas voltou ao regime teocrático anterior (1996-2001), fundamentalista islâmico, o Talibã. A retirada dos últimos funcionários e soldados ocidentais foi plena de cenas bíblicas. Como as centenas de pessoas desesperadas correndo sob os aviões de transporte, com alguns homens alçando voo agarrados às rodas, para despencar em seguida. Como o dilúvio de homens, mulheres e crianças que – muitos só com a roupa que vestiam – se movimentava desesperadamente em direção ao aeroporto de Cabul.

Caçada

Os americanos e seus aliados europeus entraram no Afeganistão, no começo deste milênio, para – diziam – caçar Osama Bin Laden, o cérebro do ataque de 11 de setembro às Torres Gêmeas. Certamente sabiam onde estavam se metendo. Estavam enfiando seus pés calçados com botas em um país dividido entre incontáveis clãs acostumados a entreveros, entre os quais se destacava o famigerado Talibã, cujas proezas mais conhecidas mundialmente eram a implosão de duas imensas estátuas de Buda, esculpidas há mil e quinhentos anos num penhasco, e o veto à presença de meninas nas escolas.

Duas décadas após o desembarque, contabilizando a morte de mais de três mil e quinhentos militares, essa força ocupante se retirou de forma destrambelhada, legando ao Talibã um vastíssimo e moderno equipamento (carros de combate e armas sofisticadas) que transformou aquele país paupérrimo em uma potência militar considerável.

Não foi o primeiro fracasso de tropas forasteiras, não. Foi o terceiro.

Os britânicos, no máximo esplendor da Pérfida Albion, foram os primeiros a serem expulsos de lá. Foram derrotados pelos nativos – invariavelmente barbados e com um turbante na cachola – ao cabo de três guerras que se estenderam por oito décadas, de 1839 a 1919.

Lênin e Stálin

Os segundos foram os meninos nascidos e crescidos numa imensa pátria inventada pela dupla Lênin e Stálin. Vamos chamá-los russos para simplificar a redação. Eles se apresentaram (russos não invadem, diz Putin) por lá em 1979, quando ainda eram conhecidos como soviéticos, e se retiraram dez anos após, com um saldo de 15 mil mortos e centenas de desaparecidos.

Bem, os russos apareceram para dar respaldo a um recém-instalado governo “socialista”. Em tese, seus soldados eram internacionalistas entusiasmados e queriam ajudar o generoso povo afegão a livrar-se do seu inconcebível atraso.

O Afeganistão era então e continua sendo um país complicado. Todos os países o são, na verdade. Mas lá a população se divide entre quatro grandes etnias (pashtuns, 52%; tadjiques, 21 %; hazaras, 19%; usbeques, 5%). O islamismo, religião quase exclusiva, se reparte em dois ramos principais (sunitas, 80%, xiitas, 20%). A economia nacional gira em torno das drogas. De acordo com estudo da ONU, 93% dos opiáceos produzidos no mundo saem de lá, bem como a maior parte (80%) da heroína consumida na Europa.

Uma jornalista baixinha

Porém, no caminho dessa tropa russa – como diria um poeta – havia uma jornalista baixinha.

O jornalismo, como se sabe, é a profissão dos abelhudos. Jovens curiosos do mundo todo frequentemente viram jornalistas. Mas em alguns países essa inclinação pessoal pela busca da informação – fofoca indigesta, segundo todos os poderosos – não basta. Em nações como a Rússia, soviética ou pós, o sujeito ou sujeita precisa ter também coragem, e muita.

Esse é o caso de uma ucraniana criada em Belarus chamada Svetlana Aleksiévitch, ganhadora do Nobel de Literatura em 2015. Que hoje – por via das dúvidas, por cautela – reside na Alemanha.

Svetlana escreveu muitos livros. Um deles sobre a apavorante tragédia de Chernóbil, cidade que hoje sabemos estar situada na Ucrânia. Escreveu também um belíssimo livro sobre a atuação de senhoras e senhoritas nas forças armadas russas durante a Segunda Guerra Mundial: A guerra não tem rosto de mulher. E tem ainda na sua prateleira pessoal um trabalho sobre a década em que os soviéticos chafurdaram num pântano de sangue, loucura, desespero, corrupção e morte chamado Afeganistão.

Guerreiros invencíveis

Dizem os historiadores que – ao entrar num país que na nossa imaginação não passa de uma interminável cadeia de pirâmides de granito – os soviéticos queriam mostrar a seus grandes rivais (os americanos, pouco antes derrotados no Vietnã) que eles, sim, os heróis da Grande Guerra Patriótica, eram guerreiros invencíveis.

Não eram então e nem são agora, garantem os conhecedores da arte bélica. Antes, perderam uma guerra para o Japão (1904-1905) e não conseguiram vencer a pequenina Finlândia (1939-1940).

Agora, entraram na Ucrânia para uma guerra-relâmpago que deveria durar uns três dias e que culminaria com a fuga – talvez até mesmo fantasiado de dançarino cossaco – do presidente Volodimir Zelensky. Seria uma guerra muito rápida, ilustrada por belíssimas imagens televisivas: lindas mocinhas ucranianas colocando rosas vermelhas nas bocas dos canhões dos tanques; e velhinhos encurvados, apoiados em bengalas, beijando agradecidos as mãos calosas dos fortes e bravos soldados de Moscou que ali estavam para libertá-los do nazismo renascido.

Não, não foi o que ocorreu. Zelensky não fugiu e, pelo contrário, ordenou aos homens que levassem suas mulheres e filhos até a fronteira e que voltassem logo para lutar.

Na Ucrânia, os invasores russos atolaram-se num engarrafamento de sessenta quilômetros de blindados e carros de transporte. Os pneus dos caminhões eram ruins e rebentavam. Os tanques eram velhos e fumacentos. A comida rareou. Em grande parte, talvez mais da metade, os soldados eram meninos de 18 anos, que podiam voltar a pé para casa – algo impossível para os que foram enviados ao longínquo Afeganistão.

A invasão russa da Ucrânia – segundo analistas de questões guerreiras – serviu principalmente para tranquilizar os dirigentes dos países signatários do Tratado do Atlântico Norte. Ou seja, serviu para mostrar aos generais das nações integrantes da Otan que o novo césar da terrinha da vodca não tem aquele exército fantástico que costuma propagandear. Aliás, já se fala que os russos tiveram que recorrer ao socorro (bem remunerado) de quem realmente sabe combater e matar: os nada gentis mercenários sírios e chechenos.

Incompetência e corrupção

Talvez uma ideia mais próxima do que seja verdadeiramente o exército russo atual possa ser encontrada no livro Meninos de zinco. Características marcantes: total incompetência em logística, falta de boa comida e de medicamentos básicos, armas e equipamentos obsoletos, violência extrema contra os adversários e igualmente entre os integrantes da própria força e, acima de tudo, uma corrupção avassaladora em todos os níveis da administração.

Svetlana esteve no Afeganistão: “Subi num helicóptero… De cima vi centenas de caixões de zinco preparados de antemão, brilhando ao sol, belos e assustadores…”

Na verdade, Meninos de zinco é muitíssimo mais que um retrato de uma conflagração. É um libelo candente contra a guerra, contra todas as guerras. Essa obra gerou contra a jornalista um processo que se arrastou por anos e que está, em parte, reproduzido nas páginas finais da edição brasileira do livro.

Um painel polifônico

A técnica de Svetlana é aparentemente simples. Ela ouve centenas de pessoas sobre um determinado tema e depois transcreve as partes mais importantes (e impactantes) desses depoimentos. Trabalha com o acúmulo de vozes fragmentárias. Sem discursos, sem frases feitas, sem slogans, ela avança. E esses pequenos retalhos – monólogos, confissões, explosões, delírios – acabam formando um painel polifônico do assunto tratado.

Seguindo o exemplo de Svetlana, reproduziremos aqui alguns retalhos de falas de gente que viveu e padeceu a Guerra do Afeganistão – soldados, oficiais e mulheres que integraram as tropas. E ainda, e principalmente, mães de meninos que voltaram para casa – estraçalhados seus corpos – em caixões funerários de zinco.

Depoimentos

Mãe:

Ele matou um homem… Meu filho… Com uma machadinha de cozinha… Ele tinha voltado da guerra e aí matou…  Anunciaram na tevê que pescadores tinham recolhido um cadáver no lago da cidade… em pedacinhos… Uma amiga me ligou: Você leu? Foi um assassinato profissional… Estilo afegão….

Está escutando um latido de cachorro? Não? Eu sempre escuto um latido de cachorro assim que começo a contar isso.

Só teve uma vez que ele falou do Afeganistão. Eu estava preparando um coelho. Tinha uma tigela com sangue… Ele molhou os dedos naquele sangue e olhou… E falou para si mesmo:

– Trouxeram um amigo com a barriga destruída… Ele pediu que o matasse com um tiro… E eu o matei com um tiro…

Soldado, atirador de granada:

Dezoito cirurgias, quatro com anestesia geral… No hospital recebi uma carta de um amigo. Através dele fiquei sabendo que o nosso blindado tinha explodido numa mina… Ele tinha visto uma pessoa voando junto com o motor. Era eu.

Depois de duas, três semanas não sobra nada de quem você era antes, só seu nome… Fomos ensinados: fica vivo quem atira primeiro…

Vendíamos munição cozida… A bala cozida não voa, é cuspida para fora do cano. A gente botava uns baldes e jogava lá a munição e cozinhava por duas horas! À noite levávamos para vender. Comandantes e soldados, heróis e covardes, todos negociavam…

Enfermeira:

É uma guerra justa, nos diziam, estamos ajudando o povo afegão a terminar com o feudalismo e a construir uma bela sociedade socialista…

Os oficiais bebiam todo o álcool, tratávamos as feridas com gasolina. As feridas cicatrizavam mal… O sol ajudava. O sol forte mata os micróbios…

Não havia pijamas, chinelos, mas já tinham pendurado slogans, palavras de ordem e cartazes…

A coisa mais desagradável no Exército é o ambiente de delação, a ordem de delatar.

Podia salvar, mas não consegui acordar o cirurgião bêbado…

Muitas vezes de uma pessoa só sobrava meio balde de carne… E escrevíamos: morto num acidente de automóvel, caiu num barranco, intoxicação alimentar…

Ao lado, no kichlak (aldeia), os afegãos andavam com nossos pijamas de hospital, com nossos lençóis na cabeça como turbante. Sim, nossos meninos vendiam tudo…

E eles vendiam armas, munição para depois serem mortos por essas mesmas armas…

Soldado, motorista:

Os comandantes andavam meio agitados, cochichavam entre si. Estava chegando a hora do almoço, começaram a puxar caixas de vodca… Eles nos enfileiraram e ali mesmo anunciaram que em algumas horas um avião viria nos buscar – estávamos a caminho da República do Afeganistão para cumprir nosso dever militar.

Quando minha esposa perguntou como seu marido tinha ido parar no Afeganistão, responderam a ela: “Ele manifestou o desejo, voluntariamente”.

Soldado, artilheiro:

Passamos num kichlak, pedimos algo para comer. Segundo as leis dele, se uma pessoa está na sua casa e tem fome, você não pode recusar comida. As mulheres nos sentaram à mesa e nos deram comida. Quando fomos embora, espancaram essas mulheres e seus filhos com pedras e paus. Elas sabiam que iriam matá-las, mas ainda assim não nos expulsaram…

Funcionária:

Nos postos nas montanhas o pessoal não vê ninguém por anos. Vai um helicóptero três vezes por semana. Eu fui. Um tenente se aproximou:

-Moça, tire o lenço da cabeça. Solte o cabelo. – Eu tinha cabelo comprido. – Já faz dois anos que só veja a cabeça raspada dos soldados.

Os soldados… Os meninos… Eles saem daqui devastados… Viram muita coisa aqui… Como uma mulher que se vende… por duas latas de carne moída.

Subtenente, enfermeiro:

Faltavam remédios.

A metade (das seringas descartáveis) não sugava nem aspirava.

Curativos elásticos não tinha mesmo.

O soldado soviético é o mais barato. O mais paciente, sem exigências…. Era assim em 1941. Cinquenta anos depois ainda é assim. Por quê?

Trazíamos dinheiro das missões de combate… Quem tivesse a patente mais alta tomava da gente. Ali mesmo, diante dos nossos olhos, dividiam entre si.

Na alfândega levavam os presentes que trazíamos para casa: perfumes, lenços, relógios.

– Não é permitido, pessoal.

Mãe:

Ele era baixinho. Nasceu feito uma menina, pesava dois quilos, media trinta centímetros. Eu tinha medo de segurá-lo…

Eu o apertava contra mim:

– Você é meu raio de sol…

Foi aceito no Exército. Eu rezava… para que não o espancassem. Eu tinha medo que os rapazes mais fortes fossem humilhá-lo. Ele dizia que eram capazes até de mandar limpar o banheiro com uma escova de dentes e lavar as cuecas dos outros.

Eu estava esperando que ele voltasse para casa, faltava um mês para o final do serviço…

Primeiro veio o capitão do centro de recrutamento:

– Força, mãe!

Caí no chão:

– Meu raio de sol! – Me levantei e parti para cima do capitão com os punhos fechados: – Por que você está vivo e meu filho não? Você é tão saudável e forte. E ele é pequeno. Você é um homem e ele é um menino. Por que você está vivo?
Soldado, comunicações:

Eu só tinha um problema: onde roubar carregadores de munição adicionais… No combate você pega o último carregador e a última munição – e põe nos dentes. É para você.

Quando andamos de carro por Cabul, as mulheres jogavam paus e pedras nos nossos tanques. (Nos) xingavam com palavrões russos sem sotaque, gritavam: Russo, vá para casa…

Vi num mesmo avião voltar para casa caixões de zinco e malas com casacos de pele…

Em nosso país cada geração recebe sua guerra…

Mãe:

Eles iam em fila ao banheiro… Não tinham permissão para ir sozinhos porque, quando souberam que iam ser mandados para o Afeganistão, um se enforcou no banheiro e outros dois cortaram os pulsos…

Não sou louca, mas espero por ele. Contam um causo: trouxeram um caixão para uma mãe, ela o enterrou. Depois de um ano, o filho voltou… Também estou esperando. Não sou louca…

Major, de um regimento de artilharia:

De quem foi essa guerra? Das mães. Elas combateram. E vão combater até a morte. Cuidar, rogar por nós. Por nossas almas…

Por que quem tem dezoito anos, dezenove anos, mata com mais facilidade do que quem tem trinta? Eles não têm pena.

Mas nos quartéis aqueles meninos tinham oito, dez camas vazias todo mês. Quem dormia nelas já estava na geladeira… No necrotério.

Nas operações – ali mesmo nos deitávamos, ali mesmo, desculpe, fazíamos as necessidades. Um provérbio de soldado: é melhor ficar na própria merda do que virar merda nas minas…

Primeiro-tenente, de um pelotão de morteiros:

A guerra acabou. Agora vão nos esconder em algum lugar mais distante. Encerrar. Isso já aconteceu com a guerra da Finlândia.

Funcionária:

Não deixam as mulheres entrar no banheiro dos oficiais, porque as mulheres são sujas… E esses mesmos oficiais vêm nos procurar… Para uma coisa só… Para isso mesmo… Batem à porta à noite com uma garrafa de vinho. Na carteira têm fotos dos filhos, da esposa, eles nos mostram. É normal…

Mãe:

À noite, eu me deito e peço:

– Apareça no meu sonho, filhinho. Venha fazer uma visita.

Uma vez sonhei com um caixão… A janelinha estava no lugar da cabeça… Eu me inclinava para dar um beijo… Mas quem estava ali? Não era meu filho… Era alguém moreninho… Um menino afegão…

Primeiro tenente, tradutor:

Soldados com fome… Distróficos… Todo o corpo coberto de furúnculos. Avitaminose…

As pupilas de alguém morrendo por estilhaços perdidos que giram furiosamente…

Nosso oficial ao lado de um afegão enforcado. Sorrindo.

Soldado, batedor:

Normalmente você abre a porta e joga uma granada, para não levar uma rajada de metralhadora. Para que arriscar? Joguei a granada e entrei: estavam caídos uma mulher, dois meninos maiores e um bebê de colo. Numa espécie de caixinha… Em vez de berço…

À noite é terrível porque vejo… Nos sonhos não sou cego…

Funcionária:

Por acaso um hospital militar consegue funcionar sem mulheres? Os pacientes queimados… Desfigurados… Nem que seja só para colocar a mão sobre a ferida, transmitir alguma energia. Isso é compaixão. É trabalho para um coração de mulher. Você acredita em mim? Acredita em nós? Que nem todas lá éramos prostitutas?

Não dê meu nome. Considere que eu já não existo.

Mãe:

Você corre para o cemitério como se fosse um encontro…

Nos primeiros dias passei a noite lá… E não sentia medo…

Fico ao lado dele até terminar a tarde. Até chegar a noite. Às vezes grito e eu mesma não escuto até os pássaros saírem voando… Um bando de corvos. Paro de gritar. Por todos esses quatro anos fui todo dia. Só não fui por onze dias quando tive um início de enfarto. Não me permitiam levantar. Mas eu me levantei, fui quietinha ao banheiro… Quer dizer, queria correr para encontrar meu filho, queria cair no túmulo dele. Fugi com o uniforme do hospital…

Antes disso tinha tido um sonho. Valera (apelido do filho) aparecia.

– Mamãe não venha ao cemitério amanhã. Não precisa.

Lá, no túmulo… de certa forma meu filho mora ali… Calculei onde está a cabeça dele… Me sento ao seu lado e conto tudinho a ele… Como foi minha manhã, como foi o dia…

 

Escrito em 28, 29 e 30 de março de 2022.

Revisado em 6 de abril.

 

7 de abril: menos “fake news”, mais jornalismo

Vilson Romero (*)

Em Laigueglia, comuna italiana da região da Ligúria, nasceu em 1798 Giovanni Battista Libero Badaró, médico, jornalista e político que aportou no Brasil em 1826.

Radicado em São Paulo, se destacou como defensor do liberalismo, além de fundar em 1829 o jornal “O Observador Constitucional”, do qual foi o principal redator até ser assassinado com uma carga de bacamarte, numa emboscada perto de sua casa, em novembro de ano seguinte.

Reza a lenda que, nos seus derradeiros suspiros, pronunciou uma frase eternizada como símbolo da defesa da liberdade de imprensa: “Morre um liberal, mas continua a viver a liberdade”.

Em sua lembrança, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), fundada em 7 de abril de 1908, instituiu, em 1931, o Dia do Jornalista, saudando o trabalho dos profissionais responsáveis por apurar fatos e levar a informação imparcial e ética a todos os cidadãos.

Seja naquela época, nos jornais impressos, como nas diversas formas de comunicação social que foram surgindo e se aperfeiçoando nestes mais de 100 anos – rádio, televisão ou internet – o jornalista atua primando sempre pela imparcialidade e confiabilidade de suas fontes de informação. Ou pelo menos, deveria.

E, neste ano da graça de 2022, já vivemos momentos preocupantes para a profissão do bem informar, tensionados pelo período eleitoral, com polarização, radicalização e o pântano da “terra de ninguém” no qual se transformou a internet e suas “famigeradas” redes sociais e grupos de mensagens.

O aumento de 21,69% no número de profissionais e veículos de comunicação que sofreram algum tipo de ataque em 2021, já constatado pela Abert em seu Relatório sobre Violações à Liberdade de Expressão, assim como os mais de 5,5 mil processos judiciais contra publicações e jornalistas contabilizados pelo projeto Ctrl+X, da Abraji, nos dão uma amostra do quão difícil é e seguirá sendo a atuação dos comunicadores.

Só no ano passado, a Fenaj já havia denunciado 430 agressões a jornalistas e a veículos, com o Presidente da República sendo o responsável por 147 casos (34,19% do total), entre tentativas de descredibilização da imprensa e agressões verbais a jornalistas.

Por todas estas condições de risco vivenciadas pelos profissionais da comunicação é que saudamos neste dia 7 de abril todos aqueles que ainda se esforçam, se dedicam na busca da notícia cotidiana no bairro, na cidade, no estado ou região, transmitindo-a à sociedade em geral, evitando a desinformação e o obscurantismo das comunidades sem imprensa livre. Neste Dia do Jornalista, “menos ´fake news´ e mais jornalismo”, como um dos lemas de nossa Associação Riograndense de Imprensa (ARI).

……………….

(*) jornalista, vice-presidente da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e conselheiro e membro da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

 

 

IVANIR BORTOT / Em defesa da Justiça Eleitoral

O Presidente do Tribunal da Justiça Eleitoral o ministro do STF, Edson Fachin, disse nesta sexta-feira,1,  que a justiça eleitoral está sob ataque, assim como a democracia está ameaçada.

“A sociedade constitucional está em alerta. Impende, no cumprimento dos deveres inerentes à legalidade constitucional, defender a Justiça Eleitoral, a democracia e o processo eleitoral”, disse Fachin em reunião com os Presidentes dos Tribunais Regionais Eleitorais.

“ Não vamos aguçar o circo de narrativas conspiratórias das redes sociais, nem animar a discórdia e a desordem, muito menos agendas antidemocráticas. Nosso objetivo, neste ano, que corresponde ao nonagésimo aniversário da Justiça Eleitoral, é garantir que os resultados do pleito eleitoral correspondam à vontade legítima dos eleitores”, alertou.

Veja a seguir algumas da ações defendidas  pelo Presidente do TSE:

(i) conferir celeridade às providências para o pleito de 2022;

(ii) dar especial atenção à manutenção das urnas, à convocação e treinamento dos mesários, estes que correspondem aos soldados do nosso front;

(iii) trabalhar no sentido de contribuir para o enfrentamento desse grande mal que é a desinformação;

(iv) observar as regras de cyber segurança;

(v) articular-se com autoridades de segurança pública, buscando apoio para promover a paz no transcurso de todo o período eleitoral e ainda a fim de resguardar a integridade dos mesários e dos servidores da Justiça Eleitoral; e

(vi) realizar ações voltadas à conscientização sobre a participação feminina na política e também ao combate à violência política de gênero, que é a atual bandeira do TSE Mulheres, algo que digo com muito orgulho.

(*)Sugiro, ainda, a exemplo do que tenho feito em âmbito nacional, uma aproximação com os representantes de Partidos Políticos, ouvindo-os e incentivando-os a se engajarem no combate à desinformação; a trabalharem no sentido de sensibilizar os jovens eleitores; a participarem ativamente das fases de fiscalização (inclusive no dia da eleição); a estarem alertas quanto à entrega das prestações de contas e à abertura de contas bancárias.

Mas não é só. Participar da organização das eleições é trabalho que ultrapassa a mera preparação dos atores e exige uma verdadeira articulação, mediante a assunção de tais objetivos como finalidades comuns de ação.

Recentemente, diversas alterações normativas importantes foram provocadas pela Justiça Eleitoral, dentre as quais menciono:

●   Res. TSE nº 23.669/2021 (atos gerais) – Com o objetivo de ampliar a transparência e o acesso à informação na etapa de totalização dos votos, o art. 230 da Resolução foi alterado para diminuir o prazo de disponibilização dos Boletins de Urna (BUs) e tabelas de correspondência no Portal do TSE. Antes, o material era compartilhado em até três dias após o encerramento da totalização. Agora, os BUs e as tabelas ficarão acessíveis para o público ao longo de todo o período de recebimento dos dados pelo Tribunal.

●   Res. TSE nº 23.674/2021 (calendário eleitoral) – Alterada para se adequar à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 7021/DF, que assegurou a participação no pleito de 2022 das federações que obtiverem registro civil e deferimento do estatuto no TSE até 31 de maio.

●   Res. TSE nº 23.673/2021 (fiscalização e auditoria do sistema eletrônico de votação) – O parágrafo 1º do artigo 37 ganhou uma nova redação para aumentar a quantidade de urnas submetidas à auditoria dos sistemas eleitorais durante a cerimônia de preparação dos aparelhos. Em 2022, a verificação por amostragem será realizada em 3% a 6% das urnas preparadas para cada zona eleitoral, ao menos uma por município, escolhidas aleatoriamente pelos representantes das entidades fiscalizadoras.

●   Res. TSE nº 23.610 (Propaganda Eleitoral) – Incluiu o artigo 125-A, que tem como finalidade o desenvolvimento de ações propostas pelas corregedorias regionais eleitorais para mitigar os efeitos da poluição ambiental que decorrem da distribuição de propaganda durante o período eleitoral. Como tem caráter propositivo, a medida sugerida pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Mauro Campbell Marques, não poderá restringir o pleno exercício da propaganda eleitoral por partidos, federações e candidatas ou candidatos.

(*)Na semana passada, foi aprovada em Plenário a Resolução que determina a prorrogação das consequências previstas no art. 7º do Código Eleitoral para os eleitores que deixaram de votar nas Eleições 2020 e não apresentaram justificativas ou não pagaram a multa. Ainda nesse contexto, promoveremos a edição de uma norma de suspensão do cancelamento de títulos eleitorais em virtude do não comparecimento a revisões, a exemplo do que foi realizado em 2020, assegurando o exercício ao direito de voto, tão importante no momento de nossa história constitucional e eleitoral.

(*)É igualmente importante ressaltar que, na sessão administrativa de 29 de março, aprovamos a Resolução nº 23.693, que, alterando a Resolução nº23.673, ampliou o universo de urnas eletrônicas que serão objeto de fiscalização e auditoria no dia das eleições. Com isso, pretendemos privilegiar a transparência do processo eleitoral, permitindo que as entidades de fiscalização da sociedade civil chancelem a credibilidade do sistema eleitoral a partir de uma amostragem mais densa dos equipamentos a serem submetidos aos testes de integridade e autenticidade.

(*)Na prática, aumenta-se a quantidade de seções que serão submetidas ao Teste de Integridade das Urnas Eletrônicas, assim entendido como o evento de auditoria de verificação de funcionamento das urnas em condições normais de uso, previsto no § 6º do art. 66 da Lei nº 9.504/1997, o qual dispõe que “No dia da eleição, será realizada, por amostragem, auditoria de verificação do funcionamento das urnas eletrônicas, através de votação paralela, na presença dos fiscais dos partidos e coligações”.

(*)Quanto à aquisição de equipamentos de proteção individual (EPI), a exigência foi mantida. Para tanto, nos reuniremos com autoridades sanitárias para atualização do Plano de Segurança Sanitária, parâmetro do Plano Regional e do Protocolo de Segurança dos regionais para as datas de realização do pleito.

________________________

Ivanir Bortot é jornalista.